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O avião — o utilitário da Nova GuinéDespertai! — 1971 | 8 de fevereiro
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O avião — o utilitário da Nova Guiné
APERTAM-SE os cintos de segurança, o avião descreve uma curva com as asas bem inclinadas, ao se aproximar da pista incrivelmente pequena, e logo as rodas tocam a escabrosa superfície de cascalho. Deslizamos até parar e de imediato nos vemos cercados por aldeões pintados e cobertos de penas, tocando tambores, agitando lanças e arcos e soltando tradicionais gritos de guerra
Felizmente são nossos amigos, pois trata-se da inauguração de uma nova pista de aterragem nas regiões montanhosas do leste da Nova Guiné. A maioria dessa gente primitiva já conhece o pássaro gigante ou balus, como chamam o avião em sua língua nativa, mas para muitos esta é a primeira vez que vêem um aterrissar.
Os céus acima da Nova Guiné realmente vibram com o som dos aviões. O crescimento do transporte aéreo desde seu início lá pelo fim da década de 1920 tem sido fenomenal. Em 1968, o número de pistas no continente e nas ilhas que abrangem o território aumentou para 248. O avião é certamente o utilitário da Nova Guiné. Em certo mês de 1969, levaram-se mais de novecentos mil quilos de carga para as pistas das regiões montanhosas, de um só centro apenas! E eis que se inaugura mais uma pista.
Viagem de “Rotina”
Mas, enquanto prosseguem as solenidades, reflitamos no papel desempenhado pelo avião nesta terra montanhosa, de selvas e precipícios. O Douglas DC-3 é muito comum aqui. Sem estofamento ou os confortos costumeiros de um moderno avião de passageiros, são estruturas desguarnecidas, destinadas a carregar o máximo de carga, bem como passageiros. Assentos de metal e lona são enfileirados em cada lado do avião, os passageiros ficando voltados para dentro, ao passo que o espaço central é reservado para a mercadoria que será apanhada ou descarregada ao longo da rota.
O passageiro talvez observe aos seus pés uma cesta de bambu contendo duas galinhas; um pouco mais à frente talvez se ache um pára-lama de caminhão. Pão fresco, carne congelada, acessórios de trator, medicamentos, maços de jornais e periódicos, canos de água para algum projeto no povoado, miscelânea de materiais de construção — qualquer um ou todos esses talvez componham a carga diária.
Mais adiante, perto da cabina do piloto, costumam ficar as pilhas de sacos de correspondência. Com que ansiedade são estes aguardados nas comunidades isoladas em que esse utilitário voador irá pousar! Perto da porta é bem provável que haja cestas de taquara com alface, cenouras, couve e tomates destinados ao litoral. Um grande engradado talvez contenha um enorme porco gordo — provavelmente parte do preço de uma noiva para uma cerimônia de casamento.
O carregamento de passageiros pode ser quase tão variado quanto a carga: um policial nativo indo para casa de licença, um mecânico com uma grande caixa de ferramentas para consertos de equipamento de terraplenagem em alguma nova estrada, um agricultor e sua família retornando para casa após um fim-de-semana na cidade, talvez um pretinho nu, adormecido no colo da mãe, e alguns aldeões nervosos de tangas de fibra. Enfeitados de conchas e penas, e com arcos e flechas aos pés, estariam a caminho da costa para negociar conchas de caurim, a moeda tradicional de seu lar montanhoso, por dólares.
O piloto sobe por cima da carga para a cabina de vôo, fecha a porta e com um ronco dá-se a partida nos motores. Cada rebite e cada parafuso parece tremer e vibrar à medida que o grande pássaro se dirige à pista, o barulho sendo amplificado na cabina sem forro. Daí, com um ímpeto de velocidade e um arremesso para cima, toda aquela carga ganha o ar. Os nativos se comprimem para a frente, contra os seus cintos de segurança, com os olhos fechados, os dentes cerrados, e grandes gotas de suor na testa. É provável que seja seu primeiro vôo amedrontador no “pássaro” gigante!
Descobrindo o Por Quê
À medida que o avião circula para ganhar altitude, ultrapassar as nuvens e atravessar uma brecha entre montanhas elevadas, pode-se começar a entender por que o avião é um utilitário tão valioso nesta região. Percorrendo toda a extensão da área continental por uns 2.400 quilômetros se acha uma cordilheira maciça, uma das grandes cadeias de montanhas do mundo, com picos que atingem uns 4.500 metros. Entrecruzando a ilha há grandes desfiladeiros e vales férteis. A construção e manutenção de estradas neste terreno acidentado são dispendiosas. De fato, nestas áreas dependem-se de carregadores humanos e de jumentos para levar o produto à pista de aviação mais próxima.
Ao se serpentear através dos vales, avista-se choças de palha e hortas ordeiras. O ruído embaixo indica aos passageiros que o trem de aterrissagem foi baixado, e logo o grande pássaro pousa num declive coberto de grama, talvez a primeira reta vista desde a decolagem. Os trabalhadores nativos, vestindo apenas aventais de palha ou de fibra e algumas folhas atrás, carregam e descarregam com rapidez a carga. Agricultores e funcionários públicos esperam algum volume há muito aguardado ou peças sobressalentes urgentemente necessitadas. Um jipe talvez chegue numa nuvem de poeira, trazendo um médico para apanhar seus medicamentos e um paciente destinado ao hospital em Mount Hagen. Sim, o avião aqui com freqüência se torna ambulância aérea.
Sob os olhos atentos do governo, a indústria aérea aqui ganhou invejável reputação quanto à segurança e aos serviços prestados. Embora a rede de estradas se expanda gradualmente, acontece o mesmo com a rede de aeroportos à medida que se concluem novas pistas de aviação nas áreas remotas. Nos dias de antanho, os “Junkers” alemães costumavam fazer a maior parte do transporte aéreo. Mais tarde, a aeronave “Bristol”, com seu espaço para carga do nariz ao leme, se tornou vista comum nestes céus, continuando até 1966.
Os nativos pensavam que os aviões eram pássaros enormes, e até traziam grandes fardos de vegetais para alimentá-lo. Com efeito, conta-se a estória de certo policial nativo que ficou rico por dizer ao povo crédulo que o pássaro só se alimentava de porcos. Atualmente, porém, as pessoas do território consideram o avião, não só como meio de ligação com o mundo exterior, mas, especialmente, como o utilitário que transporta seus produtos ao mercado.
Uma salva de palmas nos traz de volta ao presente, e o reinício dos cantos e das danças significa que a cerimônia oficial de inauguração desta nova pista já terminou. Nossa pequena aeronave é de novo inspecionada pelos dignitários tribais, e o luluai ou chefe local e seus conselheiros são levados num vôo breve.
Finalmente embarcamos em nosso utilitário e partimos para casa, a apenas vinte minutos de distância. As pessoas que viajam por estrada levarão quase quatro horas através de trilhas acidentadas e às vezes perigosas para chegar ao mesmo destino. Só isso já diz muito do papel que o avião desempenha como o utilitário da Nova Guiné.
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Cirurgia cardíaca sem transfusões de sangueDespertai! — 1971 | 8 de fevereiro
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Cirurgia cardíaca sem transfusões de sangue
EM 22 de novembro de 1963, o mundo atônito lamentava a morte do presidente dos Estados Unidos. Pouco compreendíamos que, antes de terminar o dia, nossa própria família ficaria paralisada com um choque.
Em meados da noite, Pedro, nosso caçula — que tinha então sete anos — veio correndo ao nosso quarto. “Mamãe, o chão está rodando. Está vindo a meu encontro.”
Seu fôlego parecia que estava sendo tomado em pequenas doses. Agarrei-o e levei-o para a cozinha. Estava segura de que ele delirava, de modo que freneticamente passei uma esponja nele, com água fria, e lhe dei uma aspirina infantil e tentei confortá-lo.
Às 7 da manhã, telefonei para nosso médico de família. Quando ele chegou, examinou Pedro, e seu rosto ficou grave. Abruptamente, perguntou: “Por quanto tempo o coração dele já está assim?”
“Assim como?” — perguntei.
Explicou-me que o sopro cardíaco de Pedro era muito ruim. Estava certo de que ele possuía uma válvula defeituosa. Após muitas perguntas, o médico decidiu que Pedro nascera com esse defeito, que era congênito. Ficamos atônitos, pois Pedro, aparentemente, fora um bebê tão saudável.
Perguntamos: “Será possível fazer uma operação?”
“Sim, acho que é”, respondeu o médico, mas, acrescentou: “Não será possível com a sua crença.”
Inclinamos a cabeça, sem poder falar. Somos testemunhas de Jeová e não tomamos transfusões de sangue porque cremos que tomar sangue é contra a lei de Deus que diz especificamente: ‘Abstenham-se . . . de sangue.’ — Atos 15:20, 29.
“Leve-o ao meu consultório na sexta-feira para um cardiograma. Desejo ter certeza”, disse o médico, ao ir embora.
Tal visita apenas confirmou a suspeita de nosso médico de que Pedro tinha uma obstrução que restringia o fluxo de sangue para os pulmões; chama-se estenose pulmonar. Não obstante, ele fez arranjos
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