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Como o crime organizado afeta vocêDespertai! — 1997 | 8 de março
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Como o crime organizado afeta você
DO CORRESPONDENTE DE DESPERTAI! NO JAPÃO
O chefe de uma família da Máfia dá uma picada no dedo do iniciado. O sangue pinga sobre o quadro de um “santo”. Daí, o quadro é queimado. ‘Se você divulgar algum segredo da organização, sua alma queimará como esse santo’, diz o chefe ao iniciado.
O CÓDIGO do silêncio (omertà, em italiano) manteve o crime organizado quase na obscuridade, por muitos anos. Hoje, porém, gangues de criminosos são manchete em toda a parte, à medida que alguns comparsas viram delatores. A mais destacada figura já acusada por esses pentiti, ou desertores da Máfia, foi Giulio Andreotti, que foi sete vezes primeiro-ministro da Itália e agora está sendo julgado por suas ligações com a Máfia.
As organizações criminosas em toda a parte estenderam seus tentáculos a todos os campos de atuação: a Máfia, na Itália e nos Estados Unidos, onde é também conhecida como Cosa Nostra; os cartéis das drogas, na América do Sul; as Tríades, da China; os yakuza, no Japão. Suas atividades vis afetam todos nós e aumentam o custo de vida.
Nos Estados Unidos, segundo se diz, a Máfia divide a cidade de Nova York em cinco famílias, que ganham bilhões de dólares com extorsão, redes de proteção, agiotagem, jogo, narcotráfico e prostituição. As famílias da Máfia, alegadamente, pressionam os sindicatos da coleta do lixo, dos transportes rodoviários, da construção civil, da distribuição de alimentos e da indústria têxtil. Com o poder que têm sobre os sindicatos elas podem resolver disputas trabalhistas, ou sabotar um projeto. Num canteiro de obras, por exemplo, um dia um grande trator não funciona, noutro dia os freios de uma retroescavadeira falham, e os operadores entram em “operação tartaruga” — esses e outros incidentes persistem até que o construtor ceda às exigências da quadrilha, sejam estas subornos ou contratos de trabalho. De fato, “subornos à Quadrilha podem garantir aos empresários o fornecimento de mercadorias, a paz trabalhista e o uso de trabalhadores de baixa remuneração”, diz a revista Time.
Na Colômbia, dois cartéis das drogas competiam entre si até que Pablo Escobar, o chefe do cartel de Medellín, foi morto a tiros em 1993. Depois disso, o cartel de Cali passou a monopolizar o tráfico mundial de cocaína. Ganhando 7 bilhões de dólares em 1994, apenas nos Estados Unidos, tornou-se provavelmente o maior grupo do crime organizado no mundo. Mas, a prisão, em 1995, do chefão José Santacruz Londoño, foi um duro golpe contra o cartel. No entanto, sempre há um sucessor ávido de preencher a vaga do chefe.
Com o desabamento da Cortina de Ferro, a Máfia russa estreou no palco internacional. Em resultado disso, “todo empreendimento financeiro precisa lidar com a máfia”, diz um banqueiro citado na revista americana Newsweek. Mesmo em Brighton Beach, Nova York, a Máfia russa alegadamente está auferindo enormes lucros de complicados esquemas de fraude ligados à gasolina. Quem acaba pagando a conta são os donos de carro, e o governo perde impostos. As gangues russas também controlam redes de prostituição na Europa Oriental. Elas escapam impunes da maioria dos crimes. Quem ousaria enfrentar os fortemente armados ex-atletas ou veteranos da guerra afegã?
A situação não é diferente no Oriente. No Japão, os envolvidos no mundo dos espetáculos precisam contar com todo tipo de problemas, a menos que honrem o grupo yakuza local e lhe paguem tributo. Ali também exige-se dinheiro em troca de proteção de bares e até de prostitutas. Além disso, os yakuza se infiltraram fundo na economia japonesa, criando as suas próprias empresas, extorquindo dinheiro de grandes conglomerados e estabelecendo ligações com grupos criminosos do exterior.
Organizações criminosas com base em Hong Kong e em Taiwan (Formosa) também estão estendendo a sua rede em todo o mundo. Além de seu nome, Tríades, pouco se sabe sobre como funcionam. A sua história remonta ao século 17, quando monges chineses se uniram contra os manchus que tomaram a China. Embora tenham dezenas de milhares de membros, as Tríades em Hong Kong, segundo consta, formam grupos temporários para cometer um crime específico ou uma série de crimes, dificultando assim o trabalho de identificação da polícia. Ganham bilhões de dólares com o tráfico de heroína e transformaram Hong Kong num centro de falsificação de cartões de crédito.
Em seu livro The New Ethnic Mobs (As Novas Quadrilhas Étnicas), William Kleinknecht escreve sobre o crime nos Estados Unidos: “No novo mundo do crime organizado, nenhum grupo étnico de gângsteres tem mais futuro do que os chineses. . . . Grupos criminosos chineses estão ganhando rapidamente poder em cidades por todo o país. . . . Perdem apenas para a Máfia, em Nova York.”
Sobre outro tipo de tráfico ilegal que emana de Hong Kong, um funcionário do Departamento de Justiça americano disse: “A entrada ilegal de estrangeiros é uma das pontas do crime organizado.” Certas autoridades estimam que 100.000 chineses entram ilegalmente nos Estados Unidos, todo ano. O típico imigrante ilegal paga pelo menos 15 mil dólares por sua entrada numa nação rica, a maior parte disso depois que chega ao seu destino. Assim, para muitos imigrantes, a vida no país de seus sonhos vira um pesadelo em forma de trabalho forçado em empregos extenuantes e de baixa remuneração, ou em bordéis.
Por não se envolver em atividades criminosas, você talvez ache que o crime organizado não o afeta. Mas, será que não afeta? Muitos viciados em drogas, de vários continentes, cometem crimes para pagar as drogas fornecidas pelos cartéis sul-americanos. O crime organizado cuida de que contratos de serviços públicos sejam feitos com empresas ligadas a ele; assim, os cidadãos pagam mais pelos serviços. A Comissão Presidencial sobre Crime Organizado disse certa vez que, nos Estados Unidos, “o crime organizado distorce os custos por meio de roubo, extorsão, suborno, fixação de preços e restrição à livre concorrência”, e que os consumidores são obrigados a pagar o que “se poderia chamar de taxa extra” para a Máfia. Portanto, ninguém escapa dos efeitos do crime. Todos nós pagamos a conta.
Mas, por que o crime organizado prospera hoje em dia?
[Quadro na página 5]
A origem da Máfia
“A Máfia surgiu na Sicília em fins da Idade Média, onde possivelmente começou como organização secreta dedicada a derrubar o regime dos vários conquistadores estrangeiros da ilha — e.g., saracenos, normandos e espanhóis. A Máfia deve a sua origem a membros de muitos pequenos exércitos particulares, ou mafie, que eram contratados por donos de terra ausentes para proteger suas terras contra bandidos, nas condições de anarquia que prevaleceram em grande parte da Sicília ao longo dos séculos. Durante os séculos 18 e 19, os vigorosos rufiões desses exércitos particulares se organizaram e se tornaram tão poderosos que se voltaram contra os donos de terra e viraram a única lei em muitas propriedades, extorquindo dinheiro de donos de terra em troca de proteção de suas plantações.” (The New Encyclopædia Britannica) Extorquir dinheiro em troca de proteção virou seu modus operandi. Eles levaram seus métodos para os Estados Unidos, onde se infiltraram no jogo, na chantagem trabalhista, na agiotagem, no narcotráfico e na prostituição.
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Por que o crime organizado prosperaDespertai! — 1997 | 8 de março
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Por que o crime organizado prospera
AL CAPONE, o mal-afamado gângster do período da Lei Seca (1920-33) nos EUA, afirmava que ele era apenas um homem de negócios a serviço da lei da oferta e da procura. Um advogado do maior grupo yakuza do Japão disse: “É inegável que existe grande demanda de [sexo, drogas e jogo].” Essa demanda alimenta o crime organizado. Embora ninguém deseje ser vítima do crime, alguns talvez recorram a organizações criminosas e usem seus serviços.
Tome, por exemplo, os serviços de “proteção” que criminosos em muitos países usam como fonte de renda. Ainda que eles, às vezes, visem comerciantes ou industriais honestos, em geral investem contra os que operam negócios escusos. Um dono de cassino em Shinjuku, Tóquio, que opera seus negócios sob o disfarce de um salão de jogos legal, disse: “Um funcionário foi esfaqueado e lhe roubaram [20 mil dólares]. Mas não chamamos a polícia.” Por que não? “Visto que exploramos uma atividade ilegal (o jogo), não queremos ter nada a ver com a polícia. Se um freqüentador faz arruaças no salão nós chamamos os yakuza.” Esse operador de cassino paga US$ 4.000 por mês aos yakuza, uma taxa pequena em comparação com os US$ 300.000 que ele lucra com sua atividade ilegal no mesmo período. De onde vem o dinheiro? Dos bolsos dos que gostam do jogo ilegal.
O mesmo se dá com relação a evitar problemas em negócios respeitáveis. Uma agência de Nova York estima que certo empreiteiro de pintura que ganha US$ 15 milhões por ano economizou US$ 3,8 milhões subornando gângsteres. Com isso ele pôde usar mão-de-obra barata e evitar confronto com o sindicato, controlado por uma quadrilha. No Japão, durante um período de prosperidade econômica, os aplicadores injetaram dinheiro em imóveis e demoliram casas e lojas velhas para dar lugar a edifícios suntuosos. Se os moradores não desocupassem ou não vendessem a sua propriedade, os investidores chamavam os jiageya, na maior parte empresas ligadas aos yakuza, para desapropriá-los.
Nos anos 80, percebendo a facilidade de levantar empréstimos e ganhar dinheiro, os yakuza fundaram empresas e mergulharam na especulação imobiliária e no mercado de ações. Os bancos e instituições financeiras investiram nessas empresas, obviamente visando seus próprios lucros. Mas, quando esse boom econômico acabou, os bancos tiveram muita dificuldade em recuperar o seu dinheiro. Referindo-se à prolongada recessão no Japão, um ex-chefe policial disse, na Newsweek: “A verdadeira razão da impossibilidade de resolver prontamente os problemas dos maus empréstimos é que boa parte deles tem ligação com o crime organizado.”
Sem dúvida, o crime organizado cria raízes e prospera onde as pessoas anseiam satisfazer as suas paixões, custe o que custar. A ganância de prazer, de sexo e de dinheiro cria um solo fértil para o comércio de drogas, a prostituição, o jogo e a agiotagem. Envolver-se nessas atividades em geral significa ajudar a enriquecer a quadrilha. O crime organizado está realmente a serviço dos que se inclinam a satisfazer as suas próprias paixões!
Falso sistema de família
Além da demanda de operações ilícitas, há hoje outra demanda que estimula o crime organizado. O falecido chefe de um dos maiores grupos yakuza do Japão afirmava que ele acolhia os fora-da-lei, cuidava deles, evitando assim que virassem grandes criminosos. Afirmava ser um pai para os membros da quadrilha. A maioria dos grupos criminosos, seja de que nacionalidade for, constrói a sua organização em cima dessa falsa relação familiar.
Veja o caso de Chi Sun,a de uma família pobre de Hong Kong. Seu pai muitas vezes o surrava violentamente, por razões triviais. O jovem Chi Sun rebelou-se e acabou ingressando na famosa Tríades aos 12 anos de idade. Nessa organização criminosa ele encontrou um lugar que achava ser “seu”. Por causa de sua bravura no confronto armado, logo recebeu um posto de comando sobre vários homens. Por fim, com apenas 17 anos, foi para a cadeia.
Muitos, assim como Chi Sun, procuram organizações criminosas em busca do vínculo familiar que não existia no lar. Os membros da quadrilha dizem que se interessam e zelam por eles, mas muitos dos mais jovens se desencantam ao descobrir que cada membro se interessa principalmente por si mesmo.
Anjo de luz
Quando o maior sindicato do crime no Japão foi enquadrado como grupo violento sob uma nova lei antigangue, em 1992, um de seus líderes afirmou que os de seu grupo se consideravam “nobres” na batalha contra o mal. Por ocasião do terrível terremoto em Kobe, em 1995, essa mesma gangue distribuiu alimentos, água e outros itens de emergência à população. “Essa generosidade”, disse o jornal Asahi Evening News, “visa reforçar a imagem de foras-da-lei honrados que os yakuza sempre tiveram no Japão”.
Muitos chefes de grupos criminosos tentam passar uma imagem de benfeitor. Pablo Escobar, o famoso ex-chefe do cartel de Medellín, na Colômbia, era para os favelados de sua cidade “uma figura lendária — parte Messias, parte Robin Hood, parte Padrinho no sentido quase feudal de patrón, o chefe”, escreveu Ana Carrigan na Newsweek. Ele construiu pistas de patinação para crianças, boas casas para os pobres e deu emprego para crianças de rua. Era um herói para os que se beneficiavam de sua generosidade.
Criminosos que parecem se esconder com segurança atrás de suas organizações são apenas tentáculos de um criminoso mestre universal. A Bíblia revela a sua identidade. “O próprio Satanás persiste em transformar-se em anjo de luz. Portanto, não é grande coisa se os ministros dele também persistem em transformar-se em ministros da justiça. Mas o fim deles será segundo as suas obras.” (2 Coríntios 11:14, 15) Hoje, a maioria das pessoas não crê que Satanás é uma pessoa real. Um poeta francês do século 19 disse: “A tática mais esperta do Diabo é persuadir você de que ele não existe.” Ele fica nos bastidores manipulando os acontecimentos, não só nos grupos do crime mas também no mundo inteiro. “O mundo inteiro jaz no poder do iníquo”, diz a Bíblia. Jesus classificou Satanás de ‘homicida quando começou, mentiroso e pai da mentira’. — 1 João 5:19; João 8:44.
Segundo as profecias bíblicas, Satanás, o Diabo, está ativo especialmente desde 1914. A partir daquele ano ele tem mobilizado as suas hordas numa guerra total contra o povo de Deus. Está tragando a humanidade num redemoinho de caos. Ele é o principal responsável pela atual prosperidade do crime e das organizações criminosas. — Revelação (Apocalipse) 12:9-12.
Será que esse mentor das organizações criminosas será eliminado algum dia? Viverá a humanidade algum dia em paz e ordem? É possível você libertar-se do perverso império que Satanás montou na Terra?
[Nota(s) de rodapé]
a Alguns nomes foram mudados por razões de segurança dos envolvidos.
[Quadro na página 7]
Como Proteger a Sua Família
A FALTA de um ambiente familiar caloroso e unido pode fazer dos jovens uma presa fácil dos grupos do crime. Nos Estados Unidos, alegadamente, a maioria dos jovens que se mete em assassinatos de gangue vem de lares menos favorecidos ou rompidos. “Sendo desprivilegiados”, diz um funcionário de uma casa de detenção na Carolina do Norte, “eles se deixam facilmente seduzir pelo forte vínculo entre o chefe e os subordinados e pelo senso de identidade como membro de uma organização, que eles experimentam pela primeira vez na vida”.
Similarmente, no Oriente, um jovem yakuza disposto a servir de escudo vivo para seu chefe diz: “Em casa eu vivia sempre sozinho. Embora fôssemos uma família, nunca achei que pudéssemos ter uma conversa franca. . . . Mas agora posso abrir o coração com os caras [membros da quadrilha].” Jovens solitários sentem-se gratos a membros de uma organização criminosa que os introduzem numa “família”.
“Os yakuza são pessoas muito, muito paternais”, diz a líder de um grupo de motoqueiras de Okinawa, no Japão. “Esse talvez seja o truque deles; assim, visto que nunca fomos tratadas com ternura, isso nos cativa.” A supervisora de uma instituição para meninas delinqüentes confirma que os gângsteres “sabem realmente cativar o coração das meninas”. Quando meninas solitárias os chamam no meio da noite, os gângsteres logo as procuram e ouvem o que elas têm a dizer, sem necessariamente fazer uma investida sexual.
Essa atitude paternal dura apenas até terem cativado plenamente os jovens visados. Uma vez tendo caído na armadilha, eles são explorados ao máximo — as moças nas redes de prostituição e os rapazes na máquina do crime.
Como proteger seus familiares
“Vós, pais, não estejais exasperando os vossos filhos, para que não fiquem desanimados”, admoesta a Bíblia. (Colossenses 3:21) Isso não é um convite à permissividade. Diz um provérbio bíblico: “O rapaz deixado solto causará vergonha à sua mãe.” (Provérbios 29:15) A Bíblia realmente incentiva os pais a tratar os filhos com razoabilidade, a escutá-los e a manter abertas as linhas de comunicação. Assim, os filhos serão motivados a ter a seus pais como confidentes, nos seus momentos de angústia.
Além de comunicação aberta, os pais (principalmente o pai) precisam dar aos filhos um bom modelo de comportamento. Onde o pai pode achar tal diretriz? A Bíblia diz: “Vós, pais, não estejais irritando os vossos filhos, mas prossegui em criá-los na disciplina e na regulação mental de Jeová.” (Efésios 6:4) Tome tempo para estudar a Bíblia com seus filhos, por meio de sessões de estudo bíblico familiar. E implante em seus corações um temor sadio de Jeová, de modo que sempre seguirão a Sua diretriz, para o próprio bem deles. — Isaías 48:17.
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Um mundo sem crime: como?Despertai! — 1997 | 8 de março
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Um mundo sem crime: como?
A LUTA contra o crime organizado é mundial. “Tem-se feito bom progresso contra a Máfia num período bem curto”, disse a revista U.S.News & World Report, “em boa parte devido a uma lei, a Lei contra Organizações Influenciadas pela Chantagem e Corruptas, ou RICO [em inglês]”. Ela permite a condenação de organizações criminosas caracterizadas por atividades de chantagem ou de extorsão, não apenas de atos individuais. Isso, junto com informações colhidas de interceptações telefônicas e de criminosos informantes em busca de indulto, contribuem para o sucesso na batalha contra a Máfia nos Estados Unidos.
Também na Itália, as autoridades atacam duramente as quadrilhas. Em regiões como a Sicília, a Sardenha e a Calábria, onde o crime organizado é forte, unidades do exército patrulham edifícios públicos e outras áreas importantes para prevenir ataques de criminosos. O governo encara isso quase como guerra civil. Com chefes famosos dos grupos do crime na prisão e um ex-primeiro-ministro indiciado por suas alegadas ligações com a Máfia, a Itália está obtendo alguns resultados.
No Japão, o governo apertou o cerco contra os yakuza quando fez vigorar a Lei Anticrime Organizado, em 1.º de março de 1992. Sob essa lei, quando uma organização de gângsteres é identificada, ela sofre proibições de 11 atos de coação violenta, incluindo suborno, proteção por chantagem e cobrança de taxas para ajudar a resolver disputas. Com a aplicação dessa lei o governo espera secar todas as fontes de renda das quadrilhas. Essa lei bateu duro nas organizações criminosas. Alguns grupos debandaram, e um chefe do crime se suicidou — aparentemente por causa da rigorosa aplicação dessa lei.
Sem dúvida, os governos e os agentes repressores travam uma luta árdua contra o crime organizado. Mesmo assim, o jornal Mainichi Daily News, falando sobre uma conferência de juízes e autoridades policiais de todo o mundo, realizada em 1994, disse: “O crime organizado se consolida e enriquece em praticamente todo o mundo, com renda anual de um trilhão de dólares.” Lamentavelmente, os empenhos humanos de erradicar da Terra os grupos criminosos são limitados. Uma razão disso, em muitos casos, é a lentidão e a falta de garantia da lei. Muitos acham que as leis não raro parecem favorecer o criminoso, não a vítima. A Bíblia declarou uns 3.000 anos atrás: “Por não se ter executado prontamente a sentença contra um trabalho mau é que o coração dos filhos dos homens ficou neles plenamente determinado a fazer o mal.” — Eclesiastes 8:11.
Como sair de organizações criminosas
Além do combate externo ao crime organizado, alguns governos tentam ajudar os que estão dentro dos grupos do crime a sair deles. Não é fácil sair. Segundo um velho adágio, “a única maneira de sair da Máfia é num caixão de defunto”. Um yakuza que deseja sair da quadrilha precisa pagar uma grande soma ou então ter seu dedinho da mão, ou parte dele, decepado. Além do medo de romper os laços com o submundo do crime, o ex-gângster precisa enfrentar a realidade de levar uma vida correta. Seus pedidos de emprego muitas vezes são recusados. Em alguns países, porém, há linhas telefônicas diretas com a polícia para ajudar gângsteres arrependidos e que tenham dificuldades em encontrar um emprego honroso.
Para enfrentar as pressões da gangue e o preconceito da sociedade, o gângster que deseja levar uma vida correta precisa ter uma motivação forte. O que poderia motivá-lo? Talvez o amor pela família, o anseio de uma vida pacífica ou o desejo de fazer o que é certo. A motivação mais forte, contudo, é bem ilustrada na história de Yasuo Kataoka, no próximo artigo.
Yasuo Kataoka é típico de centenas de pessoas que mudaram radicalmente de vida. As suas anteriores más qualidades foram substituídas pela nova personalidade “criada segundo a vontade de Deus, em verdadeira justiça e lealdade”. (Efésios 4:24) Agora, pessoas que eram como lobos convivem pacificamente com cidadãos brandos, semelhantes a cordeiros, e até mesmo ajudam outros! — Isaías 11:6.
Liberte-se do espírito do mundo
Conforme mencionado no artigo anterior, não só os grupos do crime, mas também o mundo inteiro, estão sob o comando único, invisível, de Satanás, o Diabo. Sem as pessoas se darem conta disso, Satanás organizou o mundo para servir aos objetivos criminosos dele. Assim como os grupos do crime propiciam riqueza e pseudofamílias, Satanás age como Benfeitor, dando às pessoas riquezas, prazeres e um senso de participação. É possível que, sem se ter dado conta disso, você já tenha entrado no esquema vil de Satanás. (Romanos 1:28-32) A Bíblia diz que “a amizade com o mundo é inimizade com Deus”. (Tiago 4:4) Não é seguro achegar-se a este mundo, que está sob influência satânica. O Criador do Universo tem um exército de anjos, sob as ordens de Jesus Cristo, pronto para aprisionar Satanás e seus demônios a fim de livrar o mundo de sua influência perversa. — Revelação (Apocalipse) 11:18; 16:14, 16; 20:1-3.
Mas como você pode se livrar da influência do mundo de Satanás? Não por viver como recluso, mas por abandonar atitudes e conceitos que dominam o mundo de hoje. Para isso, é preciso lutar contra as táticas intimidadoras de Satanás e resistir aos seus incentivos para manter as pessoas nas suas garras. (Efésios 6:11, 12) Isso exigirá sacrifícios, mas você poderá se libertar assim como outros se libertaram, se estiver decidido a isso e se aproveitar da ajuda que as Testemunhas de Jeová oferecem.
O que virá depois de Deus exterminar esse caótico mundo do crime? “Quanto à descendência dos iníquos, será deveras decepada”, diz a Bíblia, acrescentando: “Os próprios justos possuirão a terra e residirão sobre ela para todo o sempre.” (Salmo 37:28, 29) Naquele tempo, não mais haverá motivo para se ter pavor dos que tinham qualidades animalescas, pois estes terão sido transformados pelo “conhecimento de Jeová”, que encherá a Terra. — Isaías 11:9; Ezequiel 34:28.
Hoje em dia essa transformação já é uma realidade, como mostra a história de um ex-membro da yakuza, no Japão, no próximo artigo.
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Libertei-me do crime organizado − “Eu era um yakuza”Despertai! — 1997 | 8 de março
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Libertei-me do crime organizado − “Eu era um yakuza”
“PAPAI, quando você voltar para casa, vamos juntos às reuniões. Você me promete, não?” Esse apelo foi feito numa carta por minha segunda filha, quando eu estava na prisão pela terceira vez. Ela assistia às reuniões das Testemunhas de Jeová, junto com minha esposa. Visto que as cartas da minha família eram meu único consolo, prometi atender ao pedido.
‘Por que levo uma vida de crime que me afasta da família?’, eu me perguntava. Lembrei-me de quando eu era bem pequeno. Meu pai morreu quando eu tinha apenas 18 meses, portanto, nem me lembro de como ele era. Minha mãe casou-se duas vezes depois disso. Essas circunstâncias familiares afetaram-me profundamente, e no curso secundário comecei a associar-me com arruaceiros. Tornei-me violento e participava de muitas brigas fora da escola. No segundo ano do 2.º grau organizei um grupo de estudantes para brigar com outro grupo. Fui preso e encaminhado a um reformatório.
Eu era como uma bola descendo um morro, na direção de uma vida de violência. Pouco depois, organizei um bando de delinqüentes e matávamos tempo na sede de um grupo yakuza. Aos 18 anos, tornei-me membro habilitado desse grupo. Com 20 anos, fui preso por vários atos de violência e condenado a três anos de prisão. Primeiro, cumpri pena na Prisão Juvenil de Nara, mas meu comportamento não melhorou. Assim, fui enviado para outra prisão, para adultos. Mas eu piorei e acabei em Kyoto, numa prisão para criminosos empedernidos.
‘Por que cometo esses crimes?’, eu me perguntava. Vejo agora que isso era devido ao meu raciocínio tolo. Naquele tempo, eu achava que agir assim era ser macho, uma prova da minha masculinidade. Quando fui solto da prisão, aos 25 anos de idade, meus comparsas me encaravam como “alguém”. O caminho estava aberto para minha ascensão no mundo do crime.
Reações da minha família
Casei-me por volta dessa época e logo tivemos duas filhas. Mas a minha vida não mudou. A polícia estava sempre ao meu encalço — eu surrava pessoas e praticava extorsão. Todo incidente me ajudava a ganhar o respeito dos meus comparsas e a confiança do chefe. Por fim, meu “irmão” yakuza mais velho chegou ao topo da gangue e tornou-se chefe. Fiquei feliz em tornar-me o número dois.
‘O que minha esposa e minhas filhas acham do meu modo de vida?’, eu me perguntava. Com certeza se envergonhavam de ter um marido e pai criminoso. Fui preso de novo aos 30 anos e, mais uma vez, aos 32. Desta vez, os três anos na prisão foram realmente duros. Minhas filhas foram proibidas de me visitar. Eu sentia falta de falar com elas e abraçá-las.
Mais ou menos quando comecei a cumprir essa última pena, minha esposa passou a estudar a Bíblia com as Testemunhas de Jeová. Quase todos os dias ela me escrevia a respeito das verdades que aprendia. ‘Que verdade é essa de que minha esposa vive falando?’, eu me perguntava. Li a Bíblia inteira na prisão. Dei valor ao que minha esposa dizia nas cartas a respeito de uma esperança para o futuro e sobre o propósito de Deus.
A esperança de os humanos viverem para sempre no Paraíso na Terra me atraía, pois eu tinha verdadeiro pavor da morte. Eu sempre pensava: ‘O perdedor é aquele que morre.’ Vejo agora que era o medo da morte que me impelia a ferir os outros, antes que eles me ferissem. As cartas da minha esposa também me fizeram ver a frivolidade do meu alvo de subir na hierarquia do mundo das gangues.
Mesmo assim, isso não me induziu a estudar a verdade. Minha esposa dedicou-se a Jeová e tornou-se Testemunha de Jeová batizada. Embora na carta eu tivesse concordado em ir às reuniões, não estava nos meus planos tornar-me Testemunha de Jeová. Eu achava que minha esposa e minhas filhas haviam se afastado muito de mim, deixando-me para trás.
Saída da prisão
Finalmente chegou o dia da minha soltura. No portão da Prisão de Nagoya, muitos gângsteres se enfileiravam para me cumprimentar. No meio da multidão, porém, eu procurava apenas minha esposa e minhas filhas. Vendo minhas filhas, que haviam crescido muito no período de três anos e meio, não pude conter as lágrimas.
Dois dias depois, cumpri a promessa feita a minha segunda filha e assisti a uma reunião das Testemunhas de Jeová. Fiquei surpreso com o espírito alegre dos presentes. As Testemunhas acolheram-me calorosamente, mas eu me senti deslocado. Quando, tempos depois, fiquei sabendo que aqueles que me haviam cumprimentado sabiam do meu passado criminoso, fiquei perplexo. Senti o seu calor humano, porém, e gostei do discurso bíblico que foi proferido. Era sobre pessoas viverem para sempre no Paraíso na Terra.
A idéia de minha esposa e minhas filhas sobreviverem para a vida no Paraíso e eu ser destruído me afligia muito. Meditei seriamente sobre o que eu deveria fazer para viver eternamente com a minha família. Comecei a pensar em largar a vida de gângster, e passei a estudar a Bíblia.
Larguei minha vida criminosa
Parei de assistir às reuniões de gangues e de me associar com os yakuza. Não era fácil mudar meus conceitos. Eu andava de carro grande, importado, por puro prazer — isso massageava o meu ego. Só depois de três anos troquei-o por um modelo mais modesto. Eu também tinha a tendência de procurar uma saída fácil para os problemas. Ao aprender a verdade, porém, vi que tinha de mudar. Mas, como diz Jeremias 17:9, “o coração é mais traiçoeiro do que qualquer outra coisa e está desesperado”. Eu sabia o que era certo, mas achava difícil aplicar o que aprendia. Meus problemas pareciam uma enorme montanha. Isso me atribulava, e, muitas vezes, pensei em largar o estudo e desistir da idéia de tornar-me Testemunha de Jeová.
Daí, meu instrutor convidou um superintendente viajante, que tinha um passado semelhante ao meu, para proferir um discurso público na nossa congregação. Ele viajou uns 640 quilômetros, de Akita a Suzuka, especialmente para me encorajar. Depois disso, sempre que eu me cansava e pensava em parar, recebia uma carta dele, perguntando-me se eu continuava firme nos caminhos do Senhor.
Eu orava persistentemente a Jeová para que me ajudasse a cortar todas as ligações com a yakuza. Sempre achei que Jeová atenderia à minha oração. Em abril de 1987, finalmente consegui sair da yakuza. Visto que meu serviço me obrigava a viajar todos os meses para o exterior, longe da família, arranjei um emprego de zelador de edifício. Com isso eu tinha as tardes livres para atividades espirituais. Pela primeira vez na vida recebi um salário fixo. Era pequeno, mas eu me sentia muito feliz.
Quando eu era o número dois numa organização yakuza eu tinha muitos bens materiais, mas agora tenho riquezas espirituais imperecíveis. Conheço a Jeová. Conheço seus propósitos. Minha vida é orientada por princípios. Tenho amigos que realmente se importam comigo. No mundo yakuza os gângsteres assumiam um ar paternal, mas, nenhum yakuza que conheci, nem um único sequer, se sacrificaria em favor de outros.
Em agosto de 1988 simbolizei minha dedicação a Jeová pelo batismo em água e, no mês seguinte, comecei a empregar pelo menos 60 horas mensais na divulgação das boas novas que haviam mudado a minha vida. Sirvo como ministro de tempo integral desde março de 1989 e, recentemente, recebi o privilégio de ser servo ministerial na congregação.
Consegui livrar-me da maioria dos vestígios da minha vida de yakuza. Há um que resiste, porém. É a tatuagem no meu corpo, uma lembrança para mim, minha família, e outros, do meu passado yakuza. Certa vez, minha filha mais velha voltou chorando para casa, dizendo que não mais iria à escola porque suas amigas haviam-lhe dito que eu era yakuza e tinha tatuagens. Consegui esclarecer o assunto para as minhas filhas, e elas entenderam a minha situação. Aguardo o dia em que a Terra será um paraíso e minha carne se tornará “mais fresca do que na infância”. Daí, minhas tatuagens e as recordações de 20 anos de vida de yakuza serão coisas do passado. (Jó 33:25; Revelação [Apocalipse] 21:4) — Conforme narrado por Yasuo Kataoka.
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