-
Por que certas crianças são tão difíceisDespertai! — 1994 | 22 de novembro
-
-
Por que certas crianças são tão difíceis
“Influências genéticas, química cerebral e desenvolvimento neurológico contribuem fortemente para o que somos quando crianças e o que nos tornamos quando adultos.” — STANLEY TURECKI, DM.
TODA criança se desenvolve à sua própria maneira ímpar e distinta. As crianças exibem uma profusão de traços e disposições de ânimo aparentemente inatos — características sobre as quais os pais talvez exerçam pouco ou nenhum controle. É verdade que crianças indisciplinadas, irrequietas e tempestuosas sempre existiram. Mesmo os melhores pais podem ter uma criança difícil de educar.
Mas por que a educação de certas crianças é tão mais difícil e desafiadora? O número de crianças com graves problemas de comportamento está aumentando. Há consenso entre terapeutas e pesquisadores que de 5% a 10% das crianças exibem inquietação extrema, e que a incapacidade dessas crianças de prestar atenção, de se concentrar, de seguir regras e de controlar impulsos cria numerosas dificuldades para si mesmas, para a família, professores e colegas.
O Dr. Bennett Shaywitz, professor de pediatria e neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Yale, EUA, enfoca um possível problema-chave: “distúrbios herdados em certas substâncias químicas presentes nos sistemas neurotransmissores do cérebro”, que regulam a função das células cerebrais e ajudam o cérebro a regular o comportamento. Seja o que for que dificulte a educação da criança, a prioridade dos pais deve ser tornarem-se hábeis em gerenciar o comportamento da criança, dando encorajamento e apoio em vez de crítica e desaprovação.
Nos tempos bíblicos, os pais eram os responsáveis pela educação e treinamento dos filhos. Sabiam que a disciplina e a instrução baseadas nas leis de Deus tornariam sábia a criança. (Deuteronômio 6:6, 7; 2 Timóteo 3:15) Por conseguinte, é responsabilidade divina dos pais empenharem-se ao máximo, mesmo tendo uma agenda apertada, em suprir as necessidades da criança, especialmente por reagir de modo positivo ao comportamento negativo. Visto que muitos dos problemas de comportamento hoje observados no exercício da pediatria envolvem crianças hiperativas, impulsivas ou desatentas, pode ser útil fazer um exame do DDA e do DHDA como fatores a levar em conta em crianças difíceis de educar.a
Nos anos 50, esses distúrbios eram chamados de “disfunção cerebral mínima”. Essa terminologia deixou de ser usada, segundo o neurologista pediatra Dr. Jan Mathisen, quando descobertas indicaram que o “DDA definitivamente não constitui dano cerebral”. Diz o Dr. Mathisen: “O DDA é um aparente defeito em certas regiões do cérebro. Ainda não temos certeza de quais são precisamente os problemas neuroquímicos envolvidos, mas achamos sim que existe uma relação com uma substância química no cérebro chamada dopamina.” Ele acredita que o problema envolve o controle da dopamina. “A causa do problema provavelmente não reside numa única substância química, mas sim numa relação entre várias substâncias químicas”, acrescentou.
Embora ainda existam muitas perguntas sem resposta sobre a causa do DDA, os pesquisadores em geral concordam com o Dr. Mathisen de que o mau controle crônico da atenção, da impulsividade e da atividade motora é de origem neurológica. Recentemente, um estudo dirigido pelo Dr. Alan Zametkin e pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde Mental, nos Estados Unidos, pela primeira vez relacionou o DDA a uma específica anormalidade metabólica no cérebro, embora se tenha reconhecido que “é preciso muito mais pesquisas para se chegar a resultados mais definitivos”.
A escola é um verdadeiro desafio
Ir à escola em geral é muito difícil para crianças cronicamente desatentas, distraídas, impulsivas ou excessivamente ativas, visto que a necessidade de concentração e de ficar quieto aumenta tremendamente na sala de aulas. Sendo tão difícil para tais crianças se concentrar em alguma coisa por muito tempo, o que mais lhes resta senão ser aloucadamente superativas? Em algumas, a sua falta de atenção é tão aguda que as impede de acompanhar o aprendizado normal, em casa, ou na escola. Sofrer punições por ser o terror, ou o palhaço da classe, não é incomum para tais crianças, visto ser-lhes difícil controlar o seu comportamento e avaliar as conseqüências de suas ações.
Por fim, elas desenvolvem uma péssima auto-imagem, talvez rotulando a si mesmas de “más” e “estúpidas”, e agindo concordemente. Ganhando notas baixas independentemente de quanto se esforcem, essas crianças são suscetíveis ao fracasso crônico autoperpetuador.
Desnorteados, os pais ficam muito ansiosos e confusos com o comportamento tempestuoso da criança. Às vezes, há discórdias entre eles, cada qual culpando o outro pela situação. Muitos pais gastam considerável tempo repisando iradamente o aspecto mau, esquecendo-se do aspecto bom. Assim, suas reações aos padrões de comportamento negativos provocam ainda mais interação negativa. Por conseguinte, a família, e até certo ponto outros que se relacionam com a criança, ficam imobilizados numa disputa pelo poder que resulta de não entenderem e não saberem gerenciar o comportamento de uma criança difícil — uma criança com ou sem Distúrbio de Déficit de Atenção.
Experiência de uma mãe com seu filho Ronnie
“Desde o momento que Ronnie veio ao mundo, ele jamais se sentiu contente, era sempre irritadiço e choroso. Alérgico, sofria de erupções cutâneas, infecção de ouvido e diarréias constantes.
“As primeiras habilidades motoras de Ronnie se desenvolveram a contento, porém, e ele aprendeu rapidamente a se sentar, a se levantar e daí a andar — ou a correr, melhor dizendo. Eu fazia às pressas todo o meu serviço de casa durante os momentos em que ele dormia, porque quando meu pequeno ‘tornado’ acordava, minha ocupação era tentar evitar que ele causasse dano a si mesmo e à casa, à medida que corria para lá e para cá, tentando pôr a mão em tudo que capturasse a sua imaginação, e a maioria das coisas capturava!
“O seu período de concentração era muito curto. Nada o entretinha por muito tempo. Ele odiava ficar sentado sem se mexer. Naturalmente, isso era um problema quando o levávamos a um lugar em que se esperava que ele ficasse sentado quieto — especialmente as reuniões congregacionais. Era inútil surrá-lo por não se sentar quieto. Ele simplesmente não conseguia. Muitas pessoas bem-intencionadas se queixavam, ou nos davam conselhos, mas nada funcionava.
“Ronnie era inteligente, de modo que quando tinha cerca de três anos, nós iniciamos com ele uma breve sessão diária de leitura. Aos cinco anos, ele já sabia ler bastante bem. Daí, entrou na escola. Depois de cerca de um mês, pediram-me que fosse falar com a professora. Ela me disse que, ao ver Ronnie pela primeira vez, ele lhe parecia um anjo, mas, depois de tê-lo na classe por um mês, ela achava que ele era daquele outro lugar! Ela me disse que ele estava sempre pulando, atropelando outras crianças ou mexendo com elas. Ele não parava quieto, e perturbava toda a classe. Não tinha autocontrole. Ela observou também que se estava criando uma atitude rebelde. Foi sugerido que ele fosse colocado numa classe de educação especial e que o levássemos a um médico para que prescrevesse uma droga para acalmá-lo. Ficamos arrasados!
“Medicamentos não eram a boa opção para Ronnie, mas o pediatra nos deu algumas sugestões práticas. Ele era da opinião que Ronnie era vivaz e sentia enfado; por conseguinte, sugeriu mantê-lo bem ocupado, dar-lhe sempre mais amor e que fôssemos pacientes e positivos. Ele achava que o problema de Ronnie diminuiria com a idade e com uma mudança de dieta.
“Demo-nos conta de que o nosso filho tinha de ser trabalhado com cuidado, que precisava ser ajudado a aprender a canalizar a sua energia de maneira positiva. Isto levaria muito tempo; assim, mudamos a nossa programação diária, despendendo muitas horas com ele nas lições de casa, ensinando e explicando as coisas com paciência. Deixamos de usar palavras negativas ou de culpá-lo pela sua irreflexão e travessuras. A nossa meta era edificar a sua baixa auto-estima. Nós dialogávamos em vez de ordenar e exigir. Nas decisões que o afetavam, nós lhe pedíamos a sua opinião.
“Certas coisas que acontecem naturalmente com outras crianças não aconteciam facilmente com Ronnie. Por exemplo, ele teve de aprender a ter paciência, a ser calmo, a sentar-se quieto e a controlar a sua exagerada atividade física. Mas isso era controlável. Depois que entendeu que tinha de fazer um esforço consciencioso para moderar e pensar no que fazia, ou pretendia fazer, ele passou a se equilibrar. Aos 13 anos, seu comportamento era normal. Felizmente, tudo foi suave desde então, mesmo durante os em geral rebeldes anos da adolescência.
“Os dividendos de dar a Ronnie muito amor, e igual quantidade de tempo e paciência, compensaram maravilhosamente!”
[Nota(s) de rodapé]
a Nestes artigos, DDA refere-se a Distúrbio de Déficit de Atenção e DHDA refere-se a Distúrbio de Hiperatividade e Déficit de Atenção.
-
-
Como educar uma criança difícilDespertai! — 1994 | 22 de novembro
-
-
Como educar uma criança difícil
“COMO foi o seu dia hoje?”, pergunta Susana a seu filho, Joãozinho, quando o apanha de carro na escola. Carrancudo, ele não responde. “Ah!, você deve ter tido um dia ruim”, diz ela, denotando compreensão. “Gostaria de falar sobre isso?”
“Não me amole”, resmunga ele.
“Estou preocupada com você. Você me parece tão triste. Quero ajudar.”
“Não precisa me ajudar!”, ele grita. “Não me amole! Odeio você. Prefiro morrer!”
“Joãozinho!”, replica Susana, “não me fale desse jeito, senão eu lhe bato! Eu estava apenas tentando ser gentil. Não estou lhe entendendo. Nada do que eu digo ou faço agrada você”.
Nervosa e desgastada por seu próprio dia de trabalho, Susana enfrenta o trânsito se indagando como é que pôde ter um filho assim. Sente-se confusa, desorientada e irada, ressentida com o próprio filho e afligida por sentimentos de culpa. Susana se apavora em levá-lo para casa — seu próprio filho. Prefere nem saber o que aconteceu hoje na escola. Sem dúvida a professora vai ligar de novo. Houve ocasiões em que Susana simplesmente não suportou a situação.
Assim, incidentes aparentemente simples explodem em fortes provações emocionais, carregadas de ansiedade. Crianças com DDA/DHDA ou que por outros motivos são rotuladas de “difíceis” tipicamente reagem de maneira bem veemente diante de problemas. Tendem a atingir depressa um estado explosivo, deixando os pais irritados, desnorteados e exauridos.
Avaliação e intervenção
Tipicamente, essas crianças são inteligentes, criativas e profundamente sensíveis. É importante entender que são crianças sadias com necessidades incomuns, exigindo, pois, uma compreensão especial e bem mais profunda. Seguem-se alguns princípios e idéias que pais de crianças assim usaram com êxito.
Primeiro, é preciso aprender a reconhecer as situações e os estímulos que transtornam a criança. (Note Provérbios 20:5.) É essencial que os pais observem na criança os sinais que antecedem confrontos emocionais e intervenham prontamente. Um indicador-chave é a expressão facial que reflete um crescente nível de frustração e a incapacidade de lidar com determinada situação. Dizer gentilmente à criança que ela tem de se controlar, ou, se necessário, afastá-la da situação, pode ser de ajuda. Suspender o que a criança está fazendo, por exemplo, é eficaz, não tanto como forma de punição, mas como meio de dar à criança e aos pais uma oportunidade de recuperar a calma e então prosseguir racionalmente.
Na ilustração dada, Joãozinho reagiu mal a perguntas simples. Isto é típico de seu comportamento diário. Embora seja fácil o pai ou a mãe encarar essa ira e ressentimento como ataque pessoal, é essencial dar-se conta de que essas crianças muitas vezes perdem a percepção (raciocínio) uma vez tendo alcançado o limite de sua tolerância de estresse. Por conseguinte, é importante agir com perspicácia. (Provérbios 19:11) No caso de Joãozinho, Susana poderia ter abrandado a situação se desistisse do assunto e desse ao menino tempo para se controlar; e talvez mais tarde pudessem discutir os eventos do dia.
Crianças estressadas
Nunca antes a família humana se confrontou com problemas, pressões e ansiedades tão enormes como as que afligem o mundo moderno. Os tempos são diferentes, as demandas são mais intensas, e exige-se mais das crianças. Sobre isso, diz o livro Good Kids, Bad Behavior (Boas Crianças, Mau Comportamento): “Muitos dos problemas que as crianças aparentemente enfrentam podem ser causados ou influenciados por expectativas sociais que estão mudando.” Para crianças com DDA/DHDA, a escola pode ser um pesadelo. Enquanto lutam para vencer as suas próprias inaptidões, são obrigadas a se adaptar a uma explosão de progressos tecnológicos em rápidas transformações, num clima que pode parecer tanto hostil como perigoso, aumentando a ansiedade dessas crianças. Emocionalmente, são imaturas demais para lidar com todos esses problemas. Precisam da ajuda dos pais.
Reduza a fricção
Para ter crianças mais felizes e mais sadias, é importante zelar por um ambiente de ordem e estabilidade. Um bom plano para reduzir a fricção no lar pode começar com a simplificação do estilo de vida. Visto que essas crianças são impulsivas, distraídas e superativas, é preciso reduzir o efeito negativo da superestimulação. Reduza a quantidade de brinquedos com que essas crianças podem brincar ao mesmo tempo. Dê apenas uma tarefa ou projeto por vez, até finalizá-lo. Visto que essas crianças não raro são desorganizadas, a organização minimiza a frustração. Quanto menos e mais acessíveis forem os itens com os quais elas têm de lidar, mais fácil será administrar o que é importante.
Outro bom modo de reduzir o estresse no lar é implementar uma rotina bem estruturada, mas não rígida, que dê às crianças um senso de estabilidade. O horário não é tão fundamental como a seqüência, a ordem dos eventos. Pode-se conseguir isso por aplicar sugestões práticas, como as seguintes. Providencie boa nutrição com refeições simples bem balanceadas e lanches a intervalos regulares. Faça da hora de pôr os filhos para dormir uma ocasião calorosa, amorosa e relaxante. Levá-las às compras pode superestimular crianças muito ativas, portanto, previna-se e tente não ir a muitas lojas. Ao dar um passeio, explique qual é o comportamento que se espera. Rotinas definidas ajudam a criança com necessidades especiais a controlar seu comportamento impulsivo. Ademais, é útil ao processo de prevenção dos pais.
Junto com uma estruturação, é benéfico formular um sistema de regras e incluir nisso as conseqüências de violar regras não negociáveis. Regras definidas, coerentes, aceitáveis tanto para o pai como para a mãe, marcam os limites do comportamento aceitável para as crianças — e também lhes ensinam o senso de responsabilidade para com as suas próprias ações. Afixe uma lista de regras num lugar bem visível, se necessário (para os pais se lembrarem, bem como a criança). A coerência é a chave da segurança emocional.
Entender as preferências, os gostos e as aversões da criança e adaptar-se a elas pode contribuir muito para aliviar tensões desnecessárias no lar. Sendo muitas dessas crianças caprichosas e impulsivas por natureza, o seu relacionamento com outras crianças pode ser muito difícil. Partilhar, especialmente brinquedos, pode ser uma área especial de atrito, de modo que os pais podem facultar a seus filhos escolher itens preferidos que possam ser partilhados. Ademais, regular o seu nível de estimulação por cuidar de que brinquem com um número pequeno de coleguinhas, e criar atividades que não sejam superexcitantes, pode também ser útil para controlar o seu baixo limiar sensitivo.
É importante os pais permitirem que cada criança se desenvolva a seu próprio modo, e evitarem comprimi-la ou moldá-la a uma conformidade desnecessária. Se a criança detesta certa comida ou peça de roupa, tire-as do caminho. Esses pequenos focos de irritação simplesmente não compensam o conflito. Realmente, não tente controlar tudo. Seja equilibrado, mas, uma vez tomadas as decisões sobre o que é aceitável para uma família cristã, apegue-se a elas.
Supervisão do comportamento
Crianças imprevisíveis tendem a exigir um grau de supervisão mais elevado. Assim, muitos pais se sentem culpados caso tenham de disciplinar freqüentemente. É importante, porém, discernir a diferença entre disciplina e abuso. Segundo o livro A Fine Line—When Discipline Becomes Child Abuse (Fina Linha Demarcatória — Quando a Disciplina Vira Abuso de Crianças), alegadamente 21% dos casos de abuso físico ocorrem quando as crianças exibem um comportamento agressivo. Assim, a pesquisa conclui que as crianças com DDA/DHDA correm “risco maior de sofrer abuso físico e desamparo”. Inegavelmente, criar filhos com necessidades especiais pode ser estressante, mas a sua supervisão tem de ser sadia e equilibrada. Visto que essas crianças em geral são muito inteligentes e criativas, elas representam um desafio para os pais nos tratos de situações que exigem raciocínio. Tais crianças em geral encontram uma maneira de apontar falhas mesmo na mais brilhante lógica dos pais. Não permita isso! Retenha a autoridade parental.
Amistosa, porém firmemente, dê explicações breves; em outras palavras, não se exceda em explicações, e não negocie regras não negociáveis. Que seu “sim” signifique sim e seu “não” signifique não. (Note Mateus 5:37.) As crianças não são diplomatas; assim, negociar com elas leva a discussões, ira e frustração, podendo evoluir até mesmo para gritos e violência. (Efésios 4:31) Similarmente, evite advertir demais. Se é preciso disciplinar, faça-o prontamente. O livro Raising Positive Kids in a Negative World (Criar Filhos Positivos num Mundo Negativo) insta: “Calma, confiança e firmeza — é nisso que se resume a autoridade.” Ademais, note as excelentes sugestões no jornal The German Tribune: “Fale sempre de maneira a prender a atenção da criança: use o nome dela com freqüência, mantenha contato olho-no-olho e use linguagem simples.”
Os abusos acontecem quando os pais perdem o controle. Se o pai ou a mãe gritarem, já perderam o controle. Provérbios, capítulo 15, trata da criação de filhos e da disciplina. Por exemplo, o Pro. 15 versículo 4 diz: “A calma da língua é árvore de vida, mas a deturpação nela significa quebrantamento do espírito”; o Pro. 15 versículo 18: “O homem enfurecido suscita contenda, mas aquele que é vagaroso em irar-se sossega a altercação”; e, finalmente, o Pro. 15 versículo 28: “O coração do justo medita a fim de responder.” Assim, é importante considerar não só o que falamos mas também como falamos.
Elogio, não condenação
Visto que crianças difíceis de educar fazem coisas criativas, estranhas, até mesmo maníacas, é fácil os pais cederem à prática de achar faltas, ridicularizar, ralhar e desferir ataques furiosos. Contudo, segundo A Bíblia na Linguagem de Hoje, Efésios 6:4 instrui os pais a criar os filhos “com disciplina e de acordo com os ensinamentos cristãos”. Como disciplinou Jesus os errantes? Ele usou disciplina instrutiva que treinou e ensinou pessoas, e lidava com elas de modo imparcial e firme. A disciplina é um processo, um método de instrução, que, no caso de crianças, em geral deve ser aplicado repetidas vezes. — Veja o artigo “O Conceito da Bíblia . . . ‘A Vara da Disciplina’ É Antiquada?”, na Despertai! de 8 de setembro de 1992.
A disciplina correta cria um clima de confiança, calor e estabilidade; assim, quando a disciplina é necessária, deve ser administrada com explicações. Não há soluções instantâneas na educação de crianças, pois elas aprendem gradativamente, com o tempo. É preciso muito desvelo e amor, muito tempo e trabalho, para criar bem qualquer criança, em especial uma criança difícil. Pode ser útil lembrar o seguinte dizer: “Diga o que pensa de verdade, sustente o que diz, e faça o que diz.”
Um dos mais frustrantes aspectos do problema de lidar com crianças de comportamento angustiante é sua descomedida ânsia de atenção. Demasiadas vezes a atenção que recebem é negativa, em vez de positiva. Contudo, seja rápido em observar, elogiar ou recompensar o bom comportamento ou uma tarefa bem feita. Isto é muito encorajador para uma criança. De início seus empenhos podem parecer exagerados, mas os resultados são bem compensadores. As crianças precisam de pequenas, porém imediatas recompensas.
A experiência de um pai com seu filho, Greg
“Nosso filho Greg foi diagnosticado como portador de DHDA aos cinco anos de idade, quando freqüentava o jardim-de-infância. Naquela ocasião consultamos um pediatra especialista em desenvolvimento infantil que confirmou que Greg definitivamente era portador de DHDA. Ele nos disse: ‘A culpa não é dele, nem de vocês. Ele nada pode fazer, mas vocês podem.’
“Muitas vezes pensamos nessas palavras, pois nos lembram que nós, como pais, temos o grande dever de ajudar o nosso filho a lidar com o seu DHDA. Naquele dia o médico nos deu certas publicações para ler, e cremos que o conhecimento que adquirimos nos últimos três anos tem sido muito importante no cumprimento de nossos deveres como pais de Greg.
“Na educação de uma criança com DHDA é de importância vital estimular o comportamento apropriado e dar alertas e, se necessário, uma punição pelo mau comportamento. Quanto mais estruturado e coerente você puder ser, melhores resultados verá. Estas declarações simples são provavelmente um fator-chave na educação de uma criança com DHDA. No entanto, visto que é preciso estar atento o dia todo, isso é mais fácil de dizer do que de fazer.
“Um artifício que constatamos ser muito eficaz é suspender imediatamente a atividade da criança. Sempre que usamos essas suspensões para mudar um mau comportamento, instituímos também um programa de estímulo para encorajar mais comportamento positivo. Este estímulo pode ser uma palavra de aprovação, um abraço, ou mesmo uma pequena recompensa ou privilégio. Compramos numa loja um quadro para afixar adesivos. Escrevemos no alto qual é o comportamento adequado. Toda vez que vemos Greg comportar-se corretamente, damos-lhe um adesivo para colar no quadro. Quando o quadro está cheio, digamos, com uns 20 adesivos, ele ganha uma recompensa. Este prêmio em geral é algo que ele realmente gosta, como ir a um parque. É útil porque o motiva a ter bom comportamento. Ele mesmo cola os adesivos e pode assim acompanhar seu progresso e ver quanto falta para a recompensa.
“Outro método que temos achado eficaz é dar opções a Greg. Em vez de lhe dar uma ordem direta, nós lhe apresentamos uma escolha. Ele pode comportar-se corretamente, ou, então, sofrer as conseqüências lógicas do contrário. Isto ensina responsabilidade e como fazer decisões corretas. Se for um problema constante, como comportar-se mal numa loja ou num restaurante, podemos usar o quadro de adesivos com a sua recompensa. Assim ele vê o benefício do bom comportamento, e nós lhe mostramos o reconhecimento pelas suas melhoras.
“A maioria das pessoas não sabe que o DHDA afeta a capacidade da criança de controlar o seu comportamento e as suas reações. Muitos crêem que essas crianças poderiam controlar seu período de atenção e seu comportamento, caso se esforçassem mais, e, quando fracassam, culpa-se os pais.
“É fisicamente impossível para uma criança com DHDA sentar-se quieta por duas horas numa reunião congregacional no Salão do Reino. Jamais nos esqueceremos de que Greg, com meros cinco anos de idade, costumava chorar antes de cada reunião e nos perguntar: ‘É uma reunião demorada ou curta?’ Ele chorava amargamente quando era uma reunião de duas horas, pois sabia que não conseguia ficar sentado quieto por tanto tempo. Temos de fazer concessões à disfunção e às limitações que o DHDA produz. Sabemos que Jeová melhor do que ninguém entende essa disfunção, e isso é uma fonte de consolo. No presente Greg não toma remédios e está na série escolar normal para a sua idade.
“Fazer de Jeová a nossa esperança e sempre focalizar os olhos no novo mundo nos sustenta. A nossa esperança já é muito significativa para Greg. Ele realmente se emociona, chegando a verter lágrimas, quando se lembra que Jeová vai acabar com o DDAH na Terra paradísica.”
[Quadro na página 9]
Possíveis recompensas pelo bom comportamento:
1. LOUVOR — elogios por uma tarefa bem feita; externar apreço pelo bom comportamento, acompanhados de carinho, abraços e expressão facial calorosa.
2. SISTEMA DE QUADRO — exposto num lugar bem visível, para nele afixar atraentes etiquetas adesivas, como, por exemplo, estrelinhas, para estimular o bom comportamento.
3. LISTA DE COISAS BOAS — de realizações aceitáveis e meritórias. Sempre que a criança faz algo bom, não importa quão pequeno de início, anote isso por escrito e leia-o a um membro da família.
4. BARÔMETRO DO COMPORTAMENTO — dependendo da idade da criança, deposite num pote uma balinha, ou algo similar, toda vez que a criança fizer algo bom (estímulo tangível). O objetivo é estabelecer um sistema de pontos para se dar uma recompensa que pode incluir algo que a família normalmente faria, como ir ao cinema, patinar ou comer num restaurante. Em vez de repisar à criança: “Se você não se comportar, não iremos”, tente dizer: “Se você se comportar, iremos.” A chave é mudar o pensamento negativo em pensamento positivo, permitindo ao mesmo tempo um tempo razoável para permitir uma mudança.
[Foto na página 7]
O diálogo pode às vezes acabar em ânimos exaltados
[Foto na página 8]
Quando são feitas decisões, explique-as e apegue-se a elas
[Foto na página 10]
Orgulhosamente ele acrescenta mais um adesivo ao seu quadro
-
-
Quando é preciso mais ajudaDespertai! — 1994 | 22 de novembro
-
-
Quando é preciso mais ajuda
EMBORA muitas das sugestões dadas nos artigos precedentes possam ser muito úteis, há casos em que é preciso mais ajuda sob circunstâncias específicas. Estudos profundos, por exemplo, incluem relatórios sobre crianças que não só são impulsivas mas também muito perigosas. Estas crianças, ainda que sob a tutela de famílias amorosas, manifestam seu comportamento destrutivo por estraçalhar coisas, gritar, provocar incêndios, dar tiros de revólver, desferir golpes de faca (se disponíveis), e por ferir animais, outras pessoas, ou a si mesmas, se tais coisas lhes passarem pela mente. Em suma, são o epítome do caos.
Procurar ou não assistência médica, para dar à criança a melhor ajuda, é assunto particular de decisão pessoal. Cada família precisa decidir como atender às específicas necessidades individuais da criança, tendo em mente a consoladora garantia que se dá aos pais em Provérbios 22:6.
Um dos tratamentos mais controversiais hoje envolve o uso de medicação. O medicamento mais receitado, o Ritalin, tem tido resultados polêmicos. Muitas famílias estão muito contentes com o progresso da criança quando ela toma Ritalin ou outro medicamento modificador de comportamento. Mas os debates continuam, não só sobre a utilidade desses medicamentos mas também sobre o excesso de prescrição. De fato, há médicos que questionam inteiramente o seu valor, dizendo, por exemplo, que o uso prolongado de Ritalin pode ter muitos efeitos colaterais danosos. Mas é preciso que se diga de novo que muitas famílias e médicos citam poucos efeitos colaterais junto com a melhora no comportamento e o progresso escolar. Curiosamente, muitos adultos diagnosticados como portadores do DDA e que no momento tomam medicamentos, também estão contentes com os resultados. O uso de medicamentos é, pois, uma decisão particular a ser feita sob meticulosa pesquisa e avaliação.
Para os que obtiveram fracos resultados com a medicação, existem métodos de tratamento alternativos. Muitas famílias leram a respeito e auferiram bons resultados com tratamentos à base de vitaminas ou ervas, ou uma combinação de ambos. Como já dito, o DDA/DHDA pode em certos casos ser provocado por desequilíbrios bioquímicos no cérebro que esses tratamentos presumivelmente ajudam a corrigir.
Além disso, há outros fatores que alguns acreditam desencadeie muitos dos problemas ligados ao DDA/DHDA. A Dra. Doris Rapp, em seu livro Is This Your Child? (É Este o Seu Filho?), diz que “algumas crianças têm doenças físicas e/ou problemas emocionais, comportamentais e de aprendizado parcial ou principalmente relacionados com alergias ou com exposições ambientais. Também, reações a corantes, açúcares e aditivos podem realmente mascarar esses problemas com violentos acessos de fúria, mudanças bruscas de temperamento e insônia.
Muitas famílias aprenderam como mudar o comportamento dos filhos, mas o desempenho escolar deles pode criar outros problemas. Para alguns, serviços especiais, tais como tutores, aconselhamento, grupos de apoio e professores especiais, podem ajudar. Visto que essas crianças tendem a se sair melhor com atendimento personalizado, algumas famílias têm conseguido bons resultados com o ensino em casa, por sugestão médica.
Digno de nota também são muitos novos projetos educacionais, tais como o Schools Attuned, do Dr. Mel Levine, que põe em relevo a singularidade e diversidade individual das crianças. O programa do Dr. Levine defende a educação talhada segundo as necessidades de cada criança. Em todos os lugares em que este método diversificado de aprendizado foi implantado nos Estados Unidos, parece que os resultados têm sido bons.
O futuro
Educar crianças é comparável a comprar uma casa. Ambos exigem um investimento vitalício; contudo, por dadas circunstâncias, os prospectivos compradores talvez sejam obrigados a se contentar com menos do que o ideal. Similarmente, pais imperfeitos criando filhos imperfeitos, no mundo de Satanás, são obrigados a se contentar com menos do que o ideal. A casa recém-comprada talvez tenha aspectos incomuns ou indesejáveis, mas, com trabalho e um pouco de imaginação, muitos aspectos estranhos podem ser praticamente eliminados. Mesmo um aspecto arquitetural complicado pode logo tornar-se o centro das atenções no lar.
Similarmente, se os pais se ajustarem às necessidades individuais do seu filho que tem problemas, ele pode vir a tornar-se uma parte bonita na vida deles. Cada criança tem de ser estimada por suas próprias qualidades. Assim, focalize o positivo. Em vez de reprimir as crianças, encoraje a criatividade de cada uma delas, e tenha em mente que é uma pessoa meritória, merecedora de dignidade e amor — uma preciosa dádiva de Jeová Deus. — Salmo 127:3-5.
-