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Qual é a origem da vida?Existe um Criador Que Se Importa com Você?
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Como, então, poderia vir a existir vida na Terra? Tentativas modernas de responder a essa pergunta podem remontar aos anos 20, aos trabalhos do bioquímico russo Alexander I. Oparin. Ele e outros cientistas desde então têm produzido algo parecido com o texto de um drama de três atos, que representa o que supostamente ocorreu no palco do planeta Terra. O primeiro ato mostra os elementos, ou matérias-primas, da Terra virarem grupos de moléculas. Em seguida, o salto para moléculas maiores. E o último ato apresenta o salto para a primeira célula viva. Mas foi realmente assim que tudo aconteceu?
Nesse drama, é fundamental explicar que a atmosfera primitiva da Terra era muito diferente do que é hoje. Segundo certa teoria, praticamente não havia oxigênio livre, e os elementos nitrogênio, hidrogênio e carbono formaram o amoníaco e o metano. A ideia é que, quando os relâmpagos e a luz ultravioleta caíram sobre uma atmosfera formada por esses gases e vapor de água, surgiram açúcares e aminoácidos. Mas tenha em mente que é uma teoria.
Nesse drama teórico, essas formas moleculares escorreram para os oceanos ou para outros corpos de água. Com o tempo, os açúcares, os ácidos e os outros componentes formaram um caldo de “sopa pré-biótica”, na qual os aminoácidos, por exemplo, combinaram-se e viraram proteínas. Estendendo essa progressão teórica, outros componentes, os nucleotídeos, formaram cadeias e viraram ácido nucleico, como o DNA. Tudo isso, supostamente, preparou o cenário para o ato final do drama molecular.
Pode-se chamar esse último ato, de que não se tem registro, de história de amor. As moléculas de proteína e as moléculas do DNA encontraram-se por acaso, houve compatibilidade e elas se uniram. Daí, pouco antes de fechar as cortinas, nasce a primeira célula viva. Se você viesse acompanhando esse drama, talvez se perguntasse: ‘Isso é vida real ou ficção? Poderia a vida na Terra realmente ter-se originado dessa maneira?’
Gênese em laboratório?
No início dos anos 50, os cientistas resolveram testar a teoria de Alexander Oparin. Era um fato estabelecido que vida vem apenas de vida, mas os cientistas teorizavam que, se as condições fossem diferentes no passado, a vida poderia ter surgido lentamente de algo sem vida. Poderia ser demonstrado isso? O cientista Stanley L. Miller, do laboratório de Harold Urey, tomou hidrogênio, amoníaco, metano e vapor de água (presumindo ser esta a constituição da atmosfera primitiva), lacrou-os num frasco com água fervente no fundo (para representar um oceano), e disparou faíscas elétricas (como relâmpagos) através dos vapores. Depois de uma semana apareceram vestígios de uma goma avermelhada, que Miller analisou e descobriu ser rica em aminoácidos — a essência das proteínas. É provável que você tenha ouvido falar dessa experiência, pois há anos ela é mencionada em livros de ciência e nas escolas para explicar como a vida na Terra começou. Explica mesmo?
Na verdade, o valor da experiência de Miller é seriamente questionado hoje em dia. (Veja “Clássica, mas questionável”, páginas 36-37.) Não obstante, seu sucesso aparente levou a outros testes que até mesmo produziram componentes encontrados em ácidos nucleicos (DNA ou RNA). Especialistas no campo (às vezes chamados de cientistas da origem da vida) estavam otimistas, pois aparentemente haviam reproduzido o primeiro ato do drama molecular. E parecia que as versões em laboratório dos dois atos restantes se seguiriam. Certo professor de Química afirmou: “A explicação da origem de um primitivo sistema de vida por meio de mecanismos evolucionários está bem à vista.” E um articulista científico observou: “Os magos especulavam que os cientistas, como o Dr. Frankenstein, de Mary Shelley, num passe de mágica logo fariam surgir organismos vivos em seus laboratórios e, assim, demonstrar em detalhes como se deu a gênese.” O mistério da origem espontânea da vida, muitos achavam, estava desvendado. — Veja “Direita, esquerda”, página 38.
Mudam as opiniões, persistem os enigmas
Em anos posteriores, porém, esse otimismo se evaporou. Passaram-se décadas, e os segredos da vida continuam esquivos. Uns 40 anos depois de seu experimento, o professor Miller disse à revista Scientific American: “O problema da origem da vida revelou ser muito mais difícil do que eu, e a maioria das outras pessoas, imaginava.” Outros cientistas também mudaram de opinião. Por exemplo, em 1969, o professor de Biologia Dean H. Kenyon foi coautor do livro Biochemical Predestination (Predestinação Bioquímica). Mais recentemente, porém, ele concluiu que seria “fundamentalmente implausível que matéria e energia não assistidas se organizassem em sistemas vivos”.
De fato, os trabalhos de laboratório comprovam a afirmação de Kenyon de que existe “uma falha fundamental em todas as teorias correntes a respeito das origens químicas da vida”. Depois que Miller e outros sintetizaram aminoácidos, os cientistas passaram a tentar fabricar proteínas e DNA, necessários para a vida na Terra. Após milhares de experiências com as chamadas condições pré-bióticas, qual foi o resultado? O livro “O Mistério da Origem da Vida: Reavaliando Teorias Correntes” (em inglês) observa: “Há um contraste impressionante entre o considerável sucesso em sintetizar aminoácidos e o persistente fracasso de sintetizar proteínas e DNA.” Os empenhos nesse último sentido são “fracassos constantes”.
Realisticamente, o mistério envolve mais do que como surgiram as primeiras moléculas de proteína e de ácido nucleico (DNA ou RNA). Inclui como é que elas trabalham juntas. “É somente pela parceria dessas duas moléculas que a vida contemporânea na Terra é possível”, diz The New Encyclopædia Britannica. Contudo, como essa parceria se formou, observa essa enciclopédia, ainda é “um problema crucial e não resolvido na questão da origem da vida”. Sem dúvida.
O Apêndice A, “Equipe a serviço da vida” (páginas 45-47), considera alguns detalhes básicos do instigante trabalho de equipe das proteínas e dos ácidos nucleicos nas nossas células. Mesmo esse relance no âmbito das células do nosso corpo desperta admiração pelo trabalho de cientistas nesse campo. Eles têm lançado luz sobre processos extremamente complexos nos quais poucos de nós sequer pensam, processos que, no entanto, funcionam todo instante de nossa vida. De outro ângulo, porém, a espantosa complexidade e precisão exigidas leva-nos de novo à pergunta: como é que tudo isso surgiu?
Talvez saiba que os cientistas da origem da vida não cessam de tentar criar um cenário plausível para o drama do surgimento da vida. No entanto, seus novos textos não estão sendo convincentes. (Veja o Apêndice B, “Do ‘mundo do RNA’ ou de outro mundo?”, página 48.) Por exemplo, Klaus Dose, do Instituto de Bioquímica em Mainz, Alemanha, observou: “No presente, todas as discussões sobre as teorias e experiências principais nesse campo acabam em impasse ou em admissão de desconhecimento.”
Mesmo na Conferência Internacional sobre a Origem da Vida, em 1996, nenhuma solução foi apresentada. Em vez disso, a revista Science publicou que os cerca de 300 cientistas reunidos “haviam-se digladiado com o enigma de como surgiram as moléculas do [DNA e RNA] e como evoluíram em células autorreprodutoras”.
Foi preciso inteligência e educação superior para estudar e até mesmo começar a explicar o que ocorre a nível molecular nas nossas células. É razoável crer que etapas complicadas ocorreram primeiro numa “sopa pré-biótica”, sem direção, espontaneamente e por acaso? Ou havia mais envolvido?
Por que os enigmas?
A pessoa hoje pode repassar quase meio século de especulações e milhares de tentativas de provar que a vida originou-se por si mesma. Se fizer isso, será difícil discordar do prêmio Nobel Francis Crick. Discorrendo sobre teorias da origem da vida, Crick observou que “há demasiada especulação em cima de fatos escassos demais”. Portanto, é compreensível que alguns cientistas que examinam os fatos concluam que a vida é complexa demais para despontar mesmo num sofisticado laboratório, muito menos num ambiente sem controle.
Se a ciência avançada não pode provar que a vida poderia surgir por si mesma, por que alguns cientistas ainda se apegam a tais teorias? Algumas décadas atrás, o professor John D. Bernal lançou alguma luz sobre isso no livro The Origin of Life (A Origem da Vida): “Pela aplicação dos estritos cânones [regras] do método científico a esse assunto [a geração espontânea da vida], é possível demonstrar eficazmente em vários pontos na história que a vida não poderia ter surgido [espontaneamente]; as improbabilidades são grandes demais, as chances da emergência de vida são pequenas demais.” Ele acrescentou: “Lamentável desse ponto de vista, a vida existe aqui na Terra em toda a sua multiplicidade de formas e atividades, e os argumentos para justificar a sua existência precisam ser distorcidos.” E o quadro não melhorou.
Considere as implicações subjacentes de tal raciocínio. É como dizer: ‘Cientificamente é correto dizer que a vida não poderia ter começado por si mesma. Mas o surgimento espontâneo da vida é a única possibilidade que aceitamos. Assim, é preciso distorcer os argumentos para apoiar a hipótese de que a vida surgiu espontaneamente.’ Fica satisfeito com essa lógica? Não exige tal raciocínio muita ‘distorção’ dos fatos?
Existem, no entanto, cientistas cultos e respeitados que não acham necessário distorcer os fatos para ajustá-los a uma filosofia corrente a respeito da origem da vida. Em vez disso, permitem que os fatos apontem para uma conclusão razoável. Que fatos e que conclusão?
Informações e inteligência
Entrevistado num documentário, o professor Maciej Giertych, renomado geneticista do Instituto de Dendrologia da Academia Polonesa de Ciências, declarou:
“Estamos cientes da quantidade maciça de informações contidas nos genes. A ciência não sabe como tais informações poderiam ter surgido espontaneamente. É preciso uma inteligência; não poderiam ter surgido de casualidades. Simplesmente misturar letras não produz palavras.” Ele acrescentou: “Por exemplo, o complexíssimo sistema de duplicação de proteínas do DNA e do RNA na célula tinha de ser perfeito logo de início. Senão, os sistemas de vida não poderiam existir. A única explicação lógica é que essa massa de informações originou-se de uma inteligência.”
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Qual é a origem da vida?Existe um Criador Que Se Importa com Você?
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Clássica, mas questionável
A experiência de Stanley Miller, de 1953, muitas vezes é citada como evidência de que a geração espontânea poderia ter acontecido no passado. A validade de sua explicação, contudo, baseia-se na suposição de que a atmosfera primordial da Terra era “de redução”. Isso significa que continha apenas a menor quantidade de oxigênio livre (não combinado quimicamente). Por quê?
O livro “O Mistério da Origem da Vida: Reavaliando Teorias Correntes” (em inglês) destaca que, se houvesse muito oxigênio livre, ‘nenhum aminoácido poderia ter sido formado e, se por acaso fosse formado, se decomporia rapidamente’.a Quão sólida foi a suposição de Miller a respeito da chamada atmosfera primitiva?
Num documento clássico publicado dois anos depois de sua experiência, Miller escreveu: “É claro que essas ideias são especulações, pois não sabemos se a Terra realmente tinha uma atmosfera de redução quando foi formada. . . . Até agora não se achou nenhuma evidência direta.” — Journal of the American Chemical Society, 12 de maio de 1955.
Encontrou-se mais tarde essa evidência? Uns 25 anos depois, o articulista científico Robert C. Cowen publicou: “Os cientistas estão tendo de repensar algumas de suas suposições. . . . Surgiram poucas evidências em apoio da noção de uma atmosfera rica em hidrogênio, altamente de redução; no entanto, há certas evidências contra ela.” — Technology Review, abril de 1981.
E desde então? Em 1991, John Horgan escreveu em Scientific American: “Na última década, mais ou menos, aumentaram as dúvidas a respeito das suposições de Urey e Miller sobre a atmosfera. Experiências em laboratório e reconstruções computadorizadas da atmosfera . . . sugerem que a radiação ultravioleta do Sol, hoje bloqueada pelo ozônio atmosférico, teria destruído as moléculas à base de hidrogênio na atmosfera. . . . Tal atmosfera [dióxido de carbono e nitrogênio] não teria sido conducente à síntese de aminoácidos e de outros precursores da vida.”
Por que, então, muitos ainda sustentam que a atmosfera primitiva da Terra era de redução, contendo pouco oxigênio? Em Molecular Evolution and the Origin of Life (Evolução Molecular e a Origem da Vida), Sidney W. Fox e Klaus Dose respondem: na atmosfera certamente não havia oxigênio porque, por um lado, “experiências em laboratório mostram que a evolução química . . . seria grandemente inibida pelo oxigênio” e porque componentes tais como os aminoácidos “não são estáveis no decurso de períodos geológicos na presença de oxigênio”.
Não é isso um raciocínio evasivo? A atmosfera primitiva era de redução, diz-se, pois do contrário a geração espontânea da vida não poderia ter ocorrido. Mas realmente não existe certeza de que era de redução.
Ainda há outro detalhe importante: se a mistura de gases representa a atmosfera, a faísca elétrica imita o relâmpago e a água fervente seria o mar — o que, ou a quem, representa o cientista que faz a experiência?
[Nota(s) de rodapé]
a O oxigênio é altamente reativo. Por exemplo, ele se combina com o ferro e forma ferrugem, ou com o hidrogênio e forma água. Se houvesse muito oxigênio livre numa atmosfera quando os aminoácidos estivessem sendo montados, ele rapidamente se combinaria com as moléculas orgânicas e as desmancharia, à medida que fossem formadas.
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