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As raças são notavelmente diferentesDespertai! — 1978 | 22 de março
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uma “ossificação prematura do crânio, impedindo todo o desenvolvimento posterior do cérebro”. Assim, a Britannica asseverava: “Ao atingir a puberdade, parece ser freado todo o progresso adicional [dos negros].” Chamber’s Encyclopœdia, 1882, embora não concordando com a Britannica, mencionava o conceito “de que o negro forma um elo de ligação entre a ordem mais elevada de macacos e o restante da humanidade”.
O conceito de que os negros são inferiores como pessoas ainda é sustentado por alguns; de jeito nenhum desapareceu. Certa pessoa escreveu sobre os conceitos comuns do local onde morava: “Cresci numa comunidade rural do sul, onde se dizia que os negros são negros por causa duma maldição que Deus lhes impôs. . . . Com efeito, dizia-se que os negros realmente não eram gente, mas eram parte do reino animal.”
Até mesmo certos cientistas hodiernos sustentam que os negros são biologicamente inferiores aos brancos. Em 1974, longa obra de aparente grande peso, endossada por destacados educadores, argumentava a favor deste conceito. Sobre o autor, John R. Baker, The Guardian, de 6 de abril de 1974, disse: “Ele é perito em amontoar, ostensivamente como dados, citações e referências que, consideradas junto com a atmosfera poderosamente repulsiva gerada pelo estilo, transmitiria a qualquer leitor sem nenhuma familiaridade com quaisquer ‘negridos’, a impressão de que eles são subhumanos (por exemplo, ‘Long afirma que os negros se distinguem por seu cheiro “bestial ou fétido”’).”
Assim, que dizer das diferenças raciais? Realmente, serão grandes?
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O que dizer sobre a superioridade racial?Despertai! — 1978 | 22 de março
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O que dizer sobre a superioridade racial?
COMO encara as raças? Especificamente, considera que os brancos são inerentemente superiores às pessoas de cor? Sem levar em conta sua resposta verbal, o que revelam suas atitudes e ações?
As pessoas amiúde afirmam que não têm preconceito racial. Todavia, a realidade é que os conceitos racistas há muito predominam. E, assim, persiste o conceito, entre muitos, de que os negros são inatamente inferiores aos brancos, e foram feitos para ocupar permanentemente uma posição inferior.
Como se originaram tais idéias? O que as torna tão persistentes?
Papel da Religião
A idéia moderna de superioridade inerente dos brancos teve sua origem na conquista e escravização dos negros africanos. O comércio escravista precisava duma justificação, especialmente visto que os traficantes eram cristãos professos. Charles de Secondat Montesquieu, jurista e filósofo político francês, explicou como raciocinavam os traficantes: “É-nos impossível supor que tais criaturas sejam homens, porque, permitindo-lhes ser homens, seguir-se-ia uma suspeição, a de que nós mesmos não somos cristãos.”
Cristãos professos nos EUA também precisavam duma justificativa para a escravidão, pois a economia dos plantadores sulistas de algodão se baseava na escravidão negra. Assim, certo historiador norte-americano afirma:
“O Sul pesquisou as Escrituras em busca do endosso bíblico para tal prática. . . . Constantemente, o Sul argumentava que a escravidão era sancionada e, de fato, ordenada pela Bíblia, e era uma instituição divinamente designada, especialmente proveitosa para os negros.” — “A Complete History of the United States” (História Completa dos EUA), de Clement Wood, págs. 217, 337.
As igrejas lideraram em justificar a escravatura. Ensinavam que os negros são uma raça amaldiçoada, razão pela qual sua pele é preta. Em 1844, os metodistas se dividiram entre o Norte e o Sul por causa da escravidão. Os batistas, em 1845, e, por volta da mesma época, a Igreja Presbiteriana, dividiram-se bem na linha política de Mason-Dixon [popularmente considerada como linha divisória entre estados não-escravistas e escravistas]. Já em 1902, uma Casa da Bíblia, em S. Luís, Missúri, publicou o livro amplamente difundido, “The Negro a Beast” or “In the Image of God” (O Negro, um Animal ou À Imagem de Deus). Inclui um capítulo intitulado “Evidência Bíblica e Científica Convincente de que o Negro não É Parte da Família Humana”.
Assim, com aprovação das igrejas, os negros foram encarados como inerentemente inferiores aos brancos. Lamentava a Encyclopœdia Britannica: “A desgraça do africano foi ser escravizado na América pelos cristãos, que, incapazes de reconciliar suas crenças com a prática da escravidão, remodelaram sua concepção do negro, de modo à virem a reputá-lo como um objeto possuído, e não como ser humano, dotado de direitos e de liberdades.” — Vol. 16, p. 200D, 1971.
Mas, não foram apenas as igrejas que defenderam tais conceitos. Fizeram-no também filósofos e cientistas.
Outros Paladinos da Superioridade Branca
Por volta da década de 1830, os filósofos sulistas nos EUA formularam os princípios relativos à desigualdade natural do homem, conceito já então aceito pela maioria dos sulistas. E o principal antropólogo físico estadunidense daquela época, Josiah C. Nott, tentou prover o apoio biológico para tal conceito. A idéia de alguns veio a ser de que as várias raças evoluíram separadamente e que os negros são mais aparentados aos macacos. Depois de observar certas caraterísticas como evidência, pondera The Encyclopœdia Britannica: “O negro pareceria estar num plano evolucionário inferior ao do homem branco, e ser mais intimamente aparentado aos antropóides mais elevados.” — Vol. 19, 1911, p. 344.
Alguns detêm conceitos similares, hoje em dia, inclusive o Professor Carleton S. Coon, ex-presidente da Associação Americana de Antropólogos Físicos. Assevera que cinco raças de homens, isoladas umas das outras, “evoluíram de forma independente no Homo sapiens, não uma só vez, mas cinco vezes”. Num programa nacional de televisão, dos EUA, um porta-voz afirmou que Coon “apresenta evidência, e assume a posição, de que a raça negra está 200.000 anos atrás da raça branca na escada da evolução”.
Tais conceitos, há muito entretidos com respeito aos negros, ajudam-nos a compreender como é que os primitivos norte-americanos podiam falar de ‘todos os homens serem criados iguais’ e, ainda assim, sancionar uma forma de escravidão em que havia pessoas consideradas inferiores. The Sociology of Social Problems (A Sociologia dos Problemas Sociais), Terceira Edição, de Paul B. Horton e Gerald R. Leslie, explica:
“O dito ‘todos os homens foram criados iguais’ não se aplicava aos negros, visto serem ‘objetos possuídos’ e não homens. Teorias de certa maldição camítica, de evoluções incompletas ou separadas, de determinismo geográfico, e das evidências de testes de inteligência, foram sucessivamente empregadas para justificar o tratamento dos negros quais inferiores. Enquanto se criam em tais noções — e a maioria das pessoas criam nelas — não havia incoerência alguma em professar ideais democráticos, ao passo que se praticava a discriminação.”
É provável que poucas pessoas, hoje, afirmem que os negros “não são gente”. Todavia, muitos ainda crêem que eles sejam inerentemente inferiores. Suas taxas mais altas de filhos ilegítimos e de crimes, sua condição econômica e social inferior, e, especialmente, seus escores médios inferiores nos testes de QI, são considerados “prova” de sua inferioridade biológica. Mas, será que tal evidência é realmente prova de inferioridade biológica? Existem circunstâncias responsáveis pelas deficiências dos negros, em média, em comparação com os brancos?
Origem dos Negros da América
Muita gente no Brasil e EUA crêem que os antepassados africanos dos negros americanos eram selvagens, sem cultura ou civilização. Imaginam que eram mentalmente obtusos, infantis, incapazes de realizar tarefas complexas, ou de desenvolver uma civilização avançada. Mas os fatos são outros, como comenta The World Book Encyclopedia:
“Reinos negros, altamente desenvolvidos, já existiam em várias partes da África há centenas de anos. . . . Alguns dos reis negros e seus nobres viviam em grande opulência e esplendor. Suas capitais, às vezes, tornaram-se centros de cultura e comércio. Entre 1200 e 1600, floresceu uma universidade negro-árabe em Tombuctu, na África Ocidental, e tornou-se famosa por toda a Espanha, África do Norte e Oriente Médio.” — Vol. 14, 1973, págs. 106, 107.
Na verdade, a cultura africana é bem diferente da européia, assim como a cultura oriental também é diferente. E, infelizmente, alguns igualam diferença à inferioridade. Todavia, ao mesmo tempo, não se pode negar que, nos séculos recentes, o desenvolvimento da vida e cultura africanas tornou-se estanque. Houve falta de progresso, houve atraso geral. Mas por quê?
A razão se devia, em grande parte, ao comércio escravista, a respeito do qual disse The Encyclopedia Americana: “Desorganizou a cultura e a indústria negras, parou o desenvolvimento da arte, derrubou governos e foi a causa da moderna estagnação da cultura, que marcou o Continente Negro desde 1600.” — Vol. 20, 1927, p. 47.
A magnitude do comércio escravista, e seu impacto sobre a sociedade africana, é de abalar nossos sentidos. Segundo The New Encyclopœdia Britannica, 1976, “cálculos sobre os escravos enviados para o outro lado do Atlântico vão de 30.000.000 a 100.000.000”. Estimativas mais conservadoras dão um total “como de cerca de 15 milhões”. Mas, mesmo as estimativas menores são estonteantes, em especial quando se consideram as mortes envolvidas.
Deve-se reconhecer que os africanos foram capturados, tanto diretamente pelos brancos, como em guerras e batidas pelos negros, que vendiam seus concidadãos aos traficantes brancos de escravos. Não importa quem assumisse a responsabilidade inicial, os cativos eram então obrigados a marchar até à costa, e retidos em pontos de embarque. Daí, acorrentados aos pares, eram apinhados nos porões de navios, num espaço em que só podiam ficar deitados. Ali passavam a maior parte da viagem de cinqüenta dias pelo Atlântico, sem luz ou ar fresco. Cerca de um terço dos presos, calcula-se, morreram mesmo antes de embarcar no navio, e outro terço na travessia.
Foi no início dos anos 1500 que os primeiros escravos foram trazidos para as Índias Ocidentais e América do Sul, para trabalhar em minas e plantações. Em 1619, um navio negreiro holandês entregou os primeiros negros à América do Norte, não como escravos, mas como serviçais contratados. No entanto, mais tarde, nos anos 1600, a escravidão foi estabelecida plenamente e, com o tempo, havia cerca de quatro milhões de escravos negros nos EUA. Cálculos modestos dão um total de cerca de 3.500.000 escravos importados para o Brasil, total este que poderia aumentar para uns 6.350.000 ou até mesmo para o total surpreendente de 13.500.000.
O Que a Escravidão Lhes Fez
Os africanos comumente eram entregues primeiro nas Índias Ocidentais, onde eram “adaptados”, ou reduzidos a escravos, antes de serem enviados aos Estados Unidos. A diretriz era separar as pessoas da mesma origem tribal, para impedir qualquer insurreição em massa. Até mesmo as famílias eram separadas, e os traficantes ou os novos amos davam novos nomes aos escravos. O objetivo era tornar os negros subservientes e obedientes. Nesse processo, distorciam-se suas personalidades, suprimiam-se suas mentalidades, e, compreendendo a futilidade de resistir, os negros não raro começavam a comportar-se como se fossem inferiores.
Formularam-se códigos escravistas, para garantir sua completa subordinação. Afirma The Encyclopedia Americana:
“Escravos não podiam ter propriedades, possuir armas de fogo, empenhar-se no comércio, deixar a plantação sem permissão de seus donos, testemunhar num tribunal exceto contra outros negros, fazer contratos aprender a ler e escrever, ou realizar reuniões sem a presença de pessoas brancas. . . . o homicídio ou estupro dum escravo ou dum africano livre por uma pessoa branca não era considerado crime grave.” — Vol. 20 1959, p. 67.
Na maioria dos estados escravocratas, o castigo de se ensinar um negro a ler ou escrever era multa ou açoite, ou então a prisão.
Em 1808, os Estados Unidos tornaram ilegal o tráfico de escravos. No entanto, o tráfico continuou, apesar da lei, visto haver maior demanda de escravos do que nunca. Isto levou à suprema perversão — a produção de escravos para venda. Explica The Encyclopedia Americana:
“Desenvolveu-se um comércio doméstico escravista, de ampla escala e lucrativo, e alguns dos incidentes mais cruéis e de sangue frio do sistema escravista estavam ligados ao mesmo, tal como a multiplicação de escravos nos estados mais antigos para a venda mais para o sul, e o constante rompimento dos vínculos familiares pela venda, em separado, de seus membros.” — Vol. 20, 1959, p. 67.
Sim, o conceito de que os negros “não eram gente” levou a multiplicação e à venda deles, como se faz comumente com gado. Daí, abruptamente, em 1865, a escravidão foi plenamente abolida nos Estados Unidos; em 13 de maio de 1888, no Brasil. Todavia, as atitudes persistiram, e os negros eram mantidos “em seu devido lugar” — o de subordinação aos brancos — por leis de segregação e outros meios.
O linchamento por enforcamento era um importante instrumento de controle, nos EUA. Houve, em média, 166 linchamentos anuais entre 1890 e 1900. Também, como relata The Encyclopedia Americana: “A exploração sexual de mulheres negras por homens brancos continuou a ser tolerada. Os negros recebiam tratamento crassamente injusto e discriminatório às mãos da polícia e, freqüentemente, dos tribunais.” — Vol. 20, 1959, p. 70.
Estamos falando de história antiga? Não, os avós de muitos negros agora vivos eram escravos. E as pessoas que vivem hoje ouviram dos próprios lábios de ex-escravos como era a vida então. Até mesmo na década de 50, os veículos de divulgação nos Estados Unidos representavam os negros como sendo inferiores—invariavelmente seu papel era de empregados dos brancos.
Em geral, porém, não se viam negros de forma alguma, quer em revistas, na televisão, quer em jornais, exceto em histórias de crime. Sofriam discriminação de todo modo, obtendo escolarização de segunda classe, e sendo barrados em certos tipos de emprego e em muitos outros benefícios usufruídos por brancos. Praticamente em toda a parte se lhes fechavam as portas da oportunidade, privando a muitos de qualquer esperança de melhorarem sua sorte
Em vista destas circunstâncias, pode-se realmente esperar que os negros obtenham tão bons resultados, em média, quanto os brancos, em consecuções educativas e em outras? Seria justo julgá-los inferiores como raça, quando não se ajustam a determinado padrão? O que acontece quando se lhes abrem oportunidades?
Oportunidade e Motivação
Antes de 1947, as principais ligas de beisebol dos EUA barravam os negros. Nesse ano, a medida que as tensões raciais amiúde foram crescendo, permitiu-se que um negro jogasse. Logo os negros começaram a brilhar no beisebol. Em 1971, ano em que foram campeões mundiais, em certo jogo, os “Pittsburgh Pirates” (Piratas de Pittsburgo) apresentaram em campo uma equipe de nove jogadores — todos negros. A situação é similar em outros esportes, fazendo com que o Times de Nova Iorque, em 1977, dissesse que “o basquete profissional é virtualmente um esporte de negros”.
O que significa isto? Que as pessoas de cor são biologicamente superiores aos brancos? Ou significa que, quando se lhes abrem oportunidades, e se lhes fornecem instrução e motivação, os negros podem obter resultados tão bons? Obviamente, este último é o caso. As raças não nasceram com talento para serem jogadores de beisebol ou futebol, músicos, cientistas, professores universitários, etc. Essas coisas têm de ser aprendidas.
É errado estereotipar raças, afirmando que uma raça é naturalmente obtusa e lenta, enquanto que outra é agressiva e militante, ao passo que ainda outra é branda e subserviente, etc. As raças são o que são especialmente devido à instrução, à formação e à motivação que recebem. A guisa de exemplo, os chineses eram amiúde caraterizados por muitos como sendo naturalmente brandos e subservientes. Mas, considerando-se a educação e motivação diferentes que receberam-nas últimas décadas sob o comunismo, poucos os caraterizariam dessa forma hoje em dia.
Todavia, persiste o conceito de que, por natureza, biologicamente, os negros como raça são mais lentos mentalmente e menos inteligentes do que os brancos. Existe evidência fidedigna de que isto se dá?
[Foto na página 9]
Cortesia do Centro Schomburg de Pesquisa da Cultura Negra, Biblioteca Pública de Nova Iorque, Fundações Astor Lenox e Tilden.
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São os brancos mais inteligentes do que os negros?Despertai! — 1978 | 22 de março
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São os brancos mais inteligentes do que os negros?
SÃO, afirmam muitos. Os brancos, como raça, dispõem de mais inteligência congênita do que os negros.
William Shockley, Prêmio Nobel de física, assevera fortemente que isto se dá. Afirma: “Minha pesquisa me leva inescapavelmente à opinião de que a causa principal dos déficits intelectual e social dos negros norte-americanos é . . . de origem racialmente genética.”
O Professor Arthur R. Jensen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, é destacado expoente do conceito de que, quanto à inteligência, os brancos são biologicamente superiores aos pretos. Declara ele: “O número de genes da inteligência da população negra parece ser inferior, no total, ao da branca.”
Qual é a causa de tais afirmações?
Base das Afirmações
A herança genética, indicam muitos, tem muito que ver com as diferenças raciais. Os negros herdaram a pele escura, lábios grossos e cabelo carapinha, e os brancos têm caraterísticas herdadas notavelmente diferentes. Assim, se inteiros grupos de pessoas herdaram tais caraterísticas físicas diferentes, é apenas razoável, argumentam alguns, que as raças herdassem diferentes graus de inteligência. Mas, herdaram mesmo? Por que se afirma que as pessoas de cor, como raça, herdaram menos inteligência do que os brancos?
A razão é principalmente devida aos resultados dos testes de Quociente de Inteligência (QI). Nestes testes, o escore dos negros, em média, é cerca de 15 pontos inferior ao dos brancos. Mesmo quando brancos e pretos de uma condição similar, social e econômica, são submetidos ao teste, os escores dos brancos, em média, são significativamente mais elevados do que os escores dos negros. Assim, Jensen conclui, de tal evidência, “que algo situado entre a metade e três quartos da diferença média do QI, entre os negros e os brancos norte-americanos, é atribuível a fatores genéticos”.
Os resultados dos testes de QI, junto com conclusões fundadas na teoria da evolução, reforçaram a opinião de muitos de que os negros são mentalmente inferiores. Alguns cientistas argumentaram que as raças evoluíram, em grande medida, de forma independente, no decurso de centenas de milhares de anos. Os pretos, afirma-se, cruzaram o limiar da categoria de Homo sapiens mais tarde do que os brancos.
Visto que os testes de QI atuais são a base principal para a afirmação de que os negros são inerentemente menos inteligentes do que os brancos, examinemos esses testes.
A Inteligência e os Testes de QI
Primeiro de tudo, o que se quer dizer com inteligência?
Essa é uma pergunta surpreendentemente difícil de se responder. Um grande número de qualidades diferentes poderiam ser chamadas de inteligência. Pessoas podem ser “inteligentes” num contexto, talvez podendo decorar nomes e datas com facilidade, mas podem ser “burras” em outro, tal como o de resolver problemas aritméticos. Assim, não existe nenhuma definição universalmente aceita do que é inteligência.
Que dizer, então, dos testes de QI? Medem deveras a inteligência? Comentando isto, Patrick Meredith, professor de psicofísica da Universidade de Leeds, Inglaterra, disse: “Poder-se-ia julgar que os franceses são mais inteligentes do que os pigmeus, mas, caso visse os pigmeus em seu ambiente natural, construindo pontes de fibras, e vivendo com êxito, poderia perguntar o que se quer dizer com inteligência. A classificação do QI não é indício de como a pessoa se comportará em determinada situação. O teste de QI é um conceito totalmente anticientífico.”
Concorda-se, em geral, que os testes de QI deixam de fornecer um quadro completo dos muitos fatores envolvidos na inteligência. As circunstâncias e a formação das pessoas são variadas demais para que os testes possam fazer isto. O que, então, avaliam os testes de QI?
Arthur Whimbey, professor de psicologia duma universidade do sul dos Estados Unidos, observa: “Os estudos levam à conclusão de que os testes de QI não medem a capacidade intelectual inata, antes, porém, um grupo de perícias aprendidas que podem ser ensinadas na sala de aula ou no lar.”
Para confirmar isto, tem-se demonstrado que pessoas podem aprender a fazer os testes de QI, com resultados surpreendentes. Um pesquisador relata que certo jovem estudante negro do Mississípi recebeu instruções quanto a fazer tais testes, e, em seis semanas, aumentou dramaticamente seu escore de QI.
Pode facilmente imaginar as conclusões erradas que uma pessoa poderia tirar dos escores de QI, e os efeitos que isto pode ter. Um negro norte-americano, que é agora professor universitário, escreve:
“Aos 15 anos, consegui um escore de 82 no teste de QI . . . Com base neste escore, meu conselheiro sugeriu que eu aprendesse a ser pedreiro, porque ‘trabalhava bem com as mãos’. . . . Cursei, de qualquer modo, a Faculdade Philander Smith, formando-me com mérito, obtive meu grau de mestrado na Universidade Estadual de Wayne e meu Doutorado em Filosofia na Universidade de Washington, em S. Luís. Outros pretos igualmente habilitados, foram eliminados.”
Todavia, resta o fato de que os brancos conseguem um escore, em média, 15 pontos superior aos negros nos testes de QI. Por quê? Se se argumentar que os negros são inatamente tão inteligentes quanto os brancos, então por que não conseguem escores melhores?
Exame da Questão em Seu Contexto
Há muitos fatores que podem ser responsáveis pelos seus escores médios mais baixos do QI. Em especial, os negros norte-americanos sofreram muitas desvantagens devido a seu tratamento pelos brancos como inferiores, e como indesejáveis. O antigo Ministro-Presidente do Supremo Tribunal dos EUA, Earl Warren, ilustrou as modernas atitudes raciais num artigo de Atlantic, de abril de 1977.
Quando pendia a decisão do Supremo Tribunal sobre a segregação escolar, em meados da década de 50, o então Presidente Dwight Eisenhower, dos EUA, convidou Warren para um jantar na Casa Branca, visando influenciá-lo a decidir-se a favor da manutenção da lei segregacionista. “O Presidente”, escreve Warren, “pegou-me pelo braço, e, ao caminharmos, falando sobre os estados do sul, nos casos de segregação, disse: ‘Esses [sulistas] não são gente má. Tudo com o que se preocupam é de certificar-se de que suas doces menininhas não tenham de sentar-se na escola junto com alguns negrões já bem crescidinhos.”
Conforme expresso pelo presidente, os brancos têm comumente tentado “manter os negros em seu devido lugar” — numa posição segregada, subordinada, longe dos benefícios gozados pelos brancos. Durante a escravidão, e, mais tarde, na segregação legalizada, era fácil fazer isto. Os pretos que saíssem da linha eram açoitados, linchados, ou, punidos de outra forma. O efeito era produzir a personalidade do “negrinho pacato” infantil, subserviente, mentalmente vagaroso. Os brancos comumente criam que tal personalidade era inerente aos negros. No entanto, o professor Thomas F. Pettigrew, de Harvard, explica:
“Não existem quaisquer dados antropológicos africanos que tenham mostrado qualquer tipo de personalidade parecida à do ‘negrinho pacato’ [em inglês, Sambo]; e os campos de concentração [da Alemanha nazista] moldaram o padrão equivalente de personalidade numa ampla gama de prisioneiros caucasianos. Nem era o ‘negrinho pacato’ simples produto da ‘escravidão’ em sentido abstrato, pois o sistema latino-americano [de escravidão], menos devastador, jamais produziu tal tipo.”
Assim, os resultados dos testes de QI, têm de ser considerados neste contexto de mais de 300 anos de opressão, durante os quais muitos pretos, para sua própria defesa e sobrevivência, adotaram uma personalidade subserviente. E, lembre-se, até a parte final do século passado, era contra a lei, em muitos lugares dos EUA, que os negros aprendessem a ler ou a escrever. Mesmo desde então, os negros, como um todo, simplesmente não dispuseram das mesmas oportunidades educacionais que os brancos
Efeito do Ambiente
A qualidade da educação pré-escolar, no lar, também tem que ver diretamente com as consecuções intelectuais. É interessante que a plena lacuna de 15 pontos do QI é manifesta, nos EUA, entre crianças negras e brancas já aos cinco anos, mesmo antes de irem para a escola. Alguns talvez afirmem que isto é prova de que os negros já nascem menos inteligentes do que os brancos, mas há evidência de que outros fatores podem ser responsáveis por isso.
A primeira infância é um período principal do crescimento intelectual. O Dr. Benjamim Bloom, da Universidade de Chicago, bem como outros educadores, sustenta que, por ocasião do tempo em que a criança atinge os cinco anos, já gozou de tanto crescimento intelectual quanto o que ocorrerá nos próximos treze anos. Em harmonia com tal conclusão, Science News Letter observa: “Nos primeiros anos, a inteligência duma criança pode ser grandemente influenciada pelo ambiente acolhedor, que conduza à aprendizagem e à exploração.”
Considere, porém, a situação doméstica de muitos negros. Suas famílias são mais freqüentemente desmanteladas do que as famílias brancas. O pai amiúde não pára em casa, sendo, talvez, obrigado a dirigir-se a outra região em busca de emprego. Não raro, nas famílias de cor, apenas a mãe tem de criar os filhos. Sob tais circunstâncias, pode-se esperar que as crianças recebam a educação inicial que as equipe a igualar as consecuções intelectuais dos brancos?
Ademais, estudos recentes mostram que, nas famílias maiores, negras ou brancas, em que os pais usualmente dão menos atenção individual aos filhos, as crianças alcançam inferiores escores de QI. Visto que as famílias de cor, em média, são maiores do que as brancas, isto também pode ser um fator contribuinte para as consecuções intelectuais inferiores dos negros.
Outro fator a considerar é que os ambientes domésticos não são os mesmos — as culturas brancas e negras são significativamente diferentes. E os testes de QI tradicionais apresentam claros preconceitos culturais que favorecem os brancos. Como exemplo, um teste de gravuras de Stanford-Binet mostrava uma mulher branca, de aparência embonecada, e uma mulher com caraterísticas negróides, de cabelos ligeiramente descuidados. A criança recebia um “certo” se apontasse a mulher branca como sendo “bonita”, e um “errado” se apontasse a negra.
Outra coisa a ter presente é que grande número de negros obtiveram escores de QI bem acima do escore médio de todos os brancos. Com efeito, durante a Primeira Guerra Mundial, os negros de certas partes do norte dos EUA obtiveram escores mais elevados nos testes de QI do que os brancos de certas partes do Sul, o que indicaria que os negros não nascem com menos inteligência. Theodosius Dobzhansky, biólogo norte-americano, teceu a seguinte observação notável: “As diferenças de raça, em média, são muito menores do que as variações que existem dentro de qualquer raça. Em outras palavras, cérebros grandes e elevados QIs de pessoas de cada raça são muito maiores e mais elevados do que as médias de sua própria raça ou de qualquer outra.”
O livro Intelligence — Genetic and Environmental Influences (Inteligência — Influências Genéticas e Ambientais), editado pelo médico e professor universitário Robert Cancro, examina extensivamente os fatores ambientais que contribuem para as inferiores consecuções intelectuais dos negros. Em vista de todas as desvantagens que os negros têm sofrido, os escritores concluem: “É realmente surpreendente verificar o QI mediano dos negros norte-americanos situar-se apenas 15 pontos abaixo do dos norte-americanos brancos. Não existe nenhuma razão para se considerar tal discrepância como sendo biologicamente inevitável.”
O renomado antropólogo, Ashley Montagu, chegou a uma conclusão similar. Escreve ele: “Se for deficiente a nutrição, deficientes os cuidados médicos, degradante a habitação, baixa a renda familiar, prevalecente a desorganização familiar, anárquica a disciplina, mais ou menos completo o favelamento, reduzido coerentemente o valor pessoal, poucas as expectativas, frustradas as aspirações, bem como houver numerosos outros obstáculos ambientais, então, pode-se esperar o tipo de fracassos no desenvolvimento intelectual que são, mui amiúde, atribuídos gratuitamente a fatores genéticos.”
Conclui Montagu: “Não existe evidência de que qualquer povo seja, quer biologicamente quer mentalmente, superior ou inferior a qualquer outro povo, em qualquer sentido que seja.”
Todavia, existe prova de que a diferença nos escores médios de QI das raças não seja devida a que os brancos herdam mais inteligência do que os negros?
Conclusões da Evidência
Não existe prova alguma de que os brancos tenham ou não herdado mais inteligência do que os negros. O que é claro, contudo, é que o ambiente produz grande efeito no desenvolvimento intelectual. Em Israel, para exemplificar, as crianças judias carentes, orientais, que foram colocadas em comunas chamadas kibutzim, e foram criadas de forma coletiva, apresentaram QIs mais elevados do que as crianças da mesma formação criadas por seus pais. Também, crianças índias americanas, criadas em lares adotivos brancos, conseguem QIs significativamente mais elevados do que seus irmãos e suas irmãs na Reserva indígena. Mas, dá-se isso também com os negros?
Recente estudo de crianças negras criadas em lares brancos revelaram que sim. O estudo, que incluía mais de cem famílias brancas que adotaram crianças negras em tenra idade, e as criaram em suas casas, mostravam que os QIs destes negros se comparavam de forma favorável com os dos brancos. “No todo”, escrevem os pesquisadores, “nosso estudo nos impressionou com a força dos fatores ambientais. . . . Se diferente ambiente pode fazer com que os escores de QI de crianças negras passem dos normais 90, ou 95, para 110, então os conceitos expendidos pelos deterministas genéticos não podem justificar a atual lacuna do QI entre negros e brancos.”
O peso da opinião científica, por conseguinte, parece ser de que a média inferior dos escores de QI dos negros pode ser explicada principalmente, se não de forma total, pelos fatores ambientais. No livro The Biological and Social Meaning of Race (O Significado Biológico e Social de Raça), Frederick Osborn, do Conselho de População de Nova Iorque, resume: “Somente uma conclusão é possível dos estudos que já foram feitos até a data. As diferenças, nos testes de inteligência, entre as principais raças, não são maiores do que as que podem ser atribuídas às diferenças conhecidas em seus ambientes. Sobre isso existe consenso científico geral.”
É de interesse que, à medida que se lhes abrem oportunidades, cada vez mais pessoas de cor obtêm êxito nos campos do comércio, da educação, da medicina, etc.
Todavia, é preciso reconhecer que a questão da inteligência relativa das raças não pode ser positivamente determinada. A evidência é agora inconclusa, estando aberta a várias interpretações, como observou certo escritor: “Cem conclusões diferentes podem ser tiradas, e têm sido tiradas, do mesmo conjunto de evidências. A conclusão a que se chega depende tanto da emoção quanto da razão.”
Assim, então, por que trazer à baila o assunto dos escores de QI no esforço de provar que os negros são menos inteligentes do que os brancos? Steven Rose, professor de biologia da Universidade Aberta, Inglaterra, explica por que alguns o fazem: “A questão da base genética das diferenças raciais ou de classe no QI . . . só tem significado numa sociedade racista ou elitista, que tenta justificar ideologicamente suas práticas discriminatórias.”
Como resultado da tempestade da controvérsia sobre a alegada inteligência inferior herdada dos negros, declarou a Academia Nacional de Ciências dos EUA: “Não existe nenhuma base científica para a declaração de que existem ou não existem diferenças hereditárias substanciais de inteligência entre as populações negras e brancas. Na ausência de algum meio, agora imprevisto, de igualar todos os aspectos do ambiente, as respostas a essa pergunta dificilmente podem ser algo mais do que palpites razoáveis.”
Uma coisa é certa, porém, e isso é que não existe base sólida para se considerar as pessoas de outra raça como inferiores. Sem
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