Argentina
Não é difícil localizar a ARGENTINA num mapa das Américas. Partilha com seu vizinho ocidental, o Chile, a distinção de ser um dos dois países americanos que se estendem ao máximo para o sul, em direção à Antártida. Estende-se por 3.694 quilômetros do norte ao sul, e tem em seus limites notável variedade de clima, topografia e vegetação.
A pradaria, chamada “pampas”, domina a região central da Argentina. É ali que os “gaúchos” há muito demonstram sua perícia de cavaleiros, ao cuidarem de grandes rebanhos de gado bovino. No noroeste distante há a elevada meseta deserta. Para o nordeste, onde os visitantes ficam admirados diante da grandeza das Cataratas do Iguaçu, há a selva úmida. Na direção sul, passa-se pelas regiões baixas de Entre Rios (literalmente “entre os rios” Paraná e Uruguai) até as onduladas terras férteis agrícolas. E, ao sul dos pampas, a região árida chamada Patagônia se estende desde o Rio Colorado até o Estreito de Magalhães, região que se provou altamente adequada para a criação de ovelhas.
Em direção ao norte, ao longo da cordilheira, encontram-se muitos lagos. Aqui, também, acha-se San Carlos de Bariloche, centro da região que tem sido chamada “a Suíça da América do Sul”. Mais para o norte acha-se Mendoza, e sua província vizinha de San Juan, a terra das frutas e dos vinhos da Argentina.
Tal país, com toda a sua beleza variada, poderia atrair e real mente atraiu uma multidão de imigrantes de muitos países da Europa, tanto assim que, por volta de 1970, a Argentina se tornara o lar de 23.364.431 pessoas. Jeová Deus não iria reter, e não releve mesmo, a sua proclamação de paz, as boas-novas do seu reino por Cristo Jesus, de tal avolumaste população. Em 1924, Suas novas de boas coisas em reserva começaram a ser pregadas neste vasto território nacional.
PEQUENO INÍCIO
Juan Muñiz, cristão leal e Testemunha ativa, teve muito que ver com tal início e foi identificado de perto com os interesses do Reino na Argentina até o próprio dia de sua morte, em 10 de setembro de 1967. Durante esses quarenta e três anos, devotou seu tempo, suas energias e seus recursos à disseminação da verdadeira adoração. Segundo o seu próprio relato (veja A Sentinela, 1966, páginas 443-446), veio a apreciar a verdade bíblica pela primeira vez em Filadélfia, Pensilvânia, EUA, onde possuía uma loja. Isto se deu em 1916. No ano seguinte, começou a declarar as “boas-novas” e foi batizado. Em 1920, vendeu seu negócio de modo a poder devotar todo o seu tempo à pregação.
J. F. Rutherford, então presidente da Sociedade Torre de Vigia (dos EUA), solicitou-lhe que fosse para a Espanha e cuidasse da obra de pregação ali. Devido a ser continuamente seguido pela polícia, não conseguiu fazer muita coisa na Espanha, e assim o irmão Rutherford o designou em 1924 a cuidar da obra do Reino na Argentina. Já havia um senhor na Argentina que recebera publicações dos Estados Unidos, assim, o irmão Muñiz entrou em contato com ele e o incentivou a começar a fazer a obra do Reino no território de Misiones, bem para o norte. (Veja o mapa na página 41.) Este senhor era o irmão Kammerman.
Já havia ampla população de língua alemã no país. Isto moveu o irmão Muñiz a solicitar, ao Presidente Rutherford, a ajuda de irmãos que falassem alemão. Assim, aconteceu que, em 1925, Carlos Ott, um pioneiro alemão, foi designado.
O irmão Eduardo Adamson, que por muitos anos trabalhou junto com o irmão Muñiz no ministério de campo e na sucursal da Sociedade Torre de Vigia, fala do excelente exemplo dado pelos irmãos Muñiz e Ott em sua devoção inabalável a Jeová. Também relata: “Visto que o irmão Muñiz não recebia a ajuda de ninguém, mas precisava de ajuda financeira, escreveu à Sociedade em Brooklyn solicitando tal ajuda e esta lhe foi devidamente telegrafada. Esta seria sua última solicitação de ajuda, visto estar determinando a ter êxito sem ajuda financeira de fora do país. Viveu segundo esta determinação, embora significasse trabalhar longas horas da noite, consertando relógios de pulso e outros maiores ou máquinas de costura.”
A Grande Buenos Aires daquele tempo tinha menos de 2.000.000 de habitantes. Este era o local lógico de se iniciar a atividade organizada, formando um eixo do qual se espalharia a obra do Reino até as partes mais remotas do país, bem como ao Uruguai, Paraguai e Chile. O irmão Ott nos conta como era feita a obra: “Nós nos levantávamos às 4 da manhã e visitávamos as casas rua por rua, deixando tratados sob as portas, especialmente o tratado Onde Estão os Mortos? Mais tarde, no mesmo dia, visitávamos as mesmas casas com publicações tais como O Fotodrama da Criação, O Plano Divino das Aras, A Harpa de Deus, e o folheto Podem os Vivos Falar com os Mortos?, sendo este último especialmente apropriado devido à prevalência do espiritismo em Buenos Aires.”
Os tratados eram distribuídos às pessoas que compareciam às reuniões dos vários cultos evangélicos ao saírem de suas respectivas casas de reunião. O irmão Ott lembra-se de como “um daqueles pregadores protestantes saiu e disse ao irmão Muñiz que nos não tínhamos direito de estar ali — que ele e sua igreja estavam ali primeiro. O irmão Muñiz retorquiu: “Bem, nesse caso, os católicos já estavam aqui antes do senhor; e os índios já estavam aqui antes dos católicos! Assim, o senhor tampouco tem qualquer direito!” Em resultado da obra com tratados, um grupo evangélico se tornou um grupo de verdadeiros Estudantes da Bíblia, muitos dos quais resultaram ser servos fiéis de Jeová anos depois.
Outro meio de alcançar o público era o rádio, e, antes de 1928, o irmão Muñiz usava este veículo. O escritório de Brooklyn fornecia a informação, e, mais tarde, Luz y Verdad, a edição em espanhol de A Idade de Ouro (agora Despertai!), trazia matéria especialmente adaptada para ser lida no rádio. Discos de discursos do irmão Rutherford também eram usados. Na década de 1930, as estações de rádio em Buenos Aires, Bahia Blanca e Córdoba foram usadas, e desta forma muitos foram atraídos à organização. No início da década de 1940, porém, o irmão Muñiz escreveu às estações de rádio que descontinuávamos este método de pregar devido à censura. Acontecia que havia um sacerdote no escritório dos censores.
PREGAR A TODAS AS ESPÉCIES DE PESSOAS
Em 1925, o irmão Ott começou a pregar à população de língua alemã. Visitava as escolas alemãs e conseguia os endereços das famílias alemãs. Muitas de tais pessoas chegaram a apreciar as verdades bíblicas por meio da atividade dele. “Em dois meses”, relata, “obtivemos cerca de 300 endereços; coloquei muitas publicações e fiz muitas assinaturas para a edição em alemão de A Idade de Ouro. Até mesmo muitos judeus de língua alemã aceitaram publicações.” Alguns alemães já haviam aprendido sobre os propósitos de Jeová antes de virem para a Argentina, e alguns destes foram ativados ou reativados ao entrarem em contato com o irmão Muñiz ou o irmão Ott; entre eles Carlos Schwalm, da Prússia Oriental, e os Krugers, da África do Sul; dois outros alemães que conheceram a mensagem do Reino aqui na Argentina foram os irmãos Ricardo Traub e Paul Hinderlich.
Devido à formação européia de tantos dentre a população da Argentina, sempre houve uma atitude amigável para com os que vieram de outros países. Naturalmente, aqueles primeiros publicadores do Reino encontraram alguns católicos bem fanáticos — a Argentina, como sabe, afirma ser 88 por cento católica. O irmão Ott, porém, relata: “Embora este seja um país católico, o clero nem sempre foi tido em alta estima. Lembro-me, durante a presidência de Alvear (presidente, do Partido Radical, 1922-1928), de as crianças que brincavam nas ruas de Buenos Aires gritarem “Isola!”, quando um sacerdote aparecia. Este era seu modo de dizer que um sacerdote trazia azar, e que, a fim de ter boa sorte, a pessoa precisava isolar-se.”
O irmão Ott também explicou por que havia tanta complacência entre as pessoas neste país: “Os argentinos não sofreram a terrível Guerra Mundial, assim, podiam mui facilmente dizer que tais calamidades jamais lhes aconteceriam. Durante a guerra civil espanhola, o comentaria geral aqui era: ‘Que os espanhóis se matem uns aos outros — não temos nada com isso!’ Estavam seguros de que jamais presenciariam tal sofrimento.”
Com a exceção de alguns interessados que o irmão Muñiz encontrou em Paraná, Santa Fé e Rosário, em sua viagem de volta do Paraguai, em 1925, e do trabalho do irmão Kammerman na Província de Misiones, a pregação e a distribuição de publicações se concentrava em Buenos Aires e nos povoados circunvizinhos. Ali foi estabelecida a filial em 1926, tendo ao irmão Muñiz como servo da filial.
Em 1929, o irmão Muñiz enviou o irmão Traub para cuidar da obra do Reino no Chile. A caminho para esta designação, o irmão Traub parou por algum tempo em Mendoza e pregou um pouco. Assim foi que a família de Hermán Seegelken aprendeu sobre a esperança do Reino. Parece que Hermán há muito estava a par da hipocrisia tanto nas igrejas católica como protestante, assim, aceitou ansiosamente a mensagem do Reino. Em resultado, todos seus oito filhos foram bem alicerçados em conhecimento bíblico. Seu tio, Lucidio Quintana, que tantas vezes dissera que os Seegelkens estavam loucos devido à sua nova religião, mais tarde aceitou também esta religião “louca”. Foi superintendente da congregação e ministro pioneiro por muitos anos, servindo fielmente até morrer. Assim, o grupo de Mendoza começou com os Seegelkens, os Truneckas, e alguns outros.
A década de 1920 chegava ao fim e o núcleo da organização teocrática se formara. Segundo informações que temos em mãos, havia um pioneiro regular no país em 1925, e 2.681 publicações foram colocadas. Por volta de 1928, havia três pioneiros e trinta e um publicadores de congregação que relatavam atividade Agora, um grande campo se abria, muito além da cidade cosmopolita de Buenos Aires — um território de 2.776.655 quilômetros quadrados, o segundo maior país do continente sul-americano!
SER PIONEIRO AO LONGO DA FERROVIA
Apesar da amplitude do território e do número pequeno de trabalhadores, lançara-se há anos atrás um alicerce que se provaria de valiosa ajuda para a expansão da obra, especialmente na década de 1930. Este alicerce consistia na colocação de trilhos por uma rede de mais de 40.000 quilômetros, dando a Argentina a mais completa cobertura ferroviária da América Latina. Já em 1857, o primeiro trem operara numa linha curta para fora de Buenos Aires, e, nos anos seguintes, a rede aumentou constantemente. Pistas linhas térreas serviram um fim triplo para nossos irmãos, a saber, para seu próprio transporte, como linha de suprimento, para mantê-los supridos de publicações, e como território, como logo veremos. Os anos da década de trinta se provariam anos excitantes de expansão teocrática.
O irmão Adamson o explica da seguinte forma: “O serviço de pioneiro era feito de maneira peculiar naqueles primeiros anos da obra. Devido ao arranjo geográfico e comercial do país, a maioria das ferrovias partiam de Buenos Aires para todas as diferentes partes do país. Assim, os territórios de pioneiro seguiam estas linhas férreas, havendo, naquela época, poucos outros meios de comunicação. Foram designadas aos pioneiros longas seções destas linhas, e tinham de cobrir todos os povoados e cidades destas seções, ou, talvez, a inteira linha, as vezes terminando a muitas centenas de quilômetros de onde iniciaram seu trabalho. A viagem era feita em vagões de segunda classe, com bancos duros de madeira, se houvesse dinheiro, ou, em vagões-plataformas de trens de carga, levando com eles todos os seus pertences; uma caixa de publicações, uma mala e talvez uma bicicleta.
“Seu quinhão não era fácil, assim, nossos corações se emocionavam com eles, e muitos dos amigos faziam o melhor que podiam para ajudá-los de forma financeira e com roupas. Jamais esquecerei como nos sentimos quando um desses pioneiros foi assassinado na cidade de Santa Rosa, província de La Pampa. O irmão Rossi pregara a um senhor que então pedira desculpas e entrara em casa como se fosse apanhar algum dinheiro para contribuir pelas publicações. Saiu com um revólver. O irmão Rossi tentou escapar, mas foi baleado pelas costas.”
Uma assinatura da revista A Idade de Ouro em alemão feita pelo irmão Ott, trouxe alegria a José Reindl Lera que o livro Luz achava-se disponível em alemão. “E assim aconteceu que tive meu primeiro contato com a Sociedade na Argentina”, diz o irmão Reindl. “Dirigi-me à casa do irmão Muñiz na Rua Bonpland, 1.653, para adquirir o livro”, continua o irmão Reindl. “Ele me convidou para as reuniões, e, em 1930, eu me tornei uma das testemunhas de Jeová. Morei com o irmão Muñiz depois de sair de casa. Sai no serviço pela primeira vez, e, quando foi realizada a seguinte Comemoração da morte de Cristo, fui batizado. No início de 1933, fui enviado a Mendoza como colportor ou distribuidor de tempo integral da mensagem do Reino e para ajudar o grupo de interessados que o irmão Traub formara ao se dirigir para o Chile. Um dos publicadores que o irmão Traub havia levado no serviço fora Maria Rosa Seegelken; ela tinha dezoito anos naquele tempo. Dois anos depois, casamo-nos, e, no dia seguinte, ela se juntou a mim no serviço de colportor.”
O irmão Reindl relembra vividamente esta designação de pioneiro em 1935: “A Sociedade nos designou para a linha férrea Ocidental que começava em San Rafael, província de Mendoza, e terminava em Suipacha, província de Buenos Aires. A linha abrangia mais de 1.000 quilômetros em linha reta pela região média da Argentina, e incluía os povoados até La Pampa. Era a primeira vez que qualquer pregação era feita nessa região; as pessoas simplesmente não sabiam o que era uma Bíblia, assim, não foi nada fácil. Éramos ministros de tempo integral, pioneiros especiais em todo sentido, mas, naquele tempo, não havia mesada e tínhamos de viver das publicações colocadas. Mas, sentíamo-nos felizes de ter parte na expansão da obra naqueles lugares onde agora se acham estabelecidas excelentes congregações. Levou um ano inteiro para trabalharmos toda esta linha férrea.
“Lembro-me de trabalhar uma fazenda na região central do país em que um touro correu atrás de nós, mas colocamos um livro com um casal. Muitos anos depois, tivemos o prazer de encontrar este casal, e a irmã disse: ‘Não se lembram de nós?’ Então nos lembramos de que este era o casal que morava bem para o interior, distante do pequeno povoado de Mercedes, Buenos Aires. Agora são publicadores, e a alegria de vê-los nos convenceu de que valeu a pena suportar aquele primeiro ano de nossa designação de pioneiros. Não, não era fácil chegar a um povoado sem ter onde dormir, nada para comer. E quantas vezes fomos obrigados a dormir no chão duma estação ou numa choupana, tendo apenas alguns jornais como nosso colchão e cobertores. Mas, como rapaz de vinte e três anos, com uma esposa de vinte, aprendemos a viver com o que tínhamos; continuamos sendo pioneiros até agora, ao atingirmos nossos sessenta e poucos anos.
“A obra era principalmente a de semear, o propósito sendo cobrir cabalmente todo povoado com as publicações, Daí, tomar o trem até o próximo povoado ou parada. Lembro-me de certa vez quando não conseguimos colocar muitas publicações. Era um pequeno povoado e as pessoas tinham muito preconceito. Havia a estação ferroviária, o posto policial, o armazém-geral, o curral de cabritos e umas poucas casas. Não tínhamos dinheiro suficiente para chegar à próxima parada! Jeová não nos abandonou; um homem de bom coração na bilheteria, ao ver que não tínhamos dinheiro suficiente para comprar nossas passagens, deu-nas de qualquer modo! Ao chegar no próximo povoado, Alberdi, à meia-noite, não tínhamos nenhum lugar para dormir, nem dinheiro, e não havíamos comido nada; Daí, assolou uma tempestade de granizo — por certo não era um quadro muito brilhante! Passamos a noite numa palhoça, esperando a manhã de modo a começarmos a testemunhar a fim de colocarmos algo para termos o que comer. As colocações não eram fáceis, visto que esta era a década de 1930, e, em algumas partes da Argentina, havia muita pobreza.”
Tendo alcançado o “fim da linha”, literalmente, em Buenos Aires, os Reindls voltaram para Mendoza. O irmão Trunecka orientava o grupo na ausência do irmão Reindl, e a família Seegelken continuara a contribuir para o aumento. Mary Seegelken lembra-se “do estudo da Sentinela que durava duas horas e também do chocolate quente e dos biscoitos servidos após cada reunião na casa dos Truneckas”. Adiciona: “Segundo minha mãe, eu já saí na pregação, por assim dizer, antes de nascer! Em 1932, minha mãe e outros de Mendoza foram pregar em Luján de Cuyo, um povoado a uns dezoito quilômetros de Mendoza. Andaram bastante naquele dia, e mamãe voltou bem cansada — afinal de contas, ela não estava sozinha, ela me levava também, e dentro de alguns meses eu nasci. Lembro-me de que, uns dezenove anos depois, eu andei por essa mesma estrada até Luján de Cuyo para dirigir um estudo com uma senhora e sua filha ambas as quais são ministros fiéis até o dia de hoje.”
Algum tempo depois de sua volta a Mendoza, a irmã Reindl deu à luz um filho. O irmão Reindl sente-se feliz de nos contar que “nosso filho Jorge foi criado na verdade, serviu como pioneiro, servo de circuito, e agora que já nos tornou avós, é superintendente em uma das congregações da Grande Buenos Aires.” Três meses depois de Jorge nascer, os Reindls foram designados a San Juan, província limítrofe de Mendoza. A criança ficou muito doente e os médicos disseram que teria de ser alimentada somente com leite de jumenta. Lembra-se a irmã Reindl: “Pouco depois alguém veio à nossa porta desejando vender uma jumenta — foi como uma resposta a uma oração!” De San Juan viajaram mais tarde para La Rioja e Catamarca; um pouco de semente foi semeada; mas a obra se tornou praticamente impossível devido à interferência policial freqüente. Enquanto em Catamarca, o grupo do irmão Armando Menazzi, de Córdoba, passou em caminho para o Norte. A Sociedade então designou os Reindls para Santa Fé. Ali encontraram a família de Angel Castagnola e iniciou-se um estudo. O irmão Reindl nos conta o que houve em seguida: “De Santa Fé fomos para Paraná. Mas, simplesmente não podíamos viver do que colocávamos — precisávamos de roupas, e nosso filhinho precisava de alimento e cuidados apropriados. Assim, pesarosos, voltamos a Mendoza, deixando o serviço de pioneiro por quatro anos.”
TESTEMUNHO A GREGOS E A OUTROS
No início de 1930, um grego veio a apreciar a mensagem da Bíblia — Nicolás Argyrós. Ele nos conta da sua alegria e de falar aos outros aquilo que aprendera: “Em janeiro de 1930, obtive três folhetos, Certeza de Prosperidade, O Amigo do Povo e A Liberdade dos Povos, escritos por J. F. Rutherford. Esta foi a primeira vez que lera publicações que me interessaram como sendo ‘a Verdade’. Nas costas dos opúsculos havia uma lista de livros e folhetos, de modo que mandei pedi-los. Vinte e nove dias depois chegaram as publicações. A primeira que li foi o folheto Inferno, O Que É?, Quem Está Lá? Podem Sair de Lá? Procurei encontrar em todo o folheto os pecadores sendo atormentados, como era costumeiro em outros livros religiosos, mas não achei nada disso. Imagine só a minha surpresa ao saber que o inferno de fogo é uma mentira religiosa inventada para atemorizar as pessoas, assim como me havia atemorizado quando eu tinha apenas quinze anos! Estava sozinho cuidando das ovelhas e, num sonho, o Diabo corria atrás de mim com um garfo, assim como é descrito pela religião falsa! Despertei tremendo. Os argumentos apresentados nos opúsculos eram razoáveis e convincentes. Imediatamente solicitei mais publicações.
“Por volta da mesma época, notei um anúncio num jornal grego editado em Buenos Aires sobre classes bíblicas aos domingos às 15,30 horas; o endereço fornecido era Rua Bonpland, 1.653. Às 15 horas do domingo seguinte, eu me achava na esquina, esperando, e, quando vi outros entrarem ali, entrei também e saudei todo o mundo em grego, visto pensar que a reunião era em grego. Ninguém retribuiu minha saudação, mas a pessoa que dirigiu a reunião (estudo do livro O Plano Divino das Eras) sorriu para mim ao passar. Sentei na última fila e outro senhor sentou-se junto de mim. Não compreendi nem 5 por cento do que foi dito. Tudo que possuía era o jornal grego com o anúncio nele. Quando a reunião terminou, e o senhor ao meu lado verificou que eu também era grego, deu-me seu endereço.” O irmão Argyrós diz que comprou uma Bíblia em grego nessa mesma noite, e, depois disso, foi cada noite à casa de seu amigo grego. “Era muito bem versado na Bíblia, e, usando a Palavra de Deus, decepou todas minhas crenças greco-ortodoxas. Os sacerdotes, a quem eu tanto estimara, ele chamou de ‘filhos de Satanás’, dizendo que formavam parte da aliança ímpia! Li de novo todo o folheto Inferno, e Onde Estão os Mortos? Na terceira visita a casa de meu conterrâneo, fiquei convencido de que estava no caminho certo. Perguntei-lhe o que fazer para agradar bem a Jeová. Disse-me que fosse e pregasse a outros aquilo que eu aprendera das publicações.” O irmão Argyrós não perdeu tempo em acatar esse bom conselho.
Ele relembra: “No domingo seguinte, comecei a pregar em Berisso, província de Buenos Aires. Muitos gregos moravam ali e, durante nossas visitas, obtivemos 600 endereços de outros gregos de um empregado dum banco onde tais gregos depositavam seu dinheiro. Os irmãos nos Estados Unidos nos encorajaram a organizar uma reunião de língua grega, de modo que alugamos um salão na Rua Malabia, e tais reuniões continuaram por um ano. Às vezes até vinte pessoas se reuniam. Dos Estados Unidos, recebemos 1.000 livros e folhetos, de modo que comecei a visitar todos aqueles cujos endereços eu havia obtido. Visitei todos os gregos que moravam na região de Buenos Aires, bem como os que moravam em Montevidéu, Uruguai.” Mas, ele nos conta que não ficou satisfeito em “fazer tão pouco”; ainda dispunha de alguns endereços a procurar em Rosário e Santa Fé; dali planejava tomar um cargueiro para sua ilha nativa na Grécia, onde achou que haveria um campo maior para a pregação das boas-novas.
Em Santa Fé, o irmão Argyrós encontrou o irmão Felix Remón, que se tornara publicador ativo do Reino em Buenos Aires, e então foi mais tarde enviado para a região de Rosário-Santa Fé pelo irmão Muñiz. Cerca de quinze pessoas se reuniam na carpintaria do irmão Castagnola naquele tempo. O irmão Remón convidou o irmão Argyrós a morar com ele, o arranjo sendo que se revezariam semanalmente em cozinhar. Enquanto o irmão Remón ficava ausente, pregando, o irmão Argyrós trabalhava como fotógrafo. Isto jamais satisfaria alguém dotado de verdadeiro espírito missionário! “Eu não me sentia à vontade”, afirma, “e desejava ir pregar, mas a única coisa que sabia dizer em espanhol quando oferecia os livros era que falavam sobre o reino de Deus. Eu ainda aguardava a oportunidade de partir para a Grécia, mas, à medida que os dias passavam, meu espanhol começou a melhorar. À noite, contava minhas experiências ao irmão Remón e ele me ensinava os textos que eu devia usar em cada sentença; isto foi de grande ajuda, de modo que, por fim, resolvi não ir mais para a Grécia.”
A decisão do irmão Argyrós de permanecer na Argentina deveria produzir efeitos de longo alcance na expansão das boas novas na metade setentrional da Argentina. De 1932 em diante, suas viagens para semear as sementes da verdade bíblica iriam abranger quatorze das vinte e duas províncias que constituem a República Argentina. Juntemo-nos a ele agora e partilhemos algumas das alegrias e privações de seu ministério.
“Em 1932, cheguei em Córdoba e aluguei um quarto na Rua Salta. Dali comecei a trabalhar a cidade; cobri-a duas vezes nos dois anos em que lá estive. Aqueles que mostravam interesse solicitavam todas as novas publicações, e alguns me visitavam em casa, entre estes, um juiz, C. de los Ríos. Vinha e passava muitas horas comigo, e eu respondia às perguntas dele, usando a Bíblia em grego como meu dicionário, visto não possuir um dicionário greco-espanhol. Entrei em contato com Natalio Dessilani e Armando Menazzi, que se achavam entre os primeiros publicadores ali; Armando Menazzi mais tarde se tornou pioneiro. Naquele tempo pensávamos que o Armagedom era iminente e assim eu fazia tudo que podia para colocar publicações em toda a parte. Havia aqueles que diziam, assim como hoje: ‘Por que colocar publicações quando as pessoas não prestam nenhuma atenção a elas?’ Mas, o irmão Rutherford disse: ‘Coloquem as publicações e deixem os resultados nas mãos de Jeová!’
“Vinte caixas de publicações estavam em mãos, peguei dez delas e parti para Tucumán. Ali, depois de algum tempo, contraí malária. Não tinha dinheiro para ir ao médico. Logo que pude, parti para Catamarca e La Rioja, trabalhando nas capitais e em alguns povoados. Os relatórios naqueles dias eram de 200, 220 e 240 horas por mês; o máximo que relatei foi em abril de 1933 — naquele mês relatei 300 horas de atividade.
“Daí, segui para San Juan, onde encontrei muito interesse; foi José Cercós quem mostrou mais interesse. Na manhã em que o encontrei sentia-me tão deprimido que pensava em voltar para casa. Mas, ao continuar andando, lembrava-me das palavras de Revelação 21:8 e não queria ser acusado de ser covarde. Nisso, José Cercas veio andando em minha direção; pedi-lhe que parasse e ofereci-lhe o livro Governo, junto com o folheto o Que É a Verdade? dentro dele. Ele era metodista e disse: ‘O que é que eu poderia aprender deste folheto? Já leio a Bíblia por vinte anos!’ Citei 1 Tessalonicenses 5:21, e ele aceitou o folheto. Naquela mesma noite, veio ao local em que eu estava para me dizer que achara muito interessante o folheto, e aceitou os livros A Harpa de Deus e Vindicação, e algumas revistas. Durante minha estada em San Juan, veio toda noite à minha casa. Pouco tempo antes de eu entrar em contato com ele, o ministro de sua igreja foi a Mendoza para se casar, e, quando voltou a San Juan, um grupo especial foi comissionado a fazer uma coleta para um presente de casamento. Ao chegarem na mercearia de Cercas, ele declarou com firmeza e ênfase: ‘Cercas não vai dar nem mais um centavo para os homens que cavalgam a besta!’ (Veja Revelação 17:3.) Pode imaginar quão surpresa a delegação ficou ao ouvir estas palavras dos lábios de alguém que até pouco tempo antes tinha sido um dos membros mais zelosos da igreja!”
CRUZANDO A ARGENTINA DE UM LADO PARA O OUTRO COM AS BOAS-NOVAS
Acompanhar as viagens do irmão Argyrós ao cruzar seu território autodesignado de um lado para o outro é vir a conhecer bem o mapa da Argentina setentrional. Partindo de San Juan, passou um mês com o grupo em Mendoza, daí, foi para San Luis e Villa Mercedes, onde entrou em contato com as famílias de Juan Balcarce e Estrada — mais tarde Ofelia Estrada foi a primeira irmã argentina a cursar a Escola de Gileade. Depois de trabalhar em outras cidades na província de San Luis, o irmão Argyrós veio a San Rafael, Mendoza. Voltando ao sul, para a província de La Pampa, observa que, em Intendente Alvear, encontrou as publicações da Sociedade; o irmão Leonardo Vandefeldi, pioneiro holandês, tinha passado por aquela área. Assim, nosso viajante deu meia-volta, tomou o trem de volta para a província de Córdoba, e dali foi para as cidades da província de Santa Fé. Dante Dobboletta tinha um negócio em Las Rosas, Santa Fé, e certo dia um empregado lhe disse que um ‘homem da Bíblia’ estivera ali, imediatamente mandou alguém ir para a rua encontrar o irmão Argyrós e trazê-lo de volta à loja, visto desejar mais informações como as que encontrara nos opúsculos já obtidos. O irmão Dobboletta mais tarde se tornou pioneiro e agora serve junto com a esposa na obra de circuito. Terminando seu trabalho na província de Santa Fé, o irmão Argyrós atravessou o Rio Parana, continuando em direção ao norte através da província de Entre Rios até à capital de Corrientes, e então para Resistência, Chaco. Em Villa Angela, Chaco, um senhor chamado Juan Murillo foi encontrado; para grande surpresa do irmão Argyrós, o nome deste senhor já se achava na lista dos pioneiros quatro meses depois.
Em Charata, Chaco, o irmão Argyrós menciona o feliz encontro com o irmão Menazzi e os irmãos de Córdoba: “Eles vinham em seu ônibus a caminho de Formosa. Atravessamos o Rio Bermejo de balsa, e Daí trabalhamos a cidade de Formosa. O grupo voltou para Córdoba, ao passo que eu viajei para o noroeste até Yacuiba, Bolívia. Ao voltar para o sul, passei pelas províncias de Jujuy e Salta, Daí cruzei para o sudeste até Roque Saenz Peña, Chaco. Pelo caminho, trabalhei não só as cidades, mas também os pequenos povoados em todas essas províncias.” Então, foi de novo para o sul, para a província de Santa Fé, onde as cidades de Rafaela, Casilda, Firmat e Venado Tuerto receberam sua atenção.
A adaptabilidade do irmão Argyrós e sua disposição de suportar seja lá o que fosse, seu sacrifício pessoal — tudo por causa das boas-novas: isto se destaca ao rememorarmos suas reminiscências de seus quarenta anos de serviço de pioneiro.
“Durante minhas viagens, as dificuldades eram muitas: Chegando à noite em povoados sem iluminação, era raro encontrar acomodações; o problema de acostumar-se à língua; e a falta de fundos. Nos primeiros anos de pioneiro eu conseguia manter-me com o dinheiro economizado do meu serviço secular. Assim, naqueles primeiros anos eu me vestia bem, e, quando entrava nos povoados, as crianças corriam para contar às mamães que o médico havia chegado! Quando chegava a uma porta, as mulheres a abriam com timidez, mas, depois de ouvirem a mensagem, perdiam o acanhamento. Mais tarde, durante uns dez anos de testemunho em cidadezinhas do interior, eu usava bombachas, a roupa típica dos homens do interior, e verifiquei ser aceito mais prontamente.
“Às vezes as pessoas com quem eu encontrava pela primeira vez me convidavam a pousar em sua casa. Outras vezes eu dormia ao relento, certa vez numa selva cheia de espinhos — não os vi devido a ser tão escuro. Mas, Jeová me recompensou no dia seguinte Eu testemunhava numa cidadezinha e, de tarde, encontrei um casal que ouviu a mensagem e me convidou para voltar ali para pernoitar. Quando terminei o testemunho, voltei. Depois do jantar, convidaram alguns vizinhos para ouvir esta mensagem estranha das testemunhas de Jeová. Conversei com eles até cerca da meia-noite. Daí, a dona de casa me levou para o meu quarto; tinha uma cama com lençóis bordados nela! Quando acordei na manhã seguinte, minha hospedeira me disse: ‘Eu e meu marido ficamos preocupados se o senhor iria conseguir dormir bem numa cama estranha.’ Assegurei-lhe de que eu dormira realmente muito bem. Eu pensava comigo mesmo: ‘Se soubessem onde é que eu dormi há algumas noites atrás!’
“Certa noite, dormi junto com um jumento! Foi num pequeno povoado com apenas uma pequenina hospedaria que só tinha um quarto para alugar, e estava ocupado. Era uma noite chuvosa em que a pessoa por certo gostaria de abrigar-se. Assim, eu disse ao senhor que não era uma noite para se ficar exposto aos elementos Replicou-me que o único lugar que tinha era o estábulo em que guardava os animais, e me conduziu para lá. Ajeitou uma cama para mim de um lado; do lado oposto se achava uma jumenta e seu filhote — a divisão era feita de tábuas para impedir que os animais comessem a forragem. Bem, dormi como um rei ! No dia seguinte devia partir às 6 da manhã para San Cristobal. Nem precisei de despertador: meu ‘hospedeiro’, a jumenta, começou a zurrar! As dificuldades podem ser tão deleitosas!”
Mas, houve experiências não tão deleitosas: “Chegando cedo em Eusébia, perguntei se havia uma pensão ali; disseram-me que sim, de modo que continuei trabalhando, cobrindo o povoado. Quando estava pronto para comer e descansar, verifiquei que a pensão estava fechada. Não havia nada mais a fazer senão passar a noite sob as estrelas. Era o começo do outono, mas não estava frio, e eu saí um pouco da cidade e me deitei. Não, não tinha comido nada, mas não sentia fome. Meu estômago estava bem treinado; podia comer a qualquer hora, ou, se não tivesse nada que comer, não me importava. Este é um hábito que formei em Tucumán, em 1935. Durante três meses diretos, na colheita da cana-de-açúcar, eu saía bem cedo de manhã, voltando tarde da noite, muitas vezes sem comer nada nesse período. Quando fui dormir ali em Eusébia, havia todas as espécies de mosquitos. Cortei um ramo de árvore, pensando que poderia afastá-los, mas, quanto mais eu agitava o ramo, tanto mais me atacavam! Decidi ir até a estação de trem, pensando achar aberta a sala de espera; apesar de os trens passarem com freqüência, estava fechada. Daí, encontrei uma grande lona usada para secar cereal; cobri-me com ela e passei o resto da noite.”
Na verdade, a ferrovia foi uma grande ajuda para os primeiros pioneiros, mas, havia épocas em que se tinham de usar os meios mais primitivos de viagem. O irmão Argyrós nos pode contar sobre isso: “A caminhada mais longa que eu já dei foi de Villa Valeria, Córdoba, até Cañada Verde, uma distância de uns setenta e cinco quilômetros; parti às 13 horas e cheguei no dia seguinte às 15 horas. Outra caminhada inesquecível foi de Laprida a Loreto, na província de Santiago del Estero — uma distância de trinta e cinco quilômetros. Era dia de Carnaval, e parti por volta das 12 horas e cheguei cerca das 23 horas. Neste caminho não há nem água nem povoados. Senti sede; havia chovido e havia poças d’água junto a estrada, mas a água estava quente devido ao sol abrasador, de modo que não consegui bebê-la. Aqui há florestas tão densas de quebracho que, se entrar nelas, não conseguira ver a luz do dia. Assim, sai da estrada e entrei na floresta, esperando encontrar uma poça d’água na sombra. Quando encontrei uma, fiquei feliz em dirigir-me para ela, mas, ao me aproximar mais, vi que um crocodilo chegara antes de mim! Quando o crocodilo sentiu minha presença, foi-se embora, fazendo a água espumar ao ir embora. Eu retornei à estrada e continuei a andar. Alguns quilômetros depois, encontrei um santiagueño (natural dessa província) que cuidava dum fato de cabras. Vendo que ele tinha um barril de água, solicitei um gole, e o bom homem me deixou beber tanto quanto eu quis! Quando acabei de beber, apareceu com uma grande lata cheia de opúncias; colocou-as diante de mim e me disse que poderia comer tantas quantas quisesse. Quando fiquei satisfeito, fiz-lhe presente de alguns folhetos, e segui meu caminho.”
Extensiva foi a semeadura feita pelo irmão Argyrós e grande foi seu empreendimento — e que treinamento havia recebido? Como ele diz: “Ninguém me trouxe a verdade, ninguém me fez uma revisita nem preferiu um sermão para mim. O que quero dizer é que sou uma espécie de publicador que me fiz por mim mesmo.”
EXPERIÊNCIAS DOS PRIMEIROS PIONEIROS
Por volta da mesma época em que o irmão Argyrós começou sua atividade de pregação na região setentrional do país, um polonês, Juan Rebacz, tornou-se Testemunha, e, em 1932, entrou no serviço de pioneiro junto com outro irmão polonês, Pablo Pawlosek. O irmão Rebacz nos fornece excelentes informações de como ele e seus companheiros fizeram a obra naquele tempo na parte meridional da Argentina.
Depois de algum treino preliminar no testemunho de casa em casa na Grande Buenos Aires, o irmão Rebacz nos conta o que seguiu: “O irmão Muñiz me designou para trabalhar com os irmãos Onésimo Gavrov e Pablo Pawlosek, que já estavam na província de Rio Negro. Nós três usufruímos muita alegria e bom êxito no trabalho, graças a Jeová. Pouco tempo depois, o irmão Basilio Miedziak se juntou a nós, e recebemos instruções de seguir caminhos diferentes, em grupos de dois. Os irmãos Gavrov e Miedziak tomaram o caminho costeiro, entre Bahia Blanca e Mar del Plata, ao passo que eu e o irmão Pawlosek seguimos o caminho interior, via Tres Arroyos, para Mar del Plata. Tivemos excelentes resultados; lembro-me de que em alguns meses chegamos a colocar 600 publicações. Começávamos bem cedo de manhã nas zonas rurais, e quando as pessoas acordavam para começar as atividades diárias, ali estávamos para iniciar a nossa!
“Eu e o irmão Pawlosek éramos bons companheiros e apreciávamos muitíssimo nosso ministério. Chegamos em Mar del Plata em maio de 1934, e dali iamos de trem para outros povoados, voltando a pé, cada um tomando um caminho diferente. Sempre levávamos bastantes publicações, e usualmente colocávamos todas elas. Naquele tempo não havia muitos problemas com as autoridades; às vezes éramos presos devido às falsas acusações dos clérigos de que éramos agentes secretos comunistas. Depois de investigação, a polícia descobria que isto não era verdade e nos soltava imediatamente.”
Mais tarde, em 1934, o irmão Rebacz foi designado a fazer a obra no interior do Paraguai. Devido às dificuldades encontradas ali durante a Guerra do Chaco (uma disputa fronteiriça entre o Paraguai e a Bolívia), ele voltou à Argentina por um curto período, concentrando seu trabalho na região de Corrientes-Resistência. Logo que a guerra acabou, reassumiu sua atividade no Paraguai. Vários anos depois, sua saúde foi adversamente afetada pelo clima tropical do Paraguai, e voltou à Argentina, iniciando seu trabalho na região nordeste. Seu relato segue:
“Comecei a trabalhar em Posadas, Misiones, daí em Corrientes e em outras cidades importantes das províncias de Corrientes e Entre Rios, chegando em Paraná em fins de 1938, continuei dirigindo-me às cidades do interior da província de Entre Rios que jamais tinham sido trabalhadas antes. Os resultados foram bons e a obra prosseguiu pacificamente. Daí, porém, irrompeu a Segunda Guerra Mundial, e o clero e a Ação Católica me acusavam de ser comunista. Em quase todas as cidades fui levado à delegacia por várias vezes. Em Concepción del Uruguay, província de Entre Rios, fui detido diversas vezes, e, por fim, lançaram-me fora da cidade. A irmã Fanny Plouchou, que morava ali, continuou a trabalhar a parte que ainda não tinha sido feita. Depois disso, foi-me designada a rota de San Pedro, Buenos Aires, até Santiago del Estero. Quando cheguei até Rafaela, província de Santa Fé, fiquei gravemente enfermo e os médicos me aconselharam submeter-me a tratamento intensivo. Foram feitos arranjos para eu me tratar em Concepción del Uruguay, de modo que voltei e me fixei naquela mesma cidade de onde havia sido expulso vários meses antes!”
Nosso interesse retorna agora ao centro da Argentina, e para a importante cidade comercial e cultural de Córdoba, sua universidade sendo a segunda mais antiga do hemisfério meridional. É também renomada fortaleza do catolicismo, sendo chamada de ‘Roma’ da Argentina. A atividade do irmão Argyrós estimulou o interesse de Armando Menazzi e Natalio Dessilani. O irmão Menazzi teve muito que ver com a expansão da obra na parte setentrional do país, ao passo que o irmão Dessilani continuou a falar as boas-novas na região de Córdoba. Voltemos a 1932-1933, e acompanhemos seus relatos.
Armando Menazzi provinha de uma família muito católica, mas ele verificava serem falsos ‘os pastares do rebanho’. Possuía sua própria oficina mecânica de automóveis, bem equipada, quando leu seus primeiros folhetos, O Que É o Inferno? e Onde Estão os Mortos? O dono da mercearia da esquina, Natalio Dessilani, já lera algumas publicações, e escrevera pedindo outras. Ambos os homens decidiram que aquilo que leram se harmonizava com a Palavra de Deus, de modo que escreveram solicitando mais Bíblias e publicações. Devido a este pedido, o irmão Muñiz veio ver pessoalmente o que acontecia. O primeiro discurso foi dado no escritório da oficina do irmão Menazzi, com oito pessoas presentes.
O zelo e a convicção do irmão Argyrós inspiraram o irmão Menazzi a vender sua oficina e dedicar seu tempo ao serviço de pioneiro. O irmão Dessilani também vendeu sua mercearia — não antes de os zombadores escreverem com giz em sua porta: ‘Mercearia do Profeta.’ Procurou emprego em outra parte, visto que também desejava ter mais tempo para devotar à atividade de pregação. O irmão Menazzi nos conta que, com o dinheiro oriundo da venda de seu negócio, além da venda de outra propriedade, “consegui comprar tempo no rádio para alguns discursos que o irmão Muñiz nos enviou. Também aluguei um pequeno apartamento e ali começamos a realizar as primeiras reuniões.” O irmão Dessilani despertou o interesse de um de seus colegas de trabalho, Horacio Sabatini, que, por sua vez, falou com seu irmão, Arístides, e com toda a sua família. O irmão Dessilani nos conta sobre a revisita feita a essa família: “Logo começaram com um dilúvio de perguntas e, para responder a todas, eu e o irmão Menazzi ficamos lá umas quatro horas naquela noite. Por fim, ficaram convictos de que tinham encontrado o verdadeiro ‘Caminho’. Dias depois, ofereceram sua casa para as reuniões e esta se achava bem no centro da cidade.” Em 1938, o irmão de Natalio Dessilani, Emilio, conversou com um colega de trabalho Alfredo Torcigliani. Compareceu a um discurso proferido pelo irmão Muñiz e ficou convencido pela explicação dada sobre o Pai Nosso.
‘MOTORIZANDO’ AS ATIVIDADES DO REINO
A rápida expansão da proclamação do Reino era o desejo destes irmãos, e, por volta da década de 1940, seus esforços foram ‘motorizados’. O irmão Horacio Sabatini ajudou a comprar um velho carro que o irmão Menazzi conseguiu ajeitar; mais tarde, comprou-se um Chevrolet menor, e, com os dois carros, testemunhavam nos povoados, partindo de Córdoba. Para economizar gasolina, o carro maior puxava o menor até o território, e o irmão Menazzi diz que tinham um sistema de sinos entre os dois carros, com sinais para a partida e parada. “Mais tarde”, relata o irmão Menazzi, “vendemos os carros e compramos um ônibus velho. Com a ajuda dos irmãos, nos o remodelamos de tal modo que as cadeiras podiam ser convertidas em seis camas dentro dele, e no teto tínhamos quatro camas de dobrar sob uma lona. Desta maneira, dez publicadores podiam viajar com acomodações.” Isto iniciou uma obra vigorosa de expansão das boas-novas na Argentina setentrional.
De início, as viagens duravam uma semana, daí, quinze dias então um mês de cada vez. Depois de cada viagem, o ônibus voltava a Córdoba para ser examinado e consertado, ao passo que os irmãos se preparavam para a próxima aventura, e diferentes irmãos e irmãs tinham a oportunidade de ir juntos. A viagem final durou três meses e foi, decididamente, uma odisséia! Ao todo, até à venda do ônibus em 1944, o irmão Menazzi e o grupo de Córdoba visitaram cerca de dez ou mais províncias, testemunhando de casa em casa nas cidades, e visitando as fazendas e povoados espalhados nas áreas rurais. Era o mesmo o processo em cada povoado ou cidade, como nos informa o irmão Menazzi: “Íamos primeiro à delegacia local e os informávamos de nossa missão, e eu fazia com que assinassem uma caderneta, como prova de que fora falar com eles. Isto ajudava a evitar discussões mais tarde com policiais que tentassem interferir; e, em cada povoado, o chefe de polícia se certificava de que a polícia das cidades vizinhas havia dado permissão, por assim dizer, e assim obtínhamos permissão de trabalhar.” Nessas viagens, colocaram-se muitas publicações com as pessoas, mas ele adiciona que “era uma obra de informar as pessoas, semeando a semente, visto que só ocasionalmente voltávamos para visitar alguém que mostrava interesse excepcional”.
A vida no ônibus e as experiências obtidas constituem um capítulo inesquecível das vidas dos irmãos que formavam este grupo. O irmão Menazzi nos fornece uma descrição vívida: “Estávamos bem organizados e, como uma colméia, cada um tinha seu trabalho designado — um cozinhava, outros limpavam, outros cuidavam das camas, e ainda outros faziam compras. Testemunhávamos até fins da tarde e, às vezes, tínhamos de procurar os publicadores com o farol do ônibus. Costumávamos estacionar o ônibus em um lugar afastado, preferivelmente junto ao cemitério, onde ninguém nos incomodava. À noite, depois de jantar e arrumar as coisas, contávamos nossas experiências — cansados, mas felizes! Nós éramos, ou aprendemos a ser, econômicos, e a comer de tudo.” O irmão Torcigliani nos explica o que estava incluído no menu de tudo: “Caçávamos e pescávamos nosso alimento — tudo ia na panela — rãs, coelhos da montanha, chuñas (da família da cegonha), pombos, papagaios, codornizes, vizcachas (da família dos roedores), lebres, tatus e tartarugas terrestres que transformávamos em sopa. E trocávamos publicações por cabras, galinhas, galos, porquinhos de leite, ovos, legumes, bananas e todas as espécies de frutas. Como vê, jamais passamos fome!”
Na ausência do irmão Menazzi de Córdoba, o irmão Natalio Dessilani continuava a trabalhar na cidade com um número constantemente maior de publicadores. “Em 1944, a congregação Já havia crescido tanto que não havia mais lugar em nosso salão na cidade, mas não tínhamos outro lugar para onde ir. O irmão Menazzi conversou com uma tia sua que era favorável a obra, e ela doou um terreno que possuía na Rua Roma. Foi então decidido que venderíamos o ônibus — a escassez de gasolina naquele tempo significava que não podíamos usar muito o ônibus — o dinheiro sendo usado para a construção do mui necessário Salão do Reino.”
A VERDADE SE ESPALHA DE SAN JUAN
A semente semeada pelo irmão Argyrós em San Juan, em 1936, semelhantemente dava frutos. O irmão José Cercas e alguns outros partilhavam ativamente a mensagem. Em 1940, o irmão Cercos entrou em contato com a família Rodriguez que antes recebera testemunho dos Reindls. Foi colocado o livro Filhos e foi feita uma revisita com fonógrafo para tocar alguns discos que deram mais testemunho. Os resultados foram satisfatórios. Salvador Rodriguez nos contará o que aconteceu: “Naquela noite, José Cercos passou cerca de duas horas ou mais conosco. Meu pai já lia a Bíblia por uns dez anos, mas sem qualquer explicação, de modo que aceitou as verdades do Reino de imediato e com grande alegria. O irmão lhe disse que, a fim de ser uma das testemunhas de Jeová, tinha de parar de fumar e livrar-se de todos aqueles ‘bonecos ridículos’, como chamava as imagens católicas que minha mãe possuía. Imediatamente meu pai tirou o charuto da boca, e, junto com os que tinha no bolso, rasgou-os na presença do irmão. No domingo seguinte, meu pai foi ao salão com alguns dos filhos mais velhos, e, ao voltar ajuntou todas as imagens, empilhou-as no quintal e tocou fogo nelas todas — sem prestar a mínima atenção aos frenéticos apelos de minha mãe de que Deus iria castigá-lo pelo que ele fazia!
“Na semana seguinte foi feito um anúncio para serviço, assim, no dia designado meu pai, meu irmão mais velho e eu estávamos no local meia hora antes da hora anunciada. Jamais demos testemunho antes, de modo que cada um de nós foi com outro publicador na primeira porta. Na segunda porta, pediu-se-nos que déssemos o testemunho. Tudo que conseguimos fazer foi repetir algumas das expressões que o publicador acabara de usar na primeira porta, tal como: ‘Nós lhe trazemos a mensagem das boas-novas do Reino’, e então apresentar os folhetos.
“Logo depois nossa mãe ficou interessada, e, embora não soubesse ler, escutava mui atentamente e repetia o que ouvia. Pouco depois, ela já entrava em contato com interessados, com os quais nós, os filhos, podíamos dirigir estudos. Em menos de dois meses, todos nós sete estacamos publicando regularmente. Fomos batizados em 1941, quando o irmão Muñiz nos visitou; dois meses depois, quando o irmão Trunecka veio de Mendoza, cerca de quinze pessoas foram batizadas num buraco natural cheio d’água em nossa fazenda. Naqueles dias, os publicadores que tinham dificuldades em expressar-se usavam um cartão de testemunho impresso, e em geral trabalhávamos no território do interior, onde as pessoas eram mais acessíveis.
“No interior, onde não havia divisões de território, cobríamos um departamento (comarca) de cada vez, e tentávamos cobri-lo cabalmente, saindo bem cedo e voltando ao cair da noite para San Juan. Na hora das refeições, trocávamos publicações por um prato de comida.”
Nosso irmão se lembra do tempo quando ele e seu irmão tinham um território nas montanhas. Certo dia, seu pai os chamou para se levantarem e tomarem café, depois disso, andaram trinta quarteirões até a gare dos trens, apenas para vir a saber que o trem não chegaria senão depois de quatro horas, visto que era apenas 1 hora da madrugada! Quando o trem chegou realmente, e os rapazes chegaram na parada indicada, ainda estava escuro; e tinham de andar onze quilômetros para chegar a seu território. “Acabamos de dar testemunho naquele povoado antes do meio-dia, assim, fomos para o próximo povoado, a nove quilômetros de distância, e tudo isso subindo pelas colinas. Terminamos este povoado também; agora tínhamos de andar a pé vinte quilômetros de volta para a estação ferroviária — mas havíamos aliviado nossa carga, tendo já colocado vinte livros e oitenta folhetos! Chegamos na estação bem na hora em que o farol dianteiro do trem se tornou visível; eram agora 21 horas. Duas horas depois, chegamos em San Juan; quão alegres nos sentíamos ao andarmos os trinta quarteirões de volta para casa!”
Em 1944, um terremoto nivelou a cidade de San Juan; havia cerca de trinta publicadores naquele tempo, mas nenhum sofreu danos. No dia seguinte, os irmãos de Mendoza chegaram com provisões. O irmão Rodriguez nos fala de dar testemunho depois do terremoto: “Alguns nos disseram que éramos culpados do terremoto e nos fizeram correr de lá. Outros escutaram com atenção e disseram: ‘Quão verídicos são seus ensinos bíblicos!’ Em resultado disso, muitos aceitaram a verdade e se tornaram publicadores. Nessa época, reuníamo-nos num pequeno salão que os irmãos construíram.”
A fé e o zelo dos primeiros publicadores eram constante exemplo para todos, e o irmão Rodriguez comenta sobre o irmão Cercós, com oitenta e um anos de idade: “Ele continuou a trabalhar como pioneiro, subindo até sessenta quarteirões a fim de fazer suas entregas de revistas. Manteve uma média de mais de setenta horas por mês e dirigia sete estudos. E, foi ao voltar para casa, de um dos seus estudos, que ele escorregou e caiu na calçada, fraturando a bacia. Isto o deixou inválido e ele chorava por não poder cuidar de seus estudos e de suas revisitas. Mas, sentia-se confortado quando o visitávamos e falávamos de nossa atividade no território.”
TESTEMUNHO BEM MAIS PARA O SUL
No ínterim, o que acontecia no Sul? Os irmãos Gavrov e Miedziak viajavam naquela área — nossas informações indicando que já tinham até chegado bem ao sul, na Terra do Fogo, e então foram para o norte, atravessando a Patagônia, até a província de Rio Negro. E, também na década de 1930, Carlos Firnkorn, em Colonia Sarmiento, província de Chubut, tornara-se Testemunha e vendera seu rancho de ovelhas a fim de gastar mais tempo pregando a outros. Em seu caso, poder-se-ia dizer, era uma questão de deixar uma espécie de ovelhas a fim de cuidar de outra espécie — uma espécie mais importante de ‘ovelhas’!
Em 1934, Francisco Callejo, ferroviário que morava em Allen, província de Rio Negro, teve seu primeiro contato com os publicadores do Reino. Lembra-se de que “um senhor com uma maleta chegou até à estação para perguntar o tamanho da cidade, e assim por diante”. O folheto que este senhor deixou, junto com opúsculos outros deixados com alguns de seus amigos impressionaram muitíssimo a Francisco Callejo, pois já lera muito, sempre procurando conhecimento que satisfizesse sua ânsia da verdade bíblica. Ao terminar de ler os folhetos A Crise, Onde Estão os Mortos?, Chaves do Céu, Céu e o Purgatório, Guerra Universal Próxima e outros, junto com a Bíblia, ficou convicto de que sua busca fora recompensada. Imediatamente planejou partilhar seu conhecimento com outros, mas não teve nenhum contato até o ano seguinte, quando foi transferido para Ingeniero Huergo. “Ali encontrei um sapateiro polonês, Pablo Teisar, que era assinante de A Sentinela. Ele me forneceu o endereço do irmão Muñiz. Logo escrevi pedindo a assinatura de ambas as revistas, a Bíblia, e os livros A Harpa de Deus, Libertação, Governo, e Profecia.
“As revistas falavam tanto das atividades e das experiências de publicadores em tantas partes da terra que eu senti e entendi a necessidade de tomar parte ativa.” Escreveu ao irmão Muñiz expressando tal desejo; a resposta foi de que os mesmos irmãos que visitaram a província em 1934, os irmãos Gavrov e Miedziak, logo a visitariam de novo. O irmão Callejo descreve as suas emoções então: “Esperei sua chegada com intensa ansiedade, e, quando não vieram, escrevi de novo reiterando meu desejo de participar na pregação. A resposta foi de que os irmãos se achavam então no vale do Rio Negro e que logo chegariam. Fui à casa do sapateiro polonês cada dia, pois sabia que iriam ali primeiro. Sentia-me triste e decepcionado por se demorarem tanto. Finalmente, certa manhã fui visitar Pedro Teisar, e lá estavam eles! Quão grande foi minha alegria de estar finalmente com eles! Levei-os para minha casa e me supriram de mais publicações e me ensinaram brevemente como conversar com as pessoas e oferecer os livros e folhetos.” Isto se deu no ano de 1936.
Este breve ‘treino’ foi suficiente; em seu primeiro dia de folga do trabalho o irmão Callejo começou a publicar as boas-novas. Embora encontrasse pessoas completamente hostis à mensagem do Reino, seu zelo não diminuiu, e continuou ‘afrouxando o solo duro’ para futura expansão. À medida que esgotava sua reserva de publicações, relatava isto ao escritório de Buenos Aires e solicitava outras mais. Conta-nos como usava seu serviço secular para promover os interesses do Reino nas províncias de Rio Negro e Neuquén: “Fui transferido para Cervantes, Rio Negro; preguei ali, e no meu dia de folga, eu ia no trem local até General Roca. Coloquei minha primeira assinatura com um lavrador, Antonio Vicente Inestal, em Mainque, e ele se tornou o primeiro publicador em resultado de minha pregação.
“Em 1939, fui transferido para Neuquén, onde moro até o dia de hoje. E aqui comecei no serviço de bens; em resultado disto, aproveitava parte de minhas longas permanências em cada cidade para testemunhar. Desta forma, consegui cobrir a área de Choele Choel até Zapala (que é a linha divisória) — uma extensão de uns 400 quilômetros. E de Neuquén cobri o território de Cipoletti, Allen e até Dique de Riego (barragem de irrigação da zona), assim cobrindo Cinco Saltos e Barda del Medio. Fiz tudo isso nos meus dias de folga semanal e em minhas férias anuais. Por volta do ano 1941, nós nos reuníamos para estudo em Neuquén, e os interessados de Cipoletti também compareciam. Mais tarde, o irmão Carlos Firnkorn, que havia trabalhado em Chubut, foi designado a Neuquén, e isto foi uma grande ajuda.”
Sim, a atividade deveras aumentava! Examinemos o relatório de 1938: 128 publicadores das boas-novas e 4 congregações; os publicadores devotaram 44.712 horas, colocaram 131.375 publicações e obtiveram 238 assinaturas. Foram feitas 375 revisitas e um total de 138 pessoas compareceram a Comemoração da morte de Cristo.
A obra de semear atingia as próprias fronteiras da Argentina, e sobre este solo surgiria a futura expansão em forma de congregações, circuitos e distritos.
Em 1942, dois rapazes de parentesco gales, Gwaenydd Hughes e Ieuan Davies, aprenderam a verdade na província de Chubut. Ambos provinham de famílias que liam a Bíblia e que pertenciam a Igreja Evangélica Galesa Independente. Gwaenydd Hughes lembra-se de que, na década de 1930, alguém lhe ofereceu publicações, e, em 1938, seu pai assinara A Sentinela (então La Torre del Vigia) com um homem chamado Firnkorn em Sarmiento, Chubut — e dizia-se que este senhor ‘vendera suas ovelhas e saíra pregando uma nova religião’. A cidade de Sarmiento se situa a mais de 400 quilômetros ao sul de Rawson, mas, em 1942, o irmão Muñiz escreveu ao irmão Firnkorn, instruindo-o a ir a Rawson por algumas semanas. Assim aconteceu, nas palavras do irmão Hughes, que “Firnkorn veio comprar leite de mim. Pregava o fim do mundo. Então ofereceu-me algumas publicações — isto me fez pensar que era apenas mais um vendedor de livros, mas aceitei o livro Inimigos. Li-o cabalmente em três noites, e, lembro-me de que, quando terminei, estava inteiramente convencido de que esta era a explicação correta da Bíblia. Agora tive de procurar Firnkorn. Morava numa pequena cabana no lado ‘errado’ da cidade, na cidade vizinha de Trelew. Ofereceu-me A sentinela, que era então chamada La Atalaya em espanhol; isto me confundiu, pois havia uma publicação adventista chamada El Atalaya. O irmão Firnkorn me assegurou de que La Atalaya não era uma publicação adventista.”
Ali perto, o irmão Basilio Miedziak havia passado distribuindo publicações em Comodoro Rivadavia, Trelew, Guiman, e regiões circunvizinhas. Ieuan Davies comenta: “Este pioneiro trabalhava como um touro solto; isto é, visitava cada casa visível em seu caminho. Colocou sete folhetos com um fazendeiro que era nosso vizinho, um concidadão galês. Não estava interessado nos folhetos, de modo que mos deu em apreciação de eu o ter ajudado a tirar leite de suas vacas em certo domingo quando ele havia dormido demais e não queria chegar atrasado na capela, visto ser diácono. Quando cheguei em casa e compreendi que estes eram folhetos religiosos, não senti grande entusiasmo por eles, mas comecei a ler Saúde e Vida. Nossa Bíblia era em galês, assim, pedi emprestado uma Bíblia em espanhol a fim de me assegurar de que aquilo que os folhetos diziam estava exatamente como na Bíblia. Logo compreendi que esta era a verdade e minha fome espiritual tornou-se maior do que quando comecei. Os opúsculos anunciavam alguns livros, fornecendo o endereço da Sociedade nos EUA e no México, de forma que escrevi para o México pedindo os livros. Passaram-se dois meses até eu receber os livros devido a que meu pedido fora transmitido ao escritório em Buenos Aires. Agora que eu sabia que havia testemunhas de Jeová em Buenos Aires, pedi outros cinco livros, e fiz a assinatura de A Sentinela.”
O irmão Muñiz enviou o nome de Ieuan Davies ao irmão Firnkorn, e Gwaenydd Hughes ofereceu-se a ajudar a encontrar o interessado, visto haver muitos Davies nessa área. Ao saber que o irmão Firnkorn dirigia reuniões em Trelew, o jovem Davies concordou em acompanhar seu amigo Hughes até lá no domingo seguinte. Ele o descreve da seguinte forma: “Ao chegarmos no local de reuniões, verificamos ser pequena cabana prestes a desabar — e desabou mesmo na seguinte tempestade. Tanto eu como Hughes havíamos vestido as melhores roupas que possuíamos — terno, camisa branca, gravata, e assim por diante — mas quando entramos encontramos todo o mundo vestido com a roupa típica do interior e até o irmão que dirigia não estava vestido de acordo para a ocasião. Isto me deixou surpreso, mas não arrefeceu meu entusiasmo. Após várias reuniões, o irmão disse que estaria ausente e que um de nós deveria dirigir as reuniões em sua ausência. Como o mais velho dos dois, Hughes foi escolhido.”
OPORTUNIDADES PARA RAPAZES
Mais tarde, o irmão Muñiz parou em Trelew ao voltar de Comodoro Rivadavia, e, visto que ouvira falar que havia interesse ali, aproveitou sua estada para proferir um discurso. “Nós estávamos tão interessados que ele prolongou sua estada por três dias mais, preferindo discursos de duas ou três horas cada noite”, diz o irmão Hughes. “Tais discursos prendiam tanto a minha atenção que, embora ouvisse meu cavalo morder o bocado do freio e tentasse escapar, não queria perder uma palavra sequer do discurso bíblico — preferia antes perder o cavalo! Assim, quando o discurso terminou, fiquei sem cavalo — já era meia-noite e não havia tempo de procurá-lo. Nos dias seguintes, tive de trabalhar, e à noite não queria perder os discursos — assim, simplesmente dei o cavalo por perdido.” O irmão Hughes acrescenta que o cavalo realmente apareceu diversos dias depois.
Ao voltar a Buenos Aires, o irmão Muñiz escreveu algo assim ao irmão Firnkorn: ‘Se este rapaz Davies não é alguém que sustenta a família, e se desejar, poderá vir para a filial, visto que há necessidade aqui de rapazes como ele.’ Assim, no último dia de dezembro de 1942, Ieuan Davies viajou para Buenos Aires; foi batizado em fevereiro de 1943.
Glwaenydd Hughes também se ocupou logo em organizar seus afazeres de modo a devotar-se exclusivamente à obra. Ao mesmo tempo, lia todas as publicações da Sociedade. Por volta de março de 1943, estava pronto para deixar sua casa. Ele nos conta: “Fui para Bahia Blanca, onde o irmão Schwalm dirigia um grupo e ali fui batizado. O irmão Schwalm partiu para Buenos Aires e fiquei encarregado da obra. Eu tremia de medo, e a única coisa em que conseguia pensar era: ‘os trabalhadores devem realmente ser poucos, se eles têm de me usar’, mas, estava disposto a ser usado. Outro pioneiro se juntou a mim, e usando Bahía Blanca como sede, trabalhamos até às cidades da província de La Pampa, bem como o sul da província de Buenos Aires, incluindo algumas colônias judaicas.
“Perto do fim de 1943, o irmão Muñiz veio a Bahía Blanca e falou comigo sobre eu ir para o Paraguai cuidar da obra ali. Visto que eu não respondi nada, ele mais tarde disse: ‘O irmão ainda não me respondeu’, ao que repliquei: ‘Que devo dizer? Nem preciso dizer que estou disposto a servir onde quer que me mandarem!’” O irmão Davies foi enviado de Buenos Aires para cuidar do grupo de Bahia Blanca, e ele se lembra carinhosamente de sua reunião com o irmão Hughes: “Na noite em que cheguei em Bahia Blanca, eu e Hughes não dormimos de jeito nenhum; passamos a noite inteira rememorando os acontecimentos em tão curto período de tempo e demos graças a Deus de nos ter livrado deste velho sistema de coisas.”
A obra de semear dos anos vinte e trinta abrangeu as grandes distâncias do território argentino, com centenas de milhares de publicações, para não se mencionar o incontável número de tratados. Muitos foram os interessados que obtiveram publicações e que partilharam seu conhecimento com outros, mas, de início, sem ter contato com a organização da filial da Sociedade.
De volta ao centro de atividades, Buenos Aires, o pequeno grupo crescia constantemente. Como se poderia esperar, a expansão trouxe mudanças, bem como as dores de crescimento. Um estímulo para a obra na Argentina foi a visita, em 1932, do irmão Roberto Montero, que servia no México. Foi enviado pelo irmão Rutherford para introduzir a campanha com a nova revista Luz y Verdad (A Idade de Ouro em espanhol). Muitas assinaturas foram obtidas, visto que a revista era interessantíssima e barata. E, por volta do tempo da visita do irmão Montero, a Sociedade adquiriu uma casa na Rua Cramer, 4.555, que serviria de sucursal e depósito de publicações. Ela continuou a servir como lar de Betel até ser comprada em 1940 a presente propriedade da Rua Honduras, 5.646. Visto que a sucursal se achava então nos limites da cidade, e fora de mão para muitos dos irmãos, o irmão Miguel Razquin enviou sua esposa, Juanita, procurar um lugar de reuniões mais central; escolheu-se o salão na Rua Fitzroy, 1.544, a alguns quarteirões da atual filial.
Para alojar o grupo crescente, o dono da casa logo teve de derrubar uma divisão e abrir outro quarto para as reuniões. De novo, a irmã Razquin foi procurar uma casa, sob as insistências de seu marido, que era inválido. Achou-se uma casa vazia que tinha sido usada como depósito de vinhos, e o dono se dispunha a vende-la, recebendo a casa da Rua Cramer como parte do pagamento, junto com 27.000 peses a serem pagos por um período de tendo, com juros de 7 por cento (foi paga em menos de dois anos). O irmão Muñiz achou que a propriedade era muito cara mas o irmão Razquin, como conta sua esposa, “era um basco de vontade forte, e convenceu o irmão Muñiz de que a propriedade da Rua Honduras era mais adequada para nossas necessidades — mais centralmente localizada, próxima do correio, e assim por diante. Em 1940, a escritura de venda foi assinada aqui na mesa da minha sala de jantar.”
Os irmãos derrubaram a parte do velho depósito que fora usada para estocar vinho, e, sob a direção de um construtor de fora, ergueu-se o novo prédio. Este salão tem 10 por 20 metros e pode acomodar mais de 350 pessoas confortavelmente. Foi usado como Salão do Reino até 1950; mais tarde, foi usado para escritórios, gráfica, expedição e depósito de publicações. Em 1941, um pequeno quarto no telhado foi construído para o irmão Muñiz, os materiais e o trabalho sendo pagos pelos irmãos Razquin, Schwalm e Martonfi. Apesar dos anexos modernos da filial, este quarto ainda permanece.
As primeiras ‘dores’ do crescimento da obra na Argentina vieram no início dos anos 30; choques de personalidade e adoração de criaturas se tornaram evidentes. Ao ser adotado o ‘novo nome’, testemunhas de Jeová, e abandonar-se o sistema de ‘anciãos eletivos’, alguns se afastaram e deixaram a organização. Em certa ocasião, fez-se um abaixo-assinado, solicitando ao irmão Rutherford que removesse o irmão Muñiz de servo da filial. Alguns que o assinaram voltaram depois, reconhecendo as designações da organização teocrática. Os grupos de Mendoza e Rosário sofreram similares retrocessos em épocas diferentes.
Novamente, no início dos anos 40, tornou-se evidente a inquietação, mas desta vez era diferente — era uma inquietação devido ao desejo de ver mais progresso e uma distribuição das responsabilidades. O irmão Adamson se lembra daqueles momentos tensos: “O irmão Schwalm, então membro de Betel, se aproximou do irmão Muñiz com o pedido de que se fizesse uma tentativa de reorganização da congregação de Buenos Aires para se cuidar melhor do trabalho. O irmão Muñiz não compreendeu o espírito por trás desta ação, de início, pensando tratar-se duma rebelião. Assim, convocou todos os irmãos para permanecerem depois do estudo de A Sentinela e me fez subir à tribuna com um caderninho de anotações e uma caneta, para registrar tudo que fosse considerado.” Com o tempo, a grande área cuidada pela congregação de Buenos Aires foi dividida em sete áreas diferentes, cada área tendo um irmão para dirigir a obra em tal território.
Por volta dos anos 40, então, podemos visualizar como o trabalho estava sendo feito; irmãos e irmãs resolutos e zelosos procurando alcançar os pontos mais distantes da Argentina, concentrando seus esforços na colocação de publicações bíblicas, enquanto outros isolados escreviam para a sucursal solicitando publicações para distribuir nas zonas em que moravam. Nas cidades em que havia uma congregação ou um grupo, o testemunho regular era dado, principalmente oferecendo-se livros e folhetos, e usando-se o cartão de testemunho. O fonógrafo foi usado em algemas cidades na obra de revisitas, mas não no testemunho de casa em casa. De 1942 em diante, recebia-se o Informante, indicando-se as campanhas e as publicações a serem usadas.
Os relatórios chegavam ao escritório de Buenos Aires dos pioneiros, publicadores isolados e dos associados com as poucas congregações. O irmão Muñiz compilava uma lista com os nomes de cada um deles, onde cada um trabalhava, e o que cada um fizera durante o mês, e esta folha era enviada para todos.
Desde sua chegada na Argentina, o irmão Muñiz preferia cursos bíblicos em Buenos Aires e em outras cidades onde se encontrava interesse, bem como nos países vizinhos sob seus cuidados. O estudo da Sentinela foi introduzido bem cedo e durava duas ou mais horas. A irmã Albricot descreve tais primeiros estudos: “Com uma semana de antecedência o irmão Muñiz designava um ou dois parágrafos para cada irmão, a fim de que cada um preparasse uma pergunta para o parágrafo designado; Daí, antes do estudo, as perguntas eram colocadas na tribuna do orador, alguém as punha em ordem numérica e então o irmão Muñiz as lia — se conseguisse ler a escrita (naquele tempo ninguém tinha máquina de escrever) — e os membros da assistência se ofereciam para respondê-las. Todos os textos bíblicos eram considerados e lidos, bem como os textos que o irmão Muñiz adicionava, e assim continuava o estudo, sem tempo fixo, até que terminasse.” As reuniões dominicais de Buenos Aires compareciam os irmãos e interessados da área da Grande Buenos Aires. Numa noitinha no meio da semana, usualmente terça-feira, os irmãos designados compareciam a zona adjacente designada a cada um, e ali se realizava um estudo de livro de congregação.
Outra reunião semanal era realizada em Buenos Aires às quintas-feiras, e era chamada “del comentario” — referindo-se ao comentário para cada dia alistado no Anuário (em inglês). O irmão Muñiz presidia esta reunião, traduzindo do Anuário em inglês o texto do dia e comentários, e algumas experiências, além de dar seus próprios comentários.
PRIMEIRA ASSEMBLÉIA GERAL
Se as duas décadas de 1924 a 1944 testemunharam grande semeadura, os últimos anos da década de quarenta trariam ainda maiores aumentos. Isto exigiria melhor organização do trabalho. Muitos irmãos compreendiam isto e sentiam a necessidade — mas o que podiam fazer? O irmão Ott lembra-se de como ele e o irmão Schwalm com freqüência comentavam, ao trabalharem juntos na filial: “O irmão Knorr viaja para toda a parte — por que não o enviam uma vez à Argentina?”
A visita há muito almejada aconteceu em 1945, e, junto com ela, as mudanças que lançaram a base para real organização teocrática e expansão. Os irmãos Knorr e Franz pousaram em Buenos Aires em 28 de fevereiro de 1945, a caminho do Chile, em sua primeira viagem pela América do Sul. Naquele tempo havia 19 companhias ou congregações no país, e 320 publicadores. A Watchtower (Sentinela) de 15 de abril de 1945, fornece o seguinte relato da ocasião:
“Sábado, 3 de março, marcou o início da primeira assembléia geral das testemunhas de Jeová na Argentina. Cerca de 395 pessoas estavam presentes na ocasião do discurso de boas-vindas pelo servo da filial. Daí, foram apresentados os irmãos estadunidenses, e o irmão Knorr subiu à tribuna no meio de aplausos. A assistência representava os frutos de cerca de vinte anos de atividades das testemunhas de Jeová aqui, começando deveras com pequeno início. Parecia muitíssimo apropriado proferir à assembléia um discurso direto de serviço e organização, e o irmão Knorr fez isso, através de seu companheiro e intérprete, o irmão Franz. Perto do início, pediu que levantassem as mãos todos quantos tinham sido católicos-romanos antes de se devotarem a Jeová Deus, e as mãos de praticamente todos se ergueram.
“O irmão Knorr sublinhou a importância do estudo semanal de A Sentinela nas congregações, e então da reunião de serviço semanal de pelo menos uma hora de duração, numa hora conveniente para a maioria dos irmãos. Ao lhes ser solicitado, todos os congressistas ergueram as mãos como desejando que tal reunião de serviço, devidamente organizada, e fazendo uso do quadro mensal de serviço e de demonstrações feitas por publicadores capazes, e de outras considerações de serviço, fosse estabelecida em suas respectivas congregações. Receberam, com espírito apreciativo, a admoestação do irmão Knorr, feita repetidas vezes, de que a posição chave na congregação é a de ser um publicador no campo, e que cada um deles e todos eles tinham a responsabilidade de servir como tal. Foram profundamente estimulados a fazerem revisitas e a iniciarem estudos de livro. Saudaram com caloroso aplauso o anúncio da edição de um novo livro em espanhol, ‘A Verdade Vos Tornará Livres’.
“As sessões à noite foram iniciadas com a apresentação do assunto ‘Buscai Primeiro o Reino’, em espanhol, por dois irmãos argentinos. Depois disso, o irmão Knorr e seu intérprete subiram à tribuna, desta vez para falar especialmente em favor do serviço de pioneiro nesta parte da América do Sul. Foram claramente delineados os requisitos para os pioneiros regulares e os publicadores especiais, e foi feito o convite para que todos os interessados em entrar nesses ramos de serviço se reunissem com ele depois de terminada a sessão.
“Domingo, 4 de março, às 8 horas, foi proferido um discurso de batismo e, depois disso, oito candidatos foram imersos em água. Os eventos então aconteceram em rápida sucessão. Às 9 horas, todos os servos presentes, a saber, cinqüenta e cinco, reuniram-se com o irmão Knorr numa sessão especial, e ele gastou mais de duas horas em responder suas perguntas sobre o serviço de campo, os estudos de A Sentinela e de livro. Logo depois os irmãos de língua alemã se reuniram, e o novo ‘servo aos irmãos’ (agora ‘superintendente de circuito’) falou a eles, especialmente em benefício de alguns congressistas que só entendiam alemão, e que, por conseguinte, não obtinham benefícios diretos das sessões em espanhol. Estas pessoas queridas regozijavam-se de aprender, em sua própria língua, algo do que tinha sido dito até então na assembléia.
“Nenhuma reunião pública fora anunciada para domingo de tarde. A Argentina está sob o estado de sítio e, por isso, tal reunião não é permitida. Todavia, muitos interessados compareceram para a reunião da tarde, e a assistência subiu para 476. Por duas horas, sentaram-se e ouviram atentamente, à medida que o irmão Knorr, interpretado pelo irmão Franz, preferiu a mensagem sobre ‘Vindicada a Soberania Universal de Jeová’. Um mapa de parede, especialmente desenhado, ajudou-os a visualizar mais plenamente o discurso. . . . O discurso conduziu dramaticamente ao anúncio do novo folheto em espanhol, A Religião Sega o Torvelinho e os irmãos se regozijaram grandemente com isso.
“A maioria dos irmãos tiveram o privilégio de permanecer para as sessões finais da assembléia, a partir das 19 horas. Primeiro houve uma apresentação, em espanhol, do assunto: ‘A Festa de Casamento do Rei.’ . . . Daí o irmão Knorr de novo assumiu a tribuna, com um dos jovens irmãos locais como seu intérprete. Relatou à assembléia os congressos e seus privilégios de ministério até aquele ponto de sua viagem. . . . Fez com que os corações dos irmãos transbordassem de alegria ao tornar conhecido que começaria a ser publicado mensalmente um Informante argentino especial e que o recém-designado ‘servo aos irmãos’ começaria a servir a todas as congregações; e também que, brevemente, o Curso do Ministério Teocrático em espanhol seria introduzido em todas as congregações.
“Um cântico fervoroso de agradecimento a Jeová, por meio de Jesus Cristo, e então uma oração, findaram a assembléia, já bem perto das 22 horas. Na verdade, os irmãos acharam que foi bom para eles ter comparecido a essa assembléia geral.”
Exatamente quanto os irmãos argentinos “regozijaram-se com tal provisão espiritual, em especial no sentido de instruções práticas de serviço”, podemos avaliar por suas próprias expressões:
“Fiquei tomado de curiosidade”, lembra-se Francisco Alvarez. “O que era uma assembléia? O que seria dito? Naturalmente, tinha alguma idéia, tendo visto a fotografia, pendurada na parede do Salão do Reino, de uma assembléia realizada no ano de 1928 nos Estados Unidos, e podia-se ver o irmão Rutherford, e também o então jovem irmão Knorr, que logo nos visitaria. Esta primeira assembléia é algo não consigo esquecer, embora se tivesse dezesseis anos naquela época. A assembléia reafirmou minha fé e meu zelo para com a adoração de Jeová, e minha certeza absoluta de que Ele usa este povo, suas testemunhas.”
“Nesta ocasião, fiquei mais familiarizado com a organização e conheci irmãos de muitas partes do país”, escreve Francisco Callejo. “Não consegui permissão do serviço, mas deixei-o de qualquer maneira. Até então só tinha lido sobre assembléias; agora que tinha oportunidade de comparecer a uma delas, nem podia imaginar sequer perdê-la! Assim, depois de nove anos de testemunho como publicador isolado, pude ver em primeira mão como funciona a organização e, enquanto estava nessa assembléia, fui batizado.”
A irmã Albricot não pode esquecer-se do discurso do irmão Knorr sobre o serviço de pioneiro: “Até este tempo, quando se falava sobre o serviço de pioneiro, apenas visualizávamos irmãos varões maduros com suas malas, dirigindo-se a zonas inóspitas. O irmão Knorr nos ajudou a ver por que mais irmãos e irmãs jovens deveriam responder à convocação e fixar seus alvos no treinamento maior da Escola de Gileade. Seu discurso moveu vários de nós à ação, e, em 1.º de abril começamos nosso novo trabalho.” Poder-se-ia acrescentar que a irmã Albricot mais tarde cursou Gileade e até o dia de hoje continua no serviço de tempo integral junto com seu marido, Mario Segal, servo de circuito.
MELHORAS NO MINISTÉRIO
O irmão Ott nos conta como “o irmão Knorr indicou enfaticamente que o estudo da Sentinela deve durar apenas uma hora. Os irmãos Muñiz e Menazzi estavam fortemente convencidos de que isto era impossível”. Mas, o irmão Davies relata: “Ao retornar a Bahía Blanca, coloquei em prática as sugestões do irmão Knorr, e vi que ele estava certo: A lição da Sentinela pode ser estudada em uma hora, com a leitura dos parágrafos também.”
Os resultados tiveram deveras amplo alcance, e certo irmão resume tudo da seguinte forma: “Apesar de que muitos não tinham um conceito otimista, foi excitante ver de imediato o progresso espiritual. Havia maior participação nas reuniões, — mais comentários, ficara mais viva — era diferente! Agora que meu coração já não pulava mais quando ousava responder a uma pergunta, eu sentia mais confiança; agora todos respondiam e nosso progresso se manifestava em muitos aspectos: melhor vocabulário, melhor pronúncia, mais conhecimento, e, o que nos fazia mais felizes de tudo, sabermos que nossos louvares a Jeová Deus iriam ser da melhor espécie, conforme ele merece.”
A Escola do Ministério Teocrático foi outra inovação grandemente necessitada e o irmão Ott sentiu-se muitíssimo entusiasmado com as perspectivas. No entanto, o irmão Muñiz não pensava do mesmo modo. “Disse que, quando veio à organização, todas essas coisas não existiam”, lembra-se o irmão Ott, “assim a escola não era para ele. Disse-me que, se eu quisesse, podia iniciar a escola. Fiz isto, e, mais tarde, dei ao irmão Muñiz uma designação para um discurso de sete minutos. ‘O que posso dizer em apenas sete minutos?’, perguntou. Aceitou a designação, porém, desnecessário é dizê-lo, passou do tempo.”
Outro resultado feliz dessa visita de 1945 do irmão Knorr é descrita por alguém que a viveu, Gwaenydd Hughes: “Voltei do Paraguai para a Argentina, para a visita do irmão Knorr, e, visto pensar que seria uma visita breve, deixei todos os meus pertences em Assunção. Pouco sonhava com o que estava adiante de mim e as grandes bênçãos que eu iria receber! Certo dia, o irmão Knorr me chamou de lado em particular e me perguntou se gostaria de ir a Gileade, e que deveria pensar nisso. O que podia dizer? A língua não seria problema, visto que conhecia bem o inglês; mas, o curso de Gileade — não sabia nada sobre isso. Quando me foi exigida uma resposta, disse que não sabia o que dizer, visto que não sabia nada do que estava envolvido no curso de Gileade, mas que estava disposto a ir se ele achasse que eu me habilitava. Lembro-me da expressão do irmão Knorr: ‘Então vá.’ Mais tarde, acrescentou: ‘Se for a Gileade, vão precisar do irmão aqui na Argentina.’ ‘Mas, o que dizer da obra no Paraguai?’ — perguntei. A resposta do irmão Knorr foi: ‘O Senhor cuidará disso!’
“No próprio mês seguinte à visita do irmão Knorr, em 12 de abril, eu e a irmã Ofelia Estrada partíamos para os Estados Unidos — os primeiros argentinos a cursar a Escola de Gileade, e nos achávamos entre os primeiros estudantes estrangeiros a cursá-la.”
Nessa época, o irmão José Bahner, que viera da Alemanha, servia como o primeiro “servo aos irmãos” (“superintendente de circuito”) na Argentina. Antes disso ele e sua esposa, junto com o irmão e a irmã Niklash, haviam sido pioneiros na região de Santa Fé, Rosário e Paraná. A visita do irmão Knorr revolucionara o trabalho, e isto significava reorganizar as congregações, novas fórmulas de serviço e novas instruções; a obra de ensinar os irmãos e amorosamente ajudá-los a harmonizar-se com a organização progressiva seria o papel esperado do “servo aos irmãos”. É lamentável que este nem sempre foi o papel desempenhado pelo irmão recém-designado.
O irmão Armando Menazzi, que teve tanto que ver com a publicação das boas-novas na Argentina setentrional, lembra-se desta experiência triste e desencorajadora: “Eu e minha esposa fomos designados pioneiros em Córdoba. Nessa época, um irmão na fé José Bahner, veio a Córdoba; era esperto e estava atualizado com as novas regras e regulamentos sobre os quais eu não sabia nada. Assim, pouco a pouco, colocou-me de lado e me fez perder meus privilégios na direção da obra em Córdoba, tornando difícil que eu continuasse como pioneiro especial em Córdoba, apontando-me como responsável por não ter aplicado as novas instruções, e assim por diante. Então, iniciou-se um período muito crítico em minha vida: Tendo colocado meu tudo no progresso da obra, e agora me sentindo deslocado, senti-me mentalmente esgotado e comecei a sofrer de insônia. Depois de diversos dias e noites sem dormir, passei a sentir delírio e fui enviado a um sanatório onde fui submetido a tratamento de choque. Satanás aproveitou-se da oportunidade para me joeirar como trigo, mas, dois dias depois, comecei a me sentir melhor e de novo senti o impulso de ir avante. Depois de nossa primeira filha nascer, fomos designados a território não-designado em San Francisco, Córdoba.” A declaração do irmão Menazzi de que ‘Satanás aproveitou-se da oportunidade’ é comprovada por outros irmãos da região de Córdoba, que mencionam que houve uma tentativa evidente por parte dos demônios de romper a unidade e o progresso da congregação.
O irmão Knorr encorajara a divisão da congregação existente em Buenos Aires, com a certeza de que isto habilitaria mais pessoas a serem alcançadas na atividade da pregação e, ao mesmo tempo, os interessados seriam ajudados e instruídos eficazmente. Isto foi feito, e as novas congregações foram formadas de grupos que anteriormente se reuniam como grupos de estudos de livro no meio da semana. Logo a congregação de Córdoba também foi dividida pela primeira vez, cada divisão fornecendo uma alpondra para ainda maiores aumentos. Os números apontam oito congregações em 1940, e cinqüenta e oito congregações em 1950.
Que muitos irmãos levaram a peito o convite do irmão Knorr para entrarem no serviço de pioneiro é evidenciado pelos números: Em 1940 havia vinte pioneiros em todo o país; em 1950, este número aumentara para setenta e quatro — treze pioneiros especiais e sessenta e um pioneiros regulares ou gerais. O irmão Rodolfo Bock nos conta: “Eu e minha esposa estávamos determinados a nos tornar pioneiros e começamos a colocar nossos afazeres em ordem. Em outubro de 1945, entreguei minha demissão do serviço secular. O gerente, filho do dono da fábrica, disse-me não ser prático abandonar meu emprego; lembrou-me o progresso que eu fizera e falou do progresso e das promoções futuros. Mas, quando viu que minha decisão já estava feita, foi muito amigável e disse que todos estavam muito contentes com minha conduta e meu trabalho durante aqueles dez anos, e, se as coisas não saíssem bem em minha nova atividade, podia lembrar que as portas da fábrica estariam sempre abertas para mim. Toda a equipe do escritório se juntou para me comprar um presente, e, para mostrar minha apreciação, presenteei a cada um com um exemplar do livro ‘A Verdade Vos Tornará Livres’. Todos ficaram contentes de aceitá-lo.”
Maior ênfase foi dada a obra de revisitas e de estudos bíblicos. “A Verdade Vos Tornará Livres”, junto com o folheto de perguntas, foi o instrumento principal usado nesta atividade. Certo pioneiro escreve: “Os estudos nesta publicação duravam pelo menos um ano, se dirigidos regularmente. Falsas crenças, tais como a imortalidade da alma, o inferno de fogo e a trindade estavam fortemente arraigadas na maioria das pessoas, e era preciso muito tato e paciência para fazê-las entender e aceitar a verdade. À medida que nossos estudos bíblicos domiciliares aumentavam, também crescia nossa assistência às reuniões no Salão do Reino, e pouco a pouco o número de publicadores também cresceu. Planejar todos os nossos estudos exigia esforço, e alguns tinham de ser dirigidos bem tarde da noite.”
Outra atividade em que os irmãos se empenhavam era a obra de revistas na rua. O irmão Alvarez nos conta que “nas ruas e avenidas importantes da cidade de Buenos Aires, e em outras cidades em que havia congregações, A Sentinela e Consolação (mais tarde Despertai!) tornaram-se bem conhecidas do público argentino, e muitos vieram a conhecer a verdade por meio desta atividade. Eu gostava de fazer este serviço pelas avenidas do centro da cidade quando saía do meu serviço secular; ali fui identificado por meus antigos colegas de escola a quem não vira mais desde os dias escolares, e tive excelente oportunidade de lhes dar testemunho a respeito da verdade da Palavra de Deus”. A irmã Mary Seegelken nos conta uma experiência de Mendoza: “Fazíamos o trabalho de revistas não só na rua principal de Mendoza, a Avenida San Martin, mas também na praça de Godoy Cruz, onde muitos costumavam passear nas tardes de domingo. Eu e minha irmã Elba usualmente ficávamos perto uma da outra. Certo dia, um jovem professor chegou até nós e disse: ‘Coitadinhas, estas duas louras vendendo revistas!’ Aceitou as duas revistas, e hoje este anterior professor, o irmão Pedro Maza, é um servo de distrito e teve o privilégio de fazer o curso de dez meses de Gileade.” A obra de revistas nas ruas teve de ser descontinuada em 1950, quando foi proscrita a obra das testemunhas de Jeová.
AJUDAS PARA O MINISTÉRIO PRODUTIVO
Em da introdução do Curso do Ministério Teocrático, mais irmãos prepararam e proferiram discursos públicos, suas impressões nos interessam: “Grande estímulo para a assistência às reuniões foi o arranjo de reuniões públicas, usando-se os esboços que a Sociedade fornecia sobre assuntos pertinentes”, escreve o irmão Bock. “Fui obrigado a tomar parte nestes discursos públicos, visto ser servo da congregação em Rosário, e não devíamos esperar a visita do servo de circuito a fim de iniciar nossa campanha de reuniões públicas. Assim, aprendemos a proferir discursos públicos, comecei primeiro, e, então, o irmão Niklash se juntou a mim. Sentíamos uma satisfação muito grande com este privilégio adicional de serviço e, em especial, quando notamos a apreciação por parte dos irmãos e dos interessados. A freqüência ao Salão do Reino aumentou consideravelmente. Mais tarde, conforme o conselho da Sociedade, preferimos discursos em toda a parte, nos lares dos irmãos, onde isso era possível; assim, muito mais pessoas puderam comparecer a tais discursos em diferentes partes desta grande cidade. Anunciávamos estes discursos com convites.” Para a maioria dos irmãos, proferir um discurso público era deveras uma prova crucial, e mais de um “esperava que ninguém aparecesse naquele dia fatídico, quando eu me erguia, mais branco do que a neve, atrás da tribuna”. Outro irmão se lembra: “Minha escolaridade era mínima, assim, quando fiz meu primeiro discurso de uma hora, ao caminhar para o salão, eu esperava que um ônibus me atropelasse — tal era o medo que eu sentia! Mas desde então tenho preferido muitos discursos, e cada vez melhor. Sem esforço nada se consegue.”
Em fins de 1946, o irmão Hughes retornou dos Estados Unidos. Depois de uma visita inicial ao Paraguai, representando o irmão Knorr, começou seu trabalho no circuito na parte setentrional da Argentina. Então foram realizadas assembléias de circuito, a primeira das quais foi feita em maio de 1947 em Córdoba, o irmão Muñiz servindo à assembléia como servo de distrito. Em junho, uma assembléia foi realizada no sul, em Bahia Blanca; aqui o irmão Hughes serviu como servo de distrito. Nesta assembléia, o irmão Hughes realizou seu primeiro batismo, e na própria piscina em que havia sido batizado apenas quatro anos antes. “Foi depois da assembléia de Bahia Blanca”, relata o irmão Hughes, “que visitei meu lar em Chubut pela primeira vez desde que havia partido de lá uns quatro e meio anos antes. Fui convidado a proferir um discurso na Igreja Galesa, e proferi-o em galês. É triste dizer que, apesar do trabalho feito pelos primeiros pioneiros e por muitos desde então, a obra não encontrou solo fértil entre o povo galês. Lembro-me de oferecer algumas publicações da Sociedade a um de meus parentes galeses; ele exclamou: ‘Ora, eu pensava que essa religião não existisse mais — pensava que tivesse cerrado as portas em 1914!”
Essas primeiras assembléias de circuito tinham a natureza de assembléias nacionais, visto que os irmãos de todas as partes da Argentina compareceram a elas. Explica a irmã Albricot: “Naquele tempo a ferrovia dava considerável desconto para grupos de mais de dez pessoas, assim, mais de uma vez, um ou dois vagões ficaram cheios de irmãos. Acabávamos com a monotonia da viagem por meio de cânticos e experiências, e assim a assembléia realmente começava no trem. Ao chegarmos na cidade da assembléia, um irmão esperava o trem com uma lista de hotéis, preços, e assim por diante, e escolhíamos aquele ao nosso alcance. Daí, cada um, ou pequenos grupos, faziam arranjos para comer durante os dias da assembléia, visto que não havia restaurante.”
O programa da assembléia de circuito continuou, sendo planejadas assembléias em uma cidade após outra. Cada assembléia era a ‘primeira’ na cidade em que era realizada, e os irmãos de toda a parte a acolhiam com alegria e entusiasmo transbordantes. Mary Seegelken comenta a primeira assembléia de Mendoza: “Trabalhamos arduamente no departamento de hospedagem, visto que os irmãos vinham de Buenos Aires, Córdoba, Santa Fé e de outras províncias. Poucos dias antes de a assembléia começar, os ônibus entraram em greve, assim, tínhamos de andar até encontrar quartos para todos. Agradecemos a Jeová por ter encontrado um novo hotel, ainda não inaugurado, e o dono nos ofereceu preços razoáveis, assim nosso problema foi resolvido. Esta assembléia foi uma verdadeira alegria.”
Em outubro de 1948, seis graduados de Gileade chegaram a Buenos Aires: Charles e Lorene Eisenhower, Viola Eisenhower, Helen Nichols, Helen Wilson e Roberta Miller. Cinco se formaram na primeira turma de Gileade e todos haviam servido em Cuba como missionários, antes de serem designados à Argentina. A maioria destes missionários ainda se acham no serviço de tempo integral na Argentina.
Buenos Aires, conforme vista através dos olhos da recém-chegada missionária Helen Nichols, nos é de interesse: “Desde o dia em que pousamos, podíamos ver que esta designação seria diferente. Como fiquei impressionada com os bebês lindos, gordinhos e de bochechas rosadas, vestidos da cabeça aos pés de lã aconchegante! Não demorou muito para notarmos como os trabalhadores nas ruas ou em construções paravam ao meio-dia para preparar seu almoço junto à calçada. O bife assado na brasa, um pedaço de pão francês e uma garrafa de vinho constituíam seu passadio. Parecia que todo o mundo tinha abundância do que comer, abundância do que vestir e toda diversão desejada. Essa nota de prosperidade me fez compreender que tínhamos de ficar alertas para convencer as pessoas da importância da mensagem do Reino — teríamos de mostrar-lhes que as bênçãos do Reino são maiores do que as coisas que possuíam ou conheciam.” Os missionários também verificaram que a “hora da siesta” se estende até às 15 horas, geralmente, e que o jantar é servido entre as 21 e 22 horas, e isto exigia que ajustassem suas tabelas às dos moradores.
A ASSEMBLÉIA DE 1949
Em abril de 1949, o irmão Knorr e o irmão Henschel visitaram a Argentina e uma assembléia foi organizada num mui excelente salão, Les Ambassadeurs. Pouco antes de a assembléia iniciar, a filial foi informada de que fora revogada a licença policial para se realizar a assembléia. O assunto foi então levado a um destacado advogado que, por sua vez, foi ver a polícia. Disseram-lhe que fosse ao Ministério das Relações Exteriores e Cultos. A polícia disse aos irmãos que eles poderiam realizar sua assembléia em seu próprio salão em que eram feitas as reuniões regulares na semana e no domingo. Em tempo algum, durante os oito anos em que o salão na Rua Honduras tinha sido usado, os irmãos encontraram quaisquer dificuldades. Ali começou a assembléia, na noite de sexta-feira, 8 de abril, com 672 pessoas presentes. Na manhã de sábado realizou-se um batismo, 76 candidatos sendo batizados no Rio La Plata. Por volta da tarde de domingo, 1.200 estavam presentes; o salão estava mais do que superlotado, o quintal estava cheio até o portão, e havia centenas de pessoas no terraço. Alto-falantes serviam a inteira assistência. O irmão Knorr começou seu discurso programado, “Já É Mais Tarde do que Pensais”, tendo o irmão Hughes como intérprete. Às 16,40 horas, um policial e um senhor em trajes civis atravessaram a multidão até chegar à tribuna e disseram que o discurso devia cessar imediatamente; logo depois havia uma dúzia de policiais fora do prédio e uns trinta mais que chegaram numa camioneta aberta da polícia. Puxaram seus revólveres e traziam bombas de gás lacrimogêneo! Cerca de 200 dos irmãos, inclusive os irmãos Knorr, Hughes e Muñiz, foram levados para a delegacia. Menciona Helen Nichols: “Esta foi a primeira vez em que fui presa, e o irmão Knorr também!” A maioria dos irmãos foram levados para a delegacia na camioneta, trinta de cada vez.
Por fim, a polícia compreendeu que isto certamente seria uma tarefa infindável; daí, também, a camioneta policial ficou sem gasolina. Assim, os irmãos restantes foram detidos no salão, sob escolta policial. Os levados para a delegacia foram detidos num grande pátio aberto em que foram obrigados a ficar de pé durante horas. Era frio e úmido, e a maioria não comera nada desde o meio-dia, ao passo que alguns não haviam comido desde o desjejum. Depois de todos terem sido fichados e percorrerem os trâmites legais, foram por fim soltos nas primeiras horas da manhã de segunda-feira. Nem o advogado nem os irmãos obtiveram uma resposta satisfatória quanto a por que foi paralisada a reunião, mas um pormenor interessantíssimo se destaca. O chefe de polícia que levou o irmão Muñiz para a delegacia parou na igreja católica a caminho. Disse que desejava ir ver o padre. Dez minutos depois, voltou e levou o irmão Munir para a delegacia, para ser fichado.
O irmão Henschel estava do outro lado da rua em frente ao Salão do Reino, tirando fotografias, quando começaram as dificuldades e assim pôde entender a situação. Mais tarde, conversou com o irmão Knorr por telefone e recebeu instruções de prosseguir em direção a Assunção, Paraguai, no dia seguinte, conforme planejado, caso o irmão Knorr não fosse solto a tempo. Quando o irmão Knorr chegou ao hotel, o irmão Henschel estava dormindo; ao acordar e abrir a porta, perguntou ao irmão Knorr como iam as coisas. O irmão Knorr respondeu: “Já é mais tarde do que pensa.” Eram 5 da manhã. Só havia tempo para fazer as malas, comer um pouco e descer para o porto dos hidraviões, onde ele e o irmão Henschel, junto com o irmão Hughes, tomaram o avião para a viagem ao Paraguai.
Mas, por que esta interferência na assembléia de Buenos Aires e em diversas assembléias de circuito? Após muitos meses de esforço, o governo tinha reconhecido La Torre de Vigia como organização religiosa em 1948. Os membros eram eleitos para esta organização legal, tendo o irmão Muñiz como seu presidente. Em 1946, o governo de Perón, sob influência da Igreja Católica Romana, formara um departamento de cultos ou religião dentro do Ministério das Relações Exteriores. O seu propósito era exigir que todos os grupos religiosos, exceto a Igreja Católica, fossem registrados. O Congresso naquele tempo não sancionou a medida. No entanto, em 1949, o projeto de lei foi de novo apresentado, e, devido à pressão das influências católicas, foi aceito. Foi então exigido que todas as religiões se registrassem no Departamento de Cultos do Ministério das Relações Exteriores. Foi então que os publicadores do Reino começaram a ter dificuldades.
Por fim, a obra das testemunhas de Jeová foi oficialmente proscrita em agosto de 1950. Citando-se a Resolução 351 do decreto do Ministério, o motivo é declarado como sendo que “a organização [das testemunhas de Jeová] é contrária aos princípios consagrados na Carta Magna, difundindo doutrinas contrárias às Forças Armadas e ao respeito que deve ser prestado ao símbolo nacional”. Vez após vez as testemunhas de Jeová, por meio dó seu representante no país, solicitaram o reconhecimento de modo a poderem pregar de forma livre as boas-novas do Reino, conforme garantido pela Constituição argentina, mas até então sem resultado.
Proibições, proscrições e a perseguição não são novos para os servos de Jeová. Como tais obstáculos foram enfrentados e como a obra tem sido feita na Argentina sob tais condições constitui um capítulo importante e interessante do desenvolvimento da obra aqui. Pouco antes da proscrição da obra, quinze irmãos argentinos partiram para a assembléia internacional em Nova Iorque; enquanto estavam ali, ouviram as notícias de que a obra tinha sido oficialmente proscrita. Como testemunhariam na Argentina e qual seria a verdadeira condição da obra quando voltassem? O irmão Hughes era um delegado a tal assembléia e nos conta sua experiência pessoal.
PREGAR APESAR DOS PROBLEMAS
“Enquanto estava em Nova Iorque, o irmão Knorr me designou servo da filial na Argentina. No entanto, quando voltei a Buenos Aires, foi necessário encontrar a filial. Oh, sim, a casa na Rua Honduras, 5.646, ainda estava lá; visto que estava no nome do irmão Muñiz, não havia problema. Mas, os registros e tudo o mais que constituem uma filial se achavam espalhados aqui e acolá nas casas dos irmãos. Por certo tempo, foi necessário que um irmão viajasse por todo o país no fim de cada mês para obter os relatórios de cada congregação ou grupo; outros irmãos vinham pessoalmente a Buenos Aires trazer seus relatórios Daí, depois de compilar o relatório, o servo da filial ou outro irmão viajava para o Uruguai para enviar o relatório a Brooklyn. Pode imaginar que dificuldade era compilar o relatório de cada mês.”
A década de 1940 a 1950 se provara emocionante, com aumento e inovações na estrutura teocrática. Quão alegres se sentiram os irmãos ao considerarem os resultados fornecidos no relatório anual de 1950: 58 congregações, 13 pioneiros especiais, 61 pioneiros regulares e 1.218 publicadores de congregação! Devido à dificuldade para se importar publicações, apenas 60.870 livros e folhetos foram colocados, mas fizeram 112.693 revisitas e dirigiram 973 estudos bíblicos domiciliares. A obra de revistas era frutífera, e obtiveram 3.495 assinaturas novas e colocaram 153.320 exemplares avulsos das revistas. Na Comemoração da morte de Cristo naquele ano havia 1.747 pessoas presentes, e durante o ano foram preferidos 979 discursos públicos.
A preocupação primaria dos irmãos era: continuaria a florescer a obra sob proscrição? Algo em nosso favor era que muito embora trabalhássemos sob condições restritas, as revistas e outras publicações entravam no país pelo correio até os lares de diferentes irmãos. Perguntemos ao irmão Hughes como ia a obra durante a proscrição. “Permanece um fato interessante: a proscrição oficial da obra resultou na maior bênção para a expansão da obra. Os pequenos grupos, ou centros de serviço, floresceram e tornaram-se fortes, e isto lançou a base para a formação de tantas congregações depois disso.”
A Sociedade viu a necessidade de mais visitas dos servos de circuito a todas as congregações no país, com a finalidade de instruir os irmãos sobre como executar a obra. O irmão Eisenhower, que servia como servo de circuito na parte setentrional do país desde 1949 em diante, fala de sua visita à congregação em Rosário. Aqui se demonstrou como a pregação podia ser feita sem se apresentar a revista A Sentinela ou as publicações da Sociedade. O irmão Eisenhower e sua esposa iam de casa em casa com os publicadores. Usavam apenas a Bíblia, lendo três ou quatro textos bíblicos em forma dum sermão. Demonstrou-se aos servos na congregação e a outros publicadores como isto era feito e eles, por sua vez, puderam ensinar a outros. O irmão Eisenhower nos conta que “quando encontrávamos pessoas desejosas de aprender mais sobre Deus e seu Reino, e o novo sistema de coisas, anotávamos seu nome e endereço e fazíamos arranjos de voltar para lhes trazer publicações bíblicas e, ao mesmo tempo, iniciar um estudo bíblico”. Em questão de duas semanas o irmão Eisenhower cobria seu circuito, visitando todas as congregações. Relata que os irmãos se sentiam muito entusiasmados com esta forma de falar as boas-novas do Reino.
As reuniões eram dirigidas em grupos de seis, oito, dez ou doze pessoas. O servo de circuito visitava esses grupos, passando três dias em cada um: domingo, segunda e terça em um grupo; de quinta a sábado em outro. Desta forma, proferia seu discurso de serviço em cada grupo e, também, onde possível, proferia um discurso público. A obra progredir e novos grupos, e maiores grupos eram organizados.
Em janeiro de 1951, o irmão Rogelio Del Pino, com sua esposa, Dora, foram designados ao trabalho de circuito. O irmão Del Pino se lembra de suas visitas a diferentes congregações na Capital Federal e áreas circunvizinhas: “Era um trabalho interessante e era feito com sabedoria e coragem. Embora não sofrêssemos perseguição ardente, todavia, estávamos sob proscrição e não gozávamos de completa liberdade. Estávamos sempre cônscios disso e orientávamos nossa atividade e movimentos de acordo. A filial fornecia conselhos e sugestões exatas que, quando seguidas fielmente, impediam-nos de meter-nos em dificuldades mais séries, e mantinham a obra com vibração e vida. Quando veio maior liberdade, emergimos bem organizados e a obra não havia sofrida em nenhum grau considerável. Exercia-se cautela, mas as ‘ovelhas’ jamais foram abandonadas. A filial nos mantinha sempre supridos das últimas instruções e o servo de circuito cumpria seu trabalha de visitar e alimentar as congregações, da mesma forma que hoje. Só uma coisa era diferente: os locais em que tais reuniões eram realizadas. Era uma pequena sala de visitas, uma sala de jantar ou uma cozinha — jamais tínhamos lugares suficientes, embora sentássemos em camas, sobre uma mesa ou uma máquina de costura. Grande era a responsabilidade dos dirigentes desses grupos.”
Sobre a responsabilidade de dirigir tal grupo, o irmão Fernando Fanin, que abraçou a verdade em Córdoba, em 1947, fornece-nos uma vista de perto: “Nesses pequenos grupos, podia-se dar atenção pessoal aos irmãos e aos interessados num grau maior do que numa congregação grande. Este cuidado e associação constante resultaram num espírito familiar entre nós, e isto incentivava o crescimento espiritual. Adicionalmente, os dentre nós que eram designados a cuidar desses grupos tinham a oportunidade de crescer espiritualmente visto que tínhamos a responsabilidade de dirigir as reuniões e realizar o trabalho de cada servo, como se fossemos superintendentes de uma congregação. Dirigíamos o estudo da Sentinela, atuávamos como servo de escola, e dirigíamos a reunião de serviço.” Podemos avaliar como esses pequenos grupos estavam intimamente ligados para o zeloso progresso da obra.
Visto ser impossível reunirmo-nos em grandes reuniões, tais como assembléias de circuito e de distrito, pequenas reuniões foram organizadas no interior, não raro nas florestas. O irmão Eisenhower nos conta como os servos de congregação, servos ajudantes de congregação e servos de estudos bíblicos, junto com os dirigentes dos estudos de livro, eram convidados a tais assembléias de um só dia. “Era como um piquenique ou reunião em família, e se provaram mui benéficos e úteis para os irmãos, a fim de manter a obra em progresso no país.”
Helen Wilson, uma das missionárias que serviam em Buenos Aires naqueles anos, conta-nos a sua alegria: “Eu e minha companheira, Helen Nichols, fomos convidadas a comparecer a uma destas assembléias de um só dia, visto que éramos temporária mente dirigentes de estudos. Como a apreciamos! Era tão encorajador reunir-nos com irmãos diferentes dos do nosso pequeno grupo. Muitas vezes não apreciamos tanto as assembléias quando são livres e abertas. O arranjo de restaurante era diferente de qualquer assembléia a que eu já assisti: a refeição consistia em um carneiro inteiro enfiado numa vara, em certo ângulo, e assado sobre brasas. Quando o asado estava pronto, todos nos reuníamos, cada um se servindo da mesma tábua de cortar e de grandes tigelas de salada — tendo tudo em comum.”
Até mesmo nessas reuniões menores, às vezes se encontrava dificuldades. Em Córdoba, foi organizada uma reunião na fazenda de um dos irmãos. A polícia descobriu sobre ela e veio dissolver a reunião, levando os irmãos Natalio Dessilani, Ermelindo Goffi e Charles Eisenhower para a delegacia local e detendo-os por vinte e quatro horas. Depois disso, foram soltos e avisados para não realizarem mais nenhuma reunião ilegal.
Às vezes surge a pergunta de como os mais novos e imaturos podiam aceitar a mensagem e começar a pregá-la, sabendo que estavam sujeitos a ser presos. Todavia, quase todos os que vieram a associar-se eram corajosos no serviço e de forma alguma sentiam temor com o que lhes pudesse acontecer. Um jovem publicador disse que aceitara a mensagem do Reino por saber que teria de lutar. Com o tempo, este irmão, Armando Ceirano, tornou-se pioneiro, e então servo de circuito e servo de distrito. O irmão Fanin nos fala de levar uma recém-interessada de porta em porta pela primeira vez: “Visitamos uma casa em que morava um congressista do partido governamental. Ele escutou-nos e nos convidou para entrarmos. Fiquei feliz, pois pensei que talvez estivesse interessado. Mas, logo que estávamos lá dentro, ele disse que devíamos preparar-nos para ser presos porque ele preparara um projeto de lei para apresentação ao Congresso, e por meio dele as testemunhas de Jeová seriam exterminadas, e que tal projeto seria em breve aprovado. Nisso, tentou telefonar para a polícia, enquanto eu puxava a Bíblia e lia para ele Daniel 2:44 e o Salmo 2. Devido a ficar tão perturbado, não conseguiu discar o número correto, e assim não conseguiu comunicar-se com a polícia. Depois de ler os textos, eu disse à publicadora: ‘Vamos embora daqui!’ Como reagiu minha jovem companheira diante de tudo isso? Fiquei bem surpreso de ver que, ao chegar na próxima porta, ela prosseguiu imperturbável e tocou a campainha sem medo algum. Logo depois, Myriam Ossman dedicou sua vida a Jeová e entrou nas fileiras dos publicadores de tempo integral.
A ARGENTINA USUFRUI ASSEMBLÉIA NACIONAL
Estas foram as condições sob as quais os irmãos na Argentina trabalhavam na ocasião da seguinte visita do irmão Knorr, em dezembro de 1953. Enquanto ele sobrevoava a cordilheira dos Andes, de Santiago, Chile, até Mendoza, Argentina, muitos dos amigos de Mendoza lá se achavam no local de assembléia. Dali podiam ver o avião do Chile ao descer do alto dos Andes e perder-se de vista em direção ao aeroporto de Mendoza. O irmão Eisenhower, agora servo da filial, e sua esposa se reuniram com o irmão Knorr e juntos viajaram até um pomar de frutas da família Giandinotto. Ainda havia tempo, antes do discurso programado, de modo que o irmão Giandinotto convidou o irmão Knorr e alguns outros para irem até o pomar de cerejas — tinha reservado uma seção inteira cheia de grandes cerejas vermelhas e amarelas maduras. Cercados de carramanchões de uvas e de árvores frutíferas — que local ideal para o discurso do irmão Knorr! Depois do discurso, saborearam um almoço que incluía azeitonas verdes, maduras, e bastantes frutas, todas cultivadas na propriedade deste irmão Dal veio a viagem de volta à cidade, onde se pernoitou na casa dos Seegelkens; nessa mesma ocasião, dois dos filhos dos Seegelkens, German e Mary, eram estudantes da vigésimo segunda turma de Gileade.
Se o primeiro dia desta viagem foi belo e memorável, os dias posteriores não o seriam menos. O relato de primeira mão nos é fornecido por The Watchtower (A Sentinela): “Depois de uma noite de descanso, despertamos às 5 da manhã, e um grupo de cinco pessoas estava pronto a ir de táxi a outra assembléia, a 178 quilômetros ao norte de Mendoza, ao pé da cordilheira, em San Juan. O grupo atravessou a cidade e dirigiu-se ás montanhas, rodando por um vale estreito, com colinas rochosas elevadas e recortadas de ambos os lados da estrada. Ali, pouco atrás desta primeira fileira de montanhas, a fumaça espiralada que subia ao pé das montanhas indicava o local pré-arranjado do piquenique. O riacho próximo, que corria rápido, saudava a todos com alegre ruído de boas-vindas. . . . e a multidão que chegava começou a saudar a todos com caloroso aperto de mão. Sem perder tempo, o grupo se reuniu perto de uma clareira ao longo da corrente, e o discurso começou, as árvores fornecendo um teto para a multidão de 135 irmãos Foi bem depois do meio-dia que se encerrou a reunião com oração. Já era hora de se comer e o asado estava a caminho.
“Brasas quentes e carne de vaca chiando — que aroma! Isto é típico da Argentina e o gaucho se nutre deste alimento. Quem não o faria! . . . o asador grita: ‘Está lista’ (‘Está pronta’). Significa que não devem passar muitos minutos, pois a carne está no ponto correto para ser comida.
“Com garfos, os grandes pedaços de carne foram levados das grades a uns metros de distância até a grande ‘mesa’ com topo de metal. Para que pratos! . . . é muito mais delicioso comer um asado com as mãos, como o fazem os argentinos. Há um só garfo para todos na grande bandeja de estanho que contém uma salada mista de cebola, alface e tomate. É uma combinação maravilhosa com a carne.”
Agora, a viagem de volta a Mendoza, depois de despedida pessoal para todos. Na manhã seguinte, a questão era levantar cedo para os três viajantes, o irmão Knorr e o irmão e irmã Eisenhower, visto que deviam voar para Córdoba, a uma distância de 700 quilômetros. Arranjos foram feitos para que o irmão Martín Barrena, de Buenos Aires, se juntasse a eles nesse ponto e os levasse de carro de lugar em lugar durante o resto de sua longa viagem. Em Córdoba, os irmãos de quatro congregações haviam feito arranjos para uma reunião fora da cidade, na fazenda da família Goffi. Duas horas e meia foram gastas em conselhos. Não havia cadeiras, de modo que todos ficaram de pé. Depois disso, os irmãos aqui tinham muitas perguntas, e alguns que sabiam falar inglês puderam conversar com o irmão Knorr. Os irmãos refutaram em permitir que os visitantes se fossem, mas por fim, disseram adeus e o carro partiu para a viagem de três horas até San Francisco.
À medida que o carro se aproximava do local de reunião, todo o mundo ficava bem quieto — apenas um irmão se sentava na calçada, esperando a chegada dos visitantes para mostrar-lhes o local de reunião. Lá dentro cerca de trinta e cinco pessoas esperavam ouvir o irmão Knorr. Nessa noite, os viajantes dormiram em Santa Fé; na manhã seguinte cruzaram de lancha o Rio Paraná, e daí foram direto ao local de reunião. Voltando mais tarde a Santa Fé, o irmão Knorr visitou quatro grupos nessa cidade — isto significava uma corrida de um lugar para o outro. Daí, de Santa Fé até Rosário, onde um grupo foi visitado nas horas da noitinha. No dia seguinte, mais quatro grupos de Rosário foram visitados.
Depois do meio-dia, o grupo no carro se dirigiu para Ciudad Evita (Cañada de Gómez). Aqui se encontrou o servo de congregação, como foi feito em todo o caminho, de modo que pudesse orientar os visitantes até o local de reunião. Desta vez, achava-se a seis quilômetros fora da cidade, numa fazenda dum irmão três congregações estavam presentes, e os irmãos realmente fizeram disso um piquenique de um dia. Quando se avistou o carro, os irmãos foram avisados. Quando os visitantes chegaram, todos estavam sentados no quintal dos fundos, onde se havia erguido uma tribuna e se pendurara o texto do ano. Buquês de flores se achavam em toda a parte. O irmão Knorr comentou como “todos esses irmãos por todo o caminho, em todas as partes do país, haviam percorrido grandes distâncias e tirado tempo do trabalho no meio da semana apenas para se reunir com seus irmãos de fé igualmente preciosa e receber boas palavras de um dos servos de Jeová. Seria difícil assentar por escrito como eles se sentiam e como o irmão Knorr se sentia. Mas o amor é expresso. Aqui o amor estava em ação”. Embora não houvesse tempo para se comer com os irmãos, os visitantes receberam um enorme bolo e galinha assada para levarem. Ao partirem, os irmãos locais cantavam cânticos teocráticos, acompanhados por um acordeão.
The Watchtower descreve a próxima parada, em Bell Ville, no lar de uma das irmãs, nos limites da cidade. “ . . . haviam preparado um lugar junto da casa. Onde as árvores e os arbustos não cobriam suficientemente, penduraram-se cobertores e pedaços de fazenda para desviar a atenção dos possantes. Aqui havia setenta e cinco pessoas de três congregações”.
Às 1,40 da madrugada, o grupo chegou a seu próximo destino, Rio Cuarto. Às 9 horas, o discurso estava programado num lugar recluso numa pequena fazenda. O irmão Knorr proferiu um discurso de serviço bem firme e enfático. Cerca de trinta publicadores e quatro pioneiros desta congregação haviam provocado uma divisão entre os irmãos e deixavam de reconhecer a atual congregação e, ainda assim, vinham solicitar publicações e território. O irmão Knorr respondeu perguntas quanto ao proceder correto em desassociar os que causavam divisão. Era surpreendente ver quão organizado estava este grupo, de modo que os infiéis não conseguissem encontrar o local de reunião. O servo de congregação lhes havia indicado um certo lugar nas cercanias da cidade, onde um irmão esperava, e ali ele lhes indicava o lugar exato. Dessa forma, os indesejáveis não podiam infiltrar-se.
Não se pode perder tempo, de modo que os irmãos levaram frutas para uma viagem de seis horas até Pergamino, onde dois grupos se haviam ajuntado para o discurso do irmão Knorr. Daí, prosseguiram até a última parada antes de Buenos Aires a cidade de Salto. Os irmãos aqui haviam escrito de antemão solicitando que os viajantes permanecessem para almoçar depois do discurso do irmão Knorr. Assim, depois de chegarem, os visitantes viram dois cordeiros sendo assados, estendidos em varas de ferro inclinadas. Levava três horas para se assar deste modo. O irmão Knorr serviu a refeição espiritual de mais de uma hora, e então as mesas foram postas. Os irmãos expressaram sua alegria por não ter chovido, pois, caso tivesse chovido, teria sido impossível viajar pela estrada lamacenta. Depois que os irmãos partiram, caiu uma chuvarada!
O irmão Knorr e o irmão e a irmã Eisenhower, junto com seu motorista, o irmão Barrena, chegaram em Buenos Aires às 2 da madrugada. Todos esses dias de viagem — cerca de 2.400 quilômetros — haviam mantido uma tabela bem apertada, visitando, ao todo, dezenove grupos e falando a 1.232 pessoas em apenas seis dias. Quanto apreciaram seu privilégio de serviço e o modo em que os irmãos haviam executado fielmente as instruções! E apreciaram o excelente serviço que o irmão Barrena havia prestado, levando-os em seu carro.
Quando o irmão Knorr entrou na Argentina, vindo do oeste, o irmão Milton Henschel veio do norte, do Paraguai. Em Buenos Aires, apanhou seu companheiro de viagem, o irmão Hughes, e juntos voaram os mais de 1.000 quilômetros para o sul, até Neuquén, situado abaixo do paralelo 38, no rico vale frutífero do Rio Negro. Aqui, na fazenda de um dos irmãos, cerca de 115 dos amigos de quatro congregações nessa região se haviam reunido. Para esses publicadores semi-isolados esse foi o maior evento de sua história.
Diretamente a leste de Neuquén, na costa do Atlântico, se acha a cidade de Bahía Blanca, e o trem local para em cada cidade ao longo do caminho em sua viagem de um dia. Em muitos destes povoados, os irmãos esperavam para saudar os viajantes. Na manhã seguinte o irmão Henschel falou a dois grupos em Bahia Blanca. Um dos irmãos locais, que possuía um carro, ofereceu seus serviços, e, assim, começou uma viagem de carro de 1.245 quilômetros. Viajando para o norte, junto à costa atlântica, a próxima parada foi o famoso recanto à beira-mar, Mar del Plata. Devido a uma partida tardia de Bahía Blanca, os irmãos se perguntavam se o grupo em Mar del Plata ainda estaria esperando por eles. Estavam sim, e, depois das 22 horas, foram galardoados com o discurso há muito esperado do representante especial da organização de Jeová.
No amanhecer do dia seguinte, nossos irmãos visitaram Balcarce, onde vinte e dois irmãos se reuniram numa fazenda perto da cidade. Em seguida na rota se achava Tandil, onde pequena congregação fora formada por um pioneiro. Numa pequena casa nos limites da cidade, cerca de trinta e três pessoas se reuniram para o discurso. Tarde da noite, os irmãos viajantes chegaram em Buenos Aires.
Congregações ao redor da Capital Federal foram as seguintes a ser visitadas: Eva Perón (agora La Plata; muitas cidades receberam novos nomes durante o regime de Perón, reassumindo seus antigos nomes depois da revolução de 1955), Berisso, Ensenada, e Bernal. Em 25 de dezembro, o irmão Knorr e o irmão Henschel se achavam em Buenos Aires. Nenhuma reunião congregacional foi programada para esse dia, mas, à noite, todos os graduados de Gileade em Buenos Aires se reuniram no lar missionário para Jantar e uma palestra.
Começando no dia seguinte, devotaram-se três dias a visitar os grupos em Buenos Aires. Cada grupo recebeu um programa completo de duas horas: primeiro, o irmão Knorr, com seu intérprete, falou por cerca de quarenta minutos; ao terminar, apresentou o irmão Henschel, que leu um discurso de quarenta minutos em espanhol; daí, o irmão Hughes foi apresentado, e proferiu um discurso em espanhol sobre a organização teocrática. Foi feita uma tabela bem exata que correu exatamente como um relógio. Quando os irmãos chegavam num apartamento ou numa pequena casa nos limites da cidade, ou entravam num quintal, ou numa cozinha, ou numa sala de estar, todos já estavam sentados, esperando ansiosamente com rostos sorridentes. Como desejavam aplaudir — mas não desejavam atrair a atenção para seu local de reunião! Num dia, nove de tais reuniões de duas horas foram realizadas, e, no dia seguinte, domingo, onze grupos foram visitados.
Nesta visita à Argentina, o irmão Knorr falou a um total de 43 grupos, com 2.053 pessoas na assistência. O irmão Henschel falou aos mesmos grupos em Buenos Aires, além de a 13 outras congregações para o sul e o oeste, com 452 assistentes, resultando no total geral de 2.505 pessoas para este arranjo bem diferente de assembléia. Não foi sem razão que The Watchtower (Sentinela) de 1.º de maio de 1954 intitulou seu relato das viagens do irmão Knorr como “Realizando Nacionalmente Uma Assembléia do Novo Mundo na Argentina”!
OS SERVOS DE CIRCUITO CONTRIBUEM PARA A EXPANSÃO
A obra de circuito continuou a fazer esplêndida contribuição para a atividade incrementada das congregações e dos grupos isolados. O irmão Del Pino descreve vividamente os obstáculos e as alegrias deste serviço: “Nosso trabalho com os irmãos não foi sempre o de explicar o significado de alguma profecia bíblica e seu cumprimento, às vezes tinha que ver com muitos aspectos da vida diária — por em ordem a vida familiar, os filhos e um decente ‘vaso sanitário fora de casa’. lera uma questão de organizar os arquivos da congregação, explicando seu uso — apenas para voltar um ano ou mais depois e verificar que nada havia sido feito. Assim, começávamos tudo de novo. O mesmo se dava com as instruções sobre o serviço de campo e as reuniões; o importante era não ficar desanimado e usar o que se achava disponível. Quanta alegria sentimos hoje quando observamos estes mesmos irmãos ocuparem posições de servo e exercerem muita responsabilidade na organização de Deus, cumprindo-a com habilidade e apreciação!
“Quando visitávamos pequenos grupos isolados e congregações com poucos publicadores e em locais em que a obra era bem conhecida, fazíamos arranjos de visitar outros povoados próximos. Isto significava acordar cedo, às vezes às 3 da madrugada, a fim de esperar pequeno ônibus que passava apenas nessa hora bem cedo e voltava ao por do sol. Durante a estação fria, todos tremíamos de frio. Chegando ao nosso destino por volta das 5 da manhã, saltávamos do ônibus antes de ele chegar na cidade, porque a polícia verificava os passageiros no ponto final, e interrogava os não conhecidos na comunidade. Tínhamos presente que a obra estava proscrita. Logo que o galo começava a cantar e podíamos ver algum movimento de pessoas, ou as luzes eram acesas, começávamos a visitar as casas com as boas e matinais novas do Reino. Sempre trabalhávamos a zona rural até o meio-dia, chegando no centro, perto da delegacia, enquanto eles comiam. Parávamos um pouco, comíamos os sanduíches que trazíamos, e então continuávamos até chegar o ônibus para a viagem de volta para casa.
“A atividade de circuito na província do Chaco também o familiarizará com o que estava envolvido em nosso serviço de fazer discípulos. O calor intenso, a falta de transporte naqueles anos, muitas vezes a falta d’água, e as montanhas de pó nas estradas, tornavam as visitas duras e fatigantes. Muitas vezes tínhamos de usar bicicletas de modo a cobrir longas e cansativas distâncias, e, visto que a maioria dos irmãos eram mais jovens e estavam mais acostumados a andar de bicicleta, era difícil para nós manter o passo que eles estabeleciam naquelas estradas e trilhas tortuosas. Muitas vezes voltávamos à noite por trilhas estreitas, cheias de mato e espinhos, e, bastava a pessoa sair um pouquinho da estrada estreita que terminava com a roupa rasgada e a pele ferida. Chegando em casa, encontrávamos os arranhões pelo nosso corpo. Hoje, relembramos aqueles dias e como Jeová abençoou seus servos zelosos. Atualmente, no Chaco, ao longo dessas estradas e trilhas, há grupos e congregações que louvam a Jeová.
“Outro aspecto interessante da obra na província do Chaco era proferir discursos públicos nos campos de abate de madeira, que não deve ser confundido com os campos madeireiros da América do Norte. Tais campos se situam no coração de locais semelhantes a selvas, e se compõem de barracas e ‘meia-águas’ precárias em que vivem os cortadores de madeira. Alguns erguem tendas modestas ou penduram uma rede de dormir, e é assim que vivem. Visitávamos esses campos e os convidávamos para um discurso bíblico gratuito em certo dia e hora — naturalmente, era sempre depois das horas de trabalho, ao cair da noite. Isto lhes dava tempo de vir, lavar-se um pouco, beber alguns mates (yerba mate, a bebida nacional argentina). O percurso da casa do irmão onde pousávamos era outra experiência: levávamos uma lamparina de querosene para a reunião noturna, e, às vezes, em fila indiana, passando por cercas de arame farpado que dividem os terrenos — raramente qualquer um de nós voltava imune desta aventura, nossas camisas e corpos indicavam que havíamos passado pelo arame farpado. Mas, este não era o único obstáculo. Nessa hora da tarde, as cobras costumavam sair e se esticar preguiçosamente pela estrada. Seria fatal cometer o erro de pisar numa. Nossa chegada ao local da reunião era singular — não havia cerimônia aqui, apenas algumas saudações, alguns apertos de mãos daquelas mãos calejadas do trabalho, daí, procurar uma árvore onde pendurar a lamparina. Não havia tribuna de orador, nem palco, nem ventilador. Cada um se sentava onde queria, no chão, ou ficava agachado, ou numa caixa ou se apoiava contra uma árvore. O erro que certa vez cometi foi o de ficar perto da lamparina de querosene para ter mais luz: recebi a visita de centenas de insetos interessados, não em mim, mas na luz. Era maravilhoso observar que, enquanto falávamos, aqueles rostos queimados pelo sol e pelos elementos como couro, e refletindo indizível fadiga, ainda conseguiam apresentar um sorriso de felicidade ao aprenderem sobre a prometida Nova Ordem de coisas. Ao terminar o discurso, e depois de cumprimentarmos a todos de novo, andávamos de volta para casa sob um céu estrelado, sentindo-nos alegres de ter uma parte em cumprir a ordem de Jesus: ‘Ide e fazei discípulos.’
“A província de Misiones era também um desafio para o servo de circuito. Quando eu e minha esposa, Dora, visitamos esse lugar, poucas eram as estradas e ainda menos eram os meios de transporte. [freqüentemente viajávamos em ônibus pequenos e rápidos que serviam esta área; descendo as colinas aqui e então fazendo o motor roncar para subir a próxima colina a fim de descer de novo no próximo impulso. firamos surpreendidos por uma súbita tempestade — uma cortina d’água que caia em torrentes, tornando impossível a visibilidade e levando o pequeno ônibus de um lado da estrada escorregadia para o outro — somente a experiência do motorista impedia serias acidentes. De súbito, o ônibus parava ao lado de uma cova e ouvia-se a ordem inequívoca: ‘Todos os homens desçam e empurrem!’ Não se perguntava se a pessoa estava trajada para a ocasião. De imediato, os passageiros tiravam os sapatos, enrolavam as pernas das calças e empurravam com toda a sua força, as mulheres, as crianças e a bagagem ficando lá dentro. Sim, o servo de circuito também participava em empurrar. Ao chegar a seu destino, não estava muito limpo, mas, nesta parte do país, o barro vermelho é bem conhecido; é parte de sua vida, de modo que não se preocupam com suas manchas. É consolador pensar que somos feitos da mesma matéria — de terra.”
A província setentrional de Misiones é uma selva intricada e virgem, mas há também vida humana aqui, e tais pessoas precisam ser alcançadas pela mensagem do Reino. O irmão Del Pino fala de visitar essa zona e a congregação em 25 de maio: “Os irmãos aqui vivem no interior e, pouco distante, começa a própria selva — é como uma terra de ninguém. Fugitivos da perseguição política e outros que, por seus próprios motivos, desejam afastar-se das coisas, cruzam do Paraguai e do Brasil para ocultar-se aqui. É uma simples questão de meter-se na selva, abater algumas árvores, abrir uma clareira e construir um abrigo primitivo. Um paraguaio, junto com sua esposa e três filhos, viera morar ali, e com a ajuda dos irmãos é agora um publicador do Reino. Minha visita à área tinha um propósito especial: Deveria proferir o discurso de batismo e então imergir este novo publicador. O conhecimento da verdade dos propósitos de Deus não fora fácil para este irmão. Desde a primeira visita dos irmãos, ele fez arranjos para assistir às reuniões congregacionais; isto envolvia atravessar a selva escura, sem se importar com o tempo inclemente, e enfrentar o perigo de animais selvagens e cobras.
“O circuito para o sul apresentava outras experiências, e um panorama diferente. Como no Norte, as distâncias são grandes e é cansativo viajar. Amiúde, a viagem de trem de mais de vinte e oito horas de Buenos Aires até o fim da linha, San Antonio del Oeste, é apenas o início. Daí, há uma espera para transferir-se para pequenos ônibus que fazem a longa viagem pelo deserto árido, cruzando a Patagônia. Mas, o som da mensagem do Reino está sendo ouvido através da Patagônia e os semelhantes a ovelhas ouvem a voz do Pastor Excelente, na cidade de Comodoro Rivadavia, onde havia apenas cinco publicadores há alguns anos atrás, há agora mais de 150 publicadores, em duas congregações fortes, e construíram um excelente e espaçoso Salão do Reino.”
No ano de 1953, os servos de circuito argentinos cobriram um total de 33.201 quilômetros. Tal atenção amorosa e sacrifício pessoal da parte dos servos de circuito e suas esposas foi grandemente apreciado pelos irmãos e muito contribuiu para unir os esforços feitos e estimular a expansão. Para os irmãos que moravam em congregações e grupos isolados distantes, a visita do servo de circuito a cada quatro meses confirmou o interesse da Sociedade neles e no trabalho que faziam, e manteve os publicadores atualizados com o modo mais eficaz de pregar as boas-novas do Reino.
TOMAM FORMA AS CONGREGAÇÕES
Na província mais setentrional de Salta, o irmão Argyrós havia passado nos fins dos anos 30 e o grupo de ônibus de Córdoba testemunhou de novo ali nos anos 40. O irmão Eisenhower visitou Salta como servo de circuito em 1950. O primeiro residente local, a irmã Louisa Anachuri, foi batizada em 1955. Por volta de 1957, mais de vinte pessoas já compareciam às reuniões.
A uns 830 quilômetros ao sul de Salta, ao pé das colinas verdejantes, cheias de vegetação, e cercadas pelos campos de cana-de-açúcar, acha-se Tucumán. As publicações haviam sido distribuídas na região pelo irmão Argyrós e pelo grupo de Córdoba, encabeçado pelo irmão Menazzi. Em 1947, a irmã Lunkenheimer, com seus dois filhos, Hatto e Ortwin, vieram a Tucumán de La Plata, Buenos Aires. Um estudo foi iniciado no lar de Maria Ester Aldazabal e sua mãe, e estas duas foram os primeiros residentes locais a serem batizados. A verdadeira organização da congregação de Tucumán deu-se com a chegada do irmão e da irmã Reindl, em 1954. Nessa ocasião, havia apenas oito publicadores. O irmão Reindl se lembra especialmente de dois deles: “Um casal alemão, os Kaselowskis, tinham vindo morar perto de um filho casado que não era Testemunha, em Tucumán. Eram país de um jovem que mantivera sua integridade até à morte sob o regime de Hitler, e tive o prazer de ler a sua carta enviada aos país antes de ser morto, em que lhes dizia que, quando recebessem a carta, já estaria morto, mas que não deviam ficar tristes, pois ‘Mamãe e Papai, estaremos juntos de novo!’ Apesar de não falarem muito o espanhol, este casal fiel dava testemunho e distribuía muitas publicações enquanto morava na região.” A primeira assembléia de circuito foi realizada em Tucumán em 1957; cerca de setenta pessoas compareceram de todas as províncias do noroeste. Atualmente, apenas uma das duas unidades de Tucumán tem tantos publicadores.
Deixando a verdejante Tucumán, a estrada continua para o sul, através duma região desértica que caracteriza Santiago del Estero. Aqui, também, a obra de pregação do irmão Argyrós e do irmão Menazzi e seu grupo havia semeado a semente. Mas, em 1954, com a designação do irmão Fernando Fanin e sua esposa como pioneiros especiais em Santiago del Estero, começou a verdadeira organização. O irmão Fanin descreve o que encontraram, bem como suas impressões: “Havia um pequeno grupo que se reunia com um irmão (Demetrio Cevilán), que se tinha associado com os irmãos em Rosário, Santa Fé. Ao todo, éramos umas cinco ou seis pessoas que se reuniam. Além de encontrar pessoas muito hospitaleiras, deparamos com calor extremamente intenso no verão. Eu e minha esposa pregávamos às pessoas que estavam sentadas às portas de suas casas já às 7 da manhã, ao passo que outros membros da família ainda dormiam no quintal, suas esteiras sendo colocadas direto sobre o chão. Às 10 horas, íamos para casa preparar o almoço. Depois de longa giesta, começávamos nossa atividade vespertino depois das 16 horas, permanecendo fora de casa até 21 ou 22 horas. O problema principal a vencer neste território não era a colocação de publicações, nem encontrar interessados que desejavam estudar. O problema era conseguir que os interessados abandonassem suas tradições religiosas, misturadas a costumes e rituais folclóricos, bem como suas práticas imorais, e progredissem à madureza.”
Publicadores e pioneiros zelosos continuaram sua atividade de pregação em partes remotas e inacessíveis do país. Um de tais publicadores foi Rosendo Ojeda, que ouviu pela primeira vez a mensagem do Reino em 1961, quando o irmão Eisenhower visitou sua casa. Ele nos conta sobre seu testemunho na década de 1950: “Imagine que me acompanha numa viagem que tive de fazer em muitas ocasiões. Achamo-nos em General San Martin, Chaco, anteriormente chamada El Zapallar, e que temos de ir de bicicleta até o Quilômetro 213, na província de Formosa — uma distância de uns sessenta quilômetros. Prepare-se para cobrir alguns desses quilômetros a pé, e lembre-se de que, durante a maior parte da viagem, não encontraremos nenhum veículo de qualquer espécie, nem mesmo os puxados a cavalo, visto que algumas destas zonas sofrem enchentes a um nível acima dos postes laterais da estrada. Isto se deve às chuvas contínuas e ao transbordamento do Rio Colorado. Há alguns lugares em que só se consegue continuar andando com água até as axilas. Ao chegar a tais lugares, atravessamos primeiro nossas bicicletas, carregando-as sobre a cabeça. Depois de colocá-las em lugar seco, voltamos para apanhar as caixas de publicações e nossas roupas, visto que levamos suprimentos para uma semana. É verdade que, em tais circunstâncias, o corpo se cansa fisicamente e, às vezes não sentimos vontade de prosseguir. Mas, ninguém pode negar que, bem em seu íntimo, em sua mente e em seu coração, há uma sensação estranha, porém maravilhosa, de felicidade e uma alegria revigorante. E de onde provém esta sensação? Da lama que gruda como cola, tornando difícil o andar? Do calor abrasador que, aos 40° centígrados o queima lá de cima? Ou, poderia ser o majestoso cenário que o cerca — as aves e os patos que passam em gigantescos bandos, os gigantescos quebrachos e as carobeiras que nos observam do lado da estrada? É verdade que todos estes nos fazem pensar na obra de Jeová, como Paulo afirma em Romanos 1:20. Mas, acima de tudo avaliamos a energia dinâmica com que nosso Criador impele e move Seus servos.
“Até agora já andamos por cerca de dez horas sob tais condições. Eis que, ali à distância, pode-se ver as primeiras casas do povoado. Agora, o sol se esconde atrás do horizonte, deixando um quadro ainda mais bonito diante de nossos olhos. Mas, estamos um pouquinho cansados, não estamos? Não se preocupe, pois estamos chegando à casa de um interessado, o Señor Alejandro Sozoñiuk. O que fazer agora? Descansamos? Não, ainda não! Só há tempo para tomarmos banho e comermos um pouco, pois, lembre-se, temos uma reunião até às 23 horas. Neste mesma noite, um recém-interessado exclama: ‘Eu simplesmente não posso crer! Que alguém venha desde General San Martin para dirigir uma reunião!’ Esta mesma pessoa, conhecemos agora como o irmão Carballo; hoje ele também compreende por que uma testemunha de Jeová irá a qualquer parte se for para alimentar as ‘ovelhas’.
“Esta viagem, e muitas outras, eram repetidas uma vez por mês durante um período de cinco anos. Mas, surge a questão: Foi em vão? A resposta: um enfático NÃO! Atualmente, depois de cerca de quinze anos, há florescente congregação com vinte e seis louvadores felizes de Jeová. Se quisesse visitar estes irmãos, não mais teria de andar com água até às axilas. Há agora estradas pavimentadas e pode fazer a viagem de carro em uma hora. O servo de congregação é o irmão Sozoñiuk.”
“Era emocionante ver os esforços que os irmãos faziam para vir às reuniões”, escreve um servo de circuito. “Cruzavam as ilhas que quase sempre estavam inundadas, com água até os joelhos ou mais alto ainda, e onde os topos das árvores folhosas se juntavam para cortar a maior parte da luz do dia, deixando tudo em trevas totais à noite. Ao chegarem ao local de reunião, os irmãos trocavam as roupas molhadas por roupas secas que traziam amarradas em trouxas, e carregavam bem acima da água. Quando a reunião terminava, colocavam de novo suas roupas molhadas para a caminhada de volta, por diversos quilômetros, até sua casa. Era muitíssimo encorajados ver os interessados fazer o mesmo, vindo com os publicadores às reuniões. Com o tempo, a congregação conseguiu uma lancha e um irmão começava por volta das 13 horas a apanhar os irmãos em diferentes ilhas e a trazê-los para a reunião, que começava às 16 horas. Quando terminava a reunião, levava os irmãos de volta a seus lares; o irmão terminava seu serviço de transporte por volta das 23 ou 24 horas.”
Alejandro Beckfy, irmão húngaro, foi que começou a testemunhar nas ilhas; mais tarde, Carlos Ortner juntou-se a ele, e a família de José Schemmnel. O filho dos Schemmels, Nicolás José, entrou nas fileiras de pioneiro e, mais tarde, serviu como servo de circuito e de distrito; depois do curso de dez meses em Gileade, o irmão Schemmel e sua esposa, nascida Mary Seegelken, foram chamados para servir na filial em Buenos Aires.
A menção das ilhas da região do delta do Rio Paraná nos faz lembrar duas ocasiões em que suprimentos de socorro — alimentos, roupa, dinheiro, e assim por diante — foram enviados aos nossos irmãos que eram vítimas das enchentes nessa região e em partes de Chaco, Formosa e Corrientes. Tão abundante foi a demonstração de amor por parte dos irmãos das congregações de Buenos Aires, Rosário e Córdoba que o depósito de publicações da filial ficou superlotado de itens doados, e as vítimas das enchentes informaram a Sociedade que fizesse a gentileza de não enviar mais — suas necessidades haviam sido mais do que satisfeitas! Uma de tais ocasiões foi em abril e maio de 1959, quando milhares de quilos de alimentos e roupas foram contribuídos. Para apenas um lugar, 1.260 quilos de itens foram enviados. Os comentários por parte dos irmãos que receberam tal ajuda eram: ‘Que união!’ ‘Que amor existe na sociedade da Nova Ordem!’
O irmão Ojeda se lembra de ainda outra ocasião em que se recebeu ajuda: “Em 1965, a cidade de General San Martín sofreu dura experiência. Foi atingida por violento tornado, que derrubou muitas casas bem construídas, deixando uma trilha de destruição de uns 200 metros de largura que atravessava a cidade em diagonal. A igreja católica sofreu considerável dano, tanto assim que o padroeiro da cidade, Santo Antônio, foi deixado ao ar livre. Isto fez com que muitos católicos perguntassem: ‘Se este templo é de Deus, por que permitiu ele que isto acontecesse?’ Nosso Salão do Reino também foi destruído, visto estar situado bem na trilha do tornado. Mas, visto que sabemos que Jeová não habita em templos construídos por mãos humanas, a adoração verdadeira de Jeová continuou assim como antes do tornado. Logo recebemos ajuda de nossos irmãos em outras partes e um novo salão foi construído.”
MISSIONÁRIOS EM BUENOS AIRES
Desde a chegada dos primeiros seis missionários estrangeiros em 1948, os anos seguintes presenciaram pequeno fluxo de graduados de Gileade para o país; alguns destes eram ministros de tempo integral da Argentina, outros vieram de outras terras. De início, seu trabalho se concentrava em Buenos Aires, onde foi estabelecido o primeiro lar missionário; mais tarde, um lar missionária foi formado em Rosário.
Mary Seegelken, de volta de Gileade, e sendo designada a uma das congregações de Buenos Aires, conta-nos uma de suas experiências destacadas: “Reavivei um estudo com uma jovem senhora a quem Viola Eisenhower havia visitado. Visto que a família de Sara Bujdud se opunha, eu ia à fábrica em que ela trabalhava, e juntas íamos à praça para fazer nosso estudo. Ao progredir em conhecimento, ela mudou de emprego, de modo a dispor de mais tempo para estudar e para a pregação. Embora fosse de maior idade, não estava livre para fazer o que quisesse — tal é a rigidez de muitas famílias árabes. Sara não contou à família que mudara de emprego, trabalhava meio dia e na outra parte do dia estava livre para devotar tempo ao serviço. Durante muitos meses eu levava uma pasta extra para o nosso local de reuniões, e daí de novo para o lar missionário naquela noite. A fim de ela poder assistir às reuniões, às vezes eu tinha de comprar ingressos para o cinema e, ao ir apanhar Sara, mostrava os ingressos para a mãe dela. Assistíamos à reunião e então damos ao cinema! Desta forma, Sara dispunha de tempo para tornar-se forte na fé. Daí, certo dia, ela saiu de casa para ser pioneira especial. Mais tarde ela me contou que a família chorara como se ela tivesse morrido, tão grave consideravam a mudança dela da religião muçulmana para a fé cristã verdadeira. Sara tem sido uma pioneira especial já agora por uns quatorze anos; lá em 1957, ela e sua companheira tiveram o privilégio de trabalhar em La Rioja, onde ajudaram a organizar uma congregação.”
Em 1954, Sophie Soviak, da segunda turma de Gileade, e Edith Morgan, da quarta turma, chegaram em Buenos Aires, junto com o irmão e a irmã Eduardo Adamson, e seu filhinho Eduardito. Os Adamsons haviam terminado o curso de Gileade e retornavam para sua nativa Argentina. As irmãs Soviak e Morgan nos fornecem suas impressões de sua nova designação: “Ao entrarmos na estação de passageiros, sentíamo-nos quase que em casa; a atmosfera era fria e silenciosa, e as paredes estavam cobertas de fofos do Presidente Perón e de sua esposa, Eva. Havíamos trabalhado por varies anos na República Dominicana, sob a ditadura de Trujillo, de modo que então compreendemos que simplesmente havíamos trocado um estado policial por outro. Mas, visto que estávamos acostumadas a trabalhar sob proscrição, podíamos erguer as cabeças e enfrentar seja lá o que fosse em nosso caminho.”
Estas duas missionárias foram designadas a trabalhar com uma congregação no coração da cidade, e moravam num pequeno apartamento na mesma área. Pouco depois, cada uma foi designada a cuidar de um daqueles pequenos grupos de serviço que funcionava como pequenina congregação. A irmã Morgan lembra-se carinhosamente de seu trabalho com o grupo: “Havia diversas irmãs espanholas idosas que sempre nos esperavam na esquina para pregarmos de porta em porta. Uma delas tinha vista muito fraca, mas conseguia enxergar os números das casas e anotá-los quando fazia uma colocação. A outra tinha dificuldade com as pernas e não podia subir escadas, mas, com a ajuda de publicadoras mais jovens, conseguirmos cobrir o território e encontrar as pessoas dignas. Lembro-me de certa tarde quentíssima de verão. Quando chegou a hora de o grupo se reunir, pensei comigo mesma que ninguém compareceria, com toda a certeza. Mas, fui até à esquina só para me certificar disso. Lá estavam as três baixinhas irmãs idosas esperando por mim. Quão encorajados era estar na companhia delas e ver o seu zelo!”
As irmãs nos contam que “era interessante trabalhar em Buenos Aires entre as pessoas de muitas diferentes nacionalidades e de classe bem educada”. Um problema era conseguir a permissão do zelador ou porteiro dos grandes prédios de apartamentos. As vezes não se permitia a entrada, de modo que era uma questão de esperar até que ele não estivesse por perto a fim de trabalhar naquele prédio. A irmã Soviak nos conta que foi em uma de tais ocasiões, quando o zelador não estava, que ela encontrou uma senhora que mostrou certo interesse. “Na revisita, o zelador me viu entrar no prédio, de modo que me seguiu no elevador de serviço. A senhora que eu visitava então compreendeu que, se não me convidasse a entrar, eu seria posta para fora do prédio, de modo que me convidou a entrar, para sua bênção. Com o tempo, ela e o marido, e duas filhas, tornaram-se Testemunhas dedicadas.”
Havia muitos prédios sem elevadores e, neles era provado o amor da pessoa. Quantas vezes se deveria fazer revisitas para encontrar a pessoa, especialmente se a colocação fosse em vários andares de cima? Bem que a irmã Soviak se lembra de uma de tais visitas: “Perdi a conta de quantas vezes voltei para revisitar uma colocação de revistas. ‘Eu viajo muito, talvez não me encontre em casa’, ela me havia avisado. Certo dia encontrei-a com uma mala na mão, visto que acabara de voltar de uma viagem. Coloquei um livro de estudo com ela. Disse-me que era católica e que tinha tios que eram bispos. Depois de cerca de dez outras visitas, encontrei-a de novo. Ela não só havia lido o livro, mas me contou todas as coisas maravilhosas que aprendera — de modo que compreendi que toda a minha paciência e todo aquele subir escadas não fora em vão. Ela disse que não iria mais viajar, assim, fiz arranjos para um estudo. Na hora aprazada, subi ansiosamente as escadas, apenas para verificar que não havia pinguem em casa. Tentei telefonar-lhe sem nenhum êxito. Algo deve ter acontecido, pensei eu, de modo que tentei telefonar-lhe de novo certa manhã bem cedo. Desta vez, uma voz cansada respondeu; ela cuidava de sua mãe no hospital e havia vindo em casa tomar banho e mudar de roupa. Disse que orara para que eu não perdesse a paciência, mas voltasse. Depois da morte da mãe dela, tivemos juntas estudos maravilhosos e, dentro de pouco tempo, Elena Rubio se tornou zelosa e dedicada louvadora de Jeová, e mui diligente em fazer revisitas — lição aprendida por experiência própria.”
FILMES DA SOCIEDADE SUSCITAM INTERESSE
Outra fase notável que muito teve que ver com o progresso da obra na Argentina foi a exibição dos filmes da Sociedade, “A Sociedade do Novo Mundo em Ação” e dois filmes posteriores. O irmão Eisenhower e o irmão Adamson comentaram diversas vezes que, na organização de Jeová, aprende-se a fazer muitas coisas. Assim, quando o filme foi trazido ao país, em 1954 comprou-se um projetor e os irmãos Adamson e Eisenhower exibiam o filme por volta de Buenos Aires toda noite livre da semana. Com o tempo, foi entregue o filme ao servo de distrito, e ele o exibia em suas assembléias e nas congregações visitadas em seu itinerário. O irmão Del Pino conta uma experiência mui interessante que teve ao trabalhar com o filme:
“Fui de trem da cidade de Roque Saenz Peña, Chaco, visitar uma pequena cidade em que havia diversos publicadores e alguns interessados; o nome do local era Pampa del Inferno (Planície do Inferno), e o que tive de enfrentar antes de chegar ali realmente adornava o nome com maior significado. O trem mal tinha partido quando uma tremenda tempestade desabou, com trovoadas ensurdecedoras. As perspectivas não eram muito animadoras: Jamais tinha estado lá antes e não havia uma congregação. Amiúde me havia perguntado o que faria se confrontado com tais circunstâncias. Deus tinha a resposta. Fui para o vagão-restaurante do trem, e um cavalheiro alemão sentou-se à minha mesa. Como é compreensível, conversamos, e soube que este senhor era o administrador de uma fábrica que produz o famoso produto de tingir couro, Extrato de Quebracho. O pequeno povoado que eu pretendia visitar dependia quase que exclusivamente dessa fábrica. Quando lhe falei do propósito de minha visita e sobre a pessoa que supostamente me esperaria na estação ferroviária quando eu chegasse, às 3 da manhã, ele me disse que tal pessoa provavelmente não estaria ali para encontrar-se com ao, pois era empregado da fábrica e estaria trabalhando na turma da noite. Ao notar minha preocupação, assegurou-me de que não tinha nada com que me preocupar e que me colocaria no quarto de hóspedes do estabelecimento, o mesmo quarto ocupado pelo governador quando visitava essa região. Assim apesar da tempestade e o fato de que ninguém veio a meu encontro naquela hora, eu fui mui confortavelmente alojado num quarto magnífico, e um empregado veio perguntar se eu desejaria beber algo. No dia seguinte, o administrador informou ao irmão da minha chegada e ofereceu o espaçoso auditório da fábrica para a exibição do filme. Ordenou também à usina de força que mantivesse uma corrente continua para melhor exibição. Uma agência local de publicidade que possuía alto-falantes estrategicamente localizados por todo o povoado fez o anúncio a respeito da exibição do filme, e que seria grátis. Mais uma vez cumpriram-se as palavras de Jesus: ‘O que é impossível para os homens é possível para Deus.’”
O irmão Eldon Deane, que mais tarde serviu na obra de distrito, fala de sua alegria em exibir um dos filmes da Sociedade em Almafuerte, Misiones: ‘Nosso trabalho com os irmãos no serviço naquele dia significava andar o dia todo por colinas cênicas onduladas, atravessando plantações de bananas — e no dia inteiro pregamos em apenas oito casas, devido às distâncias entre as casas serem tão imensas e devido a que, em cada visita, as pessoas humildes nos ouviam durante vinte ou trinta minutos. Pensei eu: Quem virá assistir ao filme hoje à noite? Por certo um punhado de gente. Mas, naquela noite, o povo do interior veio de todas as direções, em todo tipo de transporte imaginável. Havia umas 160 pessoas presentes, ao passo que a congregação local tinha apenas de 15 a 20 publicadores! Durante a exibição do filme fizeram tanto barulho que pensei: ‘Puxa, que grupo indisciplinado tenho hoje aqui!’ Mas, logo compreendi que muitos assistentes jamais tinham visto um navio, prédios altos ou enormes aviões. Os filmes causaram excelente impressão na mente deles, mostrando-lhes como era feita a obra, e em que extensão.”
TEMPOS ATRIBULADOS
No ínterim, ganhava ímpeto a inquietação política, as condições tornando-se muito incertas, havendo rumores de uma revolução. Em setembro de 1955, caiu o governo de Perón. Os servos de Jeová, como um grupo, usaram de sabedoria prática, não se expondo desnecessariamente ao perigo de bombas e lutas nas ruas, e assim por diante. E como cristãos acatadores da lei, respeitaram as imposições do toque de recolher, blackouts, e outras restrições. A irmã Helen Nichols morava no lar missionário fora da área central; ela relata que, quando começou a dificuldade no início do ano, com intenção de derrubar o regime, “não podíamos sair à noite para fazer revisitas nem para dirigir estudos de livro Do terraço podíamos ouvir a luta nos limites da cidade, a uns cinco ou dez quarteirões de distância. Durante o dia, saíamos para dar testemunho, e, quando avistava um policial na rua, eu me dirigia a ele e relatava por que nosso grupo de cinco ou seis pessoas ia de porta em porta. Assim ele sabia que nada tínhamos que ver com a revolução, e destarte não éramos incomodadas.
“Eu e Helen Wilson tínhamos todos os nossos documentos em ordem para viajar para a assembléia de Dallas, Texas, naquele ano. Daí, veio a primeira tentativa de revolução, e, antes da ocasião de viajar, tivemos de obter novo atestado de boa conduta da Polícia Federal para provarmos que, de forma alguma, estávamos ligadas com a insurreição Comparecemos à assembléia e voltamos à nossa designação missionária antes de a revolução bem sucedida de setembro de 1955 produzir a mudança de governo.”
O irmão Ciruelos Martín, que se tornara Testemunha em 1951 foi quase o único entre nós a ficar ferido devido à revolução. Era o zelador de grande prédio de apartamentos em Buenos Aires, e duas vezes foi ferido por morteiros quando as bombas atingiram a rua. Ele nos conta: “Fui levado para o Hospital Alemão e permaneci inconsciente durante dois dias. Ali minha esposa teve de travar uma forte luta contra as transfusões de sangue — isto apesar de outros membros da família insistirem em se oferecerem a doar sangue.”
Com a mudança de governo, a grande pergunta nas mentes dos irmãos era: “Podemos ter assembléias e nos reunir em Salões do Reino?” Como os irmãos aguardavam essa ocasião! “Em 1956, foi decidido que de novo tentaríamos realizar nossas assembléias de circuito”, relembra o irmão Eisenhower. “A primeira assembléia foi realizada em La Plata, província de Buenos Aires; a modalidade mais destacada da assembléia foi todos juntos entoarem um cântico do Reino — o cântico era ‘Alegrai-vos, o Nações, com o Seu Povo’, e muitos irmãos não conseguiram terminar de cantar devido à emoção que sentiam. A assembléia se desenrolou muito bem, terminando em completo êxito. Isto foi um estímulo para organizarmos assembléias em outras partes do país, o que fizemos.
“Perto do fim do mesmo ano, o irmão Milton Henschel nos visitou da parte do escritório do Presidente, e o irmão Grant Miller, do Uruguai, serviu de novo a Argentina como servo de zona. Uma assembléia maior, nacional, foi organizada em La Sociedad Rural, no centro de Buenos Aires. Esta foi uma de nossas maiores com mais de 5.000 pessoas presentes.” A assembléia começou de forma excelente no primeiro dia, e o segundo e o terceiro dias também foram muito bem. Na manhã de domingo, quando os irmãos Eisenhower e Adamson chegaram ao local da assembléia, encontraram as portas fechadas e a polícia guardando o local. Isto era devido ao sacerdote católico que tinha sua igreja bem em frente; influenciara a polícia a agir.
O irmão Eisenhower continua o relato: “A única coisa que podia ser feita era ir à polícia e ver se abririam o local da assembléia a fim de terminarmos nossa assembléia. Aconteceu que nesse tempo as Testemunhas haviam entrado em contato com um oficial da polícia central e ele era muito bondoso e considerado. Ouvira falar sobre a obra das testemunhas de Jeová em outras partes do país. Perguntou se tínhamos algo escrito para mostrar que obtivéramos permissão para realizar a reunião. Dissemo-lhe: ‘Sim, temos; a licença municipal.’ Assim, quando falou com seus superiores, ele lhes disse que deviam ser dadas ordens para que a assembléia continuasse, mas que a polícia permanecesse no local e ouvisse o programa. Os discursos proferidos naquela ocasião eram sobre o assunto de Casamento, assim, os policiais ficaram por algum tempo e depois voltaram à sua sede; dali foram enviados às suas delegacias locais, e a assembléia terminou sem qualquer outra interferência.”
EXPANSÃO DA FILIAL
O ano de 1956 foi também um ano de expansão da filial, visto que viemos a necessidade de fazer nossa própria impressão do Ministério do Reino, e das formulas de serviço para o país. Obteve-se permissão da Sociedade para comprarmos uma pequena prensa vertical e iniciamos a impressão — mas não sem dificuldades. O irmão Eisenhower nos conta que ele e o irmão Adamson trabalhavam na filial durante o dia, e a noite trabalhavam na gráfica até duas ou três da manhã, porque o irmão designado à prensa achava impossível manter-se em dia com o trabalho. Naturalmente, a impressão era feita com muita alegria, muito embora o irmão Eisenhower e o irmão Adamson estivessem apenas aprendendo a imprimir.
Em março de 1958, o irmão Eldon Deane chegou à Argentina com três outros graduados de Gileade. O irmão Albert Schroeder, encarregado dos registros em Gileade, chegara ao irmão Deane antes da formatura dizendo que o irmão Knorr desejava saber se aceitaria uma designação na gráfica da filial em Buenos Aires. O irmão Deane nos conta que isso foi um grande choque para ele, visto que fizera a petição de Gileade com vistas ao serviço missionário, e não para uma vida “institucional”. Mas, confessa agora: “Vim a ter uma certa preferência pela vida de Betel.” O relato do irmão Deane sobre seu trabalho na impressão nos fornece uma visão muito humana e vivida do que estava envolvido: “A gráfica na Argentina não estava funcionando por muito tempo quando eu cheguei. Soube que um dos irmãos que fora designado a ela simplesmente largou tudo e foi embora certo dia, para nunca mais voltar! O servo de distrito, German Seegelken, fora convocado no início daquele ano, mas estava ansioso de voltar ao distrito.
“Cheguei naquela conjuntura, tendo tido um curso de treinamento prolongado de duas semanas completas na gráfica de Brooklyn. A prensa era nova; e, ao passo que a mantínhamos reluzente, ela não nos dava prazer algum. Com o tempo, aprendemos que grande parte das dificuldades cabia a nós próprios — simplesmente são sabíamos plenamente como operá-la. Quando imprimíamos o Ministério do Reino, as linhas entre as colunas se levantavam, quer cortando o papel, quer imprimindo preto demais. Tudo isso foi por fim vencido pela maior experiência — mas não sem primeiro termos desejado que os americanos ou russos tivessem usado seus metais para fazer o veículo que mandaram ao espaço sideral. O irmão Seegelken me contara que às vezes tinha ido dormir com lágrimas nos olhos por ter de lutar com a prensa o dia inteiro. Isso me pareceu difícil de crer, mas não por muito tempo. Mais de uma vez fui deitar-me com lágrimas nos olhos por causa disso.
“Então havia a ‘Grande Bertha’. Essa era a guilhotina de cortar papel que tínhamos — a primeira. Se a memória não me falha, tinha como data de fabricação algum tempo na primeira parte deste século. Ela me fazia lembrar de outro tipo de guilhotina — aquela que fazia as cabeças rolarem — e era também de fabricação francesa! Era uma máquina grande, movida a mão. Tinha um volante de manivela de cerca de um metro de diâmetro, e quando cortávamos umas 500 folhas de papel, girávamos aquela manivela com toda a nossa força, a fim de fazer com que a guilhotina cortasse aquela pilha de papel — ou quase a cortasse. Como era difícil continuar cortando papel no esquadro! Um dia girando aquela enorme manivela fazia a pessoa dormir profundamente à noite — isto é, quando não causava pesadelos. Devido à mudança de operadores e à falta de experiência, uma pilha de serviço se acumulara na gráfica. Com o tempo, começamos a trabalhar de modo coordenado, pensando que mais cedo ou mais tarde ficaríamos em dia. Mas, é difícil ficar em dia com o trabalho em Betel, com todas as novas designações, o aumento no trabalho, e assim por diante. Isto contribui para uma vida bem ocupada, e também torna muito difícil o tédio.
“Lá em 1958, imprimíamos uns 5.000 Ministérios do Reino. Isso parecia uma pilha enorme então, mas, agora, o número é muitas vezes maior: 25.000 Ministérios do Reino para a Argentina, e 20.000 para a Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai. Em adição, a Argentina imprime as fórmulas de servido e cartas, e assim por diante, para os quatro países acima mencionados. A ‘Big Bertha’ não está mais em Betel — ela se aposentou. Em seu lugar temos uma guilhotina moderna. A pequena prensa vertical ainda opera fielmente, e é usada mormente para imprimir convites. Junto dela, temos uma prensa plana maior e automática, feita na Itália. Temos também nosso próprio linotipo.”
Relacionada de perto à impressão se acha a expedição, onde o irmão Carlos Ott serve desde 1940. Nos primeiros anos, o trabalho, incluía a expedição de publicações a pontos no país, bem como cuidar de assinaturas para a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o Chile. “A filial não tinha um veículo naquele tempo”, explica o irmão Ott: “Por muitos anos, eu fazia minhas viagens diárias até a agência do correio levando caixas de publicações e revistas com a ajuda de um triciclo de fabricação doméstica. Mesmo depois de a filial comprar um veículo a motor, continuei a usar meu triciclo até 1960, quando, devido a uma operação de hérnia, fui forçado a abandoná-lo.” O irmão Ott se acha agora com seus oitenta e poucos anos, mas, em diversas horas do dia ou da noite o encontrará lendo a sua Bíblia em alemão ou em espanhol. Sua mente não está anuviada com respeito à luz do entendimento da Bíblia; mantém-se em dia, como indicado pelos seus comentários regulares na adoração matutina de Betel, no estudo semanal de A Sentinela, e nas reuniões congregacionais — por certo um exemplo maravilhoso para os membros mais jovens da família de Betel e para todos. A Palavra de Deus é deveras parte dele!
O ano de 1957 viu a chegada de seis missionários designados à cidade ocidental de Mendoza: Gordon e Lillian Kammerud, Ruth Holien, Ethel Tischhauser e Mary Helmbrecht, todos os quais serviam como missionários em Porto Rico. A eles se juntou um mês depois uma nova missionária da Escola de Gileade, Kathryn Hyams.
Poder-se-ia mencionar que a Sociedade iniciou um novo método de aprendizagem do idioma falado na designação da pessoa, e os graduados da vigésima nona turma de Gileade foram os primeiros a tirar proveito de tal curso. Na verdade, Gileade provera diversas horas de estudo semanal do idioma, “mas”, diz a irmã Hyams, “o novo método era realmente acelerado. Devíamos estudar o idioma onze horas por dia no primeiro mês de nossas designações, e cinco horas por dia no segundo mês, o resto do tempo de cada dia sendo devotado à atividade de porta em porta e a outra atividade ministerial. Lembro-me de que, quando o irmão Henschel explicou o curso a nas, antes de partirmos de Gileade, ele mencionou que, com onze horas estudando o idioma por dia, estaríamos comendo, dormindo e sonhando na língua do país. Pensei que ele exagerara um pouco para torná-lo humorístico; mas, depois de algumas semanas de estudar espanhol com meu instrutor, o irmão Kammerud, eu realmente passei a sonhar em espanhol. A dificuldade é que o espanhol em meus sonhos era sempre muito superior ao que falava quando estava acordada.”
Como no caso dos missionários que vieram para a Argentina nos primeiros anos, tais missionários foram designados a trabalhar com congregações já existentes, para edificá-las. E que linda designação este grupo recebeu. Simplesmente ouça a descrição que um missionário fez dela: “As ruas de Mendoza, alinhadas de árvores, são tão frias e refrescantes, e a cidade é imaculadamente limpa. As donas de casa se jactam em especial de fazer reluzir as calçadas de cerâmica vitrificada em frente às suas casas. Entre a calçada e o meio-fio há um canal estreito — um canal de água que torna possível haver árvores numa área em que a precipitação pluviométrica é mínima. E as pessoas tiram água do canal e regam as ruas. Mendoza tem o pulso de uma cidade moderna e ativa, de cidadãos laboriosos e bem educados. Quando pessoas desta classe se dedicam a Jeová Deus, mostram esta mesma laboriosidade no ministério cristão.”
O número de missionários que serviam na Argentina, sendo tão reduzido, considerando-se em relação ao grande tamanho do país, muitos publicadores e servos de circuito jamais tinham entrado em contato com eles. O irmão Ernesto Ots, o servo de circuito da região de Mendoza, era um desses. Jamais servira uma congregação que tivesse missionários, de modo que não sabia bem o que fazer. Concluiu que, visto que estes receberam treinamento de Gileade, além de terem anos de experiência no serviço, não deviam precisar da reunião do servo de circuito com os pioneiros. O irmão Kammerud lhe assegurou que os missionários não eram “super”-pioneiros, e que o irmão Ots deveria realizar a reunião de pioneiros com eles da forma normal prescrita pela Sociedade.
LUTANDO PELO RECONHECIMENTO LEGAL
Eram grandes as expectativas quando o ano calendar de 1957 chegava ao fim. Em dezembro, programara-se outra assembléia nacional em Buenos Aires, e um contrato fora assinado para se usar o salão de Les Ambassadeurs. Muitos eram os delegados que chegaram ao local da assembléia bem cedo no dia. Imagine sua surpresa quando, ao meio-dia, encontraram fechado pela polícia o salão da assembléia. Muitos irmãos tinham viajado grandes distâncias, com grandes despesas pessoais, e esta experiência apenas serviu para estimulá-los a maior atividade. Compreendiam que, muito embora as condições fossem mais favoráveis à obra, jamais deveriam tornar-se superconfiantes, nem considerar as coisas como garantidas.
Nessa ocasião, quatro de nossos irmãos foram detidos pela polícia, multados, e receberam sentenças suspensas de um ano. Mas, por quê? Foram acusados de realizar uma reunião ilegal visto não terem obtido licença policial. Mas, isto não era verdade. A licença exigida para a nossa assembléia tinha sido requerida em 20 de novembro de 1957. Visto que o fechamento da assembléia e a detenção dos irmãos era violação aberta da provisão da Constituição da Argentina para a liberdade de religião e de assembléia, interpôs-se recurso ao tribunal. Foi uma ocasião de verdadeira alegria quando, em 14 de março de 1958, o desembargador preferiu sua sentença. Os irmãos foram libertos e exonerados, e oito artigos do Edito de Reuniões Públicas foram declarados ilegais. Esta foi a primeira vitória do povo de Jeová nos tribunais argentinos, e obteve muita publicidade em muitos dos grandes jornais diários.
Em 1958, houve a mudança de governo e parecia que talvez conseguíssemos obter maior liberdade. Com a autorização do irmão Knorr, foi decidido fazer-se esforço concentrado de conseguir o necessário reconhecimento legal. Foi preparada uma carta especial, fazendo um resumo das atividades das testemunhas de Jeová, bem como a formação do Ministério de Cultos, e como nossa condição legal fora removida em 1950, debaixo da Resolução 351. Uma cópia desta carta de sete páginas foi enviada a todos os legisladores, editores e deputados, bem como aos juízes, na Argentina. Em resultado, recebeu a filial excelentes comentarias, e alguns representantes do governo expressaram o desejo de ajudar. Mas, havia sempre a Igreja Católica no fundo para manobrar as coisas.
No ano seguinte, determinou-se que faríamos um recurso ao governo em forma duma petição a favor da liberdade religiosa. Nossos irmãos no Chile, na Bolívia, no Paraguai e no Uruguai ajudaram neste serviço e, ao todo, cerca de 322.636 assinaturas foram obtidas. Quando foram recebidas todas as petições, as folhas foram ajuntadas em pacotes e o irmão Adamson, o irmão Eisenhower e o irmão Guillermo Fernandez colocaram tais pacotes na camioneta que a filial tinha nesse tempo e foram entregues na casa do governo. O irmão Eisenhower nos conta: “Nessa ocasião, solicitamos uma audiência do Presidente Arturo Frondizi. Esta nos foi recusada e as petições jamais obtiveram uma resposta oficial. Continuou a nos ser negado o reconhecimento legal como organização religiosa.”
O próximo passo era que os irmãos de toda a parte da terra escrevessem ao governo da Argentina clamando contra a falta de liberdade de adoração e pedindo que a liberdade religiosa fosse concedido às testemunhas de Jeová. A resposta dos irmãos foi maravilhosa. Os irmãos argentinos escreveram mais de 2.500 cartas às autoridades governamentais e aos congressistas, e certa autoridade do governo indicou que tinham recebido mais de 7.000 cartas de todo o mundo.
O irmão Eisenhower nos fala de visitar o secretário do Ministério das Relações Exteriores e Cultos em diversas ocasiões: “Solicitamos que considerasse nosso caso, visto que a liberdade religiosa é garantida pela constituição argentina. Em uma de tais ocasiões, ele nos conduziu a uma sala em que havia verias pastas cheias de tais milhares de cartas chegadas de todo o mundo, solicitando a liberdade de religião para as testemunhas de Jeová na Argentina. Os comentários dessa pessoa foram que ‘era impossível abrir e ler todas as cartas, mas que ele ficou realmente surpreso de que alguém escrevesse de lugares tão distantes, como das Ilhas Fidji, a respeito da liberdade de adoração na Argentina’. Embora o conceito do governo continuasse negativo, a resposta sendo o decreto 416, em 1959, que mantinha o anterior decreto 351 de 1950, excelente testemunho foi dado aos no poder na Argentina.”
MISSIONÁRIOS VÃO A CAMPOS MAIS DISTANTES
O ano de 1958 foi também notável devido a dois outros eventos destacados que contribuíram para o avanço da obra do Reino na Argentina, cada um de seu próprio modo. Houve a assembléia internacional em Nova Iorque, à qual noventa e quatro irmãos e irmãs deste país tiveram o privilégio de assistir, e da qual voltaram repletos de refrigério espiritual para compartilhar com os que não puderam comparecer. Daí, houve a designação de alguns de nossos missionárias, que até então serviam na área metropolitana de Buenos Aires, para povoados e cidades distantes ao redor do país. Alí, seriam de grande ajuda para fortalecer as congregações e ajudar os publicadores mais novos a aprimorar seu ministério.
A respeito de suas primeiras impressões em sua nova designação em Villa María, Córdoba, Sophie Soviak escreve: “No centro de Buenos Aires muitos nem sabiam quem eram os seus vizinhos, mas, aqui, todos pareciam conhecer os assuntos particulares dos outros. Pareciam suspeitosos de nos e observavam cada movimento nosso. Quando nos viam chegar, iam para dentro de casa e não atendiam a porta. Levou meses para romper o preconceito, de modo que as pessoas pelo menos nos escutassem.” A irmã Morgan adiciona: “Entre os missionárias e os publicadores locais, trabalhávamos o território rapidamente. Visto que não havia qualquer transporte urbano, eu e Sophie compramos uma motoneta. Dessa forma podíamos ir ao nosso território distante e fazer nossas revisitas. Íamos ao território de manhã, acorrentávamos a motoneta a uma árvore, daí, voltávamos e damos para casa ao meio-dia. Todo dia ventava muito e às vezes, por volta do meio-dia, havia tanto pó soprando que era difícil usar a Bíblia e apresentar publicações as portas. As pessoas eram bem indiferentes à mensagem. Muitos eram ferrenhos peronistas, bem como católicos. Mas, depois de a Igreja ter usado sua influência para expulsar Perón, a maioria das pessoas não nutria muito amor pela Igreja. Muitos simplesmente iam à igreja na Semana Santa ou à procissão da Virgem. Às vezes mandavam as crianças correndo à nossa frente e avisando todas as donas de casa de que estávamos chegando. Em certas ocasiões, damos para outra rua, voltando um outro dia a essa rua. Apesar das condições, semeamos alguma semente e alguns tomaram sua posição a favor da verdade.”
As missionárias designadas a Salta, as irmãs Wilson e Hyams, chegaram ali depois de uma viagem de quarenta horas de trem. As missionárias iniciaram seu trabalho no coração da área residencial do centro da cidade e encorajaram os publicadores a trabalhar também o centro da cidade. “Naturalmente”, relata uma das irmãs, “encontramos algumas pessoas bem presas às tradições. A tradição religiosa e a posição social estão inseparavelmente ligadas em Salta. As velhas famílias que podem rebuscar seu nome de família até o tempo da conquista espanhola orgulham-se grandemente de usar diversos nomes de família a fim de impressionar a outrem com sua genealogia, junto com a jactância de que pelo menos um membro da família é sacerdote ou freira.
“Ao trabalharmos o território da alta sociedade, vivíamos nos fundos de um velho prédio de escritórios, onde uma irmã era zeladora. Nosso quarto tinha teto de palha, paredes revestidas de adobe e chão de tijolos — penso que datava dos dias coloniais. Cozinhávamos em um fogareiro de querosene de uma só boca, lavávamo-nos numa bacia esmaltada, e, em todas as nossas atividades, tínhamos geralmente quatro olhos silenciosos a nos observar — os dois filhos da irmã Ahmed tinham insaciável curiosidade quanto ao que as duas missionárias faziam, não importava qual fosse a hora do dia ou da noite. Por fim, encontramos um apartamento confortável.”
Helen Wilson se lembra carinhosamente de trabalhar povoados não-designados, partindo de Salta: “Muitas vezes partíamos de casa antes de romper o dia para apanhar um trem até uma cidadezinha em que iríamos trabalhar, e às vezes levávamos lanche e passávamos o dia inteiro ali. Outras vezes tomávamos o ônibus até um pequeno povoado, e, quando terminávamos de trabalhá-lo, andávamos de volta até à cidade, testemunhando às famílias espalhadas pelo caminho. Trocar publicações por itens era algo que os publicadores locais nunca tinham feito. Como se riam de início quando as missionárias apareciam com ovos frescos metidos em suas bolsas, ou uma bolsa de compras de cordas cheia de abobrinhas verdes e outros legumes! Logo os publicadores aprenderam a também fazer trocas.”
Entre a classe mais pobre outras tradições dominam. Salta é o berço do misachico, uma procissão de pobres que vêm das colinas carregando uma estátua duma virgem cercada de flores numa espécie de padiola levada aos ombros de duas ou quatro pessoas. Os membros da procissão tocam um tambor do tipo dum tamborim, dedilham um violino, tocam uma gueda (flauta de bambu) e outro instrumento muito similar à trompa dos Alpes, ao passo que outros camponeses cantam. À medida que o pequeno grupo se move vagarosamente, as crianças e outros aparecem para fazer uma oferta de algumas moedas para a “virgem”. Mais tarde as ofertas são amiúde “consumidas” por serem trocadas por vinho.
Outras procissões são muito mais elaboradas e ficam sob os auspícios das igrejas locais. Cada igreja tem seu santo padroeiro, e, no aniversário dele, ofícios especiais são realizados em forma de uma novena (nove dias). No último dia, a estátua do santo padroeiro é retirada da igreja, mostrada pela cidade com uma longa procissão de adoradores antes de ser devolvida ao seu altar ou nicho na igreja. Nessas ocasiões, entoa-se um bem-conhecido hino à “virgem”; inclui estas palavras: “. . . os céus, a terra e o próprio Jeová . . . te adoram . . .” Ao testemunhar nas províncias setentrionais em que a menção do nome Jeová parece estranha e nova para muitos católicos, os publicadores e os missionários não raro trazem à atenção que o nome do verdadeiro Deus é usado neste hino.
Desde sua chegada a Salta, em setembro de 1958, até sua designação a Tucumán cerca de três anos depois, as missionárias se regozijaram de ver a congregação crescer de vinte e seis para setenta e um publicadores. Salta possui agora duas congregações, cada uma com seu próprio Salão do Reino construído pelos irmãos locais.
Ser designado a trabalhar em Tucumán, a quinta maior cidade da Argentina, com uma população de mais de 300.000 pessoas, significou grande mudança. Este é o lar da indústria açucareira argentina, e muitas refinarias ou usinas se situam perto da cidade. É também a sede de uma das importantes universidades nacionais. O clima é quente e úmido. O território inclui bem-instruídos professores universitários e estudantes, donos de indústria e de casas comerciais, bem como pobres trabalhadores das usinas e cortadores de cana. Tucumán é também famosa como o “Jardim da República”.
A irmã Wilson escreve sobre esta designação missionária: “Apesar de Tucumán ser uma grande cidade, as pessoas usualmente não têm pressa e ouvem a mensagem. É fácil iniciar estudos. Mas, há problemas: a falta geral de formalidade e de organização no lar e em sua vida pessoal, que torna difícil que aceitem responsabilidades.” Assim como se dá em grande parte do Norte, embora se professe a religião católica, muitos estão envolvidos em práticas espíritas. Crêem que podem obter favores especiais dos espíritos dos mortos, não importa que tipo de pessoa se tenha sido antes de morrer. A predição da sorte e práticas relacionadas florescem, à medida que os ricos e os pobres, os cultos e os analfabetos, procuram resolver os problemas financeiros ou familiares, ou assegurar êxito numa aventura amorosa, ou obter nota suficiente para passar nos exames. Há jogatina em todas as suas formas, loteria, corrida de cavalos briga de galos, cassino, rifas, jogo do bicho; e acha-se intimamente ligada ao espiritismo devido às crenças supersticiosas relacionadas a certos números de “sorte” ou a “palpites”. Pessoas solteiras que vivem juntas sem se terem casado, homens casados que sustentam uma ou mais mulheres adicionais, homossexuais e muitas outras evidências de falta de educação bíblica são comuns.
Assim, colocar publicações e iniciar estudos bíblicos, ajudando os interessados a separar-se da falsa religião são apenas o início do serviço dum missionário. Muitas práticas anticristãs, tão prevalecentes neste sistema de coisas, precisam ser abandonadas. O esforço diligente no ministério, porém, e o ensino dos princípios bíblicos, têm produzido aumento. Na atualidade, Tucumán já tem duas congregações, com um total de mais de 150 publicadores.
A atividade missionária tem sido deveras um grande fator contribuinte para a expansão da obra do Reino na Argentina. Como um servo de distrito descreveu: “O conhecimento bíblico adquirido em anos de estudo, o treinamento ministerial especial recebido em Gileade, e anos de serviço íntimo com a organização visível de Jeová colocam o missionário numa posição ímpar de ajudar os publicadores locais a aprimorar a qualidade de seu serviço, ao passo que lhes fornece uma visão ampliada da organização de Jeová, e da necessidade de lealdade absoluta a ela.”
Um servo de circuito verificou que o horário do lar missionário e o programa de trabalho serviam de modelo para os publicadores, e, em especial, para os pioneiros, visto que proporcionam melhor organização no lar e permitem a participação mais plena no serviço do Reino. Mencionou também que os missionários, tendo deixado o lar e a família, aceitando uma designação numa terra estranha, com língua e costumes diferentes, e então apegando-se fielmente a tal designação, e tornando-a seu lar, davam excelente exemplo para outros que visavam o serviço de pioneiro ou de pioneiro especial, ou cursar a Escola de Gileade, com vistas ao serviço missionário.
CINGIR-SE PARA MAIOR ATIVIDADE
O impulso e a expansão da obra nos domínios da filial da Argentina obtiveram freqüente ajuda e estímulo das visitas do irmão Knorr e do irmão Henschel, como termos visto. Em dezembro de 1959, estes dois irmãos de novo visitaram a Argentina, e foram realizadas duas assembléias: uma em Córdoba, a outra em Buenos Aires. Esta visita ajudou a organização da obra no país e também deu início ao programa de construção na filial de Buenos Aires. O irmão Knorr preparara um conjunto temporário ou experimental de plantas para a nova sede da filial, que foram depois complementadas para se cumprirem as exigências do código municipal de construções. Quando tais plantas foram finalmente aprovadas pela municipalidade de Buenos Aires e pelo irmão Knorr, iniciou-se o novo prédio. Isto se deu em outubro de 1961. Por volta de outubro do ano seguinte, estava pronto para ser ocupado.
Ao se iniciar a construção da nova filial, isto significava que tudo tinha de ser transportado para o que era antes a área de depósito e expedição no prédio de 1940; a casa da Rua Honduras, 5.646, tinha de ser demolida. O irmão Eisenhower descreve o arranjo: “O escritório foi levado para uma parte do depósito; outra parte foi dividida ou repartida para servir de quartos; ao mesmo tempo, a prensa operava em outra parte. Quando alguém acordava para preparar o café da manhã, não era necessário nenhum sinal para chamar a família; éramos guiados pelo cheiro de comida que era preparada nos fundos do mesmo salão. Chamávamos nossa moradia de ‘Villa Cartón’ (Vila Papelão) e foi deveras uma experiência inesquecível! Quase que o único problema que surgiu naquele tempo foi ter de escutar diferentes tons de roncos, e, às vezes não se conseguia dormir.
“Quão felizes nos sentimos quando ficou pronto o novo prédio! Representava muito mais espaço para o escritório, a expedição, bem como para acomodações para a família! E, uma vez terminado o prédio, a Escola do Ministério do Reino foi transferida para a sede da filial. Era uma bênção poder ter conosco os superintendentes congregacionais, e eles, por sua vez, nos ajudavam no serviço da filial.”
A Escola do Ministério do Reino para a Argentina iniciou-se no ano de 1961 e, durante o primeiro ano, funcionou em um dos Salões do Reino no centro de Buenos Aires. A hospedagem para os irmãos que faziam o curso de um mês foi amorosamente provida em muitos lares dos irmãos. Os estudantes eram designados a trabalhar com congregações diferentes em Buenos Aires, assim, sua companhia foi partilhada por muitos. A turma inicial foi formada de servos de distrito e de circuito, bem como de servos de congregação com muitos anos de serviço. Destas primeiras turmas, foram feitas designações de alguns futuros servos de circuito. O irmão Rogelio Del Pino fora chamado da obra de distrito e, junto com irmãos de doze outros países latino-americanos, recebera um mês de treino especial em Gileade, em South Lansing, Nova Iorque, EUA, para preparar-se para o serviço de instrutor da Escola do Ministério do Reino. Também serviu no Uruguai nesta posição. Sem dúvida, a escola desempenhou importantíssima papel no treinamento e na habilitação dos servos na organização de Jeová.
Uma década de trabalho sob proscrição havia passado; a década de 1960 já prometia maior expansão da obra do Reino na Argentina. Os irmãos ficavam pensando em como a proscrição afetaria a obra. Deixemos que o relatório do ano de serviço de 1960 fale por si mesmo: 205 congregações, com um auge de 7.204 publicadores, inclusive 227 pioneiros regulares e 155 pioneiros especiais, relataram um total de 1.327.294 horas. Colocaram 128.126 livros e folhetos, 1.116.751 revistas; obtiveram-se 14.766 assinaturas. Nossos irmãos fizeram 588.443 revisitas e dirigiram em média 6.600 estudos bíblicos domiciliares. A Comemoração da morte de Cristo naquele ano teve uma assistência de 13.937 pessoas; em adição, 5.443 discursos públicos foram preferidos. Na verdade, a proscrição não havia impedido a expansão da atividade de pregação neste país.
Além da introdução da Escola do Ministério do Reino, treinamento especial e ajuda adicionais foram providos para a Argentina a partir de 1960. Naquele ano, o irmão Eisenhower foi designado servo de zona para a América do Sul meridional: Chile, Paraguai, Uruguai, Argentina e Brasil. Em 1963, serviu a estas filiais e então teve o privilégio de fazer o curso de dez meses em Gileade. Esta responsabilidade adicional atribuída ao irmão Eisenhower significava que, por sua vez, os irmãos locais teriam maior responsabilidade. O irmão Eisenhower menciona que “isto se provou muitíssimo proveitoso, porque temos agora irmãos bem treinados no país que se habilitam a cuidar da atividade.
“Em 1961, um de nossos irmãos argentinos, Edgar Iribar, foi convidado a receber treinamento especial em Gileade. Ao voltar, serviu por algum tempo na filial e em serviços de tradução. Daí, em 1962, mais dois argentinos, o irmão Ortwin Lunkenheimer e o irmão Nicolás Schemmel, também, fizeram o curso de dez meses de Gileade.”
As assembléias de distrito continuaram desempenhando grande parte no aprimoramento do pessoal da organização pregadora neste país. Mas, estavam em reserva mais e maiores surpresas! Em 1906, o irmão Knorr fez uma visita relâmpago às filiais sul-americanas, inclusive à Argentina, para organizar as assembléias internacionais da América Latina que começariam em fins de 1966 e continuariam nas primeiras semanas de 1967. Durante a curta visita do irmão Knorr, o irmão Eisenhower comentou com ele que esperava jamais ter de ver mais com alguma construção. A observação do irmão Knorr foi: “Ora, os irmãos só construíram um prédio; nós estamos sempre construindo!” O irmão Eisenhower continua a estória: “Quando a breve visita do irmão Knorr terminou, ele havia decidido que deveríamos acrescentar mais um andar ao nosso atual prédio da filial, assim fornecendo mais seis dormitórios, e elevando o total de dormitórios para dezoito. A construção começou quase que imediatamente, e, por volta do fim de 1966, nosso atual prédio de quatro andares da filial já estava pronto, junto com o anexo de um quarto no teto para a Escola do Ministério do Reino. Isto resultou muito proveitoso, não só para os irmãos que vinham para a escola, mas também para o aumento da família da filial, que agora alcança vinte e duas pessoas.”
À medida que a obra crescia e contínuos aumentos se tornavam evidentes, é compreensível que o irmão Muñiz sentisse grande satisfação. Viveu para ver não só estes prédios, mas também ultrapassarmos o marco de 13.000 publicadores. Como forma de expressar sua alegria e compartilhá-la com os membros da família de Betel, era seu hábito oferecer um jantar especial à família toda vez que se alcançava outro auge de mais 1.000 publicadores. O menu era planejado e preparado pelo irmão Muñiz e sempre incluía petiscos especiais e custosos. Eram verdadeiros banquetes, e o irmão Muñiz pagava tudo com seu próprio dinheiro. Em cada um destes jantares especiais, havia pequena mesa colocada de lado com frutas e outros alimentos que não eram usados nem comidos como parte da refeição; o irmão Muñiz explicava que isto representava a abundância na organização de Jeová.
POR FIM, UMA ASSEMBLÉIA INTERNACIONAL!
Grandes cidades nos Estados Unidos e na Europa têm sido o cenário freqüente de congressos internacionais do povo para o nome de Jeová. Muitos de nossos irmãos argentinos transpuseram o obstáculo da grande distância e de elevados custos de viagem a fim de ser parte das felizes multidões congregadas nestas inesquecíveis fiestas espirituais. Mas, quão amiúde eles e o grande número de irmãos que permaneciam no país em tais ocasiões formulavam a pergunta: “Por que a Sociedade não programa reuniões internacionais na América Latina?” “Quando virá o tempo em que os irmãos de outras terras nos visitarão?”
Que expressões de alegria e agitação fluíram dos lábios dos irmãos argentinos quando souberam que, por fim, sua acalentada esperança seria realizada! Buenos Aires seria o elo mais meridional duma cadeia de assembléias latino-americanas em fins de 1966 e princípios de 1967. Bem mais de 400 irmãos de outras terras das Américas e da Europa constituíam a delegação internacional; alguns seguiram o roteiro de Santiago, Chile, outros vieram direto de La Paz, Bolívia, ao passo que alguns pararam em Assunção, Paraguai, antes de convergirem para Buenos Aires. Inesquecíveis foram tais dias de companheirismo cristão, de 11 a 15 de janeiro de 1967!
Inesquecível, também, foi o privilégio especial de termos seis de nossos “anciãos” da sede da Sociedade em Brooklyn nos visitando: Os irmãos Knorr, Franz, Suiter, Henschel, Larson e Couch — nomes que a maioria dos irmãos argentinos somente haviam lido no Anuário.
O significado de termos estes irmãos presentes conosco foi apropriadamente descrito pela irmã Lira Berrueta, que serve como missionária na Argentina desde 1950. A irmã Berrueta é sul-americana e, no programa especial de língua inglesa apresentado na assembléia de Buenos Aires para os delegados estrangeiros, comentou com a assistência: “Na reunião dos missionários em 1958, em Nova Iorque, o irmão Franz comentou sobre o discurso da assembléia baseado em Isaías 8:18, e disse: ‘Bem, agora podem retornar a suas designações e dizer aos irmãos que viram o restante. O restante serve como sinais e maravilhas, como os filhos de Isaías serviam em seu tempo.’ Naquela ocasião, pensei eu: ‘Como gostaria que todos os nossos irmãos lá na América do Sul pudessem ver o restante e sentir a mesma coisa que nós sentimos nesta ocasião histórica!’
“Agora, este desejo se tornara realidade nesta maravilhosa assembléia. Quando incentivava os publicadores a comparecer a esta assembléia, mencionava as palavras do irmão Franz e lhes dizia: ‘Não podem perder esta assembléia, pois, quando vier a Nova Ordem, os irmãos também poderão contar à nova geração que viram a parte mais representativa do restante!’ Somos mui gratos por esta assembléia, pela presença de todos os irmãos.”
Uma modalidade bem destacada do programa em inglês foi ouvir o irmão Juan Muñiz, aquele que, com a ajuda de Jeová, organizou a obra de pregação neste e em outros países sul-americanos há uns quarenta anos abas. Bem apropriadamente, foi o primeiro orador apresentado pelo servo da filial, irmão Charles Eisenhower. E, apropriadamente ou não, o irmão Muñiz viveu segundo sua reputação de sempre passar da hora. O irmão Eisenhower lembra-se das palavras do irmão Muñiz: “Como poderei dizer em quinze minutos aquilo que deveria dizer em três ou quatro horas? Como posso condensar tudo que desejo dizer? Falar apenas por quinze minutos não é para mim!”
Os membros da família de Betel e outros que o conheciam bem apreciam o esplêndido exemplo dado pelo irmão Muñiz, não só em ensinar a Bíblia, mas também em ser um estudante da Palavra de Deus por toda a sua vida. Poucos anos antes de sua morte, cuidava da mesa de recepção na filial de Buenos Aires. Quando outros assuntos não exigiam sua atenção, era muito comum vê-lo ali, atrás de sua mesma, lendo a Bíblia. Quantas vezes a lera por completo não sabemos. Mas, uma coisa é certa: até mesmo em seus anos avançados jamais deixou de alimentar-se das abundantes porções diárias da verdade de Deus. Sua fé firme nessa Palavra é bem ilustrada por um incidente de que o irmão Adamson se lembra: “Certa manhã, em janeiro de 1942, eu lera no Herald de Buenos Aires que J. F. Rutherford morrera. Era um breve artigo, mas foi um verdadeiro golpe para nós. O que aconteceria? De novo a atitude do irmão Muñiz foi decididamente de ajuda. ‘Não foi o irmão Rutherford quem nos mandou ir pregar, será que foi? Essa é a instrução de Jeová, por meio de Sua Palavra. Assim, continuemos a fazer isso que Ele nos mandou fazer e Jeová cuidará dos assuntos em sua organização’, foi o comentário inspirador de fé do irmão Muñiz.”
O programa naquela manhã de sábado, 14 de janeiro, incluía que grupos de seis ou oito missionários ocupassem a tribuna de cada vez, cada um falando sobre o tema “As Alegrias do Serviço Missionário”. Entre estas apresentações em grupo, cada um dos seis representantes especiais da sede da Sociedade falava. Apropriadamente, as primeiras expressões missionárias foram apresentadas por três irmãs, todas graduadas da primeira turma de Gileade. Suas experiências foram mais tarde comentadas pelo irmão Knorr quando se dirigia a reunido. Lembrou à assistência que estas e outros dos primeiros missionários tinham tido a alegria de ser ‘mães’ de servos de congregação, servos de circuito, servos de distrito e de outros graduados de Gileade. O irmão Knorr também riu quanto ao fato de que os missionários estavam tão nervosos por terem de falar em inglês.
Se os missionários sentiram-se animados com a presença dos diretores da Sociedade, como se sentiam tais diretores? Um deles disse: “Vocês, missionários, nos deram algo e nos sentimos encorajados e edificados devido a ter tido o privilégio de estar aqui com vocês.” Outro dos diretores, falando aos viajantes que tinham vindo de outras terras, disse: “A parte mais importante de sua excursão não foi visitar novos e diferentes paires, ver as obras majestosas da criação de Jeová, e ver interessantes marcos históricos. A parte mais importante de sua viagem foi visitar os missionários, ouvir suas experiências e ver sua alegria em servir a Jeová por muitos anos, nestes países. Esperamos que voltem para casa e incentivem seus filhos e suas filhas a aspirar o serviço missionário, e que incentivem os publicadores em suas congregações para organizar seus assuntos para irem onde há mais necessidade em outros países.”
Os graduados de Gileade também lembrarão por muito tempo sua reunião e jantar especiais com o irmão Knorr e alguns dos diretores da Sociedade nessa ocasião. Era uma noite clara e perfumada quando o grupo feliz de missionários de todas as partes da Argentina, junto com os membros da família de Betel em Buenos Aires, se reuniram no terraço do lar de Betel na noite de sexta-feira. Depois de deliciosa refeição, o irmão Knorr falava ao grupo. Até este ponto, a disposição era amena. Daí o irmão Knorr olhou para seu relógio; a hora indicava que já passava da meia-noite; outro dia já chegara. A voz que se dirigia a nós tomou uma entonação séria, e houve momentos em que se notava que o irmão Knorr achava difícil conter suas emoções e continuar. Tinha sido exatamente a vinte cinco anos atrás, em 13 de janeiro de 1942, que fora nomeado Presidente da Sociedade. Recapitulou conosco o vívido desejo que sempre teve, desde os dias em que era servo da gráfica em Brooklyn, de ver missionários indo a todas as partes da terra habitada. Embora mencionasse isso ao irmão Rutherford, foi-lhe dito que não havia tempo suficiente para tal obra. Mas, há vinte e cinco anos atrás, quando o irmão labore tornou-se presidente, apresentou proposta de uma escola missionária à diretoria, vários dos diretores estando ali presentes conosco naquela noite, e obteve sua aprovação. A Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia logo tornou-se realidade. Quando os graduados dessa primeira turma e de outras das primeiras turmas foram enviados a suas designações, o irmão Knorr passou muitas noites de preocupação e insônia, pensando, junto com oração, como passariam estes tão queridos irmãos e irmãs. Agora, vinte e cinco anos depois, parecia muitíssimo apropriado que o irmão Knorr estivesse com os missionários. Era evidente como eles passavam: aqui na Argentina quatro daquela primeira turma de Gileade ainda servem fielmente.
Em adição à assembléia principal em Buenos Aires, outra assembléia ocorreu simultaneamente na cidade interiorana de Córdoba e os irmãos de Brooklyn apareceram no programa ali também. Imagine só a alegria de todos, dos publicadores nativos e dos visitantes estrangeiros, ao saberem que um total de 15.238 pessoas compareceram às duas assembléias, umas 11.000 apenas em Buenos Aires! Um total de 692 pessoas simbolizaram sua dedicação. Estes números assumem maior significado quando se compreende que, há apenas vinte anos antes, em 1947, havia apenas 679 publicadores em toda a Argentina — nem sequer se igualando ao número dos batizados nessa assembléia. Este ano, 1967, 13.317 participaram no serviço de campo.
Um programa repleto de interesse fora organizado para os delegados visitantes, inclusive excursões a muitos dos lugares históricos desta metrópole, onde a obra do Reino se iniciara na Argentina. Arranjos especiais foram feitos para que os viajantes usufruíssem um asado típico do país. Ônibus, com um missionário designado a cada ônibus como guia, apanhavam os irmãos em seu hotel para a agradável viagem a um restaurante-rancho do interior. A atmosfera rústica, além da visão de perto do asado em preparação — enormes grades baixas sobre brasas de carvão e cobertas com boa seleção de chorizos e longas fatias de costeletas de boi, além de metades completas de carne de vaca atravessadas por barras de ferro, com uma ponta metida na terra, a outra sustentando a carne num certo ângulo sobre as brasas — dava aos irmãos a oportunidade de “provar” a vida campestre argentina em sua melhor fase. Mas, isto não era tudo! Ao terminar o almoço, grupos folclóricos de músicos e dançarinos argentinos e paraguaios, com roupas típicas, apresentaram interessantes demonstrações de seus talentos.
Cedo demais, os irmãos visitantes tiveram de viajar para as assembléias no Uruguai e no Brasil, mas não sem deixar uma impressão duradoura com seus irmãos argentinos, de terem genuíno interesse e amor cristão, que não conhece fronteiras nacionais. Que tais assembléias tiveram, deveras, um efeito favorável sobre nossos publicadores é evidente de que o ano de serviço de 1966-1967 resultou ser o melhor ano até agora na história da obra do Reino aqui.
MAIS EXPANSÃO NA FILIAL
Em dezembro de 1968, o irmão e a irmã Knorr fizeram uma visita de dois dias à Argentina, durante uma viagem à América do Sul. Foi nessa ocasião que os irmãos Knorr e Eisenhower consideraram a necessidade de expansão na filial da Argentina, “de modo que procuramos uma propriedade adjacente a fim de ver se era possível obter algo”, relata o irmão Eisenhower. “Depois de verificar com os vizinhos, conseguimos comprar um excelente terreno ligado pelos fundos com nossa propriedade atual, e dando para a rua seguinte. Este terreno media 9 por 51 metros. A assinatura da escritura da nova propriedade foi feita perto do fim de 1969. No início de 1970, foram traçados planos para o novo prédio. Estes foram aprovados pela municipalidade e também pelo irmão Knorr. Isto nos fornecia 740 metros quadrados de espaço adicional; o andar térreo era para a expedição, estoque e também a recepção; o segundo andar para escritórios, e três dormitórios no terceiro pavimento.
“Determinou-se que a construção seria feita pelos irmãos sempre que possível. Entramos em contato com o construtor que levantara nossos prédios na Rua Honduras e ele se dispõe a traçar as plantas, apresentá-las ao governo municipal e conseguir as necessárias licenças de edificação. Isto foi feito em outubro de 1970, e a obra de demolição dos prédios começou de imediato. Ficamos contentes de ter irmãos trabalhando no prédio durante a semana, alguns recebendo da Sociedade, visto que tinham famílias a cuidar; outros, inclusive pioneiros especiais, vieram e contribuíram sua ajuda, ficando na filial da Sociedade. Organizou-se atividade especial para os fins-de-semana, quando os irmãos das congregações de Buenos Aires e cercanias podiam contribuir seus esforços para a construção. Grande era o entusiasmo da parte dos irmãos. Irmãs, bem como irmãos, davam sua ajuda. Era notável ver o zelo de nossos irmãos, em seu desejo de ver a expansão da obra continuar aqui na Argentina.
“Uma modalidade alegre desta atividade de fim-de-semana era o almoço. Geralmente era o asado argentino. Todos comíamos juntos (80, 90, ou 100 ou mais pessoas) nas longas mesas de tábua colocadas para essa ocasião na área de depósito de nosso prédio, ou, num andar de cima, do prédio em construção. Depois do almoço, por curto período de tempo, um irmão ou uma irmã que sabia tocar violão ou outro instrumento provia a música, enquanto que os outros no grupo freqüentemente cantavam. Assim, a música, tanto da espécie nativa como os cânticos do Reino, provia descontraimento para os irmãos e aumentava o entusiasmo dessa ocasião. Certo domingo, 114 irmãos e irmãs estavam presentes, trabalhando no prédio.”
Como regra geral, o trabalho nos prédios na Argentina se arrasta de tal modo que aquilo que se planeja para ser feito em um ano em geral leva dois anos para terminar. O irmão Eisenhower nos assegura de que “este não foi o caso do nosso prédio. Estávamos organizados de tal modo que, uma vez que aqueles que faziam o alicerce de cimento acabassem, nossos irmãos entravam e começávamos a erguer as paredes. Em apenas seis meses, tivemos o prazer de ver terminado o novo prédio. Ocupamo-lo em agosto de 1971. A pintura, bem como a parte elétrica e de encanamento já estavam todas feitas. Toda essa atividade significou serviço nos fins-de-semana para vários dos irmãos da família de Betel, mas foi feito com júbilo porque sabemos o que o novo prédio significará para a obra na Argentina. Grande parte do dinheiro para esse novo prédio foi contribuído pelos irmãos, e outros fizeram empréstimos sem juros. Agradecemos a Jeová pelo modo em que moveu Seu povo a dar tão voluntariamente.”
O relatório de 1971 comprova a necessidade de acomodações ampliadas a fim de melhor servir aos irmãos no campo: um auge de 20.750 publicadores relatou, inclusive 408 pioneiros especiais e 1.019 regulares, as publicações colocadas somaram 466.301, bem como 3.698.032 revistas e 29.865 assinaturas novas; 2.253.005 revisitas foram feitas e 21.177 estudos bíblicos foram dirigidos. Evidentemente, precisava-se de muito tempo para toda essa atividade, e nossos irmãos relataram 4.215.406 horas. À Comemoração da morte de Cristo compareceram 45.337 pessoas, e 15.341 discursos públicos foram preferidos durante o ano.
Em adição à atividade de campo, o servo da filial relata: “Nossas prensas funcionam o dia inteiro, imprimindo para a Bolívia, o Chile, o Paraguai, o Uruguai e a Argentina. Logo teremos de expandir também a gráfica, adicionando nova prensa ao nosso atual equipamento de impressão.”
Outro sinal bem patente da expansão do Reino aqui na Argentina é a construção de muitos Salões do Reino excelentes. Com freqüência, os irmãos doaram terrenos para tais prédios, ou uma parte duma casa foi doada para ser remodelada num Salão do Reino. Em outros casos, pessoas interessadas sentiram o desejo de ajudar os irmãos a ter lugares apropriados de reunião.
PARTILHANDO NOSSAS BÊNÇÃOS COM OUTROS
A organização do povo de Jeová na Argentina tem tido o feliz privilégio, não só de receber ajudadores em forma de devotados missionários, mas também de partilhar a conseqüente prosperidade com outras filiais. Lá no ano de 1963, numa visita de servo de zona que o irmão Eisenhower fez ao Chile, foi apreciado que mais irmãos habilitados eram necessários naquele país, de modo que se fez a recomendação à sede da Sociedade de que alguns de nossos irmãos argentinos fossem transferidos para o Chile. Isto foi aprovado, e o irmão Ernesto Ots e sua esposa foram para o Chile servir na obra de circuito. Mais tarde, os irmãos Pedro Lovato e Fernando Fanin, ambos graduados de Gileade, e suas esposas, foram designados ao Chile. Também, em 1965, um graduado de Gileade argentino, Raul Vazquez e sua esposa, foram designados a Espanha como missionários.
Por volta de 1970, avaliou-se que mais ajuda era necessária no Paraguai, de modo que o escritório do Presidente autorizou que fossem enviados dez pioneiros especiais da Argentina para ajudar nossos irmãos ali. Tais irmãos fazem excelente trabalho em encontrar e ajudar os interessados naquele país, de modo que a filial do Paraguai tem solicitado que lhes enviemos mais seis pioneiros especiais.
Outra filial vizinha, a Bolívia, solicitou dez pioneiros especiais da Argentina; três já trabalham ali e dois mais estão a caminho. Assim, no fim do ano, podemos completar a quota de pioneiros especiais solicitada pela Bolívia e pelo Paraguai. O irmão Eisenhower se sente contente de dizer que “os irmãos argentinos se sentem muito felizes de poderem ir a outros países ajudar a obra de pregação, ajudando as pessoas sinceras a livrar-se de Babilônia, a Grande”.
Um dos instrumentos que tem contribuído para trazer muito mais pessoas à associação ativa com a organização de Jeová é o livro A Verdade Que Conduz à Vida Eterna. “Recebemos e despachamos da filial 490.611 destes livros”, conta-nos o irmão Eisenhower, “e a maioria deles já foram colocados nas mãos do povo. Este maravilhoso instrumento, chamado por muitos de ‘la bomba azul’, tem ajudado incomensuravelmente a levar as boas novas do Reino ao povo. E, por meio de estudos bíblicos regulares, dirigidos nessa publicação, a genuína verdade bíblica tem tido eco nos corações de milhares de pessoas, e, como resultado, têm chegado a amar a Jeová e desejar servi-lo.”
Segundo o irmão Eisenhower, “outro excelente testemunho esta sendo dado por nossos irmãos que cumprem sentenças de três anos nas prisões militares por causa de manterem sua posição neutra com respeito a envolverem-se nas coisas deste mundo e no serviço militar. Há cerca de trinta e cinco irmãos que atualmente cumprem sentenças e se rejubilam de terem a oportunidade de dar e de ser um testemunho para as autoridades militares”.
Assim, ao recapitularmos o trabalho feito nos últimos quarenta e sete anos por nossos irmãos e pela organização teocrática agora em operação, não resta dúvida de que Jeová tem abençoado ricamente a obra das mãos de Seus fieis e íntegros servos. Especialmente gostaríamos de mencionar muitos dos graduados de Gileade que têm servido aqui — tanto os irmãos e as irmãs argentinos como os outros que foram designados a trabalhar na Argentina. Muitos destes fiéis ainda se mantêm ocupados no ministério de tempo integral aqui e em outros países. Outros, devido à saúde ruim, ou a tarefa de tempo integral de serem pais e de cumprirem outras obrigações bíblicas, têm saído. Sentimo-nos como Paulo, quando fala dos homens fiéis da antiguidade em Hebreus, capítulo 11, e ‘nos faltaria tempo para falar das atividades de todos que têm servido na Argentina’.
Olhando o mapa da Argentina, podemos agora avaliar em retrospecto que aquilo que parecia uma tremenda tarefa e quase que um formidável desafio para aquele punhado de servos dedicados no início dos anos 20, é agora uma realidade pulsante. Corra de novo os olhos de norte a sul, ao compreender que, espalhadas por todas as vinte e duas províncias e da Capital Federal, desde as vastas regiões setentrionais até a ponta mais meridional da América do Sul, no território da Terra do Fogo, podem ser encontradas 361 congregações e 110 grupos isolados das testemunhas de Jeová. Trabalhando zelosamente junto a estas se acham mais de 400 pioneiros especiais, não se mencionando os servos de circuito e de distrito. De novo, nesta década, nossos pioneiros trabalham pelas linhas térreas em três províncias do Norte: Salta, Formosa e Chaco. Mas, desta vez é inteiramente diferente — desta vez nossos irmãos não saem apenas para colocar publicações; voltam para dirigir estudos com os interessados e para trazer as pessoas semelhantes a ovelhas à congregação de Jeová!
Sim, não importa onde a pessoa vá na Argentina atualmente, as testemunhas cristãs de Jeová podem ser encontradas, espalhando o sustento espiritual e a alegria, ao seguirem ativamente a ordem de Jesus, registrada em Atos, capítulo 1, versículo 8: “. . . sereis testemunhas de mim . . . até à parte mais distante da terra”.
[Mapa na página 41]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
ARGENTINA com AS PROVÍNCIAS EM VERMELHO e AS CIDADES EM PRETO
BOLÍVIA
PARAGUAI
JUJUY
SALTA
FORMOSA
CHACO
CATAMARCA
TUCUMÁN
SANTIAGO DEL ESTERO
Resistencia
MISIONES
LA RIOJA
CÓRDOBA
SANTA FE
CORRIENTES
BRASIL
SAN JUAN
SAN LUIS
ENTRE RÍOS
Rosario
URUGUAI
Mendoza
CHILE
MENDOZA
LA PAMPA
BUENOS AIRES
Buenos Aires
La Plata
Bahía Blanca
Mar del Plata
NEUQUÉN
RÍO NEGRO
CHUBUT
Rawson
Oceano Atlântico
SANTA CRUZ
Río Gallegos
TIERRA DEL FUEGO
Ushuaia