Perguntas dos Leitores
● Como se usava o “esterco de pombas” mencionado em 2 Reis 6:25? — H. F., E. U. A.
Este versículo descreve as condições existentes na cidade de Samaria, quando foi sitiada pelos sírios, nos dias de Eliseu. Lemos: “Com o tempo veio a haver uma grande fome em Samaria, e eis que a sitiavam até que a cabeça dum jumento chegou a valer oitenta moedas de prata e um quarto da medida de um cabo de esterco de pombas valeu cinco moedas de prata.” — 2 Reis 6:25.
Concordemente, cerca de um terço de litro de esterco de pombas valia aproximadamente Cr$ 10,00. Mas, discutiu-se amplamente a questão de como o comprador usava este esterco.
Alguns acharam que “esterco de pombas” talvez se aplicasse a uma planta, baseando-se no fato de que os árabes usam o nome de “esterco de pardal” para uma planta comida por pessoas de poucos meios e de que na região de Samaria cresce uma planta cujo nome latino significa “leite de pássaro”. No entanto, não há evidência de que qualquer destas plantas fosse alguma vez conhecida como “esterco de pombas” ou que estivesse disponível às pessoas encerradas no sítio de Samaria.
Se a expressão for tomada literalmente, que uso se faria do esterco de pombas? Fez-se a sugestão de que tal material já por muito tempo está sendo usado como fertilizante pelas pessoas no Oriente Próximo. Mas é pouco provável que pessoas prestes a morrer de fome se preocupariam em fertilizar safras que só estariam disponíveis meses depois.
Existe a possibilidade de que o esterco de pombas fosse usado como alimento. Na tentativa de amedrontar o povo de Jerusalém, Rabsaqué advertiu certa vez que o assédio assírio os induziria a ‘comer o seu próprio excremento e a beber a sua própria urina’. (2 Reis 18:27) A idéia de se consumir esterco é repugnante, mas, visto que a fome era tão grande, que havia mulheres que cozinhavam e comiam seus próprios filhos, indica que iriam consumir qualquer coisa disponível. (2 Reis 6:26-29) Embora o esterco seja de valor nutritivo limitado, pessoas esfomeadas amiúde comem qualquer coisa para amortecer as dores da fome. Segundo Josefo, os judeus sitiados pelos romanos, em 70 E. C., comeram esterco dum “antigo monturo de gado”. E há o relato de que, durante uma fome na Inglaterra, em 1316 E. C., as pessoas comeram “seus próprios filhos, cachorros, camundongos e esterco de pombos”.
Talvez a sugestão mais provável seja a de que o esterco era usado como combustível. O profeta Ezequiel recebeu instruções de retratar as condições igualmente penosas do sítio que sobreviria a Jerusalém por cozinhar a sua comida com fezes por combustível. (Eze. 4:12-17) Em algumas partes da terra, até o dia de hoje, esterco seco de gado, chamado por alguns de “bostas de vaca”, serve de combustível. Se tal conceito sobre o esterco de pombas for correto, então a narrativa declara simplesmente o custo do alimento (neste caso a cabeça dum jumento) e o custo do combustível para cozinhá-lo. Os versículos seguintes indicam que as pessoas ainda não comiam carne crua.
● Visto que o apóstolo Paulo ensinava que os cristãos não estão sob a lei mosaica, por que se sujeitou a uma cerimônia relacionada com um voto a Deus, no templo em Jerusalém?
É inegável que o apóstolo Paulo reconhecia que os cristãos não estão sob as obrigações da lei mosaica. Ele escreveu sob inspiração: “Fomos exonerados da Lei, porque morremos para com aquilo que nos segurava”; “não estais debaixo de lei, mas debaixo de benignidade imerecida”, e, “se estais sendo conduzidos por espírito, não estais debaixo de lei” — Rom. 7:6; 6:14; Gál. 5:18.
Este fato, porém, não significa que ele considerasse os requisitos da Lei como pecaminosos. Ele escreveu: “A lei, da sua parte, é santa, e o mandamento é santo, e justo, e bom.” (Rom 7:12) O ponto é que não se exige dos servos de Deus que guardem a Lei para agradar a Jeová e ganhar a salvação. Por exemplo, não é pecado ser circuncidado; não se trata dum ato anticristão. Mas, seria errado se o cristão acreditasse que tinha de ser circuncidado para ser salvo. — Atos 15:1, 2, 5, 22-29; 16:3.
Não era incomum, entre os judeus, que aquele que escapasse de algum perigo ou infortúnio fizesse um voto a Jeová, votando talvez abster-se por certo tempo de bebidas alcoólicas. Isto seria semelhante ao voto dum nazireu. (Num. 6:1-21) Quando se completava o período determinado, o judeu cortava o cabelo e oferecia provavelmente sacrifícios no templo em Jerusalém.
Em Atos 18:18, lemos que Paulo “em Cencréia [perto de Corinto] cortara rente o cabelo de sua cabeça, pois tinha um voto”. Não se declara se fez este voto antes de se tornar cristão, nem mesmo sabemos definitivamente se se tratava do princípio ou do fim deste período votado. Não podemos excluir a possibilidade de que isso se relacionasse com o que ocorreu posteriormente em Jerusalém.
Quando Paulo estava em Jerusalém, depois de sua terceira viagem missionária, os cristãos que compunham o corpo governante mencionaram que havia muito ressentimento entre os judeus contra Paulo. Dando crédito a rumores, os judeus pensavam que Paulo pregasse violentamente contra a lei mosaica. Nisso não tinham razão, conforme vimos. Portanto, para demonstrar isso a todos publicamente, Tiago e os homens espiritualmente mais maduros aconselharam a Paulo: “Há conosco quatro homens que têm um voto sobre si. Toma contigo estes homens e purifica-te cerimonialmente junto com eles, e toma conta das despesas deles, para que se lhes rape a cabeça. E todos saberão assim que não há nada nos rumores que se contavam acerca de ti, mas que estás andando ordeiramente, guardando também tu mesmo a Lei.” — Atos 21:23, 24.
Paulo e os quatro cristãos que tinham um voto sobre si fizeram isso. (Atos 21:26) Tal proceder deles não era um ato de apostasia, num comprometia o cristianismo. Demonstraram que os regulamentos judaicos a respeito dos votos não se tornaram iníquos só porque os cristãos não os precisavam cumprir. Não era como se tivessem oferecido incenso a uma deidade pagã — coisa que era decididamente contrária à verdadeira adoração cristã. O que fizeram não foi em si mesmo impróprio, e parece que iria contrabalançar os preconceitos judaicos e permitir que muitos outros ouvissem as boas novas de salvação em cuja pregação Paulo estava tão intensamente interessado.
● O livro Que Tem Feito a Religião Pela Humanidade? diz na página 201: “Que ninguém pense que a doutrina do purgatório foi primeiro descoberta pelo Papa Gregório, o Grande (595-604 E. C.).” Depois, na página 267, diz: “Gregório I (595-604 E. C.) foi o primeiro a descobrir o ‘purgatório’.” Como se podem conciliar estas declarações aparentemente contraditórias? — D. F., E. U. A.
Na página 201 se mostra que o sistema budista ensinava uma doutrina de purgatório muitos séculos antes de se organizar o sistema católico romano no quarto século E. C. Mas na página 267, e nas páginas precedentes, se mostra como as diversas doutrinas pagãs foram incorporadas na religião católica romana. No que se refere à doutrina católica romana, o Papa Gregório, o Grande, descobriu o purgatório (usando-se a própria expressão dele). Afirmou que fez isso por meio de aparições e visões. Foi o primeiro a introduzi-lo como doutrina “cristã”, incorporando-a nos ensinos da Igreja Católica Romana, que era e que é cristianismo apóstata. Portanto, o contexto impõe uma limitação ao alcance da declaração na página 267, que considera os papas e as suas inovações, ao passo que a declaração na página 201 é mais geral, não limitada pelo contexto, negando a afirmação do Papa Gregório. Consideradas no seu devido contexto, as declarações não são contraditórias.