-
O futuro sombrio da floresta tropical úmidaDespertai! — 1997 | 22 de março
-
-
Os isolados “mortos-vivos”
Noventa anos atrás, o escritor e humorista americano Mark Twain descreveu essa fascinante floresta como “terra encantada, terra prodigamente rica em maravilhas tropicais, terra misteriosa em que todas as aves, as flores e os animais mereciam ser exibidos em museus, e em que todos os jacarés, os crocodilos e os macacos vivem tão à vontade como se estivessem num zoológico”. Hoje, essas palavras espirituosas de Twain sofreram uma distorção inquietante. Museus e zoológicos talvez sejam em breve os únicos refúgios para um crescente número das maravilhas tropicais da Amazônia. Por quê?
A causa principal, obviamente, é a derrubada da floresta pelo homem, que destrói o lar natural da flora e fauna da região. Contudo, além da destruição indiscriminada do habitat, há outras causas, mais sutis, que estão transformando espécies de animais e de plantas, embora ainda vivos, em “mortos-vivos”. Em outras palavras, as autoridades acham inevitável a extinção dessas espécies.
Uma dessas causas é o isolamento. Autoridades governamentais favoráveis à preservação talvez banam a motosserra num determinado bolsão da floresta para assegurar a sobrevivência de espécies ali. Contudo, a perspectiva final que uma pequena ilha-floresta oferece para tais espécies é a morte. O informe Protecting the Tropical Forests—A High-Priority International Task (Proteger as Florestas Tropicais — Tarefa Internacional de Alta Prioridade) ilustra com um exemplo por que pequenas ilhas-florestas não sustentam a vida por muito tempo.
Árvores tropicais muitas vezes são constituídas de macho e fêmea. Para se reproduzirem, elas contam com a ajuda de morcegos que transportam o pólen das flores machos para as flores fêmeas. Naturalmente, essa polinização ocorre apenas se as árvores estiverem dentro dos limites de alcance de vôo do morcego. Se a distância entre uma árvore fêmea e uma árvore macho tornar-se grande demais — como muitas vezes acontece quando uma ilha-floresta acaba rodeada por um oceano de terra ressequida — o morcego não consegue cobrir a lacuna. As árvores, diz o informe, tornam-se então “‘mortos-vivos’, pois a sua reprodução, a longo prazo, não é mais possível”.
Esse vínculo entre árvores e morcegos é apenas uma das relações que constituem a comunidade natural amazônica. Em termos simples, a floresta amazônica é comparável a uma suntuosa mansão que oferece casa e comida para muitos indivíduos diferentes, porém estreitamente interligados. Para evitar a superlotação, os habitantes da floresta tropical úmida vivem em diferentes andares, alguns perto do chão da floresta, outros lá na copa das árvores. Todos os moradores têm tarefas a cumprir, e eles trabalham 24 horas por dia — alguns de dia, outros de noite. Se se permitir que todas as espécies executem tranqüilamente as suas tarefas, essa complexa comunidade de flora e fauna amazônica funcionará com precisão cronométrica.
O ecossistema da Amazônia (“eco” vem de oikos, a palavra grega para “casa”) é, porém, frágil. Mesmo que a interferência humana nessa comunidade florestal se limite a explorar algumas espécies, a ruptura do ecossistema repercute em todos os andares da casa-floresta. O conservacionista Norman Myers estima que a extinção de uma única espécie de planta pode acabar contribuindo para a extinção de até 30 espécies de animais. E, visto que a maioria das árvores tropicais, por sua vez, depende dos animais para a dispersão de sementes, o extermínio de espécies de animais, pelo homem, leva à extinção das árvores às quais eles servem. (Veja o quadro “A interação árvore-peixe”.) Assim como o isolamento, romper relações consigna mais e mais espécies florestais às fileiras dos “mortos-vivos”.
Pequenos cortes, pequenas perdas?
Alguns justificam o desmatamento de pequenas áreas alegando que a floresta se recuperará e criará uma nova cobertura verde sobre o terreno desmatado, assim como o corpo cria pele nova depois de um corte no dedo. Certo? Bem, não exatamente.
Naturalmente, é verdade que a floresta devastada renasce, caso o homem a deixe em paz por tempo suficiente. Mas também é verdade que a nova cobertura de vegetação é tão diferente da floresta original como uma fotocópia de má qualidade é diferente de um original excelente. Ima Vieira, botânica brasileira, estudou uma área de floresta recuperada, de um século de existência, na Amazônia. Ela descobriu que, das 268 espécies de árvores que cresciam na floresta primária, apenas 65 fazem parte da nova floresta hoje. Essa mesma diferença, diz a botânica, vale para as espécies de animais da região. Portanto, embora o desmatamento não esteja transformando, como alguns dizem, florestas verdes em desertos vermelhos, está realmente transformando partes da floresta tropical amazônica em pobres imitações da original.
Além disso, a derrubada de até mesmo uma pequena área da mata não raro destrói muitas plantas e animais rastejantes e trepadores que procriam e vivem apenas naquele segmento da floresta, e em mais nenhum outro lugar. Pesquisadores no Equador, por exemplo, encontraram 1.025 espécies de plantas numa certa área de 1,7 quilômetro quadrado de floresta tropical. Mais de 250 dessas espécies não crescem em mais nenhum outro lugar na Terra. “Um exemplo local”, diz o ecologista brasileiro Rogério Gribel, “é o sauim-de-coleira”, um charmoso macaquinho que parece estar usando uma camiseta branca. “Os poucos que restam vivem apenas num pequeno bolsão da mata perto de Manaus, no Amazonas central, mas a destruição desse pequeno habitat”, diz o Dr. Gribel, “exterminará essa espécie para sempre”. Pequenos cortes, mas grandes perdas.
Arrancando o “tapete”
O desmatamento indiscriminado, contudo, prenuncia o mais alarmante futuro para a floresta tropical amazônica. Construtores de estradas, madeireiros, mineradores e muitos outros estão destruindo a floresta como se estivessem arrancando um tapete do chão, arrasando ecossistemas inteiros num piscar de olhos.
Embora haja profunda discordância sobre os números exatos da taxa anual de destruição da mata no Brasil — estimativas conservadoras indicam 36.000 quilômetros quadrados por ano — o total da floresta amazônica já destruído pode ser mais de 10%, uma área maior do que a Alemanha. Veja, o principal semanário brasileiro, publicou que os fazendeiros que derrubam e queimam as matas produziram cerca de 40.000 focos de incêndio no país, em 1995 — cinco vezes mais do que no ano anterior. O homem está incendiando a floresta com tal vigor, alertou Veja, que partes da Amazônia parecem um “inferno na fronteira verde”.
Espécies estão desaparecendo; e daí?
‘Mas’, alguns perguntam, ‘precisamos mesmo de todos esses milhões de espécies?’ Sim, precisamos, argumenta o conservacionista Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard. “Visto que dependemos de ecossistemas operacionais para limpar a nossa água, enriquecer o nosso solo e criar o próprio ar que respiramos”, diz Wilson, “é óbvio que a biodiversidade não é algo para se descartar descuidadamente”. Diz o livro People, Plants, and Patents (Pessoas, Plantas e Patentes): “O acesso à abundante diversidade genética será a chave da sobrevivência humana. Se a diversidade acabar, nós também logo acabaremos.”
Realmente, o impacto da destruição das espécies vai muito além de árvores tombadas, animais ameaçados de extinção e nativos molestados. (Veja o quadro “O fator humano”.) O encolhimento das florestas pode afetar você. Pense nisso: um lavrador em Moçambique cortando talos de mandioca; uma mãe no Usbequistão tomando uma pílula anticoncepcional; um menino ferido em Sarajevo recebendo morfina; ou uma freguesa numa loja de Nova York provando uma fragrância exótica — todas essas pessoas, observa o Instituto Panos, de Londres, usam produtos originários de florestas tropicais. A floresta intacta, portanto, serve a pessoas em todo o mundo — incluindo você.
-
-
O futuro sombrio da floresta tropical úmidaDespertai! — 1997 | 22 de março
-
-
O fator humano
A ruptura do ecossistema e o desmatamento estão prejudicando não apenas as plantas e os animais, mas também os seres humanos. Cerca de 300.000 índios, o remanescente dos 5.000.000 que outrora habitavam a região amazônica brasileira, ainda vivem integrados ao seu meio ambiente florestal. Os índios são cada vez mais perturbados por madeireiros, garimpeiros, mineradores e outros, muitos dos quais consideram os índios como “obstáculos ao desenvolvimento”.
Há também os caboclos, uma gente rija de ascendência branca e indígena, cujos antepassados se instalaram na Amazônia uns 100 anos atrás. Morando em casas sobre palafitas às margens de rios, talvez nunca tenham ouvido a palavra “ecologia”, mas eles vivem da floresta sem destruí-la. No entanto, o seu dia-a-dia está sendo afetado pelas ondas de migrantes que invadem os seus domínios.
De fato, em toda a floresta amazônica, o futuro de uns 2.000.000 de colhedores de castanhas, seringueiros, pescadores, e outros nativos, que convivem harmoniosamente com os ciclos da floresta e o regime das águas, é incerto. Muitos acreditam que os esforços de preservação das florestas deviam ir além de proteger pés de mogno e peixes-boi. Deviam proteger também os habitantes humanos das florestas.
-