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Maridos e esposas: falam realmente línguas diferentes?Despertai! — 1994 | 22 de janeiro
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Maridos e esposas: falam realmente línguas diferentes?
IMAGINE a cena: Carlos entra arrastando os pés na sala de Roberto, com os ombros visivelmente caídos sob o peso de suas preocupações. Roberto olha compassivamente para seu amigo, esperando que ele fale. “Não sei se vou conseguir fechar aquele contrato”, suspira Carlos. “Há tantos obstáculos, e a diretoria está mesmo me pressionando.” “Por que toda essa preocupação, Carlos?”, pergunta Roberto confiantemente. “Você sabe que o melhor homem para essa tarefa é você, e eles também sabem disso. Não se precipite. Você acha isso ruim? Ora, no mês passado . . .” Roberto conta alguns detalhes engraçados sobre seu próprio pequeno fiasco e, pouco depois, seu amigo deixa a sala rindo e aliviado. Roberto sente-se feliz por ter ajudado.
E imagine também que Roberto, ao chegar em casa naquela tarde, logo percebe que sua esposa, Raquel, também está deprimida. Ele a cumprimenta de maneira especialmente animada, e espera que ela lhe diga o que a faz sentir-se assim. Depois de um silêncio tenso e petrificante, ela desabafa: “Não agüento mais! Esse novo chefe é um tirano!” Roberto faz com que ela se sente, põe o braço no ombro dela e diz: “Querida, não fique tão irritada. Olhe, isso é apenas um emprego. Os chefes são assim mesmo. Você devia ver como meu chefe esbravejou hoje. Mas se isso for demais para você, simplesmente peça demissão.”
“Você nem se importa com meus sentimentos!”, replica Raquel. “Você nunca me escuta! Eu não posso pedir demissão! Você não ganha o suficiente.” Ela corre para o quarto, e chora profusamente. Roberto fica parado à frente da porta fechada, atônito, perguntando-se o que aconteceu. Por que essas reações tão antagônicas às palavras de consolo de Roberto?
Conflito entre os sexos?
Alguns atribuiriam a diferença nessas ilustrações a um único fato: Carlos é homem; Raquel é mulher. Pesquisadores de comunicação acreditam que as dificuldades de diálogo no casamento muitas vezes se devem à diferença entre os sexos. Livros como You Just Don’t Understand (Você Simplesmente Não Entende) e Men Are From Mars, Women Are From Venus (Os Homens São de Marte, as Mulheres de Vênus) promovem a teoria de que homens e mulheres, embora falem o mesmo idioma, têm estilos de comunicação nitidamente diferentes.
Inquestionavelmente, quando Jeová criou a mulher a partir do homem, ela não era um simples modelo ligeiramente modificado. O homem e a mulher foram projetados de maneira maravilhosa e ponderada para complementar um ao outro — física, emocional, mental e espiritualmente. Acrescente a essas diferenças inatas as complexidades da criação e da experiência de vida individuais e a moldagem das pessoas segundo a cultura, o ambiente e o conceito da sociedade sobre o que é varonil ou feminil. Devido a essas influências, podem-se isolar certos padrões na maneira em que homens e mulheres se comunicam. Mas os elusivos “homem típico” ou “mulher típica” talvez existam apenas nos livros de psicologia.
Tipicamente, as mulheres se destacam por sua sensibilidade, no entanto, muitos homens são admiravelmente brandos nos seus tratos com pessoas. A capacidade de raciocínio lógico pode ser mais atribuída a homens; contudo, há muitas mulheres dotadas de aguçada e analítica perspicácia. Portanto, embora seja impossível rotular qualquer traço como exclusivamente masculino ou estritamente feminino, uma coisa é certa: compreender a perspectiva do outro pode fazer a diferença entre coexistência pacífica e guerra declarada, especialmente no casamento.
O desafio diário da comunicação homem-mulher no casamento é tremendo. Muitos maridos discernidores atestam que a ilusoriamente simples pergunta: “Gostou do meu novo penteado?” pode vir carregada de perigos. Muitas esposas diplomáticas aprendem a evitar perguntar repetidamente: “Por que você não pede informações?”, quando o marido se perde numa viagem. Em vez de menosprezar as peculiaridades aparentes do cônjuge e obstinadamente apegar-se às suas próprias, alegando que “é assim que eu sou”, cônjuges amorosos olham abaixo da superfície. Não se trata de um frio escrutínio do estilo de comunicação do outro, mas sim uma calorosa olhada no coração e na mente do outro.
Como cada pessoa é ímpar, também o é cada fusão de dois indivíduos no casamento. Uma verdadeira junção de mentes e corações não é acidental, mas exige empenho árduo devido à nossa natureza humana imperfeita. Por exemplo, é muito fácil presumir que os outros encarem as coisas assim como nós as encaramos. Muitas vezes suprimos as necessidades de outros da maneira como nós gostaríamos que fossem supridas as nossas, talvez tentando seguir a Regra de Ouro: “Todas as coisas, portanto, que quereis que os homens vos façam, vós também tendes de fazer do mesmo modo a eles.” (Mateus 7:12) Contudo, Jesus não quis dizer que aquilo que você deseja deva ser suficientemente bom para os outros. Em vez disso, você deseja que outros lhe dêem o que você necessita ou deseja. Portanto, você deve dar o que eles necessitam. Isto é especialmente vital no casamento, pois cada qual votou atender às necessidades de seu cônjuge tão plenamente quanto possível.
Raquel e Roberto fizeram tal voto. E sua união marital de dois anos tem sido feliz. Contudo, embora achem que conhecem um ao outro muito bem, às vezes surgem situações que revelam um largo abismo na comunicação que boas intenções apenas não podem sanar. “O coração do sábio faz que a sua boca mostre perspicácia”, diz Provérbios 16:23. Sim, a perspicácia na comunicação é a chave necessária. Vejamos que portas ela abre para Roberto e Raquel.
O conceito de um homem
Roberto navega num mundo competitivo onde cada homem tem de assumir seu lugar numa ordem social, seja ele um subordinado ou um superior numa dada situação. A comunicação serve para firmar sua posição, sua competência, sua aptidão ou seu valor. Sua independência lhe é preciosa. Assim, ao receber ordens em tom de exigência Roberto assume uma posição de resistência. A sutil mensagem “você não cuida bem de sua tarefa” torna-o rebelde, mesmo que o pedido seja lógico.
Roberto conversa basicamente para trocar informações. Ele gosta de falar sobre fatos, idéias e coisas novas que aprendeu.
Ao ouvir, Roberto raramente interrompe quem fala, nem mesmo com pequenas reações, tais como “hã!, sim!”, porque ele está assimilando informações. Mas se discorda, talvez não hesite em dizer isso, especialmente a um amigo. Isso mostra seu interesse no que seu amigo tem a dizer, explorando todas as possibilidades.
Se Roberto tem um problema, ele prefere buscar uma solução por conta própria. Assim ele talvez se afaste de todos e de tudo o mais. Ou talvez procure relaxar com alguma diversão para esquecer temporariamente seu dilema. Falará a respeito dele apenas se estiver buscando conselhos.
Se um homem procura Roberto com um problema, como no caso de Carlos, Roberto entende que é seu dever ajudar, cuidando para não fazer com que seu amigo se sinta incompetente. Junto com os conselhos, ele em geral fala de algumas dificuldades suas, para que seu amigo não ache que só ele tem problemas.
Roberto gosta de participar em atividades com amigos. Companheirismo para ele significa fazer coisas em conjunto.
O lar é para Roberto um refúgio da arena, um lugar onde não mais precisa falar para firmar sua posição, um lugar onde encontra aceitação, confiança, amor e apreço. Mesmo assim, Roberto acha que vez por outra precisa estar a sós. Talvez nada tenha a ver com Raquel, ou com algo que ela tenha feito. Ele simplesmente precisa passar alguns momentos a sós. Roberto acha difícil revelar seus temores, inseguranças e desgostos à sua esposa. Não quer que ela se preocupe. Sua tarefa é cuidar dela e protegê-la, e ele precisa que Raquel confie que ele fará isso. Ao passo que Roberto deseja apoio, não deseja comiseração. Isto o faz sentir-se incompetente ou inútil.
A perspectiva de uma mulher
Raquel vê a si mesma como uma pessoa num mundo de ligações sociais com outros. Para ela é importante estabelecer e fortalecer os vínculos dessas relações. Conversar é uma importante maneira de criar e reforçar o achego.
A dependência vem com naturalidade para Raquel. Ela se sente amada se Roberto procura conhecer os conceitos dela antes de tomar uma decisão, embora deseje que ele tome a dianteira. Quando tem de tomar uma decisão, ela gosta de consultar o marido, não necessariamente para que ele lhe diga o que fazer, mas para mostrar seu achego e dependência com relação a ele.
É muito difícil para Raquel falar explicitamente e dizer que necessita de algo. Não deseja importunar Roberto, nem levá-lo a achar que ela é infeliz. Em vez disso, ela espera ser notada ou faz insinuações.
Ao conversar, Raquel fica intrigada com detalhes e faz muitas perguntas. Isto é natural, por causa de sua sensibilidade e interesse intenso em pessoas e em relacionamentos.
Quando Raquel ouve, ela pontua as palavras do interlocutor com interjeições, gestos afirmativos com a cabeça, ou perguntas, para mostrar que está acompanhando o interlocutor e que se importa com o que ele tem a dizer.
Ela se esforça arduamente para saber intuitivamente o que as pessoas necessitam. Oferecer ajuda sem ser solicitada é uma bela maneira de mostrar amor. O que ela mais deseja é ajudar o marido a progredir na vida.
Quando Raquel tem um problema, talvez se sinta pressionada. Sente a necessidade de falar, não tanto para achar uma solução, mas para expressar seus sentimentos. Necessita saber que alguém entende e se importa. Com as emoções estimuladas, Raquel diz coisas avassaladoras, dramáticas. Ela não dá um sentido literal às suas palavras, quando diz: “Você nunca escuta!”
A melhor amiga de infância de Raquel não era alguém com quem ela fazia coisas em conjunto, mas alguém com quem conversava a respeito de tudo. Assim, no casamento ela não está tão interessada em atividades fora do lar, mas em ter um ouvinte que mostre empatia e com quem possa partilhar seus sentimentos.
O lar é um lugar em que Raquel pode falar sem ser julgada. Ela não hesita em revelar seus temores e problemas a Roberto. Se precisa de ajuda, não se envergonha de admitir isso, pois confia que pode contar com o marido e que ele se interessa o suficiente para escutá-la.
Raquel normalmente se sente amada e segura no seu casamento. Vez por outra, porém, sem nenhuma razão evidente, ela passa a sentir-se insegura e não amada e precisa urgentemente de renovada confiança e companheirismo.
Sim, Roberto e Raquel, complementos um do outro, são muito diferentes. As diferenças entre eles criam o potencial para sérios mal-entendidos, mesmo que ambos tenham as melhores das intenções quanto a ser amorosos e apoiadores. Se pudéssemos ouvir a perspectiva de cada um na situação acima, o que diriam?
Cada um enxergou o seu lado da questão
“Assim que entrei na casa percebi que Raquel estava deprimida”, diria Roberto. “Presumi que no momento oportuno ela me diria o motivo. O problema não me parecia ser tão grande assim. Eu achava que se eu simplesmente a ajudasse a ver que não havia necessidade de ficar tão deprimida, e que a solução era fácil, ela se sentiria melhor. Realmente feriu ouvi-la dizer, depois de eu a ter escutado: ‘Você nunca me escuta!’ Senti-me como se ela me culpasse de todas as suas frustrações!”
“O dia todo havia sido um só grande desastre”, Raquel explicaria. “Eu sabia que não era culpa do Roberto. Mas quando ele chegou em casa todo animado, parecia-me que ele desprezava o fato de eu estar deprimida. Por que não me perguntou qual era o problema? Quando eu lhe disse qual era, o que ele basicamente disse foi que eu estava sendo ingênua, e que tudo isso não passava de uma coisa muito pequena. Em vez de dizer que entendia como eu me sentia, Roberto, o ‘solucionador’, disse-me como sanar o problema. Eu não queria soluções, eu queria compreensão!”
Apesar das aparências dessa ruptura temporária, Roberto e Raquel amam-se muito. Que discernimento os ajudará a expressar inequivocamente esse amor?
Enxergar o outro lado
Roberto achou que seria intrusivo perguntar a Raquel qual era o problema, de modo que espontaneamente fez por ela o que gostaria que outros fizessem por ele. Esperou que ela se abrisse e falasse. Mas a essa altura Raquel estava deprimida não só por causa do problema, mas porque Roberto parecia desprezar sua necessidade de apoio. Ela não viu no silêncio dele um gesto de respeito gentil — viu nisso uma falta de interesse. Quando Raquel por fim falou, Roberto ouviu sem interrupção. Mas ela achou que ele não estava realmente entendendo seus sentimentos. Daí ele ofereceu, não empatia, mas uma solução. Isto dizia a ela: ‘Seus sentimentos nada valem; você está exagerando. Viu como é fácil resolver esse probleminha?’
Como seriam diferentes as coisas se cada qual pudesse ter visto as coisas do ponto de vista do outro! Poderia ter sido assim:
Roberto chega em casa e encontra Raquel deprimida. “Qual é o problema, querida?”, pergunta ele meigamente. Lágrimas começam a rolar, e as palavras borbulham. Raquel não diz: “É tudo culpa sua!”, nem insinua que Roberto não esteja fazendo o suficiente. Roberto põe o braço no ombro dela e escuta pacientemente. Quando ela termina, ele diz: “Lamento que você esteja se sentindo angustiada. Entendo por que você está tão deprimida.” Raquel responde: “Muito obrigada por ter escutado. Sinto-me muito melhor sabendo que você entende.”
Infelizmente, em vez de resolverem suas diferenças, muitos casais simplesmente preferem findar seu casamento no divórcio. A falta de comunicação é o vilão que devasta muitos lares. Explodem discussões que abalam os próprios alicerces do casamento. Como é que isso acontece? O artigo seguinte trata de como isso acontece e como evitar.
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A anatomia de uma discussãoDespertai! — 1994 | 22 de janeiro
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A anatomia de uma discussão
ELA necessita dar vazão a sentimentos. Ele deseja apresentar soluções. Os milhões de discussões maritais ao longo dos tempos talvez tenham tido muitas diferentes conotações, mas freqüentemente têm sido variações sobre alguns temas básicos. Entender a perspectiva ou o estilo de comunicação diferentes de seu cônjuge pode ajudar a reduzir esses flamejantes incêndios florestais a meras brasas incandescentes na lareira de um lar feliz.
“Não controle a minha vida!”
O estereótipo da esposa dominadora e importunadora pode ser a realidade para muitos maridos que se sentem constantemente encurralados por conselhos, pedidos e críticas. A Bíblia reconhece tais sentimentos, dizendo: “As contendas duma esposa são como a goteira do telhado, que afugenta.” (Provérbios 19:13) A esposa talvez faça um pedido a que seu marido silenciosamente resiste por razões que ela desconhece. Pensando que ele não escutou, ela então lhe diz o que fazer. A resistência dele aumenta. Uma esposa importunadora e um marido dominado pela mulher? Ou duas pessoas que simplesmente não se comunicaram com clareza?
Segundo a perspectiva da esposa, a melhor maneira de expressar seu amor pelo marido é dar-lhe conselhos úteis. Do ponto de vista do marido, ela está querendo mandar nele e insinuando que ele é incompetente. “Não esqueça a sua pasta”, é para ela uma declaração que denota interesse, o de certificar-se de que ele tenha o que necessita. Para ele isso evoca recordações de sua mãe bradando na porta atrás dele: “Você está levando casaco?”
Uma esposa cansada talvez diga meigamente: “Você gostaria de comer fora hoje à noite?”, querendo, na verdade, dizer: “Por que você não me leva para jantar fora? Estou cansada demais para cozinhar.” Mas seu dedicado marido talvez aproveite a ocasião para elogiar a comida dela e jurar que prefere a comida dela a qualquer outra. Ou talvez pense: ‘Ela está tentando me manipular!’ No ínterim, a esposa ressentida talvez diga a si mesma: ‘Deveria haver necessidade de eu pedir?’
“Você não me ama!”
“Como é que ela pode pensar isso?”, pergunta um marido frustrado, perplexo. “Eu trabalho, pago as contas, até mesmo lhe trago flores de vez em quando!”
Ao passo que todos os humanos necessitam sentir-se amados, a mulher tem necessidade especial de ser repetidamente assegurada disso. Talvez não o expresse em palavras, mas, no seu íntimo, ela talvez se sinta como uma carga indesejada, especialmente se seu ciclo mensal lhe dá certa dose de melancolia. Nessas ocasiões, seu marido talvez se retraia, pensando que ela quer um tempo para si mesma. Ela talvez interprete a falta de achego dele como confirmação de seus piores temores — ele não mais a ama. Talvez fale iradamente com ele, procurando forçá-lo a amá-la e a apoiá-la.
“Qual é o problema, querida?”
A reação de um homem diante de um problema estressante talvez seja procurar um lugar sossegado para ponderar sobre ele. A mulher talvez intuitivamente sinta alguma tensão e instintivamente reaja tentando tirá-lo da toca em que ele mesmo se meteu. Por mais bem-intencionados que sejam tais esforços, o marido os pode considerar intrusivos e humilhantes. À medida que se retrai para considerar seu problema, por cima dos ombros ele vê sua leal esposa seguindo-o com determinação. Ele ouve aquela persistente voz amorosa: “Querido, você está bem? Qual é o problema? Vamos falar sobre isso.”
Se não houver resposta, a esposa talvez se magoe. Quando ela tem um problema, ela deseja falar com o marido a respeito. Mas o homem que ela ama não deseja partilhar seus sentimentos. “Com certeza ele não me ama mais”, talvez conclua. Assim, quando o insuspeitoso homem finalmente emerge de seu mundo interior, contente com a solução que encontrou, encontra também, não o amoroso cônjuge preocupado que excluiu do processo, mas uma esposa irritada, pronta para desafiá-lo por tê-la deixado de fora.
“Você nunca me escuta!”
A acusação parece ridícula. Do ponto de vista dele, tudo o que ele sempre faz é escutar. Mas, à medida que a esposa fala, ela tem a nítida impressão de que suas palavras estão sendo escrutinadas e analisadas por um computador que soluciona um problema matemático. Suas suspeitas se confirmam quando, bem no meio de uma sentença, ele diz: “Ora, por que você simplesmente não . . . ?”
Quando a esposa apresenta um problema ao marido, muitas vezes ela não está lançando a culpa nele, tampouco buscando uma solução da parte dele. O que ela mais deseja é alguém compreensivo que ouvirá, não apenas os fatos frios, mas os sentimentos dela a respeito. Daí ela deseja, não conselhos, mas o reconhecimento de seus sentimentos. É por isso que muitos maridos bem-intencionados detonam uma explosão ao simplesmente dizerem: “Querida, você não devia se sentir assim. Isto não é tão sério.”
Há muitos casos em que as pessoas esperam que seus cônjuges adivinhem seus pensamentos. “Estamos casados há 25 anos”, disse certo homem. “Se até agora ela não sabe o que eu quero, é porque ela não se importa ou porque não presta atenção.” Certo autor diz em seu livro sobre as relações conjugais: “Quando os cônjuges não dizem um ao outro o que desejam, e constantemente criticam um ao outro por dormirem no ponto, não é de admirar que o espírito de amor e cooperação desapareça. Em seu lugar vem . . . a luta pelo poder, em que cada cônjuge tenta forçar o outro a atender às suas necessidades.”
“Você é muito irresponsável!”
A esposa talvez não diga isso tão abertamente a seu marido, mas pode deixar isso implícito no seu tom de voz. “Por que você está tão atrasado?”, poderia ser encarado como um pedido de informações. Mais provavelmente, porém, seu olhar acusador e suas mãos nos quadris dizem a seu marido: “Seu garotão irresponsável, você me deixou preocupada. Por que não me telefonou? Você não mostra consideração! Agora você estragou o jantar!”
Ela tem razão, naturalmente, a respeito do jantar. Mas, se surge uma discussão, será que a relação deles também corre risco? “A maioria das discussões acontece não porque duas pessoas discordem, mas porque ou o homem acha que a mulher desaprova seu ponto de vista ou a mulher desaprova a maneira como ele fala com ela”, observa o Dr. John Gray.
Alguns são da opinião de que no lar a pessoa devia ter a liberdade de deixar fluir as palavras. Mas o bom comunicador procura estabelecer um acordo e alcançar a paz, levando em conta os sentimentos do ouvinte. Podemos até certo ponto comparar esse tipo de conversa com servir a seu cônjuge um copo de água gelada em contraste com atirar essa água no rosto dele ou dela. Pode-se dizer que toda a diferença está na maneira de falar.
Aplicar as palavras de Colossenses 3:12-14 dissipará discussões e contribuirá para a felicidade no lar: “Revesti-vos das ternas afeições de compaixão, benignidade, humildade mental, brandura e longanimidade. Continuai a suportar-vos uns aos outros e a perdoar-vos uns aos outros liberalmente, se alguém tiver razão para queixa contra outro. Assim como Jeová vos perdoou liberalmente, vós também o fazei. Além de todas estas coisas, porém, revesti-vos de amor, pois é o perfeito vínculo de união.”
[Foto na página 9]
Ele defende os fatos, ela defende os sentimentos
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Um lar feliz em que dois equivalem a umDespertai! — 1994 | 22 de janeiro
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Um lar feliz em que dois equivalem a um
SE VOCÊ fosse construir uma casa sólida, segura e confortável, que materiais usaria? Madeira? Tijolos? Pedra? Eis o que o livro bíblico de Provérbios recomenda: “Os da casa serão edificados pela sabedoria, e serão firmemente estabelecidos pelo discernimento. E pelo conhecimento se encherão os quartos interiores com todas as coisas preciosas e agradáveis de valor.” (Provérbios 24:3, 4) Sim, construir um lar feliz exige sabedoria, discernimento e conhecimento.
Quem faz a construção? “A mulher realmente sábia edificou a sua casa, mas a tola a derruba com as suas próprias mãos.” (Provérbios 14:1) O mesmo se aplica ao homem sábio que vê que está ao seu alcance tornar seu casamento forte e feliz ou fraco e infeliz. Que fatores fazem a diferença? É muito interessante que as sugestões de certos conselheiros matrimoniais modernos coincidem tão bem com a sempre atual sabedoria da Palavra de Deus, escrita milhares de anos atrás.
Escutar: “Escutar com atenção é uma das melhores maneiras de demonstrar respeito a outra pessoa e é fundamental para edificar e manter uma relação íntima”, diz um livro sobre casamento. “O ouvido dos sábios procura achar conhecimento”, declara o provérbio. (Provérbios 18:15) Visto que ouvidos abertos não são visíveis como olhos abertos ou uma boca aberta, como se pode mostrar ao cônjuge que se está realmente escutando? Uma maneira é por ‘exteriorizar nossas reações’, ou o escutar ativo. — Veja o quadro na página 11.
Franqueza e intimidade: “A nossa cultura trabalha contra a franqueza”, observa o livro One to One—Understanding Personal Relationships (Um a Um — Entendendo as Relações Pessoais). “Somos ensinados desde a tenra idade a cuidar de nossos próprios assuntos — a sermos reservados a respeito de dinheiro, conceitos, sentimentos, . . . tudo que seja pessoal. Esta lição não desaparece simplesmente, mesmo quando nos ‘apaixonamos’. A menos que haja um esforço contínuo em favor da franqueza, a intimidade não pode florescer.” “Há frustração de planos quando não há palestra confidencial”, observa Provérbios, “mas há sabedoria com os que se consultam mutuamente”. — Provérbios 13:10; 15:22.
Lealdade e confiança: Marido e esposa votaram perante Deus ser leais. Quando os cônjuges confiam que cada qual está lealmente compromissado ao outro, o amor não é prejudicado pela suspeita, orgulho, espírito de competição ou preocupação com ganhar o seu quinhão justo.
Compartilhar: Uma relação se aprofunda com experiências compartilhadas. Com o tempo o casal pode tecer um inestimável mosaico de história que cada qual preza. Cogitar romper esse vínculo de amizade nem lhes passa pela mente. “Há um amigo que se apega mais do que um irmão.” — Provérbios 18:24.
Bondade e ternura: Atos de bondade reduzem as fricções da vida e diluem o orgulho. Padrões de bondade, se arraigados, permanecem intactos mesmo que as emoções se acalorem durante desacordos, minimizando assim o dano. A ternura cria um ambiente caloroso em que o amor pode crescer. Embora especialmente para o homem seja difícil expressar brandura, a Bíblia diz: “A coisa desejável no homem terreno é a sua benevolência.” (Provérbios 19:22) Quanto à boa esposa, “a lei da benevolência está sobre a sua língua”. — Provérbios 31:26.
Humildade: Um antídoto para o veneno do orgulho, a humildade induz a prontos pedidos de desculpa e a freqüentes expressões de agradecimento. Que dizer se você é realmente inocente de uma alegada ofensa? Por que não dizer brandamente: “Lamento que você esteja tão aborrecido”? Manifeste preocupação com as sensibilidades de seu cônjuge, e daí, juntos, vejam como corrigir o mal. “Para o homem é uma glória desistir duma disputa.” — Provérbios 20:3.
Respeito: “A palavra-chave para se reconhecer as diferenças mútuas e resolvê-las juntos é respeito. O que é importante para um cônjuge pode não ser tão importante para o outro. Não obstante, cada cônjuge sempre pode respeitar os conceitos do outro.” (Keeping Your Family Together When the World Is Falling Apart [Mantenha Unida Sua Família num Mundo Que Se Desintegra]) “Pela presunção só se causa rixa, mas há sabedoria com os que se consultam mutuamente.” — Provérbios 13:10.
Senso de humor: As mais densas nuvens de crise podem ser dissipadas com uma boa risada juntos. Isso faz vibrar os vínculos do amor e alivia a tensão que muitas vezes estropia o raciocínio claro. “O coração alegre tem bom efeito sobre o semblante.” — Provérbios 15:13.
Dar: Procure positivamente achar coisas a respeito de seu cônjuge que sejam apreciáveis e elogie-o generosamente por isso. Esses elogios ansiados podem produzir uma reação de coração maior do que uma gravata de seda ou um buquê de flores. Naturalmente, ainda assim pode-se comprar ou fazer coisas boas um para o outro. Mas “as maiores dádivas que você pode dar”, diz o livro Lifeskills for Adult Children (Habilidades na Vida para Filhos Adultos), “não podem ser colocadas numa caixa. Estas são suas expressões de amor e apreço, seu encorajamento e sua ajuda”. “Como maçãs de ouro em esculturas de prata é a palavra falada no tempo certo para ela.” — Provérbios 25:11.
Se pudéssemos comparar essas qualidades a tijolos de construção da relação conjugal, a comunicação seria a argamassa necessária para cimentá-los. Portanto, o que podem fazer os casais quando surgem desacordos? “Em vez de encarar os conceitos diferentes de seu cônjuge como fonte de conflito, . . . considere-os como fonte de conhecimento. . . . Os detalhes da vida cotidiana se tornam uma mina de ouro de informações”, diz o livro Getting the Love You Want (Como Conseguir o Amor Que Você Deseja).
Encare toda ocasião de desacordo, portanto, não como convocação às armas, mas sim como preciosa oportunidade de entender melhor aquele que você ama. Aceitem juntos o desafio de sanar as diferenças e navegar para os tranqüilos portos da harmonia, fortalecendo assim os vínculos, aprofundando o amor que faz com que vocês dois sejam um só.
Jeová Deus vê grande beleza na cooperação, de modo que a implantou na sua criação — no dar e receber do ciclo do oxigênio nas plantas e animais, as órbitas dos corpos celestes, as relações simbióticas entre insetos e flores. Portanto, também na união marital pode existir um caloroso ciclo em que o marido, em palavras e em ações, reafirma à sua esposa seu amor por ela e uma confiante e amorosa esposa que prazerosamente segue a liderança dele. Assim, os dois realmente se tornam um, trazendo alegria um para o outro e ao Originador do casamento, Jeová Deus.
[Quadro na página 11]
“Prestai atenção a como escutais.” — Lucas 8:18
O ouvir ativo é um método de assegurar-se de que quem fala e quem ouve realmente entendem um ao outro. É às vezes chamado de exteriorizar as reações, visto que o ouvinte tenta refletir as palavras que ouve e o sentido que capta. Estes são os passos básicos:
1. Preste detida atenção; escute em busca de importantes mensagens.
2. Atente aos sentimentos por trás das palavras.
3. Repita ao interlocutor o que você ouve. Não julgue, não critique, nem discuta. Simplesmente permita que a pessoa saiba que você recebeu corretamente a mensagem. Reconheça os sentimentos.
4. O interlocutor provavelmente confirmará ou então corrigirá o que você diz e talvez se alongue um pouco no assunto.
5. Se você entendeu errado, tente de novo.
O escutar ativo é especialmente eficaz em amenizar o ferrão da crítica. Aceite o fato de que a crítica muitas vezes se baseia em alguma verdade. Ela pode ser apresentada de maneira dolorosa, mas, em vez de defensivamente lançar a dor de volta contra o crítico, por que não usar o ouvir ativo para abrandar a situação? Reconheça que você compreende possíveis sentimentos de contrariedade pelos quais talvez seja responsabilizado e veja como o assunto pode ser retificado.
[Quadro na página 12]
“Se alguém tiver razão para queixa.” — Colossenses 3:13
Se você tiver uma queixa, qual é a melhor maneira de apresentá-la sem iniciar uma guerra? Primeiro, dê a seu cônjuge mérito por ser bem-intencionado. Talvez ache que ele ou ela não mostrou consideração e foi irrefletido, impetuoso, insensato — mas em geral é provável que não se pretendia causar mal. Calmamente expresse seus sentimentos sem acusação: “Quando você fez isso, eu me senti . . .” Não há nenhum combustível para disputa aqui. Simplesmente declara como você se sente e não acusa seu cônjuge. Visto que a pessoa talvez de forma alguma intencionasse magoá-lo, a reação pode ser a negação ou a autojustificação. Concentre-se no problema, porém, e esteja pronto para propor uma solução.
[Foto na página 10]
Escutar com atenção é uma das melhores maneiras de demonstrar respeito a outra pessoa
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