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  • Os sem abrigo — quão grave é o problema?
    Despertai! — 1988 | 8 de março
    • Os sem abrigo — quão grave é o problema?

      AO REDOR do mundo, milhões de pessoas vivem no que é comumente chamado de alojamento de qualidade inferior. De acordo com uma publicação da ONU, intitulada Building for the Homeless (Alojar os Sem Abrigo), nas nações em desenvolvimento, “até 50 por cento — em algumas cidades cerca de 80 por cento — da população urbana, mora em favelas e em aglomerados habitacionais degradados”, desprovidos de adequada água, luz elétrica, higiene, e esgotos sanitários. Como é a vida em tais lugares? Vários correspondentes de Despertai! fornecem os seguintes informes, de primeira mão.

      Bombaim, Índia — É intenso e abafado o calor de verão, na parte central de Bombaim. Debaixo de uma frondosa figueira-de-bengala, um homem, uma mulher e seu bebê dormem na calçada. Escassas roupas de cama, alguns utensílios de cozinha, e as cinzas de uma pequena fogueira indicam que reivindicam aquele lugar como seu lar provisório. Não existe outro lugar para eles. Pessoas que vão às compras e homens de negócios passam por ali, aparentemente indiferentes àquela família. Afinal de contas, existem dezenas de milhares de pessoas como eles na cidade. Num país em que se calcula que a escassez de moradias seja de 24,7 milhões de unidades habitacionais, é comum ver-se pessoas sem um lar.

      Ali perto, nos terrenos vazios e junto das rodovias e dos trilhos das ferrovias, surgiram tendas rudimentares. Sacos de aniagem usados, e velhos trapos são colocados uns sobre os outros e transformados em abrigos para incontáveis números de pessoas chamadas de “invasores ilegais”. Se tais abrigos não forem removidos pelas autoridades, logo surgirão barracões apertados, sem janelas, feitos de materiais recolhidos nas ruas. Os que moram neles têm de empenhar-se na busca diária de água. As linhas férreas e os depósitos de lixo tornam-se banheiros abertos. Quando comparadas com eles, as estruturas “permanentes” das favelas já formadas tornam-se quase que invejáveis, pois nelas pelo menos pode-se encontrar algumas bicas d’água e vasos sanitários.

      Johannesburg, África do Sul — Para o branco sul-africano, a moradia não é um grande problema, uma vez que se possa arcar com o custo cada vez maior. No entanto, de acordo com o anuário oficial do Governo, South Africa 1986, “a África do Sul está atualmente enfrentando uma grande escassez de alojamentos para os negros, especialmente nas áreas urbanas”. Havendo milhares de pessoas na lista de espera de moradias, às vezes três famílias precisam habitar numa mesma casa de quatro aposentos, ou uma família de três ou quatro pessoas mora em um único quarto. Quando um filho se casa, ele entra na lista de espera, aguardando que, dentro de dois ou três anos, algo se torne disponível. No ínterim, os recém-casados ou partilham o mesmo quarto com seus pais, ou constroem um barraco de zinco no quintal dos fundos — se tiverem um.

      Em certas localidades, os donos dos terrenos constroem tais barracos e pedem aluguéis exorbitantes. Os conselhos municipais permitem isso, porque não conseguem satisfazer a demanda de moradias. Isto cria favelas e gera o crime e as doenças. Notícias de rádio nos dão conta de que 136 bebês, de cada 1.000, morrem por terem nascido em tais condições anti-higiênicas — sem ter água corrente, com talvez apenas um vaso sanitário para quatro ou cinco famílias. Os filhos mais velhos também sofrem. Aprendem a roubar e a consumir tóxicos desde tenra idade. A bebedice é comum entre os jovens.

      Xangai, China — É um formidável desafio na cidade com o maior número de habitantes, na nação mais populosa do mundo, tentar encontrar um alojamento adequado para seus mais de 12 milhões de habitantes. Embora o Governo esteja fazendo o que pode para construir novas unidades residenciais, a maioria das pessoas ainda mora em casas pequenas, construídas na década de 30 ou de 40, que parecem casinhas de brinquedo. Elas acham-se apinhadas em grandes quarteirões da cidade, aos quais só se tem acesso através do que os xangaianos chamam de becos. Muitas destas casas não dispõem de água corrente, de cozinha interna, ou de banheiro, e não têm aquecimento, muito embora, no inverno, a temperatura talvez caia para abaixo de zero. Os prédios maiores, nas antigas zonas francesa e inglesa, são geralmente subdivididos, havendo uma família em cada cômodo, todos partilhando a cozinha e o banheiro coletivos. Muitas vezes, três gerações vivem juntas em tal aposento.

      Uma das mais altas prioridades das autoridades municipais é construir melhores moradias para o povo. No presente, calcula-se que cada pessoa só tenha direito a entre 4 e 5,4 metros quadrados de espaço útil. Isto está abaixo do alvo nacional de uns 6 metros quadrados por pessoa. As notícias são de que, em Xangai, em 1985, foram construídos 6.000 novos apartamentos, tendo-se gasto até US$ 135 milhões em construções, em 1986. Ainda assim, mais de cem mil pessoas acham-se na lista de espera para novas moradias, e não existem meios de se dizer quantos outros procuram um lugar que possam chamar de seu.

      São Paulo, Brasil — Nesta cidade, estão surgindo favelas por toda a parte. Em desespero total, os sem abrigo invadem propriedades privadas e lotes vazios, e montam precários barracões de zinco e meias-águas, às vezes bem ao lado de majestosas mansões e modernos prédios de apartamentos. Muitas casas de famílias tradicionais foram convertidas em improvisadas casas de cômodos, não raro só havendo um banheiro para mais de 50 pessoas.

      As coisas mudaram para pior em abril passado, quando a Polícia Militar foi chamada para expulsar invasores ilegais em um bairro da periferia de São Paulo. Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, pessoas idosas sofreram espancamento, mulheres foram arrastadas pelos cabelos, e crianças foram jogadas ao chão. Muitos sofreram problemas respiratórios devido às bombas de gás lacrimogêneo lançadas dentro de seus barracos.

      Para quem nunca passou pela miséria, pela privação e pelo desespero que é viver nas favelas, nas invasões e nos bairros pobres da periferia (ou seja lá como se prefira chamá-los) seria muito difícil imaginar tais condições. Todavia, para centenas de milhões de pessoas, estas são as duras realidades da sua existência cotidiana.

  • Os sem abrigo — um problema mundial
    Despertai! — 1988 | 8 de março
    • Os sem abrigo — um problema mundial

      O PROBLEMA da escassez de alojamento e dos sem abrigo, contudo, não conhece fronteiras; não se restringe, de forma alguma, às nações pobres, em desenvolvimento. As grandes capitais e metrópoles do mundo desenvolvido, quase sem exceção, também possuem seus bairros degradados e suas favelas. Junto aos fulgurantes arranha-céus e modernos prédios altos, existem guetos e os bairros em decadência. Como é a vida em tais lugares?

      Comentando um estudo feito em Chicago, a revista Science informa que os sem abrigo ali “caracterizam-se pela extrema pobreza e isolamento, e por altas taxas de disfunção. Quatro de cada cinco pessoas já foram internadas em cadeias, hospitais psiquiátricos, ou em clínicas de tratamento de toxicômanos”.

      A maioria das cidades dos EUA dispõe de algumas instituições públicas para os sem abrigo. Nova Iorque, por exemplo, coloca as pessoas solteiras sem abrigo em albergues públicos e as famílias em hotéis da previdência social. Esperava-se que, quando chegasse o inverno, 12.200 pessoas solteiras, e 20.500 membros de famílias, procurassem ajuda, e as autoridades tinham esperança de que, de algum modo, houvesse bastante espaço disponível para alojá-los.

      A vida em tais lugares é algo totalmente diferente. Os albergues noturnos em Nova Iorque são, em geral, ginásios ou depósitos convertidos para esse fim. Centenas de pessoas dormem em fileiras de camas, em um amplo espaço aberto. Algumas pessoas das ruas se recusam a ir para tais albergues. “Os albergues são inseguros, e, muitas vezes, estão cheios de percevejos ou de piolhos”, disse um infeliz. “A gente dorme ali de olhos abertos.” A vida é especialmente dura para as crianças. “Nos albergues parecidos a alojamentos militares e nos hotéis apinhados, para os quais a municipalidade acaba enviando-as, as crianças ficam expostas a uma série brutal de problemas — doenças, disfunções, tóxicos, delinqüência e desespero”, noticia o jornal Daily News, de Nova Iorque. “Tais crianças correm o perigo de se tornarem uma geração perdida.”

      Devido à natureza transitória das pessoas sem abrigo, é muitas vezes difícil chegar a estatísticas exatas. A “Coalizão Nacional a Favor dos Sem Abrigo” (dos EUA) sustenta que o total dos sem abrigo nos Estados Unidos situa-se em torno de dois a três milhões. O Departamento de Habitação e de Desenvolvimento Urbano dos EUA, por outro lado, informa que “no melhor dos cálculos, à base de todos os dados disponíveis, a dimensão mais confiável é de 250.000 a 350.000 pessoas sem abrigo”. Seja qual for o número real dos desabrigados, contudo, todos concordam que ele está aumentando.

      “Um Flagelo dos Nossos Tempos”

      Os países da Comunidade Européia também confrontam graves problemas habitacionais. O jornal The Times, de Londres, informa que, no Reino Unido, “o número de pessoas que moram em alojamentos de pernoite e café da manhã aumentou de 49.000 para 160.000 entre 1979-84, há 1.250.000 pessoas nas listas de espera dos conselhos municipais, e um milhão de casas oficialmente classificadas como inadequadas para habitação humana”.

      Do outro lado do Canal da Mancha, “em Paris, grupos privados afirmam que pelo menos 10.000 pessoas vivem nas ruas”, segundo um artigo do jornal The New York Times, intitulado “Os Sem Abrigo da Europa: Um Flagelo dos Nossos Tempos”. O Governo italiano calcula que 20 por cento dos recém-casados “não têm alternativa alguma, senão de morar com os parentes, mesmo depois do nascimento de seu primeiro filho”. Entre os calculadamente 20.000 dinamarqueses sem abrigo, “o total dos que têm menos de 30 anos aumentou dramaticamente desde 1980”.

      Ironicamente, tudo isto está acontecendo, segundo Peter Sutherland, Comissário de Assuntos Sociais da Comissão das Comunidades Européias, justamente quando tais nações “tinham começado a acreditar que [elas] estavam prestes a abolir para sempre os flagelos da pobreza e do desabrigo”.

      Tendência Alarmante

      Nos anos recentes, contudo, as autoridades que tratam dos sem abrigo observam uma nova tendência. O jornal The New York Times citou um membro da “Coalizão a Favor dos Sem Abrigo”, de Chicago, como tendo dito: “Estamos observando a tendência de as necessidades mudarem drasticamente, passando de apenas ‘os pobres’ para os ‘da classe média subitamente transformados em pobres’. Eles perdem o emprego, seus cartões de crédito e sua hipoteca. Não se trata mais, definitivamente, dum bêbedo estereotipado, caído num beco, de tanto beber vinho barato.”

      Similarmente, o diretor duma agência de serviços sociais em Connecticut comentou: “Infelizmente, existe um conceito errado sobre quem são as pessoas sem abrigo. Não é a pessoa que vive com uma mochila nas costas, indo de uma cidade para outra. Trata-se realmente de famílias que não conseguem mais pagar o aluguel, devido aos elevadíssimos preços, à falta de emprego, ao divórcio.” Segundo uma notícia divulgada pela Conferência de Prefeitos dos EUA, em maio último, uma pesquisa realizada em 29 grandes cidades revelava que mais de um terço dos sem abrigo era constituído por famílias com filhos menores, e que isso representava um aumento de 31 por cento em comparação com o ano anterior.

      Perguntas Que Nos Deixam Perplexos

      Embora a gravidade da escassez de moradias e do problema dos sem abrigo varie de um país para outro, e de lugar em lugar, é seguro afirmar que existem poucas pessoas, hoje em dia, totalmente desapercebidas desse problema, ou completamente imunes a ele. E, o que nos deixa mais perplexos é que, apesar dos esforços e dos fundos gastos pelos governos, não existe sinal algum de que o problema esteja diminuindo. Por que isto acontece? De onde vêm todos os sem abrigo? E, acima de tudo, que esperança existe para solucionar o problema habitacional?

  • Os sem abrigo — quais são as causas?
    Despertai! — 1988 | 8 de março
    • Os sem abrigo — quais são as causas?

      ERA uma noite fria de inverno. Louise e sua família foram bruscamente despertadas por diversos gritos lancinantes. No apartamento vizinho, tinha irrompido um incêndio. As fortíssimas rajadas de vento hibernal tinham atiçado as chamas e as propagado por todo o prédio de seis andares. No meio do pânico e da confusão de tentar sair do seu apartamento do quinto andar, a mãe de Louise caiu da escada de incêndio, vindo a falecer. Momentos depois, as chamas tomaram conta do prédio, e todos os apartamentos foram destruídos.

      A perda da mãe e de sua casa, da noite para o dia, foi um golpe devastador para Louise. Felizmente, ela possuía alguns parentes e amigos que a receberam em sua casa até ela colocar as coisas em ordem. Isto é o que os sociólogos chamam de rede comunitária de apoio, que por gerações a fio têm servido como uma rede de segurança em tempos de emergência.

      Então, por que toda grande cidade tem seus indigentes e seus alojamentos noturnos para os sem abrigo? Por que todas as favelas, cortiços e bairros degradados? E, deveras, por que existe o problema de alojamento ruim e das pessoas sem abrigo?

      Quando a Rede de Segurança se Rompe

      Sob circunstâncias normais, a rede de parentes e de amigos funciona bastante bem para fornecer a ajuda necessária em qualquer crise pessoal. No entanto, a rede é frágil. Que fazer se a necessidade é tão grande, ou tão onerosa, que ela é maior do que a rede pode abranger? Ou que fazer se algum distúrbio social em ampla escala romper a própria rede? Quando a rede de segurança se rompe, as pessoas ficam em maus lençóis.

      Isto é o que está acontecendo em muitos países em desenvolvimento. Na Índia, para exemplificar, as chuvas das monções anuais se provaram insuficientes nos últimos anos. Já no verão de 1987, um de cada três indianos não dispunha de água suficiente nem para beber. A escassez de água também significava que as plantações não cresciam, e o gado bovino não podia sobreviver. Sem safras, os camponeses não tinham trabalho e nenhum meio de sustentar a família. A única escolha que lhes restava era abandonar os povoados e dirigir-se para as cidades, onde talvez ainda pudessem encontrar trabalho.

      O efeito desta migração torna-se uma verdadeira carga para as cidades, já afligidas pelo rápido crescimento populacional. Sem dinheiro e sem emprego, estes migrantes, ao chegar, não podem pagar sequer um pequeno cômodo numa favela. E, visto se terem mudado para um ambiente totalmente novo, poucos deles têm alguém para quem apelar. Assim, só lhes resta engrossar o número dos incontáveis outros indigentes das ruas, e a crise habitacional se intensifica.

      Outras nações em desenvolvimento vêem-se confrontadas com problemas idênticos. “Em 1950, havia apenas uma cidade na África com mais de um milhão de pessoas: o Cairo”, diz o livro Africa in Crisis (África em Crise). “Em 1980, havia 19 cidades com mais de um milhão de habitantes. No ano 2000, espera-se que haja mais de 60 de tais cidades.” A população rural dirige-se para as cidades na esperança de achar um meio de vida melhor. Mas o resultado tem sido favelas e degradação, muitas vezes pior do que aquilo que tais pessoas deixaram para trás.

      Custo Crescente e Redução da Oferta

      Nas nações mais afluentes ou desenvolvidas, as causas do desabrigo talvez sejam bem diferentes. Os defensores dos sem abrigo geralmente apontam as condições econômicas como um fator básico. No Canadá, por exemplo, “ao passo que crescentes custos de construção, nas duas últimas décadas, elevaram tremendamente o custo das novas moradias”, informa o semanário noticioso canadense Maclean’s, “a chegada das famílias de renda dupla [marido e mulher trabalham fora] ao mercado habitacional, nos anos recentes, impulsionou os preços ainda mais para o alto — em até 50 por cento apenas no ano passado, em algumas localidades urbanas”.

      O que contribui para o custo habitacional crescente, em muitas cidades, é o processo chamado de “elitização”. Cada vez mais, os prédios mais antigos, de baixo custo, na zona central da cidade estão sendo reformados ou convertidos em unidades de alto custo, com todos os confortos modernos que satisfazem os novos ricos ou aos jovens profissionais que preferem morar no centro, em vez de nos bairros afastados. Isto não só eleva o custo, mas também reduz grandemente a oferta de moradias de preço acessível às famílias de baixa renda, ou até de renda média.

      Em Nova Iorque, por exemplo, recente estudo comprovou que uma família teria de ganhar US$ 58.000 por ano para poder dar-se ao luxo de morar num apartamento de um só dormitório, de preço médio. Uma pesquisa nacional mostra que Manhattan também ocupa o primeiro lugar, entre as cidades daquela nação, quanto aos aluguéis altos. O aluguel de um apartamento de dois dormitórios, de 130 metros quadrados, numa área boa, é, em média, de US$ 2.555 por mês, e uma família teria de ganhar US$ 73.000 por ano para poder pagá-lo, presumindo-se que estejam dispostos a gastar mais de 40 por cento de sua renda apenas com moradia.

      O custo habitacional em outras cidades pode ser menor, mas também o salário médio dos trabalhadores é menor. Quando a moradia consome tão grande fatia da renda familiar, qualquer reviravolta financeira desfavorável poderia facilmente resultar em desastre. Isto aconteceu com John, que, há alguns anos, mudou-se com a família de cinco pessoas de Chicago, no estado de Illinois, para Houston, no Texas, em busca de emprego. Por algum tempo, ele sustentou a família com as comissões recebidas como vendedor de um veículo recreativo. Daí, por causa da economia em recessão, não efetuou nenhuma venda durante dois meses. Não podendo pagar o aluguel de US$ 595 do apartamento, ele e sua família foram despejados. Sem ter ninguém a quem recorrer, foram para um albergue de pessoas sem abrigo. Embora tivesse a garantia dum teto sobre a cabeça, John ficou imaginando se conseguiria estabilizar-se de novo, visto que poucos patrões se dispõem a empregar alguém sem endereço certo.

      Ao passo que a maioria das pessoas nas grandes cidades talvez não esteja desabrigada, suas casas deixam muito a desejar. Uma pesquisa revela que, mesmo numa cidade tão moderna como Nova Iorque, 10 por cento do estoque de moradias podem ser chamados de “habitações bem antigas”, moradias consideradas inadequadas, mesmo na virada do século, devido a ventilação, iluminação e condições sanitárias inadequadas. Outros 30 por cento são “habitações mais recentes”, um tanto melhoradas mas já ultrapassadas mesmo segundo os padrões de 1929. Todo o ano, até 30.000 pessoas são obrigadas a deixar suas casas quando os prédios decadentes são finalmente condenados e abandonados.

      Fator Psiquiátrico

      Para complicar as coisas, muitos peritos acreditam que os fatores econômicos talvez sejam apenas um aspecto do problema dos sem abrigo. Argumentam que uma alta porcentagem das pessoas sem abrigo se tornam tal por serem mentalmente enfermas e não mais poderem cuidar de si.

      Desde os meados da década de 60, muitos hospitais psiquiátricos estaduais, no esforço de reduzir os custos, adotaram o que é chamado de enfoque comunitário da saúde mental. Os pacientes psiquiátricos são tratados com certas novas drogas psicoativas e então vão para casa. A teoria era de que, com os sintomas mais graves sob controle, por meio dessas drogas medicamentosas, os pacientes se reabilitariam por viver na comunidade, e por contarem com o apoio desta. Como resultado, no Canadá por exemplo, a capacidade total dos hospitais psiquiátricos diminuiu, de 47.600 leitos, em 1960, para menos de 10.000 leitos, atualmente, e a população corrente nos hospitais psiquiátricos, nos Estados Unidos, é de menos de um quarto do auge de 1955, de 559.000 pessoas.

      “Mas a liberação de doentes mentais tem sido, em grande parte, minada pelo fracasso das províncias em estabelecer adequados serviços comunitários, ou provisões de moradia para os antigos pacientes psiquiátricos”, noticia a revista Maclean’s. Muitos deles são obrigados a viver em pensões e casas de cômodos decadentes. Outros, não podendo assumir o controle de sua própria vida, terminam nos albergues ou nas ruas. As autoridades do serviço de bem-estar social, em muitas cidades canadenses, calculam que cerca de um terço dos sem abrigo padecem de alguma forma de distúrbio psiquiátrico. Um estudo dirigido por Ellen Bassuk, da Faculdade de Medicina de Harvard, verificou haver “uma incidência de 90 por cento de doenças mentais diagnosticáveis” entre os residentes de um típico albergue para os sem abrigo em Boston.

      Não é muito melhor a situação das famílias sem abrigo, colocadas em hotéis da previdência social e similares. Embora não muitas delas padeçam de doenças mentais, já de início, a superlotação e as condições insalubres, além do tédio e a desesperança, muitas vezes conduzem à violência familiar e aos distúrbios emocionais, especialmente no caso de crianças.

      Tragédia em Busca de Solução

      Embora os peritos não consigam concordar se a condição dos sem abrigo se deva à depressão econômica, ao alto custo da moradia, a problemas psiquiátricos, ou a algum outro fator, diversos aspectos do problema ainda continuam a ser alarmantes. Primeiro de tudo, não se pode negar que o problema habitacional está-se intensificando em todo o mundo. Em segundo lugar, cada vez mais, os que ficam sem abrigo não são apenas indivíduos, mas famílias inteiras. E, por fim, a população dos sem abrigo é mais jovem. Estes fatos trágicos clamam por soluções. O que está sendo feito para solucionar o problema? Quão eficaz isso é? E haverá, algum dia, suficientes moradias para todos?

      [Foto na página 9]

      Abrigos improvisados à sombra duma mansão luxuosa.

      [Crédito]

      Mark Edwards/UNCHS

  • Os sem abrigo — pode-se ter alguma esperança?
    Despertai! — 1988 | 8 de março
    • Os sem abrigo — pode-se ter alguma esperança?

      “O ALOJAMENTO é uma necessidade humana, tendo a mesma prioridade que o alimento e a água, e um lar é uma condição essencial da vida civilizada. Uma vez se atestem tais verdades, o desabrigo será reconhecido pelo que realmente é: uma afronta à dignidade humana, e a negação de um direito humano básico.” — Lorde Scarman, presidente do Conselho do Reino Unido Para o Ano Internacional do Alojamento Para os Sem Abrigo.

      Discursos como este mostram claramente que as autoridades e os governos estão bem cônscios da necessidade de mais e melhor habitação, e fazem-se esforços para satisfazer tal necessidade. A questão, no entanto, é: Quão eficazes são tais esforços? Vamos considerar alguns exemplos.

      Exame dos Esforços Atuais

      Para satisfazer às necessidades da crescente população de Bombaim, noticia o jornal The Times of India, diariamente são necessárias 125 novas unidades habitacionais. Ao passo que este talvez não pareça ser um total elevado, equivale a mais de 45.000 unidades por ano, e isso apenas para abranger o crescimento populacional. Que dizer dos mais de 800.000 barracões insalubres, de baixo padrão, das favelas da cidade? Para substituí-los em questão de 20 anos, outras 110 unidades teriam de ser erguidas diariamente. Isso leva o total a mais de 85.000 unidades por ano. Para construí-las, “nossa taxa de produção precisa quadruplicar”, diz a notícia. Similarmente, entre 1961 e 1981, Nova Délhi, capital da Índia, alcançou menos de um décimo de seu alvo de construir 450.000 unidades habitacionais.

      Na África, os governos se vêem altamente pressionados pela crise habitacional, devido ao influxo da população rural para as cidades. Em alguns países, “os moradores da cidade desempregados foram simplesmente deportados para o interior”, noticia o jornal The Star, de Johannesburg, África do Sul. Em outros, só se permite que aqueles que têm residência fixa na cidade trabalhem ali. Apesar do clamor internacional de que isso é discriminação, em especial onde estão envolvidos fatores raciais, será que tais medidas de pulso forte têm obtido êxito? “O problema de prover empregos e moradias para os refugiados rurais é um problema que ameaça fugir do controle em grande parte da África — e, deveras, em todo o Terceiro Mundo”, diz a notícia. “Tem-se predito que as principais cidades africanas enfrentarão o colapso de seus sistemas social e educacional, e seus serviços públicos de água, de energia e de esgotos.”

      Na Grã-Bretanha, o alojamento para os pobres e as reformas ou substituição de moradias em ruína são dois grandes problemas que clamam por urgente atenção. “Todavia, ao mesmo tempo em que se nos diz que, como nação, ‘não temos meios’ de gastar nenhum dinheiro a mais no combate a tais horríveis problemas, não há qualquer espécie de restrição ao subsídio que damos às pessoas que estão comprando suas casas”, diz o jornal Catholic Herald. Devido ao corte nos fundos alocados às moradias de baixo custo, a construção delas caiu para menos de um quinto do nível de dez anos atrás. Para agravar ainda mais a situação, “temos também maciça conta de reformas, tanto das moradias públicas como das particulares, que se calcula em 50 milhões de libras esterlinas”, diz a notícia. Não está claro como o Governo tenciona lidar com tais despesas.

      “O problema dos sem abrigo nos Estados Unidos da América é mais do que um problema de alojar os desesperados e os desvalidos”, afirma um editorial do jornal New York Post. À guisa de exemplo, a cidade de Nova Iorque gasta em média US$ 1.800 por mês para manter uma família desabrigada num hotel da previdência social, e a conta anual deste serviço atinge US$ 125 milhões. Ademais, ela gasta US$ 250 milhões por ano na operação de 28 alojamentos públicos. Ainda assim, continua a aumentar o número de pessoas sem abrigo na cidade. Por quê? “Ninguém sabe qual é o melhor meio de alcançar os sem abrigo”, conclui um artigo especial sobre os sem abrigo na revista U.S.News & World Report. “Melhores moradias, mais empregos, e mais fácil acesso aos cupons de alimentos não irão ajudar aqueles que sofrem de distúrbios mentais, ou que são viciados em tóxicos ou em bebidas alcoólicas.”

      Tratam-se os Sintomas

      Torna-se claro que a solução dos problemas habitacionais da atualidade, e a satisfação das futuras necessidades habitacionais provam-se uma tarefa grande demais para os governos ao redor do mundo. Por quê? Porque o problema da escassez de moradias e do desabrigo não é uma questão isolada. Acha-se profundamente interligado a outros problemas igualmente maciços, tais como a explosão populacional, a pobreza, o desemprego, e a inflação. Sem se combater com êxito estes outros problemas, é improvável que haja muita esperança quanto à habitação. Mas, existe alguma nação na Terra, hoje em dia, que está livre de quaisquer destes problemas mencionados? Com efeito, existe algum governo que esteja obtendo genuíno êxito em lidar com estes problemas? Não, não existe.

      À luz de tudo isto, os esforços feitos para equacionar os problemas dos sem abrigo podem ser comparados às tentativas de consertar rachaduras e goteiras numa casa que se desmorona. Embora as intenções sejam louváveis, o efeito não é mais do que um tratamento apenas dos sintomas. O que se precisa é derrubar a estrutura apodrecida e construir-se uma casa nova, desde os alicerces.

      Este conceito certamente não é novo. Foi ensinado há 19 séculos, e era tão avançado para a sua época que os líderes tradicionalistas daqueles dias acharam difícil aceitá-lo.

      “Ninguém põe um remendo de pano novo numa roupa velha, porque tiraria a consistência da roupa e o rasgão ficaria pior”, disse Jesus Cristo. (Mateus 9:16, Bíblia Vozes) O que ele tinha em mente?

      A Solução Permanente

      Em vez de tratar os sintomas, Jesus lidou com a causa básica. Ele ensinou seus discípulos a se voltar para o Reino de Deus em busca da solução permanente, não só para os problemas habitacionais, mas também para todos os males que afligem hoje a humanidade. “Venha o teu reino. Realize-se a tua vontade, como no céu, assim também na terra”, instou com eles para pedirem em oração. (Mateus 6:10) Esse Reino, que executará na Terra o propósito de Deus, não irá apenas emendar o atual sistema de coisas, desgastado e alquebrado. Ele o substituirá.

      O que tudo isso significará para você? Ouça o que o antigo profeta hebreu, Isaías, foi inspirado a dizer: “Os homens construirão casas e as habitarão, plantarão videiras e comerão os seus frutos. Já não construirão para que outro habite a sua casa, não plantarão para que outro coma o fruto, pois a duração da vida do meu povo será como os dias de uma árvore, os meus eleitos consumirão eles mesmos o fruto do trabalho das suas mãos.” — Isaías 65:21, 22, A Bíblia de Jerusalém.

      Observou que a ênfase dada aqui não é apenas à construção de mais casas? Ao invés, é dada à eqüidade, à igualdade e à justiça. Não anseia viver sob tal governo? Não só poderá ter a sua própria casa, que é mais do que a maioria das pessoas, hoje em dia, esperaria ter algum dia, mas também viverá num ambiente pacífico, com abundância de alimento, de ar e de água puros, e com bons vizinhos. Tudo isso, e muito mais, são as coisas que a justa administração do Reino de Deus realizará.

      Em obediência à ordem de Jesus, as Testemunhas de Jeová, atualmente, falam às pessoas, em toda a parte, sobre “estas boas novas do reino”. (Mateus 24:14) Através das páginas desta revista, e de sua associada, A Sentinela, bem como por visitas pessoais, elas se empenham em trazer-lhe à atenção as maravilhosas perspectivas logo à frente. Instamo-lo a tomar tempo para verificar como você pode situar-se entre aqueles que viverão sob aquele governo justo que restaurará a Terra inteira para ser o eterno lar paradísico da humanidade.

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