Diminui a semana de trabalho
“NÃO há substituto para o trabalho árduo”, disse Thomas A. Edison. “O gênio”, disse, “é um por cento de inspiração e noventa e nove de transpiração”. Disposto a concordar com ele se achava o fabricante de aço, Charles M. Schwab, que declarou: “O trabalho árduo é o melhor investimento que o homem pode fazer.” O poeta e ensaísta estadunidense Emerson expressou-se de modo similar: “A essência da sabedoria é que nunca se perde o tempo devotado ao trabalho.” E o trabalho árduo devotado ao serviço do Criador certamente nunca é perdido. O apóstolo Paulo nos assegura, dizendo: Tende “sempre bastante para fazer na obra do Senhor, sabendo que o vosso labor não é em vão em conexão com o Senhor”. “Pois Deus não é injusto, para se esquecer de vossa obra e do amor que mostrastes ao seu nome.” Assim, o trabalho árduo ainda tem algumas elevadas e sublimes recomendações dignas. — 1 Cor. 15:58; Heb. 6:10.
O trabalho é um amigo e não inimigo. Quem vive olhando para o relógio, com medo do trabalho ou de trabalhar demais, raras vezes trabalha com bastante afinco ou por suficiente tempo. Falta-lhe a alegria resultante dum exercício estimulante. Trabalham pelo amor ao dinheiro e não pelo amor ao trabalho. Geralmente os dias deles se arrastam, o trabalho sofre e realmente não são felizes. Verifica-se que a maioria de tais pessoas, na realidade, sentem-se muito miseráveis, sendo as últimas a iniciar e as primeiras a largar o serviço.
Não têm objeção a aceitar a paga por serviço que não fizeram. Não podem ver que isso é desonesto. É aceitar dinheiro que não lhes pertence. Infelizmente ainda não existem meios legais de se punir o “ladrão de tempo”. Ele tem de escolher entre continuar na sua própria miséria ou erguer-se dela por tornar o trabalho um amigo.
Trabalhar é viver, e viver é trabalhar. “Se alguém não quiser trabalhar, tampouco coma”, disse Paulo. Evitar o trabalho como se fosse uma doença repugnante é ignorar suas muitas virtudes. Certa pesquisa recente iluminou um fato já bem estabelecido: que o homem tem de trabalhar se há de ser sadiamente feliz. O estudo revelou a condição de certo grupo de aposentados, sem dificuldades financeiras, e que podiam viajar e viver independente de parentes e amigos. Tais homens achavam que, depois de apenas uns meses de lazer, a vida se tornou inteiramente enfadonha e vazia. “Levanto-me de manhã e não tenho para onde ir, nada para fazer”, disse um deles. Outro escreveu a uma agência de empregos: “Mais do que qualquer outra coisa, quero um emprego, qualquer coisa, apenas me dê algo para fazer.” Outros sofreram colapso mental. Nenhum deles estava totalmente contente com a sua aposentadoria. — 2 Tes. 3:10.
A História das Horas e dos Regulamentos
A atual divisão entre horas de trabalho e de lazer, férias e aposentadoria, era praticamente desconhecida durante as longas épocas da história pré-industrial. O antropólogo Melville Herskovits diz em apoio disso: “A idéia de férias é exclusiva de nossa sociedade — quer dizer, a distinção que fazemos entre o emprego de tempo e esforço em atividade dolorosa — o ‘trabalho’ — e o gasto na atividade prazerosa, ou ‘ficar sem trabalhar’.” Invenções tais como a correia de transporte, a linha de montagem, o relógio de ponto, que aumentaram grandemente a tensão do trabalho, são responsáveis, em grande medida, pela atual divisão entre horas de trabalho e de lazer.
A questão de “quantas horas se deve trabalhar” tornou-se urgente nas primitivas fábricas há uns 150 anos, quando as máquinas começaram a marcar o ritmo de trabalho. Já em 1562, as condições de trabalho eram minuciosamente regulamentadas por lei. Contratavam-se os operários por ano. Na realidade, a agitação atual em prol dum salário anual remonta à lei britânica de cerca de quatrocentos anos atrás.
Entretanto, os anos que precederam imediatamente à “revolução industrial” que produziu a mudança do trabalho caseiro para o da fábrica, do serviço manual para o da máquina, foram anos que produziram longas horas e trabalho árduo. Salários baixos obrigaram as mulheres e crianças a trabalhar nas fábricas, onde sacrificaram mais de dois terços da vida procurando viver segundo seus recursos. Os patrões exploravam cruelmente o operariado. Típica da legislação operária daquela época era uma lei aprovada na Grã-Bretanha, na primeira década do século dezenove, que limitava as horas de trabalho nas fábricas, para crianças com menos de nove anos, a doze horas por dia! William Pitt, primeiro-ministro da Inglaterra, propôs no seu Projeto de Lei dos Pobres que as crianças começassem a trabalhar com cinco anos. Nas fábricas e nas minas, as crianças trabalhavam de 14 a 18 horas por dia! Não raro dormiam nas fábricas ou adormeciam ao lado das máquinas durante as horas de trabalho. Quando a lei estipulou um dia de doze horas ou uma semana de trabalho de sessenta e nove horas, os industriais clamaram tanto que parecia que tinha chegado a ruína das indústrias.
Nos EUA, o nascimento do sindicalismo ocorreu numa época que marcou o declínio das condições de trabalho. O ano de 1789 presenciou a formação do primeiro sindicato nos EUA, e o de 1791, a primeira greve, a de alguns carpinteiros que entraram em greve a favor de horas mais curtas e contra uma redução do salário. Não se queixavam da semana de trabalho de quarenta horas da atualidade. Em princípios da década de 1880, os padeiros devotavam até 112 horas por semana a seu ofício; os operadores de máquinas de costura, 93 horas; os carpinteiros e marceneiros, 72 horas; os condutores de bondes, tantas quantas 102 horas; alguns operários nos altos-fornos de ferro gusa, 84 horas, etc.
Dez anos mais tarde, considerava-se que as condições haviam melhorado consideravelmente. Missouri ainda tinha uma semana de 84 horas para os padeiros; em Maine havia ainda a semana de 72 horas para os eletricistas; para os foguistas de máquinas fixas, Wisconsin ainda tinha o dia de 14 horas; as costureiras ainda trabalhavam 70 horas em Illinois; os operadores de máquinas de costura, 84 horas em Missouri; para os operadores de altos-fornos, era costumeira em todos os EUA a semana de 84 horas; os moldadores de ferro trabalhavam 84 horas em Alabama; e os mineiros de carvão, 72 horas em Virgínia; os impressores trabalhavam 84 horas na Carolina do Norte; os guarda-freios trabalhavam 79 horas em Indiana; os condutores de trens de carga, 84 horas em Maryland; os maquinistas, 81 horas em Michigan; os foguistas, 75 horas em Indiana e Colorado.
Fiscalizando as Condições de Trabalho
Os operários demandavam melhores condições de trabalho. Em 1845 foi feita a primeira fiscalização oficial das condições de trabalho por uma comissão especial da legislatura de Massachusetts, EUA. Certo relatório indicou onde “no verão, o trabalho começava às 5 horas da manhã e continuava até às 19 horas, com meia hora para o desjejum e quarenta e cinco minutos para o almoço”. Nas Fábricas Eagle de Griswold, Connecticut, o horário era de 15 horas de trabalho por dia. Em Paterson, Nova Jersey, mulheres e crianças começavam a trabalhar às 4,30 da manhã e não deixavam o serviço até às 19 horas. Multavam-se os operários que se encontravam sujos no serviço ou que se lavavam na fábrica. A multa equivalia a quase a metade da diária. Se um tecelão ficasse doente e não pudesse achar um substituto adequado para o dia, não raro tinha de pagar o vapor que foi “produzido sem necessidade”, talvez nada menos do que a metade dos proventos semanais. Os operários achavam-se obrigados a comprar nas lojas controladas pela companhia a preços muito acima dos normais. Se se rebelavam contra este arranjo, eram severamente punidos.
As regras de trabalho eram cruéis e exigentes. Os seguintes regulamentos foram colocados na parede de certa fábrica em Massachusetts: “A fábrica começará a funcionar dez minutos antes de se levantar o sol em todas as estações do ano. O portão será fechado dez minutos depois de o por do sol. Exigir-se-á de cada pessoa empregada sem tempo estipulado que nos avise pelo menos com quatro semanas de antecedência de sua intenção de sair (doença, etc.), senão perderá o salário de quatro semanas. [É um desafio à inteligência saber como alguém poderia dar aviso de possível doença com quatro semanas de antecedência.] Qualquer um que, por negligência ou má conduta, causar dano às máquinas, ou impedir o progresso do serviço, será responsável de reparar o dano causado às mesmas. Qualquer coisa que tenda a impedir o progresso da manufatura durante as horas de trabalho, como conversas desnecessárias, leitura, comer frutas, etc., tem de ser evitada. . . .” — [Assinado] Amasa Whitney, Winchendon, Massachusetts, 5 de julho de 1830.
Foram primariamente tais condições que fizeram florescer o sindicalismo. Os operários de toda a parte começaram a se juntar no esforço concentrado de melhorar as condições de trabalho e diminuir as horas. O progresso de seu empenho é-nos relatado por Shlakman, que, segundo Jaffe Stewart, demonstra a diminuição em horas desde o princípio do século dezenove até os dias atuais. Na primeira parte do século, as mulheres trabalhavam de 70 a 80 horas por semana. Daí, na época da Guerra Civil dos EUA, a duração média da semana de trabalho não-agrícola baixou para 60 e 70 horas. Diminuiu outra vez em 1909; a semana de trabalho nas manufaturas era de umas 51 horas. Este total caiu um tanto coerentemente para 42 horas em 1930; sob a influência da depressão, chegou-se em 1934 ao ponto baixo de umas 35 horas por semana. A atual Legislação de Justas Normas Trabalhistas dos EUA estabelece 40 horas como duração da semana de trabalho a ser pago às taxas regulares; o trabalho nas horas além de 40 tem de ser pago com acréscimo. Desta maneira, num século e meio, as horas de trabalho semanal foram realmente reduzidas à metade.
Menos Horas, Mais Trabalho, Maior Produção
Na virada do século passado se cria que quanto mais horas alguém trabalhasse, tanto maior seria a produção. Ernest Abbe, na Alemanha, fez a primeira análise científica de horas e produção, e verificou que “não era bem assim”. Depois de certo número de horas, os tóxicos de fadiga faziam que a produção diminuísse forçosamente, ao passo que subia a proporção de estragos e acidentes. Segundo Stuart Chase, Abbe “concluiu que 75 por cento de todos os operários fabris alemães produziriam mais se trabalhassem menos. Em termos de energia e atenção, trabalhariam, naturalmente, de modo mais árduo”. Chase diz que estes estudos iniciais “foram abundantemente confirmados na Primeira Guerra Mundial, quando se descobriu que as mulheres nas fábricas de munições britânicas podiam produzir mais granadas em oito horas do que em dez. Um conceito inteiramente novo dos efeitos da fadiga na produção começou a invadir a indústria, e a reduzir ainda mais as horas. Desta forma, a gerência científica uniu-se às demandas sindicalistas e à reforma legislativa para diminuir a semana de trabalho.”
Trabalhadores Têm Sentimentos
Os estudos clássicos de Mayo e Roethlisberger, da Escola Comercial de Harvard, na fábrica Hawthorne da Western Electric, disse Chase, mostraram que “a produção era fortemente influenciada pelos sentimentos do trabalhador para com o serviço”. Certo grupo de trabalhadores posto à prova “reagiu mais à sensação de se sentirem importantes do que às mudanças nas horas, salários, intervalos para descanso ou outras condições de trabalho. Quando achavam que eram consultados, e não mais eram dentes de engrenagem numa enorme máquina impessoal e pecuniária, sua produção aumentou vertiginosamente!” A enquête feita pelo Instituto de Relações Humanas em Yale revelou que “90 por cento dos operários analisados na fábrica automobilística não gostavam do seu ofício, mas permaneciam lá por motivo do salário alto e da segurança”. Muitos trabalhadores na linha de montagem reagiram com apreço quando se lhes davam tarefas de revezamento, o que tornava mais suportável o trabalho. De modo que a gerência começa vagarosamente a reconhecer que, embora o homem seja uma “máquina biológica” feita para trabalhar, não obstante, tem sentimentos que precisam ser levados em conta; que a “produção de peso morto não é mais o alvo nas sociedades mecanizadas, mas, antes, um equilíbrio, no qual o trabalhador cumpre seus deveres tanto na fábrica” como no lar e na comunidade.
Ninguém negará que os sindicatos contribuíram grandemente para melhores condições de trabalho. Os salários aumentaram, as horas diminuíram e as condições de trabalho são muito mais toleráveis. Contudo, os sindicatos não deixam de ter suas falhas. Embora tenham sido, em certos aspectos, uma bênção, granjeando para o homem maiores direitos e liberdades, não obstante, são uma maldição para ele também, restringindo-lhe o seu campo de oportunidades. Mediante o arranjo do “sistema de castas” que só admite operários sindicalizados, os empregos são limitados, em muitas esferas da indústria, apenas a alguns dentro da casta, tornando-se virtualmente impossível que um rapaz consiga emprego nestes lugares. Muito embora os direitos adquiridos em virtude do tempo de serviço protejam os idosos, expõem a nova geração a amargo ressentimento contra um sistema que não fornece oportunidades para a plena expressão de suas habilidades, mas a restringe ao sistema de privilégios adquiridos por antiguidade de serviço, que anda ao passo da lesma.
Assim, os sindicatos não deixam de ter suas manchas. Têm suas falhas. A corrupção dentro deles se iguala à encontrada na política, se isso for possível. Também, aquilo de que o homem realmente carece, os sindicatos não podem fornecer. Pois, não obstante seu poder, não podem parar as guerras, eliminar os crimes, a doença ou a morte. Para alcançar tais alvos — um mundo livre da corrupção — o homem tem de fazer as obras de Deus. É o Seu reino que garante perfeitas condições de trabalho para todos. “Abres a tua mão e satisfazes o desejo de toda coisa vivente.” — Sal. 145:16.