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‘Menina escondida’ escapa de tratamento indesejadoDespertai! — 1981 | 8 de maio
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‘Menina escondida’ escapa de tratamento indesejado
Do correspondente de “Despertai!” no Canadá
QUANDO a febre de Amy, de dois anos, não baixava, seus pais, preocupados, decidiram levá-la ao médico da família. O que começou assim, como consulta de rotina, logo explodiu num episódio bizarro, que fez com que a pequena Amy fosse inacreditavelmente declarada fugitiva e alvo de frenética perseguição internacional.
Sua febre foi, provavelmente, causada pela esferocitose, uma anomalia do sangue, que pode impedir o crescimento ou as atividades, dependendo de sua gravidade.
Amy já se recuperava da febre quando os seus pais, Robert e Sherry Bryant, fizeram a consulta, em 25 de janeiro de 1980. Seu médico de família, em Owen Sound, Ontário, Canadá, procurou ouvir também um pediatra local.
Esta não era, entretanto, a primeira vez que ela estava nas mãos deste pediatra. Quando Amy tinha apenas três dias, foi-lhe imposta uma transfusão de troca de sangue, por este mesmo pediatra. Ele usara uma ordem judicial obtida sob os auspícios da Lei de Proteção ao Menor, de Ontário, para tratar a icterícia da recém-nascida com transfusões de sangue de troca, embora existam tratamentos alternativos para o mal que a acometia.
Seus pais, que são Testemunhas de Jeová, haviam objetado porque a terapia com sangue viola o mandamento ‘abster-se do sangue’, dado por Deus. (Atos 15:20) O pediatra ignorou o protesto dos pais.
Robert e Sherry Bryant estavam decididos a não permitir que o sangue fosse de novo imposto à sua filha.
Contudo, de novo, o mesmo pediatra começou a insistir imediatamente numa transfusão de sangue e disse que, se o estado dela não melhorasse logo, ele obteria uma ordem judicial para impor uma transfusão de sangue. O pai de Amy conseguiu que o médico desse um tempo, de modo que os pais pudessem procurar um tratamento médico alternativo no Hospital Infantil em Toronto. O médico replicou que comunicaria o caso ao hospital em Toronto. Ao mesmo tempo, preveniu aos pais que aquele hospital também poderia mandar dar uma transfusão de sangue à criança.
O estado de Amy continuava a melhorar. Seus pais decidiram que a ida ao hospital de Toronto, afinal de contas, não era mais necessária — uma decisão que eles, como pais responsáveis, tinham o direito de tomar.
Porém, quando o pediatra ficou sabendo que Amy não tinha aparecido no hospital de Toronto, acionou a Sociedade de Proteção à Criança, de Ontário, para apoderar-se da garotinha e obter uma ordem judicial a fim de impor-lhe transfusões de sangue.
Evitando Tratamento Indesejado
Os pais de Amy, exercendo seus direitos parentais, tiraram-na de circulação, a fim de que não lhe fosse imposto algum tratamento indesejado. Contudo, devido à ação arbitrária do médico, negou-se-lhes o direito de procurar abertamente outro parecer médico. Se aparecessem em público, Amy seria arrancada de sua custódia e sujeita a uma transfusão forçada.
Sem sequer uma audiência preliminar, um juiz da vara de família concedeu um mandado à polícia e à Sociedade de Proteção à Criança, para a apreensão de Amy. No dia 30 de janeiro, do ano passado, as manchetes nos jornais explodiam: “Menina de Dois Anos, Desaparecida, Pode Morrer se Não Tomar Transfusão de Sangue.” As reportagens continham a funesta predição dos pediatras, dizendo que Amy poderia morrer no decurso de 3 a 5 dias, se não tomasse uma transfusão de sangue!
O mandado para a apreensão de Amy foi emitido de ponta a ponta no Canadá, até às regiões ao longo da fronteira com os Estados Unidos. Os jornais disseram que a polícia do estado de Nova Iorque colaborara na “Busca Desesperada da Menina Escondida”.
Enquanto a polícia, os funcionários da Sociedade de Proteção à Criança e os repórteres se barafustavam na frenética busca, a vida da família de Amy foi radicalmente transtornada. O pai dela deixou o serviço, a fim de protegê-la, sem garantia de que o seu emprego estaria à sua espera quando este drama tivesse acabado. Amy e seus pais tiveram que sair de casa, e ficar isolados de seus parentes e amigos íntimos. Durante todo o tempo, seus pais obtiveram assistência médica e deixaram Amy vicejando em amor, repouso e saudável dieta.
Às vezes, Amy imaginava que estava de férias. Mas não eram férias para seus pais!
Prática Médica Desonesta?
Após 10 dias, a polícia informou que as buscas nos lares dos amigos dos Bryant, “não levou a nenhuma pista”. Os repórteres acompanhavam o enredo como se fossem detetives na pista de um criminoso.
Mas, daí, a história tomou um rumo inesperado. Poucos dias após a emissão da ordem judicial, os médicos e funcionários que promoviam a apreensão de Amy admitiram que “existe um tratamento alternativo” — algo que não revelaram senão depois que a família fugiu diante da ameaça que pairava sobre sua filha.
Começaram as contradições. Poderia Amy, afinal de contas, viver sem uma transfusão de sangue?
Em 5 de fevereiro, o Star, de Toronto, citou o Dr. Peter McClure, hematologista-chefe no Hospital Infantil, como tendo dito que esperava que Amy pudesse ter uma “recuperação natural”, sem transfusões de sangue. Em 6 de fevereiro, o mesmo jornal afirmou que o Dr. McClure dissera que a maioria dos pacientes com esferocitose poderiam recuperar-se por si mesmos, sem a ajuda de transfusões.
Foram certos médicos e funcionários públicos um tanto desonestos a respeito do caso de Amy?
Os médicos, agora, discordavam a respeito do problema dela, na imprensa pública! Certamente, era tempo de suspender a caçada e permitir que os pais de Amy procurassem tratamento alternativo, se, na realidade, ela afinal de contas necessitava de tratamento médico.
Além disso, o advogado da família assegurava a todo mundo que Amy estava “muito bem” e “apresentava sensível melhora”. Nada disto, porém, satisfazia os funcionários da Sociedade de Proteção à Criança, que se recusaram a suspender a ‘caça à criancinha’.
A esta altura, os pais de Amy estavam cansados de se esconderem e aborrecidos por serem desnecessariamente molestados. Assim, em 8 de fevereiro, seu advogado libertou fotos de uma Amy radiantemente saudável, sorrindo e alegremente enrolada em sua roupa de esportes de inverno.
Desta vez o Star, de Toronto, trouxe a manchete: “Amy está ótima, diz o advogado.”
As autoridades, ainda assim, não queriam suspender a caçada. Com a emissão da ordem para apreensão de Amy, seus pais sabiam que, se saíssem do esconderijo, mesmo que fosse para providenciar que um médico publicamente atestasse seu bom estado de saúde, correriam o risco de vê-la apreendida pela polícia e pela Sociedade de Proteção à Criança.
Em 12 de fevereiro, os pais de Amy convocaram repórteres e fotógrafos de dois jornais de Toronto a uma casa onde eles “brevemente a trouxeram, tirando-a hoje do esconderijo, numa tentativa de provar que ela está bem”.
As notícias correram o país: “Amy fora do esconderijo para provar que pode viver sem transfusões.” A fotografia de Amy apareceu em vários jornais — uma bela menininha com um olhar levemente irônico. Ela e sua aventura, muitas vezes, foram manchete de primeira página.
O Star, de Toronto, disse que ela ficava andando pelo apartamento, enquanto seus pais convidavam um repórter e um fotógrafo para admirar o seu vigor. Sua temperatura, aparência e energia voltaram ao normal.
“No dia em que supostamente morreria (há cerca de duas semanas) ela estava saudável como nunca esteve, por semanas antes”, disse o pai dela.
Apesar de tudo, conforme noticiou o Star de Toronto no dia seguinte: “A pequena Amy Bryant ainda é uma fugitiva.” Com Amy agora em sua terceira semana de esconderijo protetor, a Sociedade de Proteção à Criança estava na embaraçosa situação de se apegar obstinadamente a uma ordem emitida sobre a falsa afirmação de que Amy morreria, sem transfusão de sangue.
A “caça à menina escondida” converteu-se num feitiço contra o feiticeiro. Conforme o advogado de Amy disse, na imprensa: “Isto é perseguição religiosa sob o manto de cuidado infantil. [As autoridades] só fizeram isto [emitir a ordem] porque eles [os pais] são Testemunhas de Jeová.”
Finalmente, a polícia e as autoridades da Sociedade de Proteção à Criança estavam dispostas a conceder uma trégua. Prosseguirem numa grande busca de uma criança publicamente conhecida como estando com boa saúde estava fazendo com que os apreensores se parecessem um tanto ridículos.
Um pediatra de Toronto examinou Amy e comunicou não haver “nada de anormal nela”. “Ela está fora de perigo e não há crise.” O boletim do médico foi divulgado publicamente e a ordem para a apreensão de Amy foi cancelada.
Uma vez mais as notícias soaram através do Canadá: “A pequena Amy emerge do frio.” “Amy ‘fora de perigo’, terminam as buscas.”
Era o dia 14 de fevereiro. Faltando um dia para completar três semanas, Amy regressava ao lar. Enquanto os Bryant normalizavam de novo a vida, a imprensa e outros refletiam sobre a terrível injustiça sofrida por uma família responsável e amorosa, e sua inocente garotinha.
Por Que Aconteceu?
Em 25 de fevereiro, foi enviado aos meios de comunicação no Canadá um sumário feito pela [Agência Noticiosa] Canadian Press junto com uma fotografia de Amy, de olhos radiantes, calorosamente abraçando seus pais felizes. O Record de Kitchener-Waterloo deu ao sumário a seguinte manchete: “Médicos Especialistas Questionam as Transfusões Depois que a Menina Escondida Sobrevive.”
Esta reportagem baseou-se num artigo que apareceu num dia anterior no Star de Toronto. O título foi: “Cirurgia sem sangue: Uma tendência contra as transfusões.” O artigo no Star perguntava: “Será que as Testemunhas de Jeová realmente põem em risco sua vida e a de seus filhos por recusarem transfusões de sangue? Há crescente evidência de que não estão correndo um risco tão grande como a sociedade e os médicos presumem.” Em seguida citou médicos de Toronto, Nova Iorque, Chicago, Michigan e Califórnia para provar seu argumento.
A reportagem confirmou o que o pai de Amy sempre dissera: “Pelo que sabemos, o sangue é um mau remédio. . . . Não é o que o Criador recomenda, e muitos especialistas médicos também questionam seu uso.”
Se os médicos, a Sociedade de Proteção à Criança e a Lei de Proteção ao Menor, de Ontário, embora bem intencionados, tivessem apenas respeitado a posição esclarecida dos Bryant desde o início, a lamentável perseguição de três semanas jamais teria ocorrido. Pelo contrário, os médicos e autoridades trataram com desdém a autoridade parental e recorreram a uma lei provincial que prejudica o direito dos pais que discordam de um conceito médico popular. Porque os pais não concordaram com um único médico — numa consulta particular — sua filha foi declarada como necessitando de “proteção”, por um juiz que emitiu uma ordem sem uma audiência de instrução.
Felizmente, a pequena Amy não foi prejudicada, ilustrando que, os conceitos médicos, embora sustentados com sinceridade, não deveriam ser usados como base para táticas intimidadoras na tentativa de usurpar a autoridade parental sobre uma menininha de dois anos!
O advogado de Amy acusou: “Quando os médicos exercem a lei, e os juízes exercem a medicina, não pode dar outra coisa senão problemas.” O inteiro episódio infeliz poderia ter sido evitado se os envolvidos tivessem acatado o conselho equilibrado do falecido Dr. A. D. Kelly, ex-secretário da Associação Médica Canadense:
“Os pacientes e os pais têm todo o direito de aceitar ou rejeitar o tratamento prescrito. Médico algum pode ter certeza de que certa pessoa morrerá se não receber uma transfusão ou viverá, se a receber. . . . O princípio é importante, relacionado à liberdade dos cidadãos. A mesma coisa se aplica a qualquer outro tratamento médico, quer seja certo quer errado, as pessoas têm o direito de decidir.”
“As pessoas têm o direito de decidir!” Quão veraz, especialmente quando o exercício parental de tal direito baseia-se na lei perfeita de Deus! — Atos 15:28, 29; Sal. 19:7, 9.
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Por que um verme?Despertai! — 1981 | 8 de maio
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Por que um verme?
◆Em Isaías 41:14 lemos o encorajamento de Jeová Deus a Israel: “Não tenhas medo, ó verme Jacó, homens de Israel. Eu mesmo te ajudarei.” Serem eles comparados a um verme não visava rebaixar o povo. Antes, isto chamou atenção ao fato de que Israel era semelhante a uma criatura inferior, indefesa, minúscula, tanto aos seus próprios olhos como aos de seus inimigos. (Sal. 22:6) Quão confortadora e reanimadora era, pois, a promessa de Deus de socorrer o seu povo!
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