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Vingança do sangue dos inocentesA Sentinela — 1973 | 15 de novembro
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“o homem veio a ser uma alma vivente”, quer dizer, o homem era uma alma; não possuía uma alma. (Gên. 2:7) Mas, após o Dilúvio, Jeová fez uma mudança nos seus tratos com a humanidade com respeito ao derramamento do sangue. Jeová deu ao homem a responsabilidade sagrada de agir imediatamente como executor de Jeová dos assassinos deliberados. Este mandamento foi declarado com relação à autorização de comer a carne de animais, mas Jeová advertiu Noé especificamente a respeito da santidade do sangue e da vida contida no sangue. “Todo animal movente que está vivo pode servir-vos de alimento. Como no caso da vegetação verde, deveras vos dou tudo. Somente a carne com a sua alma — seu sangue — não deveis comer. E, além disso, exigirei de volta vosso sangue das vossas almas. Da mão de cada criatura vivente o exigirei de volta; e da mão do homem, da mão de cada um que é seu irmão exigirei de volta a alma do homem. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem será derramado o seu próprio sangue, pois à imagem de Deus fez ele o homem.” (Gên. 9:3-6) Impôs-se assim a pena de morte à humanidade como requisito divino, e com o passar do tempo tornou-se bastante claro que a falta do cumprimento deste requisito traria novamente séria culpa de sangue.
NENHUM RESGATE PELA CULPA DE SANGUE
6. Segundo a lei de Moisés, como somente podia a terra ser mantida sem poluição pela culpa de sangue, e de que alcance era esta provisão?
6 Séculos depois, Jeová Deus enfatizou novamente seu alto conceito da vida da “alma” ao prescrever a punição pela violação da lei de Israel mediada por Moisés. Jeová disse: “E teu olho não deve ter dó: será alma por alma, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé.” (Deu. 19:21) Jeová advertiu mais o seu povo quando este estava pronto para entrar na Terra da Promessa: “E não deveis poluir a terra em que estais; porque é o sangue que polui a terra, e não pode haver nenhuma expiação para a terra quanto ao sangue que se derramou sobre ela, exceto pelo sangue daquele que o derramou.” (Núm. 35:33) Tão grande era o alcance da provisão de Jeová, de manter a terra livre de poluição por cansa da culpa de sangue dos seus habitantes, que até mesmo providenciou para os casos em que o assassino não fosse conhecido. Não se podia permitir que a perda duma vida inocente fizesse com que o solo continuasse poluído. — Deu. 21:1-9.
7. (a) Quem foi autorizado em Israel a vingar alguém que foi morto, e como se desincumbia ele de sua responsabilidade? (b) Em que diferia a lei de Israel de práticas posteriores, especialmente em tempos medievais?
7 O autorizado, sob a lei de Israel, a vingar o sangue do morto era chamado de “vingador do sangue” ou go’el΄ e era o parente masculino mais próximo do que foi morto. (Núm. 35:19) Visto que o parente mais próximo estaria pessoalmente envolvido com o que foi morto, é compreensível que ele teria vivo interesse em cumprir esta responsabilidade, levantando-se até mesmo num acesso de ira para vingar a vida de seu parente. Se o assassino era conhecido, então a expiação pelo sangue do morto tinha de ser rápida e certa. “Caso haja um homem que odeia seu próximo, e ele se tenha posto de emboscada contra este e se tenha levantado contra ele e golpeado fatalmente a sua alma, e ele tenha morrido, e o homem tenha fugido para uma destas cidades [de refúgio], então os homens mais maduros da sua cidade têm de mandar tirá-lo de lá, e têm de entregá-lo na mão do vingador do sangue, e ele tem de morrer. Teu olho não deve ter dó dele, e tens de eliminar de Israel a culpa pelo sangue inocente, para que te vá bem.” (Deu. 19:11-13) Não se concedia santuário ou asilo ao assassino deliberado, nem se podia pagar resgate pela sua alma. (Núm. 35:31) Nos tempos antigos e nos medievais, em muitos países concedia-se asilo a qualquer pessoa, mesmo que fosse culpada de assassinato. As igrejas da cristandade tornaram-se assim santuários para os que deliberadamente violavam a lei de Deus. Isto não era tolerado sob a lei do antigo Israel. Um exemplo de que nem mesmo o altar sagrado das ofertas queimadas provia asilo é o caso de Joabe. Quando não quis soltar os chifres do altar e sair, Salomão mandou que fosse executado ali mesmo no pátio da tenda de Jeová, por sua participação na rebelião de Adonias e por matar Abner e Amasa. — 1 Reis 2:28-34.
MISERICÓRDIA PARA COM O HOMICIDA DESINTENCIONAL
8. (a) Por que não havia nenhuma culpa de sangue por parte do vingador do sangue, por ele tirar a vida do homicida? (b) Havia culpa de sangue da parte do vingador do sangue se ele tirou a vida dum homicida desintencional? Como ficava a terra poluída em tal caso?
8 Quando o vingador do sangue alcançava tal matador, então não havia culpa de sangue em resultado da execução do assassino porque de fato estava fazendo expiação pelo sangue inocente que de outro modo faria com que a terra ficasse poluída. (Núm. 35:33) Mas, o que se dava quando a matança era acidental e não havia malevolência ou premeditação? Em tal caso, a perda da vida era desintencional, sem se procurar o mal do morto. Se o vingador do sangue alcançasse o homicida desintencional e o matasse num acesso de ira, então, visto que o homicida era inocente quanto a um assassinato premeditado, seu próprio parente próximo poderia levantar-se indignado contra o executor de seu parente e se tiraria outra vida inocente, visto que o primeiro vingador do sangue tinha o direito legal de se lançar sobre o homicida desintencional. Isto poderia facilmente criar uma inimizade sangrenta na qual se poderia perder uma vida inocente após outra, e o país teria sido banhado em sangue.
9. Que provisão de asilo se fez para o homicida desintencional?
9 Para impedir tal poluição da terra, e como ato de misericórdia, Jeová exigiu que se estabelecessem em Israel cidades como asilos, nas quais o homicida involuntário poderia refugiar-se contra o vingador do sangue. “E as cidades têm de servir-vos de refúgio contra o vingador do sangue, para que o homicida não morra até comparecer perante a assembléia para julgamento. E as cidades que dareis, as seis cidades de refúgio, estarão à vossa disposição. Dareis três cidades deste lado do Jordão e dareis três cidades na terra de Canaã. Servirão de cidades de refúgio. Estas seis cidades servirão de refúgio para os filhos de Israel e para o residente forasteiro, e para o colono no meio deles, a fim de fugir para lá aquele que sem querer tenha golpeado fatalmente uma alma.” (Núm. 35:10-15; Deu. 19:1-3, 8-10) Estas cidades tinham de estar perto e facilmente acessíveis, conforme se declara em Deuteronômio 19:6: “Do contrário, o vingador do sangue, por arder-lhe o coração, poderá ir no encalço do homicida e realmente alcançá-lo, visto que o caminho é longo; e deveras poderá golpear fatalmente a sua alma, visto que não há sentença de morte contra ele, pois não o odiou anteriormente.” Além disso, embora não seja declarado especificamente na Bíblia, a tradição judaica nos informa que as estradas que levavam às cidades de refúgio eram feitas muito largas e planas, para que não houvesse impedimentos no caminho, e eram mantidas constantemente em bom estado.
SEGURANÇA APENAS NA CIDADE DE REFÚGIO
10. Como se decidia se um homem tinha direito ao asilo na cidade de refúgio?
10 Embora qualquer que tirasse uma vida pudesse fugir para tal cidade, só se concedia asilo até que o homicida pudesse ser julgado perante os anciãos da sua cidade, em cuja jurisdição ocorreu o homicídio. (Jos. 20:4-6) E “então a assembléia [tinha] de julgar entre o golpeador e o vingador do sangue segundo estes julgamentos”. (Núm. 35:24) Caso fosse achado culpado de assassinato, o homicida tinha de ser entregue sem demora ao vingador do sangue para ser executado. (Núm. 35:30) Por outro lado, se o homicida fosse achado inocente de malevolência, não tendo odiado anteriormente o morto, então “a assembléia [tinha] de livrar o homicida da mão do vingador do sangue e a assembléia [tinha] de devolvê-lo à sua cidade de refúgio à qual fugiu, e ele [tinha] de morar nela até a morte do sumo sacerdote que foi ungido com o óleo sagrado”. — Núm. 35:25.
11. Como somente podia a cidade continuar a ser lugar de refúgio para o homicida, e o que incutiria isso nele?
11 A fim de se assegurar o contínuo refúgio, o homicida tinha de permanecer dentro dos limites da cidade, seus subúrbios e seus pastos, que se estendiam por mil côvados para fora da cidade. “Mas, se o homicida sair terminantemente dos termos de sua cidade de refúgio à qual tenha fugido e o vingador do sangue deveras o encontrar fora do termo de sua cidade de refúgio, e o vingador do sangue deveras matar o homicida, ele não terá culpa de sangue. Pois, devia morar na sua cidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote, e depois da morte do sumo sacerdote o homicida pode voltar à terra de sua propriedade.” (Núm. 35:26-28) Isto significava que, uma vez que o homicida entrou na cidade como habitante aceito da cidade, tendo provado sua inocência quanto a matar intencionalmente por passar pelo devido julgamento, então ele não podia sair da cidade, nem mesmo temporariamente por motivo algum, sem arriscar a vida. Isto incutia no homicida a seriedade do que tinha feito, embora inocentemente, e incutia nele continuamente a misericórdia de Jeová em conceder-lhe este asilo. Declarou-se mais: “E não deveis aceitar resgate por alguém que fugiu para a sua cidade de refúgio, para ele voltar a morar no país antes da morte do sumo sacerdote.” (Núm. 35:32) Se não, teria zombado da provisão de Jeová e teria sugerido que a vida podia ser comprada de Jeová.
12. Era o homicida mantido prisioneiro na cidade? O que o retinha ali e o que tinha de fazer durante a sua estada nela?
12 Admitir-se a tal na cidade de refúgio não devia tornar-se um fardo para os habitantes da cidade. Era razoável que, enquanto se encontrasse ali contribuísse para o bem-estar da cidade e trabalhasse para seu sustento. Talvez fizesse isso por trabalhar no seu próprio ofício, caso se ajustasse à vida da cidade. Senão, poderia até mesmo ter de aprender um novo ofício. Nada na lei de Jeová permitia a mendicância ou viver-se da caridade dos outros, sem se contribuir algo em troca, se se fosse fisicamente capaz. Até mesmo a viúva e o órfão que talvez não tivessem nem terra nem meios de sustento, embora se fizessem provisões abundantes para eles, ainda assim tinham de trabalhar pelo que recebiam. (Deu. 24:17-22) É interessante notar que, embora os homicidas não fossem mantidos presos na cidade e tivessem a liberdade de se locomover como quisessem, ainda assim o induzimento de Jeová para satisfazer a sua provisão de segurança era de natureza tal, que apenas os mais temerários tentariam violá-la.
13. Que particularidades adicionais da lei de Israel tornavam claro que tirar uma vida, mesmo que desintencionalmente, não devia ser encarado levianamente?
13 Além disso, não se devia abusar da misericórdia de Jeová em prover refúgio para o homicida desintencional, nem permitia a lei negligência imperdoável como motivo de misericórdia. Por exemplo, quando um homem construía uma casa nova, exigia-se dele que fizesse um parapeito para o seu terraço; senão, cair alguém do terraço lançaria culpa de sangue sobre a casa. (Deu. 22:8) Se um homem que era proprietário dum touro que costumava escornar, tendo sido avisado, deixou de manter seu touro sob guarda e o touro matou alguém, o proprietário do touro tinha culpa de sangue e podia ser morto. (Êxo. 21:28-32) Quando um ladrão era apanhado arrombando a noite e era morto na luta para prendê-lo, não havia culpa de sangue. Mas, se isto acontecia de dia, quando podia ser visto bem, quem o golpeasse futilmente teria culpa de sangue. (Êxo. 22:2, 3) Deveras, a lei de Jeová estava em perfeito equilíbrio, exigindo do iníquo retribuição justa, mas concedendo misericórdia aos que caíam no pecado ou numa violação desintencional da lei.
RETRIBUIÇÃO SEGURA E BREVE
14. Como aceitou Israel, como nação, os requisitos da Lei quanto à santidade do sangue, e que denúncia estavam os profetas de Deus autorizados a fazer?
14 Como esta provisão eqüitativa de Jeová veio a indiciar o antigo Israel! Embora toda a lei de Israel desse ênfase à santidade da vida e à santidade do sangue, desde o começo dos seus tratos com Israel, apenas um pequeno restante acatou os rogos repetidos que Jeová achou necessário fazer ao seu povo, ‘levantando-se cedo e enviando seus profetas’, para adverti-los da certeza da retribuição justa. Eles não só se negaram a acatar a advertência de Jeová, mas voltaram-se em violência contra os Seus profetas e os mataram cruelmente, acrescentando assim o sangue destes inocentes à sua culpa perante Jeová. (Jer. 26:2-8) Por isso, Jeová enviou-lhes esta denúncia por meio de Jeremias: “Também, nas tuas saias foram achadas as manchas de sangue das almas dos pobres inocentes. Não as encontrei no ato de arrombamento, mas estão em todas estas.” (Jer. 2:34) E por meio de Isaías: “A própria terra foi poluída sob os seus habitantes, pois deixaram de lado as leis, mudaram o regulamento, violaram o pacto de duração indefinida. Por isso é que a própria maldição consumiu a terra e os que habitam nela são considerados culpados. Por isso é que os habitantes da terra diminuíram em número e restaram poucos homens mortais.” — Isa. 24:5, 6.
15. Que retribuição trouxe Jeová sobre seu povo de Israel nos dias de Jeremias, e que responsabilidade adicional neste respeito tinham os descendentes deles nos dias de Jesus?
15 Jerusalém foi destruída em 607 A. E. C. por causa de seus muitos crimes contra Jeová, inclusive sua culpa de sangue, e apenas um restante ficou sem condenação. Mas, apesar deste apavorante ato retributivo de Jeová, os líderes da religião falsa, dos dias de Jesus, não podiam negar a sua própria culpa de sangue, assim como tampouco puderam os líderes religiosos do tempo de Jeremias, pois, em ambos os casos, suas saias estavam vermelhas do sangue dos fiéis de Jeová, inclusive o do seu próprio Filho amado. — Mat. 23:33-36; 27:24, 25; Luc. 11:49-51.
16. Que atitude adotam as nações hoje na questão da santidade do sangue e qual deve ser o nosso conceito?
16 Agora, hoje, a culpa de sangue de todas as nações da terra atingiu sua plenitude. Tão grande é a culpa de sangue da “meretriz” Babilônia, a Grande, o império mundial da religião falsa, que se diz que ela está embriagada com o sangue do povo de Jeová. (Rev. 17:5, 6; 18:24) O Vingador do sangue, da parte de Jeová, está para vir a qualquer momento para golpear, e ai daquele que for apanhado na companhia dela! (Rev. 18:4) Tais culpados de sangue “não viverão metade dos seus dias”, segundo disse Davi. (Sal. 55:23) Devemos seriamente orar junto com o salmista: “Livra-me da culpa de sangue, ó Deus, o Deus da minha salvação”, e “salva-me dos homens culpados de sangue”. (Sal. 51:14; 59:2) Então, no futuro muito próximo, quando se elevar no céu o poderoso coro de louvor a Jeová, por terem sido destruídos os últimos elementos de Babilônia, a Grande, e por ter sido vingado o sangue de todos os inocentes, nossa voz se juntará na terra a todos os que escaparam da espada retributiva do Vingador de Jeová. — Rev. 19:1, 2, 15, 21.
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Abandonar a cidade de refúgio significa perder a vidaA Sentinela — 1973 | 15 de novembro
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Abandonar a cidade de refúgio significa perder a vida
1. Em que situação está a cristandade, assim como estiveram os judeus nos dias de Jesus?
MUITA culpa de sangue recai hoje sobre a cristandade e sobre todo o mundo. Muitas pessoas sinceras, por não terem matado pessoalmente um homem ou se empenhado diretamente numa guerra, não se apercebem de sua própria participação pessoal nesta culpa. Não obstante, precisam assumir parte desta responsabilidade com os representados na profecia como tendo derramado sangue inocente. A cristandade está atualmente na mesma situação dos judeus dos dias de Jesus, aos quais Jesus disse: “Eu vos estou enviando profetas, e sábios, e instrutores públicos. A alguns deles matareis e pendurareis em estacas, e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que venha sobre vós todo o sangue justo derramado na terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem assassinastes entre o santuário e o altar. Deveras, eu vos digo: Todas essas coisas virão sobre esta geração. Jerusalém, Jerusalém, matadora dos profetas e apedrejadora dos que lhe são enviados.” — Mat. 23:34-37.
2. Como veio Jerusalém a ter antecedentes manchados de sangue, e que retribuição recebeu ela?
2 A história manchada de sangue de Jerusalém não provinha de ela se empenhar
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