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  • É normal sentir-se assim?
    Quando Morre Alguém Que Amamos
    • É normal sentir-se assim?

      UM HOMEM enlutado escreve: “Quando eu era menino, na Inglaterra, ensinaram-me a não expressar meus sentimentos em público. Lembro-me de que meu pai, ex-militar, dizia-me com dentes cerrados: ‘Não chore!’ sempre que algo me causava dor. Não consigo lembrar-me de minha mãe alguma vez ter beijado ou abraçado a nós (quatro) filhos. Eu tinha 56 anos quando vi meu pai falecer. Senti uma enorme perda. Mas, no começo, não conseguia chorar.”

      Em algumas culturas, as pessoas expressam abertamente seus sentimentos. Quer se sintam felizes, quer tristes, os outros sabem como elas se sentem. Por outro lado, em algumas partes do mundo, notavelmente no norte da Europa e na Grã-Bretanha, as pessoas, especialmente os homens, foram condicionados a ocultar seus sentimentos, a não mostrar emoção, a não se deixar abalar e a não expor seu íntimo. Mas, quando se sofre a perda dum ente querido, será que é errado expressar pesar? O que diz a Bíblia sobre isso?

      Alguns que choraram, segundo diz a Bíblia

      A Bíblia foi escrita por hebreus da região do Mediterrâneo oriental, que eram pessoas expressivas. Ela contém muitos exemplos de pessoas que mostraram abertamente seu pesar. O Rei Davi lamentou a perda de seu filho assassinado, Amnom. De fato, ‘chorou com um choro muito grande’. (2 Samuel 13:28-39) Até mesmo lamentou a perda do seu traiçoeiro filho Absalão, que havia tentado usurpar o reinado. O relato bíblico nos diz: “Então o rei [Davi] ficou comovido e subiu ao quarto de terraço por cima do portão, e entregou-se ao choro; e era isto o que dizia ao caminhar: ‘Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Oh! que eu, eu mesmo, tivesse morrido em teu lugar, Absalão, meu filho, meu filho!’” (2 Samuel 18:33) Davi pranteou como qualquer pai normal. E quantas vezes já aconteceu que os pais teriam preferido morrer em lugar de seus filhos! Parece tão desnatural que o filho morra antes dos pais.

      Como reagiu Jesus à morte de seu amigo Lázaro? Chorou ao se aproximar do túmulo dele. (João 11:30-38) Mais tarde, Maria Madalena chorou ao se aproximar do sepulcro de Jesus. (João 20:11-16) É verdade que o cristão que entende a esperança bíblica da ressurreição não fica inconsolavelmente pesaroso, assim como alguns dos que não têm uma clara base bíblica para as suas crenças a respeito da condição dos mortos. Mas o verdadeiro cristão, como humano com sentimentos normais, mesmo tendo a esperança da ressurreição, fica pesaroso e lamenta a perda dum ente querido. — 1 Tessalonicenses 4:13, 14.

      Chorar ou não chorar

      Que dizer das nossas reações hoje em dia? Acha difícil ou embaraçoso dar vazão aos seus sentimentos? O que recomendam os conselheiros? Seus conceitos modernos muitas vezes apenas repetem a antiga sabedoria inspirada da Bíblia. Dizem que devemos dar vazão ao pesar, não reprimi-lo. Isto nos faz lembrar de homens fiéis da antiguidade, tais como Jó, Davi e Jeremias, cujas expressões de pesar são encontradas na Bíblia. Eles certamente não reprimiram seus sentimentos. Portanto, não é sábio isolar-se dos outros. (Provérbios 18:1) Naturalmente, o pesar é expresso de maneiras diferentes em culturas diferentes, dependendo também das crenças religiosas prevalecentes.a

      Mas, e se você tem vontade de chorar? Chorar faz parte da natureza humana. Lembre-se de novo da ocasião da morte de Lázaro, quando Jesus “gemeu no espírito e . . . entregava-se ao choro”. (João 11:33, 35) Mostrou assim que chorar é uma reação normal diante da morte dum ente querido.

      Pessoas chorando

      É normal lamentar e chorar quando um ente querido morre

      Isto é confirmado pelo caso de certa mãe, Anne, que perdeu seu bebê Rachel por causa da SMSI (síndrome da morte súbita na infância). Seu marido comentou: “O surpreendente foi que, no enterro, nem Anne nem eu choramos. Todos os outros choraram.” A isto Anne respondeu: “Sim, mas eu tenho chorado o bastante por nós dois. Acho que realmente senti o pleno impacto algumas semanas depois da tragédia, quando um dia finalmente fiquei sozinha em casa. Chorei o dia inteiro. Mas creio que isso me ajudou. Senti-me melhor. Eu tinha de prantear a perda de minha filhinha. Realmente creio que se deve deixar que as pessoas pesarosas chorem. Embora se trate duma reação natural da parte dos outros dizer ‘não chore’, isso realmente não ajuda em nada.”

      Como alguns reagem

      Como reagiram alguns quando ficaram desolados por causa da perda dum ente querido? Por exemplo, considere Juanita. Ela sabe o que é perder um bebê. Tivera cinco abortos espontâneos. Ficou então novamente grávida. Assim, quando um acidente de carro obrigou-a a ser hospitalizada, é compreensível que ficasse preocupada. Duas semanas depois entrou em trabalho de parto — prematuramente. Pouco depois nasceu a pequena Vanessa — pesando menos de um quilo. “Fiquei muito emocionada”, lembra-se Juanita. “Eu finalmente era mãe!”

      Mas a sua felicidade durou pouco. Quatro dias depois, Vanessa morreu. Juanita recorda: “Eu me sentia completamente vazia. Arrancaram de mim a minha maternidade. Eu me sentia incompleta. Era doloroso voltar para casa, e ir ao quarto que tínhamos preparado para Vanessa, e olhar para as roupinhas que eu tinha comprado para ela. Nos dois meses seguintes, eu revivia o dia do nascimento dela. Não queria nada com ninguém.”

      Era uma reação extrema? Talvez seja difícil para outros entenderem isso, mas aquelas que, como Juanita, passaram por algo assim explicam que choraram por seu bebê assim como fariam por alguém que tivesse vivido mais tempo. Dizem que, muito antes de o bebê nascer, este já é amado pelos pais. Existe um vínculo especial com a mãe. Quando o bebê morre, a mãe sente que perdeu uma pessoa real. E é isso o que os outros precisam compreender.

      Como a ira e o sentimento de culpa podem afetar você

      Outra mãe expressou seus sentimentos quando informada de que seu filho de seis anos morrera subitamente dum problema cardíaco congênito. “Tive uma série de reações — torpor, descrença, culpa, e ira contra o meu marido e o médico por não terem discernido a gravidade da condição dele.”

      A ira pode ser outro sintoma de pesar. Pode ser ira contra os médicos e as enfermeiras, achando que eles deveriam ter feito mais em cuidar do falecido. Ou pode ser ira contra amigos e parentes que, aparentemente, dizem ou fazem as coisas erradas. Alguns se iram com o falecido por ter negligenciado a sua saúde. Stella recorda: “Lembro-me de ficar irada com meu marido porque eu sabia que as coisas podiam ter sido diferentes. Ele estava muito doente, mas desconsiderava os avisos dos médicos.” E às vezes se fica irado com a pessoa que faleceu por causa dos encargos que sua morte deixa para os outros.

      Alguns se sentem culpados por causa da ira — quer dizer, talvez condenem a si mesmos por se sentirem irados. Outros culpam a si mesmos pela morte do seu ente querido. “Ele não teria morrido”, convencem-se, “se eu o tivesse obrigado a ir ao médico antes”, ou “se eu o tivesse levado a outro médico”, ou “se eu o tivesse obrigado a cuidar melhor de sua saúde”.

      Uma mãe imaginando abraçar a filha

      A perda dum filho causa um terrível trauma — condolência e empatia genuínas podem ajudar os pais

      Para outros, a culpa vai mais além, especialmente se seu ente querido morreu subitamente, de forma inesperada. Começam a lembrar os tempos em que ficaram irados ou discutiram com a pessoa falecida. Ou talvez achem que realmente não foram tudo o que deveriam ter sido para ela.

      O longo processo de pesar pelo qual muitas mães passam confirma o que muitos entendidos dizem, que a perda dum filho causa um vácuo permanente na vida dos pais, especialmente da mãe.

      Quando se perde o cônjuge

      A perda do cônjuge causa outro tipo de trauma, especialmente quando levaram juntos uma vida muito ativa. Pode significar o fim de todo um modo de vida que compartilharam em viagens, em trabalhos, em diversões e na interdependência.

      Eunice explica o que aconteceu quando seu marido faleceu de repente dum ataque cardíaco. “Na primeira semana fiquei num estado de choque emocional, como se eu tivesse parado de funcionar. Não consegui nem mesmo sentir gosto ou cheiro de nada. Todavia, meu senso de lógica continuou de forma desprendida. Visto que eu tinha estado com o meu marido quando tentaram estabilizá-lo com ressuscitação cardiopulmonar e medicação, não passei pelos usuais sintomas de negação. No entanto, tinha um intenso sentimento de frustração, como se visse um carro caindo dum despenhadeiro e não houvesse nada que eu pudesse fazer.”

      Será que ela chorou? “Claro que sim, especialmente quando li as centenas de cartões de condolências que recebi. Chorei ao receber cada um deles. Isto me ajudou a aguentar o resto do dia. Mas nada me ajudava quando me perguntavam repetidas vezes como me sentia. Obviamente, sentia-me muito infeliz.”

      O que ajudou Eunice a suportar seu pesar? “Sem me dar conta disso, tomei inconscientemente a decisão de continuar com a minha vida”, diz ela. “Entretanto, o que ainda me dói mais é quando me lembro de que meu marido, que amava tanto a vida, não está mais aqui para usufruí-la.”

      “Não deixe que outros lhe ditem . . .”

      Os autores do livro Leavetaking—When and How to Say Goodbye (Despedida — Quando e Como Dizer Adeus) aconselham: “Não deixe que outros lhe ditem o que fazer ou como sentir-se. O processo do pesar funciona de modo diferente no caso de cada um. Outros talvez achem — e lhe digam o que pensam — que você está pesaroso demais, ou que não sente bastante pesar. Perdoe-lhes e se esqueça disso. Se tentar ajustar-se ao molde criado por outros ou pela sociedade como um todo, prejudicará seu progresso para restabelecer a saúde emocional.”

      Naturalmente, pessoas diferentes tratam de seu pesar de modo diferente. Não tentamos sugerir que um modo seja necessariamente melhor do que outro no caso de toda pessoa. No entanto, há perigo quando ocorre estagnação, quando a pessoa pesarosa é incapaz de se conformar com a realidade da situação. Neste caso, talvez haja necessidade da ajuda de amigos compassivos. A Bíblia diz: “O verdadeiro companheiro está amando todo o tempo e é um irmão nascido para quando há aflição.” Portanto, não tenha medo de pedir ajuda, de conversar e de chorar. — Provérbios 17:17.

      O pesar é uma reação normal no caso duma perda, e não é errado que seu pesar seja óbvio aos outros. Mas, há perguntas adicionais que exigem respostas: ‘Como poderei conviver com o meu pesar? É normal ter sentimentos de culpa e de ira? Como devo encarar essas reações? O que me pode ajudar a suportar a perda e o pesar?’ A próxima parte responderá a estas e a outras perguntas.

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    • O processo do pesar

      A palavra “processo” não dá a entender que o pesar siga qualquer tabela ou programação fixa. Reações de pesar podem coincidir e durar por períodos variados, dependendo da pessoa. Esta lista não está completa. Podem manifestar-se também outras reações. Os seguintes são alguns dos sintomas do pesar que se pode sofrer.

      Primeiras reações: Choque inicial; descrença, negação; torpor emocional; sentimentos de culpa; ira.

      O pesar agudo pode incluir: Perda de memória e insônia; extremo cansaço; mudanças abruptas de disposição de ânimo; lapsos de critério e no modo de pensar; crises de choro; mudanças de apetite, com a resultante perda ou ganho de peso; uma variedade de sintomas de saúde perturbada; letargia; capacidade reduzida de trabalho; alucinações — sentir, ouvir e ver a pessoa falecida; na perda duma criança, ressentimento irracional com o cônjuge.

      Período de volta ao normal: Tristeza com nostalgia; recordações mais agradáveis da pessoa falecida, até mesmo com toques de humor.

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    • Abortos espontâneos e natimortos: pesar das mães

      Embora Monna já tivesse outros filhos, ela aguardava ansiosamente o nascimento de mais um. Mesmo já antes do nascimento, era um bebê com que ela “brincava, conversava e sonhava”.

      O processo de vinculação entre a mãe e a filha por nascer era muito forte. Prossegue ela: “Rachel Anne era um bebê que chutava os livros de cima da minha barriga, que me mantinha acordada de noite. Posso ainda lembrar-me dos primeiros chutezinhos, como cutucadas brandas, amorosas. Toda vez que ela se mexia, esse amor me dominava por completo. Eu a conhecia tão bem, que sabia quando ela estava sentindo dor, quando ela estava doente.”

      Monna prossegue com seu relato: “O médico não acreditou em mim, senão quando já era tarde demais. Ele me mandou parar de me preocupar. Creio que senti quando ela morria. Ela apenas deu subitamente uma virada violenta. No dia seguinte, estava morta.”

      A experiência de Monna não é um acontecimento isolado. De acordo com as autoras Friedman e Gradstein, no seu livro Surviving Pregnancy Loss (Sobreviver à Perda na Gravidez), nos Estados Unidos, anualmente cerca de um milhão de mulheres têm uma gravidez malsucedida. Naturalmente, o algarismo mundial é muito superior.

      Não raro as pessoas deixam de compreender que um aborto espontâneo ou um natimorto são uma tragédia para a mulher, e uma de que ela se lembra — talvez por toda a vida. Por exemplo, Veronica, agora já avançada em anos, lembra-se de seus abortos espontâneos e, em especial, de seu bebê que nasceu morto, que chegou a viver até o nono mês da gestação e pesou seis quilos ao nascer. Carregou-o morto dentro de si nas duas últimas semanas. Ela disse: “Dar à luz um bebê morto é algo terrível para qualquer mãe.”

      As reações destas mães frustradas nem sempre são compreendidas, mesmo por outras mulheres. Uma mulher que perdeu o filho num aborto espontâneo escreveu: “O que aprendi, de modo mais doloroso, foi que, antes de isso acontecer comigo, eu realmente não tinha ideia do que minhas amigas tiveram de suportar. Eu tinha sido tão insensível e ignorante para com elas como agora acho que as pessoas são para comigo.”

      Marido e esposa se abraçam e choram

      Outro problema que a mãe pesarosa tem de enfrentar é a impressão de que seu marido talvez não sinta essa perda tanto quanto ela. Uma esposa expressou isso do seguinte modo: “Fiquei inteiramente desapontada com meu marido naquela época. No que lhe dizia respeito, não tinha havido realmente gravidez alguma. Ele não podia sentir o pesar que eu estava sentindo. Mostrou-se bem compreensivo para com os meus temores, mas não para com o meu pesar.”

      Esta reação é talvez natural para o marido — ele não sente a mesma vinculação física e emocional que sua esposa grávida sente. Todavia, sente a perda. E é vital que o marido e a esposa se deem conta de que estão sofrendo juntos, embora de formas diferentes. Devem compartilhar seu pesar. Caso o marido o oculte, a esposa poderá pensar que ele é insensível. Assim, compartilhem suas lágrimas, seus pensamentos e seus abraços. Mostrem que precisam um do outro mais do que nunca. Sim, maridos, mostrem empatia.

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    • Síndrome da morte súbita na infância: enfrentando o pesar

      A morte súbita de bebês é uma tragédia devastadora. Certo dia, o bebê aparentemente normal, saudável, não acorda. Isto é totalmente inesperado, pois quem imaginaria que um bebê ou uma criança morresse antes dos pais? O bebê que se tornou o foco do infindável amor materno de repente é o motivo de seu infindável pesar.

      Começam a aflorar sentimentos de culpa. Os pais talvez se julguem responsáveis pela morte, como se esta fosse devida a alguma negligência. Eles se perguntam: ‘Que poderíamos ter feito para impedi-la?’b Em alguns casos, o marido, sem nenhuma base, poderia até inconscientemente culpar a esposa. Quando foi trabalhar, o bebê estava vivo e saudável. Quando chegou em casa, já tinha morrido em seu bercinho! O que é que sua esposa estava fazendo? Onde estava naquele momento? Essas perguntas aflitivas precisam ser esclarecidas para não provocarem tensão no casamento.

      Circunstâncias imprevistas e imprevisíveis causaram a tragédia. A Bíblia declara: “Retornei para ver debaixo do sol que a corrida não é dos ligeiros, nem a batalha dos poderosos, nem tampouco são os sábios os que têm alimento, nem tampouco são os entendidos os que têm riquezas, nem mesmo os que têm conhecimento têm o favor; porque o tempo e o imprevisto sobrevêm a todos eles.” — Eclesiastes 9:11.

      Como podem outros ajudar quando uma família perde o bebê? Certa mãe pesarosa respondeu: “Uma amiga veio e fez a faxina da casa sem que eu lhe dissesse uma única palavra. Outras prepararam refeições para nós. Algumas ajudaram simplesmente por me abraçar — sem dizer uma só palavra, apenas um abraço. Eu não queria falar sobre o assunto. Não queria ter de explicar vez após vez o que tinha acontecido. Não precisava de perguntas esquadrinhadoras, como se eu tivesse deixado de fazer alguma coisa. Eu era a mãe dela; teria feito qualquer coisa para salvar meu bebê.”

  • Como poderei conviver com o meu pesar?
    Quando Morre Alguém Que Amamos
    • Como poderei conviver com o meu pesar?

      “EU ME senti muito pressionado a conter meus sentimentos”, explica Miguel, ao relembrar a morte do pai. Para Miguel, controlar seu pesar era a coisa varonil a fazer. No entanto, mais tarde deu-se conta de que isso era errado. Assim, quando o amigo de Miguel perdeu o avô, Miguel sabia o que fazer. Ele diz: “Uns dois anos atrás, eu daria umas batidinhas no ombro dele e diria: ‘Seja homem.’ Agora, toquei no braço dele e disse: ‘Seja você mesmo. Isso o ajudará a enfrentar a situação. Se quiser que eu vá embora, irei. Se quiser que eu fique, ficarei. Mas não tenha receio de dar vazão aos seus sentimentos.’”

      Mariana também se sentiu pressionada a conter seus sentimentos quando morreu o marido dela. “Estava tão preocupada em ser um bom exemplo para os outros”, lembra-se ela, “que não me permiti demonstrar os sentimentos normais. Mas, por fim, aprendi que tentar ser um esteio para os outros não me ajudava em nada. Comecei a analisar minha situação e a dizer: ‘Chore se tiver vontade de chorar. Não tente ser forte demais. Desabafe.’”

      De modo que tanto Miguel como Mariana recomendam: Demonstre seu pesar! E têm razão. Por quê? Porque externar o pesar é a necessária vazão emocional. Dar vazão aos seus sentimentos pode aliviar a pressão a que está submetido. A expressão normal das emoções, se acompanhada de entendimento e de informações exatas, permite que você coloque seus sentimentos na perspectiva correta.

      Naturalmente, nem todos expressam o pesar da mesma forma. E fatores tais como se a morte do ente querido se deu subitamente, ou se a morte ocorreu depois de longa enfermidade, talvez influam na reação emocional dos que ficam. Mas uma coisa parece certa: reprimir os sentimentos pode prejudicá-lo tanto física como emocionalmente. É muito mais saudável que expresse seu pesar. Como? As Escrituras contêm alguns conselhos práticos.

      Como dar vazão ao pesar?

      Falar pode ser de ajuda para dar vazão ao pesar. Após a morte de todos os seus dez filhos, bem como de outras tragédias pessoais, o antigo patriarca Jó disse: “Minha alma certamente se enfada da minha vida. Vou externar [hebraico: “dar vazão”] a minha preocupação comigo mesmo. Vou falar na amargura da minha alma!” (Jó 1:2, 18, 19; 10:1) Jó não conseguiu mais reprimir sua preocupação. Precisava dar vazão a ela; tinha de “falar”. De modo similar, o dramaturgo Shakespeare escreveu em Macbeth: “Deixe o pesar expressar-se em palavras; o pesar não expresso sussurra ao coração sobrecarregado e lhe sugere que se quebrante.”

      Portanto, expressar seus sentimentos a um “verdadeiro companheiro” que o ouça com paciência e compreensão pode trazer-lhe certa medida de alívio. (Provérbios 17:17) Expressar em palavras experiências e sentimentos muitas vezes torna mais fácil compreendê-los e lidar com eles. E se quem escuta for alguém que já perdeu um ente querido e que lidou eficazmente com sua própria perda, você poderá aproveitar algumas sugestões práticas sobre como enfrentar o problema. Quando sua filha morreu, certa mãe explicou por que lhe ajudou conversar com outra mulher que sofrera uma perda similar: “Saber que outra pessoa passou pela mesma coisa, conseguiu superá-la e também levar uma vida quase normal, foi para mim muito fortalecedor.”

      Uma mulher de luto escreve sobre seus sentimentos

      Exemplos bíblicos mostram que anotar seus sentimentos pode ajudar a expressar seu pesar

      O que se dá quando você não se sente bem à vontade para falar sobre os seus sentimentos? Davi, depois da morte de Saul e de Jonatã, compôs uma endecha muito emocional, na qual deu vazão ao seu pesar. Esta composição de lamento tornou-se por fim parte do registro escrito do livro bíblico de Segundo Samuel. (2 Samuel 1:17-27; 2 Crônicas 35:25) De forma similar, alguns acham mais fácil expressar-se por escrito. Certa viúva contou que ela punha seus sentimentos por escrito e depois, dias mais tarde, lia o que havia escrito. Achou que isso lhe dava um valioso alívio.

      Quer por conversar, quer por escrever, comunicar seus sentimentos pode ajudá-lo a aliviar seu pesar. Pode também ajudar a esclarecer mal-entendidos. Certa mãe enlutada explica: “Meu esposo e eu ouvimos falar de outros casais que se divorciaram depois de terem perdido um filho, e não queríamos que isso acontecesse conosco. Assim, toda vez que nos sentíamos irados, querendo culpar um ao outro, conversávamos sobre isso até esclarecer as coisas. Acho que ficamos realmente mais achegados por fazer isso.” Assim, expressar seus sentimentos pode ajudá-lo a entender que, embora você tenha sofrido o mesmo tipo de perda, outros podem demonstrar o pesar de modo diferente — ao seu próprio ritmo e do seu próprio modo.

      Outra coisa que pode facilitar dar vazão ao pesar é chorar. Há “tempo para chorar” diz a Bíblia. (Eclesiastes 3:1, 4) O falecimento de alguém que amamos certamente é uma ocasião assim. Verter lágrimas de pesar parece ser uma parte necessária do processo de restabelecimento.

      Uma jovem explica como uma amiga íntima a ajudou a suportar a situação quando sua mãe faleceu. Relembra: “Minha amiga estava sempre disponível. Ela chorava junto comigo. Conversava comigo. Eu podia ser bem franca quanto às minhas emoções, e isso era importante para mim. Não tinha de me sentir embaraçada por chorar.” (Veja Romanos 12:15.) Nem deve você envergonhar-se das suas lágrimas. Conforme já vimos, a Bíblia está cheia de exemplos de homens e de mulheres de fé — incluindo Jesus Cristo — que abertamente verteram lágrimas de pesar sem aparente embaraço. — Gênesis 50:3; 2 Samuel 1:11, 12; João 11:33, 35.

      Pessoas sendo consoladas

      Em todas as culturas, as pessoas pesarosas apreciam ser consoladas

      Talvez ache que suas emoções, por um tempo, serão um tanto imprevisíveis. Pode chorar sem aviso antecipado. Certa viúva verificou que fazer compras num supermercado (algo que muitas vezes fizera junto com o marido) podia fazê-la chorar, especialmente quando, por hábito, pegava itens que tinham sido favoritos do seu marido. Seja paciente consigo mesmo. E não pense que tem de segurar as lágrimas. Lembre-se de que são uma parte natural e necessária do pesar.

      Como enfrentar o sentimento de culpa

      Conforme já mencionado, alguns têm sentimentos de culpa depois de perderem um ente querido na morte. Isto talvez ajude a explicar o profundo pesar do fiel homem Jacó, quando foi levado a crer que seu filho José tinha sido morto por “uma fera selvagem”. O próprio Jacó enviara José para ver como estavam passando seus irmãos. De modo que Jacó provavelmente foi afligido por sentimentos de culpa, tais como: ‘Por que mandei José sozinho? Por que o mandei a uma região cheia de feras selvagens?’ — Gênesis 37:33-35.

      Talvez julgue que alguma negligência da sua parte contribuiu para a morte do seu ente querido. Compreender que o sentimento de culpa — real ou imaginária — é uma reação normal ao pesar já pode por si só ser de ajuda. De novo, não precisa guardar seus sentimentos para si. Conversar sobre quão culpado se sente pode dar-lhe o alívio de que precisa.

      Reconheça, porém, que não importa quanto amemos outra pessoa, não podemos controlar sua vida, nem podemos impedir que “o tempo e o imprevisto” sobrevenham aos que amamos. (Eclesiastes 9:11) Além disso, sem dúvida, sua motivação não era má. Por exemplo, por não marcar uma consulta médica mais cedo, será que pretendia que seu ente querido adoecesse ou morresse? Cla- ro que não! Então, será que é mesmo culpado de causar a morte dele? Não.

      Certa mãe aprendeu a lidar com o sentimento de culpa quando sua filha morreu num acidente de carro. Ela explica: “Senti-me culpada de a ter mandado fazer algo. Mas, vim a compreender que era ridículo eu sentir-me assim. Não havia nada de errado em mandá-la ir junto com o pai em certa incumbência. Foi apenas um terrível acidente.”

      ‘Mas há tanta coisa que eu gostaria de ter dito ou feito’, talvez diga. É verdade, mas quem dentre nós pode dizer que fomos pai, mãe ou filho perfeitos? A Bíblia lembra-nos: “Todos nós tropeçamos muitas vezes. Se alguém não tropeçar em palavra, este é homem perfeito.” (Tiago 3:2; Romanos 5:12) Portanto, aceite o fato de que você não é perfeito. Remoer continuamente “por que não fiz isso ou aquilo” não muda nada, mas pode retardar sua recuperação.

      Se tiver motivos válidos para achar que sua culpa é real, não imaginária, então considere o fator mais importante para se livrar do sentimento de culpa — o perdão de Deus. A Bíblia assegura-nos: “Se vigiasses os erros, ó Jah, ó Jeová, quem poderia ficar de pé? Pois contigo há o verdadeiro perdão.” (Salmo 130:3, 4) Não pode voltar ao passado e modificar alguma coisa. No entanto, pode suplicar o perdão de Deus pelos erros do passado. Daí, o que fazer? Pois bem, se Deus promete apagar seus pecados, não devia você também perdoar a si mesmo? — Provérbios 28:13; 1 João 1:9.

      Como enfrentar o sentimento de ira

      Sente-se também um tanto irado, talvez com os médicos, as enfermeiras, os amigos ou mesmo com a pessoa falecida? Reconheça que isso também é uma reação comum diante da perda. Sua ira talvez seja o acompanhamento natural da dor que sente. Uma escritora disse: “Somente por ficar cônscio da ira — não dando vazão a ela, mas sabendo que a sente — poderá ficar livre de seu efeito destrutivo.”

      Pode também ser de ajuda expressar ou compartilhar a ira. Como? Certamente não em acessos incontrolados dela. A Bíblia adverte que a ira prolongada é perigosa. (Provérbios 14:29, 30) Talvez derive consolo de conversar sobre ela com um amigo ou uma amiga compreensivos. E outros descobriram que fazer exercícios vigorosos quando estão irados lhes dá um bem-vindo alívio. — Veja também Efésios 4:25, 26.

      Embora seja importante ser franco e honesto a respeito dos seus sentimentos, cabe uma palavra de cautela. Há uma grande diferença entre expressar seus sentimentos e lançá-los sobre outros. Não há necessidade de culpar outros pela ira e frustração que você sente. Portanto, fale sobre os seus sentimentos, mas não de modo hostil. (Provérbios 18:21) Há uma grande ajuda para suportar o pesar, e nós a consideraremos agora.

      A ajuda de Deus

      A Bíblia assegura-nos: “Perto está Jeová dos que têm coração quebrantado; e salva os que têm espírito esmagado.” (Salmo 34:18) Sim, acima de tudo, sua relação com Deus pode ajudá-lo a suportar a morte de um ente querido. Como? Todas as sugestões práticas oferecidas até agora baseiam-se na Palavra de Deus, a Bíblia, ou estão em harmonia com ela. A aplicação delas pode ajudá-lo a enfrentar a situação.

      Além disso, não subestime o valor da oração. A Bíblia insta conosco: “Lança teu fardo sobre o próprio Jeová, e ele mesmo te susterá.” (Salmo 55:22) Se conversar sobre seus sentimentos com um amigo compassivo já pode ajudar, quanto mais lhe ajudará derramar seu coração ao “Deus de todo o consolo”! — 2 Coríntios 1:3.

      Não é o caso de que a oração simplesmente nos faça sentir melhor. O “Ouvinte de oração” promete dar espírito santo aos seus servos que sinceramente o pedirem. (Salmo 65:2; Lucas 11:13) E o espírito santo, ou a força ativa, de Deus pode dar-lhe “poder além do normal”, para aguentar um dia após outro. (2 Coríntios 4:7) Lembre-se: Deus pode ajudar seus servos fiéis a suportar qualquer tipo de problema com que talvez se confrontem.

      Certa mulher que perdera uma filha na morte lembra-se de como o poder da oração ajudou a ela e ao marido a suportar a perda. “Quando à noite ficávamos sozinhos em casa e o pesar se tornava simplesmente insuportável, orávamos em voz alta”, explica ela. “A primeira vez que tivemos de fazer algo sem ela — a primeira reunião de congregação a que fomos, o primeiro congresso a que assistimos — oramos pedindo força. Quando nos levantávamos de manhã e a realidade da situação parecia insuportável, orávamos a Jeová para que nos ajudasse. Por algum motivo, era para mim realmente traumático entrar em casa sozinha. Assim, toda vez que voltava para casa sozinha, eu simplesmente fazia uma oração a Jeová, pedindo que me ajudasse a manter um pouco de calma.” Esta mulher fiel crê firme e corretamente que essas orações fizeram diferença. Você também pode verificar que, em resposta às suas persistentes orações, ‘a paz de Deus, que excede todo pensamento, guardará o seu coração e as suas faculdades mentais’. — Filipenses 4:6, 7; Romanos 12:12.

      A ajuda que Deus dá realmente faz a diferença. O apóstolo cristão Paulo declarou que Deus “nos consola em toda a nossa tribulação, para que possamos consolar os que estiverem em qualquer sorte de tribulação”. É verdade que a ajuda divina não elimina a dor, mas pode torná-la mais suportável. Isto não significa que não mais chorará ou que se esquecerá do seu ente querido. Mas poderá restabelecer-se. E então, aquilo que tiver passado pode torná-lo mais compreensivo e compassivo para ajudar outros a suportar uma perda similar. — 2 Coríntios 1:4.

      Perguntas a considerar

      • Por que é importante que expresse seu pesar?

      • Como poderá dar vazão ao seu pesar?

      • Como podem as Escrituras ajudá-lo a enfrentar os sentimentos de culpa e de ira?

      • Em que sentido pode sua relação com Deus ajudá-lo a suportar a morte dum ente querido?

      • Quais são algumas sugestões práticas para suportar o pesar?

      Algumas sugestões práticas

      Conte com os amigos: Não hesite em deixar outros ajudá-lo caso se ofereçam para isso e você realmente precisar de ajuda. Compreenda que este talvez seja o modo de lhe mostrarem como eles se sentem; pode ser que não encontrem palavras apropriadas para isso. — Provérbios 18:24.

      Cuide da sua saúde: O pesar pode esgotá-lo, especialmente no começo. Seu corpo mais do que nunca precisa de suficiente descanso, de exercícios saudáveis e de alimentação correta. Um exame geral por seu médico talvez seja apropriado.

      Adie decisões importantes: Se possível, espere pelo menos um pouco até que seu modo de pensar esteja mais lúcido, antes de decidir coisas tais como vender a casa ou mudar de emprego. (Provérbios 21:5) Certa viúva lembrou-se de que, alguns dias depois de seu marido falecer, ela presenteou outros com alguns pertences dele. Mais tarde deu-se conta de que distribuíra lembranças que ela prezava.

      Tenha paciência consigo mesmo: O pesar às vezes dura mais tempo do que as pessoas em geral se dão conta. Recordações anuais do ente querido que faleceu talvez renovem as dores. Fotos especiais, canções ou mesmo certos cheiros podem desencadear as lágrimas. Um estudo científico a respeito do luto explica o processo do pesar do seguinte modo: “Os enlutados podem passar dramática e repentinamente de um sentimento para outro, e evitarem as lembranças do falecido pode alternar-se com cultivarem deliberadamente essas lembranças por algum tempo.” Continue a lembrar-se das preciosas promessas de Jeová. — Filipenses 4:8, 9.

      Faça concessões aos outros: Procure ser paciente com os outros. Compreenda que é uma situação difícil para eles. Não sabendo o que dizer, talvez digam desajeitadamente algo errado. — Colossenses 3:12, 13.

      Cuidado com o uso de remédios ou de bebidas alcoólicas para suportar o pesar: O alívio dado por remédios ou bebidas alcoólicas no melhor dos casos é temporário. Remédios só devem ser tomados sob a supervisão dum médico. Mas, tenha cuidado; muitas substâncias são viciadoras. Além disso, podem prolongar o processo do pesar. Um patologista adverte: “A tragédia precisa ser suportada, sofrida, e, com o tempo, racionalizada, e retardar isso indevidamente por nocautear a [pessoa] com drogas medicamentosas pode prolongar ou distorcer tal processo.” O alívio duradouro virá pela meditação nos grandiosos propósitos de Jeová. — Salmo 1:2; 119:97.

      Volte à rotina regular: No começo, talvez tenha de obrigar a si mesmo a ir trabalhar, a fazer compras ou a cuidar de outras responsabilidades. Mas, verificará que voltar à rotina normal lhe fará um grande bem. Mantenha-se ocupado em obras cristãs. — Note 1 Coríntios 15:58.

      Não tenha medo de acabar com o extremo pesar: Estranho como pareça, alguns enlutados têm medo de acabar com o intenso pesar, achando que isso possa indicar que seu amor à pessoa falecida está diminuindo. Simplesmente, não é assim. Livrar-se da dor abre o caminho para recordações estimadas que sem dúvida sempre o acompanharão. — Eclesiastes 3:1, 4.

      Não fique ansioso demais: Talvez note que começa a preocupar-se: ‘Que será de mim agora?’ A Bíblia nos aconselha a vivermos um dia de cada vez. “Viver mais na base de um dia de cada vez realmente me ajuda”, explica uma viúva. Jesus disse aos seus discípulos: “Nunca estejais ansiosos quanto ao dia seguinte, pois o dia seguinte terá as suas próprias ansiedades.” — Mateus 6:25-34.

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