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Câncer — como pode mostrar seu apoio?Despertai! — 1986 | 22 de outubro
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Câncer — como pode mostrar seu apoio?
“No âmago de qualquer exercício da clínica médica acha-se a necessidade de o médico transmitir um sentimento de empatia e ajudar o [a] paciente a compreender a doença dele, ou dela.” — Holistic Medicine.
CUIDAR de pacientes com câncer é um grande desafio, em especial para a equipe médica que tem contato direto com o paciente. Acham-se divididos entre duas alternativas difíceis — a necessidade de mostrarem empatia e transmitirem otimismo, e, ao mesmo tempo, a necessidade de evitarem um enfoque subjetivo e sentimental do doente. O que significa isto, na prática?
Médicos e enfermeiras que lidam constantemente com pacientes com câncer não se podem permitir sofrer com cada paciente, de outra forma, eles teriam uma taxa elevadíssima de desgaste emocional. Despertai! perguntou a um anterior farmacêutico hospitalar sobre este fator. Ele declarou: “Tive de lidar com todo tipo de médicos e de especialistas no hospital. Aqueles que sempre pareciam abatidos ou deprimidos eram os cancerologistas.”
Ao mesmo tempo, a equipe médica não pode ser apenas impessoal e asséptica, pois os pacientes se voltam para ela em busca de esperança. Como Maurice Finkel escreveu em Fresh Hope in Cancer (Novas Esperanças Quanto ao Câncer): “Acima de tudo, o que um paciente com câncer precisa é de esperança. A esperança que lhe forneça a energia para lutar contra sua doença — mesmo que sua luta fracasse. . . . Quem desiste sempre morre, o lutador tem chance de sobreviver.”
O papel do médico é delicado, como andar numa corda bamba. Tem de avaliar quantas informações sobre a doença ajudarão o paciente a combatê-la. Se falar demais, será que o paciente cairá no derrotismo? Estes fatores também variam de uma cultura para outra.
Despertai! entrevistou Tomoyoshi Hirano, do Japão, que recentemente perdeu seus sogros, vítimas de câncer. Explicou ele: “Nossa cultura nipônica tende para não expressarmos fatos desagradáveis. O médico não queria dizer a meu sogro que este tinha câncer. Com efeito, ele nem sequer queria contar às filhas dele. Somente estava disposto a me contar, ‘alguém de fora’, os fatos duros sobre o caso. Eu deveria fazer todas as decisões sem informar sequer à minha esposa, ou ao pai dela. No entanto, achei que, como cristão, tinha o dever de contar a verdade, com tato, e não esconder os fatos.”
Por outro lado, na cultura ocidental, se o médico não esclarecer a situação de forma suficiente, será que mais tarde será incriminado porque o paciente fez decisões com dados insuficientes? Com efeito, muito dependerá do que o paciente deseja saber, e quando deseja sabê-lo. Como o Dr. Charles F. McKhann expressou-se: “Compreendi que, se as pessoas são capazes de fazer perguntas duras, pelo menos merecem a disposição e a capacidade do seu médico de lhes dar respostas razoáveis.” — The Facts About Cancer.
Por conseguinte, é muito encorajador quando a equipe médica mostra genuína compaixão para com seus pacientes. Isto sublinha a importância de se escolher um médico com o qual se possa ter bom relacionamento. O Dr. McKhann acrescenta: “Um médico em que possa realmente confiar pode tornar tudo mais tolerável. Seu médico devia ser compassivo, compreensivo, e interessado em você como pessoa, e também como paciente.”
Indicando que nem todas as equipes médicas são sempre sensíveis às necessidades do paciente, uma enfermeira especializada em pacientes com câncer escreveu ao jornal The New York Times: “O que mais me surpreende são os pacientes e os familiares que sobrevivem, não ao câncer, mas aos profissionais e às instalações que cuidam da saúde, cuja organização e estrutura parecem destinadas a frustrá-los, deprimi-los e privá-los dos recursos e do apoio cruciais à situação deles.” Ela concluiu sua carta por sugerir que “devemos frisar bem que a sensibilidade, a cortesia comum, o riso e o interesse humano são também ‘armas’ na guerra contra o câncer”.
Outros, tais como os parentes próximos e os amigos, também desempenham vital papel em apoiar o doente. Isto se dá, especialmente, nos casos do marido, da esposa, ou dos filhos dum paciente. Para ilustrar a espécie de apoio que os outros podem dar, Despertai! entrevistou diversos cônjuges apoiadores, e alguns que sobreviveram ao câncer.
“Tive de Mudar de Prioridades”
O papel vital da família apoiadora é ilustrado pelo caso de Terry. Tinha 28 anos quando descobriu, no último dia de 1982, que estava com câncer “disseminado”, em fase terminal. Os médicos lhe deram de 6 a 12 meses de vida. Como foi que ela e Paul, marido dela, enfrentaram essa situação?
Paul explicou a Despertai!: “Achei que tínhamos de encarar a realidade. Ela só tinha alguns meses de vida, e simplesmente queria tornar o seu fim tão dignificante quanto possível. Como sabe, a quimioterapia pode ser mui devastadora, com a perda dos cabelos e constantes náuseas e vômitos.”
Despertai!: Como foi que isto influiu em sua vida, como marido?
“Significou que eu tive de mudar de prioridades na vida. Os bens e o dinheiro tornaram-se menos importantes. Compreendi que, para cuidar dela, teria de ser quase que um enfermeiro por tempo integral. Também aprendi a ser paciente e pôr de lado os embaraços, quando ela passava mal em público ou tinha crises. Felizmente, ela era muito realista e não se consumiu com pena de si mesma. Isso ajudou a tornar mais fácil o meu papel.”
Despertai!: Que outras sugestões gostaria de oferecer aos parentes e aos amigos das vítimas do câncer?
“Jamais deixem que seu ente querido pense que ele ou ela constitui uma carga para você. Demonstre empatia. Aprenda a obter sintonia com os sentimentos deles, de modo que saiba o que dizer e quando. Às vezes, eles querem aliviar-se dessa carga, e, outras vezes, esse é o último assunto sobre o qual gostariam de falar.”
Despertai!: O que foi que ajudou Terry a suportar sua prova?
“Nossas co-Testemunhas nos deram muito apoio em suas visitas e em ajudar-nos nas refeições. Dum ponto de vista mais permanente, seu estudo da Bíblia lhe deu uma clara visão da esperança de ressurreição, e do tempo em que não haverá mais morte nem doenças na Terra.”
Como os médicos haviam predito, Terry morreu em outubro de 1983, antes de se passar um ano.
Qualidade de Vida e Alvos
Quando a pessoa está afligida com uma doença mortífera, surge a pergunta: Quanto tempo ainda viverei? Semanas? Meses? Anos? Nesse ponto, a qualidade de vida se torna mais importante. As consecuções, por menores que sejam, tal como escrever cartas ou ler livros, tornam-se significativas e fazem que valha a pena viver. Ao grau em que for possível alguma atividade, é uma terapia.
Este ponto de vista é apoiado por Bárbara, de 46 anos, da Inglaterra. Em 1980, ela descobriu que tinha câncer na mama. Desde então, este se espalhou a outras partes do corpo. No entanto, a quimioterapia e a radioterapia a têm ajudado. Como consegue ir vivendo? “Verifico que, para mim, é bom ter alvos de curto prazo. Planejo adiante apenas alvos facilmente alcançáveis no futuro próximo. Então verifico que posso ser razoavelmente feliz e contente.
“Tentar pensar nos outros e importar-me com eles por certo me ajuda. Assim, mantenho-me ocupada em enviar cartões para animar outros que talvez não estejam bem. Derivo também prazer de escrever cartas a outros.”
E como é que Stephen, marido dela, a apóia? “Interessar-me real e genuinamente pela situação de Bárbara também a ajuda. Enfrentamos tudo juntos. Por exemplo, embora ambos apreciemos a leitura, achamos bom ler em voz alta um para o outro, e, assim, partilharmos tal experiência.”
Ataque Cardíaco, Seguido de Câncer
Charles, marido de Dode, um homem robusto aos 60 e poucos anos, sofreu maciço ataque cardíaco em 1985. Esteve internado na unidade de terapia intensiva durante nove dias, mas saiu-se dessa experiência com tal determinação que, em questão de seis semanas, tinha retornado ao trabalho. Daí, em setembro desse mesmo ano, começou a ter soluços incontroláveis enquanto comia. Depois de exames, suspeitou-se que ele tivesse câncer no estômago. Foi operado em dezembro. Quatro semanas depois, estava de volta ao trabalho!
Como é que Dode tem apoiado o marido nesses meses difíceis? Ela responde: “Não desperdiçamos tempo e energia nervosa em especulações negativas. Aguardamos os fatos sobre o caso, antes de discuti-los, ou de decidir o que faríamos.
“Aceitando as recomendações de nossos médicos e cirurgião quanto ao tratamento necessário, fomos em frente, com plena confiança. Mantivemos positivas as nossas conversas, e pensamos em termos de cura. Meu marido tem espírito combativo, e eu estava determinada a ajudá-lo.”
Despertai!: Que mais fez para mantê-lo com atitude positiva?
Dode: “Desencorajei ou limitei o número de visitas enquanto ele estava hospitalizado. As visitas tinham de ser marcadas com antecedência e ser breves. Dessa forma, pude evitar pessoas bem-intencionadas que talvez o cansassem. Com efeito, melhor do que as visitas foram as centenas de cartões desejando-lhe melhoras que ele recebeu.”
Despertai!: Sabemos que é enfermeira diplomada e já trabalhou com muitos médicos. Mas, agora, como esposa dum paciente, como acha que os médicos podem demonstrar seu apoio?
Dode: “Como o médico fez em nosso caso, creio que ele deve transmitir um conceito positivo ao paciente. Somente deve dizer-lhe o que ele deseja saber, e de acordo com as perguntas dele. Naturalmente, esperava que os médicos fossem francos comigo. Mas, com meu marido, queria que eles lançassem sementes de esperança, e não de desespero. Assim, a menos que o paciente exija uma resposta, acho que não devemos dizer a alguém que ele, ou ela, somente tem tantos meses de vida. Deixemos que isso dependa do quadro clínico e da determinação do paciente.”
Despertai!: O que a ajuda a lidar com o problema, de dia em dia?
Dode: “Comiseração! O cônjuge apoiador acha-se sob constante stress ao tentar apresentar uma frente animadora. Assim, é ótimo quando alguém pergunta: ‘Como é que você está passando, Dode?’ Então sei que eles também entendem minha provação.
“Verifico, também, que o senso de humor nos ajuda. Uma vez que ambos gostamos de golfe, e ele tem perdido bastante peso, um dia eu lhe disse: ‘Não sei se suas pernas são como o taco número três de madeira ou o número quatro de ferro agora!’ Ele deu risada. E, sabe duma coisa, com seis semanas de operado, ele jogou uma partida de 18 buracos de golfe comigo!”
O que Charles julga terem sido os fatores mais encorajadores para ele como paciente?
“Posso alistar três deles — minha esposa, a equipe hospitalar, e todos os nossos amigos. Tivemos magnífico apoio da equipe médica. Explicaram-nos de antemão cada passo do processo cirúrgico, e trataram-nos como pessoas e não como cifras. Em conseqüência, demonstramos plena confiança neles, e isso nos ajudou a ficar otimistas.
“Naturalmente, meu melhor apoio foi a minha esposa. E o fato de ela ter sido enfermeira tornou as coisas ainda melhores para mim. Também a oração foi-me de grande conforto e fortaleza. Orei para que pudesse continuar trabalhando . . . e podem ver-me aqui, no meu escritório!”
Enfrentar a Realidade, Viver com Esperança
Despertai! entrevistou Ethel, cujo marido, Stan, morreu recentemente de câncer, aos 65 anos.
Despertai!: A que tipo de tratamento se submeteu Stan?
Ethel: “Seu câncer nos quadris foi inicialmente diagnosticado em janeiro de 1985. Pouco depois, descobrimos que ele também tinha tumores num pulmão, num olho e no cérebro. Fez quimioterapia do pulmão, e então sessões de radiação para os outros locais. Por algum tempo, parecia estar melhor, e fazia planos para uma viagem. Daí, certo dia, teve grave crise de vômitos, e sabíamos que era uma recaída. Daquele ponto em diante, mais ou menos, ambos sabíamos que ele não conseguiria sobreviver.”
Despertai!: Então, como foi que ambos reagiram diante deste fato?
Ethel: “Falamos abertamente sobre nossa situação, e Stan enfrentou a realidade. Com efeito, por sua atitude, ele me ajudou a encarar a verdade dessa situação.
“Não sou do tipo chorona, e tentei evitar perder o controle na frente dele. Mas, lembro-me de que o encontrei chorando, certo dia, e foi isso que não agüentei. Eu lhe disse: ‘Se está com vontade de chorar, então vamos chorar juntos e acabar logo com isso.’ Assim, choramos juntos e acho que isso nos aliviou. Ele sorriu meio acanhado depois disso, mas sei que nos fez um grande bem.
“Outro fator vital foi a nossa esperança bíblica da ressurreição. Conversamos muitas vezes sobre isso. Ele dizia: ‘Vou apenas dormir um pouco. E então voltarei, quando o novo sistema já dominar a Terra.’ Nossa fé fez uma grande diferença.”
Câncer e Fé
Visto que o câncer é uma batalha muito pessoal, uma forte fé pode ser de ajuda. A oração, que significa comunicar-se com Deus, pode ter uma influência muito tranqüilizadora. Como a Bíblia declara: “Não estejais ansiosos de coisa alguma, mas em tudo, por oração e súplica, junto com agradecimento, fazei conhecer as vossas petições a Deus; e a paz de Deus, que excede todo pensamento, guardará os vossos corações e as vossas faculdades mentais por meio de Cristo Jesus.” — Filipenses 4:6, 7.
De acordo com as profecias bíblicas cumpridas, está próximo o tempo em que Deus “enxugará dos seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor. As coisas anteriores já passaram”. Sim, sob o governo do Reino de Deus, o câncer, junto com todos os outros flagelos, será eliminado. Esse tempo está próximo. — Revelação (Apocalipse) 21:3, 4; Lucas 21:29-33.
[Foto na página 24]
A equipe médica, os entes queridos e os amigos, podem todos mostrar seu apoio.
[Quadro na página 25]
Ajuda Positiva a Si Mesmos, Para Pacientes com Câncer
1. Não se deixe dominar pela negação da doença. Seja realista e encare a situação. Desse modo, poderá tirar o máximo proveito do tempo disponível.
2. Faça planos ou alvos viáveis para as coisas que deseja realizar. Mantenha um objetivo na vida. A vida sem significado é vazia. Não é preciso ser assim — isso só depende de você.
3. Na medida do possível, mantenha-se ativo. Mesmo que sofra restrições físicas, sua vida intelectual não terminou. Assim, por que levá-la a um fim prematuro? Mantenha ativa a sua mente — lendo, escrevendo, pintando, aprendendo. Até mesmo inclua novos projetos.
4. Cultive uma atitude positiva, de modo que possa utilizar sabiamente seus recursos. Ter pena de si é egotista e autodestrutivo. Pense em termos do que pode fazer pelos outros. Seus amigos e parentes podem ser edificados por sua atitude positiva.
5. Tente reter um senso de humor e a capacidade de rir de si mesmo. Veja as flores, e não apenas os espinhos. Aprecie o fato de que está vivo, e não apenas a idéia de que, como todos os outros, está morrendo.
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A luta contra o câncerDespertai! — 1986 | 22 de outubro
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A luta contra o câncer
Jeff Blatnik, campeão olímpico de luta livre, deixou surpreso o mundo esportivo por livrar-se do câncer (doença de Hodgkins) e ganhar sua medalha de ouro na luta greco-romana em 1984. Daí, seu câncer reapareceu em outra parte do corpo. Qual foi a reação dele?
Ele admite que chorou. Mas, então, decidiu lutar. “Pensei: ‘Bem, já o venci uma vez, e vou vencê-lo de novo.’” Ele prosseguiu: “Foi como começar tudo de novo. Encarei tudo como um desafio. Isso é o que o câncer significa — apenas outro ajuste na vida.”
Jeff submeteu-se à quimioterapia, que amiúde produz efeitos colaterais. Mas ele conclui: “Grande parte disso é mental. Até mesmo a reação à quimioterapia. Estava determinado a não ficar doente, e não fiquei. E não é preciso ser um campeão olímpico para se ter tal atitude. . . . É importante que as pessoas saibam que existe vida após o câncer.” — The New York Times, de 8 de abril de 1986.
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