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Apegamo-nos às nossas crençasDespertai! — 1979 | 8 de novembro
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Sua taxa de plaquetas era de somente 4.000 por milímetro cúbico; a normal é de 200.000 a 400.000 por milímetro cúbico. Um espirro ou até mesmo chorar podia levá-lo a sangrar até morrer.
Pouco antes de Bryan ser liberado, começou a sangrar pelo seu trato gastrintestinal. Alarmados, os médicos o mantiveram lá para mais observações e tratamento. Visto não haver lugar para eu ficar com ele no hospital, eu sempre me certificava de que ele estava dormindo, antes de sair do hospital. As enfermeiras eram ótimas. Cuidaram muito bem dele; até mesmo me permitiam levá-lo para outro aposento, de modo que pudesse acalentá-lo até que dormia, antes de deixá-lo.
Outra Tragédia
A terça-feira, 19 de julho, começou como qualquer outro dia normal de trabalho. Bryan estava então em casa. Gary saíra cedo para o trabalho. Daí, às 16 horas, recebi um telefonema. “Gary foi acidentado”, a voz me dizia. “Mas, não fique nervosa! Ele quebrou uma perna. É melhor apressar-se e ir à sala de emergência!”
Entrando pelas grandes portas de vaivém da sala de emergência, identifiquei-me junto à funcionária, perguntando sobre o estado de Gary. Ouviu-se grande clamor, seguido por outro, e ainda um terceiro. Meu coração pulou. “Eram de meu marido?” perguntei. “Sim”, respondeu a funcionária.
“Quão grave é sua situação?”, exigi saber.
“Bem grave”, ela respondeu sobriamente. Soube que ele sofrera grave escoriação na cabeça, estava com hemorragia interna e fraturas múltiplas.
“Ele vai precisar duma transfusão de sangue. De outra forma, morrerá”, disse-me o médico de plantão. Por um instante, fiquei atônita diante das notícias, sem poder responder. Daí, senti aquela sensação familiar de esmorecimento. Lutando contra o impulso de ceder ao pânico, disse ao médico: “Não lhe dê sangue.” Ele protestou. Novamente eu lhe disse: “Não posso fazer nada; não lhe dê sangue.” Ele deu de ombros, virou as costas e começou a afastar-se.
“Posso ver Gary?”, supliquei-lhe.
“Não, não pode”, respondeu.
“Veja bem”, argumentei. “Perdi uma filha. Estou prestes a perder meu filho. Acho que posso suportar estar com meu marido!” Ele me concedeu isso.
Gary estava deitado numa mesa, sob fortes luzes da sala de cirurgia. Por alguns segundos incríveis, eu apenas o contemplei, estupefata. Estava deitado de costas, apenas de cuecas. Sua perna esquerda estava aberta em dois lugares, abaixo do joelho e acima dele. Seu rosto estava terrivelmente inchado e sujo. Havia profundo ferimento no septo nasal, aparentemente causado pelos seus óculos para o sol, que lhe arrancaram a carne, quando seu rosto bateu no chão. E havia um buraco profundo, aberto, no cocuruto de sua cabeça, expondo uma camada rósea de tecido perto do crânio.
Olhando para o médico, pude ver que ele se sentia obviamente alarmado. Disse que iriam transferir Gary de helicóptero para o Centro Médico do Condado-U. S. C., na parte oriental de Los Angeles. Fez-se tal arranjo. Sufocando meu medo das alturas, subi na aeronave grande, do tipo militar, junto com Gary. O vôo levou apenas cinco minutos. Gary foi então levado numa maca para uma enfermaria onde outras vítimas de acidentes aguardavam tratamento.
A principal preocupação era se Gary havia rompido uma artéria interna. Caso o tivesse feito, sangraria até morrer. Um teste de diagnóstico para determinar se tinha ou não foi realizado. Por fim, um dos médicos anunciou que não tinham encontrado nenhuma artéria rompida, e que as coisas pareciam boas. Seus sinais vitais — os batimentos e o ritmo cardíacos, a pressão sangüínea e a temperatura — se haviam estabilizado, embora seu hematócrito (porcentagem de hemácias no sangue circulante) tivesse baixado para 25; o normal está na faixa de 40 a 65.
Por volta das 11,30 horas da manhã seguinte, Gary foi conduzido à sala de neurocirurgia. O cirurgião explicou o que lhe foi feito: Deram pontos no ferimento da cabeça de Gary, limparam a sujeira e as partículas de asfalto que se tinham alojado nos ferimentos abertos de sua perna, inseriram três pinos de aço inoxidável para dar apoio à tração, e então suturaram a pele. Depois disso, sua perna foi colocada num molde e submetida à tração.
Crise de Esgotar os Nervos
Na sexta-feira, 22 de julho, deixei Gary, depois de ter ficado a seu lado o dia inteiro. Seu quadro clínico era quase o mesmo — estável, porém muito grave. Pondo Dana, Adam e Bryan para dormir, fui dormir por volta das 23,30 horas. No que me pareceu serem apenas alguns minutos depois, o toque amedrontador do telefone me acordou. Com o pulso disparando, saltei da cama. Erguendo o fone, ouvi a voz neutra dum médico me dizendo que Gary havia piorado e que não iria passar daquela noite. “Oh, não!” retruquei, estarrecida. A mesma sensação nauseante se espalhou dentro de mim.
A ida de carro até o hospital, junto com amigos, levou 30 minutos. Senti enormes pressões acumularem-se dentro de mim. Se dessem sangue a Gary, ele poderia sobreviver; caso não dessem, ele morreria — tudo parecia ser tão simples assim. Por que morrer e me deixar enlutada com três meninos? Por quê? Compreendi que seria difícil algumas pessoas compreenderem isso. Mas para mim a lei de Deus sobre o sangue é bem clara. “Sangue — não deveis comer”, Deus disse a Noé e sua descendência. (Gên. 9:4) E mostrando que tal lei ainda se aplicava aos cristãos, o primitivo concílio da igreja cristã em Jerusalém decretou: “Pareceu bem ao espírito santo e a nós mesmos não vos acrescentar nenhum fardo adicional, exceto as seguintes coisas necessárias: de vos absterdes de coisas sacrificadas a ídolos, e de sangue, e de coisas estranguladas, e de fornicação.” — Atos 15:28, 29.
Quando chegamos ao hospital, corri para o quarto de Gary. Aproximando-me da cama dele, vi uma máscara de oxigênio que lhe cobria o nariz e a boca. Ele estava branco como cera e fraco, por causa de sua reserva reduzida de sangue. Seu fôlego estava curto e sua voz fraquíssima e fina. Acima dele estavam pendurados dois frascos de solução IV, contendo sais minerais e água, e outros ingredientes para substituir os fluidos do corpo. As nítidas sondas desciam até a cama e sobre ambos os antebraços dele, onde estavam presas seguramente com esparadrapo. Ele conseguiu dizer algumas palavras, com muito esforço, daí, fechou os olhos.
Questão de Integridade
Eu lhe perguntei: “Gary, está seguro de que é isso mesmo que deseja?” Eu queria saber se ele estava mentalmente alerta o bastante para saber o que escolhia. Ele respondeu: “Isso é tudo que temos, Jan . . . é tudo que temos.” Embora eu ficasse assolada de pesar, a resposta clara e coerente dele me deu forças renovadas. Ele não parecia ligar muito por estar morrendo; mas era positivo no sentido de que não queria violar a lei de Jeová sobre o sangue.
Um dos médicos de plantão chegou até Gary. Ele falou num tom preocupado de voz, dizendo: “Gary, o Sr. está morrendo. O que lhe faz pensar que está certo, quando toda outra religião no mundo não crê da forma que o Sr. crê? Não podem estar todas erradas. Têm de estar certas. Sei, no fundo do meu coração, que se tomar sangue, Deus o perdoará.”
Reunindo suas últimas reservas de força, Gary falou. “A maioria nem sempre está certa”, ele disse com ênfase. “Lembra-se do Elias da Bíblia?”, continuou. “A inteira nação de Israel se desviara de Deus. Não estavam certos. Apenas um único homem, Elias, que pensou estar sozinho, embora houvesse outros que eram fiéis, sabia que estava certo.”
Exausto, Gary concluiu. Com debilidade, procurou alcançar o médico e, com punho cerrado, deu-lhe um soquinho no braço e lhe disse: “Eu o verei pela manhã.”
Gary sofria hemorragia interna. Para reduzir a hemorragia, adicionou-se vitamina K à sua solução IV. Por fim, nas primeiras horas logo de manhã cedo, seus sinais vitais se estabilizaram. Apegou-se por um fio à sua vida, tendo apenas um quarto das reservas sangüíneas. Eu me sentei ali, junto à cama de Gary, por longo tempo, atônita e temerosa. Conversei com Jeová em oração como se conversaria com um pai bondoso. Quanto tempo me demorei em oração e em pensamentos íntimos, não sei dizer. Mas pareceu-me uma manhã inteira, até que fui interrompida pela enfermeira que entrou no quarto para fazer seu exame de rotina.
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Novo tratamento salva vidasDespertai! — 1979 | 8 de novembro
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Novo tratamento salva vidas
SAINDO do quarto de Gary por alguns minutos, deparei com dois de nossos irmãos cristãos da congregação, sentados na sala de espera. Aproximaram-se, um deles segurando na mão uma cópia fotostática duma página da revista A Sentinela, em inglês. Depois de breve troca de saudações, ele ma deu. Era “Por Dentro das Notícias”, do número, em inglês, de 1.º de setembro de 1974 (edição de 15 de outubro de 1974, p. 627, em português).
Ao lê-la, nítido raio de esperança entrou em meu coração. A notícia citada falava de nova técnica para auxiliar os pacientes com grande perda de volume sangüíneo. O tratamento é chamado de “oxigênio hiperbárico”.
Confronto Decisivo
Foi por volta das 11,30 horas que o chefe de cirurgia do hospital apareceu no corredor. Ele nos chamou ao seu gabinete com a observação: “Vamos resolver esta questão de uma vez para sempre.”
Era um gabinete pequeno, que se tornava ainda menor com três médicos, eu mesma e dois dos meus amigos apinhados dentro dele. Podia ver que os médicos estavam cansados, presumia eu, por terem dedicado tantas horas ao seu trabalho e por se verem confrontados com tantos problemas difíceis. A restrição, no caso de Gary, de não se lhe dar sangue, parecia aumentar a carga deles. Eu podia compreender isto.
“Tenho conversado com meus médicos e eles estão aborrecidos”, declarou o chefe da cirurgia. “Mais do que aborrecidos, estamos irados! Temos um homem jovem que podemos salvar, mas os princípios segundo os quais vocês vivem e o incentivam a viver tornam quase que impossível ajudá-lo.”
Enfiando ruidosamente várias chapas de raios X da perna quebrada de Gary sob os clipes que as seguravam na tela luminosa de observação, situada em uma das paredes, apontou as fraturas múltiplas na perna de Gary. Pareciam a parte quebrada, pontuda e serrilhada, dum lápis. Uma mostrava vividamente um osso exposto através da carne.
“É contra isso que lutamos”, disse ele, apontando, em rápida sucessão, para cada uma das fraturas indicadas pelas chapas de raios X. “Gary precisa de pinos aqui, aqui e aqui, e, em cada caso, a operação exige sangue.” Vez após vez, continuava repetindo: “Estou muito irado!” Eu me sentia terrivelmente amedrontada, sabendo ser o alvo principal de sua indignação. Curvei a cabeça e comecei a chorar.
“Eu também sou cristão”, declarou o chefe da cirurgia. “Não vejo nada de errado em se tomar transfusões de sangue. Mesmo se isso fosse errado, Deus a perdoaria.” Mudando de tática, disse: “Se não tentar fazer com que Gary aceite sangue, isso será o mesmo que assassiná-lo. Qualquer pessoa que realmente se interesse por ele [eu sabia que seus olhos provavelmente estavam fixos em mim] tentará influenciar Gary a aceitar sangue.” Trocando de posição novamente, ele, com jeitinho, apelou para minha vontade, dizendo: “Se ele tomar realmente sangue, poderá sair daqui e estar em casa, com a senhora, e os filhos, e, por fim, voltar ao seu trabalho. O sangue é a única solução.
“Este homem está morrendo, e podemos salvá-lo, mas a senhora está atando nossas mãos. Já sentiu alguma vez alguém morrer em suas mãos e não poder salvá-lo?”, prosseguiu. Interrompendo-o, eu disse brandamente: “Sim, já tive uma filha.” Minha declaração deve tê-lo apanhado desprevenido, porque parou de falar. A pausa desajeitada foi interrompida quando ele declarou: “Muito bem, quero que todo mundo saia. Saiam e pensem naquilo que este homem tem de sofrer.”
Mudança de Atitude
Ao me levantar para sair, virei-me para ele e pedi-lhe: “Posso lhe falar um instante?” Todos pararam e se viraram para mim. “A sós”, concluí. “OK, todo o mundo saia”, berrou ele.
Quando todo o mundo tinha saído, senti de imediato uma mudança em seu porte. Parecia amainado. Travando uma conversinha amigável, perguntou como eu me tornara Testemunha de Jeová, e perguntou sobre minha filha. Daí, perguntou minha idade. “Vinte e seis”, disse-lhe eu. Para minha surpresa, ele respondeu: “Minha filha, você é tão jovem para passar por tudo isso.”
Fiquei atônita diante de sua transformação. Perguntei-lhe se tinha mente aberta. Ele disse que tinha. Eu queria que ele se definisse antes de lhe dar o relatório da Sentinela sobre o tratamento hiperbárico. Ao devolvê-lo a mim, perguntei: “Acha que poderia dar certo?”
“Bem, não sei”, respondeu. “Nessa altura, vale a pena tentar qualquer coisa.”
“Poderia enviá-lo para outro lugar”, supliquei-lhe.
“Oh, não”, disse ele. “Não vou fazer isso; terá de fazer isto sozinha. Poderá telefonar para a base naval.”
“O que devo dizer? A quem devo telefonar?”, perguntei.
“Terá simplesmente de telefonar para lá e perguntar quem é o encarregado do tratamento hiperbárico e simplesmente lhe contar o caso.” Nisso ele rapidamente se inclinou para a frente, alcançando o telefone sobre sua mesa. Começou a falar com alguém — alguém a quem conhecia pelo primeiro nome. Relatando toda a minha experiência, atuou como se realmente desejasse ajudar-me. Colocando de novo o fone no gancho, disse: “Tudo está arranjado.” Gary seria transferido para o Hospital Memorial de Long Beach.
É provável que, devido à atuação decisiva do chefe de cirurgia, os preparativos para enviar Gary para lá tenham sido feitos de forma surpreendentemente rápida. Ao aprontá-lo para o trajeto, contudo, um dos médicos afirmou sobre o tratamento hiperbárico: “Isso de nada valerá.” Embora falasse brandamente, sua voz mostrava furor, ao sublinhar: “Ele precisa de sangue para curar suas feridas.” Isto me desanimou. Mas, sem perda de tempo, Gary foi levado numa maca para uma ambulância que o aguardava. Um médico nos acompanhou por todo o trajeto.
Reavivadas Minhas Esperanças
Por fim, vi surgir à vista enorme hospital ultramoderno. Havia atendentes à sua espera. Levaram Gary de maca até o sétimo pavimento, a um pequeno quarto particular no Centro de Tratamento Intensivo. Aproximando-se de mim, uma enfermeira explicou que eu deveria ficar do lado de fora, até que os médicos terminassem seu exame. Eu fui a um lavatório, alguns andares abaixo, para me lavar um pouco. Ali pausei para orar pedindo coragem e forças. Tinham-se passado umas 18 horas desde que eu acordara com aquele telefonema atemorizante, na noite anterior.
Consegui ir-me arrastando de novo até o quarto de Gary. Quando entrei, os dois médicos ainda estavam lá. Por um instante, esqueci que estava levando o artigo sobre o tratamento hiperbárico. Indo até o médico mais perto de mim, entreguei-o a ele. Era um senhor alto, ligeiramente gordo, com ombros largos e cabelos negros ondulados, penteados para trás. Ele o recebeu e começou a lê-lo. Quando terminou, murmurou de forma tipicamente médica: “Ah, ha.” Impaciente à espera de sua opinião, perguntei-lhe: “Já ouviu falar neste tratamento?”
“Oh, sim”, respondeu um tanto indiferente. “Eu escrevi esse artigo.” (Tratava-se do artigo publicado no Journal of the American Medical Association, de 20 de maio de 1974, citado em A Sentinela.) Senti meu rosto ruborizar-se, enquanto que uma mistura de embaraço e extrema alegria tomava conta de mim. Ao continuar a falar, descrevendo o tratamento, elevou-se minha baixa disposição de espírito.
Eu queria ser otimista, mas ainda nutria dúvidas. Repeti-lhe os comentários do médico, pouco antes de deixarmos o hospital universitário. “Essa era a opinião dele”, expliquei-lhe, “de que o tratamento não daria certo, e, mesmo que desse, Gary ainda não se curaria direito, porque precisava de sangue total”. Fitando-me diretamente nos olhos, balançou a cabeça, compreensivamente, e declarou de modo filosófico: “Alguns homens só falam em sua ignorância.” Satisfeita e tranqüilizada, eu agora cria que as probabilidades estavam a favor de Gary.
O Tratamento Pelo Oxigênio Hiperbárico
O que a oxigenoterapia hiperbárica faz é submeter o corpo inteiro a 100 por cento de oxigênio sob pressão maior que a atmosférica, que é de aproximadamente 1 quilograma por centímetro quadrado, ao nível do mar. A pressão aumentada dissolve o oxigênio nos tecidos e fluidos do corpo em concentrações muito acima do normal. O aparelho usado é um tanque ou câmara cilíndrica de pesada construção metálica, dotada de grossa cúpula de vidro que habilita o paciente a ver as pessoas do lado de fora e ser visto lá dentro. A porta da câmara, incomumente grossa, circular, assemelha-se à porta dum cofre bancário. A comunicação só é possível por meio de um sistema de intercomunicação.
Inicia-se lentamente a compressão, e ela aumenta gradualmente até atingir o nível prescrito. A sensação nos tímpanos é similar à que se tem quando se dirige um veículo ao subir e descer uma montanha. Nos primeiros dias, Gary recebeu tal tratamento a cada seis horas, ininterruptamente. Ao terminar cada tratamento, sentia revigorante estímulo.
Ao retornar da Câmara Hiperbárica às 20 horas do quarto dia, a enfermeira, como era usual, examinou o hematócrito de Gary. Os resultados geraram certa excitação — o valor do hematócrito tinha aumentado 10 por cento no total — passando de 10 para 11. Embora ainda fosse perigosamente baixo, as notícias tiveram um efeito eufórico sobre nós. Já no oitavo dia de tratamento, seu hematócrito era de 19, suficientemente alto para que fosse transferido do Centro de Tratamento Intensivo para a ala de isolamento.
Inequívoca evidência da saúde melhorada de Gary ocorreu certa manhã, quando ele acordou. “Sente vontade de comer seu desjejum esta manhã?”, perguntei-lhe alegremente. Desde o acidente, ele não conseguia reter nenhum alimento no estômago. Eu pulei da cadeira, que usava como cama, quando ele disse: “Sinto sim, acho que sim.”
“Muito bem”, disse eu, muito excitada. Seu gosto pela comida, que se renovava, era prova adicional de que ele iria sobreviver. Contrário ao conceito médico popular, ele havia sobrevivido sem sangue, e, ao mesmo tempo, tinha evitado as complicações, às vezes fatais, que não raro surgem quando são dadas transfusões de sangue. Mas, naturalmente, o motivo de ele recusar o sangue era a lei de Deus para os cristãos: Persisti em “vos absterdes . . . de sangue”. — Atos 15:28, 29.
Outra Crise
Antes de Gary ser removido do Centro de Tratamento Intensivo, Bryan começou a ter febre alta. Sua fontanela ou moleira, a parte macia no alto de sua cabeça, estava inchada, indicando que havia pressão sobre seu cérebro — o primeiro sinal de meningite espinal. Uma onda de horror doentio desceu sobre mim quando a médica que cuidava dele anunciou que ele precisava de uma transfusão de plaquetas sangüíneas. Ela explicou que, visto que sua taxa de plaquetas era tão baixa, a realização da punção espinal apresentava risco de provocar hemorragia, possivelmente levando à paralisia.
Um mandado judicial para tirar de nós a custódia de Bryan fora obtido na primeira vez que o internamos neste hospital. Mas, não lhe foi dado nenhum sangue, porque não havia dose que o ajudasse. Bryan não conseguia produzir devidamente suas próprias plaquetas. Assim, chegamos a um acordo com o médico que tratava de Bryan, que não se lhe ministraria nenhum sangue.
Por fim chegou o médico com o qual havíamos feito tal acordo. Eu lhe expliquei resumidamente o que ocorrera. Ele disse que passaria a realizar a punção espinal sem sangue. Era tão simples assim — não se lhe daria sangue. Todavia, a possibilidade de ter uma hemorragia até morrer e de paralisia ainda existiam. O líquido espinal foi enviado ao laboratório, e soube-se que Bryan tinha meningite por vírus. Suspirei aliviada.
Dramática Inversão
Desde seu primeiro exame de plaquetas, feito no dia que descobrimos sua moléstia, a taxa de Bryan permanecera estática, em 4.000 por milímetro cúbico. Mas, alguns dias depois do seu ataque de meningite, um exame de sangue dele revelou dramática inversão. Com rosto radiante, o médico anunciou: “A taxa de Bryan subiu um pouquinho.”
“Subiu?”, interrompi eu.
“Sim”, continuou ele. “Subiu para 25.000.”
Terrivelmente excitada, eu queria crer que Bryan sobreviveria. Mas tínhamos perdido as esperanças porque nos fora dito que poucos haviam sobrevivido a esta doença, pelo menos segundo o conhecimento do médico. Mal me podia conter, ao contar a Gary as boas novas sobre a taxa crescente de plaquetas de Bryan. “Isso ainda não é
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