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Quando surge um problema de saúdeDespertai! — 2001 | 22 de janeiro
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Quando surge um problema de saúde
“Foi como se eu tivesse levado um soco no estômago.” — John, ao saber que tinha uma doença debilitante.
“Fiquei apavorada.” — Beth, depois de se dar conta da gravidade do seu problema de saúde.
UMA das coisas mais dolorosas que podem acontecer com alguém é saber que tem uma doença crônica e incapacitante ou que os ferimentos causados por um acidente o deixarão com uma deficiência permanente. Não importa onde a pessoa seja informada de sua doença ou deficiência — quer em um tranqüilo consultório médico, quer em uma agitada sala de emergência —, é provável que sua primeira reação seja de descrença. Poucos estão preparados para lidar com os fortes sentimentos que acometem aqueles que foram abalados por um devastador problema de saúde.
Despertai! esforçou-se para colher informações que podem ser úteis para quem recentemente se deparou com essa situação aflitiva. Entrevistamos várias pessoas de diversos países que têm conseguido lidar com doenças crônicas e debilitantes durante muitos anos. Pedimos que elas respondessem a questões como: que sentimentos você teve? O que o ajudou a enfrentar a crise e recuperar o equilíbrio? Que passos deu para conseguir ter novamente uma certa medida de controle sobre a própria vida? Além desses comentários de pessoas que conhecem o problema por experiência própria, citamos também descobertas de pesquisadores que estudam os efeitos de doenças prolongadas. Cremos que essas informações ajudarão aqueles que enfrentam graves problemas de saúde.a
[Nota(s) de rodapé]
a Esta série de capa é dirigida especialmente aos doentes ou deficientes. A série “Como a família pode lidar com uma doença crônica” (na Despertai! de 22 de maio de 2000) trouxe informações para os que cuidam dos doentes.
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Como enfrentar os sentimentos iniciaisDespertai! — 2001 | 22 de janeiro
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Como enfrentar os sentimentos iniciais
“QUANDO me disseram que eu tinha uma doença potencialmente fatal”, lembra um senhor idoso, “tentei ignorar o medo, mas a sensação de incerteza me consumia”. Dessas palavras aprendemos que, depois que a pessoa sofre o impacto físico da doença, vem também o impacto emocional. Apesar disso, muitas pessoas conseguem lidar bem com o choque inicial. Elas gostariam que você soubesse que é possível enfrentar com êxito as doenças crônicas. Mas antes de ver o que se pode fazer, vamos analisar mais de perto alguns sentimentos que você talvez tenha de enfrentar no início.
Descrença, negação, disforia
Em geral, cada pessoa tem de lidar com sentimentos diferentes. Mas os especialistas em saúde e os próprios doentes dizem que certos sentimentos parecem ser comuns a todos os que são acometidos por um problema grave de saúde. De início, a pessoa tem de enfrentar o choque e a descrença, seguidos, em geral, pela negação. (‘Não pode ser verdade.’ ‘Deve haver algum engano.’ ‘Talvez tenham trocado os exames de laboratório.’) Descrevendo sua reação quando soube que tinha câncer, uma mulher disse: “Você tem vontade de se esconder embaixo das cobertas com a esperança de que, quando sair, tudo terá sido apenas um pesadelo.”
Mas à medida que a pessoa começa a aceitar a realidade, a negação pode dar lugar à disforia, um sentimento de infelicidade que paira sobre a vítima como uma escura nuvem de tempestade. Você pode ser afligido por perguntas como: ‘Quanto tempo vou viver?’ ou ‘Estou condenado a passar o resto da vida sentindo dores?’ Alguns gostariam de voltar no tempo, para quando ainda não sabiam do diagnóstico, mas isso não é possível. Logo se seguirá uma enxurrada de outras emoções fortes e dolorosas. Quais são algumas delas?
Incerteza, ansiedade, medo
Uma doença grave causa grande incerteza e ansiedade. “Minha vida é tão imprevisível que às vezes fico muito frustrado”, diz um homem que sofre do mal de Parkinson. “Tenho de esperar cada dia para ver o que vai acontecer.” É possível também que sua doença o deixe assustado. Se ela o pegou desprevenido, você talvez sinta muito medo. Mas pode ser que você tenha passado muitos anos sofrendo dos sintomas sem saber o que havia de errado, até que sua doença foi diagnosticada corretamente. Nesse caso, o medo pode ser mais sutil. De início, você talvez até se sinta aliviado: finalmente as pessoas vão acreditar que você está doente mesmo, que não está inventando tudo. Mas depois de algum tempo, em vez de sentir alívio, talvez comece a dar-se conta das terríveis implicações do diagnóstico.
Alguns ficam com medo também de perder o controle sobre sua vida. Principalmente pessoas de temperamento independente podem ter arrepios só de pensar que terão de depender cada vez mais dos outros. Você começa a ficar preocupado de que, com o tempo, a doença domine sua vida e passe a ditar cada movimento seu.
Raiva, vergonha, solidão
Quando sente que está perdendo o controle, normalmente a pessoa fica com raiva. ‘Por que eu? O que eu fiz para merecer isso?’, você talvez se pergunte. O caso todo pode parecer injusto e sem sentido. Muitos são afligidos pela vergonha e pelo desespero. Um homem que ficou paralítico lembra: “Eu sentia muita vergonha porque tudo isso estava me acontecendo devido a um acidente estúpido.”
É comum a pessoa começar a se sentir extremamente isolada. O isolamento físico leva facilmente ao isolamento social. Se a doença o impede de sair, fica difícil manter contatos sociais com velhos amigos. Porém, mais do que nunca, você anseia ter contato com pessoas. De início, muitos o visitam ou lhe telefonam, mas a tendência é receber cada vez menos visitas ou telefonemas.
É duro ver os amigos se afastarem, de modo que muitos reagem a essa experiência dolorosa se fechando ainda mais. Naturalmente, é compreensível que você precise de um tempo para ficar sozinho antes de voltar a ter contato com outros. Mas se, nesse ponto, você se permitir afastar-se cada vez mais dos outros, existe a possibilidade de que o isolamento social (quando outros não o visitam) vire isolamento emocional (quando você não quer que os outros o visitem). Seja como for, você provavelmente estará lutando contra uma profunda solidão.a Às vezes, você talvez até se pergunte se conseguirá sobreviver mais um dia.
Aprenda dos outros
Mas há esperança. Se você recentemente foi apanhado por um grave problema de saúde, há medidas práticas que pode tomar para recuperar uma certa medida de controle sobre a sua vida.
Naturalmente, esta série de artigos não vai resolver seus problemas crônicos de saúde, sejam eles quais forem. Mesmo assim, as informações apresentadas o ajudarão a ver modos de deixar de lado a negação e de enfrentar o problema. Uma mulher que sofre de câncer resumiu os sentimentos que teve de enfrentar: “A negação deu lugar a uma raiva muito grande e, daí, ao desejo de descobrir de que recursos eu ainda dispunha.” Você pode fazer o mesmo, recorrendo a pessoas que já enfrentaram essa situação e aprendendo a usar os recursos à sua disposição.
[Nota(s) de rodapé]
a É claro que muitas pessoas sentem essas emoções em graus e em ordem diferentes.
[Destaque na página 5]
‘Por que eu? O que eu fiz para merecer isso?’, você talvez se pergunte
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Como conviver com a doença?Despertai! — 2001 | 22 de janeiro
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Como conviver com a doença?
PODE estar certo de que, nas suas circunstâncias, é normal ter fortes sentimentos. Embora a doença ou deficiência seja um fato físico, a mente resiste às mudanças que lhe foram impostas. Pode parecer que você e sua doença estejam jogando cabo-de-guerra, numa disputa entre a pessoa que você era e a que poderá vir a ser. E no momento talvez pareça que a doença está levando vantagem. Mas você pode virar o jogo. Como?
“A perda causada pela doença gera sentimentos semelhantes aos causados pela morte de uma pessoa amada”, explica a Dra. Kitty Stein. Assim, se perdeu algo tão valioso para você quanto sua saúde, é normal que precise de tempo para lamentar e chorar, assim como leva tempo para a pessoa se recuperar da morte de uma pessoa amada. De fato, em geral a perda da saúde resulta na perda de outras coisas. Como explica uma mulher: “Tive de abandonar o emprego. . . . Tive de abrir mão da independência que eu tanto prezava.” Mesmo assim, tente manter a perspectiva correta sobre a sua perda. “Você tem de lamentar o que perdeu”, acrescenta a Dra. Stein, que sofre de esclerose múltipla, “mas precisa se lembrar também do que ainda tem”. De fato, depois da fase inicial de sofrimento, você se dará conta de que ainda tem muitas coisas boas. Por exemplo, você tem a habilidade de se adaptar.
Um marinheiro não pode controlar uma tempestade, mas pode enfrentá-la ajustando a posição das velas. De modo similar, talvez você não possa controlar a doença que surgiu para atormentar a sua vida, mas pode enfrentá-la ajustando suas “velas”, quer dizer, seus recursos físicos, mentais e emocionais. O que ajudou outras pessoas com doenças crônicas a fazer isso?
Familiarize-se com a doença
Depois do impacto inicial do diagnóstico, muitos sentem que é melhor saber a dura realidade do que enfrentar um medo vago. O medo às vezes tem um efeito paralisante, mas saber o que está acontecendo com você pode ajudá-lo a traçar estratégias para enfrentar o problema e isso, por si só, tem um efeito positivo. “Se algo o preocupa, você não se sente melhor quando decide o que fazer para lidar com o problema?”, pergunta o Dr. David Spiegel, da Universidade Stanford, EUA. “Muito antes de fazer algo, você reduz sua ansiedade planejando o que vai fazer.”
Possivelmente, você vai querer aprender mais sobre o seu problema. Como diz um provérbio bíblico: “O homem de conhecimento está reforçando o poder.” (Provérbios 24:5) “Pegue livros na biblioteca. Aprenda o que puder sobre sua doença”, aconselha um homem acamado. Depois de se inteirar dos tratamentos disponíveis e das técnicas para enfrentar a doença, você talvez descubra que sua situação não é tão ruim quanto temia. Talvez até encontre razões para ser otimista.
Mas o objetivo não deve ser meramente entender a doença de forma racional. O Dr. Spiegel explica: “Esse processo de coleta de informações é uma parte importante do processo de aceitação da doença. Ajuda a pessoa a entendê-la, a encará-la do ângulo certo.” Aceitar que a sua vida mudou, mas não acabou, é um processo delicado e muitas vezes demorado. Mas você pode ir em frente, passando do estágio em que entende sua doença de forma racional para aquele em que a aceita emocionalmente. Como?
Encontre o delicado equilíbrio
Você talvez precise mudar seu conceito sobre o que significa aceitar a doença. Afinal, aceitar que se está doente não é sinal de fracasso, assim como não é sinal de fracasso do marinheiro aceitar que está numa tempestade. Pelo contrário, ser realista em relação à tempestade faz com que ele aja. De forma similar, aceitar sua doença não é fracasso, mas é um “avanço numa nova direção”, como disse uma mulher que sofre de uma doença crônica.
Mesmo que suas habilidades físicas tenham diminuído, é bom você se lembrar de que suas qualidades mentais, emocionais e espirituais não foram necessariamente afetadas. Por exemplo, você ainda tem inteligência e habilidade de organização e de raciocínio? Você talvez ainda tenha um sorriso amigável, preocupação pelos outros e as qualidades de bom ouvinte ou de um amigo leal. E mais importante, você ainda tem sua fé em Deus.
Além disso, lembre-se de que, embora você não seja capaz de mudar todas as suas circunstâncias, ainda pode decidir como reagir a elas. Irene Pollin, do Instituto Nacional do Câncer, dos EUA, disse: “Você pode controlar suas reações à doença. Você tem esse poder, não importa o que sua doença lhe imponha.” Helen, uma senhora de 70 anos que sofre de esclerose múltipla avançada, confirma: “Não é tanto a doença, mas sua reação a ela que determina se você vai recuperar o equilíbrio.” Um homem que já lida com um problema de saúde por muitos anos diz: “Uma atitude positiva é a quilha que impede o barco de emborcar.” De fato, como diz Provérbios 18:14: “O espírito do homem pode agüentar a sua enfermidade; mas, quanto ao espírito abatido, quem o pode suportar?”
Recupere o controle
À medida que você começa a recuperar o equilíbrio emocional, perguntas como: ‘Por que isso aconteceu comigo?’ podem dar lugar a outras, como: ‘Visto que isso me aconteceu, o que vou fazer?’ Nesse ponto, alguns decidem tomar outras providências para mudar sua situação. Vamos ver algumas delas.
Avalie sua situação, pense no que você precisa mudar e daí tente mudar o que pode ser mudado. “Sua doença é uma ocasião para reavaliar sua vida, é um toque de despertador, não uma sentença de morte”, diz o Dr. Spiegel. Pergunte-se: ‘O que era importante para mim antes de eu ficar doente? Será que isso mudou?’ Faça essas perguntas, não com a intenção de descobrir o que você não pode mais fazer, mas para determinar o que ainda pode fazer, mesmo que tenha de fazer de maneira um pouco diferente. Veja, por exemplo, o caso de Helen, já mencionada.
Durante os últimos 25 anos, a esclerose múltipla enfraqueceu seus músculos. De início, ela usava um andador. Depois, quando perdeu o controle da mão direita, ela passou a usar a esquerda. Daí, a mão esquerda falhou. Então, há uns oito anos, ela parou de andar. Agora precisa que outra pessoa lhe dê banho, a alimente e troque sua roupa. Isso a deixa triste, mas mesmo assim ela diz: “Meu lema continua sendo: ‘Pense no que você pode fazer e não no que fazia no passado.’” Com a ajuda do marido e das enfermeiras que cuidam dela, bem como de suas próprias idéias bem criativas, ela ainda consegue participar em algumas atividades de que gosta. Por exemplo, desde que tinha 11 anos, uma parte importante de sua vida é partilhar a promessa bíblica de um vindouro novo mundo pacífico e até hoje ela participa nessa obra, toda semana. (Mateus 28:19, 20) Helen explica como faz isso:
“Peço à enfermeira que segure o jornal para mim. Lemos juntas as notas de falecimento e escolhemos algumas delas. Daí, digo à enfermeira os pensamentos que gostaria de incluir numa carta para os parentes do falecido e ela datilografa a carta. Envio com a carta um exemplar da brochura Quando Morre Alguém Que Amamos,a que explica a consoladora esperança bíblica da ressurreição. Faço isso todo domingo à tarde. Fico feliz de ainda poder partilhar as boas novas do Reino de Deus com outros.”
Estabeleça alvos razoáveis e atingíveis. Uma das razões por que Helen tenta mudar o que pode é que isso lhe permite estabelecer e atingir alvos. Isso também é importante para você. Por quê? Porque estabelecer metas faz com que a mente se concentre no futuro e alcançá-las faz você ter uma sensação de realização. Também ajuda a restaurar um pouco da autoconfiança. Certifique-se, porém, de fixar metas específicas. Por exemplo, você pode decidir: ‘Hoje vou ler um capítulo da Bíblia.’ Estabeleça também alvos de acordo com a sua realidade. Visto que sua constituição física e emocional é diferente da de outras pessoas com doenças crônicas, você talvez não consiga alcançar as mesmas metas que elas. — Gálatas 6:4.
“Não importa se seus alvos parecem muito pequenos, alcançá-los servirá de incentivo para você fazer mais”, diz Lex, que mora na Holanda. Há mais de 20 anos, quando tinha 23 anos de idade, ele sofreu um acidente que o deixou paralítico. Durante as diversas sessões de fisioterapia que se seguiram, ele foi incentivado a estabelecer metas, como lavar o rosto com um pano. Era uma tarefa cansativa, mas ele conseguiu. Quando viu que tinha conseguido atingir esse alvo, ele estabeleceu outro: abrir e fechar um tubo de creme dental sozinho. De novo, ele conseguiu. “Embora não fosse fácil”, diz Lex, “descobri que conseguia fazer bem mais do que achava ser possível”.
De fato, com o apoio da esposa, Tineke, Lex alcançou metas ainda maiores. Por exemplo, em companhia dela, ele agora faz visitas de casa em casa numa cadeira de rodas para partilhar o conhecimento bíblico com outros. Ele também faz visitas semanais para incentivar um homem que sofre de deficiências graves e estudar a Bíblia com ele. “Ajudar os outros”, diz Lex, “me dá muita satisfação”. Como a Bíblia confirma: “Há mais felicidade em dar do que há em receber.” — Atos 20:35.
Será que você também poderia estabelecer o alvo de ajudar outros? Você pode ser uma fonte de consolo muito boa, porque sua doença ou deficiência o tornam mais sensível à dor dos outros.
Não perca o contato com outros. Estudos médicos demonstram que ter contatos sociais é bom para a saúde. Mas o contrário também é verdade. “A relação entre isolamento social e mortalidade é tão . . . forte quanto a relação entre fumo . . . e mortalidade”, declara um pesquisador. Ele acrescenta: “Melhorar seus relacionamentos sociais pode ser tão importante para sua saúde quanto parar de fumar.” Não é de admirar que ele conclua que nossa habilidade de manter relacionamentos sociais “contribui para a nossa sobrevivência”. — Provérbios 18:1.
Mas como mencionado no artigo anterior, o problema pode ser que alguns de seus amigos pararam de visitá-lo. Tente impedir que seu isolamento piore ainda mais. É para o seu próprio bem. Mas como fazer isso? Que tal começar convidando seus amigos para visitá-lo?
Torne as visitas agradáveis para os outros.b Uma coisa importante a lembrar: limite o tempo que gasta falando sobre sua doença. Assim, seus visitantes não vão ficar entediados. Uma mulher que sofre duma doença crônica resolveu o problema impondo um limite para o tempo que gasta falando sobre sua saúde com o marido. “Simplesmente tínhamos de controlar essas conversas”, diz ela. De fato, sua doença não precisa sufocar todas as outras coisas boas que você pode partilhar com outros. Depois de conversar com um amigo acamado sobre arte, História e suas razões para ter fé em Jeová Deus, um visitante disse: “Ele não permite que a doença o domine. Foi ótimo conversar com ele.”
Manter um bom senso de humor também tornará mais agradável as visitas que seus amigos fizerem. Além do mais, rir é bom para você. “O bom humor ajuda a enfrentar muitas situações e a lidar com elas”, diz um homem que sofre do mal de Parkinson. De fato, rir é um bom remédio. É como diz Provérbios 17:22: “O coração alegre faz bem como o que cura.” Mesmo poucos minutos de riso lhe farão bem. Além disso, “diferentemente de outros remédios, o riso é totalmente seguro, atóxico e agradável”, diz a escritora Susan Milstrey Wells, que também sofre de uma doença crônica. “Só temos uma coisa a perder com o sorriso: o mau humor.”
Encontre meios de reduzir o estresse. Estudos confirmam que o estresse pode piorar os sintomas físicos da doença, ao passo que a redução do estresse os torna mais toleráveis. Assim, dê uma folga para si mesmo de vez em quando. (Eclesiastes 3:1, 4) Não viva totalmente voltado para a sua doença. Se você está confinado em casa, tente diminuir a tensão emocional escutando música suave, lendo um livro, tomando um longo banho, escrevendo cartas ou poesias, pintando, tocando um instrumento musical, conversando com um bom amigo ou participando em atividades similares. Fazer isso não será a solução definitiva para o seu problema, mas vai lhe trazer alívio temporário.
Se você consegue se locomover, dê uma caminhada, faça compras ou jardinagem, passeie de carro ou, se possível, saia de férias. É verdade que viajar talvez seja mais complicado devido à sua doença, mas com preparação antecipada e um pouco de improvisação, dá para superar os obstáculos. Por exemplo, Lex e Tineke, já mencionados, conseguiram viajar para o exterior. “De início, eu estava um pouco tenso”, diz Lex, “mas tivemos férias maravilhosas!” De fato, para você, a doença faz parte da vida, mas sua vida não precisa ser controlada por ela.
Sua fé pode lhe dar forças. Cristãos que tiveram êxito em lidar com graves problemas de saúde dizem que sua fé em Jeová Deus e a associação com a congregação cristã verdadeira foram constantes fontes de consolo e força.c A seguir, reproduzimos alguns de seus comentários sobre o valor da oração, do estudo da Bíblia, da meditação sobre o futuro e da assistência às reuniões cristãs no Salão do Reino.
● “Vez por outra, ainda me sinto deprimido. Quando isso acontece, oro a Jeová e ele renova minha determinação de prosseguir fazendo o que eu posso.” — Salmo 55:22; Lucas 11:13.
● “Ler a Bíblia e meditar no que leio é uma grande ajuda para eu conservar a paz mental.” — Salmo 63:6; 77:11, 12.
● “O estudo da Bíblia me faz lembrar que a verdadeira vida ainda está no futuro e que não continuarei incapacitada para sempre.” — Isaías 35:5, 6; Revelação (Apocalipse) 21:3, 4.
● “A fé no futuro que a Bíblia promete me dá forças para enfrentar a vida um dia de cada vez.” — Mateus 6:33, 34; Romanos 12:12.
● “Estando presente às reuniões no Salão do Reino, concentro a mente em coisas positivas, não na doença.” — Salmo 26:12; 27:4.
● “O companheirismo animador com os membros da congregação me deixa muito feliz.” — Atos 28:15.
A Bíblia nos assegura: “Jeová é bom, baluarte no dia da aflição. E ele tem conhecimento dos que procuram refugiar-se nele.” (Naum 1:7) Ter um vínculo achegado com Jeová Deus e associar-se com a congregação são fontes de consolo e força. — Romanos 1:11, 12; 2 Coríntios 1:3; 4:7.
Dê tempo a si mesmo
Aprender a conviver com uma doença grave ou uma deficiência é um processo que “leva tempo, não ocorre da noite para o dia”, diz uma assistente social que ajuda pessoas a lidar com os efeitos de doenças prolongadas. Dê tempo a si mesmo, aconselha outro especialista, porque você está aprendendo “algo totalmente novo: lidar com uma doença grave”. Entenda que, mesmo com uma atitude positiva, talvez haja dias ou semanas difíceis em que os efeitos de sua doença serão desgastantes. Com o tempo, porém, é possível que você note progresso. Foi isso que aconteceu com uma mulher, que disse: “Fiquei radiante quando percebi que havia passado um dia inteiro sem nem pensar no câncer. . . . Há pouco tempo, eu imaginava que fosse impossível isso acontecer.”
De fato, depois de superar o medo inicial e estabelecer novas metas, você talvez se surpreenda com sua habilidade de enfrentar o problema, como é exemplificado no próximo artigo.
[Nota(s) de rodapé]
a Publicada pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados.
b Naturalmente, as sugestões sobre como tratar os visitantes se aplicam ainda mais à maneira como você trata seu cônjuge, seus filhos e as pessoas que cuidam de você.
c É interessante que diversos estudos médicos constataram que a fé melhora a saúde e a condição da pessoa. Segundo o professor Dale Matthews, da Faculdade de Medicina da Universidade de Georgetown, EUA, “já foi comprovado que a fé é valiosa”.
[Foto na página 7]
Aprender sobre sua doença o ajudará a lidar com ela
[Foto na página 8]
Com a ajuda de outros, Helen prepara cartas de encorajamento
[Foto na página 8]
“Fico feliz de partilhar as boas novas do Reino de Deus”
[Fotos na página 9]
“Descobri que, mesmo paralisado, conseguia fazer mais coisas do que imaginava ser possível.” — Lex
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Estabeleça metas para enfrentar os revesesDespertai! — 2001 | 22 de janeiro
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Estabeleça metas para enfrentar os reveses
NUM apartamento perto do Aeroporto LaGuardia, em Nova York, moram William (Bill) Meiners e sua esposa, Rose. Ela é uma anfitriã alegre, com seus 70 e poucos anos, que gosta de receber visitas. No apartamento, é impossível não notar a sala aconchegante que reflete o temperamento alegre da dona. O belo arranjo de flores perto da entrada e os quadros coloridos nas paredes também refletem a felicidade e a alegria de viver dos donos do apartamento.
Ao lado da sala de estar, fica um quarto bem iluminado onde Bill, de 77 anos, está meio sentado numa cama de colchão regulável. Ao ver o visitante, seus olhos amistosos brilham e os lábios se abrem num grande sorriso. Ele gostaria muito de se levantar, dar um aperto de mãos e um abraço, mas não pode. Com exceção do braço esquerdo, Bill está paralisado do pescoço para baixo.
Bill tem problemas de saúde desde os 26 anos e por isso lhe perguntamos o que o ajudou a lidar com a doença por mais de meio século. Ele e Rose se olham como se achassem graça da pergunta. “Não sabemos de ninguém aqui que esteja doente!”, diz Rose, que depois dá uma gargalhada gostosa que ressoa pelo quarto. Bill pisca como se estivesse se divertindo; ele dá uma risadinha e concorda com a esposa, balançando a cabeça. “Não tem ninguém doente aqui”, diz ele, com a voz vacilante e gutural. Rose e Bill fazem outros comentários engraçados e logo o quarto se enche de risadas. É óbvio que o amor deles, que começou quando se conheceram em setembro de 1945, ainda está bem vivo. Perguntamos novamente a Bill: “Certo, mas falando sério, que reveses vocês enfrentaram? E o que os ajudou a lidar com a situação e ter um conceito positivo sobre a vida?” Depois de gentilmente o incentivarmos um pouco, Bill concorda em contar sua história. Poderá ler a seguir trechos de várias conversas que Despertai! teve com ele e a esposa.
O início dos problemas
Em outubro de 1949 — três anos depois de se casar com Rose e três meses depois do nascimento de sua filha, Vicki — Bill ficou sabendo que tinha um tumor canceroso numa de suas cordas vocais. O tumor foi removido, mas poucos meses depois, o médico de Bill lhe disse que havia outro problema: o câncer havia afetado toda a laringe. “Disseram-me que, se eu não passasse por uma laringectomia — isto é, a remoção da laringe inteira —, só viveria mais dois anos.”
Bill e Rose ficaram sabendo qual seria o resultado da operação. A laringe vai da base da língua à entrada da traquéia e dentro dela ficam as duas cordas vocais. Quando o ar que sai dos pulmões passa pelas cordas, elas vibram e produzem os sons da fala. Se a laringe é removida, o topo da traquéia tem de ser conectado a uma abertura permanente na frente do pescoço. Depois da cirurgia, o paciente respira por esse orifício, mas perde a voz.
“Quando ouvi a explicação, fiquei com raiva”, conta Bill. “Tínhamos uma filhinha, eu tinha um bom emprego, tínhamos muitos planos para nossa vida e agora víamos todas as nossas expectativas irem por água abaixo.” Mas visto que a laringectomia poderia salvar-lhe a vida, Bill concordou com a cirurgia. “Depois da operação”, conta Bill, “eu não conseguia engolir. Não conseguia falar uma palavra. Estava mudo.” Quando Rose visitava Bill, ele só se comunicava escrevendo num caderno. Foi uma época difícil. Para enfrentar esse revés, eles estabeleceram novas metas.
Sem voz e sem emprego
Além de deixar Bill sem voz, a laringectomia o privou do seu emprego. Ele trabalhava numa oficina, mas agora que só podia respirar pelo orifício no pescoço, o pó e os vapores eram perigosos para os seus pulmões. Ele precisava encontrar outro emprego. Ainda sem poder falar, entrou numa escola de relojoaria. “Era parecido com o meu emprego anterior”, diz Bill. “Eu sabia montar peças de máquinas e na relojoaria também se montam peças. A única diferença é que elas não pesam 25 quilos!” Logo depois de terminar o curso, ele conseguiu emprego numa relojoaria. Havia atingido uma das metas.
Nesse meio-tempo, Bill havia começado a aprender a falar pelo esôfago. Nesse método de fala, o som não é produzido pelas cordas vocais, mas pelas vibrações do esôfago, o tubo que leva o alimento da garganta para o estômago. Primeiro, a pessoa aprende a engolir ar e a forçá-lo a descer pelo esôfago. Daí, ela arrota o ar de forma controlada. Ao sair, o ar faz as paredes do esôfago vibrar. Isso produz um som gutural, que pode ser articulado com a boca e os lábios para formar a fala.
“Antes, eu só arrotava quando havia comido demais”, diz Bill, sorrindo, “mas então tive de aprender a arrotar sem parar. De início, só conseguia pronunciar uma palavra por vez, assim: ‘[Inalar, engolir, arrotar] Como [inalar, engolir, arrotar] vai [inalar, engolir, arrotar] você?’ Não era fácil. Daí, meu instrutor me disse para beber bastante refrigerante porque o gás me ajudaria a arrotar. Assim, quando Rose saía para dar um passeio com Vicki, eu bebia e arrotava, bebia e arrotava. Eu me esforcei bastante.”
Cerca de 60% dos pacientes submetidos a laringectomia não conseguem aprender a falar pelo esôfago, mas Bill progrediu. Vicki, que na época tinha quase dois anos, sem saber o incentivou. Bill explica: “Vicki conversava comigo e ficava me olhando, esperando resposta. Mas eu não conseguia dizer nada. Ela falava de novo, mas novamente não havia resposta. Vicki ficava aborrecida e pedia à minha esposa: ‘Diz para o papai falar comigo!’ Ouvir isso me cortava o coração e por isso decidi que ia falar de novo.” Para a felicidade de Vicki, de Rose e de outros, Bill conseguiu. Outra meta havia sido atingida.
Um novo revés
Em fins de 1951, Bill e Rose enfrentaram outro dilema. Os médicos, temendo que o câncer voltasse, aconselharam Bill a fazer radioterapia. Ele concordou. Quando o tratamento acabou, ele estava ansioso para retomar sua vida. Mal sabia ele que logo sua saúde sofreria outro revés.
Passou-se cerca de um ano. Um dia Bill ficou com os dedos dormentes. Depois disso, ele não conseguiu mais subir escadas. Logo depois, ele caiu quando caminhava e não conseguiu se levantar. Os exames revelaram que a radioterapia que Bill recebera (que, na época, não era tão precisa quanto hoje) havia lesado sua medula espinhal. Disseram-lhe que seu quadro clínico ia piorar. Um médico chegou a dizer-lhe que suas chances de sobreviver eram “praticamente nulas”. Bill e Rose ficaram arrasados.
Mesmo assim, Bill internou-se num hospital por seis meses para fazer fisioterapia e tentar enfrentar esse revés. Embora a terapia não impedisse a deterioração de sua condição física, a internação no hospital mudou sua vida de um modo que, mais tarde, resultaria em ele vir a conhecer a Jeová. Como foi isso?
Fortalecido ao saber da causa dos problemas
Durante aqueles seis meses, Bill dividiu o quarto num hospital judaico com 19 homens paralisados, todos eles judeus ortodoxos. Toda tarde os homens conversavam sobre a Bíblia. Bill, que freqüentava a Igreja Batista, só escutava. Quando recebeu alta do hospital, ele já ouvira o suficiente para concluir que o Deus todo-poderoso é uma única pessoa e que a doutrina da Trindade contradiz a Bíblia. Em resultado disso, Bill nunca mais voltou à sua Igreja. Contudo, ele sentia que precisava de orientação espiritual para enfrentar os reveses da vida. “Continuei pedindo a ajuda de Deus”, diz Bill, “e minhas orações foram respondidas”.
Um sábado em 1953, Roy Douglas, um senhor idoso que havia sido vizinho de Bill e que ouvira falar das dificuldades dele, fez-lhe uma visita. Roy, que era Testemunha de Jeová, perguntou se Bill queria estudar a Bíblia com ele e Bill aceitou. Sua leitura da Bíblia e do livro “Seja Deus Verdadeiro”a lhe abriu os olhos. Ele contava a Rose o que aprendia e ela também começou a estudar. Rose lembra: “Na igreja, diziam que a doença é um castigo de Deus, mas nosso estudo da Bíblia mostrou que isso não é verdade. Ficamos tão aliviados!” Bill acrescenta: “Aprendemos na Bíblia qual é a causa de todos os problemas, incluindo minha doença, e ficamos sabendo que o futuro será muito melhor. Isso nos ajudou a aceitar minha situação.” Em 1954, Bill e Rose atingiram outra meta: ambos foram batizados como Testemunhas de Jeová.
Outros ajustes
Nesse meio-tempo, a paralisia de Bill chegara a tal ponto que ele não conseguia mais trabalhar. Para ganhar o sustento, Bill e Rose trocaram de papéis: ele ficou em casa com Vicki e Rose começou a trabalhar na relojoaria. Ela trabalhou lá por 35 anos!
“Cuidar de nossa filha me deu muita alegria”, conta Bill. “Vicki também gostava. Toda orgulhosa, ela contava para todo mundo: ‘Eu cuido do papai!’ Mais tarde, quando ela entrou na escola, eu a ajudava com suas tarefas de casa e muitas vezes nós brincávamos. Além disso, tive uma ótima oportunidade de dar-lhe instrução bíblica.”
A assistência às reuniões cristãs no Salão do Reino era outra fonte de alegria para Bill e sua família. Ele levava uma hora para ir, mancando, de casa até o Salão do Reino, mas não perdia as reuniões. Mais tarde Bill e Rose se mudaram para outra parte da cidade e compraram um carro pequeno para que Rose pudesse levar a família ao salão. Embora só pudesse falar por períodos curtos, Bill se matriculou na Escola do Ministério Teocrático. Ele explica: “Eu escrevia meu discurso e outro irmão o apresentava. Depois do discurso, o superintendente da escola me aconselhava com base no conteúdo.”
Várias pessoas na congregação também ajudavam Bill a participar regularmente na obra de pregação. E ele foi mais tarde designado servo ministerial na congregação, o que não surpreendeu os que observavam seu zelo. Daí, quando suas pernas também ficaram paralisadas, ele ficou confinado ao apartamento e, por fim, não pôde mais sair da cama. Conseguiria enfrentar esse revés?
Um passatempo agradável
“Visto que ficava em casa o dia todo, procurei um passatempo”, diz Bill. “Antes de ficar paralisado, eu gostava de fotografia. Assim, achei que devia tentar pintar, embora nunca tivesse pintado nada em toda a minha vida. Também, sou destro, mas minha mão direita e dois dedos da mão esquerda estavam paralisados. Mesmo assim, Rose comprou uma pilha de livros sobre técnicas de pintura. Estudei-os e comecei a pintar com a mão esquerda. Muitas pinturas acabaram no lixo, mas com o tempo aprendi a pintar.”
A bela coleção de aquarelas que agora adorna o apartamento de Bill e Rose mostra que ele foi mais bem-sucedido do que esperava. “Cerca de cinco anos atrás”, acrescenta Bill, “a mão esquerda começou a tremer tanto que tive de aposentar os pincéis, mas durante anos esse passatempo me deu muita alegria”.
A meta definitiva
Bill conta: “Já se passaram mais de 50 anos desde que meus problemas de saúde começaram. A leitura da Bíblia ainda me consola, em especial os Salmos e o livro de Jó. E também gosto de ler as publicações da Sociedade Torre de Vigia. Os membros da nossa congregação e os superintendentes viajantes — que nas suas visitas partilham relatos animadores — também me encorajam muito. Além disso, escuto as reuniões do Salão do Reino por telefone e assisto ao programa dos congressos em vídeo.
“Sou grato por ter sido abençoado com uma esposa amorosa. Ao longo dos anos, ela tem sido minha melhor amiga. Também nossa filha, que agora serve a Jeová com sua família, continua sendo uma fonte de grande alegria. Em especial, eu agradeço a Jeová por me ajudar a permanecer achegado a ele. Hoje, à medida que meu corpo e minha voz ficam cada vez mais fracos, muitas vezes penso nas palavras do apóstolo Paulo: ‘Não desistimos; porém, ainda que o homem que somos por fora se definhe, certamente o homem que somos por dentro está sendo renovado de dia em dia.’ (2 Coríntios 4:16) Permanecer espiritualmente desperto enquanto eu viver — esse é o meu derradeiro objetivo.”
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