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O tratamento médico com sangue — uma questão emocionalDespertai! — 1979 | 8 de novembro
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O tratamento médico com sangue — uma questão emocional
AS PESSOAS inclinam-se a considerar os tratamentos médicos atualmente populares como científicos, como o único meio de tratar de certa moléstia. Talvez haja fortes críticas contra uma pessoa que prefira um tratamento que não está em voga, ou se ela recusa o tratamento popular. Tal pessoa poderá ser até vilipendiada e perseguida.
Para ilustrar: Durante séculos, a flebotomia ou sangria era um tratamento médico popular. A sangria, segundo se cria, retirava o sangue ruim e ajudava a pessoa doente a se recuperar. Este era o tratamento médico aceito até o século passado, inclusive durante grande parte dele. “A sangria gozava de incrível grau de preferência”, escreveu o Dr. Alonzo Jay Shadman em seu livro Who Is Your Doctor and Why? (Quem É Seu Médico e Por Quê?)
Em resultado deste tratamento médico, muitos sofreram e morreram, inclusive o primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington. Apresentou uma infecção na parte superior da traquéia (evidentemente a garganta infetada de estreptococos) e morreu em dezembro de 1799. “Os médicos de George Washington fizeram-no sangrar até à morte”, afirma o Dr. Shadman.
Naquele tempo, os médicos de Washington não sofreram críticas. Nem foram criticados em grande parte do século seguinte. Mas, que dizer daqueles que, durante o último século, começaram a questionar o valor da sangria?
Foram vituperados e perseguidos. Christoph Wilhelm Hufeland, chamado por The Encyclopœdia Britannica de “o mais eminente médico clínico de sua época na Alemanha”, era a favor do tratamento médico pela sangria, então popular. Em 1830, disse: “Qualquer pessoa que deixasse de tirar sangue quando um homem corria perigo de sufocar-se em seu próprio sangue (esta era a idéia a respeito de febres inflamatórias) era um homicida por omissão.”
Todavia, hoje em dia, os médicos daquele tempo são caraterizados como ‘homicidas’, tendo ‘deixado Washington sangrar até à morte’. No atual exercício da medicina, dar sangue, e não retirá-lo, tornou-se um tratamento popular. Com efeito, as pessoas que recusam transfusões de sangue para membros de sua família têm sido caraterizadas como ‘homicidas’. Assim, o tratamento médico que envolve o sangue tornou-se de novo uma questão emocional.
É a Solução?
O pêndulo agora oscila para o outro lado, de modo que se transfunde rotineiramente sangue em pacientes, como se fosse uma panacéia. Mas não é! Ao invés, poderá agravar o estado clínico da pessoa, ou até matá-la. “Na última década, calculadamente 30.000 pessoas morreram de hepatite sérica [transmitida por transfusão de sangue]”, observa Family Health (Saúde da Família) de março de 1977, “e outros milhares sofreram danos irreparáveis a seu fígado, mediante transfusões de sangue contaminado”.
As transfusões de sangue são também responsáveis pela transmissão de muitas outras doenças que afligem e matam milhares de pessoas cada ano. Adicionalmente, muitos pacientes apresentam reações pós-transfusionais adversas, que às vezes resultam fatais. “Na área de Miami, [Flórida, EUA]”, comenta o Dr. Charles Gilpin, “cerca de uma dentre cada 10 transfusões apresenta algum tipo de reação”.
Assim, quão grandes são os perigos? O Southern Medical Journal (Jornal de Medicina do Sul), de abril de 1976, sugeriu que o cálculo “entre 3.000 e 30.000 mortes atribuíveis às transfusões” cada ano é provavelmente um cálculo conservador. Todavia, tais estatísticas são apenas para um país — os Estados Unidos! Por conseguinte, poderá culpar as pessoas informadas de hesitarem em tomar transfusões de sangue?
É óbvio, contudo, que se perder muito sangue, a pessoa morrerá. As transfusões de sangue, afirmam a maioria dos médicos, poderão salvar tais pessoas que, de outra forma, morreriam. Embora isso possa ser verdade, as Testemunhas de Jeová se recusam a tomar transfusões de sangue. O motivo é que encaram a sério a seguinte ordem da Bíblia para os cristãos: Persisti em “vos absterdes . . . de sangue”. (Atos 15:28, 29) A obediência a tal ordem, às vezes, as tem colocado em desacordo com o tratamento médico popular, criando uma questão emocional.
No entanto, há formas alternativas de tratamento, e estas não apresentam os perigos das transfusões de sangue. As Testemunhas de Jeová aceitam tais processos médicos, que amiúde se têm provado salvadores de vidas. Muitos médicos talvez achem que estão plenamente informados sobre a questão do sangue, mas talvez não disponham de todos os fatos. Considere só a experiência de um ex-chefe de equipe dum hospital do Texas, EUA.
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O que aprendi sobre o sangueDespertai! — 1979 | 8 de novembro
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O que aprendi sobre o sangue
Um cirurgião conta sua história
COMO médico, mantinha movimentada clínica geral em Dallas, Texas, EUA. Amiúde, às 7 da manhã já estava na sala de cirurgia, junto à mesa cirúrgica, do outro lado de meus colegas cirurgiões, com o gorro e o avental dum traje cirúrgico verde-claro. Lembro-me, em especial, duma cesariana que realizamos em 1965, como se acontecesse ontem.
A operação ia bem. Roy tinha feito rápida incisão, não encontrando grave hemorragia. Agora, diante de nós, estava o útero protuberante, saindo em direção ao alto à medida que a camada interna da parede abdominal era aberta. Eu olhei para cima, para dar de encontro com os olhos de Roy, logo acima de sua máscara cirúrgica, enquanto ele deixava escapar leve suspiro e exclamava: “Veja só isso!”
Meus olhos, movendo-se rápido para baixo, viram, em torno do colo do útero estirado, grávido, vasos sangüíneos incomumente grandes — quase do tamanho dos meus dedos — surgindo de baixo e atravessando as alças de apoio. Teríamos de cortar muitos desses vasos, e iria haver hemorragia maciça.
“OK, prossigamos”, disse Roy. Estendendo a mão direita, recebeu pequeno tapinha junto com o bisturi entregue pela instrumentadora cirúrgica. Cada corte resultou numa nova golfada de sangue proveniente dos grandes vasos varicosos que tinham de ser cortados, a fim de abrir suficientemente o útero para se conseguir tirar a cabeça do bebê.
“Jessie”, gritei eu. “Telefone para o laboratório e mande-os fazer a tipagem e o teste cruzado de duas unidades de papa de hemácias.”
“Sim, doutor”, disse a eficiente supervisora da sala de cirurgia, por cima dos ombros, ao atravessar as portas de vaivém da sala de cirurgia. Olhei para o alto, para mirar nos olhos o anestesiologista. Ele me dava seu sinal sorridente de aprovação, ao abrir as válvulas dos frascos de solução IV, permitindo que tal líquido substituísse o precioso sangue que se esvaía. O anestesiologista é usualmente responsável de cuidar da volemia e da substituição dos fluidos, quando um paciente está sob anestesia. O cirurgião, embora seja o comandante do navio, geralmente está ocupado demais nessa hora para cuidar disso.
O anestesiologista, que acabara de me sorrir de modo aprovador, ensinara-nos a respeitar o sangue. Sua crença era no uso do que ele chamava de “sangue branco”, a solução do lactato de Ringer. É um fluido que contém os sais minerais, a água e outros ingredientes necessários à substituição dos fluidos do corpo, mas não apresenta os perigos do sangue total. Ele repetidas vezes nos dissera que, se um paciente não precisasse de maciças doses de sangue, então seríamos tolos se usássemos outra coisa senão o lactato de Ringer para substituir o volume de sangue perdido. Eu o ouvia e aprendi muita coisa com ele. Agora eu era o chefe da equipe hospitalar, e imaginei já saber quase tudo que existe para se saber sobre o sangue. A operação teve êxito — a mãe e o bebê sobreviveram.
“A Boa Vida”?
Lá naqueles primeiros anos de clínica, imaginei que já “estava realizado”. Por fora, tudo corria bem; minha clínica prosperava e minha renda estava crescendo. Dispunha de toda evidência externa de êxito — uma casa com piscina, um carro novo, um rápido barco a vela de corrida, dois filhos — quase tudo que o mundo lhe pode oferecer. Mas, na realidade, tudo estava indo mal. O estranho era que eu sabia que estava. Todavia, persistia em negá-lo, tentando convencer a mim mesmo e à minha família de que isto era “a boa vida”.
Nossa vida era agitada. Quanto mais dinheiro eu ganhava, tanto mais gastávamos. Viajávamos junto com uma turma que se movimentava rápido. Comecei a beber demais, e a imoralidade se tornou uma forma de vida. No fim daquele sexto ano como médico duma cidade grande, minha vida inteira, conforme a conhecia, desabou sobre minha cabeça. Meu filhinho de três anos e meio afogou-se em nossa piscina. Um mês depois, minha esposa abandonou a mim e ao nosso outro filho, trocando-nos por um dos meus amigos mais achegados.
Caí em horrível depressão, um dia tentando deliberadamente, e quase com êxito, me matar, por injetar morfina no meu corpo. Fiquei mui surpreso ao despertar em nosso hospital, perguntando apenas: “Que houve de errado?” Em apenas seis breves anos eu tinha subido ao pináculo do êxito, apenas para rolar novamente para o fundo.
Experimentei de tudo — psicanálise, pílulas (“antidepressivos” e “tranqüilizantes”), e sempre o álcool — para conseguir alívio da minha vida miserável. Nada funcionou. Dentro de um ano, casei-me de novo e, esperando que minha vida estivesse voltando ao normal, comecei a cometer de novo todos os mesmos erros. Minha pobre esposa não sabia em que se metia. Era 15 anos mais jovem do que eu, e nunca se casara antes. Agora, subitamente, já tinha uma família formada, e as novas responsabilidades de ser esposa dum médico.
Comecei a me soerguer outra vez aos olhos de meus colegas; de novo minha clínica voltou a prosperar. Minha renda passou a ser quase de centenas de milhares de dólares. Mas eu ainda tinha os mesmos maus hábitos. Continuei a beber muito e a tomar pílulas, e nunca deixei a imoralidade. Eu estava fazendo em pedaços, física e emocionalmente, a minha nova esposa. Logo tivemos dois filhos, além do meu filho do casamento anterior. Mudamo-nos para uma casa maior, com piscina mais ampla, e compramos carros maiores. Passávamos todo fim de semana em provas de barcos a vela, bebendo muito, e participando na vida noturna. “Despachávamos” nossos filhos para os avós, que os viam mais do que nós. Conquanto não me incomodassem, eu estava satisfeito. Gastávamos milhares de dólares com “diversões” — novos barcos a vela, viagens e equipamento de esquiar na neve — mas ainda assim minha vida não era nada divertida.
Minha disposição tornou-se mais terrível. Comecei a ter um caso sério com uma das enfermeiras de meu consultório, e ela exigia cada vez mais de meu tempo. Sofria uma depressão após a outra, e, nesse período todo, sentia este temor real de que iria morrer e jamais realmente saber o que era a vida ou qual seu objetivo. Eu observava as condições mundiais como um gavião. Sabia que as coisas não podiam continuar indefinidamente da forma como iam, e isto apenas me deixava mais deprimido.
Qual É a Solução?
Daí, certa noite, num estado semibêbedo, eu e minha esposa conversávamos no quintal dos fundos. Ambos estávamos deprimidos devido à situação mundial. Tínhamos examinado tudo — o ocultismo, religiões do Extremo Oriente, a reencarnação. Pedi-lhe que orasse junto comigo, algo que jamais tínhamos feito antes. Lançamo-nos com os rostos colados à grama, as lágrimas vertendo profusamente, e suplicamos que Deus nos ouvisse.
Dias depois, certa noite, ao voltar do consultório para casa, minha esposa me disse que estudava a Bíblia com as Testemunhas de Jeová. “Oh, não!” berrei eu. “Jamais conseguirá livrar-se delas. Não sabe que estão apenas atrás do nosso dinheiro? Tudo, menos isso.” Mas, por alguma razão, minha esposa se opôs a isto e continuou seus estudos. Eu fiquei furioso e tornei as coisas bem difíceis para ela, embora não a impedisse fisicamente de estudar.
Estava determinado que poderia ensinar minha esposa que eu sabia mais sobre a Bíblia do que as Testemunhas. Isto era estranho, visto que jamais lera a Bíblia inteira em toda a minha vida. Assim, levantava-me cedo, cada manhã, para ler a Bíblia, de modo a poder ensinar a ela. No entanto, para minha ira e choque, ela me mostrava coisas na Bíblia que eu tinha acabado de ler e que despercebera por completo.
A Questão do Sangue
Daí, certa noite, ela lia um livro vermelho, e disse tranqüilamente: “Oh, veja só! Sabia que Deus disse a Noé que devia derramar no solo o sangue dos animais antes de poder comê-los?”
Instantaneamente tomei uma atitude de defensiva, e disse: “Sim, é disso que não gosto sobre essa gente; não aceitam transfusões de sangue.” Agora havia finalmente algo que elas não me podiam ensinar. Era algo em que podia fincar meus dentes, pois, afinal de contas, eu achava que sabia tudo sobre o sangue. Sentia-me amargurado e cheio de orgulho. Ela sabia disso e não disse mais nenhuma palavra sobre tal assunto.
Pouco depois, ela me forneceu uma lista de soluções substitutas do sangue que sua instrutora da Bíblia lhe havia fornecido pelo telefone, e me perguntou se eu sabia disso. Realmente me exasperou — pensar que elas imaginavam que eu nem sequer sabia algo sobre os expansores do volume do plasma. Na lista constava o lactato de Ringer, o “sangue branco”. Para o próximo estudo, sua instrutora lhe trouxe um folheto chamado “O Sangue, a Medicina e a Lei de Deus”, que me pediu que lesse. Na manhã seguinte mesmo, quando me sentei para ler a Bíblia, peguei aquele folheto e o li de capa a capa. Quando terminei, sabia que era a verdade.
Jamais tinha visto o texto ‘persisti em vos absterdes do sangue’, e jamais soubera do mandamento de Deus dado a Noé para não consumir sangue. (Atos 15:28, 29; Gên. 9:3, 4) Imaginei que a proibição sobre o sangue fosse apenas parte do antigo pacto judaico da Lei, que eu sabia fora cancelado com a vinda de Jesus Cristo. No entanto, quando li o inteiro capítulo 15 do livro de Atos, na Bíblia, tudo que pude dizer foi: “Bem, eu serei uma delas!” Naturalmente, durante anos eu já sabia dos perigos das transfusões de sangue — as reações hemolíticas, os perigos de sangue incompatível, etc. Também sabia sobre as transfusões de sangue desnecessárias que eu tinha dado em nosso hospital, e tinha testemunhado os casos de hepatite resultantes do sangue contaminado.
Modo de Vida Mudado
Após terminar de ler aquele folheto, desejei conversar com a senhora que estudava a Bíblia com minha esposa para verificar se poderia mesmo ser perdoado por Deus por todas as coisas ruins que fizera. Com o tempo, tanto eu como minha esposa começamos a assistir juntos ao estudo bíblico dela, e pedíamos a todos os nossos amigos que viessem. Às vezes, tínhamos uma sala repleta de pessoas quando chegava a dirigente de nosso estudo. Seis meses depois que comecei a estudar, eu e minha esposa simbolizamos nossa dedicação a Jeová Deus por nos submetermos ao batismo em água. Nossos três filhos ficavam-nos admirando, partilhando conosco de nossa felicidade recém-adquirida.
Já se passaram 19 anos desde que iniciei minha carreira de médico, e Jeová trouxe alegria e paz íntimas às nossas vidas. Na verdade, meus colegas no hospital criaram dificuldades quando descobriram que eu me tornara uma Testemunha. Mas sua atitude, em geral, transformou-se em uma de respeito, muito embora eu não dê transfusões de sangue. Uma das minhas maiores alegrias foi descobrir que o cirurgião com quem comecei a exercer a medicina, mas que não tinha visto por vários anos, também se tornara Testemunha de Jeová e realizava grandes cirurgias sem sangue.
Atualmente, somos uma família unida, servindo ao Deus verdadeiro, Jeová, e pregando seu vindouro governo mundial. Sou ancião em nossa congregação cristã e sinto-me feliz agora, com as coisas mais importantes da vida espiritual. Nosso coração está repleto de gratidão a Jeová Deus por todas as suas bênçãos. Verificamos que o único sangue que é salvador de vidas é, no sentido mais pleno, o sangue do sacrifício de resgate de Cristo Jesus, pois somente este nos pode dar vida eterna. (Efé. 1:7) — Contribuído.
“Pois a alma da carne está no sangue, e eu mesmo o pus para vós sobre o altar para fazer expiação pelas vossas almas, porque é o sangue que faz expiação pela alma nele.” — Lev. 17:11.
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