Quando o desastre assola!
Relato, em primeira mão, do sofrimento causado em uma rua pelas chuvas torrenciais que ensoparam o sul da Califórnia no início de 1980.
A VISTA da Estrada “Divina Vista” certamente não era nada divina no sábado, 16 de fevereiro de 1980. Eram 16,45 horas. A chuva torrencial caíra o dia inteiro, após nove dias de tempestades terem largado 430 milímetros de chuva sobre o Parque Monterey, um subúrbio de Los Angeles, Califórnia. Eu olhava para fora de nossa janela. Nosso solário estava afundando, os balaústres inclinando-se para trás. A colina, do outro lado da rua, começava a ceder, colocando em perigo as casas embaixo.
Subitamente, esquadrões policiais de resgate subiam pela rua com as sirenas ligadas. Os paramédicos chegaram, dois carros de bombeiros estrondavam pela rua, e uma ambulância os seguiam. A Estrada “Divina Vista” tornara-se rio borbulhante de água e lama. Um carro-sonoro seguia pela rua, berrando: “Todos devem deixar esse local!”
Lá fora, sob a chuva impetuosa, a torrente era tão rápida na rua que os bombeiros tiveram de nos carregar para o outro lado. Descemos a colina na ambulância, mas, antes de chegarmos ao seu sopé, um desabamento de lama bloqueou a rua com 1,20 metro de lama. Ninguém conseguia passar, até que as equipes municipais abriram com um trator uma passagem para a ambulância. Levou-nos uma hora para percorrer uns 60 metros.
Nossa casa não foi atingida tanto quanto foram algumas outras. Um desabamento de lama atravessou certa casa, empurrando o refrigerador para a rua. Através de uma de suas janelas quebradas, seu sofá estava pendurado para fora. Partes quebradas de televisores, uma mesa de jantar, uma pia e tábua de passar a ferro estavam parcialmente enterradas na lama. Mais acima na rua, um desabamento de lama tinha esmagado as paredes duma casa. O teto acabou caindo sobre a rua lá embaixo. Toda a sua mobília estava no quintal da frente duma casa do outro lado da rua.
No vizinho do lado, dois homens trabalhavam no alto da escada de sua casa de dois pavimentos. Subitamente ouviu-se um ruído temível, como um trovão, e catabum! um desabamento de lama os atingiu e prendeu um deles sob um carro no fim da rua. Foi completamente sepultado na lama, exceto a sua cabeça. Os vizinhos o desenterraram, ainda vivo.
Foi acalentador, contudo, ver como o desastre uniu mais os vizinhos. Era curioso ver como se davam conta de que as coisas materiais não eram de importância primária. Disse um dos vizinhos: “É uma sensação horrível, repugnante — tudo que a gente acumula em toda uma vida pode desaparecer num estalar de dedos.” Outro disse: “Quando algo assim acontece com a gente, realmente produz alguma coisa. Mudei por completo minha atitude quanto a me preocupar com coisinhas insignificantes.” Ainda outro comentou: “Quando se chega assim tão perto da morte, estar vivo é realmente o que importa.”
Equipes de serviços públicos trabalhavam nessa área em turnos de 12 horas. A metade da equipe estava em serviço a todo o tempo. Nesta rua, 10 pessoas ficaram feridas, inclusive quatro bombeiros e três policiais. Os trabalhadores do Corpo de Conservação da Califórnia distribuíram 495 rolos de coberturas de plástico, 12.000 sacos de areia e 175 toneladas de areia, para controlar os deslizamentos de lama. Ao todo, em Parque Monterey, 50 casas foram danificadas, 15 ficaram mui seriamente danificadas e cinco foram demolidas. Calculam-se as perdas em US$ 2,5 milhões (uns Cr$ 150 milhões).
Há processos jurídicos em pendência, à medida que as pessoas feridas estão buscando indenizações. Quem é responsável? Os acusados, inclusive a municipalidade do Parque Monterey, argumentarão que as chuvas torrenciais e os conseqüentes danos eram um “ato de Deus” [em inglês, as calamidades naturais são chamadas “acts of God”]. No entanto, será mais exato examinar os atos das pessoas. Os construtores cavam as encostas naturais das montanhas para abrir caminhos e colocam casas nesses lotes. Criam-se aterros de lixo compactado, e as encostas naturais são enfraquecidas. Quando chegam as chuvas, as colinas desbastadas desabam. — Contribuído.