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O trabalho árduo traz felicidade?A Sentinela — 1989 | 15 de julho
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O trabalho árduo traz felicidade?
“AFINAL, o trabalho é tudo para o homem, não é?” perguntou Bunpei Otsuki, magnata de destaque no empresariado japonês. Ele estava explicando por que não queria tirar férias de verão. Suas palavras são típicas dos japoneses que reconstruíram o país do caos do após-guerra. Os japoneses têm sido descritos como povo diligente, desde que o comodoro Perry, dos Estados Unidos, abriu o Japão depois do seu longo período de isolamento. E eles se orgulham de trabalhar arduamente.
Todavia, o Japão agora está sendo criticado por trabalhar demais, tendo as mais longas horas de trabalho por ano dentre as chamadas nações industrializadas. O governo japonês procura apagar a imagem de viciados em trabalho. “O Ministério de Trabalho Diz ‘Parem de Trabalhar Tão Arduamente’”, rezava a manchete de um jornal. O ministério, no seu lema de campanha em prol do período de férias do verão de 1987, foi a ponto de dizer: “Tirar férias é prova da sua competência.” Em outras palavras, o governo pergunta à nação: “Por que trabalhar com tanto afinco?”
Naturalmente, nem todos no Japão são trabalhadores árduos, dedicados. Uma recente pesquisa do Centro de Produtividade do Japão, feita entre mais de 7.000 novos trabalhadores, revelou que apenas 7 por cento deles davam prioridade ao trabalho em vez de à vida particular. Esta tendência também pode ser vista em outros países. Na Alemanha, o Allensbacher Institut für Demoskopie verificou que apenas 19 por cento dos alemães na idade de 18 a 29 anos afirmavam que davam o seu melhor ao trabalho, sem tomar em conta a remuneração.
Em comparação com os jovens folgados, os trabalhadores estrangeiros no Japão trabalham muito mais arduamente. Um empregador em Tóquio fala com elogios do seu empregado argeliano, que faz trabalhos braçais. Ele diz: “Os japoneses não se candidatam para este tipo de trabalho, e mesmo que o fizessem, desistiriam imediatamente.” Não, nem mesmo os japoneses trabalhadores são diligentes por natureza. Para alguém trabalhar arduamente, precisa haver uma forte motivação.
Motivos Para se Trabalhar Arduamente
“Riqueza, estabilidade, bens, e progredir no mundo” — estas são as coisas procuradas pelos alemães que trabalham arduamente, noticia o semanário alemão Der Spiegel. Sim, muitos trabalham duro para ganhar bens materiais, a fim de poder usufruir certa medida de estabilidade na vida. Outros trabalham arduamente com o objetivo de “progredir no mundo” ou para ser promovidos na firma. Muitos dos que se sentem fortemente motivados pelo competitivo sistema educacional para atingir esses alvos infelizmente acabam na rotina monótona da sociedade industrializada — esgotando-se e não conseguindo nada.
O dinheiro e a posição social, porém, não são os únicos motivos de alguém trabalhar com afinco. Há quem trabalhe por amor ao trabalho. Para estes, o trabalho é tudo. Outros gostam do seu trabalho. “Fiquei tão interessado no que eu fazia no meu laboratório”, admite Haruo, “que os empenhos espirituais ficaram sufocados”.
Depois há aqueles que se dedicam a causas meritórias em prol da prestação de serviço a outros e do bem-estar deles. Trabalham arduamente para salvar vidas. Por exemplo, o bombeiro trabalha duro, todo dia, para manter seu equipamento em ordem.
Mas, são válidos todos estes motivos para se trabalhar arduamente? Resultam em felicidade? De fato, que trabalho pode realmente fazê-lo feliz?
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Trabalho que pode fazê-lo felizA Sentinela — 1989 | 15 de julho
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Trabalho que pode fazê-lo feliz
“EU REALMENTE gostava do meu trabalho como impressor”, diz Antônio, em Gênova, na Itália. “Era bem pago, e isto me fazia trabalhar muitas horas extras. Em poucos anos, apesar da minha pouca idade, tornei-me o braço direito dos meus patrões.” Antônio parecia ter atingido os objetivos pelos quais muitos se propõem trabalhar arduamente: riqueza, posição social e um trabalho absorvente de que se gosta.
Será que Antônio ‘via o que é bom por todo o seu trabalho árduo’? (Eclesiastes 3:13) E fazia-o esse trabalho realmente feliz? “Por causa da tensão resultante de nosso frenético modo de vida”, prossegue ele, “começamos a ter problemas como família. Isto nos tornava infelizes.” Nem Antônio, nem sua esposa sentiam-se felizes, apesar de seus empregos satisfatórios. Que dizer de você? Será que você ‘está vendo o que é bom por todo o seu trabalho árduo’? Será que seu trabalho realmente o faz feliz?
Motivos Válidos?
Uma das principais razões de se trabalhar arduamente é ganhar o sustento. Em alguns países, as pessoas precisam trabalhar longas horas apenas para ter o necessário. Alguns labutam dia e noite para que seus filhos tenham uma vida melhor. Mais outros trabalham compulsivamente para acumular riquezas.
Leonida, nas Filipinas, tinha dois empregos. Trabalhava num banco durante o dia e ensinava num colégio por três ou quatro horas à noite. Valia a pena esse dinheiro extra? “Eu sempre olhava para o relógio”, explica ela. “Ficava entediada. Trabalhava sem sentir satisfação.”
Não, trabalhar apenas para ganhar dinheiro não resulta em verdadeira satisfação e felicidade. “Não labutes para enriquecer”, aconselha o sábio Rei Salomão, “pois, sem falta fará para si asas como as da águia e sairá voando em direção aos céus”. (Provérbios 23:4, 5) Relata-se que algumas águias voam a velocidades de até 130 quilômetros por hora. Isto ilustra bem a rapidez com que a riqueza duramente ganha pode sair voando. Mesmo que alguém acumule riqueza, quando morre não pode levar nada consigo. — Eclesiastes 5:15; Lucas 12:13-21.
Ficar absorto em ganhar o sustento às vezes constitui um grave perigo. Pode levar ao amor ao dinheiro. No primeiro século, havia um grupo de religiosos chamados de fariseus, conhecidos por seu amor ao dinheiro. (Lucas 16:14) O apóstolo cristão Paulo, como ex-fariseu, estava plenamente apercebido do modo de vida deles. (Filipenses 3:5) “Os que estão resolvidos a ficar ricos”, adverte Paulo, “caem em tentação e em laço, e em muitos desejos insensatos e nocivos, que lançam os homens na destruição e na ruína. Porque o amor ao dinheiro é raiz de toda sorte de coisas prejudiciais, e alguns, por procurarem alcançar este amor,. . . se traspassaram todo com muitas dores.” (1 Timóteo 6:9, 10) Sim, “o amor ao dinheiro”, fazer todo o possível para consegui-lo, pode arruinar a vida da pessoa. Tal proceder não resulta em felicidade.
Para alguns, seu motivo para fazer tal empenho é ser promovido. Não obstante, mesmo estes, por fim, se confrontam com a realidade. A revista Fortune diz que a geração que nasceu depois da guerra, “que fez sacrifícios, aos seus 20 ou 30 e poucos anos de idade, para atingir o meio da escada administrativa, está chegando à realização desagradável, mas inevitável, de que, apesar de toneladas de trabalho árduo, nem todos conseguem atingir o cume. Atordoados por causa do esforço, estão tentados a se perguntar sobre o porquê de tudo isso. Por que lutar tão arduamente? Quem se importa?”
A vida de um desses homens, Mizumori, girava em torno de progredir no mundo. Seguindo uma carreira em cargos administrativos num dos maiores bancos no Japão, não lhe sobrava tempo para a família. Depois de trabalhar arduamente por mais de 30 anos, sua saúde estava abalada, e ele certamente não era feliz. “Dei-me conta”, diz ele, “de que a rivalidade por cargos, entre aqueles que procuram demonstrar seu destaque, ‘é vaidade e um esforço para alcançar o vento’”. — Eclesiastes 4:4.
Mas, que dizer daqueles que, iguais a Antônio, gostam do seu trabalho? Fascinado pelo seu trabalho, Antônio sacrificou sua vida familiar no altar do trabalho. Outros sacrificam a sua saúde e até mesmo a sua vida, conforme indicado pelo falecimento repentino de muitos executivos japoneses de destaque, esgotados pelo trabalho. Certo serviço de conselhos para os seus entes enlutados recebeu em apenas um só dia o surpreendente total de 135 telefonemas.
Alguns devotam sua vida a ajudar as pessoas. Jesus incentivou este espírito. (Mateus 7:12; João 15:13) Manter-se ocupado no trabalho meritório de ajudar outros realmente traz felicidade. — Provérbios 11:25.
Entretanto, tal nobre diligência não está isenta de armadilhas. Por exemplo, o rei judeu Uzias empenhava-se num maciço projeto civil de escavar cisternas no ermo. Uzias deve ter pensado nos benefícios para o seu povo, visto que “buscava a Jeová” naquele tempo e evidentemente acatava o mandamento divino, de os reis serem altruístas. (2 Crônicas 26:5, 10; Deuteronômio 17:14-20) Isto aumentou os seus sucessos militares, e a “sua fama saiu à grande distância”. Mas, ao se tornar forte, tornou-se orgulhoso, o que resultou na sua queda. (2 Crônicas 26:15-20; Provérbios 16:18) Quem se devota a ajudar outros, mas é motivado pela satisfação de si mesmo e pelo orgulho, também pode acabar numa queda. Então, por que é que alguém trabalharia arduamente?
O Homem Foi Feito Para Trabalhar
Do homem que realizou um bem muito maior do que qualquer outro que já viveu na terra podemos aprender bastante sobre o trabalho. Trata-se de Jesus Cristo. (Mateus 20:28; João 21:25) Quando morreu na estaca de tortura, exclamou: “Está consumado!” (João 19:30) Sua vida de 33 1/2 anos proporcionara satisfação.
A vida de Jesus ajuda a responder à pergunta: “Que trabalho pode fazê-lo feliz?” Foi a realização da vontade do seu Pai celestial que lhe deu incomparável felicidade. Do mesmo modo, fazermos a vontade de nosso Criador pode dar-nos o senso de realização e tornar-nos felizes. Por quê? Porque Ele conhece a nossa constituição e as nossas necessidades melhor do que nós.
Quando Deus criou o primeiro homem, Adão, Ele lhe deu tanto um trabalho manual como um mental para fazer. (Gênesis 2:15, 19) Por ‘ter em sujeição’ todas as outras criaturas terrestres, Adão tinha também um trabalho administrativo a fazer. (Gênesis 1:28) Enquanto Adão acatava este arranjo, seu trabalho continuou a ser significativo e de valor. Cada pequena designação de trabalho significava outra oportunidade de agradar ao Altíssimo.
No entanto, não continuou assim no caso de Adão. Ele decidiu separar-se do arranjo de Deus. Adão não mais se agradou em fazer a vontade de Deus, mas quis fazer o que bem entendia. Pecou contra o Criador. Em resultado da sua decisão, Adão, sua esposa e toda a sua descendência ficaram ‘sujeitos à futilidade’. (Romanos 5:12; 8:20) Em vez de dar felicidade, o trabalho tornou-se estafa. A sentença de Deus contra Adão incluía as seguintes palavras: “Maldito é o solo por tua causa. Em dor comerás dos seus produtos todos os dias da tua vida. E ele fará brotar para ti espinhos e abrolhos, e terás de comer a vegetação do campo. No suor do teu rosto comerás pão, até que voltes ao solo.” (Gênesis 3:17-19) O trabalho, que devia ter sido dignificante por ter como derradeiro objetivo agradar o Criador do homem, significava agora apenas labuta penosa, só para conseguir o pão.
Que conclusão podemos tirar destes fatos? A seguinte: O trabalho árduo dá duradoura satisfação e felicidade apenas quando nossa vida gira em torno de fazer a vontade divina.
‘Ver o Que É Bom’ em Fazer a Vontade de Deus
Fazer a vontade divina era para Jesus Cristo como alimento — algo com que deleitar-se e sustentar a sua vida espiritual. (João 4:34) Como pode você deleitar-se assim com o trabalho?
Terá de perceber “qual é a vontade de Jeová” para você. (Efésios 5:17) A vontade dele é que a humanidade seja restabelecida na “liberdade gloriosa dos filhos de Deus”. (Romanos 8:21; 2 Pedro 3:9) Agora se realiza para isso a obra mundial de ajuntamento. Você também poderá participar nesta obra mui satisfatória. Esse trabalho certamente o fará feliz.
Antônio, mencionado no início, encontrou mais tarde satisfação e felicidade. Quando ele e sua esposa colocavam seus empregos seculares “fúteis” em primeiro lugar na vida e se envolviam profundamente neles, sua vida espiritual sofria. Foi então que começaram a ter problemas domésticos. Reconhecendo esta situação, a esposa decidiu largar o emprego e começou a ‘esforçar-se vigorosamente’ em fazer a obra de pregação do Reino de Deus por tempo integral. — Lucas 13:24.
“Notamos logo uma grande mudança”, diz Antônio. “Não havia mais as constantes altercações. A paz voltou à nossa família.” Sua esposa colheu a alegria de ajudar outros a obter o conhecimento que significa “vida eterna”. (João 17:3) A felicidade dela induziu Antônio a reavaliar o que realmente valia a pena fazer. Seu desejo de servir a Deus de toda a alma saiu ganhando. Ele rejeitou uma oferta de promoção e renunciou ao seu emprego secular. Embora a mudança significasse tomar um emprego mais humilde, tanto Antônio como sua esposa sentem-se felizes de gastar a maior parte do seu tempo no ministério cristão, fazendo a vontade de Deus.
Naturalmente, nem todos estão em condições de fazer mudanças tão grandes. Mizumori, o banqueiro japonês já mencionado, deriva satisfação de seu ministério como ancião numa congregação cristã, e ainda sustenta sua família com o seu emprego secular, onde ocupa um cargo administrativo. No entanto, sua vida não gira mais em torno do seu trabalho secular, mas revolve em torno de fazer a vontade de Deus. Seu trabalho secular é o meio de sustentar-se e habilita-o a atingir seu objetivo. Agora, o trabalho secular também tem sentido.
Quando você cultivar tal conceito para com o seu emprego, sem dúvida se esforçará, “não com atos apenas ostensivos, como para agradar a homens, mas com sinceridade de coração, com temor de Jeová”. (Colossenses 3:22) Esta sinceridade parece não ir muito longe na atual sociedade humana competitiva, mas, conforme Mizumori admite, a aplicação de tais princípios fará com que se goze a confiança e a estima de outros. Embora ele deixasse de trabalhar em prol duma promoção, recebeu uma. — Provérbios 22:29.
Sim, fazer a sua vida girar em torno de realizar a vontade de Deus é a chave para se achar felicidade no trabalho árduo. Foi por isso que o sábio Rei Salomão concluiu: “Não há nada melhor para eles do que alegrar-se e fazer o bem durante a sua vida; e também que todo homem coma e deveras beba, e veja o que é bom por todo o seu trabalho árduo. É a dádiva de Deus.” — Eclesiastes 3:12, 13.
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