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Algo mais duradouro que a arteDespertai! — 2007 | abril
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Lá me encontraria com Anja Keto, 17 anos mais nova que eu. Embora eu não conhecesse Anja, aceitei com prazer a designação e fui morar com ela. Nós éramos as únicas Testemunhas de Jeová na região, de modo que quase sempre trabalhávamos juntas no ministério. Logo nos tornamos amigas inseparáveis.
A mudança para Jalasjärvi significou levar novamente uma vida simples, parecida à que eu levava antes de fazer parte do meio artístico da capital 20 anos antes. Os invernos eram muito rigorosos e por vezes tínhamos de caminhar com dificuldade pela neve que chegava até os quadris. Morávamos numa pequena cabana bem simples. Nós pegávamos água numa nascente próxima e, mesmo dentro de casa, às vezes uma camada de gelo se formava na superfície da água durante a noite. Mas tínhamos tudo de que precisávamos. (1 Timóteo 6:8) Aqueles foram dias felizes e cheios de atividades.
Ocupada numa atividade recompensadora
No início, porém, nossos esforços não pareciam dar muitos resultados por causa do preconceito dos habitantes sobre nós. A fim de ajudá-los a entender nossa obra, decidimos mostrar filmes produzidos pelas Testemunhas de Jeová, como A Sociedade do Novo Mundo em Ação e A Felicidade da Sociedade do Novo Mundo. Esses filmes os familiarizaram conosco e com nossa organização, ajudando-os a ver os efeitos positivos de nossas atividades sobre as pessoas no mundo inteiro. Muitos compareceram a essas exibições.
Em certa ocasião, Eero Muurainen, um superintendente viajante das Testemunhas de Jeová, mostrou o filme A Sociedade do Novo Mundo em Ação em um salão comunitário. O local ficou tão cheio que o único lugar que encontrei foi num canto, no fundo do salão. Tive de ficar encostada na parede, apoiando-me numa perna só, pois não havia espaço para colocar o outro pé no chão. Quando o filme terminou, muitos nos procuraram e pediram que os visitássemos.
Nós também usávamos um grande gravador para reproduzir discursos bíblicos em fazendas. Certa vez, combinamos apresentar um desses discursos às 19 horas na casa de uma família. Tínhamos convidado todo o povoado para a reunião. Cedo naquela manhã, saímos em nossas bicicletas para pregar num povoado, que ficava a uns 25 quilômetros de distância, pensando que daria tempo de voltarmos antes da hora marcada. No entanto, ao deixarmos o povoado, a chuva havia transformado a estrada num verdadeiro lamaçal.
Por fim, nossas bicicletas ficaram tão cheias de lama que as rodas pararam de girar. Tivemos de carregá-las até chegar em casa. Em resultado disso, só conseguimos sair de casa para a reunião marcada quando já era tarde da noite. Saímos arrastando nosso pesado gravador e chegamos lá às 22 horas. Tínhamos quase certeza de que todos já teriam ido embora. Mas para nossa surpresa, a casa estava cheia de pessoas ainda esperando por nós. Depois do discurso, seguiu-se uma animada conversa. Quando finalmente chegamos em casa de madrugada, estávamos cansadas demais, porém, muito felizes.
As distâncias entre os povoados eram tão grandes que as Testemunhas de Jeová da região nos ajudaram a comprar um carro velho de fabricação russa. Isso facilitou muito nossa pregação. Mais tarde, nosso carro ficou famoso. Durante sua visita, o bispo da diocese disse aos fiéis de sua paróquia que não recebessem as duas senhoras do carro azul. Esses avisos tiveram um efeito imediato nas pessoas. Elas queriam saber quem eram as duas senhoras e por que eram consideradas tão perigosas. A curiosidade daquelas pessoas levou a excelentes conversas sobre a Bíblia. Sem dúvida, as palavras de Isaías são verdadeiras: “Nenhuma arma que se forjar contra ti será bem sucedida.” — Isaías 54:17.
Com o tempo, nosso trabalho produziu frutos. Começamos a realizar reuniões semanais com um pequeno grupo de pessoas interessadas. Por fim, esse grupo cresceu e, em 1962, uma congregação de 18 Testemunhas de Jeová, na maioria mulheres, foi formada. Dois anos depois, eu e Anja fomos transferidas para a cidade de Ylistaro, na mesma região.
Um ambiente inspirador
Em nossa nova designação, apreciávamos a beleza e a tranqüilidade do interior, mas gostávamos em especial das pessoas. Elas geralmente eram hospitaleiras e amigáveis. É verdade que muitos eram profundamente religiosos e patriotas e, às vezes, com raiva, se recusavam a nos escutar. Mas havia outros que mostravam grande respeito pela Bíblia. Em muitas ocasiões ao pegarmos a Bíblia, as mulheres paravam seus afazeres para escutar e os homens tiravam seus chapéus — algo muito raro de ocorrer. Às vezes, quando dirigíamos um estudo bíblico, todos da casa, e até mesmo os vizinhos, assistiam ao estudo.
As pessoas honestas e sinceras que eu encontrava na pregação serviam de inspiração para o meu trabalho artístico. Quando tinha tempo, eu pegava um pouco de argila e começava a trabalhar nela. Visto que sempre fiquei fascinada pelas atraentes e engraçadas características humanas, quase todas as minhas estátuas retratavam pessoas. Muitas delas mostravam mulheres realizando suas tarefas domésticas. Um artigo de revista disse o seguinte sobre minhas peças: “Elas transmitem tranqüilidade e emanam o calor da terra, junto com humor e um equilíbrio descontraído . . . Um terno afeto pelas pessoas e uma rica habilidade artística são a fonte criativa por trás dessas estátuas.” No entanto, tomei cuidado para não dar excessiva atenção à arte. Eu me apeguei à minha decisão de servir a Jeová por tempo integral.
Em 1973, recebi uma proposta de trabalho que eu não poderia nem pensar em recusar. A sede das Testemunhas de Jeová em Vantaa, na Finlândia, pediu que eu esculpisse um grande relevo em argila para seu novo saguão. O Salmo 96:11-13 foi escolhido como tema dessa obra. Fiquei muito feliz de poder usar minhas habilidades para louvar a Jeová.
Visto que nos meus anos de pioneira a arte era principalmente para minha própria satisfação, fiquei surpresa ao receber, no final da década de 70, uma aposentadoria como artista. É claro que gostei de receber aquela ajuda financeira, mas pensei comigo mesma: ‘Será que isso é tudo que eu conseguiria caso tivesse dedicado minha vida à arte? Um pouco mais de dinheiro para tornar os meus anos de aposentada mais seguro?’ Como isso era pouco em comparação com a recompensa da vida eterna! — 1 Timóteo 6:12.
De volta à cidade
Em 1974 tivemos uma mudança e tanto em nossa vida e ministério. Fomos designadas para Turku, uma cidade grande. Na época, novos apartamentos estavam sendo construídos lá e, com a chegada de muitas pessoas, houve a necessidade de publicadores do Reino. No início, não estávamos muito contentes com nossa nova designação urbana. Pregar na cidade parecia mais difícil visto que muitos reagiam de forma apática. Mas aos poucos nos acostumamos ao novo território e encontramos muitos que apreciavam as verdades da Bíblia.
Com o passar dos anos, Anja e eu tivemos o privilégio de ajudar mais de 40 pessoas a dedicar a vida a Jeová. Como esses filhos espirituais alegram nosso coração! (3 João 4) Nos últimos anos, minha saúde tem deteriorado, mas tenho sentido ainda mais plenamente o apoio de Jeová, o amor da congregação e o “auxílio fortificante” de Anja, minha querida companheira de serviço. (Colossenses 4:11; Salmo 55:22) Quando conheci Anja há quase 50 anos, acho que nenhuma de nós poderia imaginar que nossa parceria no serviço de pioneiro duraria toda uma vida.
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Algo mais duradouro que a arteDespertai! — 2007 | abril
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[Foto na página 21]
Com Anja (esquerda), 1957
[Foto na página 22]
Com Anja (direita) hoje
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