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A persistente praga — o lado negro da revolução sexualDespertai! — 1985 | 8 de fevereiro
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A persistente praga — o lado negro da revolução sexual
ALGUNS afirmam que Cristóvão Colombo é o culpado. Nesse caso, seus marujos talvez tenham levado mais do Novo Mundo do que berloques de ouro e incríveis lorotas. Ocultas em seus corpos, talvez estivessem as sementes duma praga.
Nem todos os pesquisadores, porém, esposam tal teoria. Alguns até mesmo afirmam que a praga é quase “tão antiga quanto a própria humanidade”. Vestígios dela, afirmam, são encontrados nas múmias do Egito. Escritos antigos parecem descrever vividamente seus sintomas. Ademais, indagam, como poderiam tão poucos marujos infetar a tantos?
A origem da praga constitui, assim, matéria de debate erudito e talvez continue sempre um mistério. Uma coisa, contudo, é bem clara: Por volta do fim do século 15 (pouco depois da volta de Colombo), surgiu subitamente uma praga na Europa que se espalhou como um incêndio pela planície. Morreram milhares — talvez milhões. E, no pânico resultante, as vítimas da praga foram banidas, submetidas a quarentena, enforcadas e até mesmo afogadas.
Não é surpreendente que as nações afligidas se tenham revezado em culpar umas às outras. Afirma o escritor Louis Lasagna: “Os ingleses e os turcos a chamaram de mal-gálico, os persas culparam os turcos, e os flamengos e os holandeses se referiram a ela como a sífilis espanhola, os franceses a chamaram de mal-italiano ou napolitano, os italianos culparam quer os espanhóis, quer os franceses [gálicos], os portugueses a chamaram de mal-castelhano . . . os russos julgaram tratar-se do mal-polaco, e os poloneses a atribuíram aos alemães.” O imperador do Santo Império Romano, Maximiliano I, contudo, concebeu uma teoria mais elevada. Em seu edito de 1495, declarou tratar-se dum castigo pela blasfêmia.
Mal tinham passado 35 anos, Fracastoro, médico-poeta, inventou uma lenda a respeito dum pastor afligido por este morbo. O poema em si talvez há muito já tenha sido esquecido, mas não o nome arrepiante dado ao seu pastor, do qual se deriva o nome da própria doença — Sífilo.
Recusando-se a Ceder
Seria de julgar-se que as pragas que assolam, matam e aleijam ficariam tão extintas quanto os dinossauros em nossa era dos tomógrafos computadorizados e da cirurgia a laser. Todavia, a sífilis, junto com uma gama de outras moléstias devastadoras, acha-se tão arreigada na vida do século 20 quanto a poluição do ar. Os médicos costumavam chamar esta praga moderna de doença venérea, em honra a Vênus, a antiga deusa romana do amor. Mas, está em voga novo termo que enfoca a transmissão da doença, em vez de como é contraída: DST ou “doença sexualmente transmissível [ou, transmitida]”.a “DST” é, assim, um termo geral para todo um leque de cerca de 40 males de nomes sinistros que vão do herpes, muito propalado, até a obscura shigelose. (Veja encaixe.) A Organização Mundial de Saúde afirma que as DST constituem uma “epidemia mundial”.
Por conseguinte, as pessoas estão reexaminando a muito glorificada “revolução sexual”. Cegados inicialmente pelo seu lustre e seus atrativos, muitos, pela primeira vez, divisam seu lado negro: alienação, dor e miséria humana.
“Época de ‘Anarquia Sexual’”
“Ocorre agora nos Estados Unidos uma era de amplas mudanças na moral sexual. Expressa-se o receio de que a nação esteja caminhando para uma época de ‘anarquia sexual’.” Assim clamou a revista U.S. News & World Report, lá em 1966. Mas, o que chocou os leitores, naquele tempo, agora não suscita mais do que um bocejo.
Por que tal mudança? Na década de 60 surgiram vários fatores. A disponibilidade da pílula anticoncepcional, por um lado, tornou aparentemente simples o sexo sem conseqüências. O mesmo fizeram as leis de liberalização do aborto, instituídas por alguns países. Anos de contendas econômicas, sociais e até políticas, levaram as pessoas a questionar os valores tradicionais. E, na linha de frente estavam os apóstolos da “nova moral” — médicos, políticos, filósofos, escritores e até clérigos, que proclamavam que as “antigas” restrições sexuais eram opressivas e prejudiciais.
Quais os resultados disso? O que tem sido chamado de “dramática mudança a favor da permissividade”. As pessoas passaram a provar, em primeira mão, a liberdade sexual. “Eu aguardava uma nova era de liberdade sexual” relembra a escritora Célia Haddon. “Estava convicta de que, dentro em breve, os relacionamentos sexuais entre homens e mulheres seriam mais honestos, mais realizadores e mais agradáveis.”
Muitos, contudo, verificam que o sexo casual pouco realiza. Altas expectativas irrealísticas simplesmente produzem novas ansiedades e frustrações. Surgem agora informes muitíssimo divulgados de que as doenças venéreas se espalham em todo o mundo a taxas epidêmicas. Para os ‘sexualmente ativos’ as probabilidades de serem infetados de súbito não mais parecem remotas, mas aterrorizadoramente possíveis. Não é de admirar, então, que mesmo os obstinados defensores do ‘amor livre’ estejam ficando atemorizados!
E os que não estão talvez devessem ficar.
Moléstias Mortíferas
A sífilis não mata mais milhões, como matou nos dias de Colombo, mas ainda é perigosa. A ciência médica afirma que o espiroqueta da sífilis (Trepoema pallidum) exsuda das feridas abertas ou erupções da pele dos órgãos genitais da vítima. A infecção se dá durante as relações sexuais. Uma vez penetre na nova vítima, o T. pallidum se dirige à corrente sanguínea, e para o sistema linfático, e, se não for combatido, por fim infetará o corpo todo. Mas, as bactérias da sífilis são insidiosamente lentas. Passam-se de 10 a 90 dias antes que a vítima se dê conta da característica lesão sifilítica no local da penetração do germe — geralmente a genitália. Sem profilaxia, o invasor pode causar dano irreparável aos órgãos vitais, até ao ponto de causar a morte.
Galeno, médico do século 2, cunhou o nome da milenar companheira da sífilis — a gonorréia (ou blenorragia). Seu sintoma óbvio é uma sensação de ardência durante a micção. Mas, afirma o Ministério da Saúde dos EUA: “Nas mulheres . . . os sintomas talvez não sejam suficientes para provocar a suspeita da paciente, nem para motivá-la a procurar cuidados médicos.” E, nos homens, os sintomas em geral desaparecem depois dum par de meses. Todavia, os médicos afirmam que a blenorragia ainda poderia penetrar no sistema sanguíneo e infetar órgãos vitais, sendo as mulheres especialmente suscetíveis a sofrer de complicações da gonorréia. Disse The Journal of the American Medical Association (Revista da Associação Médica Americana): “A mais grave destas complicações é a doença inflamatória pélvica (DIP) . . . Quase 1 milhão de mulheres são tratadas de DIP nos Estados Unidos a cada ano.” Com que resultado? “Infertilidade involuntária, gravidez ectópica e dor pélvica crônica.”
É interessante, porém, que talvez a maioria dos casos da DIP sejam causados por uma doença a respeito da qual a maioria nunca ouviu falar — a clamídia. Afirmam os CDC (Centros de Controle das Doenças, dos EUA): “As infecções provocadas pela Chlamydia trachomatis são atualmente, as mais prevalecentes doenças sexualmente transmissíveis nos Estados Unidos.” A publicação The Age (A Época) veiculou, similarmente, que o aumento das infecções pela clamídia representa “insidioso perigo” para os australianos. Os sintomas da clamídia são tão parecidos com os da gonorréia a ponto de enganar até mesmo os médicos.
“Infelizmente”, diz o dr. Yehudi M. Felman, “muitos médicos ainda consideram a clamídia como uma doença de categoria secundária”. (Medical World News [Notícias Médicas Mundiais ] Mas, para os calculadamente dois e meio a três milhões de vítimas de infecções da clamídia apenas nos Estados Unidos, tal doença dificilmente é de “categoria secundária”. Nem é de “categoria secundária” para os bebês, não raro afligidos de pneumonia ou até de cegueira, por nascerem de mães infetadas.
A sífilis e a blenorragia perderam assim certa proeminência dentre as DSTs. Na Grã-Bretanha, outras doenças, além da sífilis e a blenorragia (incluindo algumas das mais obscuras, como o cancro mole e o granuloma ingninal) são responsáveis por 84 por cento dos casos de DST que exigem tratamento. Por que, porém, esta praga ainda continua fazendo parte do cenário?
“Saiu de Cena”
“Como resultado da antibioticoterapia” declarou o dr. John F. Mahoney, em 1949, “a gonorréia quase que saiu de cena como importante entidade clínica e de saúde pública”. Tais palavras exemplificavam a fé da classe médica — e do público em geral — nas novas drogas maravilhosas, tais como a penicilina. Convictos de que a ciência tinha ministrado um golpe de morte nas DSTs, muitos médicos simplesmente perderam interesse em estudá-las. Na África Central e do Oeste, programas patrocinados pela ONU, para a erradicação da sífilis e de outras doenças relacionadas, pareciam tão eficazes que as autoridades até relaxaram em seus controles.
As rápidas mudanças da década de 60 pegaram, assim, quase que todos desprevenidos. Entre ‘1965 e 1975, o número de casos notificados de gonorréia, nos Estados Unidos, triplicou’. (CDC) O aumento do intercâmbio turístico, estimulado pelas viagens de avião a jato, ajudou a disseminar tal doença de um país para outro. Estava assim em gestação uma epidemia mundial de DST, mas, como Theodor Rosebury escreveu em Microbes and Morals (Os Micróbios e a Moral): “Fez-se a surpreendente descoberta de que os jovens médicos e estudantes de medicina não sabiam praticamente nada a respeito de [DST].
Os médicos, portanto, tiveram muita dificuldade em ficar em dia com o crescimento epidêmico das DSTs, embora afirmem existir curas eficazes para a maioria delas.b As pessoas simplesmente contraem tais doenças mais rápido do que os médicos conseguem curá-las.
Ao passo que algumas doenças sexualmente transmitidas têm assolado a humanidade por muitos anos, duas, em especial, têm tido grande divulgação recente. Trata-se do herpes e da AIDS. O próximo artigo considerará o que elas envolvem.
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O herpes e a Aids em focoDespertai! — 1985 | 8 de fevereiro
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O herpes e a Aids em foco
“SINTO-ME como se fosse leprosa. Quem iria me querer se eu lhe contasse que tenho uma doença incurável que pode ser sexualmente transmitida?” Foi assim que se expressou uma portadora do muito divulgado herpes genital. Grassa no Brasil, Estados Unidos, Canadá, Europa e Japão. Somente nos Estados Unidos relatam-se calculadamente de 200.000 a 500.000 indivíduos assim afligidos cada ano. Certo médico calculou que “cada ano se diagnosticam de 20.000 a 50.000 casos novos de herpes genital no Canadá”.
Qual é a causa de todo este infortúnio? A ciência médica afirma que é uma diminuta partícula, um vírus, que é apenas um membro duma grande “família” de herpes. A catapora e o herpes-zóster (cobreiro) são doenças comuns provocadas por vírus herpéticos. Aquele que causa o herpes genital é similar (por vezes idêntico) ao vírus causador das feridinhas comuns que as pessoas apresentam nos lábios (herpes labial). Mas, quando o herpes aflige a genitália, o portador dele usualmente (mas nem semprea) contraiu o vírus por via específica: por contato sexual com outra vítima do herpes.
Passados de três a sete dias depois de ficar exposta ao herpes, a pessoa infectada nota uma ardência prurido na área genital — prenúncio de dolorosas e bolhosas ulcerações. As vesículas a atormentam de duas a seis semanas antes de sararem. Mas o herpes não desaparece. Os médicos afirmam que simplesmente recolhe, pelas vias nervosas, para os feixes de nervos na base da espinha. Ali fica latente até que algo (como o stress) acione uma reativação do vírus. Despertado, percorre as vias nervosas de novo até a pele, e reinicia todo o ciclo de sofrimento.
Talvez o efeito mais insidioso do herpes seja sobre as emoções do portador. Observa o dr. Oscar Gillespie: “O principal problema do herpes não é tanto o próprio vírus, mas as formas como sua presença pode gerar medos, dúvidas e perturbações da vida diária.” Declarou uma vítima: “É dificílimo descrever as sensações de ira, de culpa, e da perda de controle que se experimenta quando se tem herpes. É algo que creio que apenas outras vítimas de herpes podem compartilhar e entender.” Todavia, tal distúrbio emocional simplesmente prolonga o ciclo de sofrimento, não raro por provocar outras recidivas da doença.
Por Que É Chamado de Incurável?
Por que o sistema imunológica do corpo não esmaga simplesmente o irritante herpesvírus? Os médicos afirmam que o herpes escapa de tal sorte por ligar-se a uma célula, penetrando a sua membrana exterior e ocultando-se lá dentro. Uma vez seguro no interior, rapidamente obtém o controle do “cérebro” da célula, tornando a célula verdadeira fábrica de herpes! Dentro de três a cinco horas são criados de 80.000 a 120.000 novos vírus. A parede celular então se rompe, permitindo que um exército de perigosas partículas fluam para a corrente sanguínea e infetem ainda outras células.
Pode-se então depreender por que os médicos afirmam que o herpes é tão difícil de eliminar. A cura envolveria penetrar de algum modo nas células infetadas para matar o vírus. Ou ter-se-ia de matar as células infetadas sem destruir as saudáveis. Pouco é de admirar que a ciência médica no ínterim, se sinta aturdida. (Veja encaixe.) Recentes informes de que estão sendo testadas vacinas contra o herpes talvez projetem alguns raios de esperança. Mas, apesar de que essa atitude de “mais vale prevenir” possa ajudar a milhões de pessoas, que dizer dos já afligidos?
AIDS — Nova DST?
“Em minha carreira profissional, jamais encontrei uma situação mais frustradora e deprimente”, citou a revista Newsweek como declarações do dr. Peter Mansell. Referia-se à doença que captou as atenções mundiais: a AIDS (Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida). O termo descreve uma paralisação do sistema imunológico do corpo. Suas vítimas sucumbem assim a raras formas de câncer e pneumonia.
A que ponto se disseminou a AIDS? Até agora, há mais de 4.000 casosb apenas nos EUA, e uns 200 no Brasil. Pelo menos 31 outros países também relataram incidências da doença. Países até agora relativamente imunes, tais como o Japão, se prepararam para enfrentá-la — só como precaução.
As vítimas da AIDS parecem apresentar estonteante taxa de mortalidade. Mais de 60 por cento daqueles inicialmente diagnosticados como portadores dela morreram em questão de um ano. Alguns, contudo, receiam que todas as vítimas da AIDS por fim morrerão devido a essa doença. Todavia, a síndrome começa de forma bastante inocente, com sintomas parecidos com a gripe, a fadiga e a perda de peso. Infelizmente, como observa o dr. Frederick P. Siegal: “Quando a maioria dos médicos examina os pacientes com AIDS, a festa já acabou.”
De acordo com os CDC (Centros de Controle das Doenças), os homossexuais ativos (com múltiplos parceiros) correm o maior risco de contraírem a AIDS. Também correm risco os hemofílicos e os que abusam de drogas intravenosas.c Mas, visto que mais ou menos 70 por cento das vítimas da AIDS eram homossexuais, suspeita-se fortemente que tal doença seja, na maioria dos casos, transmitida por contato sexual.
Pânico Causado Pela AIDS
“O medo se espalha muito mais rápido do que a doença”, disse a revista Discover (Descobrir). Sem dúvida, manchetes tais como “Simples Contato Pode Transmitir a AIDS” têm promovido este temor.
● Funcionários de hospitais têm-se recusado a tratar pacientes com AIDS.d
● Agentes funerários têm-se recusado a embalsamar os corpos das vítimas da AIDS [como é costumeiro em alguns países]
● A Polícia de São Francisco, Califórnia, EUA, recebeu aparelhos de ressuscitação e luvas de borracha para evitar a infecção pela AIDS ao prestar os primeiros socorros.
● Técnicos recusaram-se a instalar um microfone para uma vítima da AIDS que seria entrevistada num programa de entrevistas da TV. Qual o objetivo do programa? Aquietar os temores sobre a AIDS.
● Serviços de atendimento telefônico para as vítimas da AIDS “foram inundados com chamadas perguntando se a doença podia ser contraída por se segurar as alças do metrô ou utilizar os assentos dos vasos sanitários antes usados por gays”.
A comunidade gay, contudo, sentiu o maior impacto. Bares e saunas gays relataram uma redução dos negócios devido ao medo das pessoas de contraírem a AIDS. E, visto que os homossexuais com parceiros múltiplos são os de maior risco, alguns até mesmo fizeram mudanças drásticas em seu estilo de vida. Poucos, se é que alguns, ficaram tão assustados que ‘se endireitaram’ (voltaram a ser heterossexuais). Mas alguns têm evitado o contato sexual anônimo e se fixaram em relacionamentos “monogâmicos”.
É a vítima da AIDS, contudo, que sofre a verdadeira angústia. Tratadas como pária, por seus vizinhos e colegas de trabalho, desprezadas pelos amantes, as vítimas da AIDS têm também de suportar a carga duma doença incurável. “Paira sobre sua cabeça”, disse uma vítima da AIDS. “Há sempre a incerteza dominante de que, a qualquer dia, a gente apresente algo que nosso sistema imunológico suprimido não conseguirá repelir.”
Assim, ao passo que a reação do público pode, em certo sentido, ser exagerada, o medo da AIDS não é infundado. A AIDS é insidiosa assassina. E informes de que pode espalhar-se para o público em geral, por meio de transfusões de sangue, provocam adicionais temores e ressentimentos. (Veja encaixe na página 9.)e Assim, os homossexuais verificam ser vítimas, não só da hostilidade, mas de um estilo de vida repleto de perigo.
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