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Podemos confiar na profecia bíblica?Despertai! — 1977 | 22 de outubro
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Podemos confiar na profecia bíblica?
VOLTEMOS a atenção, no tempo, para o primeiro século da nossa Era Comum, quando Nero ainda era imperador do Império Romano. O ano é 66 E. C. O local é Jerusalém.
Os registros históricos fornecem-nos informações razoavelmente fidedignas quanto ao que realmente aconteceu ali, naquele tempo. Na verdade, não temos muitos pormenores a respeito de nenhuma família específica que morava em Jerusalém. Todavia, pelas informações disponíveis, podemos concluir com certo grau de certeza qual era a atitude de algumas pessoas.
A seguinte história se baseia em eventos que cumpriram uma profecia de Jesus Cristo. Conforme observa nas notas marginais, seus fatos básicos são tirados da Bíblia e de outros registros históricos. A família de Pasur e Abigail é imaginária, mas a forma como reagiram diante da crise que então prevalecia pode bem ter sido típica de várias famílias que então viviam.
IMPORTANTE PROFECIA
As ruas movimentadas de Jerusalém estão apinhadas de multidões. Sacerdotes ricamente vestidos abrem caminho no meio de trabalhadores comuns, com roupas simples. Os opulentos, satisfeitos consigo mesmos, estão passando, sob os cuidados dos serviçais. Vozes altas, pechinchando mercadorias nas numerosas lojas, fornecem evidência de prosperidade geral. No meio da multidão, vemos Pasur, mercador de tecidos. É um converso do judaísmo ao cristianismo. Um discípulo, que conhecera pessoalmente a Jesus Cristo, estudou com ele as Escrituras, o que o levou tornar-se cristão.
Pasur ainda era muito jovem quando Jesus morreu, uns trinta e três anos antes. Tudo que ele lembrava era mormente que Jesus era muito comentado, sendo um personagem muito controversial. Somente depois de examinar a evidência bíblica é que Pasur ficou convicto de que Jesus era o Messias prometido. Como morador de Jerusalém, a profecia de Jesus, sobre a destruição dessa cidade, captara o interesse de Pasur. Citando as cópias dos rolos bíblicos escritos por Mateus e Lucas como confirmação, o discípulo que estudara com Pasur tinha explicado:
“Certo dia, quatro dos apóstolos se dirigiram à Jesus no Monte das Oliveiras. Queriam saber o sinal que lhes mostraria quando viria a destruição de Jerusalém. No entanto, também estavam curiosos a respeito da presença de Cristo e da terminação do sistema de coisas. A resposta de Jesus a pergunta deles envolvia mais do que a desolação de Jerusalém e o fim do sistema judaico de coisas; ele falou sobre a terminação do inteiro sistema mundial.”a
Nisso, o discípulo citou as seguintes palavras de Jesus, conforme registradas pelo discípulo cristão, Lucas:
“Quando virdes Jerusalém cercada por exércitos acampados, então sabei que se tem aproximado a desolação dela. Então, comecem a fugir para os montes os que estiverem na Judéia, e retirem-se os que estiverem no meio dela, e não entrem nela os que estiverem nos campos; porque esses são dias para se executar a justiça, para que se cumpram todas as coisas escritas. Ai das mulheres grávidas e das que amamentarem naqueles dias! Porque haverá grande necessidade na terra e furor sobre este povo; e cairão pelo fio da espada e serão levados cativos para todas as nações; e Jerusalém será pisada pelas nações.”b
Destino Merecido
No que diz respeito a Pasur, Jerusalém merece tal destino. Testemunhas oculares lhe contaram como o povo clamava pedindo a execução de Jesus, afirmando: “Fora com ele! Fora com ele! Para a estaca com ele!” E, quando o governador romano perguntou: “Hei de pendurar na estaca o vosso rei?”, foram os principais sacerdotes mesmos que responderam: “Não temos rei senão César.”c Esta ação assassina dos líderes religiosos havia desagradado a Pasur!
Muitos dos seguidores de Jesus tinham sido tratados de forma similar. Mais de vinte anos após a morte de Jesus, o apóstolo Paulo sofreu um motim em Jerusalém.d E, em data recente, Tiago, irmão uterino de Jesus, e outros cristãos fiéis, tinham sido apedrejados até à morte em Jerusalém.e Enquanto Pasur se dirige para casa, passando pelas ruas movimentadas. ele reflete. “A cidade certamente vive de acordo com sua reputação!” As palavras de Jesus surgem de novo em sua mente: “Jerusalém, Jerusalém, matadora dos profetas e apedrejadora dos que lhe são enviados.”f
Não resta dúvida na mente de Pasur: Jerusalém merece realmente aquilo que Jesus predissera para ela. “Virão sobre ti os dias”, disse Jesus, “em que os teus inimigos construirão em volta de ti uma fortificação de estacas pontiagudas e te cercarão, e te afligirão de todos os lados, e despedaçarão contra o chão a ti e a teus filhos dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não discerniste o tempo de seres inspecionada.”g
“Mas, quando?” Essa pergunta preocupa Pasur, especialmente agora que irrompeu em Jerusalém a revolta contra a ocupação romana.
Adiando Sua Vinda
Ele e sua família esperam que a destruição não venha logo. Depois de anos de trabalho árduo, seu comércio de tecidos começa a apresentar bons lucros. Agora que seus filhos já estão mais crescidos, Abigail, sua esposa, trabalha todo o tempo nesse comércio. Ademais, seus filhos ficaram tão envolvidos no atletismo e na música que até pensam em seguir carreiras nestas atividades.
“Ah”, diz Pasur para si mesmo ao aproximar-se de sua casa, “não importa quanto Jerusalém o mereça, não posso ver como ela será destruída agora”.
Ele pausa nos degraus da porta de entrada e olha em direção ao templo. Foi apenas recentemente que os exércitos romanos quase que o tomaram. Vieram para abafar a revolta. Mas, daí, Céstio Galo, seu líder, ordenou a retirada de seus homens.
“Quem sabe a razão disso?”, pondera Pasur. “Bem, isso não importa agora. Sei apenas que milhares dos romanos que se retiravam foram mortos.h Que vitória para Jerusalém — e como conseguimos escapar por um fio!”
Pasur, consolado com tal idéia, suspira aliviado e entra na casa. Alguns de seus associados na congregação cristã já estão ali. Ele os saúda calorosamente, curioso de saber por que vieram.
“Temos de partir imediatamente de Jerusalém!” afirma o ancião do grupo.
“Por quê? Não é provável que Roma envie outro exército tão cedo, depois da derrota do último”, replica Pasur, com certo grau de convicção em sua vez.
“Jesus disse que, quando víssemos Jerusalém cercada de exércitos acampados, devíamos fugir para os montes. Bem, nós já vimos. Agora que os exércitos se foram, podemos fugir.”
“Acho que já terminou a ameaça da parte de Roma.”
“Mas Pasur, você despercebeu o sentido do que aconteceu. Os exércitos romanos foram manobrados por Jeová, de modo que os cristãos possam fugir de Jerusalém antes de a cidade ser destruída. Lembre-se das instruções de Jesus: ‘Quando virdes Jerusalém cercada por exércitos acampados, então sabei que se tem aproximado a desolação dela. Então, comecem a fugir para os montes os que estiverem na Judéia.’”i
“Jesus não queria dizer agora mesmo”, responde Pasur. “Essa hora virá mais tarde. E, quando vier, eu e minha família deixaremos Jerusalém.”
Não havia dose de persuasão que conseguisse convencer Pasur a pegar sua família e partir junto com os outros cristãos para a região ao redor de Pela, nas montanhas de Gileade.j Numerosas visitas de seus irmãos cristãos não fazem que ele ou sua família vejam a necessidade de partir de Jerusalém, num período em que as coisas estão indo tão bem para eles, em sentido material. Ademais, têm confiança no exército de Jerusalém.
Quando Pasur diz adeus ao último dos cristãos que parte de Jerusalém, ele acha que eles voltarão logo que a situação se acalme, e será magnânimo a respeito quando eles o fizerem; ele não os censurará.
Nos anos 67, 68 e 69, a situação não se estabiliza em Jerusalém. Ela se deteriora. Por fim, as facções judaicas em luta impedem a fuga da cidade. Pior de tudo, Pasur e sua família carecem da associação espiritual de seus amigos cristãos que fugiram para além do rio Jordão, para as montanhas de Gileade.
Cumprida a Profecia
A primavera setentrional de 70 E. C. traz uma fonte inteiramente nova de terror. Os exércitos romanos retornam sob o comando de Tito, filho do próprio novo imperador, e eles cercam Jerusalém. Por quilômetros ao redor, eles abatem as árvores, erguendo estacas pontiagudas e construindo sólida paliçada ao redor da cidade. A fuga se torna então impossível!k
Passam-se, um a um, os dias repletos de medo, sob o cerco. Esgotam-se os alimentos do estoque de Pasur. A fome implacável assola sua família. Do lado de fora, soldados incontidos saqueiam os alimentos que conseguem encontrar. De modo a não aumentar as preocupações já constantes de Pasur, Abigail não menciona sua fome, mas nem ela nem seu marido conseguem ocultar um do outro a sua angústia.
Certo dia, à medida que a fome se agrava ainda mais, uma comoção incomum faz com que Pasur vá investigar o assunto. Quando ele volta, Abigail discerne rapidamente que ele vira algo horripilante. “Maria, a filha de Eleazar de Betezube comeu seu próprio bebê”, explica ele.l “Está acontecendo de novo o mesmo que nos dias de Jeremias. Nós, também, pereceremos, Abigail.”a
Jerusalém não sofre por muito tempo. Já no verão setentrional de 70 E. C., os romanos finalmente capturam-na e destroem-na. Durante o inteiro sítio, mais de um milhão de judeus são mortos; cerca de 97.000 são levados cativos.b Entre os mortos, acham-se Pasur e sua família. Conheciam a profecia e as instruções de Jesus, que ele fornecera para a salvação das pessoas. Mas, por se recusarem a agir em harmonia com tal conhecimento, pagaram o preço da desobediência.c
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Lição para a atualidadeDespertai! — 1977 | 22 de outubro
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Lição para a atualidade
Sim, cumpriu-se esta profecia bíblica. O mesmo se dará com tudo que se acha predito ou prometido na Palavra de Deus. Conforme disse Josué, o líder antigo da nação de Israel, de Deus: “Vós bem sabeis, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma, que não falhou nem uma única de todas as boas palavras que Jeová, vosso Deus, vos falou. Todas elas se cumpriram para convosco. Nem uma única palavra delas falhou.” — Jos. 23:14.
Naturalmente, conforme observado no início de nossa história, a Bíblia não fala sobre as pessoas, de per si, que viviam pouco antes ou durante a destruição de Jerusalém em 70 E. C. Não conta nem mesmo a destruição de Jerusalém; a história secular o faz. No entanto, é provável que houvesse famílias semelhantes à que acabamos de descrever, que deixaram de agir em harmonia com o conhecimento, e de fugir para os montes, em obediência às instruções de Jesus.
Mas, que interesse apresenta tudo isso para nós, que vivemos na atualidade? Não confrontamos uma situação similar, ou será que confrontamos?
A realidade é que confrontamos! A profecia de Jesus identificava mais do que o simples fim do sistema judaico de coisas, lá em 70 E. C. Essa profecia também identificava o tempo da “presença” de Cristo no poder do Reino, o tempo em que estaria próximo o fim deste inteiro sistema mundial de coisas. Uma razão de sabermos disso é que Jesus afirmou: “Quando virdes estas coisas ocorrer, sabei que está próximo o reino de Deus.” — Luc. 21:31.
Bem, o que Jesus predisse marcaria o tempo do fim deste inteiro sistema, e quando estaria próximo o reino de Deus? Entre outras coisas que estariam ocorrendo, disse Jesus: “Nação se levantará contra nação e reino contra reino; e haverá grandes terremotos, e, num lugar após outro, pestilências e escassez de víveres.” — Luc. 21:10, 11.
A realidade é que estes são eventos que temos visto realmente acontecer na atualidade! Neste século, desde 1914, a humanidade se lançou em duas catastróficas guerras mundiais, e, atualmente, as nações acham-se à beira da ainda mais devastadora guerra nuclear. Também, terremotos, pestilências e escassez de víveres são mais comuns do que em qualquer outra época da história.
Assim, quando comparamos a profecia completa de Jesus com os eventos da atualidade, torna-se claro que esta profecia goza de notável cumprimento agora mesmo. O que significa isso?
Significa que o fim de todo este sistema está próximo, assim como o cerco de Jerusalém pelos exércitos romanos, sob Céstio Galo, era um sinal de que o fim de Jerusalém estava próximo. E, assim como era preciso uma ação especial para a preservação naquele tempo — fugir seguramente para os montes — assim também é mister agir-se de forma apropriada hoje em dia, a fim de ser salvo duma destruição global prestes a ocorrer, à medida que Deus executa o julgamento sobre os iníquos.
A Ação Necessária
O que salvará a pessoa não é fugir para determinado local geográfico. O próprio Jesus mostrou isso. Ele concluiu sua profecia por falar especificamente sobre o tempo do fim deste inteiro sistema de coisas, dizendo:
“Prestai atenção a vós mesmos, para que os vossos corações nunca fiquem sobrecarregados com o excesso no comer, e com a imoderação no beber, e com as ansiedades da vida, e aquele dia venha sobre vós instantaneamente como um laço. Pois virá sobre todos os que moram na face de toda a terra. Portanto, mantendo-vos despertos, fazendo todo o tempo súplica para que sejais bem sucedidos em escapar de todas estas coisas que estão destinadas a ocorrer, e em ficar em pé diante do Filho do homem.” — Luc. 21:34-36.
Sim, o que é agora vital não é fugir para alguns montes literais, mas ficar espiritualmente despertos. Precisamos ficar alertas ao cumprimento hodierno da profecia de Jesus, e cônscios de que seu cumprimento significa que está perto o fim deste sistema. Por conseguinte, precisamos ter muito cuidado com nossa conduta, assim como escreveu o apóstolo Pedro:
“Visto que todas estas coisas hão de ser assim dissolvidas, que sorte de pessoas deveis ser em atos santos de conduta e em ações de devoção piedosa, aguardando e tendo bem em mente a presença do dia de Jeová . . . Por isso, amados, visto que aguardais estas coisas, fazei o máximo para serdes finalmente achados por ele sem mancha nem mácula, e em paz.” — 2 Ped. 3:11-14.
Eis a ação necessária. Nossa fuga para um lugar de refúgio, atualmente, é realizada por harmonizar nossa vida aos justos requisitos de Deus. Sim, por fazermos a vontade de Deus, podemos escapar da destruição que virá sobre o inteiro mundo da humanidade, assim como escreveu o apóstolo João: “O mundo está passando, e assim também o seu desejo, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.” — 1 João 2:17.
Não duvide nem por um instante que estas profecias bíblicas se cumprirão! Tão seguramente como se cumpriu a profecia de Jesus a respeito da destruição de Jerusalém, no primeiro século, assim também se cumprirão as profecias sobre o fim do atual sistema de coisas. Sim, temos toda razão de crer na fidedignidade da profecia bíblica e agir em conformidade com tal crença.
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Eu era pastor evangélicoDespertai! — 1977 | 22 de outubro
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Eu era pastor evangélico
O CENÁRIO religioso da Colômbia tem presenciado algumas mudanças bem pronunciadas nos anos recentes. A ampla maioria de meus concidadãos ainda professa a fé católica romana. Mas, poucos poderiam ser chamados de católicos fervorosos. Nas últimas décadas, tem-se observado cada vez maior número de pessoas passarem para outras religiões, inclusive os grupos fundamentalistas protestantes que sublinham a salvação pessoal em sua pregação.
Nos primeiros dezoito anos de minha vida, eu era um católico romano devotado. Ia diariamente à Missa, confessava e tomava a Comunhão duas ou três vezes por semana, e participava das cruzadas da Igreja, tal como a Cruzada do Sagrado Coração de Jesus. Em minha cidade natal de Armênia, Quindío, nossa família se tornou bastante amiga dos sacerdotes.
Por volta de 1945, um idoso casal evangélico se apresentou à nossa porta em busca dum local para passar a noite. Tinham com eles um exemplar da Bíblia, a primeira que vimos. Mamãe ficou tão interessada nela que ela manteve os visitantes acordados, falando sobre ela, quase até o romper do dia. Ela logo compreendeu que aquilo que sua igreja ensinava não estava em completa harmonia com a Palavra de Deus. Mamãe se tornou evangélica. Não demorou muito para que o papai e os demais de nós da família começássemos a pesquisar a Bíblia junto com ela.
Pouco imaginávamos o que aguardava alguém que, morando numa comunidade católica romana, deixasse a Igreja. Antigos amigos tornaram-se inimigos intolerantes. Quando morreu meu irmão caçula, o sacerdote recusou permissão para enterrá-lo no cemitério da Igreja. Visto não haver outro cemitério, não tivemos outro recurso senão o de enterrá-lo no nosso quintal dos fundos.
Um ano depois, quando mamãe morreu, passamos por uma experiência similar. “Por estudar a Bíblia”, disse o sacerdote do púlpito, “tal mulher não merece ser enterrada no campo santo. Qualquer espaço entre os pés de café servirá.” Essa espécie de tratamento não me fazia amar a igreja da minha juventude. Sendo-lhe recusada a permissão de sepultá-la no cemitério, papai, em desespero de causa, conversou com o coveiro, que então concordou em abrir o cemitério às três horas da madrugada. Assim, nessa hora antes do alvorecer, sem que o sacerdote soubesse, mamãe foi sepultada.
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