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A guerra do Vietnã — para onde conduziu a religião?Despertai! — 1972 | 8 de outubro
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publicaram recentemente declarações opostas à guerra.
As organizações religiosas judaicas, também, opuseram-se recentemente à guerra. Uma manchete do Post de Washington, de dezembro passado, dizia: “RESOLUÇÃO DO TEMPLO KENSINGTON INSTA QUE TERMINE A GUERRA DO VIETNÃ.” A resolução instava com o Presidente Nixon, dos EUA, a “fixar e anunciar a completa retirada de todas as forças estadunidenses que operam em e sobre o Vietnã, Laos e Cambódia”.3
A Posição Católica
O que dizer da posição católico-romana? Em novembro passado, os bispos estadunidenses se reuniram num conclave nacional, e o Times de Nova Iorque noticiou em manchete de primeira página “BISPOS CATÓLICOS DOS EUA EXIGEM FIM DA GUERRA DA INDOCHINA.”4 A resolução adotada pelos bispos apontava para “a destruição da vida humana e dos valores morais”, e dizia: “É nossa firme convicção, por conseguinte, de que o fim rápido desta guerra é um imperativo moral da mais alta prioridade.”5
O Bispo-Auxiliar Thomas Gumbleton, de Detroit, explicou que a resolução “significa que a guerra é injusta”.6 Por conseguinte, afirmou, quem concordar com a posição católica talvez não participe nesta guerra”.7
À base de tal evidência, talvez se conclua que a religião tem conduzido a humanidade para longe da guerra. Mas, por que centenas de milhares de jovens católicos e protestantes lutam no Vietnã já por anos? Agiram contra a orientação que receberam de sua religião?
Orientação Confusa
Em realidade, a oposição da religião à guerra do Vietnã não é tão explícita como o acima poderia indicar. Exemplificando, o Arcebispo Philip Hannan, de Nova Orleans, disse que se achava entre “considerável número de bispos que não apóiam plenamente a resolução” adotada recentemente pelos bispos norte-americanos.8 Assim, os católicos talvez estejam, compreensivelmente, confusos quanto à orientação dada até mesmo agora!
Dá-se quase o mesmo com as religiões protestantes. Em 1968, a Igreja Luterana nos EUA adotou uma posição que aprovava oficialmente a objeção de consciência ao serviço seletivo. Não obstante, desde então os luteranos também têm falado em apoio da luta no Vietnã. Por exemplo, no número da primavera setentrional de 1970 da publicação luterana, o Springfielder, o professor-capelão Martin Scharlemann, escreve:
“Ouvimos ser dito que temos de amar o próximo como a nós mesmos. Naturalmente, isso é certo. Quem poderia disputá-lo, visto que é ordem do Senhor? Mas, há outro passo relacionado. . . . Minha relação com o soldado norte-vietnamita não é um assunto de um para o outro. No meio acham-se dois grupos de lealdades: A minha ao meu país e a dele ao seu. Tenho uma responsabilidade para com meu país que ultrapassa minha preocupação por ele; e isto também se dá com o outro lado. Então, quando é ferido e quando precisa de minha ajuda, então, mais uma vez, ele se torna meu próximo no sentido ético do Novo Testamento. Retorna a relação de um para com o outro.”9
Assim, este ministro argüiu que a lealdade ao país anula a ordem de Cristo de amar o próximo. Certamente deve confundir as pessoas quando sua igreja aprova a objeção de consciência e, ainda assim, um ministro incentiva a luta na guerra!
Poder-se-ia concluir que os conceitos deste ministro luterano sejam a exceção hoje, e que a religião agora orienta as pessoas a deixar de lutar no Vietnã. Mas, dava-se isso há cinco ou seis anos atrás?
Conceito Anterior da Guerra
Há mais de cinco anos, os sacerdotes católico-romanos em todos os EUA foram interrogados pela “Catholic Polls, Inc.” (Enquêtes Católicas, Inc.) Perguntou-se-lhes: Devem os EUA adotar uma política firme de vencer a guerra do Vietnã?
Os sacerdotes responderam: Sim — 2.706; Não — 371.10
Os sacerdotes amiúde falaram e agiram em pleno apoio ao esforço de guerra. Por exemplo, um jornal noticiou que certo sacerdote e dois outros clérigos tentaram “convencer um grupo de estudantes de Brooklyn que a injunção bíblica contra o matar não se aplicava à guerra no Vietnã”. Rotert J. McNamara, o sacerdote, argumentou: “O que fazemos ali é necessário para impedir a oligarquia.”11
Alguns sacerdotes tomaram uma parte ainda mais ativa na guerra. Uma grande foto de página e meia de um sacerdote apareceu na revista Life, com a legenda em negrito, “Um Bravo Sacerdote Lutando Sozinho”. O artigo dizia: “No meio da guerra, a figura acima, com capacete e portando um rifle, é um fenômeno estranho e acalentador — um sacerdote católico que trava sua própria guerra particular contra o Vietcong.”12
Por que os sacerdotes quase que unânimes eram a favor do empenho pela vitória dos EUA no Vietnã? Forte influência, sem dúvida, era a orientação dada por seus bispos. Em novembro de 1966, os bispos estadunidenses numa declaração oficial, disseram: “É razoável argumentar que nossa presença no Vietnã é justificada. . .. Elogiamos o valor de nossos homens nas forças armadas, e expressamo-lhes nossa dívida de gratidão. . . . podemos apoiar em sã consciência a posição de nosso país nas atuais circunstâncias.”13
Alguns bispos quase que falaram como se a guerra fosse uma santa cruzada. O falecido Cardeal Francis Spellman disse que as tropas dos EUA eram “soldados de Cristo”14 que travavam uma guerra em prol da civilização, e que “menos que a vitória é inconcebível”.15 Para as pessoas que talvez questionassem a justeza da causa dos EUA, Spellman respondia: “Meu país, certo ou errado.”16
Sobre o clamor de “vitória” de Spellman, George R. Davis, ministro da Igreja Cristã da Cidade Nacional, em Washington, D. C., disse: “Eu concordo.”17 Outros ministros protestantes mostraram sua concordância de várias formas.
Robert Mummey, ministro da Ciência Cristã, argumentou a favor da guerra, falando a um grupo de universitários: “Deve-se matar com coração puro, de outra forma isso passa a ser matança imoral. Se nossos soldados foram doutrinados a odiar o inimigo, então matá-lo seria um ato imoral.”18
Os clérigos também mostraram seu apoio à guerra por honrarem os mortos em ação. Martin Haerther, um pastor luterano de Des Moines, Iowa, disse em certo enterro: “Quando um soldado morre numa guerra justa [Vietnã], no cumprimento do dever, não se trata apenas de morte gloriosa a serviço da pátria, mas é também para ele um fim abençoado . . . Estou certo de que os anjos estavam presentes para levar a sua alma ao céu e de que ele goza agora de paz.”19
Para Onde a Religião Conduz
Torna-se óbvio que, nos primeiros estágios da guerra do Vietnã, as igrejas dos EUA a apoiavam. E a que conduziu isto?
Por um lado, levou a que membros da mesma religião matassem uns aos outros no campo de batalha. Há, por exemplo, calculadamente um milhão de católicos no Vietnã do Norte. Que posição assumiram ali os sacerdotes? O Times de Nova Iorque noticiou: “O pastor da Igreja de S. Antônio de Pádua, em Hanói, o Rev. Joseph Nguyen Van Que, . . . disse que costumeiramente abençoava os jovens católicos que se alistavam nas forças armadas [do Vietnã do Norte].”20 Assim, os membros da mesma religião matam uns aos outros nos campos de batalha do Vietnã, e com a bênção do clero!
Entrementes, conforme adrede indicado, houve uma mudança. Com efeito, foi publicada uma “Convocação à Penitência e à Ação”, interdenominacional, instando o fim da guerra.21
Mas, por que os líderes religiosos mudaram de ponto de vista? A resposta a esta pergunta ajudará a revelar o que amiúde determina a posição tomada pela religião quanto aos assuntos, e, assim, para onde ela conduz a humanidade.
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O que determina a direção que a religião toma?Despertai! — 1972 | 8 de outubro
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O que determina a direção que a religião toma?
POR justificar a guerra do Vietnã de início, as igrejas levaram muitos a julgar correto lutar nela. Mas, agora, algumas organizações religiosas e suas autoridades condenam a guerra. Declaram que a participação nela é errada.
Por que tal mudança? Orientam agora as igrejas seus membros a viver em harmonia com os ensinos da Bíblia? Ou determinam outros fatores a orientação provida pela religião?
O Journal de Oregon, EUA, recentemente observou que os eclesiásticos apenas acompanhavam a multidão’.22 Assim, quando as pessoas expressavam pouca oposição à guerra, as igrejas a apoiavam. Quando o público, porém, ficou desgostoso com a extensiva luta e derramamento de sangue, então o clero começou a opor-se à guerra.
Alden Munson, editor de United Methodist (Metodista Unido), publicação da Igreja Metodista, explicou:
“O acúmulo de questões confusas, como My Lai, e a melhor cobertura da guerra pelos meios de comunicação da história tiveram um efeito sobre toda a nação, e a igreja por fim segue de perto o sentimento contra a guerra. . . . Os cálculos das baixas civis no Vietnã, desde 1965, vão de 1 a 4 milhões de homens, mulheres e crianças, mas apenas agora as igrejas começam a demonstrar horror.”23
Sim, não foi senão depois de a guerra tornar-se ‘impopular’ que o clamor de ‘paz’ da religião tornou-se audível. Tem-se observado que as igrejas determinam o que é popular no momento, e então decidem sua posição em conformidade com isso. O clérigo de Nova Iorque, Robert J. McCracken, admitiu: “Somos cuidadosos de não tomar uma posição a menos que saibamos em que direção o vento sopra.”24
Tentativa de Mostrar Liderança Coerente
A Igreja Católica recentemente indicou que não mudara sua posição no que tange à guerra. Assevera que a liderança católica jamais apoiou a guerra do Vietnã. Esta afirmação é, efetivamente, feita num documento publicado no ano de 1971 pela Conferência Católica dos EUA (USCC), o braço administrativo da Conferência Nacional dos Bispos Católicos.
Todavia, até proeminentes teólogos católicos afirmam que, ao invés de opor-se à guerra, os bispos a apoiaram. Com efeito, por volta da mesma época de ser publicado o documento da USCC, o sacerdote católico Peter J. Riga, Professor de Religião na Faculdade La Salle, escreveu:
“Devido a seu fracasso maciço de liderança moral na maior questão moral de nossos dias, estes bispos católicos estadunidenses que apoiaram esta guerra [cerca de 95 por cento] deveriam demitir-se em massa, porque não mais estão aptos para o cargo; . . . quem tem sangue nas mãos não é apto a ser ministro. Afirmo que os bispos católicos estadunidenses, por seu fracasso moral, têm sangue dos homens em suas mãos.”25
Será que tais acusações por parte dos próprios católicos o fazem ficar pensando sobre a veracidade do que os bispos publicaram?
Representando Mal a Verdade
Commonweal, uma revista católica, considerou este assunto. O escritor, o professor e sociólogo católico Gordon Zahn, depois de estudar o documento da USCC, disse:
“Tenho de questioná-lo como sendo, aparentemente, uma tentativa deliberada de criar, por meio de um enfoque altamente seletivo da história, uma impressão falsa de que a liderança formal da igreja tem sido uma fonte de oposição coerente, embora prudentemente restrita, à guerra.”26
Ilustrando o “enfoque altamente seletivo da história” do documento há a ausência nele das declarações dos líderes católicos que mostraram apoiar a guerra. A omissão mais significativa são os endossos do falecido Cardeal Spellman.
Com efeito, as declarações feitas pelos líderes da Igreja em apoio da guerra, omitidas deste documento, são tão numerosas que Commonweal observou: “Suspeita-se que os pesquisadores da USCC poderiam ter compilado um conjunto pelo menos tão extenso de declarações episcopais de apoio à guerra, à base dos arquivos da Arquidiocese de Nova Iorque apenas.”27
Mas, toda esta evidência foi deliberadamente omitida! Todavia, a “simples honestidade”, disse Commonweal, devia exigir a inclusão de tais declarações, “não importa quão embaraçosas talvez pareçam ser agora, de que a plena medida da imoralidade daquela guerra se acha exposta para todos verem”.28
Não é evidente que o documento da USCC é óbvia tentativa de encobrir o apoio inicial da religião ao que agora é uma guerra impopular? Tal desonestidade talvez o deixe surpreso.
O Que Determina Para Onde Conduz a Religião
É verdade que os ministros amiúde ensinam sobre ‘paz na terra’ e ‘amor ao próximo’ com base na Bíblia. Assim, talvez tenha presumido que a religião conduz a humanidade a viver em harmonia com os ensinos bíblicos, e a desviar-se da guerra e da violência.
É um erro, contudo, considerar apenas o que a religião diz. Antes, é vital também examinar o que a religião realmente faz. O que faz a religião quando os líderes nacionais decidem que é nos interesses de sua nação travar uma guerra?
Sob tais circunstâncias, apontam as igrejas para as palavras de Jesus: “Por meio disso saberão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor entre vós”? (João 13:35) Explicam a seus membros que o genuíno amor cristão não é influenciado pelas fronteiras nacionais? Tornam claro que todos os verdadeiros seguidores de Cristo amam uns aos outros sem considerar o país em que vivam ou a raça a que pertençam?
Será que as igrejas também sublinham a seus membros as palavras de João, apóstolo de Jesus: “Devemos ter amor uns pelos outros: não como Caim, que se originou do iníquo e que matou a seu irmão”? (1 João 3:10-12) Explicam que matar suas concriaturas humanas no campo de batalha, e, em especial, os membros de sua própria religião, não é demonstrar-lhes amor? Indicam que quem faz isto está, com efeito, servindo ao “iníquo”, Satanás, o Diabo?
É bem óbvio que, quando as nações se preparam para a guerra, as igrejas põem de lado tais ensinos bíblicos. Um clérigo protestante bem conhecido, o falecido Harry Emerson Fosdick, admitiu:
“Nossa história ocidental tem sido a de uma guerra após outra. Temos gerado homens de guerra, treinado os homens para a guerra; temos glorificado a guerra; temos feito dos guerreiros os nossos heróis e até mesmo em nossas igrejas colocamos as bandeiras da batalha . . . Com um canto de nossa boca temos louvado o Príncipe da Paz, e com o outro temos glorificado a guerra.”29
O fato é: o que determina para onde a religião conduz não é o que a Bíblia diz, mas o que os líderes nacionais afirmam e o que é popular no momento. Comentando em editorial a guerra do Vietnã, o Sun de Vancouver, Canadá, observou: “É uma fraqueza talvez de toda religião organizada que a igreja acompanha a bandeira . . . Qual foi a guerra já travada em que não se afirmou que Deus estava em cada um dos lados?”30
Apoiar Apenas “Guerras Justas”?
A desculpa que as igrejas não raro apresentam para apoiar as guerras de seu país é a de que a causa de seu país é justa — que trava apenas “guerras justas”. Por conseguinte, argumenta-se, é dever da religião apoiar o esforço nacional de guerra.
Mas, pense nisso por um instante. Não afirma toda nação que se envolve numa guerra que a sua causa é “justa”? É conforme observa recente enciclopédia: “As causas da guerra podem ser egoístas, degradadas ou até perversas, mas as razões fornecidas são usualmente sublimes e nobres. Ambos os lados duma guerra talvez mostrem razões que consideram válidas.”31
Assim, à base do que se considera ‘razões válidas’, cada nação, muito embora o povo dessas nações talvez sustente conceitos opostos, trava o que chama de “guerra justa”. O patriotismo floresce, e as igrejas são arrastadas de roldão, cada religião ‘acompanhando a bandeira’. O proeminente líder protestante, Martin Niemoeller, disse que desde os dias dos imperadores romanos tem sido assim na cristandade. “A igreja jamais conheceu uma guerra injusta”, explicou, “mas sempre justificou a guerra de sua própria soberania e estado”.32
O historiador católico E. I. Watkin, escreveu:
“Dolorosa como seja tal admissão, não podemos, nos interesses duma falsa edificação ou de lealdade desonesta, negar ou ignorar o fato histórico de que os Bispos apoiaram coerentemente todas as guerras travadas pelo governo de seu país. Não conheço, efetivamente, um único caso em que uma hierarquia nacional tenha condenado qualquer guerra como sendo injusta . . . Qualquer que seja a teoria oficial, na prática, ‘meu país está sempre certo’ tem sido a máxima seguida no tempo de guerra pelos Bispos católicos. . . . quando se trata
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