Minha vida na organização de Jeová, que é dirigida pelo espírito
Conforme narrado por Albert D. Schroeder
NO PRIMEIRO domingo de junho de 1934, eu e Alex Jones pregávamos de casa em casa em Jérsei City, Nova Jérsei, EUA. De repente, alguns policiais entraram no apartamento em que estávamos, prenderam-nos, empurraram-nos bruscamente para dentro de um carro, e nos levaram para a cadeia!
Três dias depois um juiz nos declarou culpados de mascatear sem licença e nos sentenciou a dez dias de prisão. Fomos levados à Prisão do Condado de Hudson, obrigaram-nos a despir, a passar por um banho esterilizador e a vestir roupas de prisão. Daí, fomos conduzidos a uma cela.
Ali na prisão eu tinha tempo para refletir. Eu tinha apenas 23 anos, e sentia-me feliz com a minha vida como ministro de tempo integral no Betel de Brooklyn. Permita-me partilhar algumas dessas reflexões.
Gratidão à Minha Avó
Em especial, recordei com carinho minha avó materna, Elizabeth Darger. Os pais dela trouxeram a família a Michigan (EUA), da Alemanha, algum tempo antes de 1870. Ela lecionava alemão e inglês em escolas públicas, e morava conosco na casa de meus pais luteranos, em Saginaw, Michigan, cidade onde nasci. Durante a Primeira Guerra Mundial ela e suas irmãs, que também eram professoras, passaram a associar-se com os Estudantes Internacionais da Bíblia, hoje conhecidos como Testemunhas de Jeová.
Embora meus pais exigissem que eu freqüentasse a escola dominical luterana, vovó tinha permissão de falar comigo sobre suas emocionantes crenças bíblicas. Ela sabia ler a Bíblia em latim e em grego, e inculcou em mim o desejo de estudar a Bíblia nas línguas originais. Recordei com prazer as palestras bíblicas com minhas tias-avós, que giravam em torno do governo do Reino de Deus que havia de em breve assumir o controle da terra, segundo Daniel 2:44.
Em 1923 vovó começou a estudar comigo o livro The Harp of God (A Harpa de Deus), da Sociedade Torre de Vigia, e eu a acompanhava a reuniões da Congregação Saginaw. Agora, na minha cela, eu refletia a respeito dessas reuniões, a respeito de ouvir os programas de rádio da WBBR do distante Brooklyn, Nova Iorque, e a respeito de outras experiências assim, que moldaram a minha vida.
Por exemplo, lembrava-me de ter ouvido no rádio o Juiz Joseph F. Rutherford, então presidente da Sociedade Torre de Vigia (EUA), falar no congresso dos Estudantes da Bíblia em Toronto, Canadá, em 1927. O primeiro congresso a que assisti foi em Detroit, Michigan, em 1928. Ali ouvi o irmão Rutherford falar pessoalmente. Naquele congresso, tive o prazer de bradar “Sim” em favor da resolução “Declaração Contra Satanás e a Favor de Jeová”. Foi lançado o livro Governo, que mostrava que o Reino de Deus é um governo teocrático, não democrático.
Reflexões Sobre Meus Dias de Escola
Refleti também nos meus dias de escola. Às instâncias de meus pais, que não queriam que eu me tornasse ministro de tempo integral, aceitei uma bolsa de estudos para universidade. Assim, em setembro de 1929, entrei na Universidade de Michigan, em Ann Arbor, para estudar línguas, economia e engenharia.
A Sra. Judson, dona do prédio em que eu morava, tinha contato com a Congregação Ann Arbor dos Estudantes da Bíblia. Certo dia, ao voltar à escola, no outono de 1930, ela me disse que um excelente rapaz de Alabama acabara de se mudar para o quarto em frente ao meu, e que ela achava que ele seria receptivo à “nossa mensagem bíblica”. Realmente era! William (Bill) Addison Elrod e eu logo nos tornamos grandes amigos, à medida que ele aceitava verdades bíblicas; e somos amigos até hoje.
Bill Elrod e eu fizemos um curso de topografia no verão de 1931, de modo que não nos foi possível assistir pessoalmente ao congresso de 1931, em Columbus, Ohio. Contudo, no domingo, 26 de julho, ouvimos o discurso público pelo rádio, e estávamos entre a entusiástica assistência invisível que aceitou o belo novo nome “Testemunhas de Jeová”.
Naqueles dias, as formas de governo socialista, fascista e comunista eram amplamente discutidas no campus. Em outubro de 1931, Winston Churchill falou a 3.000 de nós estudantes, defendendo a democracia como ainda sendo a melhor forma de governo. Depois, em dezembro de 1931, Lord Bertrand Russell, o renomado matemático e filósofo britânico, falou sobre pacifismo. Mais tarde, o Dr. Hjalmar Schacht, presidente do Reichsbank, de Berlim, Alemanha, falou sobre a necessidade de controle nacionalista da economia; em outras palavras, ele defendia o nacional-socialismo, ou nazismo. Dois anos depois ele estava no governo de Hitler como Ministro da Economia.
Tendo ouvido as conclamações desses estadistas do mundo, eu estava mais convencido do que nunca que apenas o reino messiânico podia ser um governo mundial satisfatório. Assim, eu e Bill Elrod decidimos terminar os estudos em 15 de junho de 1932, e daí começar como companheiros na pregação de tempo integral, hoje conhecido como serviço de pioneiro.
Começamos o nosso serviço de pioneiro antes de termos sido batizados, pois naquele tempo não se entendia claramente se aqueles que tinham esperança terrestre deviam ser batizados ou não. No entanto, depois que fui batizado, no Lago Vandercook, Michigan, em 24 de julho de 1932, ficou evidente que a minha esperança mudara para a de um ungido, confirmado pelo ‘testemunho do espírito’. — Romanos 8:16.
Serviço no Betel de Brooklyn
No dia 9 de setembro, quando trabalhávamos de pioneiro em Howell, Michigan, Bill saiu correndo da agência do Correio agitando um telegrama amarelo. Abrindo-o, lemos o convite do irmão Rutherford para nos apresentarmos para o serviço de Betel assim que fosse conveniente. Bastaram apenas 72 horas para acertarmos os assuntos relacionados com o serviço de pioneiro e, daí, cobrir os 1.100 quilômetros até Brooklyn, no nosso automóvel Ford Bigode. Por fim, cruzamos a Ponte de Brooklyn e chegamos a Betel em 13 de setembro de 1932. Havia então cerca de 200 membros na família de Betel, a maioria deles irmãos ungidos do Rei.
Depois de trabalhar na gráfica por algumas semanas, fui transferido para o Departamento de Serviço. Um afável irmão irlandês, Thomas J. Sullivan, era o superintendente. Ele sempre lembrava a nós, mais jovens: “Ao se lhes apresentarem problemas, certifiquem-se de obter todos os fatos antes de sugerirem uma solução.” (Provérbios 18:13) Com um relancear de olhos ele acrescentava: “Por que se apressar? Dêem uma oportunidade a Jeová. Aguardem o que Seu espírito fará a respeito.”
Refletindo sobre essas experiências passadas, na prisão, eu me alegrava com o privilégio de sofrer pela causa da justiça, como Jesus Cristo e os apóstolos sofreram. (João 15:20; 1 Pedro 4:16) À medida que recordo o passado, dou-me conta de que tais experiências preparavam-me para futuros privilégios.
Emocionante Nova Luz
No início de 1935, uns seis meses após a minha soltura da prisão e a volta a Betel, lembro-me de ter ouvido várias palestras à mesa de Betel a respeito da identidade da “grande multidão”. (Revelação [Apocalipse] 7:9, 13) Alguns expressavam apoio ao conceito de que se tratava de uma classe celestial secundária, como ensinara o primeiro presidente da Sociedade Torre de Vigia, irmão Russell. Outros, porém, argumentavam que a “grande multidão” consistia dos que têm esperança terrestre. Durante essas palestras, o irmão Rutherford não se comprometia.
Todos nós de Betel estávamos ansiosos ao viajarmos de trem especial a Washington, DC, para o congresso de 30 de maio a 3 de junho de 1935. No segundo dia do congresso, o irmão Rutherford apresentou a emocionante novidade de que a “grande multidão” é, realmente, uma classe terrestre. No clímax, ele disse: “Gostaria de pedir que todos os que têm esperança de viver na terra para sempre se levantassem.” Cerca da metade das 20.000 pessoas presentes se levantou. Daí, o irmão Rutherford proclamou: “Eis a grande multidão!” Houve um breve silêncio. Em seguida, todos nós participamos num alegre brado, e os aplausos foram altos e prolongados. No dia seguinte, 840 foram batizados, a maioria pertencente à classe terrestre.
Esta nova luz de 1935 sobre a “grande multidão” levou a medidas de reorganização, em 1936, a fim de se preparar para o esperado influxo de membros dessa classe. Por exemplo, até então havia apenas uma só grande congregação de língua inglesa em toda Cidade de Nova Iorque, mas, daí, foram formadas novas congregações tendo a nós, ungidos mais jovens, designados como superintendentes. Hoje, há 336 congregações na Cidade de Nova Iorque!
Nova Designação
Quinta-feira, 11 de novembro de 1937, foi um dia momentoso para mim. Eu fora avisado para ir ao gabinete do irmão Rutherford às 15:00 horas. Cheguei pontualmente, mas eu estava apreensivo com a possibilidade de ter sido chamado para receber alguma reprimenda. Mas, depois de trocarmos algumas palavras cordiais, o irmão Rutherford perguntou-me se eu estava disposto a assumir outra designação.
“Estou disposto a servir onde quer que seja necessário”, respondi.
Daí, pegando-me completamente de surpresa, o irmão Rutherford perguntou: “Gostaria de servir no Betel de Londres como servo de filial?”
“Essa é uma designação e tanto!”, eu disse.
“Além do mais, isso significa uma passagem só de ida, ou seja, concordar em ficar lá até depois do Armagedom. Portanto, eu lhe darei três dias para decidir”, acrescentou.
“Bem, irmão Rutherford, eu não preciso de três dias. Se é da vontade de Jeová que eu vá, minha resposta é Sim!”
“Eu imaginava que essa seria a sua resposta”, disse ele. “O irmão Knorr já tem a sua passagem no navio Queen Mary que parte para a Inglaterra na próxima quarta-feira.”
Fiquei sem saber o que pensar. “Você receberá treinamento durante os próximos dias”, concluiu o irmão Rutherford.
Quando regressei ao Departamento de Serviço, localizado na gráfica, o irmão Knorr riu do meu estado de sobrepujante surpresa. Ele sabia o que acabara de acontecer. O irmão Knorr era o superintendente da gráfica e anteriormente viajara à Inglaterra junto com o irmão Rutherford. Imediatamente, ele passou a me dar treinamento sobre como supervisionar as operações de uma filial. Alguns dias depois, voltei a falar com o irmão Rutherford, para treinamento adicional.
O conselho do irmão Rutherford, baseado em Miquéias 6:8, consistia em ‘agir com justiça, seguir diretrizes organizacionais, apegar-se a normas bíblicas, obedecer prontamente e não procrastinar. Ser bondoso nos tratos com os irmãos, participar regularmente no serviço de campo e ser humilde ao andar com Deus’. Ele disse que o progresso no campo britânico estacionara porque os anteriores superintendentes de filial não apoiavam plenamente o ministério de campo. Assim, ele concluiu enfaticamente: “Incentive mais serviço de campo. A Grã-Bretanha necessita agora mesmo de 1.000 pioneiros, não apenas de 200, que eles têm no momento.”
Recepção na Inglaterra
Quando o Queen Mary aportou em Southampton, apanhei um trem para Londres e daí fui de táxi para a sede da Sociedade, que durante 26 anos ficou na Rua Craven Terrace, 34, Lancaster Gate. O vice-presidente da Associação Internacional dos Estudantes da Bíblia recebeu-me cordialmente. Entreguei a ele a carta do irmão Rutherford que o autorizava a demitir o servo de filial e a notificar à família de Betel que eu o substituiria. Isto foi feito no almoço, e os 30 membros de Betel me acolheram calorosamente.
Com o tempo conheci muitos servos de filial e representantes na Europa. Eram ungidos que lideravam intransigentemente na obra de pregação, apesar dos obstáculos da era de Hitler, homens como Martin Harbeck, da Suíça, Charles Knecht, da França, Fritz Hartstang, dos Países-Baixos, Johan Eneroth, da Suécia, William Dey, da Dinamarca, e o corajoso Robert Winkler, da organização alemã da Sociedade, que operava às ocultas. Por todos os meios biblicamente permitidos, esses destemidos homens de fé suportaram as duras perseguições nazistas.
A Visita do Irmão Rutherford
Em 1938, um ano antes do irrompimento da Segunda Guerra Mundial, os britânicos haviam aperfeiçoado a transmissão radiotelefônica transoceânica. Seus engenheiros concordaram em conectar quatro continentes para um congresso especial centralizado em Londres, de 9 a 11 de setembro. O Royal Albert Hall, o maior local adequado em Londres, foi contratado para o congresso. O grupo do irmão Rutherford, incluindo o irmão Nathan Knorr, chegou três semanas antes, para ajudar nos preparativos.
Para anunciar o discurso público, organizaram-se marchas com cartazes tipo ‘sanduíche’. Pouco antes da data marcada para a primeira marcha, o irmão Rutherford pediu-me que falasse com ele. Enquanto discutíamos assuntos do congresso, ele rabiscava um papel com a caneta, o que às vezes fazia ao conversar com alguém. Ele arrancou a folhinha de um bloco em que havia escrito e estendeu-a a mim. “O que acha disso?”, perguntou.
“A RELIGIÃO É LAÇO E EXTORSÃO”, dizia.
“Soa fortíssimo”, respondi.
“Eu queria que fosse forte”, disse ele. Daí, recomendou a confecção de cartazes com esses dizeres para a nossa primeira marcha de divulgação do congresso, na noitinha de quarta-feira. Na noite seguinte Nathan Knorr e eu lideramos a marcha de cerca de mil irmãos por 10 quilômetros, pelo centro de Londres.
O irmão Rutherford chamou-me a seu gabinete na manhã seguinte e pediu um relatório. “Muitos nos chamaram de comunistas e de ateus e fizeram outras observações hostis”, disse eu. Assim, ele pensou por alguns instantes e, por fim, arrancou uma folhinha sugerindo o lema “SIRVA A DEUS E A CRISTO, O REI”. Ele achava que intercalar cartazes com essas palavras poderia neutralizar o clima de vaia, e realmente neutralizou. Esse congresso de 1938 transcorreu bem. As sessões principais do sábado e do domingo, com o discurso principal “Encare os Fatos”, foram transmitidas com êxito para 49 congressos realizados simultaneamente no mundo de língua inglesa.
Depois do congresso, realizou-se uma sessão de treinamento com os servos de filial dos países europeus. Durante a sessão, o irmão Rutherford repreendeu-me severamente pela falta de treinamento dos indicadores. Essa disciplina me fez derramar lágrimas. Mais tarde, William Dey, da Dinamarca, consolou-me em particular, dizendo que o irmão Rutherford usava a mim para ensinar a eles todos indiretamente. E era realmente assim! No dia seguinte, o irmão Rutherford, que gostava de por avental e cozinhar, convidou a todos nós para uma refeição especial que ele havia preparado. Todos apreciaram o alegre companheirismo.
Os Anos da Segunda Guerra Mundial
Em 1.º de setembro de 1939, Hitler invadiu a Polônia. No domingo, 3 de setembro, a Inglaterra declarou guerra à Alemanha. Milhares de nós na Grã-Bretanha estávamos no serviço de campo naquela manhã, oportunamente colocando o novo livro Salvação. Em toda casa as pessoas estavam chocadas; algumas mulheres choravam. Todos nós esgotamos as publicações bíblicas que tínhamos, enquanto dávamos consolo bíblico às pessoas.
No mês seguinte, recebemos um exemplar antecipado de A Sentinela (em inglês) de 1.º de novembro de 1939, com o tema “Neutralidade”. Exatamente no momento certo o artigo delineava a posição bíblica para os cristãos verdadeiros durante conflitos mundanos. (João 17:16) Logo começaram a ocorrer prisões e encarceramentos de centenas de nossos irmãos e irmãs britânicos.
A guerra aérea sobre a Inglaterra, conhecida como Batalha da Inglaterra, intensificou-se em fins de 1940 e prosseguiu 1941 adentro. Nós, em Londres, suportamos 57 noites consecutivas de bombardeios de 14 horas de duração cada um. O ar estava impregnado de ruídos estridentes. Incêndios furiosos ocorriam em toda a parte. Vinte e nove bombas caíram dentro dum raio de 460 metros de Betel. Nosso grande Salão do Reino anexo a Betel foi incendiado por bombas incendiárias, mas o fogo foi prontamente dominado pelos irmãos de Betel treinados para isso.
Havia muitas restrições de tempo de guerra, incluindo o racionamento de alimentos e a limitação de viagens. Mas, fomos em frente, e até mesmo expandimos a nossa pregação de casa em casa. Em 1937 a Grã-Bretanha tinha 4.375 publicadores, mas em 1942 o total já tinha aumentado para 12.436. O número de pioneiros aumentara de 201, quando cheguei a Inglaterra em 1937, para 1.488 em 1942! Jeová certamente abençoou ricamente essa primórdia semeadura dos pregadores de campo. Agora, mais de 50 anos depois, há mais de 109.000 publicadores do Reino na Grã-Bretanha, incluindo mais de 6.000 pioneiros regulares.
De 3 a 7 de setembro de 1941, com a ajuda do espírito de Jeová, realizamos aquilo que certos funcionários do governo diziam ser “impossível”. Tratava-se do maior congresso das Testemunhas de Jeová até então realizado na Inglaterra. Mais de 12.000 pessoas se reuniram no Salão De Montfort e áreas adjacentes, em Leicester, em plena guerra. É o mesmo salão que foi usado quando a reunião anual da Sociedade para fins jurídicos, de 1983, foi realizada em Leicester. Nesta ocasião, mais de três mil de nós recordamos as experiências do congresso de 1941, em pleno período de guerra.
A sede em Londres tornou-se centro de refúgio durante a guerra. O telefone não parava de tocar. Providenciou-se um fundo de assistência, tornando possível que irmãos que tivessem perdido tudo em bombardeio recebessem ajuda imediata. Também, irmãos refugiados da Polônia, da Alemanha, da Noruega, da França, da Bélgica, da Holanda e de outros países, vieram a Londres, onde receberam ajuda. Muitos desses entraram no serviço de pioneiro na Grã-Bretanha.
Persona Non Grata
Assim que os Estados Unidos entraram na guerra, em 8 de dezembro de 1941, eu perdi a minha isenção, na qualidade de cidadão americano, do recrutamento militar britânico. Devido à minha neutralidade cristã, eu não podia cumprir as várias determinações baixadas pelo governo britânico quanto a deveres de guerra. Por fim, em 6 de maio de 1942, o governo britânico notificou-me de que eu era persona non grata e, por conseguinte, ordenaram-me voltar para os Estados Unidos. No dia 1.º de agosto, o jornal Daily Herald, de Londres, publicou minha fotografia na primeira página, com a manchete: “Ordenaram-lhe: ‘Vá Embora.’”
Na segunda-feira de manhã, 24 de agosto de 1942, dois detetives da Scotland Yard prenderam-me para deportação. Levaram-me de trem para Glasgow, Escócia, onde pernoitei na medieval Prisão de Barlinni. No dia seguinte, fui escoltado até a bordo do cruzeiro britânico S.S. Hilary, onde continuei sob custódia. Levou 13 dias para o nosso comboio de 52 navios cruzar o Atlântico, em ziguezague, para evitar os submarinos alemães. Escapando de seus torpedos, chegamos sãos e salvos a Halifax, no Canadá! Fui libertado, e no dia seguinte embarquei num trem para Nova Iorque, onde cheguei no dia 10 de setembro.
Notável Predição de Um Período de Paz
Senti grande alegria em voltar ao convívio dos muitos calorosos irmãos do Betel em Brooklyn. Cheguei a tempo para assistir ao congresso histórico em Cleveland, Ohio, de 18 a 20 de setembro de 1942. Ali, o irmão N. H. Knorr, o novo presidente da Sociedade, proferiu o discurso “Paz — Pode Durar?”. Este lançou nova luz sobre Revelação 17:8. Foi revelado que as forças aliadas prevaleceriam, e que surgiria uma nova “fera de paz” internacional. Isso realmente aconteceu quando, terminada a guerra, em 1945, surgiram as Nações Unidas!
Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia
Depois da reunião anual da Sociedade Torre de Vigia para fins jurídicos, em 1.º de outubro de 1942, o irmão Knorr, como presidente, chamou a seu escritório o irmão Maxwell G. Friend, o irmão Eduardo F. Keller e a mim. Ele nos informou de que naquela manhã se decidira estabelecer uma escola bíblica missionária na Fazenda do Reino, em South Lansing, Nova Iorque. Ele disse que eu seria o encarregado da parte burocrática da escola e serviria como presidente da comissão que organizaria a escola. Trabalhamos junto com o irmão F. W. Franz na elaboração dos excelentes cursos bíblicos. Isso deu início a um longo período de feliz cooperação com ele na promoção da instrução bíblica.
Na segunda-feira de manhã, 1.º de fevereiro de 1943, foi feita a dedicação oficial, dirigida pelo irmão Knorr, daquilo que é hoje conhecido como Escola Bíblica de Gileade, que então se localizava na Fazenda do Reino, perto de South Lansing, Nova Iorque. Depois do programa de dedicação começaram as aulas, nas quatro salas, com 25 estudantes em cada uma. O curso de instrução cristã avançada cobria 20 semanas, sendo a Bíblia o compêndio principal.
Meses e depois anos felizes de profundos estudos na Bíblia vieram a ser meu abençoado quinhão. Junto com outros instrutores devotados, sentia-me grato a Jeová pelo privilégio de lecionar a esses estudantes dedicados que amavam a Jeová e a Sua obra, e motivar-lhes o coração. Até 1960, 3.700 estudantes haviam vindo de 70 países, acrescentando diversidade às turmas da escola.
A Vida de Casado
Ao assistir aos congressos “Reino Triunfante” na Europa, em 1955, reencontrei a estimada Charlotte Bowin, que fora uma de minhas estudantes na primeira turma de Gileade, em 1943. Ela servira por 12 anos como missionária fiel em território de língua espanhola, incluindo o México e El Salvador. Agora, em companhia de sua companheira Julia Clogston, ela assistia a esses congressos europeus. Incidentalmente, os pais de Charlotte haviam sido membros da família de Betel em Brooklyn quando solteiros, lá nos tempos do irmão Russell. Daí, ao se casarem, Martin Bowin tornou-se superintendente viajante até que Charlotte nasceu, em 1920.
Em janeiro de 1956 Charlotte entrou no serviço de Betel e foi transferida para a Fazenda do Reino. Em agosto de 1956 casamo-nos. Quando Charlotte engravidou, ficamos abatidos, achando que isso poria fim ao nosso serviço de tempo integral. Contudo, o irmão Franz nos animou, dizendo: “Vocês não pecaram por terem tornado frutífero o ventre. Coragem! Talvez Jeová providencie que vocês de algum modo continuem no serviço de tempo integral.”
E assim foi. Pude continuar no corpo docente da Escola de Gileade. Primeiro moramos num pequeno apartamento alugado, e daí, em 1962, mudamo-nos para uma casa recém-construída localizada a um quilômetro e meio da escola. Ali, em South Lansing, Nova Iorque, o nosso filho Judah Ben, que nasceu em fevereiro de 1958, passou seus primeiros anos de vida.
Tivemos muitas alegrias na criação de Judah Ben, à medida que sempre procurávamos aplicar princípios bíblicos. (Efésios 6:1-4) Ele foi incentivado a seguir Miquéias 6:8, da mesma forma como eu procurava aplicar esse texto na minha vida. Mais tarde, Judah tornou-se betelita de terceira geração e serviu em Betel por 12 anos. Em junho de 1986 casou-se com uma encantadora pioneira, Amber Baker. No presente eles trabalham como pioneiros em Michigan.
Escola Para Anciãos
No congresso de 1958, no Estádio Ianque, o irmão Knorr anunciou a criação de uma nova escola para anciãos, que se chamaria Escola do Ministério do Reino. Em 9 de março de 1959 a primeira turma, de 25 estudantes, começou o curso de quatro semanas na Fazenda do Reino, onde também funcionava a Escola de Gileade. Quando a Escola de Gileade foi transferida para Brooklyn, em setembro de 1960, a Escola do Ministério do Reino continuou na Fazenda do Reino, onde foi possível treinar mensalmente cem anciãos. Constatei que ser pai era uma vantagem ao lecionar a chefes de família que cursavam a nova escola.
Em 1967 essa escola foi transferida para o Betel em Brooklyn. Depois, em 1968, foi transferida para Pittsburgh, onde, até 1974, milhares de excelentes anciãos receberam treinamento. Em 1974, a escola passou a funcionar em vários Salões do Reino por todo o país. Minha esposa e meu filho me acompanhavam a essas diferentes localidades. Eles serviam como pioneiros, enquanto eu dirigia a escola.
Serviço do Reino Adicional
Em novembro de 1974, quando eu lecionava na Escola do Ministério do Reino na minha cidade natal, Saginaw, Michigan, recebi uma carta inesquecível do Corpo Governante. Convidava-me a tornar-me membro daquele Corpo e também convidava minha esposa e meu filho a servirem como membros da família de Betel de Brooklyn. Assim, em 18 de dezembro de 1974 mudamo-nos para Betel, e eu assumi meus novos privilégios de serviço.
O Corpo Governante trabalha unidamente em dirigir as atividades mundiais das Testemunhas de Jeová, em publicar o alimento espiritual para o nosso esclarecimento progressivo, e em fazer decisões judiciais. O Corpo Governante se reúne toda quarta-feira, abrindo a reunião com uma oração em que se pede a direção do espírito de Jeová. Faz-se real esforço para ver que todo assunto tratado e toda decisão tomada estejam em harmonia com a Palavra de Deus, a Bíblia.
Qual membro do Corpo Governante tenho sido enviado para visitar várias filiais como superintendente de zona. Tem sido animador sentir em primeira mão a união do povo de Jeová em tantos países. É também uma alegria pessoal rever os muitos missionários de Gileade ainda fiéis na sua designação no estrangeiro. Realmente, em todos os países, o povo de Jeová é o melhor e o mais feliz!
Jeová está alimentando espiritualmente o seu povo, simultaneamente, através de A Sentinela e outras publicações bíblicas. Tudo isso é evidência de que Cristo Jesus é nosso Rei reinante desde 1914, e que ele nos conduzirá com êxito através da “grande tribulação” iminente. Por fim, digo a todos vocês que são jovens, edifiquem sabiamente uma carreira de tempo integral no serviço sagrado agora! Vocês também terão emocionantes privilégios à sua espera. (Miquéias 7:7) Alegro-me com o providencial cuidado de Jeová ao longo das décadas passadas. As Suas bênçãos realmente me enriqueceram. (Provérbios 10:22) Diariamente sou grato a Jeová pelos privilégios que tenho em servi-lo na Sua organização, dirigida pelo Seu espírito. — Revelação 7:14.
[Foto na página 12]
Com meu companheiro Bill Elrod.
[Foto na página 15]
Sendo levado de trem à Prisão de Barlinni.
[Foto na página 17]
Com minha esposa, Charlotte.