Anuário das Testemunhas de Jeová
Zimbabwe (continuação)
[Seriado à base do Yearbook de 1985.]
Começa a Surgir Oposição Política
Com toda esta publicidade sobre questões tais como o fumo e a neutralidade cristã, pode bem imaginar que as Testemunhas eram notícia. Sem dúvida instigados por gente irada, aborrecida com a posição neutra das Testemunhas, alguns Membros do Parlamento começaram a incitar o governo a agir para reprimir a obra de pregação.
Além de serem alvos de crítica e de ataques através dos veículos noticiosos, as Testemunhas também tornaram-se tema popular nos debates parlamentares. Isso ocorreu de modo especial em 4 de dezembro de 1973, quando o Parlamento debateu emendas à Lei de Segurança Nacional e à Lei Sobre a Cidadania. O que segue são alguns excertos desses debates:
“As crenças desta seita [Testemunhas de Jeová] são a própria antítese das igrejas bem-conceituadas e estabelecidas.” — Ministro da Defesa.
“Em resumo, tenciona-se . . . estipular que a Testemunha de Jeová sentenciada a seis meses de prisão, ou mais, sem a opção duma multa, por uma ofensa que envolva a recusa de obedecer ordens, à base de consciência religiosa, possa ter a cidadania cassada, e, em se tratando de um não-cidadão, possa ser deportado.” — Ministro da Defesa.
“Por via de regra, estas convicções [dos objetores de consciência em geral] estão relacionadas com a questão de se tirar a vida humana e podem ser contornadas por se designar serviços não-combatentes. . . . A exceção . . . é o culto ou seita conhecida como Testemunhas de Jeová, que julgo ser uma organização perniciosa, sem qualquer base e sem nenhuma justificativa para a sua atitude referente ao serviço militar.” — Membro do Parlamento.
“O que estamos procurando assegurar é que as Testemunhas de Jeová não exerçam impacto e influência sobre os jovens obrigados a prestar o serviço militar e que o estão prestando.” — Ministro da Defesa.
Parece que a posição corajosa dos irmãos estava tendo impacto, em vários sentidos.
Avoluma-se a Tensão
Perto do fim de 1974 podia-se perceber o aumento da tensão. Isto foi indicado numa carta desta filial à sede da Sociedade, datada de 8 de outubro de 1974. Em parte, referia-se a um rumor duma “sindicância em plena escala” sobre nossa organização, e que então dizia: “Até esta data não ouvimos nada mais, nem fomos contatados pelas autoridades. Ouviram-se rumores de que será tomada alguma medida até dezembro, mas não pudemos confirmar nada disso.
“Em todo o país, grande parte das massas está mui definitivamente ‘de prontidão’ contra nossas atividades, em especial para com o nosso ministério de casa em casa.”
Começaram a surgir em toda a parte letreiros que diziam “Não recebemos Testemunhas de Jeová”. Com efeito, uma pessoa empreendedora começou a vendê-los de casa em casa. Por um tempo fez um bom negócio.
Medida Tencionada
No começo de fevereiro de 1975, a filial obteve a ata duma reunião muito significativa. Foi a reunião da Executiva Nacional da Frente Rodesiana, o partido político governante daquela época. Grande parte dessa reunião, realizada em 31 de janeiro de 1975, foi sobre as Testemunhas de Jeová. Vários pontos foram apresentados quanto a por que eles achavam que se devia tomar alguma medida contra as Testemunhas de Jeová.
Bem, pode imaginar como nos sentíamos por volta daquela época! O que iria acontecer? Seriam as Testemunhas de Jeová proscritas? Seriam os missionários deportados? Simplesmente não sabíamos o que aguardar.
Embora os que apresentaram tais sugestões ao governo fossem filiados ao partido governante, de fato alguns deles Membros do Parlamento, parece que o próprio governo adotou um conceito mais racional, pois nem naquela época nem em alguma ocasião posterior adotou-se qualquer medida oficial contra a obra de pregação ou a organização. Somos minutíssimos gratos a Jeová por isso.
Neutralidade em Áreas “Quentes”
Não foi só a questão militar que exigia dos irmãos adotarem firme posição quanto a se manterem separados do mundo, mas surgiram também outras situações. (João 15:19) Por exemplo, o irmão Will Vosloo tinha uma fazenda que veio a estar numa área verdadeiramente “quente” durante a guerra. Situava-se a 70 quilômetros da congregação onde ele servia como ancião. Um pouco mais adiante havia uma fortaleza dos “defensores da liberdade”. Foram muitos os conflitos entre estes e as forças de segurança do governo.
Certo dia, pouco depois de seu batismo, o irmão Vosloo e sua esposa, Gisela, estavam sentados na casa, lendo o Salmo 112:7, na Bíblia, que diz: “Não terá medo, nem mesmo de más notícias. Seu coração é firme, feito confiante em Jeová.” Em menos de uma hora surgiu um membro da polícia, avisando às pessoas que os “terroristas” estavam na área. Ele insistiu que o fazendeiro se armasse para proteger-se. O irmão Vosloo se recusou a fazê-lo.
Ele explica: “Daquele tempo em diante, exerceu-se cada vez mais pressão sobre mim para que eu participasse na proteção de nossa comunidade. Meus vizinhos não podiam entender a minha atitude — para eles eu era covarde. No serviço de campo, certo dia um senhor me disse: ‘O senhor será o primeiro a correr quando as coisas ficarem realmente quentes.’ Ele estava enganado. Atualmente, ainda estou na fazenda, mas todos eles se foram.”
Neutralidade — Uma Proteção
Embora importunados pelos fazendeiros da vizinhança, o irmão Vosloo e sua família obtiveram conforto duma fonte inesperada. Certo dia um superintendente de circuito veio visitá-lo e disse: “Sou seu irmão, lá do outro lado do rio Umfuli. Não deve preocupar-se. As pessoas naquela área estão plenamente cientes de sua posição neutra. Estará a salvo.” Estas palavras mostraram-se verazes.
Poucos dias depois, quando os tratoristas do irmão Vosloo trabalhavam no campo, foram repentinamente abordados por um bando de guerrilheiros. Disseram: “Nós conhecemos aquele homem. Não queremos queimar seus tratores.” Efetivamente, embora os vizinhos tivessem seus tratores queimados, e suas instalações hidráulicas fossem destruídas, o equipamento do irmão Vosloo permaneceu intacto. Mais tarde, quando ele e sua família estavam ausentes dali, em férias, diversas casas de fazenda naquela área foram destruídas, mas a casa dos Vosloos permaneceu intacta. Tudo isso por causa de sua conhecida posição de neutralidade nos assuntos políticos.
Isso prosseguiu por um bom número de anos, de fato, até o fim da guerra. Até mesmo delegações representando a comunidade visitavam os Vosloos e procuravam pressioná-los e “envergonhá-los”, visando que eles se armassem para sua própria proteção, assim como a de outros. Todos os demais naquela área viajavam fortemente armados. Mas o irmão Vosloo cita Gisela como dizendo firmemente: “Nada de revólver ou rifle.”
As coisas começaram a ficar cada vez piores: As lojas rurais locais eram incendiadas. As estradas foram minadas. Um toque de recolher tornou extremamente difícil que os filhos deles freqüentassem a escola. De modo que, por fim, o irmão Vosloo decidiu alugar uma casa na cidade, na qual sua família pudesse morar enquanto ele continuava a operar a fazenda. Mas nisso tudo, ele acha que sua verdadeira proteção adveio de sua posição neutra e de sua total confiança em Jeová, como está escrito: “Quando te deitares, não sentirás pavor; e hás de deitar-te e teu sono terá de ser prazenteiro. Não precisarás ter medo de uma repentina coisa pavorosa, . . . porque o próprio Jeová, de fato, mostrará ser tua confiança e ele certamente guardará teu pé da captura.” — Provérbios 3:24-26.
Um Paradoxo
É realmente uma coisa estranha: A própria posição que fazia com que nossos jovens irmãos brancos fossem presos dava aos nossos irmãos africanos uma liberdade que amiúde não era usufruída por outras organizações, religiosas ou não.
À medida que o tempo passou, o aumento das atividades de guerrilha em algumas áreas resultou na intensificação de medidas de segurança. Reuniões foram proibidas; escolas e lojas foram fechadas. Os irmãos tiveram de ser especialmente cautelosos no seu ministério de campo e na forma como se reuniam para adoração cristã.
Programou-se uma assembléia de circuito para uma dessas áreas, em fevereiro de 1973. Seria permitido realizá-la? Com plena fé na orientação de Jeová, os irmãos locais se dirigiram ao chefe tribal a fim de obter uma carta para o comissário distrital. Embora ele não fornecesse a carta naquela ocasião, permitiu que os irmãos começassem os preparativos.
Quando o superintendente de distrito, Isaac Chiadzwa, mais tarde chegou à área, foi ao gabinete do comissário distrital para comunicar sua presença e obter autorização para entrar naquela área, para a assembléia de circuito. “Quando pedi autorização para entrar na área de Dotito”, contou ele, “todos no gabinete do comissário distrital deram risadas e pensaram que eu era doido. Quão surpresos ficaram quando, mais tarde, ouviram uma das autoridades dizer: ‘Conhecemos os senhores. Sabemos qual é sua posição a respeito das presentes condições.’”
Realmente! Foi concedida a autorização para a assembléia! A única restrição era que não devíamos realizar nenhuma sessão à noite. Até mesmo o chefe ficou surpreso e impressionado!
O irmão Chiadzwa disse que encontrou muitas barricadas naquela época, no serviço de distrito. Ele relata: “Sempre me deixaram passar porque eu era Testemunha de Jeová. Numa barricada mandou-se que todos descarregassem seus veículos para inspeção. Assim que saltei do furgão, um policial viu minha pasta. Depois de abri-la, perguntou-me quem eu era e o que fazia. Quando lhe disse que era Testemunha de Jeová, ordenou-me que não descarregasse meu furgão, que, incidentalmente, estava cheio de publicações e de todo o nosso equipamento. Quando outro policial ouviu isso, queria saber por que o furgão não devia ser descarregado. Pude ouvir o primeiro dizer: ‘Ele é Testemunha de Jeová. Não temos problemas com esta gente.’”
O superintendente de distrito disse que todos os irmãos naquela área portavam publicações da Sociedade, até mesmo quando trabalhavam nos campos. Muitas vezes isso os poupou de surras e outros maus-tratos. Deveras, é estranho como o mesmo grupo de pessoas que, numa situação, podia ser anátema para as autoridades, noutra situação podia ser tão altamente favorecido!
Temos mais a contar-lhe sobre isso depois, mas agora voltemos a Malaui.
Perseguição em Malaui
Quando mencionamos pela última vez os irmãos em Malaui, eles tinham fugido de seu país de origem para Milange, em Moçambique, a leste de Malaui. Por volta de 1970, muitos deles começaram a infiltrar-se novamente em sua terra natal, onde procuraram recomeçar no ponto em que haviam parado. Mas esta situação não durou muito.
Em 1972, outra onda de cruel perseguição atingiu nossos irmãos. O jornal San Francisco Examiner classificou-a de “guerra religiosa” e declarou: “É uma guerra bem unilateral, medindo-se a força com a fé.” Seguiu bem de perto os moldes da onda de perseguição em 1967, só que desta vez foi muito mais intensa.
A Liga Jovem e o movimento de Jovens Pioneiros assumiram a liderança nesta “guerra”. “Organizaram-se em grupos, indo de uma dúzia, mais ou menos, até cem pessoas. Daí, foram de povoado em povoado, armados de porretes, clavas, pangas e machadinhas, procurando e atacando as testemunhas de Jeová e suas propriedades.” — Despertai! de 8 de abril de 1973.
Houve estupros de nossas irmãs e cruéis espancamentos com tábuas fincadas de pregos. Amarraram capim seco num irmão, e então atearam fogo. Ele foi literalmente queimado vivo.
O irmão Michael Yadanga e sua família foram soltos no meio duma reserva de caça com animais selvagens ao redor. Tiveram de caminhar vários quilômetros para apanhar um ônibus. Quando retornaram à sua localidade, fizeram-se novas tentativas, com ameaças, de persuadi-los a comprar uma carteira de filiação ao partido político. A resposta do irmão Yadanga para eles foi: “Perdi meus dentes por não querer comprar uma carteira. Perdi meu emprego por não querer comprar uma carteira. Fui severamente espancado, minha propriedade foi destruída e fui obrigado a fugir para Zâmbia — tudo isto por eu não querer comprar uma carteira. Não vou comprar uma agora.” Mais tarde, avisado por um membro amistoso da Liga Jovem de que eles vinham pegá-lo, este irmão e sua família fugiram para Moçambique.
Além dos espancamentos e de outras crueldades físicas houve o fechamento de negócios, o congelamento das contas bancárias, o confiscamento de propriedades, a destruição ou o roubo de colheitas, e a demissão sumária de Testemunhas de seus empregos. O que fizeram? Fizeram a única coisa que podiam — evadiram-se do país.
Desta vez a maioria deles fugiu para Zâmbia. Mais de 19.000 deles estabeleceram um campo de refugiados em Sinda Misale.
Ajuda da Parte da Fraternidade Mundial
Não demorou muito para começar a chegar ajuda a estes irmãos. Ela veio de todas as partes da Terra, na forma de dinheiro, roupas, alimentos e outros itens. Os irmãos em Zâmbia forneceram rapidamente milhares de quilos de gêneros alimentícios, cobertores e roupas de cama, implementos agrícolas e outras coisas. Caminhões carregados de lonas, cobertores, revestimentos de plástico, pás, enxadas e outros itens vieram da África do Sul, nossos irmãos dirigindo 2.400 quilômetros até Sinda Misale para entregar estes itens. Embora passassem por muitas dificuldades, entregaram os itens sob a orientação amorosa de Jeová. Ao todo, foram fornecidas muitíssimas toneladas de alimento, roupa, remédios e outros itens para os irmãos em Sinda Misale.
[Continua na próxima edição.]