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Quando a Jerusalém antiga foi destruída? — Parte umA Sentinela — 2011 | 1.° de outubro
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Historiadores clássicos — até que ponto são confiáveis?
Os historiadores que viveram próximo da época em que Jerusalém foi destruída dão informações contraditórias sobre os reis neobabilônios.c (Veja o quadro “Reis neobabilônios”.) A linha do tempo baseada em suas informações cronológicas não bate com a da Bíblia. Mas até que ponto seus escritos são confiáveis?
Um dos historiadores que viveram mais próximo do período neobabilônico foi Beroso, um sacerdote babilônio do deus Bel. Sua obra original, Babyloniaca, escrita por volta de 281 AEC, foi perdida, e só foram preservados fragmentos em obras de outros historiadores. Beroso alegava ter usado “livros que haviam sido preservados com muito cuidado em Babilônia”.1 Será que Beroso era realmente um historiador confiável? Veja um exemplo.
Beroso escreveu que o rei assírio Senaqueribe sucedeu “seu irmão no reinado”; “depois dele seu filho [Esar-Hadom reinou por] 8 anos; e então Samuges [Samas-Sum-Iuquin] 21 anos”. (III, 2.1, 4) No entanto, documentos históricos babilônicos escritos bem antes da época de Beroso dizem que Senaqueribe sucedeu seu pai, Sargão II, não seu irmão; que Esar-Hadom reinou por 12 anos, não 8; e que Samas-Sum-Iuquin reinou por 20 anos, não 21. O erudito R. J. van der Spek, embora reconheça que Beroso consultou as crônicas babilônicas, escreveu: “Isso não o impediu de fazer seus próprios acréscimos e interpretações.”2
Qual é a opinião de outros eruditos sobre Beroso? “No passado, Beroso era considerado historiador”, diz S. M. Burstein, que fez um estudo abrangente das obras de Beroso. Mas ele conclui: “Considerado como tal, seu desempenho deve ser declarado inadequado. Mesmo levando em conta seu estado atual, incompleto, Babyloniaca contém uma série de erros surpreendentes sobre fatos simples . . . Para um historiador, esses erros comprometeriam o seu trabalho, mas o objetivo de Beroso não era histórico.”3
Em vista disso, o que você acha? Será que os cálculos de Beroso devem ser considerados sempre exatos? E o que dizer de outros historiadores clássicos que, na maioria das vezes, basearam sua cronologia nos escritos de Beroso? Suas conclusões históricas podem realmente ser chamadas de confiáveis?
O Cânon de Ptolomeu
O Cânon Real de Cláudio Ptolomeu, astrônomo do segundo século EC, também é usado para apoiar a data tradicional de 587 AEC. A lista de reis feita por Ptolomeu é considerada a espinha dorsal da cronologia da história antiga, incluindo o período neobabilônico.
Ptolomeu compilou sua lista uns 600 anos após o fim do período neobabilônico. Então, como ele chegou à data em que o primeiro rei da lista começou a reinar? Ptolomeu explicou que por usar cálculos de astronomia, baseados em parte em eclipses, “conseguimos calcular para trás até o começo do reinado de Nabonassar”, o primeiro rei da lista.4 Por isso, Christopher Walker, do Museu Britânico, diz que o Cânon de Ptolomeu era “um esquema artificial para fornecer aos astrônomos uma cronologia coerente” e “não para fornecer aos historiadores um registro preciso da ascensão e morte de reis”.5
“Já por muito tempo se sabe que o Cânon é confiável no aspecto astronômico”, escreveu o professor universitário Leo Depuydt, um dos defensores mais entusiásticos de Ptolomeu, “mas isso não quer dizer que ele seja automaticamente confiável no aspecto histórico”. Sobre a lista de reis, Depuydt acrescenta: “No que diz respeito aos primeiros governantes [incluindo os reis neobabilônios], o Cânon precisaria ser comparado com os registros cuneiformes reino por reino.”6
O que são esses “registros cuneiformes” que permitem avaliar a exatidão histórica do Cânon de Ptolomeu? Incluem crônicas babilônicas, listas de reis e tabuinhas econômicas — documentos cuneiformes escritos por escribas que viveram durante a época neobabilônica ou próximo dela.7
O que revela uma comparação da lista de Ptolomeu com os registros cuneiformes? O quadro “Comparação entre o Cânon de Ptolomeu e as tabuinhas antigas” (veja abaixo) mostra uma parte do Cânon e o compara com um documento cuneiforme antigo. Note que Ptolomeu alista apenas quatro reis babilônios entre Candalanu e Nabonido. No entanto, a lista de reis de Uruk — parte do registro cuneiforme — revela que sete reis governaram nesse intervalo. Será que o reinado deles foi breve e insignificante? Um deles, de acordo com tabuinhas econômicas cuneiformes, durou sete anos.8
Também há fortes evidências em documentos cuneiformes de que antes do reinado de Nabopolassar (o primeiro rei do período neobabilônico), outro rei (Assur-Etel-Ilani) governou por quatro anos em Babilônia. Além disso, por mais de um ano, aquela terra não teve rei.9 O Cânon de Ptolomeu não menciona nenhum desses fatos.
Por que Ptolomeu omitiu alguns governantes? Pelo visto, ele não os considerava governantes legítimos de Babilônia.10 Por exemplo, ele excluiu Labasi-Marduque, um rei neobabilônio. Mas, de acordo com documentos cuneiformes, os reis que Ptolomeu omitiu realmente governaram Babilônia.
Em geral, o Cânon de Ptolomeu é considerado exato. Mas, em vista de suas omissões, será que ele deveria realmente ser usado para fornecer uma cronologia histórica definitiva?
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Quando a Jerusalém antiga foi destruída? — Parte umA Sentinela — 2011 | 1.° de outubro
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c O império neobabilônico começou com o reinado do pai de Nabucodonosor, Nabopolassar, e terminou com o reinado de Nabonido. Esse período é de interesse para os eruditos porque abrange a maior parte dos 70 anos da desolação de Jerusalém.
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8. Sin-Sar-Ichcun governou por sete anos, e 57 tabuinhas econômicas desse rei datam desde o ano de sua ascensão ao sétimo ano de seu reinado. Veja Journal of Cuneiform Studies, Volume 35, 1983, páginas 54-59.
9. A tabuinha econômica C.B.M. 2152 data do quarto ano de Assur-Etel-Ilani. (Legal and Commercial Transactions Dated in the Assyrian, Neo-Babylonian and Persian Periods—Chiefly From Nippur, de A.T. Clay, 1908, página 74.) As Inscrições de Nabonido de Harã, (H1B), I, linha 30, também o alistam antes de Nabopolassar. (Anatolian Studies, Vol. VIII, 1958, páginas 35, 47.) Para o período sem reis, veja Crônica 2, linha 14, em Assyrian and Babylonian Chronicles, páginas 87-88.
10. Eruditos alegam que alguns reis foram omitidos por Ptolomeu — que supostamente alistou apenas reis de Babilônia — porque esses eram chamados pelo título de “Rei da Assíria”. No entanto, como pode notar no quadro da página 30, outros reis na lista do Cânon de Ptolomeu também tinham o título de “Rei da Assíria”. Tabuinhas econômicas, cartas cuneiformes e inscrições revelam claramente que os reis Assur-Etel-Ilani, Sin-Sum-Lisir e Sin-Sar-Ichcun governaram Babilônia.
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[Tabela/Foto na página 29]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
REIS NEOBABILÔNIOS
Se estes historiadores são confiáveis, por que não estão de acordo?
BEROSO POLISTOR JOSEFO PTOLOMEU
c. 350-270 105-? 37-?100 c. 100-170
AEC AEC EC EC
Reis
Nabopolassar 21 20 — 21
Nabucodo-
nosor II 43 43 43 43
Amel-Marduque 2 12 18 2
Neriglissar 4 4 40 4
Labasi-
Marduque 9 meses — 9 meses —
Nabonido 17 17 17 17
Duração do governo de cada rei (em anos) segundo historiadores clássicos
[Crédito]
Foto tirada por cortesia do Museu Britânico
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