Anuário das Testemunhas de Jeová
Zimbabwe (continuação)
[Seriado com base no Yearbook de 1985.]
Viagem Excitante
Foi com estas perguntas em mente que John McBrine e Jim Mundell, um missionário que, juntamente com a esposa Kathy, acabara de ser deportado de Zâmbia e estava temporariamente em Zimbabwe, partiram em 22 de fevereiro de 1968, de Salisbury, com um furgão Volkswagen carregado de roupas e cobertores doados. Antes de partirem, fizeram todo o possível para obter liberação da alfândega para seu carregamento através dos vários postos de fronteira. Isto porém, não foi possível devido aos regulamentos e às restrições. Portanto, restava apenas confiar inteiramente na orientação e direção de Jeová. Cada posto de fronteira era motivo de preocupação, mas passou-se por todos sem dificuldade. Era como se os anjos estivessem presentes durante todo o caminho.
A viagem não foi fácil. Eram 640 quilômetros de Salisbury até a fronteira de Moçambique, no lado oriental de Malaui. A maior parte da estrada era extremamente acidentada, e era ainda mais pelos restantes 160 quilômetros até Mocuba.
Alguns Desapontamentos
Naturalmente, uma das primeiras coisas que John McBrine e Jim Mundell queriam fazer era visitar os irmãos nos dois campos em que se encontravam. Portanto, a primeira coisa que fizeram na manhã de 24 de fevereiro foi contatar o administrador dos campos para tratar disso. Quão desapontados ficaram quando o administrador disse que isso não seria possível! Por quê? Porque as Testemunhas de Jeová não eram reconhecidas pelo seu governo.
O administrador era homem bondoso, porém, e sugeriu que esperassem até que ele levasse o assunto à sede do governo. Esperaram — por três dias. Finalmente veio a resposta: ‘Não havia Testemunhas de Jeová em Moçambique, apenas refugiados a quem o governo ajudara por razões humanitárias. Se confiassem no administrador dos campos, poderiam deixar as roupas com ele; se não, poderiam levá-las de volta.’ Desapontamento! Viajaram todo aquele caminho e nem sequer puderam ver os leais irmãos que suportaram tanto! Infelizmente, não havia nada que pudessem fazer.
Agora tinham de decidir o que fazer com as roupas e os cobertores. Que poderiam fazer senão confiar no administrador? Foi o que fizeram.
Naturalmente, as roupas e os cobertores transportados no furgão nem de longe eram suficientes para as necessidades dos irmãos de Malaui. Mas, os dois irmãos tinham também fundos contribuídos para outras necessidades desses irmãos. Entrou-se num acordo, assinado pelos dois irmãos, o administrador do governo e um comerciante indiano. Os fundos contribuídos foram entregues ao administrador, e fez-se um pedido, igual a este valor, ao comerciante. Ele deveria fornecer vestidos, calças e mais cobertores. O administrador lhe pagaria então com o dinheiro e entregaria os artigos nos campos onde estavam os irmãos.
Final Feliz
O prosseguimento desse relato mostra o resultado da viagem. A caminho de casa, enquanto ainda em Moçambique, os dois irmãos viram alguns homens africanos junto à estrada com grandes fardos de cobertores dobrados em suas bicicletas. Sim, eram irmãos! E tinham recebido tais coisas do administrador. Naturalmente, nossos dois viajantes ficaram felizes de saber que o administrador apegava-se à sua palavra e agia rapidamente. Mas, a maior felicidade foi saber que eles haviam contatado pelo menos algumas Testemunhas dos campos. Como seria de esperar, isto mostrou-se de grande intercâmbio de encorajamento, para os viajantes bem como para os irmãos dos campos.
Dali para a frente, os dois países, Malaui e Moçambique, passaram a estar sob a supervisão da filial de Zimbabwe. Malaui permaneceu sob a supervisão de nossa filial por diversos anos, e Moçambique continua a ser de nossa responsabilidade.
Feitiçaria — Outra Questão a Enfrentar
Foi por volta desta época que muitos irmãos em Zimbabwe tiveram que enfrentar outro problema. A feitiçaria já é praticada aqui há séculos. Mas, foi por volta do ano de 1969 que ela deu uma guinada que lhe granjeou notoriedade. A fim de ajudá-lo a entender o problema que isso representou para nossos irmãos, parece próprio fornecer-lhe um pouco do fundo histórico do assunto.
Embora quase todos os africanos em Zimbabwe sejam cristãos nominais, com pequena porcentagem de muçulmanos, ainda assim a superstição e a feitiçaria estão amplamente difundidas. Há curandeiros com ossos, peles de animais, penachos e encantamentos.
A feitiçaria acha-se dividida em duas classes: o muroyi, que é um feiticeiro ou praticante de magia negra, e o n’anga, que é um adivinho ou curandeiro. O muroyi é o matador. Ele lança feitiços sobre as pessoas e alegadamente é o responsável por mortes prematuras e estranhas. Ele está proscrito e, se achado praticando suas funções, pode ser preso e processado.
O n’anga, por outro lado, não necessariamente é um matador. Ele é um curandeiro, embora os n’angas sejam às vezes usados para lançar feitiços de morte sobre outros. Alega-se que é capaz de quebrar o feitiço dos muroyis. O n’anga pode ser legalmente registrado junto ao governo.
No ano de 1969, o n’anga veio a sobressair como alguém que podia deslindar os praticantes de feitiçaria. Isto se deu não só em terras comunitárias (anteriores reservas), mas também em fazendas e minas onde amiúde centenas de trabalhadores viviam com suas famílias. Onde quer que houvesse um relato de feitiçaria, a comunidade chamava o n’anga. Daí, todos na comunidade eram convocados a comparecer perante ele.
Após realizar encantamentos, o n’anga, auxiliado por seus cantores, invocava os espíritos para obter informação acerca de quem estava praticando a feitiçaria. Se o réu fosse “identificado”, o chefe então o levava ao tribunal, onde ele seria julgado pela Lei Contra a Feitiçaria. Naturalmente, ainda precisava-se provar a sua culpa segundo os tramites normais da lei.
Nossos Irmãos São Provados
Mas, por que isso representava uma questão para os nossos irmãos? Embora o n’anga seja considerado curador e homem bom, ainda está envolvido com o espiritismo. E é aí que surgiu o problema para os irmãos. Naturalmente, quando a comunidade era chamada perante o n’anga, os irmãos se recusavam a ir. Portanto o chefe, ou o administrador da mina ou da fazenda, qualquer que fosse o caso, os forçava a apresentar-se.
A grande maioria permaneceu firme, mas é triste dizer, houve alguns que transigiram sob tais circunstâncias. Mais tarde alguns desses arrependeram-se genuinamente e agora servem novamente a Jeová com felicidade.
A atitude geral dos irmãos foi bem exemplificada na experiência de Paul Ndlovu, que na ocasião servia como pioneiro especial. Ele tinha 67 anos e era aleijado por causa dum derrame. Ao ser forçado a comparecer perante o chefe, foi-lhe dito: “É melhor se ajoelhar [em reconhecimento do n’anga] assim como todos os demais estão fazendo.” Sua resposta foi clara: “Não me ajoelharei ante homem algum porque isto é adoração falsa. Vocês sabem muito bem que sou ministro das Testemunhas de Jeová, e não posso obedecer a ordem de vocês neste respeito.”
A firme posição deste irmão fez com que o chefe ficasse bastante furioso. Ele chamou quatro policiais para porem algemas nele e forçá-lo a entrar na sala com o n’anga. Conforme diz o irmão Ndlovu: “Empurraram-me então para dentro da sala onde encontrei alguns cantores aguardando saudar-me com os seus cantos cerimoniais, como é o costume.” E o que ele lhes disse? “Não participo em demonismo, e jamais. me ajoelharei perante vocês porque sou Testemunha de Jeová.”
A firme posição do irmão foi recompensada por aceitar o n’anga um exemplar do livro Verdade e contribuir por ele!
[Continua na próxima edição.]