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Página de rosto/Página editoraComo Pode o Sangue Salvar a Sua Vida?
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Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida?
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O sangue é vital para a vidaComo Pode o Sangue Salvar a Sua Vida?
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O sangue é vital para a vida
Como pode o sangue salvar a sua vida? Isto, sem dúvida, lhe interessa, pois o sangue está vinculado à sua vida. O sangue transporta oxigênio pelo seu corpo, remove o gás carbônico, ajuda-o a adaptar-se às mudanças de temperatura, e auxilia-o a combater as doenças.
A vinculação da vida ao sangue foi feita muito antes de William Harvey ter mapeado o sistema circulatório, em 1628. A ética básica das principais religiões se focaliza num Dador da Vida, que se expressou sobre a vida e sobre o sangue. Um advogado judeu-cristão disse a respeito dele: “Ele mesmo dá a todos vida, e fôlego, e todas as coisas. Pois, por meio dele temos vida, e nos movemos, e existimos.”a
As pessoas que acreditam em tal Dador da Vida confiam que suas orientações são para nosso bem duradouro. Um profeta hebreu descreveu-o como “Aquele que te ensina a tirar proveito, Aquele que te faz pisar no caminho em que deves andar”.
Essa garantia, dada em Isaías 48:17, faz parte da Bíblia, livro respeitado por valores éticos que podem trazer benefícios a todos nós. O que diz ela a respeito da utilização humana do sangue? Será que mostra como vidas podem ser salvas pelo sangue? Na realidade, a Bíblia mostra claramente que o sangue é mais do que um complexo líquido biológico. Ela menciona o sangue mais de 400 vezes, e algumas destas referências envolvem a salvação de vidas.
Em uma das primeiras referências ao sangue, o Criador declarou: “Tudo que vive e se move vos servirá de comida. . . . Contudo não deveis comer carne com vida, isto é, com sangue.” Ele acrescentou: “Pedirei contas de vosso sangue que é vossa vida”, e então condenou o homicídio. (Gênesis 9:3-6, Bíblia Vozes) Ele disse isso a Noé, um ancestral comum e altamente estimado pelos judeus, pelos muçulmanos e pelos cristãos. Toda a humanidade foi assim avisada de que, no conceito do Criador, o sangue representa a vida. Tratava-se de mais do que uma regra dietética. É evidente que estava envolvido um princípio moral. O sangue humano tem grande significado e não deve ser mal empregado. O Criador, mais tarde, acrescentou pormenores, por meio dos quais podemos facilmente depreender as questões morais que ele vincula ao sangue vital.
Ele novamente se referiu ao sangue ao dar a Israel o código da Lei. Ao passo que muitos respeitam a sabedoria e a ética daquele código, poucos estão cônscios de suas sérias leis sobre o sangue. Por exemplo: “Se alguém da casa de Israel, ou dos estrangeiros que residirem entre eles, tomar qualquer sangue, eu porei a Minha face contra a pessoa que toma o sangue, e a cortarei de entre seus parentes. Pois a vida da carne está no sangue.” (Levítico 17:10, 11, versão judaica Tanakh) Deus então explicou o que um caçador devia fazer com um animal morto: “Ele deve derramar o seu sangue e cobri-lo de terra. . . . Não deveis tomar o sangue de carne alguma, pois a vida de toda carne é o seu sangue. Qualquer pessoa que tomar dele será cortada.” — Levítico 17:13, 14, Ta.
Os cientistas sabem agora que o código da Lei judaica promovia a boa saúde. Ele exigia, para exemplificar, que os excrementos fossem colocados fora do acampamento e cobertos, e que as pessoas não comessem carne que contivesse alto risco de doenças. (Levítico 11:4-8, 13; 17:15; Deuteronômio 23:12, 13) Ao passo que a lei sobre o sangue tinha aspectos relativos à saúde, havia muito mais envolvido. O sangue tinha um significado simbólico. Representava a vida concedida pelo Criador. As pessoas, ao tratarem o sangue como algo especial, demonstravam que dependiam Dele para viver. Sim, o motivo principal pelo qual elas não deveriam tomar sangue era, não que o sangue era ruim para a saúde, mas que o sangue tinha um significado especial para Deus.
A Lei repetidas vezes declarava a proscrição do Criador a se tomar sangue para sustentar a vida. “Não o deves comer [i.e., o sangue]. Derrama-o na terra, como água. Não o comas, para seres feliz com teus filhos, fazendo o que é reto.” — Deuteronômio 12:23-25, Bíblia Vozes; Deut. 15:23; Levítico 7:26, 27; Ezequiel 33:25.b
Contrário ao raciocínio de alguns hoje, a lei de Deus sobre o sangue não deveria ser desconsiderada numa emergência. Alguns soldados israelitas, em certa crise de tempo de guerra, mataram animais e ‘foram comê-los junto com o sangue’. Tratando-se duma emergência, era-lhes permissível sustentar a vida com sangue? Não. Seu comandante indicou-lhes que seu proceder ainda constituía um grave erro. (1 Samuel 14:31-35) Assim sendo, por mais preciosa que seja a vida, nosso Dador da Vida jamais disse que suas normas poderiam ser desconsideradas em caso de emergência.
O SANGUE E OS VERDADEIROS CRISTÃOS
Qual a posição do cristianismo sobre a questão de se salvar a vida humana com sangue?
Jesus era um homem íntegro, razão pela qual ele goza de tão elevado respeito. Ele sabia que o Criador tinha dito que consumir sangue era errado e que esta lei estava vigorando. Assim, existe boa razão para se crer que Jesus apoiaria a lei sobre o sangue, mesmo que ficasse sob pressão para agir de outra forma. Jesus “não cometeu nenhum pecado; [e] mentira nenhuma foi achada em sua boca”. (1 Pedro 2:22, A Bíblia de Jerusalém) Ele estabeleceu o padrão para seus seguidores, inclusive o padrão de respeito pela vida e pelo sangue. (Mais tarde consideraremos como o próprio sangue de Jesus acha-se envolvido nesta questão vital que influi em sua vida.)
Observe o que aconteceu quando, anos depois da morte de Jesus, surgiu uma questão a respeito de se quem se tornasse cristão tinha de guardar todas as leis de Israel. Isto foi discutido num concílio do corpo governante cristão, que incluía os apóstolos. Tiago, meio-irmão de Jesus, referiu-se aos escritos que continham as ordens sobre o sangue, declaradas a Noé e à nação de Israel. Seriam elas obrigatórias para os cristãos? — Atos 15:1-21.
Aquele concílio enviou sua decisão a todas as congregações: Os cristãos não precisavam guardar o código dado a Moisés, mas era ‘necessário’ que eles ‘persistissem em abster-se de coisas sacrificadas a ídolos, e de sangue, e de coisas estranguladas [carne não-sangrada], e de fornicação’. (Atos 15:22-29) Os apóstolos não estavam apresentando um mero ritual ou um regulamento dietético. O decreto estabelecia normas éticas fundamentais, que os cristãos primitivos acataram. Cerca de uma década depois, eles reconheceram que ainda deveriam ‘guardar-se do que é sacrificado a ídolos, bem como de sangue e da fornicação’. — Atos 21:25.
O leitor sabe que milhões de pessoas freqüentam as igrejas. A maioria delas provavelmente concordaria que a ética cristã envolve não adorar ídolos, nem participar em crassa imoralidade. No entanto, vale a pena notarmos que os apóstolos situaram o evitar o sangue no mesmo elevado nível moral que o evitar tais erros. O decreto deles rezava: “Se vos guardardes cuidadosamente destas coisas, prosperareis. Boa saúde para vós!” — Atos 15:29.
Há muito se entende que o decreto apostólico é obrigatório. Eusébio fala de uma mulher jovem de perto do fim do segundo século que, antes de morrer sob tortura, frisou o ponto de que aos cristãos “não se lhes permite comer o sangue sequer de animais irracionais”. Ela não estava exercendo o direito de morrer. Ela queria viver, mas não se dispunha a transigir quanto a seus princípios. Não sente respeito por aqueles que colocam os princípios acima de seu ganho pessoal?
O cientista Joseph Priestley concluiu: “A proibição de comer sangue, dada a Noé, parece ser obrigatória para toda a posteridade dele . . . Se interpretarmos [esta] proibição dos apóstolos pela prática dos primitivos cristãos, dos quais dificilmente se pode supor não terem entendido corretamente a natureza e o alcance dela, não podemos senão concluir que se intencionava ser absoluta e perpétua; pois o sangue não era comido por nenhum cristão, durante muitos séculos.”
QUE DIZER DO USO MEDICINAL DO SANGUE?
Abrangeria a proibição bíblica sobre o sangue o seu emprego na medicina, tal como em transfusões, que por certo não eram conhecidas nos dias de Noé, de Moisés ou dos apóstolos?
Ao passo que a terapia moderna que emprega o sangue não existia lá naquele tempo, o uso medicinal do sangue não é moderno. Por cerca de 2.000 anos, no Egito e em outras partes, o “sangue [humano] era considerado como o remédio eficaz para a lepra”. Um médico revelou a terapia ministrada ao filho do Rei Esar-Hadom quando a Assíria estava no auge da tecnologia: “[O príncipe] está passando bem melhor; o rei, meu senhor, pode ficar feliz. A partir do 22.º dia eu dou (a ele) sangue para beber, ele beberá (isso) por 3 dias. Durante outros 3 dias, eu darei (a ele sangue) para aplicação interna.” Esar-Hadom tinha contatos com os israelitas. Todavia, por terem os israelitas a Lei de Deus, eles jamais beberiam sangue como remédio.
Era o sangue usado como remédio nos tempos de Roma? O naturalista Plínio (contemporâneo dos apóstolos) e o médico Areteu, do segundo século, relatam que o sangue humano era um dos tratamentos da epilepsia. Tertuliano escreveu posteriormente: “Considerai aqueles que, com sede cobiçosa, num espetáculo da arena, pegam sangue fresco de criminosos iníquos . . . e o levam correndo para curar sua epilepsia.” Ele os contrastou com os cristãos, que ‘nem mesmo tinham o sangue dos animais em suas refeições . . . Nos julgamentos dos cristãos, oferecei-lhes chouriços cheios de sangue. Estais convictos, naturalmente, de que [isso] . . . lhes é ilícito’. Assim, os cristãos primitivos preferiam correr o risco de morrer a tomar sangue.
“O sangue, em sua forma mais cotidiana não . . . saiu de moda como ingrediente da medicina e da magia”, relata o livro Flesh and Blood (Carne e Sangue). “Em 1483, por exemplo, Luís XI, da França, estava morrendo. ‘Ele piorava a cada dia, e os remédios de nada lhe adiantavam, embora fossem dum caráter estranho; pois ele esperava veementemente recuperar-se com o sangue humano que ele tirava e engolia de certas crianças.’”
Que dizer de transfundir sangue? Experimentos com isto começaram no início do século 16. Thomas Bartholin (1616-80), professor de anatomia na Universidade de Copenhague, Dinamarca, protestou: ‘Os que introduzem o uso de sangue humano como remédio de uso interno para doenças parecem estar abusando dele e pecando gravemente. Os canibais são condenados. Então, por que não abominamos os que mancham sua goela com sangue humano? Algo similar é receber duma veia cortada sangue estranho, quer por via oral, quer por meio de transfusão. Os autores desta operação ficam sujeitos ao terror pela lei divina, pela qual se proíbe comer sangue.’
Assim sendo, algumas pessoas refletivas dos séculos passados discerniram que a lei bíblica se aplicava ao tomar sangue nas veias, assim como se aplicava ao tomá-lo por via oral. Bartholin concluiu: “Ambas as formas de se tomar [sangue] visam um só e único propósito, o de que, por meio deste sangue, um corpo enfermo possa ser nutrido ou restaurado [à saúde].”
Esta visão geral talvez possa ajudá-lo a entender a posição religiosa definitiva das Testemunhas de Jeová. Elas dão alto valor à vida e procuram bons tratamentos médicos. Mas estão decididas a não violar a norma de Deus, que tem sido coerente: Aqueles que respeitam a vida como dádiva do Criador não tentam sustentar a vida por tomarem sangue.
Ainda assim, durante anos, ouviram-se muitas afirmações de que o sangue salva vidas. Os médicos podem relatar casos em que alguém sofreu perda aguda de sangue, mas recebeu transfusões de sangue e então melhorou rapidamente. Assim, o leitor talvez fique imaginando: ‘Quão sábio ou tolo, em sentido médico, é isto?’ Oferecem-se evidências médicas em apoio à hemoterapia (terapia com sangue). De modo que o leitor tem, para consigo mesmo, o dever de apurar os fatos, a fim de fazer uma decisão conscientizada a respeito do sangue.
[Nota(s) de rodapé]
a Paulo, em Atos 17:25, 28, Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas.
b Similares proibições foram posteriormente incluídas no Qurʼān.
[Foto na página 4]
Num concílio histórico, o corpo governante cristão confirmou que a lei de Deus sobre o sangue ainda é obrigatória.
[Foto na página 3]
A Medicina e o Artista, de Carl Zigrosser/Dover Publications
[Foto na página 7]
Os cristãos primitivos recusavam-se a violar a lei de Deus sobre o sangue, não importava quais fossem as conseqüências.
[Crédito]
Pintura de Gérôme, 1883, cortesia da Walters Art Gallery, de Baltimore, EUA.
[Quadro na página 4]
“Os preceitos aqui delineados de modo preciso e metódico [em Atos 15] são qualificados como indispensáveis, fornecendo a prova mais forte de que, na mente dos apóstolos, este não era um arranjo temporário, ou uma medida provisória.” — Professor Édouard Reuss, Universidade de Estrasburgo, França.
[Quadro/Foto na página 5]
Martinho Lutero indicou as implicações do decreto apostólico: “Daí, se quisermos ter uma igreja que se ajuste a este concílio, . . . temos de ensinar e insistir que, doravante, nenhum príncipe, senhor, burguês, ou campônio, coma ganso, corça, veado, ou leitão cozinhado em sangue . . . E burgueses e campônios têm de abster-se especialmente da morcela e do chouriço com sangue.”
[Crédito]
Xilogravura de Lucas Cranach
[Quadro na página 6]
“Deus e os homens encaram as coisas numa luz bem diferente. O que parece importante aos nossos olhos não tem, muitas vezes, nenhum valor nos cálculos da infinita sabedoria; e o que parece trivial para nós é, não raro, de imensa importância para Deus. Isso já é assim desde o princípio.” — “An Enquiry Into the Lawfulness of Eating Blood” (Indagação Sobre a Licitude de se Comer Sangue), de Alexander Pirie, 1787.
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As transfusões de sangue — quão seguras são?Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida?
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As transfusões de sangue — quão seguras são?
A pessoa refletiva, antes de submeter-se a qualquer sério procedimento médico, procurará saber quais são os possíveis benefícios e os riscos. Que dizer das transfusões de sangue? Elas são agora um dos instrumentos principais da medicina. Muitos médicos genuinamente interessados em seus pacientes talvez hesitem muito pouco em ministrar sangue. Ele tem sido chamado de dádiva da vida.
Milhões de pessoas já doaram sangue ou o aceitaram. Em 1986-87, o Canadá, com uma população de 25 milhões, teve 1,3 milhão de doadores. “[No] ano mais recente de que dispomos de estatísticas, de 12 a 14 milhões de unidades de sangue foram usadas em transfusões, apenas nos Estados Unidos.” — The New York Times, 18 de fevereiro de 1990.
“O sangue sempre tem gozado duma qualidade ‘mágica’”, comenta a Dra. Louise J. Keating. “Nos seus primeiros 46 anos, tanto os médicos como o público entendiam que o suprimento de sangue era mais seguro do que realmente era.” (Revista Cleveland Clinic Journal of Medicine, de maio de 1989) Qual era a situação naquele tempo, e qual é agora?
Mesmo há 30 anos, os patologistas e as equipes dos bancos de sangue foram aconselhados: “O sangue é como dinamite! Pode trazer muitos benefícios ou muitos malefícios. A taxa de mortalidade resultante da transfusão de sangue equivale à da anestesia com éter ou à da apendicectomia. Diz-se que há aproximadamente uma morte em cada 1.000 a 3.000, ou, possivelmente, 5.000 transfusões. Na área de Londres, informa-se haver uma morte para cada 13.000 frascos de sangue transfundido.” — Revista New York State Journal of Medicine, de 15 de janeiro de 1960.
Será que, desde então, já se eliminaram os riscos, de modo que as transfusões são atualmente seguras? Francamente, todo ano centenas de milhares de pessoas apresentam reações adversas ao sangue, e muitas delas morrem. Em vista dos comentários precedentes, o que talvez lhe venha à mente são as doenças transmitidas pelo sangue. Antes de examinarmos este aspecto, considere alguns dos riscos menos conhecidos.
O SANGUE E SUA IMUNIDADE
No começo do século 20, os cientistas aprofundaram o entendimento do homem sobre a maravilhosa complexidade do sangue. Ficaram sabendo que existem diferentes tipos sanguíneos. Compatibilizar o sangue do doador com o sangue do paciente é algo crítico nas transfusões. Se alguém com sangue do tipo A receber o do tipo B, poderá apresentar grave reação hemolítica. Esta pode destruir muitas hemácias e matá-lo rapidamente. Ao passo que a classificação do tipo sanguíneo e os testes de compatibilização são agora uma rotina, ainda acontecem erros. Anualmente, há pessoas que morrem devido às reações hemolíticas.
Os fatos mostram que a questão da incompatibilidade vai muito além dos relativamente poucos tipos sanguíneos que os hospitais procuram compatibilizar. Por quê? Bem, o Dr. Douglas H. Posey Jr., em seu artigo “Transfusão de Sangue: Usos, Abusos e Riscos”, declara: “Há cerca de 30 anos, Sampson descreveu a transfusão de sangue como um procedimento relativamente perigoso . . . [Desde então] pelo menos 400 antígenos adicionais das hemácias foram identificados e caracterizados. Não resta dúvida de que tal número continuará a aumentar, porque a membrana da hemácia é tremendamente complexa.” — Revista Journal of the National Medical Association, de julho de 1989.
Há cientistas que estudam atualmente os efeitos do sangue transfundido sobre o sistema de defesa, ou imunitário, do corpo. O que poderia isso significar para o leitor, ou para um parente que precise ser operado?
Quando os médicos realizam um transplante de coração, do fígado, ou de outro órgão, o sistema imunológico do receptor pode detectar a presença do tecido estranho, e rejeitá-lo. Todavia, uma transfusão é um transplante de tecido. Mesmo o sangue que tenha sido “devidamente” compatibilizado pode causar a supressão do sistema imunológico. Numa conferência de patologistas, destacou-se o ponto que centenas de comunicados médicos “têm relacionado as transfusões de sangue com as reações imunológicas”. — Artigo “Aumentam os Argumentos Contra as Transfusões”, revista Medical World News, de 11 de dezembro de 1989.
Uma das principais tarefas do seu sistema imunológico é detectar e destruir as células malignas (do câncer). Poderia a imunidade suprimida levar ao câncer e à morte? Observe dois comunicados.
O periódico Cancer (15 de fevereiro de 1987) forneceu os resultados dum estudo realizado nos Países-Baixos: “Em pacientes com câncer do cólon, notou-se significativo efeito adverso da transfusão sobre a sobrevida a longo termo. Neste grupo havia uma sobrevida cumulativa geral de 5 anos de 48% dos pacientes transfundidos e de 74% para os não-transfundidos.” Médicos da Universidade do Sul da Califórnia, EUA, fizeram o acompanhamento de cem pacientes submetidos à cirurgia de câncer. “A taxa de recidiva para todos os casos de câncer da laringe era de 14% para os que não receberam sangue, e de 65% para os que receberam. Para o câncer na cavidade oral, da faringe, e do nariz ou sinus, a taxa de recidiva era de 31% sem as transfusões, e de 71% com as transfusões.” — Annals of Otology, Rhinology & Laryngology (Anais de Otorrinolaringologia), de março de 1989.
O que tais estudos sugerem sobre as transfusões? O Dr. John S. Spratt concluiu, em seu artigo “As Transfusões de Sangue e a Cirurgia do Câncer”: “O cirurgião cancerologista talvez precise tornar-se um cirurgião que não emprega sangue.” — Revista The American Journal of Surgery, de setembro de 1986.
Outra tarefa básica do seu sistema imunológico é defendê-lo das infecções. Assim, é compreensível que alguns estudos mostrem que os pacientes que recebem sangue são mais propensos à infecção. O Dr. P. I. Tartter promoveu um estudo de cirurgias colorretais. Dentre os pacientes que receberam transfusões, 25 por cento contraíram infecções, em comparação com 4 por cento dos que não receberam nenhuma transfusão. Ele comunica: “As transfusões de sangue estavam ligadas a complicações infecciosas quando ministradas na fase pré-, intra- ou pós-operatória . . . O risco duma infecção pós-operatória aumentava progressivamente conforme o número de unidades de sangue ministradas.” (Revista The British Journal of Surgery, de agosto de 1988) Os presentes a uma reunião, realizada em 1989, da Associação Americana dos Bancos de Sangue, ficaram a par do seguinte: Ao passo que 23 por cento dos que receberam sangue de doadores, durante uma operação de substituição do quadril, contraíram infecções, os que não receberam sangue algum não apresentaram nenhuma infecção.
O Dr. John A. Collins escreveu a respeito deste efeito das transfusões de sangue: “Seria deveras irônico caso se comprovasse posteriormente que um ‘tratamento’, que dá muito pouca evidência de trazer qualquer benefício, agravasse ainda mais um dos principais problemas enfrentados por tais pacientes.” — Revista World Journal of Surgery, de fevereiro de 1987.
ISENTO DE DOENÇAS OU REPLETO DE PERIGOS?
Médicos conscienciosos e muitos pacientes estão preocupados com as doenças veiculadas pelo sangue. Que doenças? Francamente, não se pode limitá-las a apenas uma; existem deveras muitas.
Depois de considerar as doenças mais conhecidas, o livro Techniques of Blood Transfusion (Técnicas da Transfusão de Sangue; 1982) considera “outras moléstias infecciosas associadas às transfusões”, tais como a sífilis, a infecção por citomegalovírus e a malária. Daí, ele diz: “Várias outras doenças também têm sido comunicadas como sendo transmitidas pela transfusão de sangue, inclusive infecções com o vírus do herpes, a mononucleose infecciosa (vírus de Epstein-Barr), a toxoplasmose, a tripanossomíase [doença do sono africana e a doença de Chagas], a leishmaniose, a brucelose [febre ondulante], o tifo, a filariose, o sarampo, a salmonelose, e a febre de carrapatos do Colorado.”
Na realidade, a lista de tais doenças está aumentando. Talvez tenha lido manchetes tais como: “É a Doença de Lyme Transmitida por Transfusão? É Improvável, mas os Peritos São Cautelosos.” Quão seguro é o sangue de alguém que apresente positividade do mal de Lyme? Perguntou-se a um painel de autoridades sanitárias se eles aceitariam tal sangue. “Todos responderam que não, embora nenhum deles recomendasse jogar fora o sangue de tais doadores.” O que deve o público pensar sobre o sangue de bancos, que nem os próprios peritos aceitariam? — The New York Times, de 18 de julho de 1989.
Um segundo motivo de preocupação é que o sangue coletado em um país em que prolifere determinada doença pode ser usado em local bem distante, onde nem o público nem os médicos estão alertas a seus perigos. Com o aumento das viagens, hoje em dia, inclusive de refugiados e de imigrantes, aumenta o risco de um produto de sangue conter uma doença estranha.
Ademais, um infectologista avisou: “Os estoques de sangue talvez precisem ser submetidos a testes de detecção, para impedir a transmissão de várias moléstias que não eram, anteriormente, consideradas infecciosas, inclusive a leucemia, o linfoma e a demência [ou mal de Alzheimer].” — Periódico Transfusion Medicine Reviews, de janeiro de 1989.
Embora tais riscos nos dêem calafrios na espinha, outros têm gerado muito mais medo.
A PANDEMIA DE AIDS
“A AIDS mudou para sempre o modo de pensar dos médicos e dos pacientes sobre o sangue. E isso não é má idéia, disseram os médicos reunidos nos Institutos Nacionais de Saúde [dos EUA], para uma conferência sobre a transfusão de sangue.” — Jornal The Washington Post, de 5 de julho de 1988.
A pandemia de AIDS (síndrome de imunodeficiência adquirida) tem vigorosamente despertado as pessoas para o perigo de contraírem doenças infecciosas através do sangue. Milhões acham-se agora infectados. Ela se espalha a ponto de fugir do controle. E sua taxa de mortes é virtualmente de 100 por cento.
A AIDS é causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), que pode ser transmitido pelo sangue. A moderna praga de AIDS veio a lume em 1981. Já no ano seguinte, peritos sanitários constataram que o vírus poderia ser transmitido por produtos de sangue. Admite-se atualmente que a indústria hemoterápica foi muito lenta em sua reação, mesmo depois de existirem testes que identificavam o sangue que continha anticorpos HIV. Finalmente começaram, em 1985,a os testes do sangue dos doadores, mas, mesmo então, não eram aplicados a produtos do sangue já estocados.
Depois disso, assegurou-se ao público: ‘Os estoques de sangue agora são seguros.’ Mais tarde, contudo, revelou-se que existe um perigoso ‘período de latência’ da AIDS. Depois de uma pessoa ser infectada, podem decorrer meses até que comece a produzir anticorpos detectáveis. Tal pessoa, sem se dar conta de que abriga o vírus, poderia doar sangue que daria resultado negativo nos testes. Isto já tem acontecido. Houve pessoas que manifestaram a AIDS depois de terem recebido uma transfusão de tal sangue!
O quadro se tornou ainda mais sombrio. A revista The New England Journal of Medicine (1.º de junho de 1989) noticiou as “Silenciosas Infecções com o HIV”. Foi confirmado que pessoas podem abrigar o vírus da AIDS durante anos, sem este ser detectado pelos atuais testes indiretos. Alguns gostariam de minimizar tais casos, como sendo raros, mas estes provam “que os riscos de transmissão da AIDS via sangue e seus componentes não pode ser totalmente eliminado”. (Periódico Patient Care, de 30 de novembro de 1989) A conclusão perturbadora é: Um teste negativo não pode ser entendido como um atestado de boa saúde. Quantos ainda contrairão a AIDS por meio de sangue?
O PRÓXIMO SAPATO? OU SAPATOS?
Muitos que moram em apartamentos já ouviram a história, comum na língua inglesa, do tremendo baque causado por um sapato jogado no chão, no andar de cima; eles talvez tenham ficado tensos ao aguardarem o segundo ser jogado. No dilema do sangue, ninguém sabe quantos sapatos mortíferos ainda serão jogados no chão.
O vírus da AIDS foi designado HIV, mas alguns peritos o chamam agora de HIV-1. Por quê? Porque encontraram outro vírus do tipo da AIDS (HIV-2). Pode provocar sintomas da AIDS e é bem comum em algumas localidades. Ademais, “não é detectado de forma consistente pelos testes de AIDS agora utilizados aqui”, noticia o The New York Times. (27 de junho de 1989) “As novas descobertas . . . tornam mais difícil que os bancos de sangue estejam certos de que uma doação seja segura.”
Ou que dizer dos parentes distantes do vírus da AIDS? Uma comissão presidencial (dos EUA) disse, sobre um de tais vírus, que “se cria ser ele a causa da leucemia/linfoma da célula-T em adultos e de uma grave doença neurológica”. Este vírus já se acha na população dos doadores de sangue e pode ser espalhado pelo sangue. As pessoas têm o direito de indagar-se: ‘Quão eficaz é o teste de detecção de tais outros vírus, realizado pelos bancos de sangue?’
Realmente, só o tempo dirá quantos vírus veiculados pelo sangue espreitam nos estoques de sangue. “O que se desconhece pode dar mais motivos de preocupação do que o que se conhece”, escreve o Dr. Harold T. Meryman. “Será difícil relacionar com transfusões os vírus transmissíveis, com muitos anos de tempo de incubação, sendo ainda mais difíceis de detectar. O grupo HTLV certamente é apenas o primeiro destes a vir a tona.” (Transfusion Medicine Reviews, de julho de 1989) “Como se não bastassem os males causados pela epidemia de AIDS, . . . vieram à atenção, na década de 80, vários riscos recém-propostos ou descritos da transfusão. Não é preciso grande imaginação para predizer que existem outras graves viroses e que elas são transmitidas por transfusões homólogas.” — Limiting Homologous Exposure: Alternative Strategies (Limitar a Exposição ao Sangue Homólogo: Estratégias Alternativas), de 1989.
Foram tantos os “sapatos” já jogados no chão que os Centros de Controle de Moléstias (CDC), dos EUA, recomendam “precauções universais”. Isto é, ‘os que trabalham no setor de saúde deviam presumir que todos os pacientes estão infectados com o HIV e com outras patogenias veiculadas pelo sangue’. Com bom motivo, os que trabalham no setor de saúde e os membros do público em geral estão reavaliando seu conceito sobre o sangue.
[Nota(s) de rodapé]
a Não podemos presumir que todo sangue esteja mesmo sendo submetido a testes. Por exemplo, relatou-se que, no começo de 1989, cerca de 80 por cento dos bancos de sangue do Brasil não estavam sob o controle do Governo, nem estavam submetendo o sangue a testes de detecção da AIDS.
[Foto na página 9]
O papa sobreviveu aos tiros dados contra ele. Depois de receber alta hospitalar, ele voltou a ser internado por dois meses, “sofrendo muito”. Por quê? Devido a uma infecção potencialmente fatal por citomegalovírus, provinda do sangue recebido.
[Crédito]
UPI/Betmann Newsphotos
[Foto na página 12]
Vírus da AIDS
[Crédito]
CDC, Atlanta, Geórgia, EUA
[Quadro na página 8]
“Cerca de 1 em cada 100 transfusões é acompanhada de febre, calafrios ou [urticária] . . . Cerca de 1 em cada 6.000 transfusões de hemácias resulta numa reação transfusional hemolítica. Trata-se de grave reação imunológica que pode ocorrer de forma aguda ou com o lapso de alguns dias, depois da transfusão; pode resultar em insuficiência [renal] aguda, em choque, em coagulação intravascular, e até mesmo em morte.” — Conferência realizada pelos Institutos Nacionais de Saúde (sigla NIH, em inglês), dos EUA, em 1988.
[Quadro na página 9]
O cientista dinamarquês Niels Jerne foi um dos agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina de 1984. Quando lhe perguntaram por que ele recusara uma transfusão de sangue, ele disse: “O sangue duma pessoa é como suas impressões digitais — não existem dois tipos de sangue exatamente iguais.”
[Quadro na página 10]
O SANGUE, OS FÍGADOS LESADOS, E . . .
“Ironicamente, a AIDS transmitida pelo sangue . . . nunca foi uma ameaça tão grande como outras doenças — a hepatite, por exemplo”, explicou o jornal The Washington Post.
Sim, um grande número de pessoas já ficou muito doente e morreu devido a esse tipo de hepatite, que não possui um tratamento específico. De acordo com a revista U.S.News & World Report (1.º de maio de 1989), cerca de 5 por cento dos que recebem sangue, nos Estados Unidos, contraem hepatite — 175.000 pessoas por ano. Cerca da metade delas tornam-se portadores crônicos, e, pelo menos, 1 de cada 5 manifesta a cirrose hepática, ou o câncer do fígado. Calcula-se que 4.000 delas morrem. Imagine só quais seriam as manchetes que leria se um jumbo caísse, matando todas as pessoas a bordo. Mas 4.000 mortes equivalem a um jumbo lotado que caia todo mês!
Os médicos há muito sabem que uma forma mais branda de hepatite (tipo A) era transmitida por alimentos ou águas contaminados. Daí, eles discerniram que uma forma mais grave espalhava-se por meio do sangue, mas eles não dispunham de nenhum teste para detectá-la no sangue. Por fim, cientistas brilhantes aprenderam a detectar “pegadas” deste vírus (tipo B). Já no início da década de 70, alguns países realizavam testes sanguíneos preventivos. Os estoques de sangue pareciam seguros e o futuro do sangue parecia brilhante! Mas era mesmo?
Não demorou muito para ficar claro que milhares que tinham recebido sangue aprovado nesses testes ainda contraíam hepatite. Muitos, depois de uma doença debilitante, ficaram cônscios de que seus fígados estavam lesados. Mas, se o sangue tinha sido testado, por que isto estava acontecendo? O sangue continha outra forma, chamada de hepatite não-A, não-B (sigla em inglês, NANB). Durante uma década, ela assolou as transfusões — entre 8 e 17 por cento dos transfundidos na Espanha, nos Estados Unidos, em Israel, na Itália e na Suécia a contraíram.
Daí surgiram manchetes tais como “Finalmente Isolado o Misterioso Vírus da Hepatite Não-A, Não-B”; “Acabando com a Febre no Sangue”. Mais uma vez, a mensagem era: ‘Encontrado o agente fugidio!’ Em abril de 1989, o público foi informado de que estava então disponível um teste para a NANB, agora chamada de hepatite C.
Talvez fique imaginando se este alívio é prematuro. Com efeito, pesquisadores italianos comunicaram ter encontrado outro vírus da hepatite, um mutante, que poderia ser responsável por um terço dos casos. “Algumas autoridades”, comentou o boletim Harvard Medical School Health Letter (de novembro de 1989), “preocupam-se de que o A, o B, o C, e o D não sejam todo o alfabeto dos vírus da hepatite; ainda podem aflorar outros”. O jornal The New York Times (13 de fevereiro de 1990) declarava: “Os peritos têm fortes suspeitas de que outros vírus possam causar a hepatite; se descobertos, eles serão designados hepatite E, e assim por diante.”
Vêem-se os bancos de sangue confrontados com pesquisas mais longas em busca de testes que tornem seguro o sangue? Citando o problema de custos, um dos diretores da Cruz Vermelha Americana teceu o seguinte comentário perturbador: “Simplesmente não podemos continuar a adicionar teste após teste para cada agente infeccioso que poderia ser disseminado.” — Revista Medical World News, de 8 de maio de 1989.
Mesmo o teste para a hepatite B é falível; muitos ainda a contraem através do sangue. Ademais, ficarão as pessoas satisfeitas com o anunciado teste para a hepatite C? A revista The Journal of the American Medical Association (5 de janeiro de 1990) mostrava que pode passar um ano antes que os anticorpos da doença sejam detectáveis por meio desse teste. Neste ínterim, as pessoas que receberem transfusões desse sangue poderão enfrentar fígados lesados — e a morte.
[Quadro/Foto na página 11]
A doença de Chagas ilustra como o sangue leva doenças para pessoas que moram bem longe. A revista “The Medical Post” (16 de janeiro de 1990) noticia que ‘10-12 milhões de pessoas na América Latina padecem de infecção crônica’ dessa doença. Ela tem sido chamada de “um dos mais importantes riscos transfusionais da América do Sul”. Um “inseto assassino” pica no rosto uma vítima adormecida, suga seu sangue e defeca na ferida. A vítima pode ser portadora da doença de Chagas durante muitos anos (no ínterim, possivelmente doando sangue) antes de manifestar as complicações cardíacas fatais.
Por que deveria isso preocupar pessoas em continentes distantes? No “The New York Times” (23 de maio de 1989), o Dr. L. K. Altman relatou que tinha pacientes com a doença de Chagas pós-transfusional, um dos quais morreu. Altman escreveu: “Casos adicionais podem ter passado despercebidos porque [os médicos aqui] não estão familiarizados com a doença de Chagas, nem se dão conta de que poderia ser disseminada por meio de transfusões.” Sim, o sangue pode ser um veículo por meio do qual as doenças vão bem longe.
[Quadro na página 12]
O Dr. Knud Lund-Olesen escreveu: “Visto que . . . algumas pessoas dos grupos de alto risco se oferecem como doadores, por serem submetidas automaticamente a testes de detecção da AIDS, acho que existe motivo de se relutar em aceitar uma transfusão de sangue. As Testemunhas de Jeová já recusam isto por muitos anos. Será que elas olhavam para o futuro?” — “Ugeskrift for Læger” (Semanário dos Médicos), 26 de setembro de 1988.
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Alternativas de qualidade para a transfusãoComo Pode o Sangue Salvar a Sua Vida?
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Alternativas de qualidade para a transfusão
O leitor poderia pensar: ‘As transfusões são perigosas, mas será que existem alternativas de qualidade?’ É uma boa pergunta, e observe a palavra “qualidade”.
Todos, inclusive as Testemunhas de Jeová, desejam um tratamento médico eficaz de alta qualidade. O Dr. Grant E. Steffen comentou sobre dois elementos-chaves: “Tratamento médico de qualidade é a capacidade de os elementos desse tratamento alcançarem alvos médicos e não-médicos legítimos.” (Revista The Journal of the American Medical Association, 1.º de julho de 1988) ‘Alvos não-médicos’ incluiriam não violar a ética ou a consciência do paciente, baseada na Bíblia. — Atos 15:28, 29.
Existem meios legítimos e eficazes de cuidar de graves problemas de saúde sem se usar sangue? Felizmente a resposta é sim.
Embora a maioria dos cirurgiões afirme só ter dado sangue quando isso era absolutamente necessário, diminuiu rapidamente o emprego de sangue, por parte deles, depois que surgiu a epidemia de AIDS. Um editorial do periódico Mayo Clinic Proceedings (setembro de 1988) dizia que “um dos poucos benefícios da epidemia” foi que “resultou em várias estratégias por parte dos pacientes e dos médicos para evitar a transfusão de sangue”. Um dirigente de banco de sangue explica: “O que deveras mudou foi a intensidade da mensagem, a receptividade dos clínicos à mensagem (por causa da maior percepção dos riscos), e a demanda para que se considerassem as alternativas.” — Periódico Transfusion Medicine Reviews, de outubro de 1989.
Observe que existem alternativas! Isto se torna compreensível quando examinamos os motivos pelos quais se transfunde sangue.
A hemoglobina contida nos glóbulos vermelhos transporta o oxigênio necessário para a boa saúde e a vida. Assim, caso uma pessoa tenha perdido muito sangue, pareceria lógico apenas repô-lo. Normalmente, dispõe-se de cerca de 14 ou 15 gramas de hemoglobina em cada 100 centímetros cúbicos de sangue. (Outra forma de medir sua concentração é o hematócrito, que comumente é de cerca de 45 por cento.) A “regra” aceita era de transfundir um paciente antes duma operação se sua taxa de hemoglobina fosse inferior a 10 (ou um hematócrito de 30 por cento). A revista suíça Vox Sanguinis (março de 1987) noticiou que “65% dos [anestesiologistas] exigiam que os pacientes tivessem uma taxa pré-operatória de hemoglobina de 10 g/dL para a cirurgia eletiva”.
Mas, numa conferência sobre a transfusão de sangue, realizada em 1988, o Professor Howard L. Zauder perguntou: “Como Foi que Obtivemos um ‘Número Mágico’?” Ele declarou expressamente: “A etiologia dessa exigência de que o paciente deva ter 10 gramas de hemoglobina (Hgb) antes de receber anestesia está envolta em tradição, está revestida de obscuridade e não é comprovada por evidência clínica ou experimental.” Imagine só os muitos milhares de pacientes submetidos a transfusões que foram motivadas por uma exigência ‘obscura, não comprovada’!
Alguns talvez fiquem imaginando: ‘Por que será que um nível 14 de hemoglobina é normal, se a pessoa consegue passar com muito menos?’ Bem, a pessoa dispõe assim de considerável reserva da capacidade de transporte de oxigênio, de modo que esteja pronta para algum exercício ou trabalho pesado. Estudos feitos de pacientes anêmicos até mesmo revelam que “é difícil detectar um déficit na capacidade de trabalho, com concentrações de hemoglobina tão baixas quanto 7 g/dL. Outros têm encontrado evidência de apenas uma moderada redução do desempenho”. — Contemporary Transfusion Practice (A Prática Transfusional Contemporânea), 1987.
Enquanto que os adultos se ajustam a uma baixa taxa de hemoglobina, que dizer das crianças? O Dr. James A. Stockman III diz: “Com poucas exceções, os bebês prematuros apresentarão um declínio da hemoglobina do primeiro ao terceiro mês . . . As indicações de transfusão no berçário não estão bem definidas. Deveras, muitos bebês parecem tolerar níveis notavelmente baixos de concentração de hemoglobina, sem nenhuma dificuldade clínica aparente.” — Revista Pediatric Clinics of North America, de fevereiro de 1986.
Tais informações não significam que não se precisa fazer nada quando uma pessoa perde muito sangue num acidente, ou numa operação. Caso a perda seja rápida e acentuada, cai a pressão arterial da pessoa, e ela pode entrar em choque. O que se precisa basicamente é que se faça cessar a hemorragia e se restaure o volume do sistema circulatório. Isso impedirá o choque e manterá em circulação as restantes hemácias e outros componentes do sangue.
A reposição do volume do plasma pode ser conseguida sem se usar sangue total ou plasma sanguíneo.a Diversos líquidos que não contêm sangue constituem eficazes expansores do volume do plasma. O mais simples de todos é a solução salina, que é tanto barata como compatível com o nosso sangue. Existem também líquidos dotados de propriedades especiais, tais como a dextrana, o Haemaccel, e a solução de lactato de Ringer. A hidroxietila de amido (HES; amido-hidroxietil) é um mais recente expansor do volume do plasma e “pode ser seguramente recomendado para aqueles pacientes [queimados], que objetem a produtos de sangue”. (Journal of Burn Care & Rehabilitation, janeiro/fevereiro de 1989) Tais líquidos apresentam vantagens definitivas. “Soluções cristalóides [tais como a solução salina normal e o lactato de Ringer], o Dextran e o HES são relativamente atóxicos e baratos, prontamente disponíveis, podem ser estocados à temperatura ambiente, não exigem testes de compatibilidade e estão isentos do risco de doenças transmitidas pela transfusão.” — Blood Transfusion Therapy—A Physician’s Handbook (A Terapia da Transfusão de Sangue — Manual do Médico), de 1989.
Talvez pergunte, porém: ‘Por que funcionam bem os líquidos de reposição não-sanguíneos, uma vez que eu preciso de glóbulos vermelhos para fazer com que o oxigênio seja transportado por todo o meu corpo?’ Conforme mencionado, a pessoa dispõe de reservas para o transporte de oxigênio. Caso perca sangue, acionam-se maravilhosos mecanismos compensatórios. Seu coração bombeia mais sangue em cada batimento. Visto que o sangue perdido foi substituído por um líquido adequado, o sangue agora diluído flui mais facilmente, mesmo nos pequenos vasos. Em resultado de mudanças químicas, mais sangue é liberado para os tecidos. Estas adaptações são tão eficazes que, se somente a metade de suas hemácias permanecerem, o transporte de oxigênio poderá ser até cerca de 75 por cento do normal. Um paciente em repouso utiliza apenas 25 por cento do oxigênio disponível em seu sangue. E a maioria dos anestésicos reduz a necessidade de oxigênio do corpo.
COMO PODEM OS MÉDICOS SER DE AJUDA?
Médicos peritos podem ajudar a pessoa que perdeu sangue e que, assim, dispõe de menos glóbulos vermelhos. Uma vez restaurado o volume do plasma, os médicos podem administrar oxigênio em alta concentração. Isto o torna disponível em maior quantidade para o corpo e, muitas vezes, tem dado notáveis resultados. Os médicos ingleses usaram isto com uma senhora que tinha perdido tanto sangue que “sua taxa de hemoglobina caiu para 1,8 g/dL. Ela foi tratada com êxito . . . [com] elevada inspiração de oxigênio concentrado e transfusões de grandes volumes de solução coloidal de gelatina [Haemaccel]”. (Anaesthesia, de janeiro de 1987) O informe também diz que outros, com perdas agudas de sangue, foram tratados com êxito em câmaras hiperbáricas (de oxigênio).
Os médicos também podem ajudar seus pacientes a formar mais glóbulos vermelhos. Como? Por lhes darem concentrados de ferro (no músculo ou na veia), que podem ajudar o corpo a produzir glóbulos vermelhos três a quatro vezes mais rápido do que o normal. Recentemente, outra ajuda tornou-se disponível. Seus rins produzem um hormônio chamado eritropoietina (EPO), que estimula a medula óssea a produzir hemácias. Acha-se agora disponível a EPO sintética (recombinante). Os médicos podem ministrá-la a alguns pacientes anêmicos, ajudando-os assim a produzir mui rapidamente os glóbulos vermelhos de reposição.
Mesmo no decorrer duma cirurgia, cirurgiões e anestesiologistas peritos e conscienciosos podem ser de ajuda por empregar métodos avançados de conservação do sangue. Nunca é demais enfatizar o uso de técnicas operatórias meticulosas, tais como o bisturi elétrico para minimizar a hemorragia. Às vezes é possível aspirar e filtrar o sangue que flua em um ferimento, repondo-o depois em circulação.b
Pacientes num aparelho coração-pulmão, tendo como volume de escorva um líquido isento de sangue, podem beneficiar-se da hemodiluição resultante, perdendo menos glóbulos vermelhos.
E existem outros meios de ajudar. Resfriar um paciente, para reduzir suas necessidades de oxigênio durante a cirurgia. A anestesia hipotensiva. A terapia para melhorar a coagulação sanguínea. A desmopressina (sigla em inglês, DDAVP) para abreviar o tempo de sangramento. Os “bisturis” a laser. Verá essa lista aumentar, à medida que os médicos, bem como os pacientes preocupados, procuram evitar as transfusões de sangue. Esperamos que o leitor jamais perca grande quantidade de sangue. Mas, se perder, é bem provável que médicos peritos consigam cuidar de seu problema sem usar transfusões de sangue, que apresentam tantos riscos.
CIRURGIA, SIM — MAS SEM TRANSFUSÕES
Muitas pessoas, hoje em dia, não aceitam sangue. Por questões de saúde, elas solicitam aquilo que as Testemunhas buscam, primariamente, por motivos religiosos: cuidados médicos de qualidade que empreguem tratamentos alternativos sem sangue. Conforme observamos, grandes cirurgias ainda são possíveis. Se ainda tiver quaisquer dúvidas, outras evidências disponíveis na literatura médica poderão dissipá-las.
O artigo “Grande Substituição Quádrupla da Articulação em Membro das Testemunhas de Jeová” (Orthopaedic Review, agosto de 1986) falou de um paciente anêmico em “adiantado estado de degeneração, tanto dos joelhos como dos quadris”. Utilizou-se a dextrana ferrosa antes e depois da cirurgia, feita por etapas, que teve êxito. A revista British Journal of Anaesthesia (1982) noticiou a respeito duma Testemunha de 52 anos, com taxa de hemoglobina inferior a 10. Empregando-se a anestesia hipotensiva para minimizar a perda de sangue, ela recebeu uma prótese total do quadril e do ombro. Uma equipe cirúrgica da Universidade de Arkansas (EUA) também empregou esse método em cem substituições do quadril de Testemunhas e todos os pacientes se recuperaram. O professor que dirige esse departamento comenta: “O que aprendemos destes pacientes (Testemunhas), empregamos agora em todos os nossos pacientes em que fazemos a prótese total do quadril.”
A consciência de algumas Testemunhas lhes permite aceitar transplantes de órgãos, se isso for feito sem sangue. Um informe sobre 13 transplantes de rins concluía: “Os resultados gerais sugerem que o transplante renal pode ser aplicado, segura e eficazmente, à maioria das Testemunhas de Jeová.” (Transplantation, junho de 1988) Igualmente, a recusa de tomar sangue não serviu de empecilho até mesmo para bem-sucedidos transplantes de coração.
‘Que dizer da cirurgia sem sangue, de outros tipos?’, talvez se pergunte. O boletim Medical Hotline (abril/maio de 1983) mencionava a cirurgia feita em “Testemunhas de Jeová que foram submetidas a grandes operações ginecológicas e obstétricas sem transfusões de sangue”. O boletim informava: “Não houve maior número de óbitos e de complicações do que no caso de mulheres submetidas a operações similares, com transfusões de sangue.” Daí, o boletim comentou: “Os resultados deste estudo podem justificar novo enfoque sobre o uso de sangue para todas as mulheres submetidas a operações obstétricas e ginecológicas.”
No hospital da Universidade de Göttingen (Alemanha), 30 pacientes que rejeitaram sangue foram submetidos à cirurgia geral. “Não surgiu nenhuma complicação que não pudesse ter surgido no caso de pacientes que aceitam transfusões de sangue. . . . Não se deve superestimar que o recurso a uma transfusão não é possível, e isso não deveria levar à recusa de realizar uma operação que seja necessária e cirurgicamente justificável.” — Risiko in der Chirurgie (Risco na Cirurgia), 1987.
Mesmo a neurocirurgia (operação do cérebro) sem o emprego de sangue tem sido realizada em numerosos adultos e crianças, por exemplo, no Centro Médico da Universidade de Nova Iorque, EUA. Em 1989, o Dr. Joseph Ransohoff, chefe do departamento de neurocirurgia, escreveu: “Está bem claro que, na maioria dos casos, evitar produtos que contenham sangue pode ser conseguido com um risco mínimo para os pacientes que têm princípios religiosos contra o uso de tais produtos, especialmente se a cirurgia puder ser realizada de forma expedita e com tempo operatório relativamente curto. De considerável interesse é o fato de que eu muitas vezes esqueço que o paciente é Testemunha até a hora de lhe dar alta hospitalar, quando eles me agradecem por eu ter respeitado suas crenças religiosas.”
Por fim, podem complicadas cirurgias cardiovasculares ser realizadas, sem sangue, em adultos e em crianças? O Dr. Denton A. Cooley foi um dos pioneiros a fazer exatamente isso. Como pode ver no artigo médico cuja tradução acha-se reimpressa no Apêndice, nas páginas 27-9, com base em anterior análise, a conclusão do Dr. Cooley foi de “que o risco da cirurgia em pacientes do grupo das Testemunhas de Jeová não tem sido significativamente maior do que no caso de outros”. Atualmente, depois de realizar 1.106 de tais operações, ele escreve: “Em cada caso, mantenho o acordo ou contrato feito com o paciente”, isto é, de não usar sangue algum.
Os cirurgiões têm observado que a boa atitude é outro fator evidenciado pelas Testemunhas de Jeová. “A atitude destes pacientes tem sido exemplar”, escreveu o Dr. Cooley em outubro de 1989. “Eles não têm o medo de complicações, nem mesmo da morte, como a maioria dos pacientes. Têm profunda e duradoura fé em sua crença, e em seu Deus.”
Isto não significa que desejam asseverar o direito de morrer. Buscam ativamente cuidados médicos de qualidade, porque desejam ficar bons. Estão convictos de que é sábio obedecer à lei de Deus sobre o sangue, conceito este que exerce uma influência positiva na cirurgia que não utiliza sangue.
O Professor Dr. V. Schlosser, do hospital-cirúrgico da Universidade de Freiburg (Alemanha), comentou: “Entre este grupo de pacientes, a incidência de hemorragia no período perioperatório (“em torno de”) não era maior; as complicações, se é que fazia diferença, eram menos comuns. O conceito especial sobre as doenças, típico das Testemunhas de Jeová, exercia uma influência positiva no processo perioperatório.” — Revista Herz Kreislauf, de agosto de 1987.
[Nota(s) de rodapé]
a As Testemunhas de Jeová não aceitam transfusões de sangue total, de hemácias, de leucócitos, de plaquetas ou de plasma sanguíneo. Quanto a frações menores, tais como de imunoglobulinas, veja A Sentinela de 1.º junho de 1990, páginas 30-1.
b A Sentinela de 1.º de março de 1989, páginas 30-1, considera os princípios bíblicos que têm que ver com os métodos de recuperar sangue e com os equipamentos de circulação do sangue (extracorpórea).
[Foto na página 15]
O aparelho coração-pulmão tem sido de grande ajuda em cirurgias de pacientes que não desejam sangue.
[Quadro na página 13]
“Temos de concluir que, atualmente, existem muitos pacientes que recebem componentes sanguíneos que não têm nenhuma probabilidade de beneficiar-se duma transfusão (o sangue não é necessário), e, ademais, correm significativo risco de sofrer efeitos indesejáveis. Nenhum médico exporia deliberadamente um paciente a uma terapia que não pudesse beneficiá-lo, mas que talvez o prejudicasse, mas é exatamente isso que ocorre quando o sangue é transfundido desnecessariamente.” — “Transfusion-Transmitted Viral Diseases” (Viroses Transmitidas por Transfusão), de 1987.
[Quadro na página 14]
“Alguns autores declararam que valores tão baixos da hemoglobina quanto de 2 a 2,5 g/100 ml podem ser aceitáveis. . . . A pessoa saudável poderá tolerar uma perda sanguínea de 50 por cento da massa de glóbulos vermelhos e permanecer quase que inteiramente assintomática, caso a perda do sangue ocorra por certo período de tempo.” — “Techniques of Blood Transfusion” (Técnicas da Transfusão de Sangue), de 1982.
[Quadro na página 15]
“Conceitos antigos sobre o transporte de oxigênio para os tecidos, sobre a cura dos ferimentos e sobre o ‘valor nutritivo’ do sangue, estão sendo descartados. A experiência com pacientes que são Testemunhas de Jeová demonstra que a anemia grave é bem-tolerada.” — “The Annals of Thoracic Surgery”, de março de 1989.
[Quadro na página 16]
Crianças pequenas também? “Quarenta e oito operações pediátricas de coração aberto foram realizadas com técnicas que não utilizavam sangue, apesar de sua complexidade cirúrgica.” Algumas crianças eram bem pequenas, chegando a pesar somente 4,7 quilos. “Devido ao êxito contínuo em Testemunhas de Jeová, e ao fato de que transfusões de sangue envolvem o risco de graves complicações, nós estamos atualmente realizando a maioria de nossas operações cardíacas pediátricas sem transfusões.” — “Circulation”, de setembro de 1984.
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A decisão é suaComo Pode o Sangue Salvar a Sua Vida?
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A decisão é sua
Um enfoque médico atual (chamado de análise risco/benefício) está tornando mais fácil a cooperação entre médicos e pacientes para evitar a hemoterapia. Os médicos pesam os fatores, tais como os riscos que certo fármaco ou certa cirurgia apresentam, e os prováveis benefícios. Os pacientes também podem participar em tal análise.
Utilizemos um exemplo com o qual as pessoas em muitas localidades se possam identificar — a amigdalite crônica. Caso sofresse disso, é provável que consultasse um médico. Com efeito, talvez consultasse dois, visto que os especialistas da área da saúde recomendam que se obtenham dois pareceres. Um talvez recomende operar. Ele delineia o que isso significa: tempo de hospitalização, intensidade das dores, e os custos. Quanto aos riscos, ele diz que não é comum haver grave hemorragia, sendo raríssima a morte em tal operação. Mas o médico que oferece um segundo parecer insta com o leitor a que tente o tratamento com antibióticos. Ele explica o tipo de remédio, a probabilidade de êxito, e os custos. Quanto aos riscos, ele diz que pouquíssimos pacientes apresentam reações ao remédio que possam pôr em risco sua vida.
Cada um dos médicos competentes provavelmente pesou os riscos e os benefícios, mas agora cabe-lhe pesar os riscos e os possíveis benefícios, bem como outros fatores que ninguém conhece melhor do que o próprio leitor. (Está nas melhores condições de considerar aspectos tais como o seu próprio vigor emocional, ou força espiritual, as finanças da família, o efeito sobre sua família, e sua própria ética.) Daí, faz uma decisão. Possivelmente poderá dar seu consentimento conscientizado para uma das terapias, mas declinará da outra.
Este também seria o caso se fosse seu filho que tivesse amigdalite crônica. Os riscos, os benefícios e as terapias lhes seriam delineados, como pais amorosos que são — as pessoas mais diretamente afetadas e os responsáveis de enfrentar os resultados. Depois de pesar todos os aspectos, poderão fazer uma decisão conscientizada sobre este assunto que envolve a saúde de seu filho ou de sua filha, e até mesmo a vida dele ou dela. Talvez consintam em submetê-lo(a) à cirurgia, com os seus riscos. Outros pais talvez escolham os antibióticos, com os seus riscos. Assim como os médicos diferem em suas recomendações, assim também os pacientes ou os pais diferem quanto ao que julgam ser melhor. Esta é uma característica reconhecida de se fazer uma decisão conscientizada (risco/benefício).
Que dizer do emprego de sangue? Ninguém que examine objetivamente os fatos poderá negar que as transfusões de sangue envolvem grande risco. O Dr. Charles Huggins, que é o diretor do serviço de transfusão no grande Hospital das Clínicas de Massachusetts, EUA, deixou isso bem claro: “O sangue jamais foi mais seguro. Mas, tem de ser considerado inevitavelmente não-seguro. Trata-se da substância mais perigosa que utilizamos na medicina.” — The Boston Globe Magazine, de 4 de fevereiro de 1990.
Com bons motivos, as equipes médicas têm sido aconselhadas: “É necessário reavaliar a parte arriscada da relação risco/benefício da transfusão de sangue e procurar alternativas.” (O grifo é nosso.) — Perioperative Red Cell Transfusion (Transfusão Perioperativa de Hemácias), conferência dos Institutos Nacionais de Saúde, dos EUA, 27-29 de junho de 1988.
Os médicos podem discordar quanto aos benefícios ou os riscos de se usar sangue. Um poderá ministrar muitas transfusões e estar convicto de que elas valem o risco. Outro poderá achar que os riscos são injustificáveis, pois ele tem obtido bons resultados em tratar sem sangue. Em última análise, contudo, a decisão é sua, como paciente ou genitor. Por que a decisão é sua? Porque o que está envolvido é seu corpo, sua vida, sua ética (ou os do seu filho), e o profundamente importante relacionamento com Deus.
SEU DIREITO É RECONHECIDO
Em muitos lugares, hoje em dia, o paciente tem o direito inalienável de decidir que tratamento ele aceitará. “A lei do consentimento conscientizado tem-se baseado em duas premissas: a primeira, que o paciente possui o direito de receber suficientes informações para fazer uma decisão conscientizada sobre o tratamento recomendado; e a segunda, que o paciente pode decidir aceitar ou rejeitar a recomendação do médico. . . . A menos que os pacientes sejam encarados como tendo o direito de dizer não, bem como sim, e até mesmo sim com reservas, grande parte da base racional do consentimento conscientizado desaparece no ar.” — Informed Consent—Legal Theory and Clinical Practice (Consentimento Conscientizado — Teoria Legal e Exercício na Clínica Médica), de 1987.a
Alguns pacientes encontraram resistência quando tentaram exercer seu direito. Poderia ter sido da parte de um amigo que tem fortes conceitos sobre a amigdalectomia ou sobre os antibióticos. Ou um médico poderia estar convicto da justeza de sua recomendação. Um dirigente hospitalar poderia até mesmo ter discordado, com base em interesses legais ou financeiros.
“Muitos ortopedistas preferem não operar pacientes [que são Testemunhas de Jeová]”, diz o Dr. Carl L. Nelson. “É nossa crença que o paciente tem o direito de recusar qualquer tipo de terapia médica. Se for tecnicamente possível realizar a cirurgia de forma segura, ao mesmo tempo que se exclui determinado tratamento, tal como a transfusão, então isso deveria existir como opção.” — Revista The Journal of Bone and Joint Surgery, de março de 1986.
O paciente que demonstre consideração não pressionará o médico a usar uma terapia que o médico não exerça com perícia. Como comentou o Dr. Nelson, porém, muitos médicos dedicados podem procurar uma adequação com as crenças do paciente. Um dirigente alemão aconselhou: “O médico não pode recusar-se a prestar ajuda . . . raciocinando que, no caso duma Testemunha de Jeová, ele não dispõe de todas as alternativas médicas. Ele ainda tem o dever de prestar assistência, mesmo quando se reduzem os meios à sua disposição.” (Revista médica Der Frauenarzt, maio-junho de 1983) Similarmente, os hospitais existem, não meramente para ganhar dinheiro, mas para servir a todas as pessoas, sem discriminá-las. Declara o teólogo católico Richard J. Devine: “Embora o hospital deva fazer todo outro esforço médico para preservar a vida e a saúde do paciente, ele precisa assegurar-se de que os cuidados médicos não violem a consciência [dele]. Ademais, tem de evitar todas as formas de coação, desde induzir com agrados o paciente até obter um mandado judicial para obrigá-lo a tomar uma transfusão de sangue.” — Periódico Health Progress, de junho de 1989.
EM VEZ DE RECORRER AOS TRIBUNAIS
Muitos concordam que um tribunal não é o lugar para se decidir questões pessoais de saúde. O que pensaria se decidisse fazer um tratamento com antibióticos, mas alguém recorresse a um tribunal para obrigá-lo a fazer uma amigdalectomia? Um médico talvez queira prover-lhe o que julga ser o melhor tratamento, mas ele não tem o dever de recorrer à justificativa legal para pisotear seus direitos fundamentais. E, uma vez que a Bíblia situa a abstenção de sangue no mesmo nível moral que evitar a fornicação, forçar um cristão a tomar sangue seria o equivalente ao sexo forçado — o estupro. — Atos 15:28, 29.
Todavia, o livro Informed Consent for Blood Transfusion (Consentimento Conscientizado da Transfusão de Sangue; 1989) informa que alguns tribunais ficam tão angustiados quando um paciente se dispõe a aceitar certo risco por causa de seus direitos religiosos “que eles inventam exceções legais — ficções legais, se assim quiser — para permitir uma transfusão”. Talvez tentem desculpar isso por dizerem que uma gravidez está envolvida ou que há filhos a serem sustentados. “Trata-se de ficções legais”, diz o livro. “Adultos legalmente competentes têm o direito de recusar um tratamento.”
Alguns que insistem em transfundir sangue ignoram que as Testemunhas não rejeitam todas as terapias. Rejeitam apenas uma única terapia, a qual até mesmo peritos afirmam ser cheia de riscos. Geralmente um problema de saúde pode ser tratado de diversos modos. Um apresenta este risco, outro, aquele risco. Pode um tribunal ou um médico paternalisticamente saber que risco é “nos seus melhores interesses”? A decisão de julgar isso é sua. As Testemunhas de Jeová são firmes em declarar que não desejam que outrem decida por elas; trata-se de sua responsabilidade pessoal perante Deus.
Caso um tribunal lhe impingisse um tratamento repulsivo, como isto poderia afetar sua consciência e o elemento vital de sua vontade de viver? O Dr. Konrad Drebinger escreveu: “Seria, certamente, uma forma desorientada de ambição médica a que levaria alguém a obrigar um paciente a aceitar determinada terapia, sobrepondo-se à sua consciência, de modo a tratá-lo em sentido físico, mas ministrando à sua psique um golpe mortal.”— Revista médica Der Praktische Arzt, de julho de 1978.
CUIDADOS AMOROSOS COM OS FILHOS
Os processos judiciais sobre o sangue envolvem principalmente os filhos menores de idade. Vez por outra, quando pais amorosos solicitaram respeitosamente que se usasse um tratamento sem sangue, alguns membros do setor médico procuraram obter apoio dum tribunal para ministrar sangue. Naturalmente, os cristãos concordam com as leis ou com mandados judiciais que impedem os abusos ou o abandono de menores. Talvez já tenha lido sobre casos em que algum genitor maltratou brutalmente uma criança ou lhe negou qualquer cuidado médico. Quão trágico isso é! É evidente que o Estado pode e deve intervir para proteger o menor abandonado. Ainda assim, é fácil ver quão diferente é quando um genitor que se importa com o filho solicita um tratamento médico de alta qualidade, isento de sangue.
Estes processos judiciais geralmente se focalizam num menor hospitalizado. Como foi que esse menor veio parar ali, e por quê? Quase sempre, os pais preocupados trouxeram seu filho ali para receber um tratamento de qualidade. Assim como Jesus estava interessado em crianças, os pais cristãos se importam com seus filhos. A Bíblia menciona “a mãe lactante que acalenta os seus próprios filhos”. As Testemunhas de Jeová sentem este profundo amor por seus filhos. — 1 Tessalonicenses 2:7; Mateus 7:11; 19:13-15.
Naturalmente, todos os pais fazem decisões que influem na segurança e na vida dos seus filhos: Usará a família gás ou óleo para aquecer a casa? Levarão os filhos numa viagem de carro de longa distância? Deveria deixar seu filho ir nadar? Tais assuntos envolvem riscos, até mesmo riscos de vida ou morte. Mas a sociedade reconhece a boa discrição parental, de modo que se concede aos pais a palavra final em quase todas as decisões que influem em seus filhos menores.
Em 1979, o Supremo Tribunal dos EUA declarou meridianamente: “O conceito legal de família repousa sobre a suposição de que os pais possuem o que um filho menor carece, em maturidade, experiência e capacidade de julgamento exigidos para fazer as decisões difíceis da vida. . . . Simplesmente porque a decisão de um genitor [sobre um assunto de saúde] envolve riscos, não transfere automaticamente o poder de fazer tal decisão dos pais para alguma agência ou autoridade do Estado.” — Processo Parham v. J.R.
Naquele mesmo ano, o Tribunal de Recursos de Nova Iorque acordou: “O fator mais significativo em determinar se o filho está sendo privado de adequados cuidados médicos . . . é se os pais proveram ao filho um processo adequado de tratamento médico à luz de todas as circunstâncias prevalecentes. Esta sindicância não pode ser apresentada em termos de se um pai fez uma decisão ‘certa’ ou ‘errada’, pois o estágio atual do exercício da medicina, apesar de seus amplos avanços, mui raramente permite que se tirem tais conclusões definitivas. Nem pode um tribunal assumir o papel de pai substituto. — Processo In re Hofbauer.
Recorde-se do exemplo dos pais que decidiam entre uma cirurgia e o tratamento com antibióticos. Cada terapia apresentaria seus próprios riscos. Pais amorosos são responsáveis de pesar os riscos, os benefícios e outros fatores, e de então fazer uma decisão. Neste sentido, o Dr. Jon Samuels (Anesthesiology News, de outubro de 1989) sugeriu recapitular a obra Guides to the Judge in Medical Orders Affecting Children (Orientações Para o Juiz em Caso de Mandados Médicos Que Atinjam Crianças), que assumiu a seguinte posição:
“O conhecimento médico não é suficientemente adiantado para habilitar um médico a predizer, com razoável certeza, se seu paciente viverá ou morrerá. . . . Se existir a opção de processos — se, por exemplo, o médico recomenda certo processo que tenha 80 por cento de possibilidades de êxito, mas que os genitores desaprovam, e os genitores não tenham objeção a certo processo que só tenha 40 por cento de possibilidades de êxito — o médico precisa seguir o processo mais arriscado, do ponto de vista médico, mas que não inclui objeções por parte dos pais.”
Em vista dos muitos riscos letais no emprego médico do sangue que afloraram, e visto haver tratamentos eficazes alternativos, será que evitar o uso de sangue não poderia significar optar pelo menor risco?
Naturalmente, os cristãos pesam muitos fatores, caso seu filho menor precise duma cirurgia. Toda operação, com ou sem o emprego de sangue, envolve riscos. Que cirurgião fornece garantias? Os pais talvez saibam que médicos peritos têm tido excelente êxito em realizar cirurgias sem sangue em filhos menores de Testemunhas de Jeová. Assim, mesmo que um médico ou um dirigente de hospital prefira outra coisa, em vez de mover uma batalha judicial estressante e consumidora de tempo, não seria razoável que procurassem trabalhar junto com os pais amorosos? Ou os pais podem transferir seu filho para outro hospital, em que a equipe tenha experiência em lidar com tais casos e esteja disposta a fazer isso. Com efeito, o tratamento sem sangue será, mais provavelmente, um tratamento de qualidade, pois pode ajudar a família a ‘alcançar alvos médicos e não-médicos legítimos’, conforme já observamos anteriormente.
[Nota(s) de rodapé]
a Veja o artigo sobre medicina: “Sangue: Quem Decide? Baseado na Consciência de Quem?”, cuja tradução acha-se reimpressa no Apêndice, nas páginas 30-1.
[Quadro na página 19]
“O uso excessivo de tecnologia médica é um dos principais fatores do atual aumento dos custos de saúde. . . . A transfusão de sangue é de especial importância, por causa de seus custos e do alto potencial de risco. Assim sendo, a transfusão de sangue foi classificada pela Comissão Conjunta Americana de Credenciamento de Hospitais como de ‘alto volume, alto risco e de propensão a erros’.” — “Transfusion”, de julho-agosto de 1989.
[Quadro na página 20]
Estados Unidos: “Subjacente à necessidade do consentimento do paciente é o conceito ético da autonomia do indivíduo, que as decisões sobre o próprio destino duma pessoa devam ser feitas pela pessoa envolvida. A base legal para se requerer o consentimento é que um ato médico realizado sem o consentimento do paciente constitui agressão qualificada.” — “Informed Consent for Blood Transfusion”, de 1989.
Alemanha: “O direito de autodeterminação do paciente sobrepõe-se ao princípio de prestar assistência e preservar a vida. Em resultado disso: nenhuma transfusão de sangue contra a vontade do paciente.” — “Herz Kreislauf”, de agosto de 1987.
Japão: “No mundo da medicina não existem ‘absolutos’. Os médicos acreditam que o curso da medicina moderna é o melhor e seguem o seu curso, mas não devem impor todo pormenor dele como algo ‘absoluto’ para os pacientes. Os pacientes também devem ter a liberdade de decisão.” — “Minami Nihon Shimbun”, de 28 de junho de 1985.
[Quadro na página 21]
“Tenho verificado que as famílias [das Testemunhas de Jeová] são bem unidas e amorosas”, informa o Dr. Lawrence S. Frankel. “Os filhos são educados, importam-se com outros e são respeitosos. . . . Parece que até existe, possivelmente, maior acatamento das recomendações médicas, o que poderia representar um esforço de demonstrar a aceitação da intervenção médica, ao ponto que suas crenças o permitem.” — Departamento de Pediatria, Hospital e Instituto de Tratamento de Tumores M. D. Anderson, de Houston, EUA, 1985.
[Quadro na página 22]
“Receio que não seja incomum”, comenta o Dr. James L. Fletcher Jr., “que a arrogância profissional suplante o sólido arrazoamento médico. Tratamentos que são considerados ‘o melhor atualmente’ são modificados ou descartados amanhã. O que é mais perigoso, um ‘genitor religioso’, ou um(a) médico(a) arrogante que está convicto(a) de que o tratamento dele ou dela é absolutamente vital?” — “Pediatrics”, de outubro de 1988.
[Quadro na página 18]
DISSIPANDO AS PREOCUPAÇÕES LEGAIS
Talvez fique imaginando: ‘Por que alguns médicos e hospitais mostram-se tão prontos a obter um mandado judicial para ministrar sangue?’ Em algumas partes do mundo, um dos motivos comuns é o receio da responsabilidade civil.
Não existem motivos para tal preocupação quando as Testemunhas de Jeová decidem pelo tratamento sem sangue. Um médico da Faculdade de Medicina Albert Einstein (EUA) escreve: “A maioria [das Testemunhas] assina prontamente o formulário da Associação Médica Americana [no Brasil, assinam um Termo de Responsabilidade], isentando os médicos e os hospitais de qualquer responsabilidade, e muitos portam um [cartão] Documento Para Uso Médico. Um formulário ‘Recusa de Aceitar Produtos do Sangue’, devidamente assinado e datado, é um acordo contratual e é legalmente válido.” — Anesthesiology News, de outubro de 1989.
Sim, as Testemunhas de Jeová, a título de cooperação, oferecem garantia legal de que um médico ou um hospital não incorrerão em responsabilidade civil ao proverem o solicitado tratamento isento de sangue. Conforme recomendado por especialistas médicos, cada Testemunha porta um cartão intitulado “Documento Para Uso Médico”. Este é renovado anualmente e é assinado pela pessoa e por testemunhas, com freqüência parentes próximos.
Em março de 1990, a Suprema Corte de Ontário, Canadá, manteve um acórdão que comentava de forma aprovadora tal documento: “O cartão é uma declaração escrita de uma posição válida, que o portador do cartão pode legitimamente adotar ao impor uma restrição escrita ao contrato com o médico.” Em Medicinsk Etik (Ética Médica; 1985), o Professor Daniel Andersen escreveu: “Se existir uma declaração escrita não-ambígua do paciente, declarando que ele é Testemunha de Jeová e não deseja sangue sob nenhuma circunstância, o respeito pela autonomia do paciente exige que este desejo seja respeitado, assim como se tivesse sido expresso oralmente.”
As Testemunhas também se dispõem a assinar formulários hospitalares de consentimento expresso. Um destes, usado num hospital em Freiburg, na Alemanha, possui certo espaço em que o médico pode descrever as informações que deu ao paciente sobre o tratamento. Daí, acima da assinatura do médico e do paciente, este formulário acrescenta: “Como membro do grupo religioso Testemunhas de Jeová, recuso categoricamente o emprego de sangue homólogo ou de componentes do sangue durante a minha cirurgia. Estou cônscio de que o procedimento planejado e necessário apresenta, assim, maior risco, devido às complicações hemorrágicas. Depois de receber uma explicação cabal, especialmente sobre isso, solicito que me seja feita a necessária cirurgia sem se usar sangue homólogo e nem componentes do sangue.” — Herz Kreislauf, de agosto de 1987.
Na realidade, o tratamento isento de sangue talvez apresente menor risco. Mas o ponto aqui frisado é que os pacientes que são Testemunhas ficam contentes de dissipar quaisquer preocupações desnecessárias, de modo que a equipe médica possa ir em frente e realizar aquilo que se compromete a fazer, ajudar as pessoas a ficarem boas. Esta cooperação traz benefício a todos, conforme mostrado pelo Dr. Angelos A. Kambouris em “Grandes Operações Abdominais Feitas em Testemunhas de Jeová”:
“O acordo pré-operatório deve ser encarado como legalmente válido pelo cirurgião e deve ser mantido, não importa que eventos surjam durante e depois da operação. [Isto] orienta os pacientes de forma positiva para o seu tratamento cirúrgico e desvia a atenção do cirurgião dos aspectos legais e filosóficos para os cirúrgicos e técnicos, assim sendo, permite que ele tenha o melhor desempenho possível e atue nos melhores interesses do paciente.” — Revista The American Surgeon, de junho de 1987.
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O sangue que realmente salva vidasComo Pode o Sangue Salvar a Sua Vida?
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O sangue que realmente salva vidas
À base das informações precedentes, certos pontos tornam-se bem claros. Embora muitos achem que as transfusões de sangue salvem vidas, elas estão repletas de riscos. Todo ano, milhares de pessoas morrem em resultado de transfusões; um número ainda maior de outras pessoas ficam muito doentes e enfrentam conseqüências a longo prazo. Assim, mesmo do ponto de vista físico, é sábio acatar agora mesmo a ordem da Bíblia de ‘abster-se do sangue’. — Atos 15:28, 29.
Os pacientes se protegem de muitos riscos quando solicitam um tratamento médico sem sangue. Médicos peritos, que aceitaram o desafio de aplicar tal método às Testemunhas de Jeová, desenvolveram um padrão de tratamento médico seguro e eficaz, segundo comprovado por numerosos comunicados médicos. Os médicos que dão um tratamento de qualidade, sem sangue, não estão transigindo quanto a valiosos princípios médicos. Antes, mostram respeito pelo direito do paciente de conhecer os riscos e os benefícios, de modo a poder fazer uma decisão conscientizada sobre o que deverá ser feito com seu corpo e com sua vida.
Não estamos sendo bitolados neste assunto, pois discernimos que nem todos concordarão com este enfoque. As pessoas diferem quanto à consciência, à ética e aos conceitos médicos. Assim sendo, outros, inclusive alguns médicos, talvez achem difícil aceitar a decisão do paciente de abster-se de sangue. Escreveu um cirurgião de Nova Iorque, EUA: “Jamais esquecerei o que se deu há 15 anos, quando, como jovem médico interno, estava em pé ao lado do leito duma Testemunha de Jeová que sangrou até morrer, devido a uma úlcera duodenal. Os desejos do paciente foram respeitados e não se lhe ministrou nenhuma transfusão, mas ainda consigo lembrar-me da tremenda frustração que, como médico, senti naquele momento.”
Ele, sem dúvida, acreditava que o sangue teria salvo uma vida. Um ano depois de ele escrever isso, contudo, a revista The British Journal of Surgery (outubro de 1986) informava que, antes do advento das transfusões, as hemorragias gastrointestinais apresentavam “uma taxa de mortalidade de apenas 2,5 por cento”. Desde que as transfusões tornaram-se costumeiras, ‘a maioria dos grandes estudos relata haver uma mortalidade de 10 por cento’. Por que uma taxa de mortes quatro vezes superior? Os pesquisadores sugeriram: “A transfusão de sangue ministrada logo parece inverter a reação de hipercoagulação à hemorragia, desta forma provocando nova hemorragia”. Quando a Testemunha que sofria de úlcera sangrante recusou o sangue, sua decisão talvez tenha, realmente, maximizado suas perspectivas de sobrevivência.
Este mesmo cirurgião acrescentou: “A passagem do tempo, e tratar muitos outros pacientes, tende a mudar a perspectiva da pessoa, e, hoje em dia, verifico que a confiança mútua entre o paciente e seu médico, e o dever de respeitar os desejos do paciente, são muito mais importantes do que a nova tecnologia médica que nos cerca. . . . É interessante que a frustração que sentia cedeu lugar atualmente a um sentimento de assombro e reverência para com a fé firme daquele paciente.” Concluiu o médico: ‘Isso me faz lembrar que devo sempre respeitar os desejos pessoais e religiosos do paciente, não importa quais sejam meus sentimentos ou as conseqüências.’
Talvez o leitor ou leitora já tenha compreendido algo que muitos médicos só virão a avaliar com “a passagem do tempo, e tratar muitos outros pacientes”. Mesmo com os melhores cuidados médicos, nos melhores hospitais, chega a hora em que as pessoas morrem. Com ou sem transfusões de sangue, elas morrem. Todos nós estamos envelhecendo e o fim da vida está-se aproximando. Isto não é ser fatalista. É ser realista. Morrer é uma realidade da vida.
A evidência mostra que as pessoas que desconsideram a lei de Deus sobre o sangue não raro sofrem danos imediatos ou posteriores; algumas até mesmo morrem devido ao sangue. As que sobrevivem não obtêm a vida infindável. Assim, as transfusões de sangue não salvam vidas de modo permanente.
A maioria das pessoas que, por motivos religiosos e/ou de saúde, recusam sangue, mas aceitam tratamentos médicos alternativos, passa muito bem. Elas, assim, podem estar estendendo sua vida por anos. Mas não infindavelmente.
Que todos os humanos são imperfeitos e estão morrendo aos poucos leva-nos à verdade central do que a Bíblia diz sobre o sangue. Se compreendermos e tivermos apreço por esta verdade, veremos como o sangue pode realmente salvar a vida — a nossa vida — de modo duradouro.
O ÚNICO SANGUE QUE SALVA A VIDA
Conforme já indicamos, Deus ordenou a toda a humanidade que não comesse sangue. Por quê? Porque o sangue representa a vida. (Gênesis 9:3-6) Ele explicou isto ainda mais no código da Lei que deu a Israel. Na ocasião em que o código da Lei foi ratificado, o sangue de animais sacrificados foi usado sobre um altar. (Êxodo 24:3-8) As leis naquele código apontavam que todos os humanos são imperfeitos; eles são pecaminosos, como a Bíblia se expressa. Deus disse aos israelitas que eles, por meio de sacrifícios animais oferecidos a Ele, poderiam reconhecer a necessidade de seus pecados serem cobertos. (Levítico 4:4-7, 13-18, 22-30) Admitamos que era isso o que Deus exigia deles lá naquele tempo, e não o que ele atualmente exige dos verdadeiros adoradores. Todavia, isso é de importância vital para nós, hoje em dia.
O próprio Deus explicou o princípio subjacente de tais sacrifícios: “A alma [ou vida] da carne está no sangue, e eu mesmo o pus para vós sobre o altar para fazer expiação pelas vossas almas, porque é o sangue que faz expiação pela alma nele. Foi por isso que eu disse aos filhos de Israel: ‘Nenhuma alma vossa deve comer sangue.’” — Levítico 17:11, 12.
Na antiga festa chamada de Dia da Expiação, o sumo sacerdote de Israel levava o sangue dos animais sacrificados para o local mais sagrado do templo, o centro da adoração de Deus. Fazer isto era uma forma simbólica de pedir a Deus que cobrisse os pecados do povo. (Levítico 16:3-6, 11-16) Aqueles sacrifícios não eliminavam realmente todos os pecados, de modo que eles precisavam ser repetidos anualmente. Ainda assim, este emprego do sangue estabelecia um padrão significativo.
Um dos principais ensinos da Bíblia é o de que Deus, com o tempo, proveria um sacrifício perfeito que pudesse expiar de modo pleno os pecados de todos os que cressem. Isto é chamado de resgate, e se focaliza no sacrifício do predito Messias, ou Cristo.
A Bíblia compara o papel do Messias àquilo que era feito no Dia da Expiação: ‘Quando Cristo veio como sumo sacerdote das boas coisas que se realizaram por intermédio [do templo] maior e mais perfeito, não feito por mãos, ele entrou no lugar santo [o céu], não, não com o sangue de bodes e de novilhos, mas com o seu próprio sangue, de uma vez para sempre, e obteve para nós um livramento eterno. Sim, quase todas as coisas são purificadas com sangue, segundo a Lei, e a menos que se derrame sangue, não há perdão.’ — Hebreus 9:11, 12, 22.
Torna-se assim claro por que precisamos ter o conceito de Deus sobre o sangue. Ele, de acordo com seu direito como Criador, determinou a sua utilização exclusiva. Os israelitas de antigamente talvez tenham colhido benefícios para a saúde por não tomarem sangue animal ou humano, mas esse não era o ponto mais importante. (Isaías 48:17) Eles tinham de evitar sustentar sua vida com sangue, não primariamente porque agir de outra forma fosse ruim para a saúde, mas porque isso era um sacrilégio para Deus. Eles deviam abster-se de sangue, não por ser contaminado, mas porque era precioso para obterem o perdão.
O apóstolo Paulo explicou sobre o resgate: “Mediante [Cristo] temos o livramento por meio de resgate, por intermédio do sangue desse, sim, o perdão de nossas falhas, segundo as riquezas de sua benignidade imerecida.” (Efésios 1:7) A palavra grega original ali encontrada é devidamente traduzida “sangue”, mas diversas versões da Bíblia falham ao substituí-la pela palavra “morte”. Por causa disso, os leitores poderiam perder a ênfase dada ao conceito de nosso Criador sobre o sangue, e o valor sacrificial que Ele vinculou ao sangue.
O tema da Bíblia gira em torno de que Cristo morreu como perfeito sacrifício de resgate, mas não continuou morto. Seguindo o padrão que Deus estabeleceu no Dia da Expiação, Jesus foi ressuscitado para o céu, a fim de ‘aparecer por nós perante a pessoa de Deus’. Ele apresentou ali o valor de seu sangue sacrificial. (Hebreus 9:24) A Bíblia sublinha que temos de evitar qualquer proceder que equivalha a ‘pisar no Filho de Deus e considerar de pouco valor o sangue dele’. Apenas assim podemos manter um bom relacionamento e a paz com Deus. — Hebreus 10:29; Colossenses 1:20.
USUFRUA A VIDA SALVA PELO SANGUE
Quando entendemos o que Deus diz sobre o sangue, passamos a ter o maior respeito pelo seu valor salvador de vidas. As Escrituras descrevem a Cristo como aquele que ‘nos ama e que nos livrou dos nossos pecados por meio do seu próprio sangue’. (Revelação [Apocalipse] 1:5; João 3:16) Sim, por meio do sangue de Jesus, podemos obter pleno e duradouro perdão de nossos pecados. Escreveu o apóstolo Paulo: “Visto que agora fomos declarados justos pelo seu sangue, havemos de ser salvos do furor por intermédio dele.” É assim que a vida duradoura pode ser salva pelo sangue. — Romanos 5:9; Hebreus 9:14.
Jeová Deus há muito deu garantia de que, por meio de Cristo, ‘todas as famílias da terra hão de abençoar a si mesmas’. (Gênesis 22:18) Essa bênção inclui a restauração da Terra em um paraíso. Daí, a humanidade crente não mais será afligida pela doença, pelo envelhecimento ou até mesmo pela morte; usufruirá bênçãos que excederão em muito a ajuda temporária que as equipes médicas podem oferecer-nos agora. Temos a seguinte promessa maravilhosa: “[Deus] enxugará de seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor. As coisas anteriores já passaram.” — Revelação 21:4.
Quão sábio, então, é levarmos a sério todos os requisitos de Deus! Isso inclui obedecermos às suas ordens sobre o sangue, não o empregando indevidamente, nem mesmo em situações que envolvam a saúde. Assim não viveremos apenas para o presente. Antes, manifestaremos nossa elevada consideração pela vida, inclusive a nossa futura perspectiva de vida eterna em perfeição humana.
[Foto na página 24]
“Mediante ele [Jesus] temos o livramento por meio de resgate, por intermédio do sangue desse, sim, o perdão de nossas falhas.” — Efésios 1:7.
[Foto na página 26]
Salvar a vida com o sangue de Jesus abre o caminho para a vida infindável e saudável num paraíso terrestre.
[Quadro na página 25]
O povo de Deus recusou-se a sustentar a vida com sangue, não porque agir de outra forma fosse ruim para a saúde, mas porque isso era um sacrilégio; não porque o sangue fosse contaminado, mas porque era precioso.
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Testemunhas de Jeová — o desafio cirúrgico/éticoComo Pode o Sangue Salvar a Sua Vida?
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Apêndice
Testemunhas de Jeová — o desafio cirúrgico/ético
Tradução da reimpressão, feita com a devida permissão da Associação Médica Americana, da revista The Journal of the American Medical Association (JAMA), de 27 de novembro de 1981, Volume 246, N.º 21, páginas 2471, 2472. Copyright 1981, da Associação Médica Americana.
Os médicos enfrentam um desafio incomum ao tratarem as Testemunhas de Jeová. Os membros desta crença têm profundas convicções religiosas contra aceitarem sangue total, homólogo ou autólogo, papas de hemácias [glóbulos vermelhos], concentrados de leucócitos [glóbulos brancos], ou de plaquetas. Muitos consentirão no uso do equipamento de coração-pulmão (sem o emprego de sangue como volume de escorva), de diálise, ou de outro similar, se a circulação extracorpórea for ininterrupta. A equipe médica não precisa preocupar-se de ser legalmente responsabilizada, pois as Testemunhas de Jeová tomarão as providências legais adequadas para eximi-la da responsabilidade no tocante à sua recusa conscientizada de sangue. Aceitam expansores do volume do plasma que não contenham sangue. Por empregarem estes, e por outras técnicas meticulosas, os médicos estão realizando grandes cirurgias, de todos os tipos, em pacientes que são Testemunhas, quer adultos, quer menores. Assim se desenvolveu uma norma de atendimento a tais pacientes, em concordância com o princípio de tratar a “pessoa inteira”. (JAMA, 1981; 246:2471-2472)
OS MÉDICOS enfrentam um crescente desafio, que veio a ser uma grande questão em debate sobre a saúde. Há mais de meio milhão de Testemunhas de Jeová nos Estados Unidos [mais de 250.000 no Brasil] que não aceitam transfusões de sangue. O número de Testemunhas, e dos que se associam com elas, vem aumentando. Embora, antigamente, muitos médicos e autoridades hospitalares considerassem a recusa de uma transfusão um problema jurídico e procurassem obter autorização judicial para administrar o tratamento que achavam ser clinicamente aconselhável, recentes publicações médicas revelam que tem havido apreciável mudança de atitude. Tal se deve possivelmente à maior experiência no campo da cirurgia em pacientes com taxa muito baixa de hemoglobina, e pode ser que reflita também a crescente percepção do princípio legal de consentimento conscientizado.
Hoje, grande número de casos de cirurgia eletiva e de traumatismo, que envolvem Testemunhas, tanto adultas como menores de idade, estão sendo atendidos com bom êxito sem transfusões de sangue. Recentemente, representantes das Testemunhas de Jeová reuniram-se com equipes cirúrgicas e administrativas em alguns dos maiores centros médicos dos Estados Unidos. Estas reuniões melhoraram o entendimento e ajudaram a solucionar questões sobre o reaproveitamento de sangue, transplantes e a questão de evitar o confronto médico/legal.
A POSIÇÃO DAS TESTEMUNHAS SOBRE TERAPIAS
As Testemunhas de Jeová aceitam tratamento médico e cirúrgico. Com efeito, há entre elas dezenas de médicos, e até mesmo cirurgiões. Mas as Testemunhas são pessoas profundamente religiosas e acreditam que a transfusão de sangue lhes é proibida por passagens bíblicas como estas: “Somente a carne com a sua alma — seu sangue — não deveis comer.” (Gênesis 9:3, 4); “[Tendes] de derramar seu sangue e cobri-lo com pó” (Levítico 17:13, 14); e: “Que se abstenham . . . da fornicação, e do estrangulado, e do sangue” (Atos 15:19-21).1
Embora estes versículos não estejam expressos em termos médicos, as Testemunhas consideram que proíbem a administração de transfusão de sangue total, de papas de hemácias, e de plasma, bem como de concentrados de leucócitos e de plaquetas. Entretanto, o entendimento religioso das Testemunhas não proíbe de modo absoluto o uso de componentes, como a albumina, as imunoglobulinas e os preparados para hemofílicos; cabe a cada Testemunha decidir individualmente se deve aceitar a esses.2
As Testemunhas crêem que o sangue retirado do corpo deve ser inutilizado, de modo que não aceitam a autotransfusão de sangue retirado de antemão e guardado. As técnicas de coleta ou de hemodiluição intra-operatórias que envolvam guardar o sangue para ser reposto, lhes são inaceitáveis. Entretanto, muitas Testemunhas permitem o uso de equipamento de diálise, do coração-pulmão artificial (não se empregando sangue como volume de escorva), e o reaproveitamento intra-operatório, caso a circulação extracorpórea seja ininterrupta; o médico deve consultar o paciente sobre o que a consciência deste lhe dita.2
Não parece às Testemunhas que a Bíblia faça comentários diretos sobre transplantes de órgãos, por conseguinte, as decisões quanto a transplantes de córnea, de rins, ou de outros tecidos, precisam ser feitas pelas Testemunhas individualmente.
SÃO POSSÍVEIS AS GRANDES CIRURGIAS
Embora muitas vezes os cirurgiões se tenham recusado a tratar as Testemunhas, porque a posição destas sobre produtos de sangue parecia “amarrar as mãos do médico”, muitos médicos agora decidiram considerar a situação como apenas mais uma complicação que desafia sua perícia. Visto que as Testemunhas não têm objeção ao uso de fluidos substitutos colóides ou cristalóides, tampouco ao eletrocautério, à anestesia hipotensiva,3 nem à hipotermia, estes têm sido usados com sucesso. As aplicações atuais e futuras da hidroxietila de amido (amido-hidroxietil),4 de injeções endovenosas em grandes doses de dextrana ferrosa,5,6 e do “bisturi elétrico”7 são promissoras e não são objetáveis em sentido religioso. Também, se um recém-descoberto substituto do sangue, de perfluorocarbono (Fluosol-DA), mostrar não conter riscos e ser eficaz,8 seu uso não entrará em choque com as crenças das Testemunhas.
Em 1977, Ott e Cooley9 comunicaram que foram feitas 542 operações cardiovasculares em Testemunhas sem o emprego de transfusão de sangue, e chegaram à conclusão de que se pode usar esse processo “com risco aceitavelmente baixo”. Atendendo à nossa solicitação, Cooley fez recentemente um estudo estatístico de 1.026 casos de operações, 22% tendo sido feitas em menores, e concluiu “que o risco da cirurgia em pacientes do grupo das Testemunhas de Jeová não tem sido significativamente maior do que no caso de outros”. Similarmente, Michael E. DeBakey, M.D. (doutor em medicina) comunicou “que na grande maioria das situações [que envolvem Testemunhas] o risco de operação sem o uso de transfusão de sangue não é maior do que no caso de pacientes a quem administramos transfusões de sangue” (comunicado pessoal, março de 1981). A literatura médica registra também grandes cirurgias bem-sucedidas no campo da urologia10 e da ortopedia.11 G. Dean MacEwen, M.D., e J. Richard Bowen, M.D., escrevem que “se fez com êxito em 20 [Testemunhas] menores de idade” a fusão espinhal posterior (dados não publicados, agosto de 1981). Acrescentam: “O cirurgião precisa estabelecer a filosofia do respeito pelo direito do paciente de recusar uma transfusão de sangue e ainda assim realizar a cirurgia de um modo que dê segurança ao paciente.”
Herbsman12 comunica ter tido bom êxito em diversos casos, incluindo alguns que envolviam jovens, “de perda maciça de sangue em casos de traumatismo”. Ele admite que “as Testemunhas estão numa situação de certa desvantagem no que diz respeito à necessidade de sangue. Contudo, é também bastante claro que deveras temos alternativas à substituição do sangue”. Observando que muitos cirurgiões se têm sentido reprimidos de aceitar Testemunhas como pacientes, “temendo conseqüências jurídicas”, ele mostra que esta não é uma preocupação válida.
QUESTÕES JURÍDICAS E MENORES DE IDADE
As Testemunhas nos Estados Unidos assinam prontamente o formulário da Associação Médica Americana [no Brasil, entregam um Termo de Responsabilidade para o médico e o hospital], eximindo os médicos e os hospitais da responsabilidade,13 e a maioria das Testemunhas traz consigo um cartão datado, assinado por testemunhas, “Alerta Para os Médicos” [“Documento Para Uso Médico”], preparado mediante consulta a autoridades médicas e legais. Estes documentos são válidos para o paciente (ou seus herdeiros e representantes legais) e fornecem proteção aos médicos, pois o Ministro Warren Burger afirmou que um processo instaurado por um caso de negligência médica “seria infundado” depois de assinado tal documento de eximição. Também, comentando isso numa análise sobre “tratamento médico compulsório e a liberdade de religião”, Paris14 escreveu: “Certo comentarista que examinou a literatura [médico-jurídica] relatou: ‘Não pude encontrar nenhuma autoridade para a declaração de que o médico incorreria . . . em responsabilidade criminal . . . por não forçar uma transfusão a um paciente que não a queira.’ O risco parece ser mais um fruto duma fértil imaginação jurídica do que uma possibilidade realística.”
O atendimento aos menores de idade representa a maior preocupação, resultando amiúde em um processo legal contra os pais, sob as leis referentes ao abandono dos filhos. Tais processos, porém, são questionados por muitos médicos e advogados, familiarizados com casos das Testemunhas, os quais acreditam que os pais que são Testemunhas procuram dar boa assistência médica a seus filhos. Não querendo eximir-se de sua responsabilidade paterna, nem relegá-la a um juiz, ou a um terceiro, as Testemunhas instam que se dê consideração aos princípios religiosos da família. O Dr. A. D. Kelly, ex-Secretário da Associação Médica Canadense, escreveu15 que “os pais de menores e o parente mais próximo de pacientes inconscientes possuem o direito de interpretar a vontade do paciente. . . . Não tenho nenhuma admiração pelas medidas judiciais de um tribunal simulado, em sessão às 2 horas da madrugada, para tirar dos pais a custódia do filho”.
É axiomático que os pais têm voz ativa na assistência a seus filhos, no que diz respeito aos potenciais de risco e dos benefícios de uma cirurgia, de uma radioterapia ou uma quimioterapia. Por razões morais, que transcendem a questão do risco das transfusões,16 os pais que são Testemunhas de Jeová pedem que sejam usadas terapias não proibidas religiosamente. Isto está em concordância com o princípio médico de tratar “a pessoa inteira”, sem se desperceber o possível dano psicossocial irreversível causado por um tratamento intruso que viole as crenças fundamentais de uma família. Amiúde, grandes centros em todo o país, que tiveram experiências com Testemunhas, aceitam agora a transferência de pacientes de instituições não dispostas a tratar as Testemunhas, até mesmo em casos pediátricos.
O DESAFIO QUE O MÉDICO ENFRENTA
Compreensivelmente, tratar Testemunhas de Jeová pode parecer representar um dilema para o médico devotado a preservar vidas e a saúde, empregando todas as técnicas à sua disposição. Fazendo editorialmente um preâmbulo de uma série de artigos sobre grandes cirurgias em Testemunhas, Harvey17 admitiu o seguinte: “Acho realmente importunas essas crenças que podem interferir com o meu trabalho.” Mas acrescentou: “Talvez esqueçamos com muita facilidade que a cirurgia é uma profissão que depende da técnica de cada indivíduo. A técnica pode ser melhorada.”
O Professor Bolooki18 tomou conhecimento de um relato desconcertante de que um dos mais movimentados hospitais de traumatologia do condado de Dade, na Flórida, EUA, tinha “como praxe indiscriminada recusar tratar” Testemunhas. Ele salientou que “a maioria dos casos cirúrgicos desse grupo de pacientes está associada com menos risco do que comumente”. Acrescentou: “Embora os cirurgiões talvez achem que estão sendo privados de um instrumento da medicina moderna . . . estou convicto de que, operando esses pacientes, aprenderão muito.”
Em vez de considerar um paciente que é Testemunha como um problema, é cada vez maior o número de médicos que aceita a situação como um desafio médico. Ao fazerem face ao desafio, desenvolveram um método de tratamento para esse grupo de pacientes que é aceito em diversos centros médicos do país [EUA]. Esses médicos estão dando ao mesmo tempo uma assistência que visa o bem geral do paciente. Conforme observam Gardner et al:19 “Quem será beneficiado, se a doença física do paciente for curada, mas sua vida espiritual com Deus, no conceito dele, ficar comprometida, levando a uma vida sem sentido e talvez pior do que a própria morte.”
As Testemunhas reconhecem que, clinicamente, sua firme convicção parece acrescentar certo grau de risco e pode complicar a assistência recebida. Concordemente, manifestam em geral apreço incomum pela assistência médica que recebem. Além de possuírem os elementos vitais de profunda fé e grande desejo de viver, cooperam com satisfação com os médicos e com a equipe médica. Assim, tanto o paciente como o médico ficam unidos em enfrentar este desafio sem precedentes.
REFERÊNCIAS
1. Jehovah’s Witnesses and the Question of Blood. Brooklyn, NY, Watchtower Bible and Tract Society, 1977, pp. 1-64.
2. The Watchtower 1978;99 (June 15):29-31.
3. Hypotensive anesthesia facilitates hip surgery, MEDICAL NEWS. JAMA 1978;239:181.
4. Hetastarch (Hespan)—a new plasma expander. Med Lett Drugs Ther 1981;23:16.
5. Hamstra RD, Block MH, Schocket AL:Intravenous iron dextran in clinical medicine. JAMA 1980;243:1726-1731.
6. Lapin R: Major surgery in Jehovah’s Witnesses. Contemp Orthop 1980;2:647-654.
7. Fuerst ML: ‘Sonic scalpel’ spares vessels. Med Trib 1981;22:1,30.
8. Gonzáles ER: The saga of ‘artificial blood’: Fluosol a special boon to Jehovah’s Witnesses. JAMA 1980;243:719-724.
9. Ott DA, Cooley DA: Cardiovascular surgery in Jehovah’s Witnesses. JAMA 1977;238:1256-1258.
10. Roen PR, Velcek F: Extensive urologic surgery without blood transfusion. NY State J Med 1972;72:2524-2527.
11. Nelson CL, Martin K, Lawson N, et al: Total hip replacement without transfusion. Contemp Orthop 1980;2:655-658.
12. Herbsman H: Treating the Jehovah’s Witness. Emerg Med 1980;12:73-76.
13. Medicolegal Forms With Legal Analysis. Chicago, American Medical Association, 1976, p. 83.
14. Paris JJ: Compulsory medical treatment and religious freedom: Whose law shall prevail? Univ San Francisco Law Rev 1975;10:1-35.
15. Kelly AD: Aequanimitas Can Med Assoc J 1967;96:432.
16. Kolins J: Fatalities from blood transfusion. JAMA 1981;245:1120.
17. Harvey JP: A question of craftsmanship. Contemp Orthop 1980;2:629.
18. Bolooki H: Treatment of Jehovah’s Witnesses: Example of good care. Miami Med 1981;51:25-26.
19. Gardner B, Bivona J, Alfonso A, et al: Major surgery in Jehovah’s Witnesses. NY State J Med 1976;76:765-766.
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Sangue: quem decide? Baseado na consciência de quem?Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida?
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Apêndice
Sangue: quem decide? Baseado na consciência de quem?
de J. Lowell Dixon, M.D. (Doutor em Medicina)
Tradução da reimpressão, feita com a devida permissão, da revista New York State Journal of Medicine, 1988; 88:463-464, copyright da Sociedade Médica do Estado de Nova Iorque, EUA.
OS MÉDICOS comprometem-se a aplicar seu conhecimento, suas habilidades e sua experiência no combate à doença e à morte. Todavia, que fazer quando um paciente recusa o tratamento recomendado? Isto provavelmente ocorrerá se o paciente for Testemunha de Jeová e o tratamento for sangue integral, papa de hemácias, plasma ou plaquetas.
Quando se trata de administrar sangue, o médico talvez julgue que, quando o paciente escolhe um tratamento sem sangue, isto deixa a dedicada equipe médica com as mãos atadas. Mesmo assim, não devemos esquecer que outros pacientes, que não são Testemunhas de Jeová, muitas vezes resolvem não seguir as recomendações de seu médico. Segundo Appelbaum e Roth,1 19% dos pacientes dos hospitais-escola recusaram pelo menos um tratamento, ou procedimento médico, embora 15% de tais recusas “colocassem potencialmente em risco a vida”.
O conceito geral de que “o médico é quem sabe” faz com que a maioria dos pacientes submeta-se à perícia e à experiência de seu médico. Mas quão sutilmente perigoso seria o médico proceder como se esta frase fosse um fato científico, e ele tratasse os pacientes de acordo com isso. Na verdade, nossa formação médica, nossa licença de clinicar, e nossa experiência nos dão notáveis privilégios na área médica. Nossos pacientes, porém, têm direitos. E, como estamos provavelmente cônscios, a lei (até mesmo a Constituição) dá maior peso aos direitos.
Nas paredes da maioria dos hospitais [dos EUA], vê-se a “Carta dos Direitos do Paciente”. Um destes direitos é o consentimento conscientizado, que poderia ser mais exatamente chamado de escolha conscientizada. Depois de o paciente ser informado dos resultados potenciais de diversos tratamentos (ou de não se tratar), cabe-lhe decidir a que se submeterá. No Hospital Albert Einstein, no Bronx, Nova Iorque, EUA, declarava uma diretriz formulada quanto a transfusões de sangue e as Testemunhas de Jeová: “Qualquer paciente adulto que não seja declarado incapaz tem o direito de recusar o tratamento, não importa quão prejudicial tal recusa possa ser para sua saúde.”2
Ao passo que os médicos podem expressar preocupações quanto à ética ou a responsabilidade judicial, os tribunais têm destacado a supremacia da escolha do paciente.3 O Tribunal de Recursos de Nova Iorque declarou que “o direito do paciente de determinar o curso de seu próprio tratamento [é] supremo . . . Não se pode declarar que [um] médico violou suas responsabilidades legais ou profissionais quando ele honra o direito de um paciente adulto competente de rejeitar o tratamento médico”.4 Esse tribunal também comentou que “a integridade ética da classe médica, ao passo que é importante, não pode sobrepor-se aos direitos individuais fundamentais aqui garantidos. São as necessidades e os desejos do indivíduo, e não os requisitos da instituição, que são supremos”.5
Quando a Testemunha recusa tomar sangue, os médicos talvez sintam dores de consciência diante da perspectiva de fazerem algo que não lhes parece o máximo. O que a Testemunha solicita aos médicos conscienciosos, porém, é proverem-lhe os melhores cuidados alternativos, sob tais circunstâncias. Muitas vezes temos de modificar nossa terapia para ajustar-nos às circunstâncias, tais como a hipertensão, uma grave alergia a antibióticos, ou a indisponibilidade de certos equipamentos caros. Quanto ao paciente que é Testemunha, pede-se aos médicos que cuidem do problema clínico ou cirúrgico em harmonia com a decisão e a consciência do paciente, com a decisão moral/religiosa dele de abster-se de sangue.
Inúmeros relatórios de grandes operações feitas em pacientes que são Testemunhas mostram que muitos médicos podem, em boa consciência e com êxito, ajustar-se à solicitação de que não se use sangue. Por exemplo, em 1981, Cooley analisou 1.026 operações cardiovasculares, 22% delas feitas em menores de idade. Ele decidiu “que o risco da cirurgia em pacientes do grupo das Testemunhas de Jeová não tem sido significativamente maior do que no caso de outros”.6 Kambouris7 fez uma comunicação sobre grandes operações em Testemunhas, a algumas das quais se havia “negado tratamento cirúrgico urgentemente necessitado, devido à sua recusa em aceitar sangue”. Disse ele: “Todos os pacientes obtiveram garantias antes do tratamento de que suas crenças religiosas seriam respeitadas, não importando as circunstâncias da sala de cirurgia. Esta diretriz não produziu resultados desfavoráveis.”
Quando o paciente é Testemunha de Jeová, além da questão de decisão, entra em cena a consciência. Não se pode pensar apenas na consciência do médico. Que dizer da do paciente? As Testemunhas de Jeová encaram a vida como uma dádiva de Deus, representada pelo sangue. Elas crêem no mandamento da Bíblia, de que os cristãos têm de ‘abster-se de sangue’ (Atos 15:28, 29).8 Assim sendo, caso um médico violasse paternalisticamente tais convicções religiosas profundas, e bem antigas, do paciente, o resultado poderia ser trágico. O Papa João Paulo II tem comentado que obrigar alguém a violar sua consciência “é o golpe mais doloroso infligido à dignidade humana. Em certo sentido, é pior do que infligir a morte física, ou matar”.9
Ao passo que as Testemunhas de Jeová recusam o sangue por motivos religiosos, cada vez maior número de pacientes que não são Testemunhas decidem evitar tomar sangue, devido a riscos tais como o da AIDS, da hepatite não-A e não-B, e das reações imunológicas. Podemos apresentar-lhes nossos conceitos quanto a se tais riscos parecem pequenos, em comparação com os benefícios. Mas, como indica a Associação Médica Americana, o paciente “é o árbitro final quanto a se correrá os riscos envolvidos no tratamento ou na operação recomendados pelo médico, ou se arriscará a viver sem isso. Este é o direito natural do indivíduo, que a lei reconhece”.10
Relacionado com isto, Macklin11 suscitou a questão dos riscos e benefícios relativos à Testemunha “que corria o risco de sangrar até morrer, sem receber uma transfusão”. Um estudante de medicina disse: “Seus processos mentais estavam intatos. Que fazer quando as crenças religiosas são contrárias à única fonte de tratamento?” Macklin arrazoou: “Talvez acreditemos muito firmemente que tal homem está cometendo um erro. Mas as Testemunhas de Jeová crêem que receber uma transfusão . . . [pode] resultar na condenação eterna. Fomos treinados a fazer análises de riscos-benefícios na medicina, mas, se pesar a condenação eterna contra a vida restante na Terra, tal análise assume um ângulo diferente.”11
Vercillo e Duprey,12 nesta edição do Journal, referem-se a In re Osborne para sublinhar o interesse em se garantir a segurança dos dependentes, mas como foi decidido aquele processo? Dizia respeito a um gravemente ferido pai de dois filhos menores. O tribunal decidiu que, se ele morresse, os parentes cuidariam material e espiritualmente dos filhos dele. Assim, como em outros processos recentes,13 o tribunal não encontrou nenhum interesse obrigatório do Estado que justificasse o sobrepor-se à escolha de tratamento do paciente; era injustificada a intervenção judicial para autorizar um tratamento profundamente objetável para ele.14 Com um tratamento alternativo, o paciente recuperou-se e continuou a cuidar de sua família.
Não é verdade que a ampla maioria de casos que os médicos têm confrontado, ou provavelmente irão confrontar, podem ser cuidados sem sangue? O que estudamos, e conhecemos bem, tem que ver com os problemas de saúde, todavia, os pacientes são seres humanos cujos valores e alvos individuais não podem ser ignorados. Eles sabem melhor quais são suas próprias prioridades, sua própria moral e consciência, o que dá significado à sua vida.
Respeitar a consciência religiosa dos pacientes que são Testemunhas talvez seja um desafio à nossa perícia. Mas, ao enfrentarmos este desafio, sublinhamos valiosas liberdades mui prezadas por todos nós. Como John Stuart Mill escreveu apropriadamente: “Não é livre nenhuma sociedade em que tais liberdades não são, como um todo, respeitadas, seja qual for a sua forma de governo . . . Cada qual é o guardião correto de sua própria saúde, seja ela física, seja mental, seja espiritual. A humanidade é que mais lucra ao permitir que cada um viva como bem lhe parecer, em vez de compelir cada pessoa a viver como parece ser bom para os demais.”15
[REFERÊNCIAS]
1. Appelbaum PS, Roth LH: Patients who refuse treatment in medical hospitals. JAMA 1983; 250:1296-1301.
2. Macklin R: The inner workings of an ethics committee: Latest battle over Jehovah’s Witnesses. Hastings Cent Rep 1988; 18(1):15-20.
3. Bouvia v Superior Court, 179 Cal App 3d 1127, 225 Cal Rptr 297 (1986); In re Brown, 478 So 2d 1033 (Miss 1985).
4. In re Storar, 438 NYS 2d 266, 273, 420 NE 2d 64, 71 (NY 1981).
5. Rivers v Katz, 504 NYS 2d 74, 80 n 6, 495 NE 2d 337, 343 n 6 (NY 1986).
6. Dixon JL, Smalley MG: Jehovah’s Witnesses. The surgical/ethical challenge. JAMA 1981; 246:2471-2472.
7. Kambouris AA: Major abdominal operations on Jehovah’s Witnesses. Am Surg 1987; 53:350-356.
8. Jehovah’s Witnesses and the Question of Blood. Brooklyn, NY, Watchtower Bible and Tract Society, 1977, pp 1-64.
9. Pope denounces Polish crackdown. NY Times, January 11, 1982, p A9.
10. Office of the General Counsel: Medicolegal Forms with Legal Analysis. Chicago, American Medical Association, 1973, p 24.
11. Kleiman D: Hospital philosopher confronts decisions of life. NY Times, January 23, 1984, pp B1, B3.
12. Vercillo AP, Duprey SV: Jehovah’s Witnesses and the transfusion of blood products. NY State J Med 1988; 88:493-494.
13. Wons v Public Health Trust, 500 So 2d 679 (Fla Dist Ct App) (1987); Randolph v City of New York, 117 AD 2d 44, 501 NYS 2d 837 (1986); Taft v Taft, 383 Mass 331, 446 NE 2d 395 (1983).
14. In re Osborne, 294 A 2d 372 (DC Ct App 1972).
15. Mill JS: On liberty, in Adler MJ (ed): Great Books of the Western World. Chicago, Encyclopaedia Britannica, Inc, 1952, vol 43, p 273.
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