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  • A guerra milenar por uma saúde melhor
    Despertai! — 2004 | 22 de maio
    • A guerra milenar por uma saúde melhor

      JOANNE morava em Nova York e tinha tuberculose. Mas não era um caso comum. Ela tinha uma cepa mutante, resistente a quase todos os remédios e que mata metade das vítimas. Mesmo assim, Joanne não procurava tratamento médico regularmente e já havia provocado pelo menos um surto da doença. ‘Ela devia ser presa’, disse sua médica, frustrada.

      A tuberculose é uma assassina de longa data. Milhões de pessoas, literalmente, já a contraíram e morreram por causa dela. Encontraram-se evidências da doença em múmias das antigas sociedades do Egito e do Peru. Atualmente, cepas ressurgentes matam cerca de 2 milhões de pessoas todo ano.

      Carlitos, que morava numa cabana, na África, estava deitado numa pequena cama, com a testa molhada de suor. Ele pegou malária e ficou tão fraco que nem conseguia chorar. Os pais, aflitos, não tinham dinheiro para comprar remédios e não havia hospital por perto para atender seu filhinho. A febre não cedeu e em 48 horas o menino estava morto.

      A malária mata cerca de um milhão de crianças como Carlitos todo ano. Em aldeias da África Oriental, é comum as crianças serem picadas por mosquitos portadores da malária de 50 a 80 vezes por mês. Esses mosquitos estão se espalhando para novas áreas e os remédios contra a malária estão perdendo a eficácia. Calcula-se que 300 milhões de pessoas sofram de malária aguda todo ano.

      Kenneth, um homem de 30 anos que morava em San Francisco, Califórnia, foi à primeira de uma série de consultas com seu médico em 1980. Ele se queixava de diarréia e fadiga. Um ano depois, estava morto. Apesar do excelente tratamento médico que recebeu, seu corpo simplesmente definhou, e ele por fim sucumbiu à pneumonia.

      Dois anos depois e a 16 mil quilômetros de distância de San Francisco, uma jovem no norte da Tanzânia começou a apresentar os mesmos sintomas. Em apenas algumas semanas, já não conseguia andar e logo depois morreu. Os aldeões batizaram a estranha doença de ‘Juliana’, porque parece ter sido um homem que vendia tecidos com esse nome estampado que havia infectado a moça e outras mulheres da aldeia.

      Tanto Kenneth como a jovem tanzaniana tinham a mesma doença: Aids. No começo dos anos 80, exatamente quando parecia que a medicina havia vencido os micróbios mais perigosos, essa nova doença infecciosa surgiu para atormentar a humanidade. Em duas décadas, o número de mortos pela Aids começou a rivalizar com o de mortos pela peste que varreu a Europa e a Ásia no século 14 — uma peste que a Europa nunca esqueceu.

      A Peste Negra

      O irrompimento da peste que veio a ser conhecida como Peste Negra remonta a 1347, quando um navio da Criméia atracou em Messina, na ilha da Sicília. Além da carga costumeira, o navio trouxe com ele a peste.a Em pouco tempo a Peste Negra se alastrou pela Itália.

      No ano seguinte, Agnolo di Tura, de Siena, na Itália, descreveu o horror na sua cidade natal: ‘A mortandade em Siena começou em maio. Foi uma coisa cruel e horrível. As vítimas morriam quase imediatamente. Faleciam às centenas, de dia e de noite.’ Ele acrescentou: ‘Eu enterrei meus cinco filhos com minhas próprias mãos, e o mesmo fizeram muitos outros. Ninguém chorava, não importava a quem perdessem, porque quase todos já esperavam a morte. Tantos morreram que todos acreditavam que aquilo era o fim do mundo.’

      Alguns historiadores dizem que em quatro anos a peste se alastrou por toda a Europa e cerca de um terço da população perdeu a vida — algo entre 20 milhões e 30 milhões de pessoas. Até a Islândia, tão distante, foi dizimada. Diz-se que a população da China, no Extremo Oriente, despencou de 123 milhões no começo do século 13 para 65 milhões durante o século 14, aparentemente em resultado da peste e da fome que ocorreu na mesma época.

      Sofrimento de tamanha amplitude causado por epidemia, guerra ou fome jamais tinha sido visto. “Foi um desastre sem igual na História da humanidade”, comenta o livro Man and Microbes (O Homem e os Micróbios). “Algo entre um quarto e metade da população da Europa, do Norte da África e de partes da Ásia foi aniquilada.”

      As Américas escaparam da devastação da Peste Negra graças ao isolamento do resto do mundo. Mas os navios transoceânicos logo puseram fim a tal isolamento. No século 16, uma onda de epidemias, ainda mais mortíferas do que a peste, devastou o recém-descoberto Novo Mundo.

      A varíola toma conta das Américas

      Em 1492, quando Colombo chegou às Índias Ocidentais, ou Antilhas, descreveu os nativos como pessoas de ‘aspecto agradável, feições finas, estatura mediana e corpo musculoso’. Essa aparência saudável, porém, ocultava sua vulnerabilidade às doenças do Velho Mundo.

      Em 1518, um surto de varíola irrompeu na ilha de Hispaniola. Os americanos nativos jamais haviam sido expostos à varíola, e o resultado foi catastrófico. Um espanhol que presenciou o ocorrido fez a estimativa de que apenas mil pessoas sobreviveram na ilha. A epidemia logo se alastrou, chegando ao México e ao Peru, e as conseqüências foram similares.

      No século seguinte, quando os colonos puritanos chegaram à região de Massachusetts, na América do Norte, descobriram que a varíola havia praticamente varrido os habitantes do território. “Os nativos foram quase todos mortos pela varíola”, escreveu o líder puritano John Winthrop.

      Outras epidemias seguiram a varíola. De acordo com certa fonte, por volta de um século depois da chegada de Colombo, doenças “importadas” haviam eliminado 90% da população do Novo Mundo. A população do México havia diminuído de 30 milhões para 3 milhões e a do Peru, de 8 milhões para 1 milhão. É claro que os americanos nativos não foram as únicas vítimas da varíola. “No decorrer da História humana, a varíola foi responsável pela perda de centenas de milhões de vidas, muito mais do que a peste  . . . e todas as guerras do século 20 juntas”, observa o livro Scourge​—The Once and Future Threat of Smallpox (Flagelo — a Ameaça Antiga e Futura da Varíola).

      A guerra ainda não foi vencida

      Hoje em dia, as terríveis epidemias de peste e de varíola talvez pareçam catástrofes que há muito tempo se limitam às páginas da História. Durante o século 20, a humanidade venceu muitas batalhas na guerra contra as doenças infecciosas, principalmente nos países industrializados. Os médicos descobriram as causas da maioria das doenças e também como curá-las. (Veja o quadro abaixo.) Novas vacinas e antibióticos pareciam “balas mágicas” de um revólver, capazes de exterminar até mesmo a doença mais resistente.

      No entanto, como salienta o Dr. Richard Krause, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, dos EUA, “as epidemias são tão certas como a morte e os impostos”. A tuberculose e a malária não foram erradicadas. E a recente pandemia da Aids é um triste lembrete de que as pestilências ainda ameaçam o planeta. “As doenças infecciosas continuam sendo a principal causa de morte no mundo; e continuarão sendo durante muito tempo”, declara o livro Man and Microbes.

      Alguns médicos temem que, apesar do progresso notável no combate às doenças, as conquistas nas últimas décadas talvez sejam apenas temporárias. “O perigo que as doenças infecciosas representam não acabou — está piorando”, alerta o epidemiologista Robert Shope. O próximo artigo explica por quê.

      [Nota(s) de rodapé]

      a A peste assumiu diversas formas, entre elas a bubônica e a pneumônica. A peste bubônica foi espalhada por pulgas, geralmente transportadas por ratos. A peste pneumônica foi espalhada principalmente pelas pessoas infectadas, ao tossir e espirrar.

      [Destaque na página 5]

      Em duas décadas, o número de mortos pela Aids começou a rivalizar com o de mortos pela peste que varreu a Europa e a Ásia no século 14

      [Quadro/Fotos na página 6]

      Ciência versus superstição

      No século 14, quando a Peste Negra ameaçou a corte do papa em Avignon, o médico dele informou que a conjunção de três planetas — Saturno, Júpiter e Marte — no signo de Aquário era a principal causa da peste.

      Quatro séculos depois, George Washington foi dormir certa noite com uma inflamação na garganta. Três médicos famosos e respeitados trataram a infecção extraindo cerca de dois litros de sangue das veias do paciente. Em poucas horas, ele estava morto. A sangria foi um procedimento médico padrão durante 2.500 anos — do tempo de Hipócrates até meados do século 19.

      Embora a superstição e a tradição tenham retardado o progresso da medicina, médicos dedicados trabalharam muito para encontrar as causas das doenças infecciosas e remédios para combatê-las. Alistamos abaixo algumas de suas importantes descobertas.

      ◼ Varíola. Em 1798, Edward Jenner conseguiu desenvolver uma vacina contra a varíola. Durante o século 20, as vacinas provaram-se eficazes em prevenir outras doenças, como a poliomielite, a febre amarela, o sarampo e a rubéola.

      ◼ Tuberculose. Em 1882, Robert Koch identificou a bactéria causadora da tuberculose e desenvolveu um teste para diagnosticar a doença. Uns 60 anos depois foi descoberta a estreptomicina, um antibiótico eficaz contra a tuberculose que também se mostrou útil no tratamento da peste bubônica.

      ◼ Malária. Do século 17 em diante, a quinina — substância extraída da casca de arbustos do gênero Cinchona — salvou a vida de milhões de portadores de malária. Em 1897, Ronald Ross identificou os mosquitos do gênero Anopheles como os transmissores da doença, e o controle dos mosquitos foi mais tarde incentivado para reduzir a mortalidade nos países tropicais.

      [Fotos]

      Diagrama de regências astrológicas (acima) e sangria

      [Crédito]

      Crédito das duas fotos: Biblioteca Histórica “Marqués de Valdecilla”

      [Fotos na página 3]

      Atualmente, cepas ressurgentes da tuberculose matam cerca de 2 milhões de pessoas todo ano

      [Créditos]

      Raio X: New Jersey Medical School-National Tuberculosis Center; homem: foto: OMS/Thierry Falise

      [Foto na página 4]

      Gravura alemã em relevo, datada de cerca de 1500, em que um médico usa uma máscara para se proteger da Peste Negra. O bico continha perfume

      [Crédito]

      Godo-Foto

      [Foto na página 4]

      Bactérias causadoras da peste bubônica

      [Crédito]

      © Gary Gaugler/Visuals Unlimited

  • Vitórias e derrotas na guerra contra as doenças
    Despertai! — 2004 | 22 de maio
    • Vitórias e derrotas na guerra contra as doenças

      EM 5 de agosto de 1942, o Dr. Alexander Fleming constatou que um de seus pacientes, que era também seu amigo, estava morrendo. O homem de 52 anos havia contraído meningite espinhal e, apesar de todos os esforços de Fleming, acabava de entrar em coma.

      Quinze anos antes, Fleming havia descoberto por acaso uma substância extraordinária produzida por um mofo verde-azulado e a chamou de penicilina. Ele observou que a substância era capaz de matar bactérias, mas não conseguiu isolar a penicilina pura e testou-a apenas como anti-séptico. Em 1938, porém, Howard Florey e sua equipe de pesquisa da Universidade de Oxford, Inglaterra, enfrentaram o desafio de produzir uma quantidade da droga suficiente para testá-la em seres humanos. Fleming telefonou para Florey, que se dispôs a enviar toda a penicilina que tinha disponível. Era a última chance de Fleming salvar seu amigo.

      Como uma injeção intramuscular de penicilina não foi suficiente, Fleming injetou a droga direto na espinha do amigo. A penicilina destruiu os micróbios e, em pouco mais de uma semana, o paciente saiu do hospital completamente curado. A era dos antibióticos havia começado, e um novo marco fora alcançado na guerra da humanidade contra as doenças.

      A era dos antibióticos

      Quando os antibióticos surgiram, pareciam ser drogas milagrosas. Infecções até então incuráveis, causadas por bactérias, fungos ou outros microorganismos podiam agora ser tratadas com eficácia. Graças aos novos medicamentos, o número de mortes devido a meningite, pneumonia e escarlatina diminuiu drasticamente. Infecções hospitalares, que antes equivaliam a uma sentença de morte, passaram a ser curadas em poucos dias.

      Desde os dias de Fleming, os pesquisadores já desenvolveram outras dezenas de antibióticos, e a busca por novos tipos continua. Durante os últimos 60 anos, os antibióticos se tornaram uma arma indispensável na guerra contra as doenças. Se George Washington vivesse em nossos dias, os médicos com certeza tratariam sua garganta inflamada com um antibiótico, e ele provavelmente se recuperaria em mais ou menos uma semana. Os antibióticos já ajudaram quase todos nós a nos livrar de alguma infecção. No entanto, as evidências mostram que eles também têm suas desvantagens.

      O tratamento com antibióticos não é eficaz no combate a doenças causadas por vírus, como a Aids e a gripe. Além disso, algumas pessoas têm alergia a determinados antibióticos. E as drogas de amplo espectro de ação podem matar os microorganismos benéficos no nosso corpo. Mas talvez os maiores problemas com os antibióticos sejam o uso excessivo e a subutilização deles.

      A subutilização ocorre quando o paciente interrompe o tratamento com antibióticos antes do prazo determinado pelo médico, porque se sente melhor ou acha o tratamento longo demais. O resultado é que o antibiótico talvez não elimine totalmente as bactérias invasoras, permitindo que cepas resistentes sobrevivam e se multipliquem. Isso tem acontecido com freqüência no tratamento de pacientes com tuberculose.

      Por outro lado, tanto médicos como criadores de gado têm sido responsabilizados pelo uso excessivo dessas novas drogas. “Os antibióticos têm sido prescritos em excesso nos Estados Unidos e são usados ainda mais indiscriminadamente em muitos outros países”, explica o livro Man and Microbes (O Homem e os Micróbios). “Eles têm sido administrados em enormes quantidades aos rebanhos, não para curar doenças, mas para acelerar o crescimento, e isso é um dos principais fatores para o aumento da resistência dos micróbios.” O resultado, alerta o livro, é que “talvez com o tempo não tenhamos novos antibióticos a que recorrer”.

      Mas, excetuando-se tais questões sobre a resistência aos antibióticos, a segunda metade do século 20 foi uma época de triunfos da medicina. Os pesquisadores médicos pareciam ser capazes de encontrar drogas para combater praticamente qualquer enfermidade. E as vacinas até mesmo tornaram possível prevenir as doenças.

      Vitórias da medicina

      “A imunização é a maior vitória da saúde pública em todos os tempos”, declarou The World Health Report 1999 (Relatório sobre a Saúde no Mundo 1999). Milhões de vidas já foram salvas graças às campanhas de vacinação em massa em todo o mundo. Um programa global de imunização eliminou a varíola — doença mortífera que fez mais vítimas do que todas as guerras do século 20 juntas — e uma campanha similar quase erradicou a poliomielite. (Veja o quadro “Vitórias sobre a varíola e a poliomielite”.) Hoje muitas crianças são vacinadas para se proteger contra doenças comuns, potencialmente fatais.

      Outras doenças foram controladas sem se chamar tanto a atenção do mundo. Doenças transmitidas pela água, como a cólera, raramente causam problemas onde há saneamento adequado e fornecimento de água potável. Em muitos países, o acesso facilitado a médicos e hospitais faz com que a maioria das doenças possam ser identificadas e tratadas antes de se tornar letais. Outros fatores que têm contribuído para promover a saúde pública são os hábitos de alimentação e as condições de moradia melhores, aliados ao cumprimento das normas sobre o modo correto de manusear e estocar os alimentos.

      Depois que os cientistas descobriram as causas das doenças infecciosas, as autoridades sanitárias puderam tomar medidas práticas para conter o alastramento de uma epidemia. Veja um exemplo. Em 1907, um surto de peste bubônica em San Francisco, nos Estados Unidos, matou poucas pessoas porque a cidade imediatamente lançou uma campanha para exterminar os ratos hospedeiros das pulgas que transmitiam a doença. Isso não ocorreu anos antes na Índia, onde um surto da mesma doença começou em 1896 e resultou na morte de 10 milhões de pessoas num período de 12 anos, porque o agente transmissor ainda não havia sido identificado.

      Derrotas no combate às doenças

      Vimos claramente que batalhas importantes foram vencidas. Mas algumas vitórias da saúde pública ficaram limitadas aos países mais ricos. Doenças tratáveis ainda matam milhões de pessoas, simplesmente por falta de recursos. Nos países em desenvolvimento, muitas pessoas ainda vivem em áreas sem saneamento adequado e não têm acesso a assistência médica nem a água potável. Atender tais necessidades básicas tem se tornado mais difícil devido às migrações em massa da zona rural para as megacidades do mundo em desenvolvimento. Como resultado de tais fatores, os pobres do mundo carregam o que a Organização Mundial da Saúde chamou de uma “parcela desproporcional do fardo das doenças”.

      O egoísmo, com sua visão de curto alcance, é a principal causa desse desequilíbrio. “Algumas das doenças infecciosas mais mortíferas do mundo parecem distantes”, declara o livro Man and Microbes. “Algumas delas limitam-se inteira ou principalmente a regiões tropicais e subtropicais pobres.” Visto que os países desenvolvidos e as empresas farmacêuticas talvez não se beneficiem diretamente, eles resistem à idéia de destinar recursos para o tratamento de tais doenças.

      O comportamento humano irresponsável também colabora na disseminação de doenças. Não há melhor exemplo dessa cruel realidade do que o do vírus da Aids, que é transmitido de uma pessoa para outra por meio dos fluidos do corpo. Em poucos anos, a pandemia se espalhou pelo mundo. (Veja o quadro “Aids — o flagelo dos nossos tempos”.) “Os próprios seres humanos são os responsáveis”, assevera o epidemiologista Joe McCormick. “E dizer isso não é ser moralista, é ser realista.”

      Como o homem sem querer cooperara com o vírus da Aids? O livro A Próxima Peste alista os seguintes fatores: mudanças sociais — especialmente o costume de manter múltiplos parceiros sexuais — resultaram numa onda de doenças sexualmente transmissíveis, tornando muito mais fácil o vírus se estabelecer e um portador infectar muitas outras pessoas. O uso em larga escala de seringas contaminadas, que são reutilizadas para injeção de remédios em países em desenvolvimento ou por usuários de drogas, teve um efeito similar. A indústria global do sangue, que movimenta 1 bilhão de dólares, também permitiu que o vírus da Aids passasse de um doador para dezenas de receptores.

      Como já mencionado, o uso excessivo e a subutilização dos antibióticos têm contribuído para o surgimento de micróbios resistentes. O problema é grave e está piorando. Os estafilococos, bactérias que costumam provocar infecção em ferimentos, eram facilmente eliminados com derivados de penicilina. Mas agora tais antibióticos tradicionais perderam o efeito em muitos casos. De modo que os médicos precisam recorrer a antibióticos mais novos e caros, que os hospitais nos países em desenvolvimento dificilmente conseguem obter. Até mesmo os antibióticos mais recentes talvez se mostrem incapazes de combater certos micróbios, tornando as infecções hospitalares mais comuns e mais mortíferas. O Dr. Richard Krause, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, dos EUA, descreveu a situação atual como “uma epidemia de resistência microbiana”.

      “Estamos em melhor situação hoje?”

      Agora, no começo do século 21, podemos ver claramente que a ameaça das doenças não desapareceu. O avanço implacável da Aids, o surgimento de patógenos resistentes a medicamentos e a volta de antigos assassinos como a tuberculose e a malária mostram que a guerra contra as doenças ainda não foi vencida.

      “Estamos em melhor situação hoje do que estávamos há um século?”, perguntou o ganhador do Prêmio Nobel Joshua Lederberg. “Em muitos sentidos, a situação está pior”, disse ele. “Nós fomos negligentes em lidar com os micróbios, e esse é um tema recorrente que está voltando para nos atormentar.” Será que as dificuldades atuais podem ser superadas se a ciência médica e todas as nações do mundo se esforçarem com determinação nesse sentido? Será que as principais doenças infecciosas serão finalmente erradicadas, como a varíola foi? Nosso último artigo responderá a essas perguntas.

      [Quadro/Foto na página 8]

      Vitórias sobre a varíola e a poliomielite

      No fim de outubro de 1977, a Organização Mundial da Saúde (OMS) localizou o último caso conhecido de infecção natural da varíola. Ali Maow Maalin, cozinheiro de um hospital na Somália, contraiu a forma branda da doença e se recuperou em poucas semanas. Todas as pessoas que tiveram contato com ele foram vacinadas.

      Durante dois longos anos, os médicos esperaram ansiosamente. Ofereceu-se uma recompensa de mil dólares a quem quer que pudesse relatar outro caso confirmado de varíola ativa. Houve tentativas, mas ninguém conseguiu relatar um único caso comprovado e ganhar a recompensa. Portanto, em 8 de maio de 1980, a OMS anunciou formalmente que ‘o mundo e todos os seus povos estavam livres da varíola’. Apenas uma década antes, a varíola matava cerca de 2 milhões de pessoas por ano. Pela primeira vez na história, uma doença infecciosa grave havia sido eliminada.a

      Outra doença que parece ser possível erradicar é a poliomielite, ou paralisia infantil. Em 1955, Jonas Salk produziu uma vacina eficaz contra a doença, e uma campanha de imunização contra a poliomielite começou nos Estados Unidos e em outros países. Mais tarde, desenvolveu-se uma vacina oral. Em 1988, a OMS lançou um programa mundial para eliminar a doença.

      “Quando iniciamos o empenho pela erradicação dela em 1988, a poliomielite deixava paralíticas mais de mil crianças por dia”, relata a Dra. Gro Harlem Brundtland, então diretora-geral da OMS. “Em 2001, houve bem menos de mil casos durante o ano inteiro.” A poliomielite se limita hoje a menos de dez países, embora se precise de mais recursos para ajudá-los a eliminar a doença definitivamente.

      [Nota(s) de rodapé]

      a A varíola era a doença ideal para ser combatida por uma campanha internacional de vacinação. Ao contrário de doenças que são disseminadas por vetores difíceis de controlar, como ratos ou insetos, o vírus da varíola depende do hospedeiro humano para sobreviver.

      [Foto]

      Menino etíope recebe vacina oral contra a poliomielite

      [Crédito]

      © OMS/P. Virot

      [Quadro/Foto na página 10]

      Aids — o flagelo dos nossos tempos

      A Aids vem se destacando como nova ameaça global. Cerca de 20 anos depois de sua descoberta, mais de 60 milhões de pessoas já foram infectadas. E as autoridades sanitárias alertam que a pandemia da Aids ainda está em sua “fase inicial”. O número de pessoas infectadas está “aumentando mais rápido do que se julgava possível anteriormente”, e são devastadores os efeitos nas regiões do mundo mais severamente atingidas.

      “A vasta maioria das pessoas com HIV/Aids no mundo está no período mais produtivo da vida”, explica um relatório das Nações Unidas. Em resultado disso, acredita-se que diversos países do sul da África perderão entre 10% e 20% da força de trabalho até 2005. O relatório acrescenta: “A expectativa média de vida na África subsaariana é agora de 47 anos. Sem a Aids, já teria chegado a 62 anos.”

      Os esforços para descobrir uma vacina têm sido inúteis até o momento, e apenas 4% dos 6 milhões de doentes de Aids no mundo em desenvolvimento têm acesso à terapia com medicamentos. Ainda não existe cura para a Aids, e os médicos temem que a maioria dos portadores do vírus acabem finalmente desenvolvendo a doença.

      [Foto]

      Linfócitos-T infectados pelo vírus HIV

      [Crédito]

      Godo-Foto

      [Foto na página 7]

      Técnico de laboratório examina uma cepa de vírus difícil de combater

      [Crédito]

      CDC/Anthony Sanchez

  • Um mundo livre de doenças
    Despertai! — 2004 | 22 de maio
    • Um mundo livre de doenças

      “Todos os países devem cooperar, num espírito de comunidade e serviço, a fim de garantir os cuidados primários de saúde a todos os povos, uma vez que a consecução da saúde do povo de qualquer país interessa e beneficia diretamente todos os outros países.” — DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA, 12 DE SETEMBRO DE 1978.

      HÁ 25 anos, garantir os cuidados primários de saúde para todos na Terra parecia ser uma meta atingível. Os presentes à Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, reunidos em Alma-Ata, no atual Casaquistão, decidiram que toda a humanidade deveria ser imunizada contra as principais doenças infecciosas até o ano 2000. Eles também esperavam que até aquele ano todos na Terra já tivessem à disposição saneamento básico e água potável. Todos os Estados membros da Organização Mundial da Saúde (OMS) assinaram a declaração.

      A meta certamente era louvável, mas o desenrolar dos acontecimentos foi desapontador. Os cuidados primários de saúde de modo algum são universais, e as doenças infecciosas ainda ameaçam a saúde de bilhões de pessoas na Terra. Tais doenças mortíferas muitas vezes atacam crianças e também adultos no auge da vida.

      Nem mesmo a ameaça tripla da Aids, tuberculose e malária obrigou os países a “cooperar num espírito de comunidade”. O então recém-estabelecido Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária solicitou 13 bilhões de dólares a governos como ajuda para frear essas epidemias. Até meados de 2002, porém, apenas pouco mais de 2 bilhões de dólares haviam sido oferecidos — e no mesmo ano, calcula-se que os gastos militares tenham chegado a 700 bilhões de dólares! Infelizmente, no mundo dividido de hoje, poucas ameaças são capazes de unir todas as nações para o bem comum.

      Mesmo com as melhores intenções, as autoridades sanitárias acham-se em desvantagem no combate às doenças infecciosas. Muitos governos não fornecem verba suficiente. Os micróbios estão se tornando resistentes a diversas drogas, e muitas pessoas insistem em levar um estilo de vida de alto risco. Além disso, problemas endêmicos como a pobreza, a guerra e a fome abrem as portas para os patógenos invadirem facilmente milhões de hospedeiros humanos.

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