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O que os mais velhos estão fazendoA Sentinela — 1983 | 1.° de fevereiro
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O que os mais velhos estão fazendo
O ATLETA mirou seu alvo e começou a correr. Correu velozmente cerca de dezesseis metros e meio, fincou no chão sua vara de fibra de vidro e ergueu-se graciosamente, passando por sobre uma barra, cerca de dois metros e oitenta centímetros acima do solo. Que evento era esse? Uma competição atlética entre colégios? Não. O atleta tinha setenta anos e tratava-se duma competição, noticiou The Wall Street Journal, entre 600 atletas dessa faixa etária. Nesse mesmo evento, um atleta de setenta e sete anos correu os 100 metros em 15,7 segundos, e outro, de setenta anos, lançou um disco especial à distância de mais de vinte e sete metros.
Surpreende-o saber que pessoas de setenta anos ainda competem no atletismo? É verdade que não podem fazer o que faziam quando tinham seus vinte e poucos anos. Mas, o fato de que alguns ainda podem lançar um disco, correr 100 metros e executar com êxito saltos de vara revela algo importante. Indica que os mais velhos não devem ser ‘riscados da lista’ como inúteis só porque já viveram certo número de anos. A menos que alguma doença intervenha, os mais velhos têm muito mais potencial físico do que geralmente se lhes atribui.
Dá-se o mesmo com respeito à sua capacidade mental e intelectual? Isto é, podem os mais velhos aprender coisas novas e adotar novos estilos de vida? Às vezes, os próprios idosos subestimam seu potencial neste campo. Talvez se esquivem diante do desafio de algo novo e digam ‘Sou velho demais para aprender’ ou ‘Papagaio velho não aprende a falar’. Mas, é necessariamente assim? A que idade termina a habilidade de aprender?
CRESCENDO E APRENDENDO
É interessante refletir que a pessoa que diz ‘Sou velho demais para aprender’ foi certa vez uma criança jovem, vivaz e cheia de curiosidade. No vocabulário da maioria das criancinhas, as palavras mais usadas são ‘Por quê?’, ‘Onde?’, ‘Quando?’, ‘Como?’, ‘Quem?’. Não há dúvida quanto ao seu desejo de aprender.
Às vezes, os pais têm vontade de que esse desejo seja um pouco menos intenso e que os filhos parem um pouco de fazer perguntas. Todavia, a Bíblia salienta a importância daquilo que a criança aprende nesse estágio, dizendo: “Instrui ao menino no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele.” — Provérbios 22:6, Almeida, revista e corrigida.
Logo a criança vai à escola, e, durante vários anos, seu principal projeto cada dia é adquirir novo conhecimento sobre diversas matérias. Seu desejo natural de aprender é suprido até certo ponto por seus professores. Aprende novos conceitos, novas habilidades, e o mundo, aos poucos, se abre diante dela.
Os anos de escola passam rápido demais, e um jovem adulto entra no mundo. Tem de aprender agora a lidar com pessoas adultas e adquirir proficiência para ganhar a vida. Na maioria dos casos, acaba obtendo um emprego regular, e é neste ponto que o processo de aprendizagem começa a diminuir o passo. A maioria dos adultos jovens se casam, tem filhos, são sobrecarregados de pressões e responsabilidades, e cessam aos poucos de enriquecer a vida com nova aprendizagem.
Quando os filhos crescem, os pais descobrem que agora têm novamente tempo para si mesmos. Mas, em muitos casos, o costume de não aprender já se firmou. Já não estão tão inclinados como antes, quando eram jovens, a começar a investigar coisas novas, ou a fazer perguntas. No Japão, alguns falam de ter nascido em outra era. Um homem talvez diga: ‘Nasci na era Meiji.’ Essa foi a era política que terminou em 1912. Assim, tendo chegado à idade de pelo menos setenta anos, acha que seus dias de aprendizagem já terminaram e que não seria capaz mais de assimilar novas idéias na atual era moderna e incompreensível.
Mas, precisa ser esse o caso? É verdade que à medida que a pessoa envelhece seu corpo físico se modifica. Suas juntas talvez fiquem mais enrijecidas, seus músculos, menos flexíveis, sua visão, um pouco mais fraca, e sua audição, um pouco menos aguçada. Mas, a menos que adoeça, isso causa apenas uma diminuição no passo, não a paralisação de todas as atividades. O fato de que uma turma de pessoas com mais de setenta anos podia realizar uma competição atlética prova isso. Dá-se o mesmo no caso da mente? Ou é verdade que a pessoa pode ser velha demais para aprender?
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Velho demais para aprender? — “Nunca!”A Sentinela — 1983 | 1.° de fevereiro
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Velho demais para aprender? — “Nunca!”
É POSSÍVEL ser velho demais para aprender? Bem, considere apenas algumas consecuções de pessoas idosas. Aos noventa e dois anos, o compositor Irving Berlin ainda compunha música e o pianista Arthur Rubinstein ainda fazia apresentações aos noventa e quatro anos. O juiz Oliver Wendell Holmes, aos noventa e dois anos, começou a estudar o idioma grego. Aos oitenta anos, Moisés ingressou numa nova carreira, qual líder nacional e orador público. (Êxodo 7:7) E o apóstolo João já devia ter seus noventa e tantos anos quando foi usado para escrever seu famoso Evangelho e o livro de Revelação (Apocalipse).
Não, a idade não precisa limitar a atividade mental. Há algumas doenças que podem diminuir o ritmo dos processos mentais dos idosos. A principal delas e a doença de Alzheimer, chamada às vezes de senilidade, que causa deterioração física no cérebro. Algumas outras doenças manifestam sintomas similares. Mas, a vasta maioria dos idosos não sofrem de tais doenças. Para estes, disse certo pesquisador, a “Criatividade não tem idade”.
Testes realizados na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, revelaram que o desempenho de alguns idosos era tão bom quanto o dos estudantes jovens. O dr. Weinberg, psiquiatra e reconhecida autoridade em envelhecimento, relatou que, a menos que uma doença intervenha, a mente da pessoa retém o vigor e a habilidade de aprender até uma idade considerável — especialmente se os idosos se mantiverem fisicamente ativos e se associarem com pessoas que se interessam por eles. “O futuro dos idosos é brilhante”, diz o dr. Weinberg, que tem setenta anos, “contanto que preservem sua curiosidade e seu desejo de aprender e crescer”.
Para alguns, isso certamente ocorreu. De fato, a declaração do dr. Weinberg foi, sem dúvida, corroborada de maneira mais notável do que ele mesmo esperava.
OCASIÃO PARA MUDAR DE PROCEDER
Considere, por exemplo, Alice Okon, da Nigéria. Seu filho era cristão praticante, e incentivava a mãe a ler a Bíblia e a aprender a esperança que esta oferece. Por fim, ela concordou em estudar a Bíblia, foi edificada na fé, e, aos oitenta anos, foi batizada em água para indicar sua determinação de usar o restante de sua vida no serviço de Deus.
Ela acredita fortemente na declaração: “Porque Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, a fim de que todo aquele que nele exercer fé não seja destruído, mas tenha vida eterna.” (João 3:16) E, por exercer agora tal fé, aguarda confiantemente a vida eterna prometida por Deus. Aos oitenta anos, ela certamente não era velha demais para aprender.
TOMAR DECISÕES
Os idosos podem tomar grandes decisões e viver com as conseqüência delas. Paul Iryang Atua, de setenta e nove anos, que também mora na Nigéria, confrontava-se com uma difícil decisão. Buscara durante toda a vida uma religião que ensinasse a verdade da Bíblia. Por fim, recebeu a visita de Testemunhas de Jeová e percebeu que havia encontrado o que procurava. Entretanto, houve os que não gostaram de sua decisão.
Certo ministro, duma religião com a qual Paul se associara antes, fez-lhe uma visita. Quando viu uma Bíblia sobre a mesa, na casa de Paul, apanhou-a, chamou-a de falso livro religioso e despedaçou-a. Paul tinha agora que lidar com esse homem irado e acalmá-lo, procurando, ao mesmo tempo, defender algumas das verdades bíblicas que aprendera.
O ministro não ficou satisfeito. Saiu irado e tentou mover perseguição contra Paul. Além disso, os co-aldeões de Paul queriam designá-lo chefe da aldeia, para desviar sua atenção da recém-encontrada fé. Paul, dando-se conta do intuito deles, rejeitou a oferta.
Daí, Paul teve de tomar uma ação ainda mais difícil. A Bíblia nos diz que o cristão, para agradar a Deus, precisa ser “marido de uma só esposa”. (1 Timóteo 3:2) Assim, Paul teve de fazer arranjos, em harmonia com os princípios cristãos, para tornar-se monógamo. Foi o que fez. Seu casamento foi legalizado, e, finalmente, ele pôde ser batizado.
Lembre-se, Paul tinha setenta e nove anos quando fez esses importantes ajustes em sua vida. Ele disse: “Apesar de todas essas mudanças terem ocorrido quando eu já estava em idade avançada, sou grato a Jeová por me ter proporcionado a oportunidade de usar meus últimos dias no serviço dele.” Paul, também, tem agora uma visão muito mais brilhante do futuro do que tinha antes. Velho demais para aprender? Não Paul Iryang Atua, de setenta e nove anos!
APESAR DE DOENÇA
Pessoas idosas têm, às vezes, problemas de saúde, mas isso não precisa impedi-las de ser curiosas das coisas e de querer aprender. Certa evangelista de tempo integral, chamada Michiyo Fujimi, descobriu a veracidade disso. Michiyo visitava pessoas no norte da ilha Honxu, no Japão, quando conheceu o idoso sr. Kato.
O sr. Kato atraiu a atenção de Michiyo quando disse: “O Deus do cristianismo quer que as pessoas tenham vida, não morte. Não é isso?” Foi uma observação intrigante. No entanto, era difícil travar uma palestra, pois o homem idoso era quase totalmente surdo. Porém, estava interessado em ler, e Michiyo deixou-lhe revistas bíblicas. Ela tentou ajudá-lo a estudar a Bíblia, mas ele parecia não entender o arranjo. Portanto, durante três anos, ela levou-lhe regularmente revistas bíblicas para ler. Habituou-se a responder a quaisquer perguntas dele com lápis e papel.
Poucos meses atrás, o sr. Kato — agora com noventa anos — indicou que havia algumas coisas sobre as quais queria conversar. Ele adquirira profundo conhecimento da Bíblia por meio da leitura. Determinado artigo da revista o aconselhara a entrar em contato com as Testemunhas de Jeová, visto que estas poderiam ajudá-lo a aprender como fazer a vontade de Deus. Ele perguntou: “Como posso entrar em contato com as Testemunhas de Jeová?”
Michiyo levou o dedo indicador ao nariz — gesto japonês que significa “sou eu a pessoa”. Sim, ela era Testemunha de Jeová. O homem idoso ficou contentíssimo e quis saber onde era o Salão do Reino. Aprendera sobre isso, também, através de sua leitura. Atualmente, apesar da surdez, esse homem idoso está estudando a Bíblia por meio de lápis e papel, qual método de comunicação. Está adquirindo claro entendimento das verdades da Bíblia e se associando com co-cristãos. É o sr. Kato, aos noventa anos, velho demais para aprender? Certamente que não!
Tampouco é a sra. Takahashi. Comparada com o sr. Kato, ela talvez pareça jovem — tem “apenas” setenta e três anos! Mas tem um problema. Há quarenta e três anos ficou cega e nunca teve a oportunidade de aprender braile. Mas, quando foi contatada pelas Testemunhas de Jeová, indicou que desejava aprender sobre a Bíblia, de modo que dois evangelistas estudaram-na com ela. Devido à cegueira, tinha de memorizar o que aprendia; assim, aos setenta e três anos, a sra. Takahashi começou a gravar na memória partes da Bíblia.
Atualmente, ela assiste regularmente às reuniões religiosas apesar da deficiência e da idade dela. E, embora sofra de enjôos de movimento, já viajou 600 quilômetros para assistir a um congresso religioso. Foi batizada em 1981. Velha demais para aprender? A sra. Takahashi não pensava assim!
POR QUE DIZEM “NÃO!”
Sim, conforme disse o dr. Weinberg: “O futuro dos idosos é brilhante, contanto que preservem sua curiosidade e seu desejo de aprender e crescer.” O futuro é muito brilhante para os que na velhice desenvolvem curiosidade a respeito de Deus e de seus propósitos, e desejo de aprender sobre ele e de desenvolver-se na fé.
Compreendem que sua vida até o momento — quer tenham setenta, oitenta, noventa ou mais anos — tem sido uma dádiva de Deus. Compreendem também que, embora sejam idosos e experientes, ainda há coisas que podem aprender. De fato, segundo os cálculos de Deus, não são realmente tão velhos. A Bíblia diz: “Um só dia é para Jeová como mil anos, e mil anos, como um só dia.” (2 Pedro 3:8) Segundo esse cálculo, um homem de oitenta anos viveu apenas cerca de duas horas! Assim, mesmo a pessoa idosa pode aprender da sabedoria de Deus, que vive “de tempo indefinido a tempo indefinido”. — Salmo 90:2.
Além disso, Deus oferece a todos, jovens e idosos, a perspectiva de viver tanto quanto ele no futuro. Jesus Cristo disse: “Isto significa vida eterna, que absorvam conhecimento de ti, o único Deus verdadeiro, e daquele que enviaste, Jesus Cristo.” (João 17:3) Será que é possível ser velho demais para aceitar essa oferta de Deus? Homens e mulheres idosos em todo o mundo respondem: “Nunca!”
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