Anuário das Testemunhas de Jeová
Zimbabwe (Continuação)
[Seriado com base no Yearbook de 1985.]
Começa Uma Obra de Purificação
Já mencionamos que, no começo da década de 50, tivemos um crescimento muito rápido. Contudo, isto não se deu sem problemas. Tornou-se evidente que grande número dos que estavam sendo batizados jamais se purificaram realmente dos costumes e das práticas errados. Por exemplo, muitos dos que se batizavam apenas freqüentavam as assembléias de circuito e ainda não haviam feito realmente uma dedicação a Jeová. Para alguns, era mera fase passageira, para outros nada mais do que a curiosidade por algo novo.
Além disso, muitos não tinham legalizado devidamente seu casamento. Como sabe, antes de os brancos virem para este país, os casamentos eram realizados segundo o costume africano, que incluía intermediários, dotes, e assim por diante. Tais práticas continuaram mesmo depois de o governo exigir registros de casamentos junto às autoridades civis. Para lidar com o problema, o governo decidiu dar validade a todos os casamentos tribais realizados antes de 1.º de janeiro de 1951. Mas, dessa data em diante, todos os casamentos tinham de ser legalmente registrados a fim de terem reconhecimento oficial. Costumes, naturalmente, são difíceis de desarraigar. Assim, muitos continuaram a apegar-se às suas práticas antigas.
A Sociedade, porém, não podia aceitar casamentos tribais celebrados depois de 1.0 de janeiro de 1951, quando tais não eram mais reconhecidos pelo Governo. (Romanos 13:1, 2; Lucas 2:1-5) Todo este assunto foi cuidadosamente examinado, e as congregações foram notificadas dos requisitos bíblicos. Todos os que se casaram a partir de janeiro de 1951, e cujos casamentos não foram legalizados, receberam seis meses para registrá-los. Se, no fim desse tempo, os casais não tivessem feito nada e não houvesse circunstâncias atenuantes, então o único recurso era desassociá-los.
Foi encorajador ver que um grande número dos nesta situação, devido a seu amor a Jeová, imediatamente adotaram medidas para endireitar seu casamento em base bíblica apropriada. Esta não era uma questão simples. Amiúde acarretava ir a países vizinhos, ou fazer com que parentes viessem desses países, antes de se conceder autorização às Testemunhas para prosseguirem com o registro de seu casamento.
Havia muitos, porém, que não queriam realmente harmonizar sua vida com a vontade de Jeová. Portanto, a parte inicial de 1955 presenciou centenas de desassociações dos que não queriam aceitar os padrões de justiça de Jeová. Tem sido muito encorajador observar que, depois de todos esses anos, alguns dos que foram desassociados durante aquele tempo legalizaram recentemente seu casamento, foram readmitidos e servem agora com felicidade a Jeová.
Retrocesso no Serviço de Pioneiro
Em 1949 o serviço de pioneiro começou a avançar. Naquele ano tínhamos 114. Apenas três anos depois, em 1952, havia uma média de 949 pioneiros, mais 6 pioneiros especiais. Isso era maravilhoso! À medida que o tempo passava, porém, tornou-se óbvio que um número muito grande desses pioneiros não enviavam relatórios exatos. Muitos deles, em vez de relatarem o tempo real gasto no serviço de campo, relatavam a quota de 100 horas. Por que isso? Porque muitos deles não sabiam sequer ler ou escrever, e, assim, não podiam manter um registro adequado de seu serviço de campo.
Em 1955, este assunto foi considerado com a sede da Sociedade, e a filial foi avisada de que somente os que sabiam ler e escrever deviam ficar na lista dos pioneiros. Assim, o nosso número de pioneiros abaixou. Naturalmente, isso foi feito gradualmente à medida que os superintendentes de circuito visitavam as congregações onde tais pioneiros serviam. Sentimo-nos felizes de dizer que mesmo na década de 70 alguns desses reingressaram nas fileiras dos pioneiros em resultado das aulas de leitura e escrita nas congregações.
A Batalha Pelo Reconhecimento
Parece apropriado aqui trazer de novo à atenção o assunto de melhor supervisão de nossas congregações nas Terras Comunitárias. Até esta época, os superintendentes de distrito, que eram europeus, ainda não tinham permissão para entrar nessas áreas do país. Isso significava que virtualmente metade do país estava fora dos limites deles. Embora pudessem servir os superintendentes de circuito e assistir às assembléias de circuito, isso tinha de ser feito fora dessas áreas. Isso estorvou grandemente os esforços da Sociedade de fortalecer as congregações nas Terras Comunitárias.
Que havia de ser feito? O problema básico era que não éramos uma religião reconhecida. Portanto, a questão era: “Como obteríamos o reconhecimento?”
Lester Davey, que veio da Escola de Gileade em 1954, e que servia então como superintendente da filial, achou que obter o direito de realizar casamentos seria um grande passo para o reconhecimento. Desde 1949, fez-se uma petição em prol do direito de ter Testemunhas oficiadoras de casamentos, mas isso foi coerentemente rejeitado.
Um dos grandes obstáculos a se ter Testemunhas oficiantes de casamentos era que todas as Testemunhas de Jeová são ministros. O argumento oficial era que, visto que a Lei do Casamento Cristão prescrevia que qualquer ministro duma religião reconhecida podia realizar casamentos, qualquer Testemunha de Jeová seria capaz de fazê-lo. Foi assegurado, porém, que apenas os que serviam como representantes especiais da Sociedade, os que tinham certificados de ordenação especial, seriam usados para tal finalidade.
Por fim, o êxito! Em maio de 1956, sete formados de Gileade e irmãos de Betel foram nomeados como oficiantes de casamentos. Um grande passo para o pleno reconhecimento!
Vitórias Adicionais
Por volta dessa época, em junho de 1956, pudemos dar boas-vindas a um casal americano, Bud e Joan Miller. Depois de cursar Gileade, o irmão Miller foi enviado para ser o superintendente da filial. Sob sua direção, prosseguiu a batalha em prol do direito de os superintendentes viajantes europeus entrarem nas reservas. Foi nessa época que a decisão de permitir que as Testemunhas tivessem oficiantes de casamentos mostrou-se providencial. Correspondência contínua foi mantida com a repartição da Secretaria de Assuntos Nativos. O seguinte são algumas citações de cartas dessa repartição:
27 de setembro de 1956: “Ref.: Entrada de Supervisores Europeus em Reservas Nativas. O assunto está sob consideração.”
8 de dezembro de 1956: “Apenas os supervisores europeus da Sociedade que são registrados como oficiantes de casamentos pelo Departamento de Justiça e de Assuntos Internos serão permitidos entrar nas reservas nativas e áreas nativas.”
14 de janeiro de 1957: “Agora despacho licenças para os senhores mencionados, para entrar nas reservas nativas e áreas nativas.”
Finalmente os superintendentes de distrito podiam visitar as congregações com os superintendentes de circuito numa vasta área, que, até aquele tempo, lhes era vedada. Na verdade, Jeová dirigia os assuntos a fim de que sua vontade pudesse ser feita em todas as partes do pais.
Razões Para os Decréscimos
Além do que já mencionamos, havia outras razões pelas quais, por um período de tempo, nossa taxa de crescimento diminuiu grandemente. A fim de assegurar que apenas os realmente habilitados fossem batizados, exigiu-se que todos os candidatos ao batismo passassem por um curso, não diferente do que atualmente é esboçado em Organizados Para Efetuar o Nosso Ministério. Quando se fez isso, cada candidato era aprovado pelo superintendente de congregação. Mas, isso não era tudo. Os candidatos eram adicionalmente entrevistados pelo superintendente de distrito nas assembléias de circuito e pelos representantes especiais da Sociedade nas assembléias de distrito.
Bem, pode imaginar quais devem ter sido os resultados disso! Sim, um decréscimo no número dos batizados. Por exemplo, em 1957, compareceram à assembléia 16.000, mas somente 100 foram batizados — um declínio real do número anterior. O resultado final disso, porém, foram congregações espiritualmente fortes — congregações compostas dos que realmente se revestiam da nova personalidade mediante o conhecimento exato. — Colossenses 3:10.
Outro motivo para a diminuição da taxa de crescimento dos publicadores foi a questão de relatórios incorretos. Este assunto já fora tratado no que tangia aos pioneiros, mas muitos publicadores relatavam incorretamente.
O efeito de tais acontecimentos pode ser visto nos cinco anos de 1957 a 1962. Durante aquele período 3.600 novos foram batizados, mas sem nenhum aumento em publicadores. Com efeito, de 1962 a 1967 continuamos a decrescer. Foi só em 1968 que o número de publicadores começou a subir novamente.
Pleno Reconhecimento Ainda à Frente
Estranho como possa parecer, um setor do governo podia conceder reconhecimento ao povo de Jeová sem que outros necessariamente o fizessem. Assim, ao passo que o Departamento de Justiça e de Assuntos Internos, bem como o Departamento de Assuntos Nativos, finalmente concederam reconhecimento às Testemunhas, o Departamento de Educação ainda se recusava. Isto apresentava complicações. Em que sentido?
A maior parte da instrução escolar longe dos grandes centros naquele tempo estava sob o controle de organizações religiosas. Os regulamentos governamentais determinavam que os alunos fossem matriculados nas escolas sem discriminação, e que as crianças não recebessem instrução religiosa contrária aos desejos dos pais.
Algumas organizações religiosas seguiam os regulamentos governamentais nesta questão, mas outras não. Estas últimas estavam determinadas a não deixar os filhos das Testemunhas de Jeová receberem instrução em suas escolas, a menos que também freqüentassem a escola dominical e outras aulas religiosas fora do currículo escolar.
Don Morrison, que, juntamente com sua esposa, Marj, chegou da Escola de Gileade em 1955, e que fazia o serviço de distrito, diz: “Algumas religiões declaravam abertamente que expulsariam qualquer Testemunha de Jeová que não obedecesse e também a impediriam de rematricular-se no ano seguinte.” Quando o assunto chegava perante o Departamento de Educação, porém, as escolas alegavam falta de instalações. Só podiam admitir tantos estudantes, mas sempre se certificavam de que os filhos das Testemunhas de Jeová não estivessem entre eles. Outras relatavam ao Departamento que a razão de expulsarem as crianças era a “desobediência”. Esta “desobediência” era sua recusa de assistir à escola dominical, que o Departamento de Educação não exigia que fizessem.
Portanto, com esta questão, bem como outras, o reconhecimento como religião tornou-se imperativo.
Desde 1950, o Departamento de Educação notificou todas as escolas para que não admitissem Testemunhas de Jeová adultas nas escolas com o objetivo de dar instrução religiosa, nem mesmo para instruir os filhos de Testemunhas. Em 1956 veio a mesma resposta: “Lamento muito ter de avisar-lhes que o Ministro não está preparado para reconhecer a Watch Tower Bible and Tract Society of Pennsylvania como denominação religiosa para fins de dar instrução religiosa a alunos nas escolas.” Obteve-se resposta similar em 1957.
Não foi senão anos mais tarde que o Departamento de Educação finalmente mudou sua posição neste assunto. Falaremos mais sobre isso depois.
[Continua na próxima edição.]