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Os trágicos resultados da infidelidadeDespertai! — 1999 | 22 de abril
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Os trágicos resultados da infidelidade
“Fui embora”, disse a mensagem no telefone — provavelmente as palavras mais devastadoras que Patríciaa já ouviu de seu marido. “Eu simplesmente não podia crer nessa traição”, diz ela. “O que eu sempre mais temia — que meu marido me largasse por outra mulher — virou uma terrível realidade.”
PATRÍCIA, de 33 anos, realmente queria que seu casamento desse certo; seu marido lhe garantira que nunca a deixaria. “Nós prometemos ficar juntos, acontecesse o que acontecesse”, lembra-se Patrícia. “Eu tinha certeza de que ele falava sério. Daí . . . ele faz isso. Agora não tenho mais nada — nem mesmo um animalzinho de estimação — nada!”
Amilton jamais se esquecerá do dia em que o adultério de sua mãe veio à tona. “Eu tinha apenas 11 anos”, lembra-se. “Minha mãe andava às pressas pela casa. Meu pai a seguia, dizendo, ‘calma, vamos conversar’. Eu pressentia que havia acontecido algo terrível. Meu pai ficou abalado e jamais se recuperou totalmente. E, além do mais, ele não tinha confidente. De modo que recorreu a mim. Imagine: um homem de 40 e poucos anos recorrer a seu filho, de 11 anos, em busca de consolo e empatia!”
Seja os escândalos que abalam realezas, políticos, astros de cinema e líderes religiosos, seja a traição e as lágrimas em nossa própria família, a infidelidade conjugal continua a cobrar um preço terrível. “O adultério”, diz The New Encyclopædia Britannica, “parece ser tão universal e, em alguns casos, tão comum como o casamento”. Alguns pesquisadores estimam que de 50 a 75 por cento dos casados já foram infiéis alguma vez. Segundo a pesquisadora Zelda West-Meads, mesmo que muitos casos de infidelidade passem despercebidos, “todas as evidências apontam para um aumento”.
Avalanche de sentimentos
Embora chocantes, as estatísticas sobre infidelidade e divórcio não revelam o pleno impacto que causam no cotidiano das pessoas. Além das enormes implicações financeiras, considere a colossal dimensão dos sentimentos embutidos nessas estatísticas — os rios de lágrimas derramadas, as imensuráveis confusão, pesar, ansiedade e dor excruciante que a infidelidade provoca, bem como as incontáveis e angustiantes noites em claro que os familiares passam. As vítimas em geral sobrevivem à provação, mas com cicatrizes que provavelmente durarão muito tempo. Não é fácil apagar a dor e os danos provocados.
“O colapso conjugal costuma produzir uma enorme explosão de emoções”, explica o livro How to Survive Divorce (Como Sobreviver ao Divórcio), “uma explosão que, às vezes, ameaça obscurecer a sua visão. O que você deve fazer? Como deve reagir? Como dar a volta por cima? Você talvez vacile entre certeza e dúvida, ira e culpa ou confiança e suspeita”.
Pedro passou por isso, depois que soube da infidelidade da esposa. “Quando há infidelidade”, confidencia, “um dilúvio de emoções perturbadoras o invade”. Entender a sensação de devastação é difícil para quem é vítima — quanto mais para os observadores, que pouco conhecem a situação. “Ninguém”, afirma Patrícia, “realmente entende como me sinto. Quando penso que meu marido está com a outra, sinto uma verdadeira dor física, uma dor impossível de explicar”. Ela acrescenta: “Há momentos em que eu penso que vou enlouquecer. Tem dias que parece que está tudo sob controle; no dia seguinte, já não parece assim. Tem dias em que sinto a falta dele; no dia seguinte, lembro-me das tramas, das mentiras e das humilhações.”
Raiva e ansiedade
“Às vezes”, admite uma vítima da infidelidade, “a emoção que o invade é pura raiva”. Não se trata apenas de uma indignação contra o erro cometido e o sofrimento infligido, mas sim, como explicou uma jornalista, uma “revolta pelo que poderia ter sido [um casamento feliz], mas foi arruinado”.
Também são comuns os sentimentos de baixa auto-estima e de incompetência. Pedro revela: “A gente se pergunta: ‘Será que não sou suficientemente atraente? Sou faltoso em alguma outra coisa?’ A pessoa passa a dissecar a si mesma em busca da falha.” Em seu livro To Love, Honour and Betray (Amar, Honrar e Trair), Zelda West-Meads, do Conselho Nacional Britânico de Aconselhamento Matrimonial, confirma: “Uma das piores coisas a enfrentar . . . é a destruição de sua auto-estima.”
Culpa e depressão
Na esteira dessas emoções em geral vêm sentimentos de culpa. “Acho que as mulheres sofrem muito de sentimentos de culpa. Você se culpa e se pergunta ‘onde foi que eu errei?’ ”, diz uma esposa desalentada.
Certo marido traído revela outro aspecto do que ele chama de montanha-russa de emoções. Ele explica: “A depressão torna-se um novo fator que se instala como o mau tempo.” Certa esposa, abandonada pelo marido, chorava todos os dias. “Lembro-me perfeitamente do primeiro dia sem choro, algumas semanas depois que ele me abandonou”, ela conta. “Foi só depois de alguns meses que tive a primeira semana sem choro. Aqueles dias e semanas sem choro foram marcos na minha recuperação.”
Traição dupla
O que muitos despercebem é que o adúltero aplica um amargo golpe duplo no seu cônjuge. Como assim? Patrícia nos dá uma pista: “Foi duro para mim. Ele não era apenas meu marido, mas também meu amigo — meu melhor amigo — por muitos anos.” Sim, na maioria dos casos, a esposa recorre ao marido quando surgem problemas. Com o adultério, o marido não só provoca problemas muito traumáticos como também deixa de ser uma essencial fonte de ajuda. Num só golpe, ele causa muita dor e priva a esposa de seu confidente.
Em resultado disso, a profunda sensação de traição e de confiança arruinada é um dos sentimentos mais esmagadores dos cônjuges inocentes. Certa conselheira matrimonial explica por que a traição conjugal pode ser emocionalmente tão arrasadora: “Nós investimos muito de nós mesmos, de nossas esperanças, de nossos sonhos e expectativas, no casamento . . . , procurando alguém em quem possamos realmente confiar, alguém com quem achemos que sempre podemos contar. A perda repentina dessa confiança é como o desmoronamento de um castelo de cartas.”
É óbvio, conforme observa o livro How to Survive Divorce, que as vítimas “precisam de ajuda para administrar a convulsão emocional . . . Elas talvez precisem de ajuda para saber que opções têm e como tomar decisões a respeito”. Mas que decisões são essas?
‘Será que no nosso caso a solução é a reconciliação?’, talvez se pergunte. ‘Ou devo me divorciar?’ Especialmente se a relação tem sido tensa, pode ser muito tentador concluir apressadamente que o divórcio seja a solução de seus problemas. ‘Afinal’, você talvez arrazoe, ‘a Bíblia permite o divórcio à base de infidelidade conjugal’. (Mateus 19:9) Mas você pode também levar em conta que a Bíblia não insiste no divórcio. Por conseguinte, talvez conclua ser melhor reconciliar-se, reconstruir e fortalecer o casamento.
Divorciar-se, ou não, de um cônjuge infiel é assunto de decisão pessoal. Mas como saber o que fazer? Primeiro, examine alguns dos fatores que possam ajudá-lo a determinar se a reconciliação é possível.
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É possível a reconciliação?Despertai! — 1999 | 22 de abril
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É possível a reconciliação?
“É fácil iniciar um processo de divórcio impulsivamente”, observa o livro “Couples in Crisis” (Casais em Crise), “mas deve haver muitos casamentos que basicamente têm valor e que poderiam dar certo se os problemas fossem resolvidos”.
ESSA observação se harmoniza com um antigo ensino de Jesus Cristo a respeito do divórcio. Embora declarasse que o cônjuge inocente poderia divorciar-se por razões de infidelidade conjugal, ele não disse que fazer isso seria compulsório. (Mateus 19:3-9) O cônjuge fiel pode ter razões para tentar salvar o casamento. Por exemplo, o marido infiel talvez ainda ame a esposa. Talvez seja um marido e pai abnegado, que conscienciosamente provê as necessidades da família. Levando em conta as suas próprias necessidades e as dos filhos, a esposa fiel pode decidir reconciliar-se, em vez de divorciar-se. Neste caso, que fatores podem ser considerados, e como enfrentar os desafios da reconstrução do casamento?
Para começar, é preciso dizer que nem o divórcio nem a reconciliação são fáceis. Além do mais, simplesmente perdoar o adúltero provavelmente não resolverá os problemas subjacentes no casamento. Para salvar o casamento, em geral é preciso uma grande dose de penosos auto-escrutínio, comunicação franca e esforço árduo. Muitos casais subestimam o tempo e o esforço necessários para reconstruir um casamento arruinado. Mas muitos perseveraram e têm agora um casamento estável.
Perguntas a considerar
Para decidir com consciência, o cônjuge fiel precisa clarear seus sentimentos e as opções que tem. Pode considerar: será que o cônjuge infiel quer voltar? Será que ele terminou definitivamente a relação adúltera, ou reluta em fazer isso prontamente? Disse ele que lamenta o que fez? Neste caso, está mesmo arrependido, com remorso sincero? Ou tenta culpar-me pelo seu erro? Lamenta genuinamente a dor que causou? Ou está apenas aborrecido porque a sua relação ilícita foi descoberta e abalada?
Que dizer do futuro? Será que o infiel já começou a corrigir as atitudes e ações que levaram ao adultério? Está firmemente decidido a não repetir o erro? Ou será que ainda tende a flertar e a criar vínculos emocionais impróprios com pessoas do sexo oposto? (Mateus 5:27, 28) Está ele plenamente resolvido a reconstruir o casamento? Em caso afirmativo, o que está fazendo a respeito? Respostas positivas a essas perguntas podem ser um indicativo de que a restauração conjugal é possível.
A comunicação é vital
“Há frustração de planos”, diz um escritor bíblico, “quando não há palestra confidencial”. (Provérbios 15:22) Isso é certamente assim quando o cônjuge inocente sente a necessidade de falar com o outro a respeito da infidelidade. Sem necessariamente entrar em detalhes íntimos, eles podem ter uma conversa sincera e profunda que revele a verdade do que aconteceu e dissipe mal-entendidos. Isso, por sua vez, poderá ajudar a não aumentar a brecha entre o casal por causa de mal-entendidos e ressentimentos de longa data. É verdade que tanto para o marido como para a esposa essas conversas provavelmente serão dolorosas. Mas muitos já constataram que elas são importantes no processo de restaurar a confiança.
Outro passo essencial para uma reconciliação efetiva é tentar identificar áreas de conflito no casamento — coisas às quais ambos talvez devam dar atenção. Zelda West-Meads sugere: “Se vocês já discutiram a dolorosa situação, se decidiram que o caso definitivamente acabou e que ainda querem preservar seu casamento, corrijam o que estiver errado e renovem [o] casamento.”
Vocês talvez não davam o devido valor um ao outro. Talvez negligenciavam as atividades espirituais. Pode ser que passavam pouco tempo juntos. Possivelmente um dos dois não deu suficiente amor, afeto, elogio e honra que seu cônjuge necessitava. Reavaliar juntos seus alvos e valores contribuirá muito para uma reaproximação e para evitar infidelidade futura.
O perdão
Apesar de seus esforços sinceros, o cônjuge ferido talvez ache difícil perdoar o culpado. Ainda mais difícil é perdoar a outra mulher ou o outro homem. (Efésios 4:32) É possível, porém, livrar-se progressivamente do ressentimento e da amargura. “O parceiro fiel tem de reconhecer que virá o tempo em que o casal terá de recomeçar a vida”, diz uma obra de referência. “É importante não desenterrar os antigos pecados do cônjuge para puni-lo sempre que houver uma discussão.”
Muitos cônjuges verificaram que seu empenho em reduzir e acabar com o intenso ressentimento por fim eliminou os sentimentos de hostilidade contra o ofensor. Esse é um passo vital na reconstrução do casamento.
Aprenda a confiar de novo
“Conseguiremos recuperar a confiança?”, perguntava uma esposa aflita. A sua preocupação era legítima, pois o erro do adúltero destrói — ou pelo menos danifica seriamente — a confiança. Como um vaso precioso, a confiança é fácil de quebrar, mas difícil de consertar. É preciso haver confiança e respeito mútuos para que uma relação não só sobreviva, mas também prospere.
Em geral isso significa aprender a confiar de novo. Em vez de insensivelmente exigir que se confie nele, o cônjuge culpado pode ajudar a reconstruir a confiança sendo totalmente franco e sincero a respeito de suas atividades. Os cristãos são incentivados a ‘pôr de lado a falsidade e a falar a verdade’ uns com os outros. (Efésios 4:25) Para reconquistar a confiança, de início você talvez tenha de “dar a [seu cônjuge] um roteiro exato de todos os seus movimentos”, diz Zelda West-Meads. “Diga a seu [cônjuge] para onde você vai, quando vai voltar, e realmente esteja no lugar onde você disse que estaria.” Se mudar os planos, mantenha-o informado.
Reconstruir a auto-estima pode exigir tempo e esforço. Se o culpado é o marido, por exemplo, ele pode ajudar sendo generoso em afeto e elogios — dizendo sempre à sua esposa o quanto ele a aprecia e ama. Uma respeitada conselheira matrimonial recomenda: “Dêem a ela o que merece por tudo o que faz.” (Provérbios 31:31, A Bíblia na Linguagem de Hoje) A esposa, por sua vez, pode reconstruir a sua autoconfiança focalizando a mente nas coisas em que se sai bem.
Leva tempo
Devido à intensidade da dor causada pela infidelidade, não é de admirar que, depois de muitos anos, ainda possam surgir vívidas e dolorosas recordações. Mas, com a cura progressiva da ferida, a humildade, a paciência e a perseverança da parte de ambos ajudarão a reconstruir a confiança e o respeito. — Romanos 5:3, 4; 1 Pedro 3:8, 9.
“A terrível dor daqueles primeiros meses não é eterna”, garante o livro To Love, Honour and Betray. “[Ela] diminui com o tempo. . . . Por fim você verá que consegue passar dias, semanas, meses e até anos sem pensar nisso.” À medida que continuar a aplicar os princípios bíblicos em seu casamento e procurar a bênção e a orientação de Deus, você sem dúvida sentirá o suave efeito da “paz de Deus, que excede todo pensamento”. — Filipenses 4:4-7, 9.
“Recordando o passado”, diz Pedro, “vejo que essa experiência mudou o rumo de nossas vidas. Vez por outra ainda precisamos fazer alguns reparos no nosso casamento. Mas sobrevivemos à provação. Ainda estamos casados. E somos felizes”.
Mas, que dizer se o cônjuge inocente não tiver motivos para perdoar o infiel? Ou se ele perdoar o cônjuge (no sentido de não guardar ressentimento) mas, mesmo assim, por razões sólidas, preferir beneficiar-se da provisão bíblica do divórcio?a Que exigências pode o divórcio impor a um indivíduo? Convidamo-lo a considerar alguns fatores envolvidos no divórcio, e como alguns resolveram o assunto.
[Nota(s) de rodapé]
a Veja o artigo “O Conceito da Bíblia: Adultério: perdoar ou não perdoar?”, na Despertai! de 8 de agosto de 1995.
[Quadro na página 6]
APOIO SIGNIFICATIVO
Em vista dos muitos fatores envolvidos, pode ser benéfico consultar um conselheiro experiente e equilibrado. As Testemunhas de Jeová, por exemplo, podem recorrer a bondosos e compassivos anciãos congregacionais. — Tiago 5:13-15.
A conselheiros, amigos e parentes se sugere que não tentem impor a sua preferência pessoal, nem defender ou condenar, seja o divórcio com base bíblica, seja a reconciliação. Certa cristã que se divorciou, exorta: “Simplesmente nos dêem bastante apoio, e deixem que decidamos o que fazer.”
Os conselhos devem basear-se solidamente na Bíblia. “Não lhes diga como devem, ou como não devem, se sentir”, sugere uma divorciada. “Em vez disso, deixe-os desabafar.” Empatia, afeição fraterna e terna compaixão ajudarão a abrandar os profundos ferimentos causados pela traição conjugal. (1 Pedro 3:8) Um conselheiro experiente observou: “Existe aquele que fala irrefletidamente como que com as estocadas duma espada, mas a língua dos sábios é uma cura.” — Provérbios 12:18.
“Eu precisava de compreensão, de uma palavra de consolo e de encorajamento”, pondera um marido fiel. “E minha esposa ansiava receber uma orientação específica e elogios pelo esforço que fazia — um apoio tangível que pudesse ajudá-la a prosseguir.”
Se depois de cuidadosa reflexão e orações a pessoa decide divorciar-se ou separar-se com base bíblica, não se deve dar conselhos que a façam sentir-se culpada. É melhor ajudá-la a vencer injustificados sentimentos de culpa.
“Se você deseja ser uma fonte significativa de consolo”, disse uma vítima, “jamais se esqueça das profundas emoções humanas envolvidas”.
[Quadro na página 7]
POR QUE PERMANECEM JUNTOS
Em muitas comunidades, há esposas que têm pouca ou nenhuma escolha a não ser permanecer com o marido adúltero não-arrependido. Por exemplo, algumas esposas cristãs que vivem em áreas de conflito e violência, e de baixíssima renda, têm permanecido com o marido infiel que, em outros sentidos, continua a cuidar da família, mesmo não sendo cristão. Com isso, elas têm um lar, a necessária proteção, uma renda segura e a relativa estabilidade de ter um marido em casa — embora infiel. Elas têm raciocinado que, permanecer juntos, mesmo não sendo desejável ou fácil, as têm dado — nas suas circunstâncias especiais — maior controle de suas vidas do que se tivessem de cuidar de tudo sozinhas.
Depois de suportarem essa situação — às vezes por muito tempo — algumas dessas esposas têm tido a feliz bênção de ver seu marido mudar de comportamento e tornar-se um fiel e amoroso marido cristão. — Note 1 Coríntios 7:12-16.
Portanto, aquelas que preferem permanecer com o cônjuge — mesmo que este não se arrependa — não devem ser criticadas. Tiveram de tomar uma decisão difícil e devem receber toda ajuda e apoio de que necessitarem.
[Quadro na página 8]
QUEM É O CULPADO?
Há casos em que as imperfeições do cônjuge inocente podem ter contribuído para uma relação tensa, é verdade. Mas a Bíblia diz que “cada um é provado por ser provocado e engodado pelo seu próprio desejo. Então o desejo, tendo-se tornado fértil, dá à luz o pecado”. (Tiago 1:14, 15) Embora possam existir vários fatores, o “próprio desejo” da pessoa é o culpado principal do adultério. Se as falhas do cônjuge estiverem causando problemas conjugais, o adultério certamente não é a solução. — Hebreus 13:4.
Os problemas conjugais se resolvem quando o marido e a esposa perseveram em aplicar os princípios bíblicos. Isso inclui ‘suportar um ao outro e perdoar um ao outro liberalmente’. Precisam também persistir em demonstrar qualidades como “ternas afeições de compaixão, benignidade, humildade mental, brandura e longanimidade”. Mais importante, devem “[revestir-se] de amor, pois é o perfeito vínculo de união”. — Colossenses 3:12-15.
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A opção do divórcioDespertai! — 1999 | 22 de abril
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A opção do divórcio
“Se seu marido morre, as pessoas entendem seus sentimentos, mesmo que você não tenha sido a melhor das esposas. Mas se seu marido a abandona — bem, alguns acham que você não foi uma boa esposa. Por favor, AJUDEM-ME!”
— Leitora de Despertai! na África do Sul.
A INFIDELIDADE e o divórcio podem ser muito traumatizantes. Embora muitos encontrem razões para se reconciliar e preservar o casamento, outros têm razões válidas para se divorciar do cônjuge adúltero, o que Deus permite. (Mateus 5:32; 19:9) Por exemplo, a segurança, a espiritualidade e o bem-estar geral da esposa fiel e dos filhos talvez corram perigo. É possível também que ela tema pegar uma doença sexualmente transmissível. Ou talvez tenha perdoado o marido pelo adultério, mas haja pouca base para crer que a confiança genuína será recuperada, ou que ela conseguirá continuar a viver com ele.
“Foi a decisão mais difícil da minha vida”, admitiu uma esposa angustiada. Sem dúvida, uma decisão difícil — não só pela grande dor da traição, mas também porque o divórcio tem conseqüências de longo alcance que poderão afetar a pessoa pelo resto da vida. Portanto, a decisão de se divorciar de um cônjuge infiel é uma questão pessoal. Deve-se respeitar o direito bíblico do cônjuge inocente de tomar essa decisão.
Tragicamente, porém, muitos se divorciam precipitadamente, sem calcular o custo. (Lucas 14:28) Que fatores estão envolvidos na opção pelo divórcio?
Quando há filhos
“As necessidades dos filhos costumam ser esquecidas ou ignoradas pelos pais, absortos demais nos seus próprios problemas”, afirma o livro Couples in Crisis (Casais em Crise). Assim, ao pensar em divórcio, leve em conta a espiritualidade e o bem-estar dos filhos. Segundo muitos pesquisadores, quanto mais amigável for o divórcio, menos os filhos sofrem. Mesmo em situações difíceis, a brandura ajudará a pessoa a ‘não lutar, mas, a ser meiga para com todos, restringindo-se sob o mal’. — 2 Timóteo 2:24, 25.a
Quem opta pelo divórcio deve ter em mente que quem se divorcia são o marido e a esposa — não os filhos. Estes ainda precisam da mãe e do pai. Naturalmente, pode haver casos extremos, como quando a criança corre o risco de sofrer abusos. Mas as divergências pessoais ou religiosas não devem ser usadas para privar os filhos dos benefícios de ter ambos os pais.
Também é preciso levar em conta as frágeis emoções das crianças pequenas e sua necessidade de que se reafirme a elas o amor e o afeto. “Essa continuidade do amor”, diz certo livro, “fornecerá uma base, ou estrutura, para lidarem com a nova situação”. Além disso, cuidar das necessidades espirituais diárias dos filhos pode ajudá-los a manter a estabilidade. — Deuteronômio 6:6,7; Mateus 4:4.
Finanças e processos legais
O divórcio inevitavelmente rouba dos cônjuges parte de sua renda e de seus bens, certos confortos e talvez um lar muito amado. Com possivelmente mais despesas e uma renda menor, é sensato elaborar um orçamento realístico, condizente com as prioridades financeiras. Deve-se evitar o impulso de compensar as perdas e as mágoas gastando mais ou metendo-se em dívidas.
Se a decisão for o divórcio, será preciso também resolver com o cônjuge o que farão com as contas bancárias conjuntas. Por exemplo, para evitar o uso indevido dessas contas, é bom pedir ao banco que requeira a assinatura de ambos os cônjuges para saques até que cada um tenha a sua própria conta.
Também é prudente ter um registro exato de rendas e despesas, em preparação para se negociar uma pensão. Em muitos países, a lei exige que se informe às autoridades fiscais a nova situação.
A maioria das pessoas também se beneficia da consulta a um profissional experiente em casos de divórcio. Alguns países permitem que mediadores, ou conciliadores, ajudem o casal a chegar a acordos pacíficos e aceitáveis para ambas as partes, que depois são ratificados por um tribunal. Especialmente quando há filhos, muitos pais preferem usar os serviços de um profissional que não seja antagônico. Em vez de tentar vencer a qualquer custo, os pais procuram minimizar o conflito e a mágoa. Algumas vantagens materiais simplesmente não valem o custo em termos emocionais e financeiros.
Mudança nas relações
“Não devemos subestimar a estranheza e a incerteza que muitos sentem com relação a seus amigos divorciados”, informa uma pesquisadora. Mesmo que o cônjuge fiel esteja agindo dentro de seus direitos legais, morais e bíblicos, alguns talvez ainda o encarem como a causa da ruptura conjugal. A reação deles pode variar de cumprimento frio a desprezo total. Pior ainda, anteriores amigos íntimos talvez o tratem com franca animosidade.
Muitos simplesmente não se dão conta de quanto apoio a pessoa que está se divorciando precisa; talvez achem que uma carta breve, ou um cartão, é o bastante. Há, porém, amigos que têm a “necessária sensibilidade”, observa o livro Divorce and Separation “e que passarão na sua casa para saber se você deseja companhia para ir a algum lugar, se precisa de alguma coisa ou se simplesmente quer conversar”. De fato, nessas fases da vida, a pessoa precisa, como diz a Bíblia, de “um amigo que se apega mais do que um irmão”. — Provérbios 18:24.
Trabalhar pela recuperação
Dezesseis anos depois do divórcio, uma mãe admite: “Ainda há momentos de incrível solidão — mesmo quando estou rodeada de pessoas.” Como enfrenta isso? “Desenvolvi uma espécie de mecanismo de defesa”, diz ela, “ocupando-me com o trabalho, cuidando de meu filho e da casa. Também passei a freqüentar as reuniões das Testemunhas de Jeová, a compartilhar minhas crenças com outros e a fazer coisas pelo próximo. Isso me ajuda muito”.
Certas datas e ocasiões do ano podem ressuscitar lembranças e emoções dolorosas: o dia em que a infidelidade foi descoberta, o momento em que a pessoa saiu de casa, o dia da audiência no tribunal. Lembrar os velhos momentos felizes do casal — como férias e aniversários de casamento — podem evocar emoções difíceis de controlar. “Enfrento esses dias em companhia da minha família ou de amigos íntimos que conhecem a minha situação”, diz Patrícia. “Fazemos coisas que desviam os pensamentos do passado e produzem novas recordações. Mas a minha maior ajuda é a relação com Jeová — saber que ele entende como me sinto.”
Não se desespere
Os cônjuges inocentes que aplicam os princípios bíblicos e optam pelo direito (concedido por Deus) de se divorciar do cônjuge adúltero, não precisam sentir-se culpados ou temer que tenham sido abandonados por Jeová. A traição do cônjuge adúltero — que causou ‘lágrimas e suspiros’ — é o que Jeová odeia. (Malaquias 2:13-16) Mesmo Jeová, o Deus de “terna compaixão”, sabe o que significa ser rejeitado por alguém a quem se ama. (Lucas 1:78; Jeremias 3:1; 31:31, 32) Assim, esteja certo de que “Jeová ama a justiça e [que] ele não abandonará aqueles que lhe são leais”. — Salmo 37:28.
Naturalmente, seria muito melhor se a infidelidade e suas trágicas conseqüências pudessem ter sido evitadas. O Segredo de Uma Família Feliz,b um guia prático para a família, está ajudando muitos em todo o mundo a edificar casamentos felizes e a evitar a infidelidade. Há capítulos sobre como edificar um casamento feliz, educar os filhos e resolver problemas conjugais. As Testemunhas de Jeová na sua região, ou os editores desta revista, terão prazer em fornecer-lhe mais informações sobre esse assunto.
[Nota(s) de rodapé]
a Há mais informações sobre isso na série “Guarda dos filhos: o conceito equilibrado” e no artigo “Ajuda para os filhos do divórcio”, na Despertai! de 8 de dezembro de 1997 e 22 de abril de 1991.
b Publicado pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados.
[Quadro na página 10]
OS FILHOS NÃO MERECEM O DIVÓRCIO
Em 1988, a falecida princesa de Gales, Diana, disse que só na Grã-Bretanha, todos os dias umas 420 crianças enfrentam o divórcio dos pais. Um terço destas têm menos de cinco anos. Tragicamente, até 40% dos filhos perdem o contato com um dos pais depois do divórcio.
Contrário ao que muitos pensam, “são pouquíssimos os filhos que acolhem bem a ruptura”, observa uma respeitada escritora de assuntos de saúde e medicina. “A grande maioria dos filhos preferiria ver seus pais juntos, mesmo que o ambiente familiar fosse difícil.” Mesmo que o casal tenha discutido muito por ocasião da infidelidade, eles não devem concluir às pressas que o fim do casamento seja o melhor para os filhos. Havendo uma mudança de atitudes e de comportamento talvez seja possível ficar juntos para o bem da família inteira.
“Os maridos promíscuos”, diz a autora Pamela Winfield, “deviam pensar na dor que os filhos sentirão com a ruptura do lar que se seguirá à sua tolice”.
[Quadro na página 11]
DEUS ODEIA TODO E QUALQUER TIPO DE DIVÓRCIO?
“O que me perturbava muito”, admite Patrícia, “era a idéia de que ‘Jeová odeia o divórcio’. Sempre me vinha à mente a pergunta: ‘Será que estou fazendo o que agrada a Jeová?’”
Examinemos o contexto de Malaquias 2:16 para responder a essa pergunta. Nos dias de Malaquias, muitos israelitas se divorciavam de suas esposas, possivelmente para se casarem com mulheres pagãs mais jovens. Deus condenou essa conduta ardilosa e traiçoeira. (Malaquias 2:13-16) Assim, o que Deus odeia é a rejeição frívola de um cônjuge para se casar com outro. Aquele que ardilosamente comete adultério e daí se divorcia de seu cônjuge, ou o pressiona para se divorciar dele, comete um pecado traiçoeiro, odioso.
No entanto, esses versículos não condenam todo e qualquer tipo de divórcio. Isso é confirmado pelas palavras de Jesus: “Todo aquele que se divorciar de sua esposa, exceto em razão de fornicação, e se casar com outra, comete adultério.” (Mateus 19:9) Jesus esclareceu assim que a fornicação é uma razão válida para o divórcio bíblico — na realidade, a única razão válida que permite casar-se de novo. O cônjuge inocente pode decidir perdoar o errante. No entanto, a pessoa que decide usar essa declaração de Jesus como base para se divorciar do cônjuge adúltero não está fazendo algo que Jeová odeia. O que Deus odeia é a conduta ardilosa do cônjuge infiel.
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