Anuário das Testemunhas de Jeová
Zimbabwe (Continuação)
[Seriado com base no Yearbook de 1985.]
Apostasia nos Campos
Quando os irmãos finalmente se acomodaram nos acampamentos a leste de Malaui, em Milange, Moçambique, ficaram muito bem situados. Contudo, com o tempo surgiram outros problemas.
Em 1976, alguns repentinamente começaram a proclamar-se dos ungidos e a realizar reuniões especiais, separadas das que eram feitas pelas congregações. Advogavam ensinos antibíblicos. Segundo eles, eram dos ungidos, e desde 1975 Jeová não mais lidava com as congregações através dos anciãos, e sim por intermédio desses indivíduos.
Um dos cabeças do grupo foi achado nu pela polícia próximo do monte Mlanje, na fronteira de Moçambique, e foi escoltado de novo para a área dos campos de refugiados, na parte leste de Moçambique. Ele disse a seus seguidores que, igual a Moisés, estava obedecendo à chamada de Jeová para subir ao monte e receber instruções. É lamentável dizer, esses falsos instrutores, que professavam ser dos ungidos, granjearam vários adeptos, e a apostasia não foi contida até mais de 500 terem sido desassociados. Um bom número dos que foram desencaminhados por fim perceberam seu erro, retornaram com atitude arrependida e foram readmitidos na congregação.
Estamos muito contentes de que dois irmãos de Moçambique, responsáveis pela obra naquele país, puderam comparecer ao curso de Gileade, de cinco semanas, para membros de Comissão de Filial. Isto foi de grande ajuda no sentido de fornecer boa supervisão teocrática à obra naquele país.
A Guerra Aumenta os Problemas
Agora voltemos a Zimbabwe. Ao passo que a guerra aumentou em intensidade, o mesmo se deu com os problemas que nossos irmãos tinham de enfrentar. A vida tornou-se bastante agitada. Em muitas áreas, uma vida normal estava fora de cogitação. Para muitos, não se sabia o que aguardar no dia seguinte. Tente colocar-se no lugar da família deste irmão que escreveu à Sociedade:
“Escrevo-lhes para dizer o que aconteceu à minha família — minha esposa e cinco filhos. Eles escaparam da morte por um triz enquanto trabalhavam no meu campo de milho. Soldados em ambos os lados começaram a atirar uns nos outros através do campo. Minha família atirou-se ao chão, à medida que as balas passavam por cima deles. Obuses explodiram bem a cerca de 10 metros deles. Foram apanhados no meio do fogo cruzado, e ainda assim escaparam ilesos. Creio que isto se deu pela proteção de Jeová. As árvores ao redor de minha casa foram severamente danificadas, visto que foram atingidas com bazucas, mas minha casa não foi danificada.”
Este irmão também nos fala acerca dum tipo diferente de problema que surgiu:
“À noite vieram soldados à nossa casa. Fizeram-me diversas perguntas, e eu lhes disse que era Testemunha de Jeová. Queriam levar minhas filhas para passar a noite. De sua própria iniciativa, minhas filhas recusaram e disseram que não iriam. Os homens ameaçaram matá-las, mas ainda assim as moças resistiram. Tinham em mente as palavras de Jesus em Mateus 10:28 e Revelação 2:10, que havíamos considerado anteriormente em nosso estudo familiar. Por fim, tais homens decidiram deixá-las em paz.
“As moças do mundo que consentiram em ir com os soldados sofreram abusos sexuais. Somos muito gratos a Jeová pela forma que Ele continua a cuidar de nós nestes tempos perigosos.”
É lamentável dizer que nem todas as nossas jovens irmãs escaparam tão facilmente. Michael Chikara, superintendente viajante, conta-nos o que uma jovem irmã teve de enfrentar. Primeiro, acertaram-lhe o queixo. Daí, “enquanto ela se recobrava deste ferimento, um grupo de homens agarraram-na à força e a violentaram, resultando em ela ter agora um filho”.
O irmão Chikara também fala-nos duma experiência que lhe foi contada por uma irmã de 17 anos. Eis a triste história dela: “Fui levada à força por soldados e espancada em quatro ocasiões, duas vezes por soldados de um lado e duas vezes pelos do outro lado.
“Da primeira vez que apanhei, eu estava incerta se até mesmo continuaria viva. Quando me recobrava deste espancamento, vieram soldados do outro lado para a área, reunindo todas as moças e forçando-as a assistir às suas reuniões.
“Nesta ocasião, um homem exigiu que eu estendesse um cobertor no chão para ele e insistiu que dormisse com ele. Fugi, chorando, sendo seguida por este homem. Um outro juntou-se a ele para tentarem obrigar-me a cometer um ato imoral. Fui golpeada com a coronha dum revólver, mas, ao cair, gritei tão alto que finalmente me deixaram livre. Então misturei-me a uma multidão de pessoas que estavam presentes e fui mais tarde ajudada a chegar a casa na escuridão, sem que os que me tentaram agarrar se apercebessem.
“Alguns meses depois, outro bando de soldados veio à nossa área e levaram-me, junto com mais nove moças, afirmando que havíamos servido de namoradinhas para os do lado oposto. Naturalmente, no meu caso, isto não era verdade. Todas nós fomos espancadas, a ponto de não nos podermos mover por semanas. Ao todo, fui espancada quatro vezes.”
Esta excelente irmã jovem continua a permanecer espiritualmente forte, embora seja a única em sua família que está na verdade.
Raptos — Uma Prática Comum
Tornou-se uma prática bastante comum, em certas áreas, o rapto de jovens no início da adolescência. Bandos de soldados dirigiam-se a pequenos povoados e exigiam que todos viessem a público. Então, enquanto os adultos eram forçados a entoar canções, os soldados escolhiam rapazinhos e mocinhas em sua meia-adolescência. A prática era levar os rapazinhos para treinamento quais soldados e as mocinhas para servir de cozinheiras e para fins imorais. Alguns pais jamais viram seus filhos de novo.
Às vezes, até mesmo nossos irmãos tiveram de sofrer esta terrível dor. Um irmão pioneiro escreveu à Sociedade o seguinte: “Minha filha e mais cinco jovens foram raptados. Todos os seis eram Testemunhas dedicadas e batizadas.” Alguns de nossos irmãos cristãos tiveram a triste experiência de ver seus filhos retornarem, não como Testemunhas, mas como soldados treinados nas artes marciais. Mas, tais casos eram bastante raros.
Pequena Testemunha Corajosa
Um caso emocionante foi o de Catherina, Mbona, uma irmã de 14 anos, dos Distritos Orientais, que foi raptada. Seus pais (seu pai, Michael, é pioneiro há muitos anos) perguntaram-se se algum dia a veriam de novo. Imagine a alegria e o alívio deles quando, alguns dias depois, ela foi devolvida ao seu povoado, sã e salva.
“O que lhe fizeram?”, perguntaram a Catherine. “Nada”, respondeu ela.
“O que você fez, então, durante todo o tempo que esteve fora?”
“Eu falei a eles sobre Jeová. Estava dando testemunho.”
Alguns dias depois, o líder do grupo de soldados foi ao povoado e procurou os pais da mocinha. Os pais ficaram um tanto apreensivos quanto ao motivo desta visita. Contudo, este homem fizera uma viagem especial ao povoado para elogiar os pais sobre quão bem tinham educado a filha.
[Continua na próxima edição.!