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O reino selvagem — está desaparecendo?Despertai! — 1983 | 22 de novembro
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O reino selvagem — está desaparecendo?
A ASSUSTADORA presença do mal acelera a palpitação humana à medida que o som inconfundível das armas automáticas quebra o silêncio e ecoa à distância. É longe demais para ouvir as vítimas cambaleando e caindo, e para vê-las contorcerem-se no chão, nas agonias da morte. Vá até lá e conte os mortos. São centenas, talvez 300.
Os executores se foram. Não intencionavam enterrar os mortos. As vítimas inocentes, despojadas de sua riqueza material, são abandonadas ali mesmo onde apodrecem ao sol ou são comidas por animais necrófagos. Uma olhada na carnificina é um lembrete vívido dos perigos e da crescente matança arbitrária que ameaçam as vítimas portadoras de artigos de grande valor, mas sem meios adequados de proteção e virtualmente sem lugar para se esconderem.
Multiplique essa cena milhares de vezes. Conte dezenas de milhares de mortos. Só então vislumbrará o quadro real da implacável matança que está dizimando as outrora grandes manadas de elefantes na África. Hoje, estão sendo mortas mais depressa do que se reproduzem, e há fortes temores de que logo seguirão o caminho do búfalo, que outrora vagava em grandes números pelas planícies americanas e acabou sendo massacrado pelo homem quase até a extinção.
Os grandes elefantes têm dado sua vida para satisfazer humanos que gostam de coisas exóticas. Dispendiosas esculturas em marfim, que variam desde cerca de um metro de altura até o tamanho de um dedal, são muito procuradas pelos que as podem pagar. Vinte anos atrás o preço do marfim era de uns três dólares (Cr$ 2.500,00) a libra (454 g). Hoje atinge o alto preço de quarenta dólares (Cr$ 33.600,00). Estima-se que 2.300 elefantes perderam a vida para suprir os 8,3 milhões de dólares (Cr$ 6,97 bilhões) em marfim importado pelos Estados Unidos só em 1980.
Um caçador de elefantes, com o mínimo de conhecimento de matemática, sabe que se sua presa tiver, digamos, duas defesas de 45 quilos cada uma, poderá render-lhe pelo menos 8 mil dólares (Cr$ 6,72 milhões) no mercado do marfim. Na Tanzânia, a polícia apreendeu um lote clandestino de defesas avaliado em 360 mil dólares (Cr$ 302,40 milhões), o produto de caçadores clandestinos em ação. O duro combate movido por patrulheiros e guardas florestais em certos países africanos tem resultado em numerosas mortes, tanto de caçadores como de guardas. É como uma guerra”, disse certo inspetor. Mas, devido aos altos preços pagos por defesas de marfim os caçadores se dispõem a correr o risco. Mesmo alguns patrulheiros do combate à caça ilegal se rebelaram contra a causa e se juntaram aos caçadores. O abate de um só elefante de defesas grandes poderia corresponder a mais do que o salário anual de um patrulheiro.
Os amantes do exotismo não se contentam necessariamente com esculturas de marfim. Talvez se disponham a pagar 400 dólares (Cr$ 340 mil) por uma pasta de couro de elefante ou a comprar um cesto de lixo ou um porta-guarda-chuvas feito das patas e pernas do animal. Um porta-lápis feito da pata de um simples filhote de elefante talvez lhes agrade. Um homem talvez goste da idéia de ter uma carteira de couro de elefante, e uma mulher talvez goste de exibir uma bolsa ou um cinto de couro de elefante. Mas, levaram em conta que um elefante deu sua vida de modo que pudessem ter algo inusitado?
Os caçadores clandestinos se tornaram tão insensíveis à matança arbitrária desses animais que, em alguns países, poços de água, usados não só por elefantes mas também por outros animais, têm sido envenenados. Por meio de lanças envenenadas, frutas envenenadas, flechas, armadilhas e fogo, e armas automáticas, os elefantes indefesos se tornam presa fácil para os com uma só intenção: matar! E matam mesmo, até 70.000 elefantes por ano na África Oriental.
Não muito tempo atrás, Uganda jactava-se de ter 49.000 elefantes. Soldados do exército do então presidente Idi Amin se transformaram em caçadores clandestinos de tempo parcial e sistematicamente abateram a tiros milhares de elefantes, extirpando suas defesas e abandonando-os no local em que caíam, onde apodreciam. Guardas de parques nacionais certa vez contaram 900 carcaças, apenas numa área.
O governo de Amin foi derrubado em 1979, mas, infelizmente, os elefantes de Uganda não puderam suspirar aliviados. Hoje, as armas do exército de Amin — quer abandonadas por soldados em fuga, quer apreendidas — são estimadas possessões nas mãos de caçadores clandestinos. Com elas podem matar metodicamente qualquer coisa que se mova e ofereça vantagem financeira. Atualmente, o número de elefantes que resta em Uganda é de umas 1.500 cabeças.
Quando cessará a matança? Enquanto houver demanda da parte de consumidores ávidos é difícil prever como a extinção do elefante selvagem na África pode ser evitada.
Infelizmente, o elefante não é o único em perigo de extinção, dentre as espécies que produzem aquelas cobiçadas defesas de ‘ouro branco’. O rinoceronte-negro da África, com chifres de 30 a 60 cm de comprimento, tem sido caçado tão desenfreadamente que a calculada população de 100.000 dez anos atrás foi reduzida para 10.000 a 20.000 hoje. Como o elefante, o rinoceronte está sendo destruído mais rapidamente do que se reproduz. Especialistas falam amargamente sobre a perspectiva de extinção de todos os rinocerontes selvagens da África. “As perspectivas de sua sobrevivência no estado selvagem estão envoltas em pessimismo”, dizem.
Os ricos talvez não pensem duas vezes antes de pagar 40 dólares (Cr$ 33.600,00) a libra por defesas de elefante esculpidas, mas talvez vacilem incrédulos diante dos preços de chifres de rinoceronte — em muitos casos chocantes 14.000 dólares (Cr$ 11,76 milhões) a libra. Por que tão altos? É crença tradicional em alguns países que chifre de rinoceronte em pó possui virtudes mágicas e curativas, e é altamente prezado como afrodisíaco para os de potência sexual desvanecente. Assim, os abastados pagam altas somas por ele.
Especialistas médicos não encontram evidência de que pó de chifre de rinoceronte seja afrodisíaco. Os sexualmente impotentes poderiam obter o mesmo resultado e poupar seu dinheiro por comer suas próprias unhas ou aparas de cabelo, visto que chifres de rinoceronte e unhas humanas contêm a mesma substância, chamada ceratina. Contudo, muitos estão convictos de que há uma diferença e se dispõem a pagar mais de 600 dólares (Cr$ 504 mil) a onça (28 g) de chifre de rinoceronte em pó no varejo, para deleite dos caçadores. Certo inspetor de caça disse: “Em três semanas não haveria mais rinocerontes aqui”, se não fossem os guardas. Visto que muitos asiáticos ainda crêem que o chifre de rinoceronte tem poderes mágicos, as espécies asiáticas têm sido caçadas quase até a extinção.
No Iêmen do Norte o chifre de rinoceronte é altamente prezado para a confecção de cabos de punhais, usados tradicionalmente presos à cintura de varões a partir dos 12 anos de idade. Os punhais são ornamentados com prata e ouro, e os norte-ieminitas pagam enormes somas por eles, de 6.000 a 13.000 dólares (Cr$ 5,04 milhões a 10,92 milhões). Em meados duma década, segundo relatórios publicados, o Iêmen do Norte importou quase 23.000 quilos de chifres de rinoceronte, representando cerca de 8.000 vidas de rinocerontes. Que preço a pagar por uma tradição!
Bem distante dos domínios dos elefantes e rinocerontes da África, a morsa, de quase quatro metros de comprimento e 1.400 quilos, descansa na sua banquisa no Ártico. Aquelas grandes presas, apontadas para baixo, que lhe conferem aquela temível aparência, são de marfim — medindo ao todo quase um metro. Outrora ela era caçada quase que exclusivamente por esquimós, que a usavam como alimento e entalhavam a mão suas presas, como fonte de renda. Agora ela entrou para o rol dos grandes qual fonte de marfim, e calculadamente 5.000 são mortas anualmente. Se a matança aumentar, alguém terá que dizer à morsa que acelere sua produção de descendência, caso contrário ela se juntará às fileiras dos que desapareceram do reino selvagem.
E tem mais, muito mais. O mais veloz animal conhecido, o guepardo, foi cronometrado como correndo a 113 quilômetros por hora. Contudo, nem ele é capaz de correr suficientemente rápido para escapar de seu mais feroz predador, o homem. Esse belo e elegante animal, amarelado e com manchas negras em todo o corpo, era outrora o orgulho da Índia e vicejava nas planícies da África e da Ásia. Desde a virada do século, contudo, tem sido tão implacavelmente caçado que desapareceu totalmente da Índia e está quase extinto no resto da Ásia. Na África, seu número é lamentavelmente pequeno e vem sendo reduzido à metade a cada década.
Por que tal matança do guepardo? Porque a “madame” quer um casaco novo, e um de pele da bela raça do guepardo, em extinção, lhe agradará muito. Os caçadores consideram mui recompensadoras as aspirações dela. Um recentemente confiscado carregamento de 319 peles, produto ilegal de caçadores clandestinos, foi mencionado como representando “uma redução de 5 a 10 por cento no número total de guepardos selvagens”. A moda e a vaidade levam essa bela criatura à extinção.
Além do mais, as belas manchas do majestoso leopardo tornam sua pele extremamente valiosa para a confecção de casacos. Quão valiosa? Cerca de 10 mil dólares (Cr$ 8,4 milhões) na mão dos caçadores. É óbvio que só os abastados se podem dar a esse luxo. Contudo, o número dos que podem aumenta, como aumenta também a procura de peles de leopardo, enquanto ainda existem. Em alguns países as leis proíbem a importação de peles de leopardo para casacos, mas, para as dezenas de milhares de leopardos que deram suas vidas pela causa da moda, isso é insignificante e tarde demais.
O mesmo se pode dizer do tigre, o membro de maior porte da família dos felinos. Outrora Rei do reino selvagem na Ásia, vivendo em grandes números em toda a maior parte da metade sul do continente, reinou soberano até os anos 1800. Contudo, não dispunha de uma necessidade imprescindível para a sobrevivência — a habilidade de usar armas de fogo para rechaçar seu pior inimigo, o homem. Ele não podia responder aos tiros. Pode imaginar quantos bravos caçadores humanos iriam ao encalço do tigre se este pudesse responder aos tiros? Como não pode, os homens implacavelmente liquidaram os tigres e destruíram seu habitat natural, e hoje restam apenas poucos. O tigre é outra espécie em perigo de extinção.
De que possível valor para o homem poderia ser o gorila, além de alimento para bem poucos? Raramente se ouve falar de um casaco de gorila, e os dentes de gorila não são fonte de marfim. Mas, mesmo assim o homem mata gorilas em busca de troféus. Até mesmo decepa suas patas para fabricar cinzeiros. Devido à caça ilegal e à destruição de seus habitats naturais, a população de gorilas na África diminui rapidamente. Cientistas temem que sua sobrevivência corra perigo.
Pensava-se outrora que o reino selvagem fosse uma reserva inesgotável. Mas, pode mesmo tal fonte aparentemente ilimitada produzir, por exemplo, 10.000 zebras em cinco anos para fazer tambores e tapetes para turistas e não dar sinais de que vai secar? Não obstante, a matança continua, e o reino selvagem parece apressar-se rumo ao esquecimento.
O doloroso é que a extinção em grande parte tem ocorrido não para alimentar estômagos, mas sim para alimentar a vaidade. As pessoas não precisam de casacos de leopardo ou de guepardo. Podemos passar sem pastas ou bolsas de couro de elefante. Quem precisa tanto de um inusitado par de sapatos que um lagarto-monitor raro ou um crocodilo deva morrer para provê-lo? Quando pensa em comprar uma escultura de marfim, será que sua consciência hesitaria diante da idéia de um elefante se contorcer no chão e ter suas defesas extirpadas ainda vivo, só para satisfazer seu capricho? Lembre-se, enquanto houver procura desses itens exóticos, animais morrerão e espécies se tornarão extintas.
Apesar de que muitos países têm promulgado boas leis para tentar conter o desaparecimento de espécies do reino selvagem, infelizmente, muito dano tem sido causado. Existe uma esperança, contudo, de que nos anos vindouros ainda haveria animais na terra para o deleite do homem. Numa profecia que reflete condições futuras sob o Reino de Deus, a Bíblia diz: “Naquele dia o lobo e a ovelha morarão juntos; o leopardo e o cabrito viverão em paz. Os bezerros e os bois andarão junto com os leões, guiados por uma criança. As vacas e os ursos serão companheiros no mesmo pasto; os bezerros e os ursinhos brincarão juntos; o leão comerá capim, como o boi.” — Isaías 11:6, 7, A Bíblia Viva.
Mas, ai dos que agravam o desrespeito na terra, que pertence a Deus, por destruírem irresponsavelmente Seu reino selvagem! Certamente, Ele “arruinará os que arruínam a terra”. Ele prometeu isso. — Revelação (Apocalipse) 11:18.
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O papel do caçador no reino selvagemDespertai! — 1983 | 22 de novembro
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O papel do caçador no reino selvagem
IMAGINE a cena. O céu escurece rapidamente, embora ainda seja cedo de manhã. Ao continuar olhando, a escuridão aos poucos cobre toda a área, de horizonte a horizonte, embora não haja nenhuma nuvem no céu. Ouve-se um ruído ameaçador, ensurdecedor, como o de um trovão, e você tapa os ouvidos. A terra sob os seus pés ressoa por causa do estrondo. Que violenta tempestade desencadeou a natureza? Não tema. São apenas pássaros.
Não, você nunca viu tal magnífico desfile de pássaros. Tampouco alguém hoje vivo o viu. Mas, em 1813 o famoso naturalista e artista americano John Audubon descreveu um espetacular desfile exatamente assim. Ele viu os belos pombos-viajantes desfilarem em tão grandes números que escureceram o sol por três dias!
Só em pensar num bando de aves tão grande assim abala a imaginação. Mas, houve tempo que esses bandos existiam. Alguns anos antes da cena vista por Audubon, um enorme bando foi visto em Kentucky, EUA, que se acreditava compor mais de 2.230.000.000 de pombos-viajantes. Os entendidos crêem que existiam 6 bilhões dessas aves nos Estados Unidos, mesmo tão recentemente quanto 1885.
Certamente, um suprimento inesgotável, talvez pense. O pombo-viajante jamais estaria em perigo de extinção. Mas não — o homem, o caçador, realizou o aparentemente impossível. Por matar em média mais de 566.000 dessas belas aves cada dia da semana por mais de 29 anos, ele conseguiu. Em 1.º de setembro de 1914, literalmente o último pombo-viajante existente na face da terra, chamado Martha, morreu num zoológico de Ohio, EUA.
Assim, o mundo perdeu o pombo-viajante. Por causa do que certa fonte chama de “ganância e esbanjamento dos caçadores”, uma espécie que parecia totalmente fora de perigo foi caçada até a extinção. Tem o homem o direito de encarar tão levianamente a vida de suas co-criaturas e destruir espécies inteiras, uma após outra? Ademais, por que deviam tais depredadores ter o direito de negar às gerações futuras o prazer de observar o reino selvagem?
A Responsabilidade do Homem
O Criador das abundantes formas de vida desta terra não encara levianamente a sua destruição. Jesus certa vez disse: “Não se vendem dois pardais por uma moeda de pequeno valor? Contudo, nem mesmo um deles cairá ao chão sem o conhecimento de vosso Pai”; “nem mesmo um deles está esquecido diante de Deus”. (Mateus 10:29; Lucas 12:6) Certamente, os olhos de Deus não estavam fechados quanto à destruição de 6 bilhões de pombos-viajantes.
Nem todos têm concordado com a indiscriminada matança da vida selvagem. Numa carta escrita ao presidente dos Estados Unidos, em 1855, um chefe índio da tribo de Duwamish, no estado de Washington, expressou sua preocupação quanto à desenfreada matança de animais: “O homem branco precisa tratar os animais desta terra como seu irmão. Sou um selvagem e não entendo o outro modo. Tenho visto mil búfalos apodrecendo nos prados, abandonados pelo homem branco que atira neles de um trem em movimento. . . . Que é o homem sem os animais? Se todos os animais desaparecessem, os homens morreriam de grande solidão de espírito, pois o que quer que aconteça ao animal também acontece ao homem. . . . Sabemos de uma coisa que o homem branco descobrirá um dia. Nosso Deus é o mesmo Deus. . . . Esta terra é preciosa para ele. E prejudicar a terra significa desrespeitar seu criador.”
Parece que esse chefe índio compreendeu instintivamente algo que a Bíblia nos diz: Deus confiou ao homem o domínio sobre os animais. O primeiro livro da Bíblia nos fala sobre esta ordem dada ao homem: “Vocês são os senhores dos peixes, das aves e de todos os animais.” (Gênesis 1:28, A Bíblia Viva) A arbitrária e quase frívola destruição do reino selvagem, pelo homem, é um abuso grosseiro dessa confiança.
A Síndrome de Ninrode
Significa ter o homem o domínio sobre os animais que esteja proibido de matá-los sob hipótese alguma? Não. Lembre-se, o próprio Deus preparou vestes de peles de animais para o primeiro casal humano e aceitou o sacrifício de um carneiro feito por Abel, filho desse casal. E, após o Dilúvio dos dias de Noé, ele consentiu que Noé e seus descendentes usassem a carne de animais como alimento. — Gênesis 3:21; 4:4, 5; 9:3.
Contudo, ao fazer essas concessões, Jeová Deus não insinuou que a vida animal devesse ser encarada levianamente. Para ressaltar o caráter sagrado da vida dos animais que seriam mortos para alimento, Deus ordenou que o homem não comesse o sangue do animal, junto com a sua carne. O sangue simboliza a vida do animal, e esta pertence a Deus. (Gênesis 9:4, 5) Em tempo algum deu Deus ao homem a autoridade para matar animais pelo puro prazer de matar. Onde, então, aprendeu o homem a fazer isso?
Pouco depois do Dilúvio, um famoso homem daqueles dias, Ninrode, passou a se distinguir como entusiasta da caça por esporte. Tornou-se “poderoso caçador em oposição a Jeová”. (Gênesis 10:8, 9) Por matá-los arbitrariamente, evidentemente abusou do domínio sobre os animais, confiado por Deus. Outros seguiram seu exemplo e logo esse esporte pegou em grande estilo. A caça se tornou o esporte de reis.
Os arqueólogos têm desenterrado muita evidência de que os reis do mundo antigo se deleitavam na caça e se jactavam de suas proezas. Mesmo o rei-menino egípcio, Tutancâmen, caiu vítima do que se poderia chamar de síndrome de Ninrode. Cenas de caça pintadas nas paredes de seu túmulo e esculturas em baús de madeira o retratam em pé no seu carro, a toda velocidade, com arco e flecha na mão, o arco entesado prontos para disparar a flecha, enquanto animais selvagens disparam à sua frente.
Em tempos mais recentes europeus ricos caçavam animais por esporte em sua própria terra, ou viajavam à Índia ou à África em busca de caça mais excitante. Muitos decoraram seu lar com cabeças empalhadas dos belos animais cujas vidas exterminaram por esporte. No Novo Mundo, rebanhos inteiros de búfalos foram dizimados e eram deixados apodrecer onde caíam. E os caçadores vieram a prezar cabeças de alce, de veado, e outros símbolos de sua perícia na caça.
O Homem, o Preservador
Para proteger dos caçadores alguns dos animais ameaçados, governos estabeleceram restrições à caça, proibindo a matança desses animais. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma manada de 3.000 veados-mula das Montanhas Rochosas, no Arizona, foi protegida. O resultado? Sendo milhares de seus predadores naturais capturados por armadilhas, baleados ou envenenados por caçadores do governo, em 10 anos o veado-mula aumentou sua população para cerca de 40.000 cabeças.
Um resultado feliz? Em certo sentido, sim. Mas, infelizmente, o veado começou a morrer em massa. Qual era o problema? Seu habitat tornou-se superpovoado. Encontraram-se veados mortos com estômago cheio de agulhas de pinheiro, que certamente não consta do cardápio do veado a menos que esteja à mingua. O controle e o equilíbrio da vida selvagem haviam sido despercebidos. Com seus predadores naturais destruídos, sua população descontrolada, eles comiam qualquer vestígio de alimento disponível. Foi só depois que se permitiu que caçadores entrassem em sua área e abatessem parte do excedente, que a população de veados foi contrabalançada com o que seu habitat podia suportar.
Especialistas em vida selvagem aprenderam bem a lição. De experiência passada sabem que a fim de proteger as manadas contra a morte à mingua e por doença, um abate de animais excedentes é necessário. Assim, nos Estados Unidos abrem-se temporadas de caça restritas em que caçadores licenciados podem cada ano abater certo número dos animais excedentes. Em outros países isso é feito por inspetores de caça do governo e guardas florestais.
Desse modo mantém-se manadas mais fortes que podem desenvolver-se. Em 1895, por exemplo, existiam apenas uns 350.000 veados-de-cauda-branca no sul do Canadá, na América do Norte continental. Hoje, existem aproximadamente 12 milhões deles. Em 1925, calculados 13.000 a 26.000 antilocapras sobreviviam nos Estados Unidos, a maioria em apenas dois estados ocidentais. Hoje existem pelo menos 500.000 em todos os estados ocidentais. Existem hoje cerca de um milhão de alces em 16 estados, ao passo que em 1907 existiam apenas 41.000 em um estado só. O censo oficial de focas nas ilhas Pribilof, em 1911, foi estipulado em 215.900. Hoje, o rebanho é mantido em cerca de 1,5 milhão de cabeças. Sem o abate adequado, todas essas manadas agora fora de perigo de extinção estariam em sérias dificuldades.
A “Síndrome de Disney”
Existe, porém, um crescente sentimento anticaça nos centros urbanos dos Estados Unidos, do Canadá e de outros países, que os controladores da vida selvagem temem seja contraproducente. Algumas dessas forças são altamente organizadas com escritórios na Inglaterra, Países-Baixos, França, Nova Zelândia e Austrália, bem como nos Estados Unidos e Canadá.
Por que está a caça começando a sofrer ataque? “Muito simples”, responde o editor da revista Montana Outdoors, “muitas pessoas hoje crescem sem vínculos diretos com a terra e as criaturas selvagens que ela sustenta. Compreensivelmente, derivam a maior parte de seu conhecimento sobre a vida selvagem da televisão e do cinema, que mui freqüentemente apresentam um conceito distorcido da vida selvagem . . . e desconsideram os processos naturais tais como a predação, a doença e a míngua.” Certo diretor do serviço de vida selvagem referiu-se a esse conceito como a “síndrome de Disney”. “Após assistirem a filmes de Disney sobre animais e aves na floresta”, disse ele, “algumas pessoas, especialmente as crianças, ficam com a idéia de que os animais sabem falar”. Pensam que são como pessoas.
Outro porta-voz sustentou: “Os jovens simplesmente não estão sendo informados da verdade sobre a vida selvagem. Conhecem pouquíssimo sobre o controle da caça ou o sucesso alcançado com isso nos últimos 50 anos. É óbvio que um grande número de crianças se voltam contra a caça. Pensam que os caçadores estão matando os poucos veados e outros animais que ainda restam no país.”
Os cristãos não condenam os que matam animais para alimento. Se, porém, alguém mata além do número permitido especificado pelas leis de seu país, ou se mata por causa da emoção que isso provoca e usa a carne como pretexto, então é perante Deus que é responsável. Estará se excedendo no exercício do domínio confiado à humanidade. E embora o homem tenha permissão de usar a pele animal como vestimenta, caçar essas criaturas até a extinção para satisfazer luxos desnecessários é um abuso ainda pior.
Muitos dos problemas relacionados com o reino selvagem são insolúveis neste sistema de coisas. À medida que a população humana aumenta e a vida selvagem é comprimida em áreas cada vez menores, o controle e a preservação dessa vida selvagem se tornará cada vez mais difícil. E é difícil imaginar o que os governos de recursos limitados farão para cessar a caça ilegal de espécies em extinção, neste ganancioso e comercial sistema de coisas.
Quantas espécies de animais Deus ainda permitirá que sejam destruídas antes que ponha um ponto final nisso, não sabemos. Mas, num dia não muito distante será dado um basta. Deus prometeu que em breve seu Reino assumirá o controle do dia-a-dia nesta terra, e, naquele tempo, “não se fará dano, nem se causará ruína em todo o meu santo monte; porque a terra há de encher-se do conhecimento de Jeová assim como as águas cobrem o próprio mar”. — Isaías 11:9.
Naquele tempo o homem será treinado para exercer de modo correto sua autoridade sobre os animais. No ínterim, os cristãos podem pelo menos demonstrar respeito correto pelos animais, sendo realistas mas compassivos ao encararem seu relacionamento com o reino selvagem.
“E naquele dia certamente concluirei para eles um pacto em conexão com o animal selvático do campo, e com a criatura voadora dos céus, e com a coisa rastejante do solo, . . . e vou fazer que se deitem em segurança.” — Oséias 2:18.
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