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Estrangeiros — um problema mundialDespertai! — 1992 | 8 de maio
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Estrangeiros — um problema mundial
“NÓS VAMOS a Johanesburgo para ganhar dinheiro, porque aqui não tem serviço”, disse um trabalhador migrante da zona rural no sul da África. Ele declara: “Se tivéssemos serviço aqui, nem pensaríamos em ir a Johanesburgo.” Sua tocante explicação descreve o dilema de muitos estrangeiros e trabalhadores migrantes.
Mas o tremendo volume de migração nas últimas décadas assusta alguns. (Veja o quadro na página 5.) O diário espanhol El País disse: “O racismo e a xenofobia subitamente ressurgiram na nova Alemanha.” Turbas violentas, descritas pela imprensa como skinheads (jovens de cabeça rapada) neonazistas, têm atacado imigrantes.
Algumas autoridades de imigração admitem que seguem uma política de exclusão. Um funcionário de imigração num país asiático declarou que sua função era ‘manter afastados os estrangeiros’. Também, referindo-se ao recente influxo de refugiados vindos de um país do leste europeu, a revista Time cita um alto funcionário que disse: “Não queremos que se sintam muito bem aqui, porque queremos que voltem para o lugar de onde vieram.”
Mais mordazes ainda foram as declarações de um jornalista, na França, que estava convencido de que ‘os estrangeiros que imigravam para lá eram uma ameaça’. Suas razões? Eles são de “raça diferente, [falam] línguas diferentes, [e têm] valores diferentes”. Sua conclusão? “Devemos deportar o máximo que pudermos [e] isolar os demais.”
Cercados de tais sentimentos antialienígenos, não é de admirar que os estrangeiros enfrentem uma muralha de preconceito da parte de comunidades locais que se sentem ameaçadas pelo súbito influxo de forasteiros. Tipicamente, um irritado israelense nato lamentou que “os locadores preferem os imigrantes soviéticos” porque o governo dá a estes uma ajuda financeira quando se fixam em Israel. Assim, o aumento dos aluguéis obriga cidadãos locais a mudarem de casa.
Não é segredo que os estrangeiros não raro executam trabalhos servis que os cidadãos locais desprezam. Assim, muitos recém-chegados têm de trabalhar sob duras condições em troca de baixos salários — ainda mais se forem imigrantes em situação ilegal. Ademais, os estrangeiros não raro sofrem muita discriminação no local de trabalho, por causa de sua condição de estrangeiro.
Independentemente de quem sejam ou de onde tentem se estabelecer, a maioria dos imigrantes enfrenta o doloroso processo de sarar as feridas de suas raízes cortadas e formar novos laços para o futuro. A revista U.S.News & World Report diz que os estrangeiros “não raro começam sentindo-se excluídos e esmagados”. Para alguns o esforço é grande demais. Sobre estes, continua o artigo: “A tragédia de perder a primeira pátria é agravada pelo fracasso de encontrar uma segunda.” Para muitos, esta sensação de deslocamento tem muito a ver com a imensa tarefa de aprender uma nova língua.
Como Se Diz . . . ?
Já teve de aprender uma nova língua e adaptar-se a uma nova cultura? Como isto o afetou? Quase com certeza “o que sobrou de seus labores é uma aborrecedora sensação de frustração”, responde Stanislaw Baranczak, imigrante e escritor polonês radicado nos Estados Unidos. Sim, dominar o idioma é essencial para se integrar na sociedade. Aprender um novo idioma pode ser um aspecto especialmente provador da integração, notadamente para os estrangeiros de mais idade.
Para esses imigrantes, aprender um idioma muitas vezes é um círculo vicioso. A revista Aging diz que, se os estrangeiros não conseguem ajustar-se à perda do idioma e da cultura, o resultado não raro é a depressão, que, por sua vez, não lhes permite concentrar-se nas exigências de aprender o novo idioma. Por fim, o estrangeiro reluta cada vez mais em assumir o risco e, às vezes, a humilhação, de aprender o idioma. O problema se agrava quando os filhos assimilam o idioma e a cultura mais depressa do que os pais. Muitas vezes isto gera fricções e conflito de gerações nas famílias de imigrantes, nos casos em que a família inteira emigra.
Rompimento de Famílias
Um dos menos documentados, porém mais trágicos, resultados da emigração em massa é seu desastroso efeito sobre a unidade familiar. Em geral, a família se fragmenta quando um ou ambos os genitores confiam seus filhos aos cuidados de outros membros da família, enquanto buscam melhores perspectivas econômicas em outra parte. As conclusões da Segunda Pesquisa Carnegie sobre Pobreza e Desenvolvimento no Sul da África (em inglês) são de que este tipo de migração “desfigura . . . a estrutura familiar”. O relatório documenta casos específicos de famílias que se desintegraram quando seus membros migraram separadamente.
Estes são apenas alguns dos problemas que os imigrantes enfrentam em todo o mundo, sem se mencionar o custo da emigração, a legalização da mudança e as necessárias decisões sobre saúde, moradia, educação e outros membros da família.
Portanto, diante de tantas dificuldades, o que leva essas pessoas a emigrar?
[Quadro na página 4]
Parceiros no Trabalho
EMBORA existam certos problemas relacionados com o incontrolado influxo de estrangeiros, há também muita evidência de que, em muitos casos, os estrangeiros constituem um bem para seu país de adoção.
“A Alemanha Ocidental e seus trabalhadores estrangeiros obviamente lucraram uns com os outros”, diz a revista Time, acrescentando que “as siderúrgicas do Ruhr e as linhas de montagem da Mercedes nos arredores de Stuttgart são impulsionadas por trabalhadores estrangeiros”. Também, segundo a revista National Geographic, “a indústria do vestuário de Nova Iorque teria ruído” se não fosse o uso da mão-de-obra imigrante.
Os economistas reconhecem a valiosa contribuição desses imigrantes aos países que os acolhem. Apesar de sofrerem crasso preconceito, turcos, paquistaneses e argelinos na Europa aprenderam a se adaptar. “Eles se conformam”, diz U.S.News & World Report, e continuarão a se conformar “até que a Europa . . . descubra, por razões estritamente econômicas, que precisa deles”.
Desejando desesperadamente ser bem-sucedidos no seu novo país, os estrangeiros tendem a ser mais auto-suficientes e menos dependentes dos sistemas assistenciais do governo do que os naturais. “Não há nada mais infundado do que a acusação de que os imigrantes ficam dependentes da previdência social”, disse um conselheiro de imigração dos EUA, que tratou dos casos de mais de 3.000 estrangeiros.
Não raro, bairros inteiros foram renovados por estrangeiros que procuram melhorar seus arredores. Quando a África do Sul sofreu um súbito influxo de refugiados portugueses, depois da eclosão da guerra em Angola e em Moçambique, subúrbios inteiros de Johanesburgo foram ocupados e melhorados pela comunidade portuguesa.
[Quadro na página 5]
Algumas das Principais Estatísticas Sobre Emigração:
▶ 4,5 milhões de imigrantes, incluindo 1,5 milhão de norte-africanos, formam 8 por cento da população da França.
▶ Em apenas um trecho da fronteira México-EUA, 800 policiais de fronteira prendem, em média, 1.500 imigrantes ilegais por noite.
▶ Cerca de 20 por cento da população da Austrália nasceu no exterior.
▶ Talvez um milhão de poloneses trabalhe ilegalmente na Europa Ocidental.
▶ Num ano recente, 350.000 homens emigraram legalmente para a África do Sul, com contrato de trabalho. O número de estrangeiros ilegais é de cerca de 1,2 milhão.
▶ Pelo menos 185.000 judeus soviéticos emigraram para Israel em 1990.
▶ Mais de 900.000 asiáticos do sudeste mudaram-se para os Estados Unidos desde 1975.
▶ Semanalmente, pelo menos mil pessoas emigram de Hong Kong.
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Estrangeiros — por que emigram?Despertai! — 1992 | 8 de maio
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Estrangeiros — por que emigram?
“NINGUÉM podia imaginar o tipo de perigos que havíamos enfrentado nos países do Terceiro Mundo . . . e as durezas que enfrentamos aqui, simplesmente para conseguir viver e sustentar a nossa família que ficou lá no nosso país.” Assim escreveu Elizabeth, uma imigrante africana, ao editor da revista National Geographic. Suas palavras revelam a razão crucial que leva milhões de pessoas a abandonar suas raízes para iniciar uma vida nova num país estranho.
Naturalmente, cada imigrante tem sua própria história para contar. Alguns, como a mulher mencionada acima, talvez tenham emigrado para fugir às duras condições de vida existentes em seu país de origem. Em seu livro Population, Migration, and Urbanization in Africa, William Hance explica que fatores como doenças, infestação de insetos, solos esgotados, secas, inundações, fomes, guerras, lutas tribais são hoje as principais causas do êxodo em massa da África. Outras partes da Terra, em similares condições desesperadoras, também se tornaram grandes focos de emigração.
Contudo, os sociólogos apontam o desejo de fugir de opressivas condições de vida apenas como parte do motivo da atual tendência emigratória.
O Efeito Impulso-Atração
A atração por países que oferecem melhores oportunidades na vida é também uma forte motivação para mudar. Isto, junto com o desejo de fugir de condições ruins, produz o chamado efeito impulso-atração. Adversidades locais tendem a impulsionar e as vantagens no estrangeiro tendem a atrair, ou puxar, a pessoa para a emigração. Veja o caso de Nguyen Van Tue, típico refugiado vietnamita no Japão. Embora sofresse muito na condição de estrangeiro, Nguyen admite: “Estou satisfeito. A família está comigo, estamos vivos e passamos bem num país que tem liberdade e goza de paz.”
Os atrativos econômicos são um dos mais fortes fatores de incentivo à emigração. Falando sobre a comunidade italiana numa cidade inglesa, o autor John Brown diz no seu livro The Un-melting Pot (Cadinho em Que a Fusão não Acontece): “O principal objetivo deles sempre foi ganhar dinheiro.” Acrescenta que conseguiram isso trabalhando “duro e bem”. Tendo em vista a extrema disparidade de níveis salariais nos diferentes países, não é de admirar que as pessoas emigrem. Referindo-se a trabalhadores mexicanos nos Estados Unidos, National Geographic revela que “uma hora de trabalho ao sul da fronteira [dos EUA] só rende de um quinto a um décimo do que se ganha nos Estados Unidos”.
A Atração da Família e dos Amigos
Naturalmente, muitos se mudam apenas para ficar mais perto da família e de amigos que os precederam. Muitos judeus soviéticos, por exemplo, emigraram para Israel porque acham que numerosidade representa segurança. Alguns até mesmo se dispunham a correr o risco na conturbada Margem Ocidental de Israel.
O incentivo de amigos e de parentes influencia muitos a emigrar. A Austrália tem sido recomendada a muitos prospectivos emigrantes. Hoje, quase 22 por cento de sua população nasceu no exterior.
Em visita a Barbados, sua terra natal, um homem que emigrara para os Estados Unidos disse a um amigo: “Você acha que está tudo bem aqui”; porém, asseverou que seu amigo estava “perdendo tempo” permanecendo na ilha. Muitos anos depois, seu amigo admite que essas palavras lançaram a semente do descontentamento, levando-o por fim a emigrar.
Muitas vezes, infelizmente, o prospectivo emigrante vê apenas o lado cor-de-rosa da situação. Como disse Ron, um homem que se mudou para o Canadá para fugir do crescente tumulto na África do Sul: “Os amigos e os parentes tendem a falar-lhe das muitas coisas boas . . . e, compreensivelmente, omitem as coisas negativas.”
Qualquer que seja a motivação para emigrar, na maioria dos casos o estrangeiro sofre muito. Quando se dão conta de todas as implicações da mudança, alguns desejam ardentemente voltar para casa. Portanto, como pode o estrangeiro adaptar-se bem ao seu novo ambiente, enquanto enfrenta saudades, laços familiares cortados, choque cultural, idioma diferente e muitos outros problemas relacionados?
[Destaques na página 6]
Os atrativos econômicos são um dos mais fortes fatores na emigração.
“Estou satisfeito. A família está comigo, estamos vivos e passamos bem num país que tem liberdade e goza de paz.” — Um vietnamita no Japão.
[Destaque na página 7]
Tendo em vista a extrema disparidade de níveis salariais nos diferentes países, não é de admirar que as pessoas emigrem.
[Foto na página 7]
Para o novo imigrante, tudo parece estranho e difícil.
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Estrangeiros — como podem ser bem-sucedidos?Despertai! — 1992 | 8 de maio
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Estrangeiros — como podem ser bem-sucedidos?
“OLHA”, replicou Jaroslav, de 17 anos, cansado de sofrer zombaria por ser ucraniano, “meus pais vieram para cá como refugiados”. Ele explicou que haviam desistido de seu próprio país e, mesmo que quisessem, não poderiam voltar agora. Este caso, documentado pelo autor John Brown em seu livro The Un-melting Pot, revela a típica luta pela aceitação que muitos imigrantes e forasteiros têm de travar. Esse jovem aprendeu pela maneira difícil que ficar se desculpando de sua condição de estrangeiro não melhorava a situação. Por fim ele decidiu adotar o método ‘aceite-me como eu sou’ — e deu certo!
Preconceito, suspeita e intolerância são realidades que os estrangeiros têm de enfrentar. Mas, se você é estrangeiro, há medidas positivas que pode tomar para ter êxito na transição.
Motivações e Atitudes
Sabendo que enfrentará preconceitos e talvez rejeição em sua nova vida, poderá ajustar suas reações concordemente. Rosemary, imigrante inglesa no Japão, fala de experiência própria. “Não se abale se pessoas locais fizerem observações mordazes sobre seu país natal”, alerta ela, acrescentando: “Resista à sobrepujante ânsia de defender a si mesmo, seu país e sua formação. Com o tempo, as pessoas julgá-lo-ão por suas atitudes e conduta cotidianas e reavaliarão seus preconceitos. Isto pode levar anos.”
Lembre-se, a comunidade local é muito sensível às motivações que o levam a querer viver no país deles. Um correspondente de Despertai! na Alemanha, onde há agora muitos imigrantes do leste europeu, diz: “O problema de ajustar-se à vida num novo país depende da motivação da pessoa para emigrar. Os que o fazem por boa razão, desejosos de fazer do novo país seu lar, em geral tem um incentivo para aprender o idioma e ajustar-se do melhor modo possível. Os que consideram sua mudança como temporária, ou que são motivados apenas por ideais financeiros, logo se desiludem. Assim, eles pouco se esforçam para se ajustar, causando frustração a si mesmos e aos que têm tratos com eles.” Naturalmente, isto não significa que os imigrantes jamais devam retornar ao seu país, se assim o desejarem.
Não obstante, as atitudes e as motivações do estrangeiro podem ser decisivas no processo de assimilação. Se você é estrangeiro, reconheça que existe entre o povo local, como diz a revista U.S.News & World Report, uma forte crença de que “os estrangeiros dissolvem a ‘cola’ étnica que mantém unidas as nações”. Mas, à medida que você provar seu valor como estrangeiro e der sua contribuição, os cidadãos locais acharão mais fácil aceitá-lo e até mesmo oferecer-lhe a sua amizade. Como explica Rosemary, a imigrante supra mencionada: “Eles querem que você seja um estrangeiro, mas querem também que você goste do que eles gostam.”
Alguns dos problemas que você como imigrante enfrentará podem ser previstos, ou até mesmo evitados, se aprender o máximo possível a respeito de seu prospectivo destino. Ler, estudar e falar a respeito do país, dos costumes e da cultura pode ser muito útil a fim de prepará-lo para o choque cultural que inevitavelmente sentirá.
Naturalmente, legalizar a sua mudança é essencial para granjear o respeito da população local. Para muitos, estrangeiros ilegais são um incômodo e uma ameaça. Quando muito, são encarados como mão-de-obra barata, pronta para ser impiedosamente explorada. Imigrantes bem-sucedidos dizem que compensa tentar fazer o possível para legalizar sua permanência. Quando for entrevistado pelas autoridades de imigração, apresentar-se de maneira asseada e apresentável é essencial para causar boa impressão. Mostre uma atitude cooperadora. Não seja evasivo.
Mas há muito mais que você, estrangeiro, pode fazer para amenizar as dores de adotar um novo país.
Expandir-se
A tendência natural da maioria dos recém-chegados é refugiar-se na sua própria comunidade. Por exemplo, em Nova Iorque, bairros inteiros são predominantemente de uma única nacionalidade — Little Italy, Chinatown, o setor judeu, para mencionar apenas alguns. Tais comunidades oferecem serviços básicos essenciais que fazem o imigrante sentir-se em casa — uma plataforma para explorar novos horizontes.
Infelizmente, é aí que alguns se retraem e se privam de oportunidades e vantagens que poderiam realmente ajudá-los. “Se a rejeição e o distanciamento da cultura local tornar-se a forma preferida de enfrentar o novo . . . modo de vida”, diz a revista Psychology of Women Quarterly, “o processo de adaptação talvez jamais se concretize”.
Em contraste, a maioria dos estrangeiros de mentalidade suficientemente aberta para se enfronhar na sociedade local diz que a vida deles foi muito enriquecida em resultado disso. Um grupo de estudantes americanos, que por várias semanas realizou estudos comparativos de cultura na ilha micronésia de Guam, falou do efeito alargador disso sobre o conceito deles a respeito de outras culturas. “Encaro as diferenças com interesse e curiosidade, em vez de como ameaça”, disse um estudante. Outro declarou: “Estou começando a encarar a minha cultura em perspectiva. . . . Estou questionando valores e coisas que eu considerava irretocáveis. . . . Pude aprender deles [do povo de Guam].”
Contudo, para abrir com êxito as portas da oportunidade, há certos pré-requisitos básicos a cumprir.
Chaves Para a Integração
“Aprender o idioma do país de adoção resulta numa adaptação mais rápida e mais fácil . . . porque permite ao imigrante uma interação mais íntima com a população local.” Assim recomenda a revista Psychology of Women Quarterly. Mas, previna-se! Aprender um idioma não é fácil. “Foi duro no início”, lembra-se George, imigrante no Japão. “Eles riam quando eu errava, mas não me ajudavam.” Resoluto, George tinha sempre à mão um rádio portátil e ouvia programas em japonês. Ele acrescenta: “Descobri que ler bastante ajudou-me a dominar o idioma.”
O idioma de uma nação é a porta para a sua cultura. Ao passo que por fim você talvez acabe aprendendo o idioma, assimilar uma nova cultura é muito mais difícil. É aqui que se exige certo grau de equilíbrio. O estrangeiro que deseja sair-se bem tem de estar preparado para uma luta renhida na aprendizagem da nova cultura, ao passo que, ao mesmo tempo, conserva intactas a sua própria personalidade e a sua auto-estima. Como disse o escritor iugoslavo Milovan Djilas, “o homem pode renunciar a tudo — à casa, ao país, à terra — mas não pode renunciar a si mesmo”. Atingir esse equilíbrio é um grande desafio.
União Familiar
Cada pessoa reage de modo diferente a um novo ambiente. Compreensivelmente, pessoas de mais idade verificam que sua cultura e seu idioma nativos estão profundamente arraigados. As crianças, porém, assimilam mais rapidamente o idioma e a cultura. Em pouco tempo talvez assumam o papel de intérpretes, e seus pais não raro ficam na condição de aprendizes. Esta anormal inversão de papéis muitas vezes leva a conflitos na família. Os pais talvez pensem que estão perdendo o respeito, ao passo que os filhos se ressentem de que a ‘antiquada’ cultura dos pais lhes está sendo imposta. Como podem as famílias estrangeiras lidar com essas aumentadas pressões?
Por um lado, os pais devem levar em conta o efeito que o novo ambiente exerce sobre seus filhos. Isto significa fazer esforço para integrar-se junto com os filhos — sem esperar que eles vivam numa cultura e, não obstante, sejam leais a outra. Esta concessão exige perspicácia da parte de pais imigrantes, mas contribui muito para dissipar as tensões no lar. Certo princípio bíblico diz: “Os da casa serão edificados pela sabedoria, e serão firmemente estabelecidos pelo discernimento.” — Provérbios 24:3.
Da mesma forma, os filhos devem reconhecer que, embora seus pais venham de uma cultura diferente, eles cursaram a escola da vida, sendo, portanto, muito mais experientes. O devido respeito por eles é de grande valia para assegurar uma vida familiar pacífica.
Portanto, apesar das complexidades da integração, há muito que você, o estrangeiro, pode fazer para que a experiência dê certo. Um bem-sucedido jovem imigrante português, chamado Tony, resume: “Embora eu enfrentasse muitas dificuldades, a longo prazo fui enriquecido. Conhecer dois idiomas e duas culturas ampliou a minha visão da vida.”
[Quadro na página 10]
Como Podem os Estrangeiros Ser Bem-Sucedidos?
Faça . . .
▶ aprenda o idioma.
▶ aceite e entenda a nova cultura.
▶ ajuste-se aos costumes locais.
▶ estude seu novo ambiente e indague a respeito.
▶ esforce-se em integrar-se como família.
▶ coopere com as autoridades; faça o possível para legalizar sua situação.
Evite . . .
▶ isolar-se de sua nova comunidade.
▶ achar que a sua própria cultura é superior.
▶ fazer do dinheiro e dos bens o principal na vida.
▶ esperar que seus filhos se apeguem à sua cultura original.
▶ desprezar seus pais por serem de formação diferente.
▶ emigrar separado da família, se possível.
[Foto na página 9]
Aprender o idioma de seu novo país ampliará seus contatos.
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Estrangeiros — como pode ajudá-los?Despertai! — 1992 | 8 de maio
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Estrangeiros — como pode ajudá-los?
O JORNALISTA Günter Wallraff disfarçou-se de operário turco e trabalhou numa usina siderúrgica alemã. A revelação de suas descobertas a respeito do tratamento que se dava a trabalhadores estrangeiros chocou e enfureceu a opinião pública. Ele documentou seguidos casos de clamorosa discriminação e degradante preconceito praticados contra trabalhadores estrangeiros. Num caso, ele viu operários turcos receberem ordens de trabalhar numa área perigosa, apesar de haver sirenes de alerta acionadas e luzes vermelhas acesas. Quando um homem ficou com medo e queria deixar a área, foi ameaçado com a perda de emprego.
As experiências de Wallraff expõem vividamente o drama dos imigrantes. À medida que cidadãos compassivos ficam mais a par dos problemas que os estrangeiros enfrentam, muitos se perguntam o que podem fazer para ajudar o imigrante e sua família.
Aceitem-nos do Jeito Que Somos
Evite o preconceito. Não há nada que crie mais rapidamente um muro de suspeita e intolerância entre o cidadão local e o estrangeiro do que o cego preconceito. “[A cultura] distorce o nosso conceito sobre como outros fazem as coisas, em especial se os modos deles diferem . . . de nossas normas aceitas”, diz o escritor Ben Levitas em seu livro Tribal Life Today (Vida Tribal Hoje). Diz ainda que essas diferenças “não raro nos levam a criticar o modo de outros agirem”. Helen, imigrante coreana no Canadá, lembra-se muito bem do dia em que sua professora gritou iradamente com ela por não ter realizado uma tarefa que fora designada à classe. “Ela não se deu conta de que eu não a entendia”, diz Helen, que ficou muito magoada na ocasião.
Mal-entendidos e noções pré-concebidas sobre outras nacionalidades não raro se baseiam em ficção em vez de em fatos. As autoras Mildred Sikkema e Agnes Niyekawa-Howard em seu livro Cross-Cultural Learning & Self-Growth falam de certo professor americano que testava seus novos alunos estrangeiros contando-lhes uma piada. Daí observava a reação deles. Se não rissem, os alunos eram imediatamente designados a aulas de inglês. “Parece que [o professor] não se dava conta”, dizem as autoras, “de que entender uma piada americana exige conhecer a cultura americana bem como o idioma . . . O que para pessoas duma cultura pode parecer engraçado, para outros talvez soe de mau gosto”. Tais ações bem-intencionadas da parte dos naturais revelam falta de entendimento no trato com estrangeiros.
Se você aceitar o estrangeiro como ele é, sem preconceito, ele lhe será grato por isso. Este proceder harmoniza-se com um princípio orientador expresso por Jesus: ‘Tens de amar o teu próximo como a ti mesmo.’ (Lucas 10:27) Yasushi Higashisawa, um advogado de Tóquio, Japão, que lida freqüentemente com estrangeiros, recomenda “o estreito contato com pessoas de outras culturas [como] o melhor remédio contra o preconceito”. Este tipo de contato possibilita que o imigrante seja ajudado também de muitas outras maneiras.
Ajuda Prática
Há muita coisa que o estrangeiro deseja saber sobre seu novo país — obtenção de moradia, aprender o idioma, matricular os filhos na escola, disponibilidade de serviços assistenciais, e assim por diante. Poderá poupar-lhe muitos problemas e esforços desnecessários se transmitir a ele o que você sabe.
Por exemplo, pode ajudar o estrangeiro a localizar agências ou organizações que o ajudarão a ajustar-se ao idioma e à cultura? Ou, poderia acompanhar uma dona-de-casa imigrante nas suas primeiras compras, para ajudá-la a encontrar os alimentos e itens domésticos? Que tal dar assistência a uma família de imigrantes nas muitas vezes complicadas formalidades relacionadas com a sua situação legal, a obtenção de emprego, o preenchimento de formulários de impostos e coisas assim? — Veja nota de rodapé, no quadro.
Alguém em Quem Confiar
Sempre é útil perguntar-se: ‘Se eu estivesse num outro país, como gostaria de ser tratado?’ “Todas as coisas . . . que quereis que os homens vos façam, vós também tendes de fazer do mesmo modo a eles”, disse Jesus na famosa Regra de Ouro. (Mateus 7:12) Ter um amigo em quem confiar durante a provadora experiência de ajustar-se e ambientar-se é uma ajuda que muitos estrangeiros apreciariam ter. Tal hospitalidade da parte do natural traz benefícios mútuos. Outro princípio bíblico diz: “Há mais felicidade em dar do que há em receber.” — Atos 20:35.
Se você é Testemunha de Jeová, o melhor presente que pode dar a um estrangeiro é a perspectiva de ele integrar-se a uma fraternidade unida. Com certeza será possível conseguir-lhe algo edificante para ler no próprio idioma dele.
Naturalmente, a responsabilidade pela migração bem-sucedida depende primariamente do estrangeiro. Mas com um pouco de previsão, há muito que se pode fazer para que ele se sinta em casa, tornando a experiência migratória menos traumática, ou até mesmo prazerosa.
[Destaque na página 11]
“Presumimos que pessoas de outra cultura . . . vêem, sentem e pensam como nós. . . . Muitos mal-entendidos se devem à suposição de que as nossas reações sejam universais.” — Cross-Cultural Learning & Self-Growth.
[Destaque na página 12]
Disse um estudante depois duma temporada na ilha de Guam: ‘Sou agora mais tolerante com as novas ou diferentes maneiras de fazer as coisas.’ — Cross-Cultural Learning & Self-Growth.
[Quadro na página 12]
Poderá ajudar o estrangeiro a . . .
▶ se estabelecer, sendo um vizinho hospitaleiro.
▶ tratar com as autoridades na legalização de sua permanência.a
▶ preencher formulários de impostos.b
▶ contatar entidades que ensinam a cultura e o idioma locais.
▶ obter moradia.
▶ usar serviços médicos e sociais.
▶ matricular os filhos na escola.
▶ fazer as compras necessárias a preços justos.
▶ achar emprego.
[Nota(s) de rodapé]
a Alguns países, como a Alemanha, têm leis estritas sobre quem pode aconselhar em assuntos legais, de imigração e de impostos. Estes devem ser consultados antes de oferecer ajuda a estrangeiros a respeito de sua condição legal.
b Alguns países, como a Alemanha, têm leis estritas sobre quem pode aconselhar em assuntos legais, de imigração e de impostos. Estes devem ser consultados antes de oferecer ajuda a estrangeiros a respeito de sua condição legal.
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