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Vender sangue é um grande negócioDespertai! — 1990 | 22 de outubro
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Vender sangue é um grande negócio
OURO VERMELHO! Como a expressão popular dá a entender, trata-se de uma substância altamente valorizada. É um precioso líquido, um crucial recurso natural que tem sido comparado não só ao ouro, mas também ao petróleo e ao carvão. No entanto, o ouro vermelho não é extraído dos veios das rochas por meio de furadeiras e dinamite. É extraído das veias das pessoas por meios muito mais sutis.
“Por favor, minha filhinha precisa de sangue”, implora um imenso cartaz que se estende sobre uma movimentada avenida em Nova Iorque. Outros anúncios instam: “Se for doador, é o tipo de pessoa sem a qual este mundo não pode viver.” “Seu sangue pesa na balança. Dê uma ajudazinha.”
As pessoas desejosas de ajudar outros evidentemente captam a mensagem. Elas se perfilam em grandes grupos, em todo o mundo. Sem dúvida a maioria, bem como as pessoas que coletam o sangue e as que o transfundem, desejam sinceramente ajudar os aflitos e crêem que estão fazendo isso.
Mas depois de o sangue ser doado e antes de ser transfundido, ele passa por mais mãos e é submetido a mais processos do que a maioria de nós se dá conta. Como o ouro, o sangue inspira a ganância. Pode ser vendido com bom lucro e então revendido com lucro ainda maior. Alguns lutam pelo direito de coletar sangue, vendem-no a preços exorbitantes, fazem fortuna com ele e podem até mesmo contrabandeá-lo de um país para o outro. No mundo todo, vender sangue é um grande negócio.
Nos Estados Unidos, antigamente se pagava diretamente os doadores pelo sangue deles. Mas, em 1971, Richard Titmuss, autor britânico, fez a acusação de que o sistema americano, por assim engodar os pobres e os doentes a doar sangue em troca de alguns dólares, era inseguro. Ele também argumentou que era imoral as pessoas lucrarem com a doação de seu sangue para ajudar outros. Seu ataque provocou o fim do pagamento de doadores de sangue integral nos Estados Unidos (embora o sistema ainda floresça em alguns países). Todavia, isso não tornou o mercado hemoterápico nem um pouco menos lucrativo. Por quê?
Como É que o Sangue Continuou Lucrativo
Na década de 40, os cientistas começaram a separar o sangue em seus vários elementos constituintes. Este processo, agora chamado de fracionamento, torna o sangue um negócio ainda mais lucrativo. Como? Bem, considere só: Um carro de último modelo, uma vez desmontado e suas peças sendo vendidas, pode valer até cinco vezes mais que o seu valor quando intacto. Similarmente, o sangue vale muito mais quando é fracionado e seus constituintes são vendidos separadamente.
O plasma, que constitui cerca da metade do volume total do sangue, é um constituinte especialmente lucrativo do sangue. Visto que o plasma não contém nenhum dos elementos celulares do sangue — glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas — pode ser liofilizado e armazenado. Ademais, nos EUA, um doador só pode doar sangue integral cinco vezes por ano, mas pode doar plasma duas vezes por semana, por submeter-se à plasmaférese. Neste processo, extrai-se o sangue integral, separa-se o plasma, e então os elementos celulares são reinfundidos no doador.
Os Estados Unidos ainda permitem que os doadores sejam pagos pelo plasma doado. Ademais, aquele país permite que os doadores doem anualmente cerca de quatro vezes mais plasma do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde! Não é de admirar, então, que os Estados Unidos coletem mais de 60 por cento dos estoques mundiais de plasma. Todo esse plasma, em si, vale cerca de US$ 450 milhões, mas alcança um preço muito maior no mercado, porque o plasma também pode ser fracionado em seus vários constituintes. Em todo o mundo, o plasma é a base de uma indústria que movimenta US$ 2.000.000.000 por ano!
O Japão, segundo o jornal Mainichi Shimbun, consome cerca de um terço do plasma do mundo. Esse país importa 96 por cento deste constituinte do sangue, a maior parte dos Estados Unidos. Críticos do próprio Japão têm chamado esse país de “o vampiro do mundo”, e o Ministério de Saúde e Bem-Estar do Japão tem tentado ser duro com tal comércio, afirmando ser desarrazoado lucrar com sangue. Com efeito, o Ministério faz a acusação de que as instituições médicas no Japão obtêm cerca de US$ 200.000.000 de lucro líquido por ano apenas de um elemento constituinte do plasma, a albumina.
A República Federal da Alemanha consome mais derivados de sangue do que o restante da Europa, mais por pessoa do que qualquer outro país do mundo. O livro Zum Beispiel Blut (Por Exemplo, Sangue) afirma sobre os derivados do sangue: “Mais da metade são importados, mormente dos EUA, mas também do Terceiro Mundo. Em todo o caso, dos pobres, que desejam melhorar sua renda por doarem plasma.” Algumas dessas pessoas pobres vendem tanto de seu sangue que morrem devido à perda excessiva de sangue.
Muitos centros comerciais de coleta de plasma acham-se estrategicamente localizados em áreas de baixa renda ou ao longo das fronteiras com países mais pobres. Atraem os pobres e os desgraçados, que se mostram por demais dispostos a trocar seu sangue por algum dinheiro, e têm amplos motivos de doar mais do que deviam, ou ocultar quaisquer doenças que possam ter. Tal tráfico de plasma surgiu em 25 países do mundo. Assim que acaba em um país, surge em outro. O suborno de autoridades, bem como o contrabando, não são incomuns.
Lucros nos Domínios Não-lucrativos
Ultimamente, porém, os bancos de sangue não-lucrativos também têm sido alvo de duras críticas. Em 1986, a repórter Andrea Rock fez a acusação, na revista Money, de que os bancos de sangue gastavam US$ 57,50 para coletar uma unidade de sangue dos doadores, que os hospitais pagavam US$ 88,00 por ela aos bancos de sangue, e que os pacientes pagavam de US$ 375 a US$ 600 para recebê-la numa transfusão.
Mudou esta situação desde então? Em setembro de 1989, o repórter Gilbert M. Gaul, do Jornal The Philadelphia Inquirer, escreveu uma série de reportagens sobre o sistema de bancos de sangue dos EUA.a Depois de uma investigação de um ano de duração, ele noticiou que alguns bancos de sangue suplicam às pessoas que doem sangue e então vendem até a metade desse sangue a outros centros hemoterápicos, com considerável lucro. Gaul calculou que os bancos de sangue negociam cerca de um milhão de pints [cerca de meio milhão de litros] de sangue por ano desta forma, num mercado obscuro de US$ 50.000.000 por ano, que funciona mais ou menos como a bolsa de valores.
Há uma diferença básica, porém: Esta bolsa de valores de sangue não é monitorada pelo governo americano. Ninguém pode medir a extensão exata desta bolsa, quanto mais regular os seus preços. E muitos doadores de sangue nada sabem a respeito dela. “As pessoas estão sendo enganadas”, disse um aposentado dono de banco de sangue ao The Philadelphia Inquirer. “Ninguém lhes conta que o sangue deles está vindo para nós. Eles ficariam furiosos se soubessem disso.” Um alto funcionário da Cruz Vermelha expressou-se de modo suscinto: “Os donos dos bancos de sangue por muitos anos têm tapeado o público americano.”
Somente nos Estados Unidos, os bancos de sangue coletam cerca de 13,5 milhões de pints [cerca de 6,5 milhões de litros] de sangue por ano, e eles vendem mais de 30 milhões de unidades de derivados do sangue por cerca de um bilhão de dólares. Trata-se de uma tremenda quantia. Os bancos de sangue não usam o termo “lucro”. Preferem a frase “saldo superior às despesas”. A Cruz Vermelha, por exemplo, obteve US$ 300 milhões de “saldo superior às despesas”, de 1980 a 1987.
Os bancos de sangue alegam que são organizações não-lucrativas. Afirmam que, diferente das grandes empresas de Wall Street, seu dinheiro não vai para os acionistas. Mas, caso a Cruz Vermelha possuísse acionistas, ela seria classificada entre as empresas mais lucrativas dos Estados Unidos, tais como a “General Motors”. E os dirigentes dos bancos de sangue deveras recebem salários apreciáveis. Dentre os dirigentes de 62 bancos de sangue entrevistados pelo The Philadelphia Inquirer, 25 por cento ganhava mais de US$ 100.000 por ano. Alguns ganhavam mais do que o dobro disso.
Os donos dos bancos de sangue também afirmam que não “vendem” o sangue que coletam — eles apenas cobram as taxas de processamento. Um dono de banco de sangue responde a tal afirmação: “Fico louco de raiva quando a Cruz Vermelha diz que não vende sangue. É como se o supermercado dissesse que está apenas cobrando a embalagem de papelão, e não o leite.”
O Mercado Global
Como o comércio de plasma, o comércio do sangue total envolve o globo. Como também o fazem as críticas contra ele. A Cruz Vermelha nipônica, por exemplo, provocou furor, em outubro de 1989, quando tentou penetrar a cotoveladas no mercado japonês por oferecer grandes descontos para derivados de sangue doado. Os hospitais obtinham grandes lucros por afirmarem, em seus formulários de seguro, que tinham comprado o sangue a preços normais.
De acordo com o jornal The Nation, da Tailândia, alguns países asiáticos tiveram de frear duramente o mercado de ouro vermelho por acabarem com as doações pagas. Na Índia, até 500.000 pessoas vendem seu próprio sangue como meio de vida. Alguns, pálidos e empobrecidos, disfarçam-se, de modo a poder doar mais sangue do que é permitido. De outros, os bancos de sangue coletam deliberadamente sangue demais.
Em seu livro Blood: Gift or Merchandise (Sangue: Dádiva ou Mercadoria), Piet J. Hagen afirma que as práticas questionáveis dos bancos de sangue manifestam-se em sua pior forma no Brasil. As centenas de bancos de sangue comerciais brasileiros operam um mercado de US$ 70 milhões que atrai os inescrupulosos. Segundo o livro Bluternte (Coleta de Sangue), os pobres e os desempregados afluem aos incontáveis bancos de sangue de Bogotá, na Colômbia. Eles vendem uma pint [cerca de meio litro] de sangue por meros 350 a 500 pesos. Os pacientes talvez paguem de 4.000 a 6.000 pesos pelo mesmo meio litro de sangue!
É evidente que, do precedente, emerge pelo menos uma realidade global: Vender sangue é um grande negócio. ‘E daí? Por que não deveria o sangue ser um grande negócio?’, alguns talvez perguntem.
Bem, o que deixa muitas pessoas apreensivas quanto a uma grande empresa em geral? É a ganância. A ganância se mostra, por exemplo, quando uma grande empresa persuade as pessoas a comprar coisas das quais elas realmente não necessitam; ou, o que é ainda pior, quando continua a impingir ao público alguns produtos reconhecidos como perigosos, ou quando se recusa a gastar dinheiro para tornar seus produtos mais seguros.
Se o comércio de sangue está manchado com tal espécie de ganância, a vida de milhões de pessoas em todo o mundo corre grande perigo. Será que a ganância corrompeu o comércio de sangue?
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Dádiva de vida ou beijo da morte?Despertai! — 1990 | 22 de outubro
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Dádiva de vida ou beijo da morte?
“Quantas pessoas têm de morrer? De quantas mortes os senhores precisam? Digam-nos de quantos mortos precisam para crerem que isto está acontecendo.”
DON FRANCIS, um dos diretores dos CDC (sigla, em inglês, dos Centros de Controle de Moléstias), deu um murro na mesa, ao bradar as palavras acima, numa reunião com altos representantes da indústria dos bancos de sangue. Os CDC tentavam convencer os donos dos bancos de sangue de que a AIDS estava espalhando-se através dos estoques de sangue daquela nação.
Os donos de bancos de sangue não se convenceram. Eles disseram que a evidência era muito tênue — apenas um punhado de casos — e decidiram não acelerar os testes de detecção do vírus no sangue. Isso aconteceu em 4 de janeiro de 1983. Seis meses depois, o presidente da Associação Americana de Bancos de Sangue asseverou: “Existe muito pouco ou nenhum perigo para o público em geral.”
Para muitos peritos, já existia suficiente evidência que justificasse certas medidas. E, desde então, aquele “punhado de casos” original ampliou-se de forma alarmante. Antes de 1985, talvez 24.000 pessoas recebiam transfusões infectadas com o HIV (sigla, em inglês, do Vírus da Imunodeficiência Humana), que causa a AIDS.
O sangue contaminado é um modo tremendamente eficaz de disseminação do vírus da AIDS. Segundo a revista The New England Journal of Medicine (4 de dezembro de 1989), uma única unidade de sangue pode transportar suficientes vírus para causar 1,75 milhão de infecções! Os CDC disseram a Despertai! que, até junho de 1990, apenas nos Estados Unidos, 3.506 pessoas já tinham manifestado a AIDS por meio de transfusões de sangue, de derivados de sangue e de transplantes de tecidos.
Mas estes são números frios. Não podem nem sequer começar a transmitir a profundeza das tragédias pessoais envolvidas. Considere, à guisa de exemplo, a tragédia de Frances Borchelt, de 71 anos. Ela declarou firmemente aos médicos que não queria uma transfusão de sangue. Mesmo assim, foi-lhe dada uma transfusão. Ela sofreu uma morte agonizante de AIDS, enquanto sua família observava sem poder fazer nada.
Ou considere a tragédia de uma jovem de 17 anos que, sofrendo de forte hemorragia menstrual, recebeu duas unidades de sangue apenas para corrigir sua anemia. Quando tinha 19 anos e estava grávida, descobriu que a transfusão a tinha contaminado com o vírus da AIDS. Aos 22 anos, manifestou-se a AIDS. Além de ficar sabendo que logo morreria de AIDS, ela ainda teve de ficar pensando se havia transmitido tal doença ao seu bebê. A lista de tragédias prossegue infindavelmente, variando dos bebês aos idosos, em todo o mundo.
Em 1987, lamentava o livro Autologous and Directed Blood Programs (Programas de Sangue Autólogos e Dirigidos): “Quase tão prontamente quanto foram definidos os grupos originais de risco, ocorreu o inimaginável: a demonstração de que esta doença potencialmente letal [a AIDS] podia ser transmitida, e estava sendo transmitida, pelo estoque de sangue doado voluntariamente. Esta era a mais amarga de todas as ironias médicas; que a preciosa dádiva vitalizadora do sangue pudesse transformar-se num instrumento de morte.”
Até mesmo medicamentos derivados do plasma ajudaram a disseminar esta praga em todo o mundo. Os hemofílicos, a maioria dos quais utilizam um agente coagulante tirado do plasma para tratar sua moléstia, foram dizimados. Nos Estados Unidos, dentre 60 a 90 por cento deles pegaram a AIDS antes de ser estabelecido um processo de tratamento do remédio pelo calor, a fim de eliminar o HIV.
Ainda assim, até os dias atuais, o sangue não está seguro contra a AIDS. E a AIDS não é o único perigo advindo das transfusões de sangue. Longe disso.
Os Riscos Que Fazem a AIDS Parecer Insignificante
O Dr. Charles Huggins diz que o sangue “é a substância mais perigosa que utilizamos na medicina”. Ele sabe o que diz; é o diretor do serviço de transfusões de sangue num hospital de Massachusetts, EUA. Muitos acham que uma transfusão de sangue é tão simples quanto encontrar alguém de sangue compatível. Mas, além dos tipos ABO, e do fator Rh, para os quais se faz rotineiramente o teste de compatibilidade, talvez haja mais ou menos 400 outras diferenças para as quais o sangue não é testado. Como observa Denton Cooley, cirurgião cardiovascular: “Uma transfusão de sangue é um transplante de órgão. . . . Acho que existem certas incompatibilidades em quase todas as transfusões de sangue.”
Não é surpreendente que transfundir tal substância complexa poderia, como um cirurgião se expressa, “confundir” o sistema imunológico do corpo. Com efeito, uma transfusão de sangue pode suprimir a imunidade por até um ano. Para alguns, este é o aspecto mais ameaçador das transfusões.
Daí, existem também as doenças infecciosas. Elas têm nomes estranhos, como a doença de Chagas e o citomegalovírus. Os efeitos variam da febre e dos calafrios até à morte. O Dr. Joseph Feldschuh, da Faculdade de Medicina de Cornell, EUA, diz que existe 1 probabilidade em 10 de contrair-se alguma espécie de infecção através duma transfusão. É como brincar de roleta russa com um revólver com tambor de dez balas. Recentes estudos também demonstram que as transfusões de sangue durante a cirurgia do câncer podem, na realidade, aumentar o risco de recidiva.
Não é de admirar que um programa noticioso de TV afirmasse que a transfusão de sangue poderia ser o maior obstáculo para a pessoa recuperar-se duma cirurgia. A hepatite infecta centenas de milhares e mata muitos mais receptores de transfusão do que a AIDS, mas recebe pouca publicidade. Ninguém sabe a extensão das mortes, mas o economista Ross Eckert diz que pode ser equivalente a um jato DC-10, repleto de passageiros, que caia todo mês.
Os Riscos e os Bancos de Sangue
Como é que os bancos de sangue reagem à exposição de todos estes riscos de seu produto? Nada bem, acusam os críticos. Em 1988, o Report of the Presidential Commission on the Human Immunodeficiency Virus Epidemic (Relatório da Comissão Presidencial Sobre a Epidemia do Vírus da Imunodeficiência Humana, dos EUA) acusou a indústria de ser “desnecessariamente lenta” diante da ameaça da AIDS. Tinha-se instado com os bancos de sangue a desencorajar os membros dos grupos de alto risco a doar sangue. Tinha-se instado com eles a testar o sangue dos doadores de alto risco, procurando detectar sinais do vírus. Os bancos de sangue demoraram a agir. Eles menosprezaram os riscos como uma espécie de histeria. Por quê?
Randy Shilts, em seu livro, And the Band Played On (E a Banda Continuou a Tocar), faz a acusação de que alguns donos de bancos de sangue opunham-se a testes adicionais “quase que inteiramente por motivos fiscais. Embora seja mormente dirigida por organizações não-lucrativas, tais como a Cruz Vermelha, a indústria hemoterápica representava muito dinheiro, com receitas anuais de um bilhão de dólares. Ficou ameaçado o seu negócio de fornecer sangue para 3,5 milhões de transfusões por ano”.
Ademais, visto que os bancos de sangue não-lucrativos dependiam tanto de doadores voluntários, eles hesitavam em ofender a quaisquer deles por excluírem certos grupos de alto risco, os homossexuais em especial. Os defensores dos direitos dos gays avisaram peremptoriamente que proibi-los de doar sangue violaria seus direitos civis e soaria como a mentalidade dos campos de concentração do passado.
Perder doadores e acrescentar novos testes também custaria mais. Na primavera setentrional de 1983, o Banco de Sangue da Universidade de Stanford tornou-se a primeira a usar um teste substituto para o sangue, que podia indicar se o sangue provinha de doadores de alto risco de AIDS. Outros donos de bancos de sangue criticaram tal passo como uma jogada comercial para atrair mais pacientes. Os testes deveras aumentam os preços. Mas, como se expressou um casal, cujo bebê recebeu uma transfusão sem que eles soubessem: “Certamente pagaríamos mais US$ 5 por pint [cerca de meio litro]” para que tais testes fossem feitos. O bebê morreu de AIDS.
O Fator da Autopreservação
Alguns peritos dizem que os bancos de sangue são lentos em reagir diante dos perigos contidos no sangue porque não têm solução para as conseqüências de suas próprias falhas. Por exemplo, de acordo com o relatório publicado em The Philadelphia Inquirer, a FDA (sigla, em inglês, de Administração de Alimentos e Remédios, dos EUA) é responsável por verificar que os bancos de sangue respeitem as normas estabelecidas, mas ela depende muitíssimo dos bancos de sangue na fixação de tais normas. E alguns dos dirigentes da FDA são ex-líderes da indústria hemoterápica. Assim, as inspeções feitas aos bancos de sangue realmente diminuíram de freqüência, à medida que se manifestava a crise de AIDS!
Os bancos de sangue dos EUA também têm seus lobbies que trabalham a favor de leis que os protejam de processos judiciais. Em quase todos os estados dos EUA, a lei agora diz que o sangue é um serviço, e não um produto. Isso significa que uma pessoa que processe um banco de sangue precisa provar que houve negligência criminosa por parte do banco — um difícil obstáculo legal. Tais leis talvez dêem segurança aos bancos de sangue contra processos judiciais, mas elas não tornam o sangue mais seguro para os pacientes.
Como arrazoa o economista Ross Eckert, se os bancos de sangue fossem julgados legalmente responsáveis pelo sangue que comercializam, eles fariam maior empenho de garantir a sua qualidade. Aaron Kellner, um aposentado dono de banco de sangue, concorda: “Por meio de pequena dose de alquimia legal, o sangue tornou-se um serviço. Ninguém precisava preocupar-se, ninguém, isto é, exceto a vítima inocente, o paciente.” Acrescenta ele: “Nós podíamos pelo menos ter apontado a falta de eqüidade, mas não apontamos. Estávamos preocupados com o perigo que nós próprios corríamos; onde é que estava nossa preocupação com o paciente?”
A conclusão parece inescapável. A indústria dos bancos de sangue está muito mais interessada em proteger-se financeiramente do que em proteger as pessoas dos riscos de seu produto. ‘Mas será que todos esses riscos realmente importam’, alguns poderiam arrazoar, ‘se o sangue é o único tratamento possível para salvar uma vida? Será que os benefícios não ultrapassam os riscos?’ Essas são boas perguntas. Exatamente quão necessárias são todas aquelas transfusões?
[Destaque na página 9]
Os médicos fazem grandes empenhos de proteger-se do sangue de seus pacientes. Mas são os pacientes suficientemente protegidos do sangue transfundido?
[Quadro/Foto nas páginas 8, 9]
Mostra-se Atualmente o Sangue Seguro Contra a AIDS?
“São Boas Novas Sangrentas”, proclamava uma manchete do Jornal Daily News, de Nova Iorque, de 5 de outubro de 1989. O artigo noticiava que as probabilidades de contrair-se AIDS em uma transfusão de sangue são de 1 em 28.000. Dizia que o processo para se impedir que o vírus penetre nos estoques de sangue apresenta agora 99,9 por cento de eficácia.
Similar otimismo reina na indústria dos bancos de sangue. ‘Os estoques de sangue são mais seguros do que nunca’, afirmam eles. O presidente da Associação Americana dos Bancos de Sangue disse que o risco de se contrair AIDS através do sangue já foi “virtualmente eliminado”. Mas, se o sangue é tão seguro, por que os tribunais e os médicos lhe atribuem rótulos como “tóxico” e “inevitavelmente inseguro”? Por que alguns médicos realizam operações trajados do que parece ser um traje espacial, com máscara facial e botas impermeáveis, tudo para evitar o contato com o sangue? Por que tantos hospitais pedem aos pacientes que assinem um formulário de consentimento que isenta o hospital de responsabilidade civil pelos efeitos prejudiciais das transfusões de sangue? Mostra-se o sangue realmente seguro contra doenças tais como a AIDS?
A segurança depende das duas medidas usadas para proteger o sangue: submeter a testes os doadores e testar o sangue propriamente dito. Estudos recentes demonstram que, apesar de todos os esforços de excluir, pelos testes, os doadores de sangue cujo estilo de vida os coloque no grupo de alto risco de AIDS, ainda há alguns que conseguem burlar o teste. Eles fornecem respostas incorretas ao questionário e doam sangue. Alguns apenas desejam verificar discretamente se eles mesmos estão infectados.
Em 1985, os bancos de sangue começaram a testar o sangue para verificar a presença dos anticorpos que o corpo produz para combater o vírus da AIDS. O problema com tal teste é que a pessoa pode estar infectada com o vírus da AIDS já por algum tempo sem manifestar quaisquer anticorpos que o teste detectaria. Esta lacuna crucial é chamada de período de incubação.
A idéia de que existe 1 probabilidade em 28.000 de contrair a AIDS através de uma transfusão de sangue provém de um estudo publicado na The New England Journal of Medicine. Esse periódico fixou o mais provável período de incubação como uma média de oito semanas. Apenas alguns meses antes, porém, em junho de 1989, a mesma revista publicou um estudo que concluía que o período de incubação pode ser bem maior — de três anos ou mais. Este estudo anterior sugeria que tais longos períodos de incubação podem ser mais comuns do que antes se julgava, e especulava que, o que era pior ainda, alguns dos infectados talvez jamais desenvolvessem anticorpos do vírus! O estudo mais otimista, porém, não incluiu tais descobertas, dizendo que “não eram bem entendidas”.
Não é de admirar que a Dra. Cory SerVass, da Comissão Presidencial da AIDS, dos EUA, dissesse: “Os bancos de sangue podem continuar dizendo ao público que o estoque de sangue é tão seguro quanto possa ser, mas o público não está acreditando mais nisso, porque sente que isso não é verdade.”
[Crédito]
Os CDC, Atlanta, Geórgia, EUA
[Quadro na página 11]
O Sangue Transfundido e o Câncer
Os cientistas estão verificando que o sangue transfundido pode bloquear o sistema imunológico e que a supressão da imunidade pode afetar adversamente a taxa de sobrevivência dos que são operados de câncer. Em seu número de 15 de fevereiro de 1987, a revista Cancer noticiou um estudo informativo realizado nos Países-Baixos. “Em pacientes com câncer do cólon”, dizia a revista, “notou-se significativo efeito adverso da transfusão sobre a sobrevida a longo prazo. Neste grupo havia uma sobrevida cumulativa geral de 5 anos de 48% dos pacientes transfundidos e de 74% para os não-transfundidos”.
Médicos da Universidade do Sul da Califórnia, EUA, também comprovaram que, dentre os pacientes que tinham sido operados de câncer, muitos mais apresentavam uma recidiva, se haviam recebido uma transfusão. A revista Annals of Otology, Rhinology & Laryngology, de março de 1989, comunicava um estudo de acompanhamento de cem pacientes, por parte destes médicos: “A taxa de recidiva para todos os casos de câncer da laringe era de 14% para os que não receberam sangue, e de 65% para os que receberam. Para o câncer da cavidade oral, da faringe, e do nariz ou sinus, a taxa de recidiva era de 31% sem as transfusões, e de 71% com as transfusões.”
Em seu artigo “As Transfusões de Sangue e a Cirurgia de Câncer”, o Dr. John S. Spratt concluiu: “O cirurgião cancerologista talvez precise tornar-se um cirurgião que não empregue sangue.” — Revista The American Journal of Surgery, de setembro de 1986.
[Fotos na página 10]
Que o sangue é um remédio que salva a vida é um assunto discutível, mas que mata pessoas não é.
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Transfusões — são a chave para a sobrevivência?Despertai! — 1990 | 22 de outubro
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Transfusões — são a chave para a sobrevivência?
EM 1941, o Dr. John S. Lundy fixou um padrão para as transfusões de sangue. Pelo visto, sem nenhuma evidência clínica que o apoiasse, ele disse que, se um paciente tiver sua hemoglobina, o constituinte do sangue que transporta o oxigênio, reduzida a um nível de dez gramas ou menos para cada decilitro de sangue, então tal paciente precisa de uma transfusão. Depois disso, esse número se tornou um parâmetro para os médicos.
Este parâmetro de dez gramas tem sido questionado por quase 30 anos. Em 1988, a revista The Journal of the American Medical Association declarou expressamente que não existe evidência em apoio a essa orientação geral. O anestesiologista Howard L. Zauder afirma que ela está “envolta em tradição, está revestida de obscuridade e não é consubstanciada por evidência clínica ou experimental”. Outros simplesmente a chamam de mito.
Apesar de todo este vigoroso desmascaramento, esse mito ainda é amplamente reverenciado como sólida orientação geral. Para muitos anestesiologistas e outros médicos, um nível de hemoglobina inferior a dez é o sinal para se dar uma transfusão, a fim de corrigir a anemia. Isso é feito praticamente de modo automático.
Sem dúvida, isso ajuda a explicar o amplo emprego excessivo do sangue e dos derivados de sangue, atualmente. A Dra. Theresa L. Crenshaw, que serviu na Comissão Presidencial Sobre a Epidemia do Vírus da Imunodeficiência Humana (dos EUA) calcula que, apenas nos Estados Unidos, ministram-se desnecessariamente, todo ano, cerca de dois milhões de transfusões, e que se poderia evitar cerca da metade de todas as transfusões de sangue estocado em bancos de sangue. O Ministério de Saúde e Bem-Estar Social do Japão lastimou “o uso indiscriminado de transfusões” no Japão, bem como a “crença cega em sua eficácia”.
O problema de tentar corrigir a anemia por meio duma transfusão de sangue é que a transfusão pode ser mais mortífera do que a anemia. As Testemunhas de Jeová, que recusam as transfusões de sangue primariamente por motivos religiosos, têm ajudado a provar tal ponto.
Talvez tenha visto manchetes de jornais anunciando a morte de uma das Testemunhas de Jeová por ter recusado a transfusão de sangue. Infelizmente, tais notícias raramente contam a história toda. Com freqüência, é a recusa dum médico em operar a Testemunha, ou de operá-la logo, que resulta em sua morte. Alguns cirurgiões se recusam a operar sem terem a liberdade de transfundir sangue, se o nível de hemoglobina cai abaixo de dez. No entanto, muitos cirurgiões têm operado com êxito Testemunhas com um nível de hemoglobina de cinco, dois e até menos. Diz o cirurgião Richard K. Spence: “O que tenho verificado no caso das Testemunhas é que o nível mais baixo de hemoglobina não tem nenhuma relação com a mortalidade.”
Abundantes Alternativas
‘Sangue ou morte.’ É assim que alguns médicos descrevem as alternativas que confrontam um paciente que é Testemunha. Todavia, em realidade, existem muitas alternativas para a transfusão de sangue. As Testemunhas de Jeová não estão interessadas em morrer. Elas se interessam por tratamentos alternativos. Visto que a Bíblia proíbe a ingestão de sangue, elas simplesmente não consideram as transfusões de sangue como uma alternativa.
Em junho de 1988, o Report of the Presidential Comission on the Human Immunodeficiency Virus Epidemic, dos EUA, sugeriu que se desse a todos os pacientes aquilo que as Testemunhas têm solicitado por anos a fio, a saber: “O consentimento conscientizado para a transfusão de sangue ou seus elementos constituintes deve incluir uma explicação dos riscos envolvidos. . . e informações sobre alternativas apropriadas para a terapia transfusional de sangue homólogo.”
Em outras palavras, os pacientes devem ter o direito de escolha. Uma dessas escolhas é o tipo de transfusão autóloga. Durante a operação, recupera-se o sangue do próprio paciente e ele é reinjetado nas veias do paciente. Nos casos em que tal processo é simplesmente uma extensão do sistema circulatório do próprio paciente, é bem aceitável para a maioria das Testemunhas. Os cirurgiões também sublinham o valor de se aumentar o volume do plasma do paciente mediante expansores isentos de sangue, deixando que o próprio corpo supra de novo suas próprias hemácias (glóbulos vermelhos). Tais técnicas têm sido usadas em lugar de transfusões, sem aumentar a mortalidade. Com efeito, elas podem aprimorar a segurança.
Recentemente foi aprovada, para uso limitado, uma promissora droga medicamentosa chamada eritropoietina recombinante. Ela acelera a produção de hemácias pelo próprio corpo, ajudando efetivamente a pessoa a produzir mais do seu próprio sangue.
Os cientistas ainda procuram um substituto eficaz do sangue que imite sua notável capacidade de transporte de oxigênio. Nos Estados Unidos, os fabricantes de tais substitutos acham difícil obter a aprovação para seus produtos. Todavia, como um de tais fabricantes objetou: “Se pensasse em submeter o sangue à FDA [sigla, em inglês, da Administração de Alimentos e Remédios] para ser aprovado, não teria a mínima chance de ele ser submetido a testes, de tão tóxico que é.” Ainda assim, são grandes as esperanças de que se descubra uma substância química eficaz que seja aprovada como um transportador de oxigênio substituto para o sangue.
Assim, existem escolhas. As mencionadas aqui são apenas algumas das que se acham disponíveis. Como o Dr. Horace Herbsman, professor de cirurgia clínica, escreveu na revista Emergency Medicine: “É. . . bem claro que deveras temos alternativas para a substituição do sangue. Deveras, talvez nossa experiência com as Testemunhas de Jeová poderia ser interpretada como significando que não precisamos depender de transfusões de sangue, com todas as suas complicações em potencial, tanto quanto outrora pensávamos.” Naturalmente, nada disso é realmente novo. Como comentado em The American Surgeon: “O fato de que se podem realizar grandes operações de forma segura, sem transfusões de sangue, já se acha amplamente documentado nos últimos 25 anos.”
Mas, se o sangue é perigoso, e existem alternativas seguras para o seu uso, então por que milhões de pessoas são transfundidas desnecessariamente — muitas delas sem o saber, e outras realmente contra a sua vontade? O informe da Comissão Presidencial Sobre a AIDS observa, em parte, o fracasso de instruir os médicos e os hospitais sobre as alternativas. Culpa, ainda, outro fator: “Alguns centros hemoterápicos regionais têm hesitado em promover estratégias que minimizem o uso das terapias transfusionais, visto que sua renda operacional se deriva da venda de sangue e de derivados de sangue.”
Em outras palavras: Vender sangue é um grande negócio.
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