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Matadores à soltaDespertai! — 1993 | 8 de dezembro
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Matadores à solta
MARGARETE procurou desesperadamente a cura quando seu filho Tito contraiu malária. Foram administrados três medicamentos, incluindo a altamente aclamada cloroquina. Não obstante, Tito morreu — com apenas nove meses de idade.
No Quênia, país de Margarete, tragédias assim são muito comuns. Diz a revista “Newsweek”: “A ‘Anófeles gambiae’, rainha dos mosquitos transmissores da malária, viceja nessa parte do mundo. As crianças não. Cinco por cento delas morrem de malária antes de atingir a idade escolar.”
Em 1991 a tuberculose matou 12 prisioneiros e um guarda no Estado de Nova York, EUA. “Vamos controlá-la nas prisões”, diz o Dr. George DiFerdinando Jr., “mas a questão real é como controlá-la agora que está estabelecida na comunidade?”
A Organização Mundial da Saúde informa que 1,7 bilhão de pessoas — cerca de um terço da população mundial — são portadoras da bactéria da tuberculose. Anualmente, oito milhões destas desenvolvem a doença ativa, e três milhões morrem.
Num hospital de Nova York, um bebê do sexo feminino nasceu com 11 semanas de prematuridade, mas isso era apenas parte de seu problema. A descamação da pele das mãos, as feridas nos pés, o fígado e o baço aumentados evidenciavam claramente que ela contraíra sífilis dentro do útero da mãe.
“Alguns bebês ficam tão gravemente lesados por doenças enquanto estão no útero da mãe que já nascem mortos”, diz o “The New York Times”. “Uns poucos morrem logo depois do nascimento, alguns com graves lesões na pele que irrompem durante o parto.”
Malária, tuberculose e sífilis — algumas décadas atrás pensava-se que essas três doenças estavam sob controle e perto da erradicação. Por que estão fazendo um retorno devastador?
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Por que o retorno das doenças “curáveis”?Despertai! — 1993 | 8 de dezembro
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Por que o retorno das doenças “curáveis”?
A CASA acaba de ser completamente limpa. Mas, com a passagem dos dias, semanas e meses, o pó e a sujeira aos poucos reaparecem. Uma única limpeza cabal, por conseguinte, não basta. É essencial uma manutenção contínua.
Por algum tempo parecia que a medicina moderna havia eliminado completamente a malária, a TB (tuberculose) e a sífilis. Mas a necessária manutenção através de pesquisas e tratamentos foi por demais negligenciada. Agora o “pó e a sujeira” reapareceram. “Mundialmente, o problema da malária é sério e está piorando”, diz o Dr. Hiroshi Nakajima da OMS (Organização Mundial da Saúde). “As pessoas têm de se dar conta de que a TB está de volta — e de volta com vingança”, alerta o especialista em tuberculose Dr. Lee Reichman. E o The New York Times anunciou no começo desta década: “Novos casos de sífilis estão no mais alto nível desde 1949.”
Malária — ameaçando quase metade do mundo
Agora, uns 40 anos desde que foi declarada quase erradicada, a malária representa uma séria ameaça no Afeganistão, Brasil, Camboja, China, Índia, Indonésia, Sri Lanka, Tailândia, Vietnã, e em várias partes da África. “Duas crianças morrem dessa infecção por minuto”, diz o jornal francês Le Figaro. O tributo anual de mortes é de dois milhões — muito mais do que os que são mortos pela AIDS.
Quase 270 milhões de pessoas estão infectadas com o parasita da malária, mas 2,2 bilhões são consideradas em risco. “Como é que a malária, outrora eliminada ou em grande parte controlada em 90% da população do mundo, ameaça agora mais de 40% de nós?”, pergunta Phyllida Brown na revista New Scientist. As razões são muitas.
Desmatamento e colonização. A ocupação de áreas de florestas pluviais infestadas de mosquitos provocou um surto de malária no Brasil. “O que aconteceu foi uma invasão da casa do mosquito”, diz o imunologista Cláudio Ribeiro. Os ocupantes, diz ele, “não tinham experiência com a malária e nenhuma resistência à doença”.
Imigração. Refugiados de Mianmar em busca de emprego afluem às minas de pedras preciosas de Borai, uma pequena cidade da Tailândia. “Seu deslocamento constante torna virtualmente impossível o controle da malária”, diz a revista Newsweek. Uns 10.000 casos de malária são registrados mensalmente — apenas entre os mineradores!
Turismo. Muitos que visitam regiões infestadas de malária voltam para casa infectados. Assim, em 1991 foram diagnosticados cerca de 1.000 casos nos Estados Unidos e 10.000 na Europa. Anualmente, centenas de turistas e trabalhadores do além-mar retornam ao Canadá infectados. Num caso trágico, duas crianças desenvolveram febre pouco depois de a família ter retornado da África. O médico não suspeitou de malária. “Quando os pais as levaram ao hospital, era tarde demais”, informa o Globe and Mail de Toronto. “Elas morreram num espaço de algumas horas entre uma e outra.”
Tipos resistentes a drogas. A OMS informa que certos tipos de malária resistentes a drogas se propagaram por toda a África tropical. No sudeste asiático, diz Newsweek, “a resistência a drogas avança tão rapidamente que alguns tipos em breve talvez sejam intratáveis”.
Falta de recursos. Em alguns lugares as clínicas não têm equipamento para realizar um simples teste conhecido como esfregaço de sangue. Noutros, uma grande parte das verbas destinadas à saúde é necessária para outras emergências, resultando na escassez de inseticidas e medicamentos. Às vezes é uma questão de lucros. “Não se ganha dinheiro com as doenças tropicais”, admite a revista New Scientist, “porque, em geral, os atingidos não podem pagar pelos remédios”.
Tuberculose — um velho matador com novas manhas
A estreptomicina, a droga que prometia controlar a tuberculose, foi introduzida em 1947. Naquele tempo, pensava-se que a tuberculose seria eliminada definitivamente. Mas houve uma dura constatação em alguns países: os índices de TB aumentaram acentuadamente em anos recentes. “Nos bolsões de pobreza na América”, diz o The Washington Post, “os índices de TB são piores do que os dos mais pobres países da África subsaariana”. Em Côte d’Ivoire (Costa do Marfim) ocorre o que certa revista chama de “brutal ressurgimento da tuberculose”.
O Dr. Michael Iseman lamenta: “Sabíamos como curá-la. Nós a tínhamos nas mãos. Mas perdemos o lance.” O que impediu a luta contra a tuberculose?
AIDS. Visto que deixa a pessoa indefesa contra infecções, a AIDS é tida como uma das principais causas do ressurgimento da TB. “Se não morrerem de outra coisa primeiro”, diz o Dr. Iseman, “virtualmente 100% dos pacientes de AIDS portadores da bactéria da TB desenvolverão a doença”.
Ambiente. Prisões, sanatórios, abrigos para os sem-teto, hospitais e outras instituições podem virar focos de tuberculose. O Dr. Marvin Pomerantz relata que o uso num certo hospital de um tratamento sob forma de aerossol aumentou a tosse dos pacientes de pneumonia e, com isso, criou uma virtual epidemia de TB entre a equipe hospitalar.
Falta de recursos. Assim que a tuberculose parecia estar sob controle, os recursos financeiros minguaram, e a atenção do público voltou-se para outra direção. “Em vez de eliminar a TB”, diz o Dr. Lee Reichman, “nós eliminamos os programas de combate à tuberculose”. Diz o bioquímico Patrick Brennan: “No início dos anos 60 eu trabalhei intensamente num programa de resistência da TB às drogas, mas decidi abandonar isso porque pensei que a TB estivesse curada.” Assim, a volta da tuberculose pegou muitos médicos de surpresa. “Durante uma semana [no outono de 1989]”, disse certa médica, “eu vi quatro casos novos da doença que a minha professora na faculdade de medicina disse que eu jamais veria de novo”.
Sífilis — um mortífero retorno
Apesar da eficácia da penicilina, a sífilis ainda campeia na África. Nos Estados Unidos, está fazendo seu mais forte retorno em 40 anos. Segundo o The New York Times, a sífilis está agora “ludibriando uma geração de médicos que raramente, se é que alguma vez, viram um caso [de sífilis]”. Por que esse ressurgimento?
Crack. O vício do crack propeliu o que um médico chama de “maratonas de cocaína e sexo”. Ao passo que os homens não raro roubam para sustentar o seu vício, as mulheres mais provavelmente vendem sexo em troca de drogas. “Nos postos de distribuição de crack”, diz o Dr. Willard Cates Jr., do Centro de Controle de Doenças, dos EUA, “há sexo e múltiplos parceiros. Qualquer infecção que predomine nesses ambientes é a que será transmitida”.
Falta de proteção. “Apesar da campanha de ‘sexo seguro’”, diz a revista Discover, “os adolescentes ainda são indiferentes ao uso de preservativos para se protegerem de doenças”. Um estudo realizado nos Estados Unidos revelou que apenas 12,6% dos que têm parceiros sexuais de risco usavam preservativos sempre.
Recursos limitados. Diz o The New York Times: “Cortes no orçamento sufocaram clínicas públicas em que a maioria dos casos de sífilis e de outras doenças sexualmente transmissíveis são diagnosticados.” Ademais, os métodos de avaliação nem sempre são exatos. Num hospital diversas mães deram à luz bebês infectados, no entanto, os exames de sangue prévios das mães não acusaram nenhuma evidência de sífilis.
Um fim à vista?
A batalha do homem contra as doenças tem sido longa e frustrante. Demasiadas vezes o sucesso contra alguns males se contrapõe a um fracasso contra outros. Está o homem condenado a uma guerra perpétua que jamais poderá vencer? Haverá algum dia um mundo sem doenças?
[Quadro/Foto na página 7]
As devastações da sífilis
A SÍFILIS é causada pelo Treponema pallidum, um espiroqueta em forma de saca-rolhas, e é contraída em geral através dos órgãos sexuais. Daí o espiroqueta entra na corrente sanguínea e espalha-se pelo corpo.
Algumas semanas depois da infecção, aparece uma ferida chamada de cancro. Usualmente ela se forma nos órgãos sexuais mas pode em vez disso aparecer nos lábios, nas amígdalas ou nos dedos. O cancro por fim sara sem deixar cicatriz. Mas os germes continuam a espalhar-se pelo corpo até surgirem sintomas secundários: erupções cutâneas, dor de garganta, dor nas juntas, perda de cabelo, lesões, e inflamação dos olhos.
Se não for tratada, a sífilis se instala numa fase incubada que pode durar a vida inteira. Se a mulher engravida nesse estágio, a criança pode nascer cega, deformada ou morta.
Décadas mais tarde, alguns passam para o estágio posterior da sífilis, em que o espiroqueta talvez se instale no coração, no cérebro, na medula espinal ou em outras partes do corpo. Se o espiroqueta se alojar no cérebro, pode resultar em convulsões, paralisia geral e até mesmo insanidade. Por fim, a doença pode ser fatal.
[Crédito]
Biophoto Associates/Science Source/Photo Researchers
[Quadro/Foto na página 7]
“Uma grande mímica”
É ASSIM que o Dr. Lee Reichman chama a tuberculose. “Pode parecer um resfriado, uma bronquite, uma gripe”, diz ele. “Assim, a menos que o médico esteja pensando na TB, ele pode errar o diagnóstico.” É necessário um raio X do tórax para confirmar a infecção.
A tuberculose passa de pessoa para pessoa através do ar. Uma tossidela pode produzir partículas suficientemente pequenas para penetrar nos pulmões. Contudo, as defesas do corpo normalmente são suficientemente fortes para conter a infecção. O Dr. Reichman explica: “Apenas [os] que têm suficientes bacilos na sua cavidade torácica — 100 milhões de organismos em comparação com menos de 10.000 para portadores inativos — [é que podem] propagar a doença.”
[Crédito]
SPL/Photo Researchers
[Quadro/Foto na página 7]
Aquecimento global e malária
A MALÁRIA não poderia se instalar sem o mosquito infectante Anófeles gambiae. “Mude a população do [inseto] vetor e você mudará a incidência da doença”, observa The Economist.
Experimentos em laboratório têm demonstrado que pequenos aumentos na temperatura podem afetar muito a população do inseto. Assim, alguns especialistas concluem que um aquecimento global pode exercer um sério impacto sobre a incidência da malária. “Se a temperatura em geral da Terra aumentasse mesmo que fosse um ou dois graus centígrados [dois ou quatro graus Fahrenheit]”, diz o Dr. Wallace Peters, “poderia aumentar as áreas produtoras de mosquitos de modo que a malária poderia disseminar-se ainda mais do que já está”.
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Dr. Tony Brain/SPL/Photo Researchers
[Foto na página 6]
Abrigos para os sem-teto podem virar focos de tuberculose
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Melchior DiGiacomo
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Um mundo sem doençasDespertai! — 1993 | 8 de dezembro
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Um mundo sem doenças
“A malária é mais esperta do que jamais se imaginou”, diz o imunologista Dr. Dan Gordon. “Ainda estamos tentando achar uma solução para ela.”
“AINDA não sabemos o suficiente a respeito do metabolismo da [bactéria da tuberculose]”, diz Barry Bloom, do Instituto Médico Howard Hughes. “Não sabemos plenamente como qualquer medicamento funciona. Realmente não sabemos.”
“Conhecimento não se traduz necessariamente em mudança de comportamento”, lamenta um porta-voz do Centro de Controle de Doenças (dos EUA), observando o fracasso das campanhas de “sexo seguro” para combater a sífilis. Como indicam as declarações acima, as batalhas contra a malária, a tuberculose e a sífilis têm sido frustrantes. Trará o futuro melhorados tratamentos para essas doenças?
Talvez. Mas, ao passo que o homem pode vencer alguns males e tornar outros mais fáceis com os quais conviver, existe uma razão fundamental pela qual ele não pode vencer completamente a guerra contra as doenças.
A raiz das doenças
A batalha contra as doenças é muito mais do que apenas uma luta contra parasitas e germes. A Bíblia explica que as doenças são uma conseqüência do pecado herdado de nosso primeiro pai humano. (Romanos 5:12) O pecado não apenas prejudicou a relação do homem com o seu Criador mas levou também à sua deterioração mental, emocional e física. Assim, em vez de continuar em perfeição numa Terra paradísica, os humanos tornaram-se imperfeitos e se deterioraram até que a morte os sobrepujou. — Gênesis 3:17-19.
Mesmo com o melhor da medicina, o homem não pode reverter sua condição pecaminosa ou as conseqüências desta. Este dilema deixa a raça humana “sujeita à futilidade [“muito limitada”, Phillips]”. (Romanos 8:20) E isto é assim quanto a vencer as doenças. O progresso do campo da medicina em salvar vidas muitas vezes é anulado pelo colapso da sociedade, que ameaça a vida.
“Encontramo-nos num dilema”, escreve Jerold M. Lowenstein na revista Discover. “Quanto mais sucesso temos em combater as doenças e prolongar a vida humana, tanto mais se assoma a possibilidade de acelerar a nossa própria extinção” devido à superpopulação e à degradação do meio ambiente.
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