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  • yb89 pp. 66-147
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  • Áustria
  • Anuário das Testemunhas de Jeová de 1989
  • Subtítulos
  • As Primeiras Tentativas de Dar Testemunho
  • O Começo da Colheita de Após-guerra
  • Ouvidos Atentos num Discurso Memorável
  • Atividade nas Províncias
  • Uma Tumultuosa Reunião em Viena
  • “De Modo Algum Te Deixarei”
  • Funerais Atraem Atenção
  • Começos Pequenos, Esforços Persistentes
  • Avanço Apesar de Pressão
  • Perseguidos Por Serem Cristãos
  • Havia Apenas Uma Bicicleta
  • Luta Por Direitos Legais
  • Novas Congregações, Crescente Assistência
  • Aumenta a Oposição
  • Censura e Confisco de Literatura
  • O Desassossego Político Provoca Restrições
  • Dissolvida Pelas Autoridades a Associação Local
  • O Reino em Primeiro Lugar, Apesar de Obstáculos
  • Por Que Estavam Ali?
  • Restrições às Reuniões
  • Preparativos Para a Esperada Perseguição
  • Tropas Alemãs Cruzam a Fronteira
  • Exigências dos Novos Poderes Governantes
  • Provisão do Alimento Necessário
  • Irmãs Corajosas Preenchiam Uma Necessidade Vital
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  • Dois Tipos de Sacos de Alimentos
  • Ajuda Para o Irmão Encarregado
  • Nas Mãos do Inimigo
  • Testemunho Corajoso no Tribunal
  • Publicações Mimeografadas
  • O Inimigo Procura o Mimeógrafo
  • Será que Ele Transigiu?
  • Jovens, mas Leais
  • Prisões na Noite da Comemoração
  • Posição a Favor da Neutralidade Cristã
  • Esforços Fúteis de Oficiais Nazistas
  • Treinamento Para o Serviço Nacional de Trabalho
  • Executados por Causa da Neutralidade Cristã
  • Palavras de Fé Duma Cela da Morte
  • Separados à Força dos Filhos
  • Jovem, mas Fiel
  • Cuidado! Espiões e Informantes
  • Uma Incomum Sessão no Tribunal
  • Um Servo Humilde
  • O Manejo de “Alimento” Escasso
  • Uns Poucos Recuam
  • Perseverança sob os Tormentos dum Campo de Concentração
  • Atividade Teocrática Dentro dos Campos
  • Um Registro de Fidelidade
  • O Que Faremos Primeiro?
  • E Então — Sibéria!
  • Pioneiros Participam na Colheita
  • Arranjos de Filial
  • Ampliações das Instalações da Filial
  • Território Multilíngüe
  • Hospedeiros em Congressos
  • Que Dizer dos Irmãos da Polônia?
  • A Marcha Para o Futuro
Anuário das Testemunhas de Jeová de 1989
yb89 pp. 66-147

Áustria

OS ALPES da Áustria estão cheios dos sons de música. Famosa pelas sublimes composições musicais produzidas por Haydn, Mozart, Schubert, os Strauss e outros, a Áustria também é famosa pela sua beleza natural. Densas florestas, límpidos lagos e amplos vales separam muitos dos seus alpes encimados pela neve, que se elevam majestosamente em direção ao céu, até a altitude de 3.797 metros. Estes picos são gradualmente substituídos no leste por colinas suavemente ondulantes e por ricas planícies agrícolas. A lindeza deste ambiente grandioso foi aumentada pela beleza da verdade bíblica que emergiu na Áustria no começo do século 20. E desde então, os altaneiros cumes e os vales verdejantes da Áustria têm ressoado com ‘canções que celebram a Deus’, Jeová. — Sal. 149:6.

Durante séculos, a Áustria era parte do Santo Império Romano da nação germânica. Mais tarde, foi ligada à Hungria, no Império Austro-Húngaro. De modo que não surpreende que 98 por cento da população fale alemão, e que os grupos étnicos incluam magiares (húngaros), croatas e eslovenos. Quando Viena ainda era a capital dum vasto império, bem como durante os períodos após as guerras mundiais, grande número de pessoas vieram para morar nesta pitoresca cidade situada nas margens do rio Danúbio. De modo que agora mais de 20 por cento da população de uns 7.555.000 habitantes da Áustria se encontram em Viena.

Durante séculos, a religião oficial da Áustria era o catolicismo romano, por imposição dos governantes Habsburgos. Mesmo hoje, 84 por cento da população professa ser católico-romana, e existe uma concordata entre a Áustria e o Vaticano, que assegura o apoio financeiro do governo à Igreja Católica. Outros 6 por cento são alistados como protestantes. Entretanto, estes dados não revelam a verdadeira atitude do povo para com a religião, visto que a devoção às instituições religiosas tem declinado grandemente. Muitos se refreiam de abertamente romper com os vínculos religiosos tradicionais, porque a preocupação do austríaco mediano é: ‘O que é que os outros vão dizer?’

Têm sido necessários muitos esforços e a bênção do espírito de Jeová para encontrar pessoas tementes a Deus e para ensinar-lhes os caminhos de Jeová. Em resultado disso, há atualmente na Áustria mais de 17.700 pessoas que demonstraram que sua maior preocupação é ‘O que é que Deus vai dizer?’ Estas constituem as 246 congregações das Testemunhas de Jeová.

As Primeiras Tentativas de Dar Testemunho

No começo do século 20, a vida religiosa na Áustria seguia o ritmo estabelecido principalmente pela Igreja Católica Romana. Embora os protestantes tivessem certos direitos, concedidos no chamado Edito de Tolerância em 1781, permitia-se à maioria das demais pessoas praticar a sua religião apenas em particular. Não obstante, Charles Taze Russell primeiro presidente da Sociedade Torre de Vigia (dos EUA), decidiu ir a Viena em 1911 para fixar sua atenção primeiro na população judaica.

Viajando de trem, chegou a Viena, onde se alugara o grande salão do Hotel Continental para o dia 22 de março. O discurso dele, destinado a atrair judeus sinceros, seria sobre “O Sionismo nas Profecias”. Qual seria a reação da população judaica ali às suas explicações das profecias bíblicas? Um rabino judeu, desde Nova Iorque, cabografara uma longa mensagem de difamação, avisando os judeus contra os Estudantes da Bíblia, como então eram chamadas as Testemunhas de Jeová. Em resultado disso, embora o salão estivesse cheio quando o irmão Russell subiu ao palco, ele logo se deu conta de que cerca de um terço dos presentes estava determinado a impedi-lo de falar.

Russell relatou mais tarde: “Logo desde o começo de nosso discurso, de todas as partes do salão, eles gritavam e berravam, e alguns deles pareciam possessos de demônios. . . . Tentamos expressar algumas palavras para mitigar os seus temores, mas em vão. . . . Alguns deles pareciam estar ansiosos de pôr as mãos em nós, mas um forte cordão de gente mais sensata constituiu uma barreira em torno de nós. Não estávamos com medo, mas aqueles que conheciam melhor nossos oponentes pareciam temer bastante por nós. Vendo que não conseguiríamos nada, acenamos sorridentes com a mão, indicando que desistimos da tentativa, e saímos do palco. Os mesmos judeus abriram o caminho para nós, mantendo afastados os oponentes, e guiaram-nos para fora do salão. . . . Cerca de quinze deles vieram no dia seguinte e indagaram mais sobre o plano divino.”

Em benefício dos que sinceramente buscavam a verdade, fizeram-se também arranjos de publicar o texto inteiro do discurso de Russell no Neues Wiener Journal (Novo Jornal Vienense).

Esta não foi a primeira vez que o irmão Russell havia visto Viena. Vinte anos antes, em 1891, ele fizera uma viagem que o levou de Dresden, na Alemanha, via Viena a Kishinev, na Rússia. Comentando a situação conforme ele a entendia lá naquele tempo, o irmão Russell declarou na Torre de Vigia de Sião (em inglês) de novembro de 1891: “Não vimos nenhuma abertura ou prontidão para a verdade na Rússia, . . . nada que nos estimulasse a esperar qualquer colheita na Itália, ou na Turquia, ou na Áustria, ou na Alemanha.”

Não obstante, fez-se uma tentativa adicional de ajudar pelo menos algumas das pessoas ali. No começo de 1914, Maxwell G. Friend (naquele tempo conhecido pelo nome de Freschel, nascido de pais judeus) foi solicitado a ir do Lar de Betel na Alemanha para a Áustria-Hungria, a fim de divulgar as boas novas do Reino messiânico entre os judeus. Em Viena, ele conseguiu iniciar um estudo bíblico domiciliar, regular, com dois assinantes da Torre de Vigia de Sião. Ele relatou: “Os judeus dificilmente acolhiam as boas novas, porque nos confundiam com os missionários da cristandade. Não sentiam nenhum amor à cristandade, devido aos muitos séculos em que ela os enxotou de um país para outro e os matou sem misericórdia, pelo fogo e pela espada.”

Poucos meses depois irrompeu a Primeira Guerra Mundial. Acabaria isso com todos os esforços de transmitir as boas novas ao povo austríaco?

O Começo da Colheita de Após-guerra

No meio dos horrores da guerra mundial, havia pessoas que pensavam em coisas espirituais e falavam sobre elas. Johann Brotzge, embora jovem, era profundamente religioso. No seu lugar de trabalho, na cidade de Dornbirn, ele entregava carvão a um homem chamado Degenhart, encarregado duma fornalha. Durante uma das entregas que fez, no começo do outono setentrional de 1917, Degenhart iniciou uma conversa sobre o Reino de Deus. Pouco depois, o jovem Johann foi recrutado para prestar serviço militar. Arraigar-se-iam as sementes da verdade que ele ouvira?

Depois de passar pelos horrores da guerra, Johann voltou para casa. As palavras sobre o Reino de Deus deixaram nele uma profunda impressão e ainda estavam na sua mente. Ele começou a procurar Degenhart. Lamentavelmente, Degenhart havia morrido no ínterim. No entanto, na primavera de 1919, Johann Brotzge entrou em contato com Otto Mathis, e com Xaver Klien, o qual então já era Estudante da Bíblia. Foi de Otto que ele obteve a literatura bíblica há muito desejada. Estes homens foram os primeiros Estudantes da Bíblia no oeste da Áustria.

A cerca de 680 quilômetros dali, na extremidade oriental do país, a verdade arraigou-se em outro coração receptivo. O jovem Johannes Ehm tinha um emprego como professor de música na aldeia de Deutsch Wagram, na planície de Marchfeld, durante os anos de 1919 e 1920. Um casal amigo seu proveu alojamento para um engenheiro procedente da Alemanha. Este casal contou a Johannes que o engenheiro, um senhor Goller, falava sobre coisas completamente novas e estranhas. Ele dizia que estava próximo o fim do mundo, que não havia fogo do inferno e que a maioria dos crentes não iria para o céu, mas, antes, viveria algum dia na terra. Não só isso, mas ele afirmava que podia provar tudo isso com a Bíblia. “Gostaria de assistir a uma palestra assim?” perguntou o casal ao jovem professor de música.

Naquela palestra, Johannes, pela primeira vez na vida viu uma Bíblia. Ele disse mais tarde: “Goller radiava tranqüilidade e respondia serenamente a todas as minhas perguntas — e estas não eram poucas!” Johannes logo encomendou os seis volumes dos Estudos das Escrituras, escritos por C. T. Russell, e começou a estudá-los avidamente.

No ínterim, em Klagenfurt, no sul da Áustria, um jovem guarda-livros, Franz Ganster, por carta, travou conhecimento com um homem de nome Egg, na Suíça. A correspondência deles incluía algo mais do que apenas coleções de selos e a troca de cartões postais. Visto que Egg já era Estudante da Bíblia, foi dele que esse jovem guarda-livros austríaco soube da mensagem da Bíblia. Ganster encomendou toda a literatura da Torre de Vigia então disponível na Suíça, que lhe foi pessoalmente entregue por um tanoeiro de nome Leopold König, quando este voltou da Suíça para a Áustria, em 1921. Veremos mais tarde a que isso deu início.

Por volta da mesma época, um Estudante da Bíblia, da Alemanha, deixou um folheto com um casal que morava em Linz, na parte setentrional da Áustria. O folheto tinha por título Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão. Depois de lê-lo e de passá-lo adiante a um amigo seu, um lavrador de nome Simon Riedler, o casal disse-lhe: “Está escrito num estilo sensacional.” De modo que Simon Riedler o examinou apenas ligeiramente e com certo preconceito. ‘Provavelmente não é nada mais que tolice’, pensava.

Não obstante, ele o leu uma segunda vez, e depois uma terceira vez. Reconheceria ele finalmente as jóias da verdade contidas neste folheto? Sim, até mesmo a ponto de sentir-se envergonhado do seu preconceito inicial.

Desejoso de investigar a mensagem mais cabalmente, Simon escreveu a Viena, ao endereço indicado no final do folheto. Quanto tempo ele já queria ter uma Bíblia! Entrou assim em contato com Leopold König, o tanoeiro que voltara da Suíça à Áustria e que então servia como colportor. Quando o irmão Konig enviou uma Bíblia Lutero de bolso a este lavrador, ele provavelmente nunca imaginou quanta alegria isso causaria. Simon Riedler, por fim, tinha a sua própria Bíblia! Junto com ela, ele lia a Torre de Vigia de Sião e Alimento Para os Cristãos Refletivos. Sua família, seus parentes e seus vizinhos cobriram-no de zombarias. Mas Simon Riedler havia encontrado a verdade; era isso que importava. Conforme ele disse mais tarde: “Meu coração estava cheio, e meus lábios transbordavam.”

Ouvidos Atentos num Discurso Memorável

Em fins do outono de 1921, um discurso sobre o notável tema “Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão” foi proferido no espaçoso local Sofiensäle, na cidade pitoresca de Viena. A reação à mensagem foi bem diferente àquela que o irmão Russell havia encontrado dez anos antes.

Um relatório sobre a reunião diz: “A mensagem causou um grande impacto. O anúncio provocou muita comoção e suscitou muitos debates nas ruas antes do começo da reunião. O salão ficou superlotado e as portas foram fechadas muito antes do começo da conferência, negando-se assim acesso a centenas de pessoas. A multidão escutou com detida atenção a maravilhosa mensagem do estabelecimento do Reino de Deus e a consoladora promessa bíblica de que milhões que agora vivem não terão de morrer.” Naquela noitinha, colocaram-se 100 exemplares do folheto Milhões, e as pessoas entregaram 1.200 endereços, para que pudessem ser revisitadas.

Entre aqueles profundamente influenciados pelo discurso estava Hans Ronovsky. Ele não estava presente no Sofiensäle. Mas, poucas semanas depois, quando andava por uma das ruas comerciais de Viena, sua atenção foi atraída por um cartaz que anunciava a mesma conferência, a ser proferida no Konzerthaus. Ele foi, não para se deleitar com uma valsa de Strauss ou um concerto de Mozart, mas para escutar a linda melodia das verdades bíblicas. O que ele ouviu mostrou ser um ponto decisivo na sua vida.

Atividade nas Províncias

Fixou-se então a atenção em outros centros populosos do país. Certo dia, Franz Ganster recebeu um cartão postal de Viena. Ele devia alugar o maior salão que pudesse encontrar em Klagenfurt, para uma conferência a ser proferida pelo irmão Emil Wetzel, que fora enviado de Dresden, na Alemanha, para supervisionar a obra na Áustria. ‘Bem, este parece ser o salão do Hotel Sandwirt’, pensava Ganster consigo mesmo, indo prontamente para contatar o dono do hotel.

“Eu gostaria de sugerir”, disse o gerente do hotel, “que se colocassem mesas e cadeiras no salão, para que pareça mais cheio, visto que certamente apenas poucos vão comparecer”.

Ganster respondeu resolutamente: “Tenho ordens de alugar o salão apenas com cadeiras.”

Então, quem iria distribuir os muitos convites para o discurso? Ganster, ele mesmo operário, tinha uma idéia. Contratou uns homens, e estes distribuíram 3.000 convites na cidade. Conforme a assistência mostrou mais tarde, eles evidentemente fizeram um bom trabalho. O gerente do hotel calculou que 2.000 pessoas assistiram ao discurso. E não somente o salão propriamente dito estava repleto, mas também a galeria.

Entre os presentes estava Richard Heide, um estudante de 20 anos. Depois de ver o cartaz anunciando o discurso “Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão”, ele disse ao seu pai: “Papai, vou ouvir este discurso apesar do que outros possam dizer. Quero saber se é apenas um blefe, ou se há alguma verdade nisso!” De modo que ele foi, e seu pai e sua irmã Therese decidiram acompanhá-lo.

Depois do discurso, muitos deixaram seu endereço, com pedidos de literatura. Para atender tais pedidos, Franz Ganster encomendou um amplo suprimento de Estudos das Escrituras. Ele recebeu tantos, que sua senhoria se perguntava aonde ia guardar todos aqueles pacotes. O quarto dele estava empilhado de publicações do piso até o teto, quase não deixando lugar para o próprio Franz.

O senhor Heide, emocionado com o discurso, também encomendou os sete volumes dos Estudos das Escrituras, que ele leu avidamente. Não demorou muito até que se realizassem reuniões no seu apartamento. Freqüentemente, até umas 30 pessoas se apinhavam na sua sala de estar.

Também em Graz já se realizavam reuniões na primavera de 1922. Proferiam-se também discursos em outras cidades provinciais. De modo que a obra se intensificava nas províncias.

Quão zeloso era este pequeno grupo de publicadores em Klagenfurt! Ora, eles ainda nem tinham sido imersos. Foi só em 5 de julho de 1922 que houve uma imersão em Viena; daí, na semana seguinte, realizou-se um batismo na província da Caríntia, onde os primeiros deste território foram imersos nas águas do belo lago Wörther See. Incluíam Franz Ganster, o senhor e a senhora Heide (os pais), os dois filhos destes, Richard e Therese, e um senhor Kopatsch, que mais tarde ficou conhecido por seu zelo e sua franqueza no falar.

No ínterim, acontecera algo em Viena, que deu origem a animadas conversações não somente entre o povo de Deus, mas também entre outros.

Uma Tumultuosa Reunião em Viena

Numa viagem a diversas filiais e congêneres, em 1922, o irmão Rutherford, segundo presidente da Sociedade Torre de Vigia (dos EUA), incluiu uma visita a Viena, de 30 de maio a 1.º de junho. Fizeram-se planos para uma conferência a ser proferida no espaçoso salão Katharinenhalle. Seria o acolhimento mais favorável do que quando o irmão Russell tentou falar em Viena, 11 anos antes?

Quando o irmão Rutherford e seu intérprete, o irmão Conrad Binkele (da Suíça), subiram ao palco, todo espaço disponível no salão, inclusive os corredores, estava apinhado de pessoas. Alguns estavam até mesmo sentados no palco, bem perto do orador. Outros ainda tentavam conseguir entrar. Todavia, entre os milhares presentes, havia algumas centenas que não vieram para escutar calados o discurso, mas, antes, para interrompê-lo. Opositores da mensagem bíblica tinham seus asseclas postados no meio da assistência, especialmente perto dos fundos do salão.

Tudo correu bem nos primeiros cerca de 40 minutos do discurso. O irmão Rutherford havia sido avisado, porém, de que haveria uma tentativa de interromper a reunião. De modo que abrangeu primeiro os pontos principais do seu discurso, com a intenção de elaborá-los depois. Mas assim que os pontos principais tinham sido apresentados, irrompeu um tumulto. Uns 200 a 300 perturbadores começaram a gritar e a bater com os pés como um estouro da boiada. Rapazes e moças pularam nas cadeiras e gesticulavam em todas as direções. Como que com um só forte golpe, estes perturbadores deram um abrupto fim ao discurso.

O irmão Rutherford tentou apelar para a assistência para se acalmar e comportar corretamente, mas em vão. Tentou novamente falar à assistência por meio do seu intérprete, dizendo: “Eu gostaria de que esta assistência votasse para ver quantos querem ouvir o restante do discurso.” A maioria dos presentes levantou a mão afirmativamente. Mas os tumultuadores clamaram alto a sua desaprovação. O irmão Rutherford, com voz firme, disse então: “Aqueles que não querem ouvir, por favor retirem-se imediatamente do salão e deixem que aqueles que querem ouvir o ouçam.”

Em vista disso, desencadeou-se a plena ira dos perturbadores. Os líderes da comoção abriram caminho através dos corredores. Quando chegaram a uns 5 metros do palco, os tumultuadores começaram a cantar a “Internacional”. A ação deles era tão frenética, que pareciam estar possessos de demônios.

O gerente do salão chegou então e exigiu que o orador saísse imediatamente do palco. O irmão Rutherford esperava que o tumulto passasse e que a polícia controlasse a multidão, para que pudesse continuar com a conferência. Mas isso não se deu. O gerente desligou algumas luzes, mas os opositores as ligaram outra vez. Ficando ainda mais alarmados, o gerente e dois ou três dos seus ajudantes correram até a tribuna de orador, agarraram o irmão Rutherford pelo braço, e puxaram-no para os fundos, fora da vista.

Quando a turba chegou diante do palco, ainda estava cantando, e uns poucos gritaram: “Onde está ele? Onde está ele? Nossa bandeira é vermelha!” A turba, não podendo achar o irmão Rutherford, postou guardas nas saídas. Mas, evidentemente, desperceberam uma porta nos fundos do palco. Esta porta, usualmente fechada e trancada, foi imediatamente aberta. O irmão Rutherford e o irmão Arthur Goux, que viera com ele de Nova Iorque, passaram rapidamente por ela, e a porta foi logo fechada e trancada de novo.

O diário Neues Wiener Journal noticiou: “Cenas escandalosas numa conferência bíblica” — “Comunistas interrompem a reunião”.

Emil Wetzel, que então era superintendente da obra da Sociedade na Áustria, escreveu mais tarde que durante os seus primeiros seis meses nesta designação, quase todas as reuniões públicas foram interrompidas. Por outro lado, havia muitas pessoas na assistência que estavam famintas da verdade, e fizeram-se arranjos para cuidar delas. A fim de facilitar este cuidado, a Sociedade abriu em 1923 seu primeiro escritório na Áustria, na Pouthongasse 12, em Viena.

“De Modo Algum Te Deixarei”

Em 1924, pela primeira vez, realizou-se em Viena uma reunião geral da Associação Internacional dos Estudantes da Bíblia. No ano seguinte, quando se realizou novamente um congresso em Viena, Johannes Schindler, de Dresden, estava entre os congressistas. Isto veio a ser um ponto decisivo na sua vida. Em que sentido? Um dos discursos culminou com a convocação: “Quem gostaria de servir como missionário auxiliar na Áustria?” (Hoje chamaríamos alguém assim de pioneiro.) Entre os seis irmãos que responderam na hora estava Johannes Schindler.

O irmão Schindler voltou primeiro a Dresden para avisar seu patrão de que deixaria o serviço. Naquela época, ele estava trabalhando na famosa firma Ernemann-Zeiss-Ikon-Werke como óptico de precisão. Mas, sem este trabalho, como ia o irmão Schindler cuidar das suas necessidades materiais? Permitir-se-lhe-ia ficar com certa parte do dinheiro contribuído pelas publicações para seu uso pessoal. Entretanto, na Áustria não se podiam vender publicações de casa em casa, e esta lei foi interpretada como aplicando-se à nossa obra. A única coisa a fazer era dizer ao morador bondosamente: “Se desejar contribuir alguma coisa em apoio desta obra missionária, esteja à vontade.” Requeria plena confiança em Jeová para alguém aceitar tal designação naquelas circunstâncias. Mas, não havia Jeová prometido aos seus servos: “De modo algum te deixarei e de modo algum te abandonarei”? — Heb. 13:5.

À idade de 24 anos, o irmão Schindler já havia por dois anos obtido experiência como proclamador das boas novas na sua Alemanha nativa. Agora, com 100 marcos alemães no bolso, veio à Áustria para iniciar seu serviço na cidade de Wels e nos arredores dela, em 17 de outubro de 1925.

Ele procurou viver o mais economicamente possível. Todavia, mesmo já no primeiro mês teve de recorrer às suas reservas financeiras. Ao fim de três meses, seus fundos estavam esgotados. Daí em diante, sua fé e sua confiança em Jeová foram realmente postas à prova. E Jeová cuidou deveras das necessidades dele ao Seu próprio modo.

Por exemplo, certo sábado à noitinha, depois de o irmão Schindler usar seu último dinheiro para pagar o aluguel do quarto em que ele e seu companheiro pioneiro pernoitavam, seus pensamentos se voltaram para o dia seguinte. Com oração, ele e seu companheiro dirigiram-se ao seu Pai celestial. Como primeira coisa no domingo de manhã, o irmão Schindler foi ao correio, que abria aos domingos apenas por uma hora, para ver se havia alguma correspondência. Quão surpreso ficou quando lhe entregaram um pacote! E o conteúdo? Havia nele 500 folhetos e uma carta acompanhante, dizendo que os folhetos eram grátis para ele.

O ofício na igreja local havia terminado, e os homens, como de costume, iam às tabernas para tomar suas bebidas dominicais e jogar cartas. O irmão Schindler dirigiu-se ao taberneiro, ofereceu-lhe um folheto e perguntou se podia também falar com os fregueses nas mesas. O pedido foi concedido.

O irmão Schindler chegou-se a uma mesa e colocou um folheto na frente de cada homem em volta dela, dizendo: “Milhões que agora vivem jamais morrerão. Esta profecia das Escrituras Sagradas cumprir-se-á em breve. Não vendemos estes folhetos, mas se alguém quiser contribuir alguma coisa para a nossa atividade missionária, é bem-vindo para fazê-lo.” Assim que um dos homens colocou uns trocados na mesa, os outros sacaram seus porta-níqueis para fazer o mesmo. De modo que o irmão Schindler, intrepidamente, foi de mesa em mesa, distribuindo os folhetos.

Havia também outras tabernas naquela aldeia. Dentro de uma hora e meia, sua pasta de literatura estava vazia. Novamente, o irmão Schindler e seu companheiro tinham o dinheiro necessário para comprar alimentos e pagar sua hospedagem. Com confiança em Jeová, aguardavam o dia seguinte.

Até o seu falecimento em 23 de dezembro de 1986, Johannes Schindler ainda estava nas fileiras dos pioneiros, mas então na República Federal da Alemanha.

Funerais Atraem Atenção

No mesmo ano em que o irmão Schindler começou a trabalhar de pioneiro na Áustria, Georg Gertz foi mandado da Alemanha para o escritório da Sociedade em Viena. Ele se tornou bem conhecido nas cidades maiores do país como excelente orador.

Quando o irmão Heide, de Klagenfurt, faleceu, o irmão Gertz foi designado para proferir o discurso fúnebre. O irmão Heide se tornara bem conhecido por causa da sua participação zelosa na pregação. Com a ajuda dum guia de endereços, ele havia enviado de amostra revistas e diversos tratados, tais como Acusados os Eclesiásticos e A Queda de Babilônia, a todas as partes da Caríntia. Depois de separar os envelopes segundo o destino, os filhos dele ajudavam-no a levar as remessas num cesto de lavanderia para o correio. Vez após vez o irmão Heide recebeu cartas de pessoas interessadas em diversas cidades e aldeias da Caríntia, e sempre que possível, ele as visitava pessoalmente.

De modo que, quando o irmão Heide faleceu, não foi surpreendente que muitos mostraram interesse nos arranjos fúnebres. Os funerais significam muito para a população rural da Áustria. Por um lado, talvez os elogiem muito, mas, por outro lado, talvez os desaprovem fortemente. Pois bem, este serviço fúnebre, o primeiro para uma Testemunha de Jeová na Áustria, foi presenciado por cerca de 2.000 pessoas. E visto que os austríacos gostam de falar sobre os funerais, as pessoas ainda falavam sobre este, mesmo depois de dez anos.

Começos Pequenos, Esforços Persistentes

Hoje há 16 congregações em Linz e nos arredores da cidade, na Alta Áustria. Mas a verdade bíblica se arraigou ali apenas vagarosamente. Em sentido religioso, tratava-se dum baluarte da Igreja Católica, e não era fácil proclamar a mensagem do Reino neste território.

Simon Riedler, aquele humilde lavrador, falava entusiasticamente a outros nesta região sobre as preciosas verdades bíblicas que havia aprendido. Por volta de 1930, o irmão Nasl, de Munique, na Alemanha, veio dar-lhe ajuda, e eles encontraram algumas pessoas interessadas. O irmão Riedler proferia discursos para o grupo e lia para eles das publicações da Sociedade. Geralmente vinham de 30 a 35 pessoas a estas reuniões. No entanto, por causa da pressão exercida, o interesse se desvaneceu, e relatórios mesmo tão recentes como o de 1940 mostram que havia apenas uma irmã leal em Linz.

No oeste, perto da fronteira de Liechtenstein, na cidade de Feldkirch, um funcionário da alfândega, de nome Wilhelm Coreth, já em 1922 dava testemunho aos seus colegas. Agathe Thaler e sua mãe, que naquele tempo viviam na aldeia de Lauterach, ouviram as boas novas. Providenciou-se uma palestra na casa dos pais de Agathe, com a presença do sacerdote local. Entre 20 e 25 pessoas estavam presentes. O sacerdote não conseguiu refutar com a Bíblia nenhum dos argumentos apresentados. Com que resultado? A família inteira aceitou a verdade. Em 1925, a cidade de Dornbirn tornou-se o centro das reuniões, e irmãos da vizinha Suíça vinham para proferir discursos. Johann Brotzge, que ouvira a verdade já em 1917, também havia progredido a ponto de proferir discursos.

O progresso feito no país se refletia na assistência à Comemoração. Em 1926, Viena relatou 312 presentes, Graz 43, Klagenfurt 26, e outros lugares um total de 52.

Neste mesmo ano, a supervisão da obra do Reino na Áustria foi transferida para o escritório da Sociedade na Alemanha. Enviou-se um irmão capaz à Áustria para prover a necessária supervisão local.

Avanço Apesar de Pressão

Naqueles dias, a obra de pregação foi levada avante sob circunstâncias difíceis. Todos os que transmitiam as boas novas do Reino de Deus a outros, especialmente nas zonas rurais, logo tiveram que se ver com a polícia.

Certo dia, um grupo de irmãos havia alugado um ônibus para visitar algumas aldeias do Waldviertel, uma zona rural ao norte de Viena, para pregar ali. Eles já eram esperados quando chegaram. Na entrada da aldeia, viram-se confrontados por uma multidão hostil de aldeões agitados pelo sacerdote local. No meio da multidão havia homens com capacetes de aço e fuzis; eles pertenciam à chamada Heimwehr, uma milícia civil apoiada por alguns policiais rurais. Assim que os irmãos desembarcaram do ônibus, foram atacados, e todo o seu suprimento de literatura foi arrancado deles.

Nem se precisa dizer que, depois deste incidente, quando os irmãos trabalhavam em zonas rurais, eles desembarcavam do ônibus fora das aldeias e tomavam outros caminhos para entrar nelas. Entretanto, os inimigos da verdade prontamente adaptavam sua atuação aos novos métodos dos irmãos. Algumas regiões estavam firmemente nas mãos dos clérigos, e a polícia estava mais do que disposta a cooperar com os clérigos na ação contra os irmãos.

As hostilidades que os irmãos tiveram de enfrentar atingiam todos os aspectos da vida, e não terminavam nem com a própria morte. O senhor e a senhora Geisberger, que moravam perto da cidadezinha de Schärding, aceitaram a verdade e retiraram-se da Igreja Católica em 1923. Por causa disso, pouco depois, a irmã Geisberger perdeu seu emprego como professora de costura e bordados. Daí, quando seu marido faleceu, o sacerdote da aldeia tentou impedir o enterro do irmão Geisberger no cemitério local. De forma legal, naturalmente, não se podia impedir um enterro. De modo que os irmãos apresentaram o assunto ao comissário distrital. Que arranjos podiam ser feitos para enterrar este homem que cria na Bíblia e se esforçava a viver em harmonia com ela? O enterro teria de ser feito na parte do cemitério reservada para sepulturas de pessoas que se haviam suicidado. Pelo menos, permitiu-se que o irmão Wetzel, de Viena, proferisse o discurso fúnebre.

Perseguidos Por Serem Cristãos

As Escrituras não ocultam o fato de que neste mundo ser cristão vem acompanhado de dificuldades. Jesus Cristo disse aos seus seguidores: “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: O escravo não é maior do que o seu amo. Se me perseguiram a mim, perseguirão também a vós . . . Mas, farão todas estas coisas contra vós por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou.” (João 15:20, 21) Esta mostrou ser a experiência daqueles que se esforçavam a andar nas pisadas de Jesus Cristo, na Áustria, durante este período. Às vezes, conforme Jesus advertira, a oposição provinha de membros da família imediata. (Mat. 10:32-39) Mas não desanimou os irmãos na Áustria de tomar sua posição a favor do Reino de Deus.

Beatrice Lojda era porta-voz do movimento socialista e havia sido candidata à eleição para o Nationalrat (Conselho Nacional, a Câmara Baixa do Parlamento). Uma das suas amigas — ela se chamava Bretschneider — a quem conhecia das suas atividades políticas, tornara-se Testemunha de Jeová, e naturalmente falava-lhe sobre o Reino de Deus. Beatrice foi convidada ao Hotel Continental em Viena para ouvir uma conferência. Era o mesmo hotel em que o irmão Russell havia tentado em vão proferir um discurso em 1911. Beatrice não cria em Deus, e no começo rejeitava o assunto inteiro, observando: “Deus, primeiro, teria de se apresentar a mim!” Mas ela queria agradar à sua amiga e por isso assistiu ao discurso. Apesar de seus sentimentos, já mesmo durante o discurso não pôde deixar de dizer várias vezes à irmã Bretschneider: “Esta é a verdade! Esta é a verdade!”

Não levou muito tempo até que Beatrice se retirou da vida política, em harmonia com as palavras de Jesus aos seus discípulos: “Não fazeis parte do mundo.” (João 15:19) Imediatamente surgiram dificuldades. O marido dela ameaçou divorciar-se, a menos que ela ‘tomasse juízo’, conforme ele o expressou. Mas ela se manteve firme na fé e continuou assim até a sua morte.

Franz Monfreda, de Salzburgo, havia sido católico zeloso, mas a verdade tocou-lhe o coração. Depois de deixar a Igreja Católica, em 12 de março de 1927, dedicou sua vida a Jeová Deus. Sua família não se agradou nada desta ação, e assim lançou contra ele vitupérios e hostilidades. Chegou ao ponto de ele perder sua casa, bem como seu negócio. Sua fé foi severamente posta à prova, porque levou bastante tempo para ele achar outro emprego. Mas, permaneceu fiel a Jeová. O que diz ele sobre aqueles dias? “Hoje sinto-me feliz de ter vencido este período e de me ter apegado à verdade. O braço de Jeová nunca se mostrou curto.” — Veja Isaías 59:1.

Havia Apenas Uma Bicicleta

Os irmãos na região de Riedlingsdorf, na província do Burgenland, mostravam extraordinário zelo na obra do Senhor. Seu território era bem espalhado, e quase não havia meio de transporte. Possuir uma motocicleta, sem se falar dum carro, era fora de questão para eles. Muitos não tinham nem mesmo uma bicicleta. De modo que alguns dos irmãos usavam o seguinte método para o serviço de campo:

Um irmão começava a seguir a pé, visitando em caminho as casas para pregar. Um segundo irmão ia à frente na sua bicicleta até um ponto previamente combinado, e deixava a bicicleta ali. Daí continuava sua atividade a pé. O primeiro irmão, chegando ao ponto onde se deixara a bicicleta, andava nela até o próximo lugar previamente combinado. Se esta bicicleta tivesse tido um hodômetro, sem dúvida teria registrado uma tremenda quilometragem na pregação do Reino!

Visto que os irmãos tinham apenas os domingos livres para o seu serviço de campo, aproveitavam bem o tempo. Às vezes partiam de casa às 3 horas da manhã e voltavam tarde da noite. Seu ministério era assinalado por esforços feitos de todo o coração.

Luta Por Direitos Legais

Ao passo que a pregação tornava-se mais extensiva, não era incomum os irmãos terem de comparecer perante as autoridades locais por causa das suas atividades de pregação. Até o ponto em que eram capazes de fazê-lo, eles se defendiam. Em alguns casos recebiam ajuda jurídica. Mas as medidas legais nem sempre resultavam em seu favor.

Entretanto, mostrou-se muito mais difícil conseguir o registro da filial local da Sociedade Torre de Vigia, do que evitar sentenças. Simplesmente ainda não era possível conseguir o reconhecimento como uma religião organizada. Os irmãos tentaram pelo menos registrar-se como associação, mas as autoridades públicas objetaram, argumentando: ‘Sua intenção é constituir uma organização religiosa, e uma organização deste tipo não pode ser constituída sob a lei austríaca.’

Os irmãos fizeram uma apelação à Corte Constitucional, queixando-se de que se lhes negava seu direito legal de constituir uma associação. A reação imediata dos membros da Corte Constitucional austríaca foi a rejeição do apelo em 7 de dezembro de 1929. A seguir, os irmãos tentaram registrar uma associação para a distribuição de Bíblias e de literatura bíblica, sem qualquer envolvimento de funções religiosas. Esta petição não foi negada. De modo que, em 24 de maio de 1930, constituiu-se uma organização local para servir de pessoa jurídica para os irmãos.

O reconhecimento legal da Wachtturm-Gesellschaft de modo algum acabou com as dificuldades que os irmãos tinham de enfrentar. Mas, os servos de Jeová se apegaram à sua responsabilidade bíblica. Reconheceram que se tinha de dar testemunho também às autoridades. — Mar. 13:11.

Novas Congregações, Crescente Assistência

A fim de não criar demasiadas controvérsias, os irmãos haviam decidido refrear-se de realizar grandes assembléias. Apenas o Fotodrama da Criação, visto em Viena pela primeira vez em 1922, havia de ser exibido também nas cidades provinciais menores.

Não obstante, em algumas regiões, a assistência às reuniões congregacionais era considerável. Isto se dava na cidade de Leoben, onde Eduard Payer estava no serviço de tempo integral. Antes da sua chegada, ninguém ouvira falar dos Estudantes da Bíblia. Mas ele pregou com muito zelo, e em pouco tempo cerca de 200 assistiam às reuniões que providenciou. Em 1932, ele serviu em Graz, capital provincial da Estíria. Novamente, ali, diversas centenas de pessoas assistiam às reuniões. Entre os presentes havia um ex-membro da Legião Estrangeira francesa, Leopold Pitteroff, o qual mais tarde foi internado num campo de concentração, onde ele permaneceu fiel. O número de organizados grupos (ou classes, como se chamavam então) de estudo bíblico já havia aumentado na Áustria para 30.

Aumenta a Oposição

A mudança no cenário político ocorrida a seguir foi muito bem recebida pelos clérigos, nossos principais opositores. O Dr. Engelbert Dollfuss, socialista-cristão, assumiu o cargo de chanceler federal em 20 de maio de 1932, e recebeu um telegrama congratulatório do Cardeal Pacelli, secretário de estado papal. Acentuadas restrições de liberdades civis ocorreram durante o mandato do Dr. Dollfuss. Aproveitando astutamente uma situação de emergência em 1933, ele dissolveu o Parlamento. Daí, com o pleno controle da situação política, ele estabeleceu o que chamou de “O Primeiro Governo-Modelo Católico da Europa”. Os círculos clericais descreveram Dollfuss como estadista católico ideal.

Naquelas circunstâncias, era de surpreender que se fizessem tentativas para proibir nossas reuniões cristãs? Uma proibição assim entrou logo em vigor em Graz, onde centenas de pessoas assistiam às nossas reuniões. Os irmãos não se deixaram intimidar. Entraram imediatamente com uma apelação, a qual tinha de ser permitida, visto que não havia infração da lei por parte dos nossos irmãos. Todavia, as autoridades públicas retiraram a licença de permanência de alguns pioneiros e assim os obrigaram a deixar a cidade. Quase toda semana se lançavam falsas acusações contra os nossos irmãos. Um jornal católico solicitou que o governo acabasse com a nossa obra cristã, revelando claramente quem estava por trás dessas ações.

Bem na hora certa, a organização de Jeová proveu uma ajuda edificante. Embora o irmão Rutherford não pudesse chegar em 1933 conforme planejara, ele enviou N. H. Knorr e M. C. Harbeck, que se reuniram com os irmãos no Estabelecimento Wimberger, em Viena. Esta reunião contribuiu muito para fortalecer os irmãos.

Censura e Confisco de Literatura

Em harmonia com a profecia bíblica, de que o governo humano será substituído pelo Reino dos céus, de Deus, nossas publicações freqüentemente destacavam os lamentáveis resultados dos governos do homem. (Dan. 2:44; 7:13, 14, 27) As autoridades governantes ofendiam-se com tais declarações quando achavam que estas as colocavam numa luz desfavorável. Em resultado disso, houve uma série de confiscos da nossa literatura no começo dos anos 30.

Durante 1933 e 1934, os irmãos foram intimados a comparecer perante as autoridades públicas quase semanalmente para ouvir todo tipo de objeções. Freqüentemente, as autoridades demandavam que certos parágrafos nas publicações fossem tornados ilegíveis. Para ter absoluta certeza de que todos os parágrafos em questão fossem realmente obliterados, postou-se um policial no próprio escritório da Sociedade. Alguns dias, o trabalho continuava por longo tempo, mesmo até à meia-noite. E visto que os olhos da lei ocasionalmente também se cansavam, certas passagens nas publicações afinal continuavam legíveis.

O Desassossego Político Provoca Restrições

As diferenças entre os diversos partidos políticos aumentaram dramaticamente. O Schutzbund socialdemocrático (forças armadas do Partido Socialista) passou para a resistência. A oposição da classe operária foi brutalmente esmagada em fevereiro de 1934. O Partido Social Democrático foi proibido. Seguiram-se restrições adicionais à liberdade pessoal.

Como que afirmando que havia começado uma nova era, a Áustria obteve uma nova constituição em maio de 1934. O preâmbulo dela soava como um credo religioso: “Em nome de Deus, o Todo-poderoso, de quem procede toda a lei, o povo austríaco recebe agora esta constituição para o seu permanente Estado Federal Germânico Cristão.” Entretanto, na vizinha Alemanha, Hitler, outro católico, mas que adotava uma ideologia política diferente, já estava firme no poder. E em julho, um apoiador do Partido Nacional Socialista de Hitler assassinou o Dr. Dollfuss, chanceler da Áustria.

Os meses que se seguiram, sob o governo chefiado pelo Chanceler Kurt Schuschnigg, não trouxeram alívio para os que realmente procuravam servir a “Deus, o Todo-poderoso”. Ainda se confiscava deles a literatura bíblica, e eles continuavam a ser levados perante os tribunais. Em muitos casos, proibiam-se também as reuniões bíblicas, públicas.

Dissolvida Pelas Autoridades a Associação Local

Finalmente, por um decreto emitido em 10 de setembro de 1934, o comissário federal de segurança de Viena dissolveu a Wachtturm-Gesellschaft, a associação legal usada pelas Testemunhas de Jeová. Todavia, depois de um apelo feito pelos irmãos, este decreto foi anulado pelo Gabinete do Chanceler Federal, na sua qualidade de junta executiva da segurança pública.

Mas as autoridades que estavam especialmente ansiosas para eliminar a nossa obra não sossegaram. Em 17 de junho e em 17 de julho de 1935 foi novamente decretado, esta vez pelo administrador da segurança federal, que a “Wachtturm-Gesellschaft, Filial da Watch Tower Bible and Tract Society, Brooklyn, N.Y.”, devia ser dissolvida. Os irmãos tentaram apelar novamente deste decreto, mas esta vez foi em vão.

O Reino em Primeiro Lugar, Apesar de Obstáculos

Os irmãos continuavam a trabalhar de porta em porta, embora agora com cautela. Apesar da sua vigilância, muitas vezes foram presos e sentenciados ou à cadeia, ou a pagar uma multa. Embora a cadeia pudesse significar algumas semanas de detenção, preferiam a cadeia a pagar uma multa, porque pensavam nas oportunidades de dar testemunho.

Naqueles dias de desassossego e de incerteza econômica, Leopold Engleitner ingressou no serviço de tempo integral. Em janeiro de 1934, mudou-se para o território que lhe fora designado na Alta Estíria, onde quase ainda não se dera testemunho até aquele tempo.

O nacional-socialismo já exercia uma forte influência ali. Em resultado disso, declarara-se em alguns lugares a lei marcial. Isto se dava em Schladming, que fora ocupado por uma milícia civil em resultado de distúrbios nazistas. Em vista da seriedade da situação, o irmão Engleitner levava apenas uma pequena quantidade de publicações nos bolsos de sua jaqueta, para não chamar atenção. Trabalhando primeiro nos arrabaldes duma cidade, oferecia publicações apenas àqueles em quem achava poder confiar.

Certo dia ele foi preso, e por causa da prevalecente situação política, perguntaram-lhe na polícia se portava alguma arma. Nosso irmão respondeu que sim, meteu a mão no bolso e tirou dali uma Bíblia, e colocou-a na mesa diante dos policiais. (Efé. 6:17) Quando estes se recuperaram das risadas, mandaram-no embora.

Os clérigos, porém, ficaram perturbados com este servo de Jeová. Sempre que ele começava a sua pregação numas das aldeias maiores, os clérigos cuidavam de que todos os habitantes fossem informados, inclusive a polícia. Houve uma prisão após a outra para o irmão Engleitner. Seguiram-se logo encarceramentos. A princípio, eram apenas por 48 horas por vez, mas as sentenças tornaram-se cada vez mais longas. Por fim, ele teve de transferir suas atividades para outro lugar.

No seu novo território, num remoto vale duma região montanhosa, ele tinha o cuidado de não passar por alto nenhuma casa. Mesmo quando não havia ninguém em casa, deixava alguma coisa para ler. Num caso, um lavrador foi o primeiro a voltar para casa. Ele notou o tratado, leu-o com cuidado, encomendou mais publicações e tornou-se um irmão fiel. Somente 32 anos mais tarde encontrou-se inesperadamente com o irmão Engleitner num congresso de distrito.

Por Que Estavam Ali?

Um episódio na aldeia de Riedlingsdorf apresenta um quadro claro da tensão existente. Programara-se um funeral naquela aldeia, e o irmão Ronovsky, de Viena, devia proferir o discurso. Naquela época, os funerais ofereciam a única oportunidade de dar testemunho a um grupo grande. Todavia, quando nosso irmão se aproximou da sepultura, ficou surpreso diante do cenário incomum. Havia ali 50 homens da polícia e da milícia civil, os quais, com capacetes de aço na cabeça e fuzis sob o braço, pareciam estar bem prontos para entrar em ação. O número dos presentes ascendeu a 100, inclusive o sacerdote local. Nosso irmão fez o melhor que pôde para dar um testemunho a respeito de Jeová Deus, o Filho dele e a esperança da ressurreição. Mas por que estavam ali os homens armados?

Só depois o irmão Ronovsky ficou sabendo do motivo deste encontro de abalar os nervos. Os irmãos daquela aldeia disseram-lhe mais tarde que os homens da polícia e da milícia civil haviam ficado surpresos com as explicações dele à base da Bíblia, porque o sacerdote local espalhara o boato de que as Testemunhas eram comunistas que pretendiam derrubar o governo.

Restrições às Reuniões

A partir de 1935, as reuniões não podiam mais ser realizadas em público. Todos os Estudos da Sentinela haviam sido proibidos, mesmo em lares particulares. Algumas vezes, as autoridades argumentavam que a segurança pública estava em perigo, e outras vezes diziam que a população católica se ofendia com tais reuniões. Mas a Palavra de Deus ordena: ‘Não deixeis de vos ajuntar.’ — Heb. 10:25.

Os irmãos continuavam a se reunir, mas apenas em lares particulares e em pequenos grupos de oito ou dez pessoas. O lugar de reunião mudava constantemente. Não atraíam assim indevida atenção. Nas suas reuniões, consideravam as Escrituras com a ajuda de A Sentinela e de outras publicações, tais como A Harpa de Deus, Criação, Profecia, Governo e Luz. Ouviam também discursos bíblicos gravados em discos, quando conseguiam obtê-los. Apesar da proscrição governamental, o povo de Deus aumentava constantemente em número.

Mesmo quando isto exigia sérios esforços, os irmãos faziam questão de se associar regularmente com concrentes. Visto que Viena não é longe da cidade tchecoslovaca de Bratislava, ou Pressburgo, os irmãos alugavam todo segundo fim de semana um ônibus especificamente para viajar de Viena a Bratislava, a fim de realizar o Estudo da Sentinela. Em 9 de junho de 1935, os irmãos austríacos assistiram ao congresso de distrito em Maribor, na Iugoslávia, e em 1936 foram ao congresso em Lucerna, na Suíça. Na própria Áustria, porém, a tensão continuava a aumentar.

Preparativos Para a Esperada Perseguição

Os relatos procedentes da Alemanha ofereciam vislumbres do que nossos irmãos tinham de suportar ali, e isto tornava apreensivos os publicadores na Áustria. Oravam a Jeová pedindo a força necessária para suportar tal dor e sofrimento, se necessário, e para permanecerem fiéis. Mas as coisas ainda não tinham chegado a este ponto.

No verão de 1937, todos os que pudessem fazê-lo foram exortados a assistir a um congresso a ser realizado em Praga, na Tchecoslováquia. Para acomodar os que se candidataram para a viagem de Viena a Praga, eram necessários três ônibus. A viagem levaria um dia inteiro. Nem todos, porém, tiveram os meios para ir de ônibus. O irmão Engleitner e mais cinco outros de Bad Ischl e arredores fizeram a viagem de mais de 360 quilômetros de bicicleta.

Todos os que assistiram ao congresso tiveram a sensação de que provavelmente este seria a última reunião grande que usufruiriam em liberdade. Os tópicos dos discursos eram bem apropriados para o objetivo de preparar os irmãos para os tempos críticos à frente. Durante este congresso foi repetidamente salientado que os irmãos se aproximavam rápido dum tempo de severa provação. Foram fortalecidos por instruções especiais sobre como comportar-se sob perseguição. A fim de evitar pôr outros em perigo, em casos de buscas nas casas, foram também acautelados a não guardar listas de nomes de outras Testemunhas. (Mat. 10:16) A firme perseverança dos irmãos na Alemanha foi salientada como belo exemplo a seguir. Os congressistas foram exortados a perseverar fiel e obedientemente, com plena confiança em Jeová, não importando o que pudesse acontecer. — Pro. 3:5, 6.

E assim a assembléia chegou ao fim. Com coração pesaroso cantaram: “Deus esteja contigo até nos encontrarmos de novo”, e depois se despediram de seus irmãos e da hospitaleira cidade de Praga. Muitas lágrimas foram derramadas na partida, quando nossos irmãos se deram então conta do motivo de se haver instado com eles para que assistissem a este congresso.

Tropas Alemãs Cruzam a Fronteira

Tudo indicava que se podia esperar que tropas alemãs em breve entrassem na Áustria. Algumas pessoas aguardavam ansiosamente um progresso econômico assim que a Áustria fosse anexada à Alemanha. Mas aqueles que não concordavam com a ideologia de Hitler estavam apreensivos das represálias. No que se referia aos irmãos, sabiam que viriam provas inevitáveis para testar sua lealdade a Jeová. Assim como se havia temido, as tropas de Hitler foram postas em ação e cruzaram a fronteira da Áustria em 12 de março de 1938.

Cerca de uma semana antes disso, em antecipação do que estava para acontecer, vendeu-se a propriedade da Sociedade em Viena, e o irmão responsável, junto com sua esposa, partiu da Áustria para a Suíça. Quando os irmãos na Áustria souberam disso, perguntaram-se: ‘O que significa tudo isso?’ ‘Como prosseguirá a obra?’ ‘Donde obteremos o alimento espiritual?’

O irmão August Kraft (também conhecido como Kraftzig), que havia trabalhado no escritório da Sociedade, também recebeu a opção de deixar a Áustria. Mas ele declarou: “Quero ficar com as ovelhas.” Amorosamente ele as encorajou, as fortaleceu e cuidou delas. Quão gratas eram por este irmão e pastor temente a Deus que cuidava delas ternamente, embora seu nome já estivesse na lista dos caçados pela Gestapo alemã! Ele viajava continuamente, visitando os irmãos em Innsbruck, em Klagenfurt e em outras partes do país. Bem cautelosamente, visitava os lares dos irmãos tarde à noitinha e partia de manhã bem cedo.

Exigências dos Novos Poderes Governantes

O dia 10 de abril estava cheio de tensão. O povo da Áustria devia votar se concordava com a anexação da Áustria à Alemanha. Todavia, isso na realidade já fora decidido muito antes. Ninguém podia desperceber o apelo premente feito ao público em cartazes espalhados por toda a parte: “Seu SIM para Hitler.”

O que fizeram os irmãos? Nossos irmãos sabiam que, não importava como agissem, as comissões eleitorais tinham meios de descobrir qual era a decisão de cada votante. No dia da votação, Johann Viereckl, de Viena, foi à floresta de manhã cedo e só voltou tarde da noite, sob a cobertura da escuridão. Os oficiais da comissão eleitoral estiveram cinco vezes à porta dele, segundo os vizinhos contaram mais tarde a Johann. Sem acordo prévio, outros irmãos fizeram exatamente o mesmo que Johann, a fim de manter sua neutralidade. Uma coisa estava então clara aos irmãos: Os olhos dos novos governantes estavam fixos neles.

A fim de que as pessoas expressassem sua solidariedade com o novo regime, exigia-se delas decorarem suas janelas com a bandeira suástica. Na pequena cidade de Knittelfeld, a irmã Altenbuchner morava num apartamento de frente para a rua. Vez após vez, os representantes locais do regime dirigiram-se a ela, exigindo que a bandeira suástica fosse pendurada nas janelas dela. Deixaram-na saber que, se ela não fizesse isso, granjearia a animosidade de todos os seus vizinhos. Pelo visto, confrontava-se com uma frente hostil unida. Por motivos de consciência, ela decidiu que não penduraria a bandeira. Com que conseqüências? Ela recebeu uma ordem judicial de deixar seu apartamento, que estava de frente para a rua, e de se mudar para outro nos fundos da casa, onde não se exigia a ostentação de bandeiras — uma solução que ela não havia esperado.

Provisão do Alimento Necessário

Por algum tempo depois da tomada da Áustria por Hitler, os irmãos conseguiram realizar pequenas reuniões em Viena — mas discretamente. Um irmão foi encarregado dos cuidados espirituais dos grupos de estudo em cada distrito de Viena.

No começo, o irmão Kraft ia a Vorarlberg, para apanhar exemplares de A Sentinela que irmãos suíços contrabandeavam através da fronteira. Em caminho para Viena, ele parava em Innsbruck para contatar os irmãos Defner e Setz, que ficavam com exemplares para a região do Tirol. O irmão Setz guardava este material precioso debaixo da lenha empilhada atrás da sua casa. Tudo isso parece muito fácil. Mas não se deve esquecer que a Gestapo e seus informantes estavam em toda a parte.

Irmãs Corajosas Preenchiam Uma Necessidade Vital

Sem demora, o irmão Kraft fez arranjos para que os suprimentos de alimento espiritual para os irmãos continuassem se ele fosse preso. Irmãs corajosas de bom grado colocaram-se à disposição para a obra de alimentação espiritual. Therese Schreiber, de Viena, era uma delas. O irmão Kraft ensinou-lhe a mimeografar os números de A Sentinela com o uso duma máquina simples.

A atividade às ocultas consumia grande parte do tempo de Therese, mas ela encontrou um serviço secular de meio período, que a habilitou a sustentar financeiramente a si mesma e a sua mãe. Ela procurava ser cautelosa. Um número bastante grande de irmãos já haviam sido presos. E visto que a mãe dela sofria dum grave problema cardíaco, o que aconteceria com a sua mãe se a filha fosse presa? Therese consolava-a, sempre assegurando à mãe que Jeová certamente não a deixaria desamparada.

Outras irmãs corajosas também estavam preparadas para servir os interesses de Jeová no que fosse necessário. A irmã Stadtegger, de Wels, ofereceu-se para viajar ao oeste, a fim de entregar aos irmãos em Tirol matéria de estudo. Isto ela continuou a fazer até cair nas mãos da Gestapo. Sem qualquer processo jurídico, ela foi enviada ao campo de concentração de Ravensbrück. Nunca voltou de lá. Algum tempo depois, o marido dela também foi preso.

Mostrava-se Satanás Vitorioso?

Depois de novamente visitar os irmãos para fortalecê-los, em maio de 1939, o irmão Kraft ficou apenas pouco tempo no seu modesto lar em Viena antes de a Gestapo atacar impiedosamente. Ele foi preso em 25 de maio. As portas da máquina de extermínio do campo de concentração de Mauthausen abriram-se, e ali foi apagada a vida dele. Um profundo pesar encheu o coração dos irmãos quando souberam da sua morte. Ele é lembrado carinhosamente por seu notável amor a Jeová e aos seus irmãos.

Será que Satanás e seus asseclas se mostravam realmente vitoriosos por prender e encarcerar esses servos de Deus, e por matar alguns deles? Ao contrário! Conforme mostra o caso de Jó, Satanás alega que alguém só serve a Jeová quando tudo vai bem para ele. De modo que toda Testemunha que se mostrava fiel sob dificuldades aumentava o monte de evidência de que o Diabo é um flagrante mentiroso e que Jeová é o verdadeiro Deus, a quem amava de todo o coração. Jeová recompensará ricamente a todos esses leais. — Jó 1:6-12; 2:1-5; Tia. 5:11.

Dois Tipos de Sacos de Alimentos

O irmão a quem se confiou então a responsabilidade pela obra de pregação não trabalhava no escritório da Sociedade, mas era dono duma pequena mercearia, para sustentar a si mesmo e sua esposa. Tratava-se de Peter Gölles. “Sem nenhuma instrução organizacional”, conforme ele o expressou, pediram-lhe que mantivesse a atividade do povo de Deus em andamento, tanto quanto fosse possível naquelas circunstâncias opressivas.

Visto que o irmão Kraft não estava mais com eles, o irmão Gölles supervisionava a reprodução e a distribuição de matéria para o estudo da Bíblia em todo o país. À noite ele trabalhava secretamente em porões frios, e de dia aparecia na sua mercearia. Não era seguro usar o correio, de modo que as publicações eram levadas por mensageiros. As contribuições recebidas não eram suficientes para cobrir as despesas de viagem, de modo que o irmão Gölles arcava com elas do seu próprio bolso. Visto que os fregueses freqüentemente recebiam os legumes e outros alimentos em sacos de papel, não se notava quando determinadas pessoas saíam da mercearia com sacos de papel que tinham conteúdo um pouco diferente. Por algum tempo, os mensageiros e os irmãos em Viena conseguiram o alimento espiritual desta maneira da mercearia do irmão Gölles.

Ajuda Para o Irmão Encarregado

A partir de 1938, era cada vez mais difícil manter contato com a Suíça e com os Países-Baixos, para se trazer pelo menos alguns exemplares de A Sentinela ao país. Muitos contatos foram interrompidos por causa de prisões, e às vezes eram necessárias viagens de trem, que levavam uma semana ou mais, para conseguir alimento espiritual de outros países. O irmão Gölles tentou obter suprimentos espirituais através de Pressburgo, Tchecoslováquia, sendo a matéria de estudo trazida dali pela irmã Kattner. Mas esta rota também foi cortada em pouco tempo.

Durante aqueles dias, surgiu no cenário Ernst Bojanowski. Ele veio da Alemanha, mas já tivera contato com irmãos na Áustria. Bojanowski ofereceu seus serviços ao irmão Gölles e trabalhou junto com a irmã Schreiber em mimeografar matéria para estudo. Bojanowski dava a impressão de ser um homem corajoso, de grande iniciativa. Ele também empreendeu viagens para entregar publicações. Em três ocasiões até mesmo batizou novos irmãos e irmãs.

Outra ajuda era o mimeógrafo instalado no porão da casa dum jardineiro em Viena. O uso dele exigia muito trabalho, porque a máquina tinha de ser retirada do esconderijo toda vez que era usada. Não obstante, ninguém notava o que estava acontecendo, porque o dono da propriedade havia emigrado, e somente o jardineiro, um de nossos irmãos, ficara para tomar conta da casa.

No oeste, perto da fronteira italiana, outras Testemunhas davam ajuda. A irmã Gelmi ampliava slides de artigos da Sentinela, trazidos por Narciso Riet através da fronteira da Itália. Ela preparava então os estênceis para o mimeógrafo, e as cópias prontas eram levadas a um lugar alto numa montanha. Dali se fazia a distribuição. A irmã Tammerl, de Innsbruck, e as irmãs Entacher (mãe e filha), de Schwaz, participavam na distribuição da matéria de estudo a concrentes. Elas se davam conta do que lhes poderia acontecer se fossem apanhadas, e estavam preparadas para enfrentar isso, se necessário.

Nas Mãos do Inimigo

De repente, começou uma nova onda de prisões, especialmente durante setembro e outubro de 1939. Corria entre as Testemunhas a informação de que um irmão havia revelado nomes às autoridades. Nos documentos da Gestapo, agora disponíveis para exame, você poderá ler por si mesmo estes pormenores em preto e branco. O relatório da Gestapo sobre Viena, datado 2 de novembro de 1938, diz

“Kuderna, que foi mencionado no relatório diário de 31 de outubro de 1939, declarou que a atividade ilegal da I.B.V. (Associação Internacional dos Estudantes da Bíblia] era desempenhada até bem recentemente. Ele revelou, além disso, os nomes dos irmãos na dianteira da I.B.V. de quase todos os distritos de Viena.”

Johann Kuderna havia sido concrente desde 1924. Por razões não mais conhecidas, parece que desintencionalmente havia feito o jogo do inimigo.

Outro golpe foi que o código secreto usado pelas irmãs na distribuição das revistas também caiu nas mãos das autoridades. Era então fácil para estas entender o que significava “20 exemplares para ‘Resi’”; visto que o primeiro nome da irmã Schreiber era Therese, ela era chamada abreviadamente de Resi. A irmã Schreiber foi presa e sem processo judicial internada no campo de concentração de Ravensbrück. E que dizer da sua mãe? Esta havia falecido dois meses antes.

Testemunho Corajoso no Tribunal

Depois de algum tempo, a irmã Schreiber foi levada do campo de concentração de volta a Viena. O que pretendiam fazer com ela? Ela logo iria descobrir. Durante o processo judicial no tribunal provincial em Viena, ela viu na escrivaninha algumas revistas A Sentinela nos quais aparecia o nome de Hitler. Estas revistas haviam sido produzidas às ocultas. A irmã Schreiber concluiu disso que eles sabiam sobre a participação dela tanto na reprodução como na distribuição das revistas.

“Foi a senhorita quem fez estas cópias?” perguntou-lhe enfaticamente o juiz. Já antes de ela ser presa, a irmã Schreiber havia orado a Jeová para que lhe colocasse palavras na boca, a fim de que pudesse dar um bom testemunho a favor Dele. Com um firme “Sim, fui eu”, ela aceitou a responsabilidade.

A irmã Schreiber tinha aparência agradável e se portava com distinção. O juiz, obviamente impressionado, queria absolvê-la. Mas a Gestapo manteve-a em detenção e mandou-a de volta ao campo de concentração. Mais tarde, a transferência para um campo de trabalho salvou-lhe a vida, embora tivesse de suportar cinco anos e meio de detenção.

Publicações Mimeografadas

Aqueles eram dias difíceis para o irmão Gölles, ao passo que colaboradores leais estavam sendo presos um após outro. Ele procurava fazer o melhor possível para continuar com a distribuição do alimento espiritual. Mas quem o ajudaria? Ele se lembrou de que alguns meses antes uma irmã se chegara a ele, dizendo: “Irmão Gölles eu gostaria de fazer algo para a obra do Senhor.” Tratava-se de Hansi Hron (agora Buchner), que fora batizada em 1931. Ela havia passado alguns anos em outros países. Agora, num tempo crítico, ela voltara à Áustria. E estava de coração preparada para empreender o serviço difícil de mensageira.

Ludwig Cyranek também ofereceu sua ajuda. Ele já passara dois anos na prisão na Alemanha. Assim que fora solto, empreendeu novamente a obra às ocultas e colocou a sua experiência à disposição dos irmãos em Viena. Ele participou no trabalho perigoso de copiar A Sentinela.

Mas, será que também se denunciara o lugar onde estava o mimeógrafo? Não tendo certeza disso, os irmãos mudaram a máquina primeiro para um lugar, e depois para outro. Ao passo que o irmão Cyranek preparava os estênceis, o irmão Joseph Schön, de Praga, e a irmã Anna Voll, de Viena, ditavam-lhe o texto, e Ernst Bojanowski, junto com outro irmão, o mimeografavam. De mais outro lugar diferente, Hansi Hron apanhava as cópias para entregá-las aos irmãos.

Novamente, o mimeógrafo tinha de ser transferido, e o irmão Schön achou um esconderijo para ele numa casa de veraneio. Ali, ele e outro irmão mimeografavam cópias. Terminada esta tarefa teocrática, o irmão Schön entregava a matéria de estudo aos irmãos. Certo dia, num ponto de entrega, convidaram-no a ficar mais tempo em visita. Isto foi um erro. Pouco depois ele foi preso.

A irmã Hron aprendeu deste acontecimento lamentável. Ela fazia suas entregas rapidamente e logo estava novamente a caminho. Depois de cerca de seis meses, ela também foi presa. Mas havia satisfeito seu desejo sincero “de fazer algo para o Senhor”.

Com o passar do tempo, os irmãos tornavam-se mais inventivos, tanto em esconder as publicações como quanto aos lugares de seus estudos em grupo. Deste modo, nas buscas de surpresa, nas casas, feitas pela polícia, não se achavam publicações. E para realizar suas reuniões, em algumas regiões os irmãos iam às montanhas ou às florestas para estudar. Quando os pés de milho já estavam suficientemente altos, pequenos grupos se reuniam num milheiral, no meio do campo, onde não podiam ser vistos da estrada. Também, quão apropriados eram os artigos de estudo da Sentinela! Entre estes havia artigos tais como “Nação Fiel” e “Perseverança na Verdade”. Era deveras “alimento no tempo apropriado”. — Mat. 24:45.

O Inimigo Procura o Mimeógrafo

As autoridades públicas preparavam um novo golpe. Queriam prender o máximo número possível de Testemunhas de Jeová, mas também tentavam desesperadamente encontrar o equipamento de reprodução usado para copiar A Sentinela.

Os arquivos da Gestapo, disponíveis para exame, contêm um decreto emitido em 8 de junho de 1940, que reza: “Por ordem do RSHA (principal departamento de segurança do Estado alemão), Berlim, em 12 de junho de 1940, todos os membros da I.B.V., bem como todas as pessoas trabalhando para este movimento, e todos os conhecidos como Estudantes da Bíblia, devem ser detidos. . . . As pessoas sujeitas à detenção incluem também mulheres. . . . Esta ação da polícia estatal entra em vigor em todo o território do estado alemão e deve ser executado repentinamente em 12 de junho de 1940. As casas devem ser vasculhadas ao mesmo tempo em que se fizerem as prisões, e qualquer material do movimento dos Estudantes da Bíblia deve ser apreendido.”

Este ataque do inimigo foi tão repentino, que é impossível reconstituir os pormenores. Mas sabemos que de uma só vez foram presos 44 irmãos e irmãs, inclusive nossa mensageira, Hansi Hron.

Entretanto, a evidência indica que o inimigo pretendia apreender mais do que apenas pessoas. Isto é revelado por uma sentença dum tribunal de Viena, datada de 28 de janeiro de 1941. Reza: “Somente depois de detalhadas investigações foi possível achar o lugar onde se produziam os impressos, descobrir a galeria, e encontrar e apreender a máquina de reprodução, junto com a máquina de escrever e outro material.” A satisfação dos inimigos do povo de Jeová é claramente refletida nestas palavras.

Será que Ele Transigiu?

Mais tarde, quando a irmã Hron estava sendo interrogada, o oficial interrompeu o interrogatório e saiu da sala. Enquanto ele estava ausente, os olhos da irmã Hron viram por acaso um protocolo, ou registro, do interrogatório de Ernst Bojanowski. O que ela leu chocou-a. Continha tantos nomes de irmãos e tantos outros pormenores, que ela não pôde deixar de suspeitar que Bojanowski havia cooperado com as autoridades.

Será que o oficial havia colocado deliberadamente esses papéis ali, na tentativa de quebrantar-lhe o espírito e induzi-la a divulgar mais informações? O protocolo do interrogatório de Bojanowski ficou preservado durante a guerra. Partes dele rezam como uma história da obra das Testemunhas de Jeová na Áustria, de 1938 até janeiro de 1940. Não é de admirar que se espalhasse entre os irmãos a informação: “Fomos traídos!”

Com o fim de se empenhar em certas atividades espirituais às ocultas, Bojanowski havia ido para a Alemanha em dezembro de 1939. Tanto ele como Anna Voll foram presos em Dresden. Um artigo publicado no órgão oficial do regime nazista, Völkischér Beobachter, de 21 de março de 1941, amplia o quadro. Lemos ali:

“Dresden, 20 de março. O Tribunal Especial em Dresden sentenciou à morte . . . Ludwig Cyranek . . . por motivo de desmoralização do poder militar, coincidente com a participação numa associação oposta ao serviço militar e em violação da proscrição da Associação Internacional dos Fervorosos Estudantes da Bíblia . . . Ernst Bojanowski, de Berlim, foi adicionalmente sentenciado, pelas mesmas violações, a 12 anos de penitenciária e à perda da honra por dez anos.”

Ludwig Cyranek, acima mencionado, era aquele irmão fiel que destemidamente se colocara à disposição para fazer adicional trabalho às ocultas depois de já ter servido dois anos na prisão. E Bojanowski? Havia ele sido brutalmente espancado? Havia sido induzido pela preocupação excessiva com a sua própria segurança a divulgar informações sobre os seus irmãos? Foi o protocolo parcialmente falsificado? Não sabemos isso, mas, segundo os irmãos na Alemanha, Bojanowski esteve apenas pouco tempo na prisão.

Jovens, mas Leais

Os documentos oficiais, preservados da era nazista, não revelam tudo. Mas eles falam de muitos que foram inquebrantáveis na sua integridade a Jeová. Auguste Hirschmann (agora Bender), cujos pais também estavam na verdade, era uma moça de 17 anos de idade quando foi interrogada pela Gestapo. A firmeza dela reflete-se neste relatório de outubro de 1941:

“Ela foi instruída nas doutrinas da I.B.V. pelos seus pais, e professa ser Testemunha de Jeová mesmo até o dia de hoje. A pessoa mencionada estudou repetidamente a Bíblia com os pais dela, a fim de que ela, conforme admite, ‘fortalecesse a sua fé e lealdade’, e ficasse bastante forte para se apegar às doutrinas representadas pela I.B.V. . . . Hirschmann recusa-se a fornecer quaisquer informações sobre pessoas da mesma crença. Ela tem de ser descrita como indoutrinável.”

Elisabeth Holec, embora fosse uma moça frágil, doentia, de 18 anos, também foi firme e determinada na sua posição a favor da verdade. No seu protocolo, datado de 17 de dezembro de 1941, os oficiais só podiam dizer: “Elisabeth Holec ainda se apega às idéias da I.B.V. e admite ter-se congregado com pessoas da mesma mentalidade. Recusa-se, porém, a fornecer qualquer informação sobre outros Estudantes da Bíblia e declara que isto seria traição, algo não praticado na ‘Organização.” Junto com sua mãe, ela foi levada ao campo de concentração de Ravensbrück, onde morreu.

Mas, voltemos agora a 1939, o ano depois de as tropas de Hitler tomarem a Áustria.

Prisões na Noite da Comemoração

A Comemoração em 4 de abril de 1939 mostrou ser um dia de severas provas para muitos irmãos. Eles fizeram seus preparativos, repassaram de novo os pontos principais do discurso e aprontaram os emblemas. Mas outros também fizeram preparativos.

Em Bad Ischl, cinco pessoas reuniram-se no apartamento de Franz Rothauer para celebrar a Comemoração. Reuniram-se para recordar o significado da morte de Jesus Cristo na realização do propósito de Jeová. Sabiam muito bem que Jesus passara por severas provas, que levaram à sua morte, mas que ele demonstrara inquebrantável integridade.

O irmão Engleitner estava bem preparado para proferir o discurso ao pequeno grupo, mas não levava consigo anotações. Mal começara a falar, porém, quando houve uma forte batida na janela. O dono-de-casa abriu a porta, e cinco homens invadiram a sala em que os irmãos estavam. Dois dos intrusos eram membros da temível Gestapo, e três eram da SS (uma tropa combatente do partido nazista). Ordenou-se aos irmãos que levantassem as mãos e ficassem assim até serem revistados. Os homens reviraram tudo no apartamento e ficaram furiosos por não encontrar nenhuma publicação da Torre de Vigia.

Sugeriram que os irmãos declarassem que eram membros duma seita religiosa que acataria voluntariamente as ordens do Führer (Adolf Hitler), e que não queriam ter nada que ver com as Testemunhas de Jeová. Naturalmente, nenhum dos irmãos estava disposto a fazer isso. Por conseguinte, todos eles foram presos. O único a quem se permitiu voltar para casa era o irmão Engleitner, e ele foi preso mais tarde. Os outros irmãos foram imediatamente levados para a cadeia na capital provincial de Linz. Ali se juntaram a muitas outras Testemunhas presas naquela noite. Pouco depois, os irmãos foram transportados para o campo de concentração de Dachau, ao passo que as irmãs foram mandadas para Ravensbrück.

Alois Moser, Josef Buchner e outros irmãos em Braunau e arredores tiveram experiências similares naquela noite. Eles também foram presos durante a celebração da Comemoração. Anos mais tarde, o irmão Buchner ainda se lembrava do discurso do comandante do campo, Grünewald, quando os irmãos chegaram a Dachau: “E agora, vocês, Estudantes da Bíblia, continuarão sendo o ‘inventário vivo de Dachau. E é neste campo aqui que vão apodrecer. Não sairão daqui; sua saída será pela chaminé.” Com isso queria dizer que os restos deles seriam cremados.

Sim, requeria-se deles enfrentar a morte às mãos de inimigos da verdadeira adoração, assim como se dera com aquele cuja morte se reuniram para comemorar. Suportaram seis anos de sofrimento nos campos de concentração, antes de serem finalmente soltos.

Posição a Favor da Neutralidade Cristã

Foi escrito há muito tempo pelo profeta Isaías: “Na parte final dos dias terá de acontecer que . . . muitos povos certamente irão e dirão: ‘Vinde, e subamos ao monte de Jeová, à casa do Deus de Jacó.’ . . . E ele certamente fará julgamento entre as nações e resolverá as questões com respeito a muitos povos. E terão de forjar das suas espadas relhas de arado, e das suas lanças, podadeiras. Não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerra.” (Isa. 2:2-4) Em contraste com isso o regime nazista exigia que todos os homens aptos fossem treinados na arte da guerra. O que fizeram as Testemunhas de Jeová na Áustria?

Pouco tempo depois de os nazistas terem tomado a Áustria, emitiu-se um decreto governamental exigindo que todos os que tinham prestado serviço militar na Primeira Guerra Mundial participassem durante três dias em exercícios militares de campo. Por conseguinte, Johann Rainer foi convocado para se apresentar no quartel militar em Innsbruck.

Que espetáculo! Oitocentos homens em posição de sentido para prestar um juramento militar. Diante de todos estes, o irmão Rainer se recusou a isso. Sem muita cerimônia, ele foi levado a uma sala para interrogatório. Ao sair da sala, viu o capelão, cujo nome era Klotz, no seu uniforme militar, com uma grande cruz pendurada ao pescoço e com o peito decorado com muitas medalhas concedidas durante a Primeira Guerra Mundial. Com a saudação de “Heil Hitler!”, o sacerdote chegou-se ao oficial para dar a sua opinião sobre o irmão Rainer.

Algum tempo depois, o irmão Rainer foi novamente levado perante diversos oficiais, para um interrogatório adicional. Um dos oficiais disse que aquilo que o sacerdote lhes dissera não estava de acordo com o que o irmão Rainer disse. O irmão Rainer respondeu que eles podiam ler em Mateus, capítulo 23, o que Jesus disse a respeito de tais líderes religiosos, a saber, que são hipócritas. Outro oficial disse: “Este homem tem razão!” Não obstante, o irmão Rainer foi encarcerado, e seu caso foi submetido ao tribunal provincial. Neste ponto, a dona do armazém em que ele estivera empregado contatou o chefe de polícia, afirmando que ela não tinha ninguém para fazer o trabalho do irmão Rainer. De modo que se permitiu a ele voltar para a sua família e o seu emprego.

Em mais de um caso, influentes parentes ou patrões que não eram Testemunhas intercederam a favor dos irmãos, freqüentemente porque eles apreciavam muito a honestidade e o trabalho diligente dos irmãos. Mas nem todos se saíram tão bem.

Esforços Fúteis de Oficiais Nazistas

Cerca de um ano depois de as tropas de Hitler terem marchado para dentro da Áustria, Hubert Mattischek ainda se empenhava sem cessar na pregação. Mas em março de 1939 parou um carro perto da casa dele e desceram dois oficiais da Gestapo. O irmão Mattischek não precisou adivinhar a quem queriam visitar. Ele estava equilibrado e calmo.

“Temos de fazer uma busca na casa à procura de literatura ilegal”, disse um deles. Como precaução, o irmão Mattischek já distribuíra a maior parte das publicações, e o restante estava guardado a salvo fora da casa. De modo que a busca foi desapontadora para os oficiais.

“O que fará quando em breve for convocado para prestar serviço militar?” perguntou um deles.

O irmão Mattischek respondeu sem hesitação: “Recusarei prestar um juramento ou fazer alguma coisa que tenha que ver com a guerra.”

Nisto o segundo oficial perguntou: “Dá-se conta das conseqüências?”

Nosso irmão respondeu: “Já por muito tempo estou plenamente apercebido delas”, e foi preso na hora.

Algumas semanas depois, o irmão Mattischek se viu num vagão de gado, junto com outros irmãos, a caminho do campo de concentração de Dachau. Ao todo, o irmão Mattischek suportou o internamento em três campos de concentração diferentes antes de se lhe abrirem as portas da liberdade.

Sempre que irmãos chegavam ao campo de concentração de Mauthausen, o notório líder comandante Spatzenegger acolhia-os com as palavras: “Nenhum cigano, nem Estudante da Bíblia, sairá daqui vivo.” Muitos realmente morreram ali.

Fizeram-se diversas ofertas que teriam permitido aos irmãos escapar desta máquina da morte. Por exemplo, certa manhã cedo, enquanto estavam no campo de concentração de Mauthausen, Hubert Mattischek e seu irmão Willi foram mandados apresentar-se ao portão do acampamento. Eles sentiam compreensivelmente certa tensão nervosa ao se dirigirem ao portão. Foram levados ao comandante do campo, Ziereis, que se encontrava rodeado por um grupo de altas patentes do partido e alguns homens da SS. O Gauleiter (título do líder regional do partido) da Alta Áustria, August Eigruber, também estava presente.

Ziereis se fez o porta-voz, e, virando-se para os dois irmãos, disse: ‘O Gauleiter aqui levaria vocês dois irmãos imediatamente para casa. Tudo o que teriam de fazer é assinar um pedaço de papel, especialmente preparado para Testemunhas de Jeová, e isto lhes pouparia anos de sofrimento.’

Houve um breve silêncio e certa consternação entre os oficiais, quando ouviram os irmãos responder firmemente: “Não queremos tornar-nos infiéis a Jeová Deus e à nossa crença.”

Ziereis, o comandante, voltou-se para os homens presentes: “Eu não lhes disse?” Obviamente, eles já haviam falado sobre a intransigência das Testemunhas de Jeová.

Treinamento Para o Serviço Nacional de Trabalho

Franz Wohlfahrt foi recrutado para o Serviço Nacional de Trabalho do Reich (alemão). Mas, quando chegou ao campo de treinamento, deu-se conta de que esta instituição também tinha por objetivo o treinamento pré-militar. Ele se negou a vestir o uniforme e a pôr o cinto. Daí, certo dia, 300 jovens e cerca de 100 líderes de patentes inferiores e também superiores, enfileiraram-se no pátio de chamadas, e ordenou-se que Franz Wohlfahrt marchasse com a mão erguida na saudação de Hitler, ao mesmo tempo prestando homenagem à bandeira suástica. Em vez disso, ele se recordou dos três jovens hebreus, aos quais se ordenara curvar-se diante da imagem erguida por Nabucodonosor na antiga Babilônia. (Dan. 3:1-30) Quanta força isso lhe deu! Seguiu o fiel exemplo deles.

Depois de poucos dias, o Dr. Almendinger, alto oficial de Berlim, tentou pessoalmente fazer nosso jovem irmão mudar de idéia. “Você não percebe em que se está metendo”, salientou o Dr. Almendinger durante a palestra.

“Oh! sim, estou apercebido disso”, respondeu nosso irmão de 20 anos de idade. “Meu pai foi decapitado pelo mesmo motivo há apenas umas poucas semanas!” O Dr. Almendinger desistiu. Por fim, Franz foi sentenciado a cinco anos de encarceramento no Campo Rollwald, na Alemanha.

Executados por Causa da Neutralidade Cristã

Certo dia, em setembro de 1939, espalhou-se um rumor inquietante em Salzburgo, cidade ao sopé das montanhas. Tornou as pessoas desassossegadas — mesmo aquelas que esperavam derivar grandes benefícios do regime de Hitler. O que cochichavam as pessoas aos ouvidos umas das outras? Dizia-se que dois homens tinham sido fuzilados no campo militar de Glanegg, perto de Salzburgo.

O que à primeira vista parecia ser apenas um rumor era amarga verdade. Os homens, Johann Pichler e Josef Wegscheider, dois de nossos irmãos, haviam sido executados por um destacamento militar, por se recusarem a prestar serviço militar. Mas a execução não ocorreu tão suavemente como os comandantes esperavam. Os dois irmãos haviam declarado que não era necessário vendar-lhes os olhos, embora isso fosse feito assim mesmo. Daí, quando se deu a ordem, os soldados negaram-se a atirar. Foi só depois de os soldados terem sido advertidos enfaticamente de que eles mesmos sofreriam medidas disciplinares se deixassem de obedecer, e só depois de se dar a ordem pela segunda vez, que os soldados atiraram nos homens inocentes. Todavia, havia mais envolvido.

Durante o julgamento em Salzburgo, o juiz e seus associados haviam tentado fazer com que os acusados mudassem de idéia. O juiz intimara as esposas dos homens a comparecer perante o tribunal, esperando que o aparecimento delas fizesse os homens ceder. Ao contrário, uma das mulheres dirigira a eles palavras de encorajamento, dizendo: “Sua vida está na mão de Deus.” Isto causara uma impressão tão profunda no juiz, que ele, muito agitado, bateu na mesa com o punho e gritou: “Esta gente não é criminosa nem traidora, mas, ao contrário, é um grupo de crentes, cujo número não se limita a dois ou três,

mas ascende a centenas e mesmo milhares!” Todavia, a lei exigia a sentença de morte.

No dia anterior à execução, os irmãos Pichler e Wegscheider foram visitados na sua cela, e fizera-se uma nova tentativa de fazê-los mudar de idéia. Perguntados se tinham um último desejo, expressaram o desejo de ter uma Bíblia. Esta lhes foi trazida pessoalmente pelo juiz. Ele os observou na cela deles até a meia-noite, e depois foi embora, dizendo: “Ambos estes homens, na sua última hora, estavam unidos com o seu Deus; são deveras homens santos!”

Acabada a execução, os dois caixões foram liberados para um sepultamento particular. Cerca de 300 assistiram ao funeral, naturalmente, sob estrita vigilância policial. Era proibido cantar, e a oração, por fim, foi interrompida pelas palavras duras dum oficial da Gestapo, porque ele a achava longa demais. A Gestapo proibira também o uso do nome Jeová. Mas isto não impediu que um irmão clamasse enquanto os caixões eram abaixados: “Até que nos encontremos de novo no Reino de Jeová!”

Depois que os eventos que cercavam esta execução se haviam tornado conhecidos em Salzburgo, todos os outros casos de execução foram transferidos para Berlim-Plötzensee, na Alemanha.

Palavras de Fé Duma Cela da Morte

Do centro de detenção de Berlim-Plötzensee, Franz Reiter, de 36 anos, escreveu à sua mãe em 6 de janeiro de 1940: “Estou firmemente convencido na minha crença de que estou agindo corretamente. Aqui eu ainda poderia mudar de idéia, mas isto seria deslealdade para com Deus. Todos nós, aqui, desejamos ser fiéis a Deus, para a Sua honra.”

Ele escreveu “todos nós”, porque havia mais cinco irmãos de perto da sua cidade natal que, iguais a ele, se viam confrontados com a morte na guilhotina. Sua carta continuou:

“Em vista do que eu sabia, se tivesse prestado o juramento (militar), eu teria cometido um pecado que mereceria a morte. Isto seria mau para mim. Eu não teria ressurreição. Mas, apego-me ao que Cristo disse: ‘Todo aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas todo aquele que perder a sua vida por minha causa, recebê-la-á.’ E agora, querida mãe, e todos os meus irmãos e irmãs, hoje me informaram da minha sentença, e não fiquem aterrorizados, é a morte, e eu serei executado amanhã de manhã. Minha força vem de Deus, assim como sempre se deu com todos os verdadeiros cristãos lá no passado. O apóstolo escreve: ‘Todo aquele que nasceu de Deus não pode pecar.’ O mesmo se aplica a mim. Provei isso à senhora, e a senhora podia reconhecê-lo. Minha querida, não desanime. Seria bom que todos vocês conhecessem ainda melhor as Escrituras Sagradas. Se continuarem firmes até a morte, nós nos encontraremos de novo na ressurreição. . . .

“Seu Franz

“Até que nos encontremos de novo.”

Alguns dos que receberam cartas assim eram cônjuges. A irmã Endstrasser, de Graz, ainda era recém-casada quando o carteiro lhe entregou uma carta datada de 15 de dezembro de 1939. Tente imaginar os sentimentos dela ao ler:

“Querida Erna,

“Aconteceu assim como decidi . . . Não chores, porque nos tornamos um espetáculo teatral para o mundo, e para anjos, e para homens. (1 Cor. 4:9) Saúdo-te mais uma vez e te beijo em espírito.

“Teu Dati.

“Vejo-te de novo no Reino.”

Essas cartas, que mostravam grande fé, eram para os que ainda tinham liberdade um encorajamento para manterem a fidelidade. Estes, por outro lado, procuravam encorajar seus irmãos encarcerados, apesar do perigo que isso podia significar para eles.

Por exemplo, uma carta recebida por Franz Zeiner, enquanto estava preso em Berlim, incluía a exortação: “Seja forte na fé, porque Jesus Cristo nos ajudará, e também nosso grande Pai celestial . . .” Conforme era de esperar, esta carta fora lida pelo censor. Franz Zeiner foi executado em 20 de julho de 1940. Mas que dizer de Wilhelm Blaschek, que escreveu esta carta, encorajando Franz a permanecer forte na fé? Ele foi encontrado, preso e sentenciado em 11 de agosto de 1941 a quatro anos de trabalhos forçados numa penitenciária, sob a acusação de ‘desmoralização das tropas’.

Separados à Força dos Filhos

As provas enfrentadas por outros envolviam seus filhos. Por terem ensinado aos filhos as crenças das Testemunhas de Jeová, baseadas na Bíblia, Richard Heide e Johann Obweger foram intimados a comparecer perante o ministro presidente do Tribunal Distrital de St. Veit/Glan.

Depois, o irmão Heide recebeu uma ordem judicial, determinando que seu filho lhe seria tirado. A ordem argumentava: “É perigoso deixá-lo (o filho, Gerhard) aos cuidados do pai, visto que este é Estudante da Bíblia e proíbe ao seu filho de fazer a saudação de Hitler e de cantar cânticos nacionais.”

Gerhard foi entregue aos cuidados de outros, e permitiu-se ao pai visitá-lo apenas de vez em quando. Mais tarde, ele e toda a sua turma na escola foram mandados ao acampamento de menores em Lienz, no Tirol Oriental, onde ficaram até o fim da guerra em 1945. Mas Gerhard não se esqueceu do que seus pais lhe haviam ensinado. Ele é pioneiro já por mais de 38 anos.

Jovem, mas Fiel

E que dizer da filha de Johann Obweger? Hermine mal tinha 11 anos quando foi tirada dos pais e mandada para um reformatório. Mas os pais dela haviam aproveitado bem as oportunidades para inculcar a verdade na sua filha.

Os opositores da verdade não conseguiram quebrantar a lealdade de Hermine a Jeová. Os esforços estrênuos de fazê-la cantar uma canção patriótica ou de usar a saudação “Heil Hitler!” não tiveram êxito. Ela se negou resolutamente a qualquer transigência. Certo dia, uma professora tentou obrigá-la a usar a jaqueta do uniforme da Liga de Moças Alemãs. Mas não importava quão arduamente as pessoas responsáveis tentavam vesti-la com a jaqueta, só conseguiam enfiar os braços dela até os cotovelos, de modo que desistiram.

Apesar da desaprovação das autoridades escolares, ainda se permitia aos pais visitar a filha. Naturalmente, estes aproveitavam estas oportunidades para incentivá-la a permanecer firme na fé. Hermine foi também encorajada pela lealdade de seu irmão Hans. Ela sabia que ele estava na prisão, e depois num campo de concentração, por recusar o serviço militar. Sabia também que ele perseverava fielmente. Todavia, um de seus irmãos ingressou no exército. E os diretores da escola aproveitaram isso de modo esperto como argumento no seu empenho de quebrantar a lealdade dela. Mas não haviam contado com a determinação de Hermine. Sua resoluta resposta foi: “Não sou seguidora de meu irmão. Sou seguidora de Cristo Jesus!”

Visto que ela não queria transigir, e porque as autoridades queriam acabar com as visitas dos pais dela, mandaram-na para um convento em Munique, na Alemanha. Entretanto, em maio de 1944, permitiu-se-lhe que voltasse para casa por alguns dias. Isto surpreendeu muito os pais dela. Mas as autoridades nunca esperavam o que aconteceu então. Hermine foi batizada enquanto estava ali, e o irmão Ganster, que ainda podia servir seus irmãos em liberdade, proferiu o discurso de batismo. Isto infundiu a Hermine renovada força para permanecer leal a Jeová durante o tempo remanescente até o colapso final do regime nazista.

Cuidado! Espiões e Informantes

Por causa da contínua espionagem de informantes em toda cidade e aldeia — acima de tudo, a espionagem dos guardas de quarteirões e de outros que trabalhavam para a Gestapo — a atividade espiritual dos irmãos tornava-se cada vez mais difícil. Certo dia, Johann Viereckl quis visitar Peter Gölles, o então responsável pela supervisão da obra de pregação na Áustria. Em vez de ir diretamente à mercearia do irmão Gölles, o irmão Viereckl passou numa casa vizinha, para perguntar a uma comerciante, que parecera estar interessada na verdade e que conhecia o irmão Gölles. Ele perguntou como Peter Gölles estava, e se tinha sido preso. Mas ela não quis dar nenhuma informação. Em vez disso, ela lhe disse que fosse até um florista do outro lado da rua. Disse que ali ele podia obter a informação que queria.

Isto suscitou as suspeitas do irmão Viereckl, de modo que preferiu voltar para casa. Pouco depois ele soube que a Gestapo estivera esperando no florista para interceptar e prender a todos os que viessem para falar com o irmão Gölles. Não demorou muito até que a mercearia foi fechada, porque o irmão Gölles e sua esposa foram presos em 12 de junho de 1940.

Uma Incomum Sessão no Tribunal

O irmão Gölles foi acusado de dirigir a obra das Testemunhas de Jeová na Áustria. Depois de meses de detenção, ele foi levado perante um juiz que era notório por baixar sentenças de morte e que furiosamente chamava os Estudantes da Bíblia de abscesso no povo alemão. O procurador público pediu a pena de morte. Depois de o irmão Gölles ter respondido biblicamente às acusações e seu advogado de defesa ter proferido o seu discurso, o tribunal entrou em recesso. Antes de recomeçar o julgamento, houve uma espantosa reviravolta.

De manhã cedo, o irmão Gölles ouviu a chave girar na porta da sua cela. Um guarda da prisão acenou-lhe para acompanhá-lo e levou-o a uma sala com grades. Quem esperava por ele ali? O juiz, sozinho.

“Quero salientar-lhe”, começou o juiz, “que estou seriamente violando meu juramento no cargo por falar com um acusado em particular, mas faço isso porque não consegui sossegar nem dormir desde o julgamento. Eu me consideraria assassino, se proferisse uma pena de morte para o senhor.

Houve um silêncio total na sala. Foi o irmão Gölles quem finalmente falou: “Quem cria tais circunstâncias é Satanás”, disse. “Ele é o verdadeiro assassino. E o senhor, o senhor é apenas o homem que profere uma sentença à base dos fatos do julgamento.” A tensão na atmosfera afrouxou.

“Tentarei manobrar o processo de modo a que não perca a vida”, prometeu o juiz. Ele acrescentou então algo que poderia ter resultado em sérias conseqüências para ele mesmo: “Eu realmente não quero aparecer como querelante em nome do Estado, mas, antes, quero ajudá-lo a escapar das garras da morte.” O juiz pôs então uma mão no ombro de nosso irmão, e com a outra apertou a mão do irmão.

O julgamento tomou um rumo mais desapaixonado depois de recomeçar, com o juiz tremendo o tempo todo. O tribunal não aceitou a moção da pena de morte, mas, em vez disso, sentenciou Peter Gölles a dez anos na penitenciária, sem qualquer atenuação. Ele passou os próximos três anos e meio na solitária, na penitenciária de Stein, na Baixa Áustria.

Um Servo Humilde

As autoridades públicas reconheciam o papel importante na obra oculta desempenhado por Peter Gölles, este homem simples, tão plenamente devotado a Jeová. Isto se torna claro nos protocolos preservados entre os registros da Gestapo. Da descrição deles, seria de imaginar um líder dinâmico e forte. Mas ele não era nada disso! Era um homem modesto, que nunca queria ter destaque. Depois do fim do regime nazista, em 1945, ele participou na reconstrução da organização na Áustria, e mais tarde passou novamente para a obscuridade. Durante alguns anos, ele ajudara a preparar pacotes de publicações, prontos para ser despachados do Betel em Viena. Com a sua disposição bondosa e amigável, ele e sua incansável esposa, Helene, que todo o tempo se manteve firme ao lado dele, foram uma fonte de encorajamento para os irmãos, não somente sob perseguição, mas também mais tarde, nos tempos do após-guerra.

Ele serviu fielmente até a sua morte em 2 de setembro de 1975. Não professava pertencer ao restante dos co-herdeiros de Cristo, mas mostrava profundo apreço pelo “escravo fiel e discreto” e cooperava com ele, para cuidar da obra na Áustria durante tempos muito difíceis. — Mat. 24:45.

O Manejo de “Alimento” Escasso

Durante os últimos anos da guerra, a obra das Testemunhas de Jeová ficou virtualmente paralisada em grande parte da Áustria. Os irmãos nas diversas cidades e aldeias conseguiam reunir-se apenas ocasionalmente. Havia necessidade de muita cautela.

Em Klagenfurt, porém, a atividade teocrática continuava, aparentemente melhor do que em outras partes. O irmão Ganster entregava as publicações recebidas a Peter Vajvoda, que copiava cada número de A Sentinela. Certa vez, o irmão Ganster tomou alguns números de A Sentinela, bem escondidos na sua pessoa, e andou de Klagenfurt a Krumpendorf (a cerca de 7 quilômetros) para visitar a família Platzer e a irmã Wanderer. E quem andava na mesma direção? Um oficial da Gestapo, aquele que costumava interrogá-lo. Mas o oficial não suspeitou de nada, e eles andaram juntos. Não se engane, porém, porque isso não foi nada fácil para o irmão Ganster.

Em Viena, a reprodução local de A Sentinela ficara parada quando o irmão Gölles foi preso. Mas os irmãos recebiam de vez em quando alimento espiritual por meio dum irmão da Suíça, o qual tinha um emprego secular que o obrigava a viajar a Viena. Tomando as devidas precauções, trazia consigo exemplares de A Sentinela. Quando um irmão recebia uma destas revistas, não se lhe permitia ficar com ela. Visto que não havia exemplares adicionais para os outros irmãos, ele a lia imediatamente e a passava adiante ao próximo irmão de confiança, não pessoalmente, mas enfiada numa sacola de compras ou em outra coisa. Deste modo, essas publicações preciosas passavam de mão em mão. Este alimento espiritual era de grande importância para os irmãos na sua situação provadora.

Uns Poucos Recuam

Com o objetivo de quebrantar a resistência dos irmãos e de influenciá-los a assinar uma declaração renunciando a todas as ligações com as Testemunhas de Jeová, a Gestapo afirmava que muitos irmãos já a haviam assinado e haviam sido soltos. Isto era um grande exagero.

A Gestapo prometia que todo aquele que assinasse a declaração ficaria livre e assim se pouparia anos de sofrimento. O que isso realmente significava era que ele trocava o sofrimento físico por anos de tormento de consciência. A questão era claramente uma de lealdade a Jeová e à sua organização. A vasta maioria dos irmãos permaneceu inabalável na sua integridade. Entretanto, houve alguns que assinaram a declaração. Mas nem todos os que a assinaram ficaram realmente livres; usualmente permaneceram sob constante vigilância.

Certo dia, Agnes Hötzl conheceu em Viena um casal que estivera num campo de concentração por causa da verdade. Entretanto, ela não sabia das circunstâncias da soltura dos dois. Cheia de alegria, cumprimentou-os. Sem dizer uma palavra, eles passaram por ela como se fosse uma total estranha. Então ela se apercebeu do que tinha acontecido. Em outra ocasião, ela estava perto da entrada duma fábrica, não longe do seu lar. Não podia crer no que via: No peito de alguém que ela pensava ser irmão havia uma suástica! Ele também passou por ela, temerosamente agindo como se não a conhecesse. Esses eram golpes duros para os fiéis, mas não diminuíram seu amor leal a Jeová e aos demais dos seus irmãos leais.

Perseverança sob os Tormentos dum Campo de Concentração

Em 1939, Alois Moser, de Braunau, e Josef Buchner, de Ranshofen, junto com outros 142 irmãos, foram transferidos do campo de concentração de Dachau para o campo de Mauthausen, na Alta Áustria. Quando chegaram a Mauthausen, por volta da meia-noite, e saíram dos vagões de gado, disseram-lhes: “Mauthausen não é um sanatório como Dachau. Nós vamos acabar com todos vocês.” Segundo os cálculos, de agosto de 1938 a maio de 1945, o total de 206.000 pessoas foram encarceradas ali, e, segundo os registros, 35.270 faleceram.

Durante os primeiros três anos, todos os nossos irmãos, sem exceção, foram obrigados a fazer trabalho físico, duro, na pedreira. No inverno, o tempo era extremamente frio. Centenas de presos realmente morreram congelados na pedreira. À noite, quando os presos voltavam ao campo, cada um deles tinha de carregar uma pedra grande, subindo os 186 degraus da “escada da morte” que levava ao campo. O líder comandante Spatzenegger decretou que pedras de menos de 10 quilos eram leves demais. Mandava pôr pedras de 40 ou mais quilos nos presos, muitos dos quais desfaleciam completamente exaustos. Freqüentemente, aqueles que desfaleciam eram mortos ali mesmo.

Por fim, os irmãos Moser e Buchner receberam a tarefa de puxar o trenó no qual se colocavam os cadáveres despidos procedentes de diversas partes do campo. Cada cadáver estava identificado por uma plaqueta com o nome e o número do preso amarrado ao dedão do pé. Esta tarefa levava-os às barracas que acomodavam a maioria dos presos acometidos de diarréia. Para a sua grande consternação, encontraram ali August Kraft. Toda esta aflição e a situação deplorável em que se encontravam fizeram os dois irmãos irromper em pranto. Mas o irmão Kraft, em vez disso, estava pensando nas bênçãos que havia usufruído das mãos de Jeová, e disse: “Agradeço a Jeová por tudo!” No dia seguinte, o irmão Kraft também jazia no trenó tendo persistido em seguir até o fim o alvo “do prêmio da chamada para cima”. — Fil. 3:14.

Os irmãos cuidavam amorosamente do bem-estar uns dos outros. Quando alguém estava especialmente fraco, outros davam-lhe algumas colheradas adicionais da sua escassa comida, a fim de ajudá-lo a recuperar a necessária força.

Atividade Teocrática Dentro dos Campos

Nos próprios campos, a atividade teocrática continuava, mas com extrema cautela. Dava-se testemunho, realizavam-se estudos bíblicos, dirigiam-se algumas reuniões, e uns poucos foram batizados.

Franz Desch foi transferido de Mauthausen para o campo de concentração de Gusen, não muito longe dali. Neste lugar ele pôde estudar a Bíblia com um oficial da SS. Quanto progresso se fez? Bem, imagine a grande alegria que ambos tiveram quando, anos mais tarde, se encontraram como irmãos num congresso!

Traziam-se novos presos de muitos países. Para transmitir-lhes a verdade do Reino, os irmãos usavam cartões de testemunho escritos naquelas línguas. Visto que se permitia aos presos receber correspondência, os guardas da SS que entravam nas barracas não suspeitavam que os homens não estavam lendo alguma correspondência.

No campo de Gusen, uma serralharia era administrada pelo irmão Karl Krause. E que serralharia! Não só se fabricavam e consertavam ali fechaduras, mas também cinco poloneses foram secretamente batizados numa tina de madeira feita especialmente para este fim.

Para se manterem espiritualmente fortes, os irmãos se reuniam à noite em pequenos grupos para considerar textos bíblicos. Ocasionalmente, até mesmo conseguiam uma Bíblia. Ela era então dividida em partes, as quais eram passadas de um para outro. Deitados sob as suas camas, liam durante o pouco tempo livre de que dispunham.

Os irmãos até mesmo conseguiram celebrar a Refeição Noturna do Senhor. Tendo conseguido os emblemas, reuniram-se enquanto os outros estavam dormindo. Os lavatórios e os sanitários, em Gusen, encontravam-se entre as barracas, numa distância de aproximadamente 6 metros. Num lavatório assim, à luz duma vela, celebraram a Comemoração. Sob a amorosa proteção de Jeová, tudo saiu bem.

Um Registro de Fidelidade

Muitas outras experiências poderiam ser contadas como exemplos da fidelidade de nossos irmãos durante o domínio nazista sobre a Áustria. As contadas aqui são apresentadas apenas como exemplo das dificuldades suportadas e da inquebrantável lealdade demonstrada.

Antes de as tropas de Hitler entrarem na Áustria, havia 549 publicadores neste país. Ao todo, 445 foram depois encarcerados por diversos períodos. Entre 1938 e 1945, 48 deles, inclusive algumas de nossas irmãs, foram executados. Treze foram espancados até a morte, asfixiados com gás ou tornados vítimas de perversas experiências médicas. Pelo menos outros 81 morreram nas prisões e nos campos de concentração por doenças ou por esgotamento.

Forçosamente se usam estatísticas quando se fala sobre as vítimas daquela época triste. Mas trata-se de muito mais do que de meros números. Cada um deles foi irmão ou irmã cristã, bem como marido ou mulher, pai ou mãe, filho ou filha. Estes acrescentaram seu testemunho ao registro compilado por testemunhas fiéis de Jeová no decorrer de milhares de anos, no sentido de que o amor a Jeová move os fiéis servos dele até mesmo a depor sua vida, se necessário, para provar sua lealdade a ele como seu Deus e Soberano.

O Que Faremos Primeiro?

A guerra e o domínio nazista sobre a Áustria chegaram ao fim na primavera setentrional de 1945. Pouco depois, nossos irmãos e nossas irmãs começaram a voltar dos campos de concentração. A primeira coisa em que pensavam era associar-se com outros irmãos. Embora requeresse muitos esforços providenciar novamente as reuniões, em 21 de julho de 1945 havia 27 presentes na primeira reunião organizada em Klagenfurt, após a guerra. Por volta do outono, já se realizavam também reuniões em Viena.

Irmãos fiéis passaram a reorganizar a obra. Em Vorarlberg, a província mais ocidental da Áustria, diversos irmãos reuniram-se com Franz Zürcher, Georg Gertz e David Wiedenmann, todos do escritório em Berna, na Suíça, e consideraram as medidas necessárias para reiniciar as reuniões congregacionais e a obra de pregação. Da Áustria, estavam presentes Peter Gölles, Felix Defner, Leopold Pitteroff e Franz Ganster. Apesar das experiências duras dos anos de guerra, os frutos do Reino começaram a manifestar-se. Os 549 publicadores ativos em 1937 aumentaram em número para 730 proclamadores do Reino no fim do ano de serviço de 1946.

Depois de voltar da prisão, Peter Gölles foi o primeiro superintendente de filial do após-guerra para a Áustria. Seu apartamento em Viena, na Florianigasse 58, era a filial. Daí, a partir de abril de 1947, o trabalho de escritório era feito no prédio duma escola que fora muito danificado por bombas. Os irmãos mimeografavam ali A Sentinela e também uns 4.000 folhetos. Therese Schreiber, que fora encarcerada por sua participação em mimeografar literatura bíblica, estava novamente trabalhando, ajudando na mimeografagem. Em Klagenfurt, os irmãos até mesmo mimeografaram todo o livro Filhos e o encadernaram em capa dura. Papel e tinta eram escassos e difíceis de obter mas, com a ajuda de Jeová, os irmãos conseguiam o necessário.

O ano de 1947 ofereceu uma oportunidade para os irmãos usufruírem seu primeiro congresso no após-guerra. Ele era de quatro dias. A assistência de 1.700 talvez pareça pequena, em comparação com os congressos realizados agora, mas era então uma grande multidão para os irmãos austríacos, e apresentava evidência do potencial de muito aumento.

Mais adiante naquele mês, no sábado, 21 de junho, tomou-se outra medida importante em conexão com a reorganização. Sete irmãos reuniram-se numa escola para reorganizar a associação local da “Wachtturm-Gesellschaft, Zweigstelle der Watch Tower Bible & Tract Society, Brooklyn, N.Y.” (Sociedade Torre de Vigia, Filial da Sociedade Torre de Vigia de Bíblias & Tratados, Brooklyn, N.Y.). Assim, havia novamente disponível uma pessoa jurídica para a publicação de literatura.

E Então — Sibéria!

Até maio de 1955, a Áustria estava ocupada pelas tropas dos Aliados (EUA, França, Grã-Bretanha e URSS), e foi dividida em quatro zonas de ocupação. A aldeia de Deutsch Wagram encontrava-se na zona soviética. O irmão Franz Malina morava ali. Ele sabia falar russo, e dava testemunho de maneira bem franca às forças de ocupação, até mesmo dirigindo estudos bíblicos com alguns dos homens. Conseguiu também literatura bíblica em russo e distribuiu-a entre os soldados.

Suas atividades não passaram despercebidas. Logo cedo em 1948, dois homens favoravelmente dispostos para com ele avisaram: “Franz, saia daqui; eles querem prender você. Encontraram publicações suas com os russos.” Mas o irmão Malina não fugiu. Decidiu ficar com sua esposa doente e com os filhos. Não demorou muito, porém, até ele ser preso. Ficou oito dias detido no escritório do comandante soviético local, e por fim foi transferido para o centro do comando do exército soviético. Durante as seis semanas que foi obrigado a ficar ali, ele pregou francamente tanto a soldados como a oficiais, falando-lhes sobre o Reino de Jeová. Por fim, foi sentenciado a dez anos de trabalhos forçados sob a agora já familiar acusação de ‘desmoralização das tropas’ e foi levado para a longínqua Sibéria.

Por fim, chegou à vasta região atrás dos montes Urais. Ali foi mandado de um campo para outro, quase sempre a pé. Escapar era impossível. Em quase todos os campos encontrou irmãos de diversas partes da União Soviética. Quando chegava a um novo campo, ele naturalmente tinha de procurá-los. E quando encontrava irmãos, eles o testavam para saber se realmente era Testemunha de Jeová. Faziam isso por meio de perguntas tais como: “Como vai a família de Jonadabe?” e: “Quem é o presidente da Sociedade Torre de Vigia [EUA]?”

Uma vez convencidos de que era realmente irmão, ajudavam-no amorosamente a suportar a vida dura e desacostumada nos campos. Por causa da sua idade, era chamado de Papai. No decorrer de cinco anos, chegou a conhecer 30 campos. Daí, em 1953, concederam-lhe indulto e ele voltou para casa. Sua esposa havia falecido no ínterim, e sua filha mais velha assumira o papel de mãe. Ficou o irmão Malina desanimado ou quebrantado? Ao contrário, já nos próximos poucos dias estava pronto para pregar novamente as boas novas de casa em casa. Ele continuou a fazer isso até a sua morte em 1964.

Pioneiros Participam na Colheita

Nos anos decorridos desde a Segunda Guerra Mundial tem havido muita expansão na obra do povo de Jeová na Áustria. Fervorosos pioneiros, pioneiros especiais e missionários fizeram uma grande contribuição para este aumento.

Entre esses zelosos trabalhadores estavam Hans Rothensteiner e sua esposa. Um ano depois de entrarem pela primeira vez em contato com a verdade começaram a ser pioneiros. Em 1955 foram designados pioneiros especiais. Uma das suas designações era o território ao redor de Kaprun, numa região alpina. Hans conta a seguinte experiência que tiveram ali:

“Com corações apreciativos empreendemos a obra de procurar as ovelhas do Senhor. E, assim, encontramos em Walchen uma família que já recebera algumas publicações. Iniciou-se imediatamente um estudo com a família inteira; eles convidaram também alguns amigos a se juntarem a nós. Às vezes havia até 12 pessoas presentes. O estudo progredia bem — tão bem, que as famílias logo decidiram abandonar a igreja. Entretanto, para fazer isso, precisavam de suas certidões de batismo. De modo que Lois, uma dessas pessoas de bom coração, foi à paróquia com o fim de conseguir as certidões para todos eles. Visto que havia muitos filhos nessas famílias, precisavam ao todo de 17 certidões.” A conversa de Lois com o clérigo local foi mais ou menos da seguinte maneira:

Lois: Bom dia. Preciso de algumas certidões de batismo.

Sacerdote: O que quer dizer com “algumas”, e para que precisa delas?

Lois: É porque queremos deixar a igreja.

Sacerdote: Estão querendo, eh? E quantas certidões deseja?

Lois: Tomei nota disso. Oh! sim, aqui está; preciso de apenas 17.

Sacerdote: O quê? Que é que aconteceu que tantos de vocês querem deixar a igreja?

Lois: Bem, nós temos estudado a Bíblia. É só isso. Acontece que o senhor nos ensinou uma porção de coisas que absolutamente não são verdade, coisas que nem Jesus, nem a Bíblia disseram!

Esta conversa continuou por um tempo, e Lois partiu sem as certidões. Numa data posterior, porém, ocorreu uma conversa com o clérigo quando Hans também estava presente. No fim dela, Lois disse ao sacerdote: “Agora, não há absolutamente nada que o senhor conseguiu provar, e, portanto, entregue-nos as certidões de batismo, e depressa, por favor.” O sacerdote não teve outra escolha senão atender o pedido.

Agora existe ali nesta aldeia alpina uma congregação de 90 publicadores.

Em 1978, em todo o país, havia 626 que usufruíam as bênçãos do serviço de pioneiro, inclusive 278 pioneiros auxiliares. Mas em abril de 1988, o número que relatou tal serviço havia aumentado para 1.925, inclusive 1.102 pioneiros auxiliares.

Arranjos de Filial

Em 1.º de agosto de 1965, Lowell L. Turner, que recentemente se formara no curso especial de treinamento organizacional, de dez meses, da Escola de Gileade, foi encarregado das responsabilidades de superintendente de filial. Depois de quase dez anos no seu cargo de supervisão, o irmão Turner deixou a Áustria em julho de 1975 para uma nova designação em Luxemburgo. Desde janeiro de 1976, uma comissão de diversos irmãos está cuidando da filial na Áustria.

Ampliações das Instalações da Filial

As filiais e congêneres da Sociedade, em todo o mundo, têm ampliado as suas instalações para cuidar das necessidades do sempre crescente número de louvadores de Jeová. Será que na Áustria tem sido diferente? Claro que não.

Com o tempo, o prédio comprado em 1957, situado nos distritos ajardinados de Viena, tornou-se pequeno demais para a filial. De modo que durante os anos de 1970 e 1971 foi ampliado, a fim de prover mais espaço para a Expedição e para um Salão do Reino. Mas, em poucos anos, tornou-se evidente a necessidade de maior expansão. Sentiu-se a mão de Jeová no assunto, quando um dos vizinhos ofereceu vender-nos seu terreno. Enquanto a construção dos novos prédios estava começando, em 1983, outro lote dum terreno adjacente também foi oferecido em venda à filial. Com a dedicação das novas instalações, no verão setentrional de 1987, tornaram-se disponíveis mais 5.000 metros quadrados de espaço, o que representa mais de quatro vezes o espaço anteriormente disponível. Era tudo isso realmente necessário? O número de Testemunhas servidas por este escritório já triplicou desde que se comprou o prédio anterior, e os irmãos no escritório estavam trabalhando num espaço muito apertado.

Antes de se completar o projeto, foi necessário fazer muitas modificações nas plantas das instalações, para satisfazer as objeções dos vizinhos. Isto exigiu muito trabalho adicional. No entanto, a filial reconhece: “No fim, quase todas as mudanças necessárias mostraram ser em nosso benefício. Em muitos casos, os irmãos tiveram de admitir: ‘Agora é melhor do que pretendíamos antes.’”

Território Multilíngüe

Nem todos os que vivem na Áustria são realmente austríacos. E nem todos os que moram aqui sabem falar fluentemente o alemão, que é a principal língua da Áustria. Há aqui muitos chamados trabalhadores-hóspedes procedentes da Iugoslávia e da Turquia. Desde o começo dos anos 70, a filial tem feito arranjos para levar a mensagem da Bíblia a estes trabalhadores-hóspedes. A semente caiu em solo fértil, e em pouco tempo foi possível formar grupos de estudo.

Nove congregações realizam agora suas reuniões exclusivamente em servo-croata (uma das principais línguas faladas na Iugoslávia). Há também grupos de estudo em turco, espanhol, polonês, japonês, inglês e árabe. O irmão Letonja, que serve no Betel de Viena com sua esposa, e cuja carreira teocrática se estende já por 50 anos, conta-nos algo sobre a obra entre os trabalhadores-hóspedes:

“Em 1971, recebi a designação de me juntar aos cinco irmãos que pregavam as boas novas aos trabalhadores-hóspedes iugoslavos. Para este fim, aprendi a língua servo-croata. Hoje, em 1988, há em Viena e arredores mais de 320 publicadores que pertencem ao grupo lingüístico servo-croata. É muito agradável trabalhar com estes irmãos. Eles têm mentalidade voltada para a família. Seu zelo pela verdade é contagiante, e eles se incentivam mutuamente. Não são poucos deles que continuam no serviço o dia inteiro até tarde da noitinha. Apesar de condições difíceis de trabalho para trabalhadores-hóspedes, diversos deles se empenham regularmente no serviço de pioneiro auxiliar. Suas conversas entusiásticas giram principalmente em torno da verdade.

“Há entre eles também um bom número de ciganos, para os quais a congregação é como um lar. De uma família cigana, pelo menos 25 membros já foram imersos, e mais de 19 outros parentes estão interessados na verdade. É realmente uma bênção trabalhar com esses irmãos.”

Hospedeiros em Congressos

Nos tempos difíceis no passado, nós, os que estávamos na Áustria, freqüentemente cruzávamos a fronteira para assistir a reuniões congregacionais e a grandes assembléias. Lembramo-nos bem da amorosa hospitalidade oferecida a nós pelos irmãos nas regiões às quais íamos. Agora, os que vivem na Áustria têm por sua vez a oportunidade de ser hospedeiros.

Na realidade, isso começou em 1965, quando 1.200 irmãos da Grécia vieram ao congresso de distrito em Viena. Fizeram-se para eles arranjos para que o programa inteiro fosse apresentado em grego numa ala separada do edifício usado para a assembléia.

Daí, em 1967, 889 irmãos da Iugoslávia vieram assistir a uma assembléia de distrito em Klagenfurt, no sul da Áustria. Eles também puderam usufruir o programa na sua própria língua. O número dos que vieram da Iugoslávia aumentou. Em 1968, a assistência nas sessões providenciadas para eles em Villach foi de 2.319.

Nos nossos congressos de distrito em 1978, tivemos o privilégio de providenciar o programa também em húngaro. Visto que alguns anciãos, cuja língua nativa é o húngaro, vivem na Áustria, não foi difícil programar as partes. Entretanto, semanas antes do congresso, os irmãos responsáveis pelos assuntos organizacionais se perguntavam: ‘Será que os irmãos da Hungria poderão cruzar a fronteira para assistir ao congresso?’ Quão emocionante foi quando a assistência no programa húngaro passou dos 400! Desde então, nossos congressos de distrito, na região de Viena, quase sempre têm incluído um programa em húngaro. Em 1986, para a grande alegria de todos, o número da assistência nessas sessões ascendeu a 1.781. Havia ainda outros aos quais poderíamos oferecer hospitalidade?

Que Dizer dos Irmãos da Polônia?

O tema do congresso de 1980 foi “Amor Divino”. O que daria melhor destaque a ele do que a presença de 1.883 irmãos e irmãs da Polônia, que ouviram em Viena o programa na sua própria língua? Uma grande tenda acomodava o grupo polonês, reservando-se respectivamente uma sala para as sessões em húngaro e em croata. Para o programa em alemão, alugou-se um estádio no mesmo lugar.

O ajudante do presidente do congresso fez a sugestão: “Como seria se, no domingo, os irmãos dos outros grupos lingüísticos também viessem ao estádio para o cântico final?” A administração do congresso concordou entusiasticamente.

Imagine este espetáculo no fim do congresso: Dum lado do estádio havia 5.000 congressistas austríacos — tendo diante de si o verdejante gramado do campo de futebol. Fez-se um anúncio, e então as arquibancadas do lado oposto do estádio começaram a encher-se. Agrupados segundo a língua, os irmãos entraram e ficaram de pé — iugoslavos, húngaros e poloneses. E então, depois de se ter dado o sinal em quatro línguas, quase 8.000 vozes se uniram no mesmo cântico de louvor: “A Ti Somos Gratos, Jeová!”

O irmão que proferiu as observações concludentes dirigiu-se então aos irmãos da Polônia: “Se da próxima vez vocês forem mais do que nós no programa alemão, entregaremos o estádio a vocês!” Terminado o programa, os irmãos por muito tempo não queriam separar-se. Foi um congresso que comoveu o coração, e ofereceu aos irmãos de ambos os lados da fronteira motivos de conversa por muito tempo. Cheia de profunda gratidão, a filial escreveu depois ao Corpo Governante:

“Era algo que se tinha de presenciar. Que poderosa demonstração da força unificadora do espírito de Jeová e de seu ‘Amor Divino’! Mesmo muito tempo depois da conclusão do cântico, os irmãos acenavam uns para os outros. Ninguém queria ir embora. Um irmão expressou o sentimento de muitos quando disse: ‘Esta foi a minha décima assembléia de distrito; mas nunca vi nada igual, tanta cordialidade, sinceridade e terna afeição nesses vínculos de união. Eu queria esticar os braços e abraçar a todos eles. Foi o que fiz em sentido espiritual.’”

Logo no ano seguinte, em 1981, quando os preparativos para o Congresso de Distrito “Lealdade ao Reino” atingiram os estágios finais, uma coisa se tornava clara — esta vez deixaríamos o estádio para os mais de 5.000 irmãos da Polônia. E novamente, os irmãos de Viena e circunvizinhanças mostraram ser hospedeiros de coração aberto.

Além disso, havia outro enriquecimento da assembléia; os irmãos Theodore Jaracz e Daniel Sydlik, do Corpo Governante, haviam chegado a Viena. Que bela oportunidade para se associarem com os irmãos da Hungria e da Polônia! Seus discursos animadores e seu contato pessoal, amigável e cordial com os irmãos de todos os grupos lingüísticos foram muito apreciados. O irmão Sydlik, na sua parte do programa, falou sobre o discípulo cristão Barnabé. Os irmãos prestaram detida atenção. Depois de umas poucas palavras, o orador e a assistência eram “um só coração e uma só alma”, como se diz na Áustria.

Desde 1982, nossos irmãos na Polônia puderam realizar seus próprios congressos, mas os irmãos na Áustria de bom grado continuam a ser hospedeiros para seus irmãos da Hungria.

A Marcha Para o Futuro

Na Áustria, as coisas em geral costumam seguir seu rumo “comodamente”, como se diz. Mas isto não se dá com a proclamação das boas novas do Reino de Deus. Não tem havido um aumento sensacional, mas o número dos louvadores de Jeová tem aumentado constantemente. Lá nos anos 50, um superintendente de distrito incentivou os irmãos por dizer: “Não deveríamos ficar surpresos se algum dia houver 10.000 publicadores na Áustria.” Isto soava bonito. Mas a Áustria é uma nação pequena, com apenas 7,5 milhões de habitantes. E naquele tempo não havia mais de 5.000 publicadores em todo o país. Todavia, em 1971, ultrapassamos os 10.000, e, atualmente, a multidão de louvadores de Jeová neste país aumentou para mais de 17.000.

A Áustria é bem conhecida como país de montanhas e de música. Todavia, na vida duma multidão sempre crescente de pessoas, é “o monte da casa de Jeová”, a enaltecida posição da verdadeira adoração, que tem o maior significado para elas. E a mais linda melodia que se pode ouvir neste país provém dos 17.705 publicadores que participam em cantar o “novo cântico”, um cântico que enaltece o Reino de Jeová. — Isa. 2:2; Sal. 98:1, 4-6.

[Fotos na página 69]

Hotel Continental, Viena, onde C. T. Russell tentou falar em 22 de março de 1911.

[Crédito da foto]

Do Arquivo Pictórico da Biblioteca Nacional Austríaca

[Fotos na página 74]

Simon Riedler, à esquerda, e Franz Ganster ouviram a verdade pela primeira vez em 1921.

[Fotos na página 79]

J. F. Rutherford falou no salão Katharinenhalle, Viena, 1922.

[Crédito da foto]

Do Arquivo Pictórico da Biblioteca Nacional Austríaca

[Fotos na página 81]

Programa do primeiro congresso dos Estudantes da Bíblia em Viena, 1924. O próximo congresso foi um ponto decisivo para Johannes Schindler.

[Foto na página 83]

A família Heide, 1924, fazia parte das primeiras Testemunhas austríacas.

[Foto na página 87]

Emil Wetzel exercia a supervisão da obra na Áustria de 1922 a 1926.

[Foto na página 95]

Leopold Engleitner, encarcerado, em 1934, por estar pregando.

[Foto na página 99]

August Kraft, preso pelos nazistas em 25 de maio de 1939. Comentário concludente do documento da Gestapo sobre Kraft.

[Crédito da foto]

DÖW, Viena, Áustria

[Fotos na página 108]

Therese Srhreiber à esquerda, mimeografava publicações e Hansi Hron (Buchner) que era mensageira. Ambas foram presas.

[Foto na página 109]

Documentos da Gestapo revelam extensivo conhecimento da rede oculta de mimeografagem.

[Crédito da foto]

DÖW, Viena Áustria

[Fotos na página 115]

Alois Moser, à esquerda, esteve em sete prisões e campos de concentração; Johann Rainer negou-se a prestar o juramento militar; Franz Wohlfahrt manteve sua integridade embora seu pai e seu irmão fossem executados.

[Fotos na página 117]

Entrada do campo de concentração de Gusen. Testemunhas sobreviventes de Mauthausen/Gusen, 1945.

[Crédito da foto]

DÖW, Viena, Áustria

[Fotos na página 120]

Josef Wegscheider, à esquerda, e Johann Pichler foram fuzilados em 26 de setembro de 1939, perto de Salzburgo.

[Fotos na página 124]

Hermine Obweger, à esquerda, que foi tirada dos pais à idade de 11 anos. Auguste Hirschmann (agora Bender) tomou posição diante da Gestapo à idade de 17 anos.

[Fotos na página 126]

Peter Gölles foi preso em 12 de junho de 1940. Foi sentenciado neste tribunal e encarcerado neste bloco de celas.

[Foto na página 137]

Franz Malina, encarcerado por cinco anos em campos de trabalho na Sibéria.

[Foto na página 140]

Lowell L. Turner, superintendente de filial de 1965 a 1975, e sua esposa Margot.

[Foto na página 141]

A filial e o Lar de Betel, em 1957.

[Foto na página 142]

A Filial ampliada, em 1987.

[Mapa/Quadro nas páginas 72, 73]

(Para o texto formatado, veja a publicação)

TCHECOSLOVÁQUIA

REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA

BAIXA ÁUSTRIA

Linz

Mauthausen

Rio Danúbio

Viena

ALTA ÁUSTRIA

Salzburgo

Lago Neusiedler

Bad Ischl

ESTÍRIA

SALZBURGO

Lago Constança (Bodensee)

Dornbirn

Innsbruck

VORARLBERG

TIROL

Alpes Orientais

Knittelfeld

BURGENLAND

Graz

CARÍNTIA

Klagenfurt

SUÍÇA

ITÁLIA

IUGOSLÁVIA

HUNGRIA

[Quadro]

Dados Sobre a Áustria

Capital: Viena

Idioma Oficial: Alemão

Religião Principal: Católica-romana

População: 7.575.700

Publicadores: 17.705

Pioneiros: 1.398

Congregações: 246

Assistência à Comemoração: 30.216

Filial: Viena

[Gravura de página inteira na página 66]

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