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A torre de pisa — por que se inclina?Despertai! — 1980 | 8 de fevereiro
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A torre de pisa — por que se inclina?
Do correspondente de “Despertai!” na Itália
CERTAS cidades bem-conhecidas do mundo devem sua fama a algum aspecto ímpar da arquitetura da cidade, ou a uma obra-prima artística transmitida através da história quase que como uma dádiva do acaso. Isto se dá com a cidade de Pisa, aqui na Itália.O nome desta outrora república marítima seria quase que desconhecido, hoje, se não fosse pela famosa torre inclinada que já se ergue ali por mais de 700 anos.
A visita à Torre de Pisa é uma experiência incomum, e caso aconteça de a visitar com o “perito” que me acompanhou na visita, então a apreciará ainda mais. Deixe-me contar-lhe isto.
Minha Primeira Impressão
Com toda candura, devo dizer que, em minha excursão pela Itália central, só parei em Pisa para ver a torre. (Espero que o povo da cidade não fique ofendido comigo por dizer isso.) Agora sei que vale a pena visitar a cidade por muitas outras razões.
A torre se acha majestosamente localizada no centro de grande praça, e seu estilo é tão extraordinário que quase que parece como se tivesse sido construída para desafiar a lei natural da gravidade. À primeira vista, é mui fascinante, e tem-se a impressão de estar diante dum gigante imóvel, firmado em uma perna só. Ao caminhar pela praça, não conseguia tirar os olhos dela. Contemplando-a de perto, especialmente do lado inclinado, senti como se estivesse prestes a desabar sobre mim a qualquer minuto. Tanto assim que, depois de um instante, olhando furtivamente em volta para me assegurar de que ninguém estivesse observando, eu fui — tão imperturbável quanto possível — para o outro lado. Agora podia admirá-la com mais tranqüilidade.
O Guia
Ainda visava minhas intenções primárias, que tinham mais que ver com a geometria do que com a arte, quando meus pensamentos foram interrompidos por uma voz de sotaque tipicamente toscano.
“Cinqüenta e quatro metros e seis centímetros.”
Eu me voltei para agradecer a quem quer que fosse por tais informações e vi um rapazinho em pé ali. Ele era um tanto gordinho e tinha uma aparência bem alerta. Notei a expressão satisfeita em seu rosto, e compreendi que me dera a resposta à pergunta que eu mesmo formulara em minha própria mente naquele exato momento.
“Depois de as pessoas a contemplarem por cerca de 30 segundos, usualmente ficam imaginando quão alta será. Está agindo perfeitamente como a média das pessoas”, foi a resposta que me fez pestanejar. “Gostaria que o guiasse numa visita à torre?”
Não respondi de imediato, mas ergui os olhos para olhá-la de novo. Ou foi o novo ângulo de observação ou o convite que acabara de receber que deu a impressão de que ela se inclinara um pouco mais.
“Oh, posso ver que o Sr. está com receio!”
Talvez fosse verdade, ou talvez apenas precisasse ser tranqüilizado. Ele parecia também entender isto, e antes que soubesse, começou a desfilar interminável lista de informações históricas que, quando as confrontei com o guia local, provaram ser realmente exatas. Acho que estava tentando convencer-me de que a torre já estava erguida por tanto tempo que dificilmente cairia naquele exato momento.
Fui informado de que a torre foi construída como campanário para a contígua catedral e batistério. Foi projetada por Bonanno Pisano, e a pedra fundamental foi lançada em 9 de agosto de 1173. Após várias interrupções, essa construção terminou em 1370, por Tommaso di Andrea Pisano, mas parece que, já em 1298, havia registros que testificavam do seu ângulo de inclinação. O fato mais tranqüilizador é que, até agora, parece ter resistido a mais de 100 terremotos e aos efeitos muito mais afanosos da segunda guerra mundial, quando as áreas vizinhas estavam sob pesado bombardeio, e algumas colunas foram destroçadas pelo fogo dos morteiros.
O Problema de Seu Ângulo de Inclinação
Confrontado com tamanha exatidão de pormenores, só podia balançar a cabeça em acordo. Mas, por fim, tomei coragem para fazer a pergunta que me incomodava desde o início: “Mas . . . ela foi construída com uma inclinação ou se inclinou depois?”
Um tanto cautelosamente, esperei sua reação, mas fiquei aliviado de ver, pela expressão em seu rosto, que não tinha feito uma pergunta completamente tola.
“A bem dizer, essa é exatamente a pergunta que tem intrigado os peritos durante anos. Alguns afirmam que foi projetada para inclinar-se, para lhe dar um toque original. Entretanto, a maioria sustenta que foi o subsolo argiloso impregnado de água de fontes subterrâneas que cedeu depois de a construção ter sido iniciada, e que, então, o projeto continuou com as devidas precauções, em sua posição inclinada. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu . . . somente a torre sabe”, disse ele, olhando-a afetuosamente, “e ela não pode falar para nos contar isso sobre si mesma”.
Daí, contou-me várias estórias lendárias transmitidas através dos séculos para apoiar várias teorias. Uma estória diz que a torre foi construída inclinada porque um corcunda queria que ela fosse parecida com ele. Outra afirma que foi inclinada pela força do vento. No século 18, sustentava-se que a torre não estava inclinada de forma alguma, mas apenas parecia fazê-lo como resultado duma ilusão de ótica.
Meu guia citou todas estas informações com o ar de já tê-las repetido cem vezes antes, e também com certa complacência, de modo que me vi tentado a achar uma pergunta que ele não conseguisse responder. Fiz a tentativa: “Sabe quanto pesa?”
“Quatorze mil e quinhentas toneladas”, veio a resposta, rapidamente acompanhada por: “No topo, possui uma inclinação de quatro metros e trinta e um centímetros, a qual aumenta de 0,7 ou 0,8 milímetros por ano.”
Mesmo desta vez conseguira me dar a resposta. Decidi jogar meu último trunfo. “E quando é que irá cair?” perguntei, com tom um tanto irônico.
“Isso é óbvio! Quando seu centro de gravidade sair da área de sua base. Passando de uma certa inclinação, o peso . . .”
Compreendi que não adiantaria tentar ganhar dessa enciclopédia ambulante, de modo que decidi que seria melhor utilizá-lo seriamente: “Pode-se fazer algo para impedir que a inclinação piore?”
“Já se imaginaram muitas soluções, e algumas foram tentadas. Em 1933, deram-lhe 361 injeções . . .”
“Fizeram o quê?” exclamei, surpreso.
“Bem, seja lá o que imagine que eu queria dizer . . . injeções de cimento . . . por toda a volta aqui, 93 toneladas dele ao todo.”
Naturalmente, era óbvio, e senti-me um tanto envergonhado diante de minha primeira reação. No entanto, apenas para deixá-lo saber que eu não era inteiramente ignorante sobre o assunto, disse-lhe que tinha lido que, em 1966, fizera-se um apelo mundial para impedir a inclinação continuada da torre, e que os peritos concordavam em geral sobre a necessidade de estabilização do solo na sua vizinhança imediata. Alguns sugeriram que se devia proibir a retirada de água do solo num raio de um quilômetro e meio; outros achavam que a inclinação só piora quando a camada de água se reduz a menos de 50 metros, e, por conseguinte, a dificuldade poderia ser transposta por se manter estável tal nível por meio de um sistema de bombas para retirar a água e bombeá-la de volta, conforme as necessidades do momento.
O rapazinho também mostrou conhecer tais pormenores e continuou a palestra por adicionar: “Então, há aquelas idéias excêntricas que alguns sujeitos estranhos inventam de vez em quando.”
“Tais como?”
Certa vez, um inventor sugeriu que a torre deveria ser sustentada por cabos de aço, e outro queria cavar um túnel por baixo de seus alicerces . . .”
“Por que queria fazer isso?”
“Bem . . . não estou bem certo . . .”
Por fim, tinha encontrado algo que ele não sabia! Em todo caso, começara a gostar daquele rapazinho e estaria até mesmo disposto a subir a torre com ele, caso me pedisse de novo.
“Gostaria de subir comigo então?”
Naturalmente a pergunta chegou pontualmente no momento exato, como eu quase esperava que chegaria. “Muito bem, vamos subir”, disse eu, sem a mínima hesitação.
Dentro da Torre
Não era nada mais do que a cavidade dentro de enorme cilindro, essencialmente despojado, em comparação com a ornamentada elegância rendilhada do exterior, adornado de 207 colunas harmoniosamente distribuídas em sete andares, com o pavimento superior alojando os sinos.
Com agilidade, meu guia escalou as escadas íngremes recortadas nas paredes. Sete andares — em cada um pausávamos para vaguear pelo passeio circular e admirar o panorama que se espraiava abaixo de nós. Primeiro contemplamos a ampla praça, daí, os prédios maciços por todo o redor, daí, os tetos e baluartes dos muros à distância. Por fim, do topo, havia uma vista estupenda. Para o norte, a planície de Pisa delimitada pelas montanhas de São Juliano, atrás das quais se situa Lucca; a leste, as montanhas de Pisa e o vale do Arno; para o sul, as colinas pisaras, e a oeste, naquele magnífico dia ensolarado, era visível o mar, junto com o porto de Livorno, e os vastos pinheirais de São Rossore.
Os olhos de meu arguto guia jovem brilhavam ao apontar os marcos por toda a volta. Agora não precisava citar fatos enciclopédicos. Transbordava de amor por sua nativa região campestre e, talvez, até por este mesmo monumento, do topo do qual podíamos ver tão distante. Daí, quase como se tivesse compreendido que estava esquecendo a si mesmo, voltou de novo ao seu papel de guia eficiente.
“Galileu Galilei, nascido em Pisa, realizou daqui de cima suas experiências sobre a lei dos corpos que caem. Como pode ver, é aqui que os sinos estão instalados, sete deles, pesando um total de 9.500 quilos. Nunca são dobrados em ritmo contínuo, porque seu movimento poderia provocar vibrações perigosas para a torre. Cada um tem seu próprio nome . . .”
Ele desfilou com facilidade sete nomes estranhos, mas eu não estava mais ouvindo. Estava apenas apreciando-o desempenhar tão bem a parte do guia oficial.
Ao descermos as escadas, pedi-lhe informações sobre eventual significado simbólico do projeto e adornos da torre, mas ele mostrou-se um tanto esquivo sobre o assunto. Mais tarde, num artigo de Dezzi Bardeschi (Psicon 1976), li esta curiosa explicação: “Os sete andares (da Torre) representam as sete vias até Cristo, as sete fases da vida e as sete esferas harmônicas através das quais a alma tem de passar (com a ajuda dos sete dons do espírito santo) para alcançar a Deus.” Evidentemente a doutrina e a filosofia medievais estavam cheias de crenças pagãs orientais que se tornaram parte integrante da cultura “cristã”.
Minha visita não incluiu somente a torre. Tinha lido a respeito dos monumentos próximos, a catedral e o batistério, também muito lindos do lado de fora e cheios de obras-primas artísticas. Com respeito a estes, meu jovem guia estava menos preparado. Ao admirá-los, vi que o rapaz mostrava sinais de impaciência. Era tempo de irmos embora, e, assim, emergimos no ar livre, onde o sol ainda brilhava na amplidão aveludada da grama verde. Disse-lhe adeus e lhe ofereci pequena dádiva, que havia muito mais do que merecido, e então o vi desaparecer, correndo e esquivando-se no meio da multidão.
Mais uma vez a sós, dei uma última espiada na graciosa Torre Inclinada e pensei que, como muitos lindos monumentos antigos, ela se ergue em testemunho da perícia e engenho humanos, dons que, corretamente usados, trazem muito mais louvor ao Criador do que todo dobrar de sinos juntos.
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Cuidar desse maravilhoso instrumento — seu pianoDespertai! — 1980 | 8 de fevereiro
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Cuidar desse maravilhoso instrumento — seu piano
QUE maravilhoso instrumento! Todavia, mui amiúde, o piano é simplesmente despercebido. Tocamo-lo. Cantamos com seu acompanhamento musical. Ouvimo-lo encher os tons duma grande orquestra. Talvez nos emocionemos em recitais em que tal instrumento pode prover a fonte de diversão para uma esplêndida noite.
Mas, para a maioria de nós, nosso contato com o piano não se dá num grande auditório, e sim em nossa própria sala de estar. Apenas nos Estados Unidos, mais de 21.000.000 de pessoas tocam este instrumento, e mais de 200.000 pianos são fabricados por ano.
Se possuir um piano, isso representa um grande investimento. Depois da casa e do automóvel, talvez seja o maior investimento que já fez. Assim, vale a pena saber mais sobre seu piano e como cuidar devidamente dele.
A Maravilha Que É Seu Piano
O piano se situa numa classe própria — é tanto um instrumento de cordas como de percussão. Suas cordas contêm harmonia, que significa que os semitons duma corda oscilam matematicamente em relação ao tom fundamental da corda. Falando-se de modo estrito, uma corda de piano não tem harmonia, tem vibrações que não estão em
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