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Houve uma ressurreição?A Sentinela — 1961 | 1.° de junho
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Não poderiam ter sido ressuscitados à vida nem mesmo logo após Jesus, conforme sugerido por alguns, porque Paulo mostra que os cristãos santos serão ressuscitados e receberão a sua recompensa “naquelle dia”, quando “o ‘Senhor mesmo descerá do céo com grande brado, com voz de archanjo e com trombeta de Deus”. Paulo escreveu isso só muitos anos depois de Jesus ter sido ressuscitado, e ainda se havia de cumprir no futuro longínquo. — 2 Tim. 4:8; 1 Tes. 4:16.
Tratava-se, então, por acaso, de santos pré-cristãos, destinados à vida, não no céu, mas na terra? Mesmo neste caso, ainda não poderiam ter recebido a sua ressurreição no tempo da de Jesus, porque Paulo escreveu a respeito deles: “Todos estes, tendo alcançado bom testemunho pela sua fé, comtudo não alcançaram a promessa, tendo Deus provido alguma cousa melhor no tocante a nós, para que elles, sem nós, não fossem aperfeiçoados.” Se estes tivessem sido ressuscitados à vida naquele tempo, então teriam sido aperfeiçoados à parte de “nós”, os cristãos santos. — Heb. 11:39, 40.
NENHUMA RESSURREIÇÃO DO CORPO
Outrossim, em parte alguma das Escrituras lemos que os corpos dos falecidos serão ressuscitados; apesar de o chamado Símbolo dos Apóstolos ensinar a ressurreição do corpo humano. Os “mortos”, sim, mas não os “corpos mortos”. Pessoas falecidas serão ressuscitadas no tempo devido de Deus, e receberão um corpo adequado; terão a mesma personalidade. Observe o arrazoamento claro do apóstolo Paulo sobre isso, no que se refere à ressurreição dos cristãos santos: ‘Como serão levantados os mortos? Sim, com que espécie de corpo virão?’ . . . O que semeias não é vivificado a menos que morra primeiro; e quanto a que semeias, semeias, não o corpo que se desenvolverá, mas o mero grão, . . . mas Deus lhe dá um corpo assim como lhe agradou. . . . Assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se em corrupção, é levantado em incorrupção. . . . Semeia-se um corpo físico, é levantado um corpo espiritual. . . . Se há um corpo físico, também há um espiritual. . . . a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem pode a corrupção herdar a incorrupção.” — 1 Cor. 15:35-38, 42-44, 50, NM.
Visto que a Bíblia não ensina a ressurreição do corpo humano, quer na primeira ressurreição, quer na que segue, o fato de que foram ali levantados corpos provaria que não pode ter sido o princípio; de nenhuma destas ressurreições. No máximo, seria apenas uma ressurreição temporária de alguns judeus fiéis que provavelmente tinham falecido pouco tempo antes. Sua ressurreição, portanto, não teria sido em nada diferente da ressurreição do amigo de Jesus, Lázaro, e de outros semelhantes a ele.
Porém, mesmo esta suposição precisa ser excluída, em vista das seguintes perguntas: Se os túmulos foram abertos quando Jesus morreu, porque tiveram os corpos dos santos de esperar até depois de Jesus ter sido ressuscitado, para sair dos túmulos e aparecer a muitos? Houve um terremoto quando Jesus foi ressuscitado; por que não podiam ter esperado por este? A quem apareceram estes corpos? Estava a sua ressurreição em competição com a de Jesus, que apareceu aos seus discípulos no terceiro dia? Qual era a finalidade do seu aparecimento? A quem chamavam atenção ou de que falavam? Aumenta ou acrescenta a sua ressurreição algo à de Jesus ou prova ser uma corroboração da sua ressurreição? Por que é que tal evento incomum não está mencionado em nenhuma outra parte das Escrituras Gregas Cristãs? Além disso, por que não chamou o apóstolo Paulo atenção à ressurreição deles no seu argumento em Primeira Coríntios 15, a respeito da ressurreição dos mortos? Se muitos tivessem sido ressuscitados e vistos por muita gente, então teria sido do conhecimento comum e Paulo teria mencionado este fato.
A solução razoável deste problema é apresentada pela tradução dos versículos em questão na Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs. Embora seja uma tradução literal, coloca a clareza do pensamento na frente da literalidade. Reza: “E foram abertos os túmulos memoriais e muitos corpos dos santos que adormeceram foram lançados para fora; (e pessoas, saindo de entre os túmulos memoriais depois de ele ter sido ressuscitado, entraram na cidade santa,) e tornaram-se visíveis a muitas pessoas.” Esta tradução torna evidente que não se tratava duma ressurreição de “santos adormecidos”, mas apenas de cadáveres que foram lançados fora dos túmulos pelo terremoto havido por ocasião da morte de Jesus.
E a Tradução do Novo Mundo não está sozinha em verter assim estes versículos. Uma moderna tradução alemã reza de modo bastante similar: “Túmulos foram abertos, e muitos corpos dos enterrados foram lançados em posição ereta. Nesta posição projetavam-se fora dos sepulcros e foram vistos por muitos que passavam por aquele lugar ao andarem de volta para a cidade.” — Mat. 27:52, 53.
Um incidente similar a este ocorreu no Equador, em 1949. Os mortos costumam ali ser enterrados em grandes criptas funerárias, prateleira sobre prateleira, sepulcro sobre sepulcro. Um terremoto fendeu estas criptas, lançando muitos cadáveres para fora, cadáveres que tinham sido certa vez enterrados para impedir o irrompimento duma peste.
Qual é a base para tal tradução? Era primeiro lugar, note-se que o pronome “eles” que precede aos verbos (Mat. 27:53, NR) não se poderia referir aos “corpos”, porque em grego todos .os pronomes têm gênero, e “eles” está no gênero masculino, ao passo que “corpos” está no gênero neutro. Nem poderia “eles” referir-se aos “santos”, pois o texto não diz que os santos foram ressuscitados, mas apenas que seus corpos foram levantados ou lançados fora. Por outro lado, nem mesmo os manuscritos mais antigos estão de acordo entre si quanto à rendição deste texto. O Manuscrito Sinaítico omite as palavras “e foram abertos os túmulos memoriais” e “entraram”.
Em vista de todas as questões suscitadas por estes textos, de sua tradução contraditória e das variações encontradas nos manuscritos mais antigos, não se pode excluir completamente ainda outra alternativa. Qual é? Que estes versículos não foram escritos pelo próprio Mateus, mas acrescentados por um dos primeiros copistas. Este pensamento parece encontrar apoio adicional no fato de que a palavra grega específica para “ressurreição” (VB) usada aqui, égersis, não ocorre em nenhuma outra parte das Escrituras Gregas Cristãs. Aqui se dá também o primeiro uso da expressão “santos” em todos os Evangelhos, que só aparece depois de Pentecostes. O fato de que estes versículos são encontrados no Evangelho apócrifo dos Nazarenos, mas em nenhum dos outros Evangelhos canônicos, lança ainda mais suspeita sobre estes versículos. Incidentalmente, este Evangelho dos Nazarenos foi por alguns considerado como o Evangelho original de Mateus em hebraico, o qual ele traduziu depois para o grego. Aproxima-se muito do seu Evangelho canônico, exceto que começa sem genealogia.
Não podemos fugir do fato de que os versículos 52 e 53 de Mateus, capítulo 27, são ambíguos. De fato, estão entre os versículos mais difíceis de traduzir em todas as Escrituras Gregas Cristãs. Por causa de sua ambigüidade, ninguém pode declarar dogmàticamente como devem ser vertidos. O que governa a tradução de textos tais como estes, onde há ambigüidade no texto original, por tanto, não é o criticismo textual, porque este é frustrado pela ambigüidade. Antes, o fator governante terá de ser a exegese ou interpretação bíblica do significado pretendido pelo escritor original. A maneira de cada tradutor verter assim tais textos dependerá do seu entendimento do resto das Escrituras. Os fatos bíblicos acima especificados ditam como devem ser traduzidos para ser coerentes com o resto da Bíblia.
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Perguntas dos LeitoresA Sentinela — 1961 | 1.° de junho
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Perguntas dos Leitores
● Mateus 11:11 (NM) diz que “a pessoa que é menor no reino dos céus” é maior que João Batista. Como se deve entender isso? Não terão todos os membros do corpo de Cristo uma posição igual, ou haverá quem ocupe posição mais elevada e outros que serão menores em comparação? — V. C., E. U. A.
Em primeiro lugar, notemos que, no que se refere ã classe do reino dos céus na terra, sempre tem havido nela alguns que ocuparam posições de maior responsabilidade e outros que ocuparam posições de menor responsabilidade. Assim, pelo menos neste respeito há maiores e menores na classe do reino dos céus. É forçosamente assim onde há uma organização. Em Israel, por exemplo, houve “chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta, e chefes de dez”, para assegurar o funcionamento suave da organização. — Êxo. 18:21, ALA.
No reino celestial, Jesus Cristo estará acima de todos os 144.000, como seu chefe, e, certamente, comparados com ele serão todos menores. Outrossim, lemos que a santa cidade, a Jerusalém celestial, tinha uma muralha com “doze fundamentos, e estavam sobre estes os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro”. (Apo. 21:14, ALA) Sem dúvida, o resto dos 144.000 serão menores em comparação com estes doze fundamentos. As Escrituras estão caladas sobre outras distinções, mas, em vista do quadro dado em Apocalipse 7:1-4, referente às doze tribos do Israel espiritual, sugerindo organização, pode-se dizer que se indicam vários graus de autoridade no reino dos céus.
● Mateus 24:30 (NM) declara: “Todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem vindo nas nuvens do céu, com poder e grande glória.” Por que se afirma que a palavra grega aqui traduzida “ver”, que é horáo, significa “discernir”, quando praticamente todos os textos usando a palavra horáo contêm a idéia de ver literalmente,e não apenas discernir uma coisa ou pessoa? — J. S., E. U. A.
O esforço de tomar o significado literal que este verbo muitas vezes tem, o de ver literalmente com o olho nu, e aplicá-lo a todos os textos que usam este termo ao falarem da segunda presença de Cristo, não só é contrário ao claro ensino básico das Escrituras, de que a segunda .presença de Jesus havia de ser invisível, mas viola o próprio sentido do verbo grego horáo.
O verbo grego horáo é defectivo, o que significa que não existe em todos os tempos e que se precisam usar verbos de outras raízes para lhe dar a idéia da visão. Isto se dá no tempo futuro e também no aoristo. O uso de tais verbos suplementares não pode assim ser usado para argumentar, como alguns fazem, que horáo tenha sempre um significado literal. Assim, o Léxico Grego-Inglês de Liddelle e Scott mostra que horáo não significa apenas ver com o olho nu, mas também perceber, observar, e, “em sentido metafórico, visão mental, discernir, perceber”. — Edição de 1948, páginas 1244, 1245.
Por isso precisamos considerar tanto o contexto como o testemunho do resto das Escrituras para saber se horáo se refere à vista literal, ao ver com os olhos nus, ou à visão espiritual, ver com os olhos do entendimento, ter discernimento. Por causa do testemunho do resto das Escrituras sobre a nova vinda de nosso Senhor, horáo, quando usado neste sentido, precisa referir-se ao discernimento, e não à vista literal. Sendo ele espírito, é impossível que o olho humano nu o veja diretamente. No entanto, os homens, com os seus olhos humanos, verão as manifestações externas que hão de Indicar a sua presença e chegada invisível. Por meio destas manifestações externas, verão, em sentido metafórico, com visão mental, que ele já chegou para a batalha do grande dia do Deus Todo-poderoso. — Apo. 1:7.
O sentido metafórico de horáo, o de discernimento, é claramente provado por Romanos 1:20, onde a palavra grega horáo é usada em combinação com a preposição katá, para formar o verbo grego kathoráo. A Tradução do Novo Mundo verte este verbo kathoráo como “são vistas claramente”, significando que são discernidas claramente. É óbvio que as coisas claramente vistas, neste caso, são coisas que não podem ser vistas com o olho nu, mas apenas podem ser discernidas, a saber, as qualidades invisíveis de Deus: “Pois as suas qualidades invisíveis são vistas claramente desde
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