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  • Gandhi — por que muitos se voltaram para ele
    Despertai! — 1984 | 22 de outubro
    • Gandhi — por que muitos se voltaram para ele

      Vivemos numa época de agravante crise no mundo em desenvolvimento. Ao passo que as sociedades afluentes do Ocidente sofrem males sociais, o mundo inteiro acha-se sob a sombra do terror nuclear. Será que a filosofia de não-violência, de Gandhi, representa a solução para este mundo assolado por contendas? Este artigo, escrito por um jornalista indiano, analisa Gandhi, e seus ideais de não-violência.

      GANDHI. O que este nome significa para o leitor? Se for amante da paz e ansiar um mundo não-violento, talvez saiba que Gandhi foi cognominado o pai da não-violência.

      Se for um dos mais de 730 milhões de indianos, lembrar-se-á dele como Bapu, ou pai, imagem terna dum homem frágil com uma roda de fiar, que conduziu a Índia a independência. Caso seja hindu, considera-o um líder espiritual e o chama de Mahatma, ou “grande alma”. Mas, sem levar em conta sua origem ou suas crenças, provável e que reconheça Gandhi como um líder dotado de incomum carisma.

      Era um homem miúdo, com rosto magro e olhos grandes. Seu nariz, grande demais para seu rosto, projetava-se por entre seus óculos redondos. De uma maçã à outra de seu rosto encovado estendia-se seu sorriso desdentado. A maioria das fofos o mostram sentado com pernas cruzadas, com sua roda de fiar, ou vestido de sua tanga e seu manto de algodão, saudando visitantes.

      Não muito depois da Primeira Guerra Mundial, Gandhi disse: “Faço objeção à violência porque, quando ela parece causar o bem, tal bem é apenas temporário, porém o mal que causa é permanente.”

      O mundo hodierno acha-se em ainda pior situação do que quando Gandhi vivia. Veja só o que acontece na América do Sul e Central, na África, no Oriente Médio, e mesmo nos povoados e aldeias da Índia. Como meio de equacionar problemas, a violência se tornou um hábito profundamente arraigado. Quando empurradas, as pessoas, em sua maioria, também empurram. Quando novamente empurradas, elas revidam. As nações mais opulentas não estão tampouco imunes a isto. O ódio nacionalístico, a violência racial, o crime, a ameace de guerra nuclear e os abusos contra o meio ambiente constituem a norma. “A menos que o mundo adote a não-violência, isso soletrará o suicídio certo para o gênero humano”, observou Gandhi. O ódio só pode ser vencido pelo amor, e é preciso praticar a não-violência não só no nível das nações e grupos, mas também por parte de cada indivíduo, expressou-se ele.

      O que, por exemplo, motiva um homem a odiar o próximo e causar-lhe violência, só porque a cor da pele dele é diferente? Gandhi observou: “Nenhum homem de Deus pode considerar outro homem como inferior a si próprio. Tem de considerar todo homem como seu irmão de sangue.” Sessenta e três anos depois de Gandhi ter dito isto, o mundo ainda tenta a duras penas formular o conceito básico de igualdade.

      Numa época em que escasseiam os grandes líderes e pensadores, alguns se voltam para Gandhi em busca de soluções. Mas, quem era este homem? Quais eram seus ideais? Como foram formulados? Nestes tempos precários, constituem os modos de agir de Gandhi a solução?

  • Gandhi — o que moldou tal homem?
    Despertai! — 1984 | 22 de outubro
    • Gandhi — o que moldou tal homem?

      PARA compreender Gandhi, precisamos reviver dois acontecimentos que moldaram seu modo inicial de pensar. Voltemos ao ano de 1869, no estado de Gujarate, no noroeste da Índia. Ventos quentes e secos, seguidos de devastadoras enchentes, assolam tal região. Ali nasceu Gandhi, de uma família dotada de confortos materiais, e que, como a maioria dos guzarates, orgulhava-se de possuir muitos bramares (casta sacerdotal) em seu estado. Tradicionalmente, a sociedade hindu se divide em quatro castas ou classes principais, separadas por nítidas diferenças. (Veja o quadro na página 5.)

      Com 18 anos, Gandhi empreendeu sua primeira viagem de trem até Bombaim, a caminho da Inglaterra, para estudar direito. Deixa para trás a esposa de sua infância, Kasturbai, e um filho. Antes de tomar o navio SS Clyde, Gandhi é convocado perante os anciãos de sua casta e eles lhe dizem, em termos candentes, que se for para a Inglaterra será expulso formalmente de sua casta. Por quê? “A pessoa se vê obrigada a comer e beber junto com europeus”, argumentam. “Não acho que seja de forma alguma contrário à nossa religião ir à Inglaterra”, replica ele. Os anciãos de sua casta consideram-no um tabu misturar-se ele com o homem branco, que é poluído por comer carne e ingerir álcool. Gandhi protesta que se trata dum caso de discriminação de castas ao inverso. Apesar de seus apelos, eles se mostram irredutíveis, e Gandhi parte da Índia como um pária, expulso de sua casta de vaixás ou vaicias (lavradores e comerciantes).

      A vida de Gandhi na Inglaterra é difícil. Não só é um estrangeiro, mas ainda por cima um indiano das “colônias”, e só conseguia circular entre os grupos marginais da sociedade britânica. Gandhi se mostra perplexo, uma vez que os que o discriminam chamam a si mesmos de cristãos. Já tem uma opinião formada sobre o cristianismo: “Criei uma espécie de aversão a ele”, escreveu. “E isso com razão. Naqueles dias, os missionários cristãos [na Índia] costumavam ficar de pé, numa esquina perto da escola secundária . . . proferindo insultos contra os hindus e seus deuses. Eu não podia suportar isto.” Também na Inglaterra, Gandhi verifica ser difícil suportar a discriminação que os “cristãos” demonstram pala com ele. Qual e seu veredicto? ‘Amo a Cristo, mas desprezo os cristãos porque não vivem como Cristo vivia.’

      Ao partir da Inglaterra como bacharel de direito, Gandhi tenta exercer a advocacia na África do Sul. Ali, desde o início, depara com o preconceito racial. Apesar de sua passagem de primeira classe, é retirado da cabina dum trem e mandam que vá para um vagão destinado às pessoas de cor. Os protestos de Gandhi caem em ouvidos surdos. Ele é removido a força do trem e obrigado a passar uma noite na sala de espera.

      Decisão Vital

      Nessa noite, ele decide jamais ceder à força e jamais empregar a força para ganhar uma causa. Refletindo sobre tal incidente, escreveu: “A dificuldade a que me submeteram era superficial — apenas um sintoma da profunda moléstia do preconceito de cor. Devo tentar se possível, eliminar a doença e sofrer dificuldades, ao tentar fazê-lo.”

      Retornemos, por um instante, e examinemos estes dois incidentes modeladores da vida de Gandhi. No primeiro caso, antes de partir para a Inglaterra, Gandhi foi rejeitado pelo seu próprio povo, devido ao seu desejo de associar-se com o homem branco. No segundo caso, é o homem branco que o expulsa do trem, por causa da cor da pele de Gandhi. O que deixou Gandhi enfurecido não foi apenas seu próprio sofrimento ou humilhação; foi o arraigado câncer da desumanidade do homem para com o próprio homem, em virtude das diferenças da cor da pele.

      Mais tarde, ele escreveu: “Enquanto tivermos este desprezo por parte das raças brancas para com o homem de cor, teremos dificuldades.” De forma bem interessante, o veredicto de Gandhi se aplicava Igualmente ao indiano, que, por milhares de anos, tinha perpetuado um sistema de castas baseado nas diferenças da cor da pele. Nesta segregação, era uma questão então de indiano contra indiano, brâmane contra o intocável.

      Respeito Próprio Para os Intocáveis

      Ao retornar à Índia, Gandhi encontrou odiosas divisões e cicatrizes provocadas pela segregação das castas. Como podemos condenar os ingleses — observou — quando somos culpados quanto a nossos próprios irmãos intocáveis? “Considero a intocabilidade a maior mancha do hinduísmo”, disse. Ao sancionar a intocabilidade, o hinduísmo havia pecado, segundo Gandhi.

      Gandhi assumiu a defesa dos intocáveis. Passou a viver com eles. Comia com eles. Limpava suas latrinas. Tentava restaurar-lhes o respeito próprio. Deu-lhes um nome dignificante — eles não mais eram intocáveis, mas harijans, ou o povo do deus Vixenu. “E mister que nós, hindus, nos arrependamos do erro que cometemos, . . . temos de devolver-lhes a herança da qual os privamos”, escreveu.

      Qual era a herança dos harijans, conforme Gandhi? A dignidade humana, a herança básica de todas as pessoas. O harijan simplesmente deseja ser tratado como humano, e não como animal, argumentava. Quem o privou disso? Segundo Gandhi, seus co-hindus. “Os crimes mais cruentos de que a História tem registro foram cometidos sob o manto da religião”, disse. Fez com que toda a Índia se envergonhasse, por recusar-se a entrar nos grandes templos, cujas portas tinham ficado fechadas, durante séculos, aos adoradores das castas baixas hindus. “Não há nenhum Deus aqui”, dizia às multidões ajuntadas. “Se Deus estivesse aqui, todo o mundo teria acesso.” Certa vez, um missionário abastado se dirigiu a Gandhi para obter seu conselho sobre como ajudar os párias nas aldeias indianas. A resposta de Gandhi foi um desafio ao cristianismo: “Temos de descer de nossos pedestais e viver junto com eles — não como estranhos, mas como um deles, de todas as maneiras, compartilhando suas cargas e suas tristezas.”

      “No dicionário da ação não-violenta, não existe algo como um ‘inimigo externo’”, afirmou Gandhi. Tendo o próprio futuro do mundo em jogo, como comentou certo escritor moderno, todas as diferenças seriam “internas”, e, se nosso objetivo é salvar a humanidade, temos de respeitar a humanidade de cada pessoa. A segregação baseada em casta nega tal respeito, por conseguinte, as pessoas sofrem. Seu sofrimento não é mais silencioso. Acha-se refletido nas estatísticas dos crimes e da violência. Por conseguinte, surgem as perguntas: Deram certo os ideais de Gandhi? Que dizer da não-violência na Índia? Quão práticas são as idéias de Gandhi para o mundo em geral?

      [Quadro na página 5]

      Casta e Cor

      Os escritos teológicos hindus, “Maha-Bharata” (Grande História da Guerra dos Bharatas; tradução que consta da obra “Hinduísmo”, p. 107, Zahar Editores) afirma:

      1. “A cor dos brâmanes era branca [a casta mais elevada, composta dos sacerdotes e dos peritos],

      2. “a dos xátrias, vermelha [segunda casta, de guerreiros e nobres],

      3. “a dos vaixás, amarela [terceira casta, de lavradores e comerciantes],

      4. “e a dos sudras, negra [quarta casta, dos trabalhadores braçais].

      Abaixo destas, e distanciados da estrutura social, achavam-se os impuros, os intocáveis.

      A respeito deste sistema de castas, a publicação “The Hindu” veiculou:

      “A Comissão Mandal avisou contra qualquer suposição de que o sistema de castas estava em vias de desaparecer . . . Se a religião foi alguma vez utilizada como ópio das massas, isso aconteceu na Índia. Pequena classe sacerdotal, por meio de sutil processo de condicionamento do modo de pensar da ampla maioria do povo, hipnotizou-o durante eras a aceitar um papel de servidão com humildade. . . . Uma vez que a casta condicionou e controlou todo aspecto da vida do indivíduo, afirma a Comissão, isso levou a uma situação em que as castas inferiores foram ficando para trás, não apenas em sentido social, mas também educacional, econômico e político. As castas mais elevadas, porém, progrediram em todas as direções.” — 4 de maio de 1982.

      [Quadro na página 6]

      Se for um Intocável

      ● Varre ruas, limpa privadas ou cuida de cadáveres.

      ● Não pode entrar na casa de alguém duma casta superior. Os brâmanes não lhe permitirão entrar num templo hindu.

      ● Seus filhos não poderão casar-se com alguém de outra casta.

      ● Nas cidades, é o destituído de tudo — morando em favelas, carecendo das necessidades básicas de alimento, abrigo e água.

      A intocabilidade foi proscrita na Índia desde 1960. Todavia, recente pesquisa feita em cerca de mil povoados por toda a Índia revelou que, se fosse um intocável, 61 por cento das demais pessoas não permitiriam que utilizasse o poço de água delas; 82 por cento não lhe permitiriam entrar no templo; uns 56 por cento lhe negariam hospedagem; 52 por cento dos tintureiros recusariam prestar-lhe serviços e 45 por cento dos barbeiros se recusariam a lhe fazer a barba.

  • A não-violência num mundo violento
    Despertai! — 1984 | 22 de outubro
    • A não-violência num mundo violento

      MORAR em Bombaim significa viver no meio duma multidão a todo o tempo. De dia, as ruas estão apinhadas. De noite, mais de cem mil pessoas dormem nas calçadas.

      A maioria das cidades e aldeias da Índia são assim: apinhadas e extraordinariamente pobres. Há escassez de moradias e de água limpa. A comida é preciosa.

      Visualize, por um instante, que mora num aposento de 3 por 4 metros, junto com de cinco a oito outras pessoas! Os cantinhos do aposento são alugados ou, talvez, as pessoas durmam em turnos. Passa a maior parte de sua vida nas ruas ou nas calçadas. Toda manhã, dirige-se a fonte de água local e retira um balde de água. A água está contaminada. Trabalha arduamente longas horas, mas o que recebe mal dá para alimentar a família naquele dia. Não pode modificar as coisas, por mais que o tente. Vê as pessoas morrerem ao seu redor a cada dia, de fome e de doenças. Sente-se frustrado, tendo uma sensação de impotência.

      Pelo menos está estabelecido. Possui um lar. Mas, como sempre, existe outra Índia: Pessoas sem terem lugar algum que possam chamar de seu ocupam cada cantinho perto das sarjetas e das margens das estradas. Formam favelas dos destituídos. Há velhos e Jovens, mulheres e bebês, seminus e moribundos. São uma raça que nunca teve o bastante para comer. Tudo que almejam é viver mais um dia.

      Não se trata dum quadro agradável. Naturalmente, na Índia, como em toda outra parte, há os ricos e os instruídos. Mas constituem minoria. As fileiras dos pobres ultrapassam em muito os ricos no contínuo aumento demográfico. O consumismo declarado de uns em contraste com o simples esforço de sobrevivência de outros fixa o cenário para a violência.

      A Têmpera da Violência

      “Enredada nos fios torcidos da estagnação e da mudança, a Índia é agora uma sociedade violenta, cruel e horrenda”, afirma Bhabani Sen Gupta, em seu artigo.“É Civilizada a Índia?”. Na Índia, milhares de jovens casadas ainda são queimadas vivas a cada ano pelos sogros e esposos, por deixarem de apresentar suficiente dote. Cerca de dois milhões de mulheres são violadas. Centenas de milhares de outros crimes são cometidos. Cinqüenta mil pessoas, a maioria sendo rapazes e moças, cometem suicídio, por se sentirem desapontados e desesperados. Em 1978, houve

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