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Uma ponte inigualável que mudou uma ilhaDespertai! — 2004 | 8 de julho
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Uma ponte inigualável que mudou uma ilha
DO REDATOR DE DESPERTAI! NO CANADÁ
NO GOLFO de São Lourenço, no litoral atlântico canadense, encontra-se a verdejante ilha do Príncipe Eduardo, a menor província do Canadá. Jacques Cartier, explorador francês do século 16, descreveu-a como “a mais bela terra que se pode ver”. Carinhosamente chamada de A Ilha por seus mais de 130 mil habitantes, a ilha do Príncipe Eduardo é famosa pelas praias limpas, pelas batatas que crescem em seu solo rico e vermelho e pelas lagostas apanhadas no seu litoral. Mais de um século depois de a ilha ter passado para o Domínio do Canadá, em 1873, ela estabeleceu uma ligação fixa com o continente — a inigualável Ponte da Confederação. Que impacto essa ponte tem tido sobre a ilha e sua população?
Um trecho de água comparativamente pequeno, de apenas 13 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito e mais raso, separa a ilha do Príncipe Eduardo do continente. Ainda assim, esse estreito, chamado de Northumberland, com 300 quilômetros de extensão, tem contribuído para um forte senso de singularidade dos ilhéus, que valorizam a história, o patrimônio agrícola e a tranqüilidade de sua ilha paradisíaca.
Em novembro de 1996, esse estado de isolamento cessou quando o último vão da Ponte da Confederação foi colocado no lugar. A ponte foi aberta oficialmente em 31 de maio de 1997. Desde então, os moradores da ilha e os visitantes têm conseguido atravessar o estreito de carro em mais ou menos 12 minutos, tendo assim acesso ao continente durante o ano todo.
Mas o que atrai as pessoas a essa ilha isolada? A resposta para muitos está no livro Anne of Green Gables (Anne de Green Gables). Sim, a autora desse famoso livro, Lucy Maud Montgomery (1874-1942), era de Cavendish, onde sua casa ainda pode ser vista. Todo verão, mais de 200 mil turistas visitam o local.
Por que a ponte é inigualável?
Ao redor do mundo, existem numerosas pontes notáveis que são maravilhas arquitetônicas de nossa era moderna. Assim, o que faz essa ponte ser digna de menção especial? Não é por ser a maior do mundo, mas ela reivindica ser no inverno “a maior ponte sobre águas congeladas”.
Invariavelmente, o estreito de Northumberland fica coberto de gelo durante os cinco meses de inverno. Por isso, a ponte foi projetada para suportar tais condições rigorosas. O acesso do continente para a ponte é pela ilha Jourimain, Nova Brunswick. Dali ela se estende por cima do estreito e termina na costa de arenito no sudoeste da ilha do Príncipe Eduardo, próximo à pequena vila de Borden. Gostaria de dirigir por essa estrada de 11 metros de largura e duas pistas? Não é permitido caminhar nem andar de bicicleta na ponte, por isso foi providenciado um transporte para que pedestres e ciclistas possam atravessá-la. A altura do vão livre para os navios é de uns 60 metros acima da água, comparável a um prédio de mais ou menos 20 andares. Por que tão alto? Isso permite que os navios transoceânicos passem pelo centro do canal.
Construir sem desconsiderar o meio ambiente
Um projeto dessa magnitude envolve coberturas de seguro complexas e abrangentes, bem como muito planejamento ambiental para proteger o ecossistema local. A preocupação maior era o efeito que a ponte teria sobre o escoamento do gelo pelo estreito, na primavera. Qualquer acúmulo de gelo teria um impacto sobre os habitats terrestres e marinhos, bem como sobre a indústria pesqueira da região. Até mesmo matérias dragadas do fundo do oceano foram transferidas para lugares selecionados com a esperança de criar novos habitats de lagosta.
Uma medida importante foi a implantação de protetores contra gelo em formato cônico e feitos de cobre, colocados no nível do mar em cada uma das galerias dos pilares. (Veja o diagrama na página 18.) Para que servem? Quando o gelo flutuante se choca contra o cone, desliza para cima e quebra-se sob seu próprio peso. Então, ele volta para a corrente e desliza por um dos lados do pilar. Para diminuir acúmulos de gelo flutuante no estreito, os pilares são ancorados no leito de rocha a uma distância de cerca de 250 metros um do outro.
O desafio de montar a ponte
O tamanho gigantesco das peças da ponte é impressionante. Os quatro elementos básicos são: (1) a base do pilar, que é colocada no fundo do estreito sobre uma fundação preparada e se estende até a superfície da água; (2) o pilar, que é fixado na base; (3) uma viga mestra, que fica em cima do pilar e (4) seções para conectar as vigas mestras. (Veja o diagrama acima.) A construção envolveu mais de 6 mil trabalhadores e mais de 80% da obra foi realizada na costa, “num maciço canteiro de obras de 60 hectares”. As peças eram transportadas da terra para o mar e então montadas.
Uma viga pronta tem mais de 190 metros, de ponta a ponta. ‘Como pode algo tão grande ser transportado?’, talvez se pergunte. Usando-se um transportador feito de concreto e aço. Observar um deles em ação faz-nos lembrar uma formiga carregando nas costas um objeto muito maior que ela. Transportar vigas de 7.500 toneladas significa um tremendo peso! Movimentando-se muito lentamente ao longo de um trilho de aço, à velocidade de três metros por minuto, o transportador não ganharia nenhuma corrida. Não surpreende que os dois transportadores usados tenham sido apelidados respectivamente de Tartaruga e Lagosta!
Visto que essas “formigas” não eram anfíbias, foi utilizado um barco-guindaste de casco duplo, de 102 metros de altura. Um repórter o descreveu como “algo muito feio, com pescoço comprido demais e pés monstruosamente grandes”, mas tendo “a graça de um cisne”. Construído originalmente para trabalhar na ponte entre as ilhas dinamarquesas de Fiônia e Zelândia, o barco foi reformado e trazido de Dunquerque, França. Surpreendentemente, esse barco para cargas pesadas “pode erguer o equivalente a 30 aviões Boeing 737 e manobrar em mares abertos com a precisão de um cirurgião”. Guiado por satélite, pelo sistema de posicionamento global, ele colocava as vigas mestras e todas as outras peças com uma precisão tão grande que a margem de erro era inferior a 2 centímetros. — Veja a foto na página 18.
Impacto sobre a ilha
A nova ponte é um símbolo de progresso. Para alguns, porém, deixa em aberto questões sobre o futuro. Mesmo agora, sete anos após sua inauguração, é muito cedo para predizer qual será o impacto geral da ponte, especialmente sobre o meio ambiente. Em 2002, um pesquisador científico de lagostas relatou que sua população não parece ter sido afetada pela ponte. Ele disse também: “Os últimos cinco anos têm sido os melhores para o caranguejo-das-pedras.” Como o turismo tem sido afetado?
Durante um período recente, o turismo aumentou em “incríveis 61%”, diz certa fonte. Obviamente, muitos turistas vêm no verão. Além disso, entre 1996 e 2001, a exportação quase dobrou. O índice de empregos também melhorou. Um ponto negativo é que muitos que trabalhavam anteriormente com balsas estão ganhando bem menos. Outra queixa de alguns é o alto preço do pedágio. Realmente, como dizem, o progresso tem seu preço.
O acesso mais fácil ao continente tem mudado o encanto da ilha? Alguns que vêm “de fora” para desfrutar a tranqüilidade do lugar se perguntam se ali continuará sendo um refúgio do ritmo agitado do continente, na paisagem intacta e nas dunas de areia de Abegweit, o “berço nas ondas”, como os nativos miquemaques o chamavam.
Com certeza, a Ponte da Confederação é um feito muito impressionante. Será que os motoristas correm o risco de adormecer ao volante durante o curto tempo do trajeto? Dificilmente. O estilo em S alongado os ajuda a ficar alertas para aproveitar a experiência. Talvez essa ponte o incentive a visitar esse “Jardim do Golfo” e saborear o seu ainda pacífico estilo de vida, quer você aprecie Anne of Green Gables quer não.
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Uma ponte inigualável que mudou uma ilhaDespertai! — 2004 | 8 de julho
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[Diagrama na página 18]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
3 Viga Mestra 4 Seção para conectar
2 Pilar
Protetor contra gelo
1 Base do pilar
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Uma ponte inigualável que mudou uma ilhaDespertai! — 2004 | 8 de julho
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[Foto na página 18]
O barco para cargas pesadas “Svanen” colocando uma viga mestra numa galeria de pilar
[Crédito]
Cortesia de Public Works & Government Services Canada and Boily Foto de Summerside
[Fotos na página 18, 19]
O centro da ponte está a uns 60 metros acima da água, para permitir a passagem de navios
[Crédito da foto na página 17]
Tourism Prince Edward Island/John Sylvester
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