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MoldáviaAnuário das Testemunhas de Jeová de 2004
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A brutalidade das autoridades
A experiência de Dumitru Gorobeţ e de Cazimir Cislinschii mostra que as chamas da oposição à obra de pregação eram muitas vezes atiçadas pelo ódio religioso da parte de autoridades ortodoxas resolutas. Dumitru e Cazimir aprenderam a verdade da Bíblia no povoado de Tabani. Por causa de suas excelentes qualidades e de seu zelo pelo ministério de pregação, tornaram-se logo bem conhecidos e benquistos dos irmãos. Mais tarde, em 1936, foram detidos e levados a uma delegacia de polícia na cidade de Khotin (hoje parte da Ucrânia).
Primeiro, os policiais bateram cruelmente em Dumitru e em Cazimir. Depois, tentaram forçá-los a fazer o sinal-da-cruz. Mas os dois homens permaneceram firmes, apesar dos contínuos espancamentos. Por fim, os policiais desistiram. Até mesmo permitiram que Dumitru e Cazimir voltassem para casa. Mas isso não foi o fim das provações desses dois irmãos fiéis. Tanto debaixo do governo fascista como do comunista, sofreram muitas outras tribulações por causa das boas novas. Dumitru morreu em princípios de 1976 em Tomsk, na Rússia, e Cazimir, em novembro de 1990 na Moldávia.
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MoldáviaAnuário das Testemunhas de Jeová de 2004
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Prova severa sob o regime fascista
O governo fascista de Antonescu, aliado com Hitler e com as Potências do Eixo, logo procurou impor seu poder sobre as Testemunhas de Jeová. Veja o exemplo de Anton Pântea, nascido em 1919. Anton aprendeu a verdade quando era adolescente. Era zeloso no ministério de casa em casa. Foi quase espancado em diversas ocasiões, mas, defendendo corajosamente seu direito legal como cidadão romeno de falar sobre a sua fé, conseguiu evitar maus-tratos físicos por algum tempo. Mas, por fim, a polícia o prendeu. Policiais fascistas o arrastaram para uma delegacia de polícia, bateram nele a noite inteira e depois, surpreendentemente, o puseram em liberdade. O irmão Pântea tem agora 84 anos de idade e continua decidido a permanecer fiel a Jeová.
Outro que manteve a integridade foi Parfin Palamarciuc. Ele aprendeu a verdade bíblica na Moldávia nos anos 20. Também se tornou um zeloso proclamador das boas novas, ficando muitas vezes longe de casa por semanas a fio para pregar em cidades e em povoados de Chernovtsy até Lvov, na Ucrânia. Por ter-se recusado a pegar em armas, Parfin foi preso em 1942 pelos fascistas e julgado por uma corte marcial em Chernovtsy.
Nicolae, filho de Parfin, contou aqueles eventos, dizendo: “Foram condenados à morte 100 irmãos por essa corte marcial. A sentença devia ser executada prontamente. Os oficiais reuniram todos os irmãos e selecionaram os dez primeiros a serem fuzilados. Mas, antes disso, essas pessoas foram forçadas a cavar sua própria cova, enquanto os demais 90 observavam. Antes de fuzilarem os irmãos, porém, as autoridades lhes deram mais uma oportunidade de renunciarem à sua fé e se alistarem no exército. Dois transigiram, os outros oito foram fuzilados. Daí, mais dez foram colocados na fila. Antes, porém, de serem fuzilados, tinham de enterrar os que haviam sido mortos.
“Enquanto os irmãos colocavam os corpos nas covas, chegou um funcionário de alta categoria. Ele perguntou quantas Testemunhas haviam mudado de idéia. Quando lhe foi dito que apenas duas, ele declarou que, se 80 tinham de morrer para eles conseguirem 20 para o exército, seria mais vantajoso enviar os 92 que restavam a campos de trabalhos forçados. Em resultado disso, as sentenças de morte foram comutadas em 25 anos de trabalhos forçados. Contudo, menos de três anos mais tarde, as forças soviéticas invasoras libertaram as Testemunhas dos campos romenos. Meu pai sobreviveu a essas e a muitas outras duras provas. Ele faleceu em 1984, fiel a Jeová.”
Considerado crime não ceder à ortodoxia
Vasile Gherman era um jovem senhor casado. Fazia pouco tempo que a esposa tinha dado à luz uma menina quando os fascistas o prenderam em dezembro de 1942. Vasile foi acusado de dois “crimes”: recusar-se a prestar serviço militar e deixar de batizar sua filha na Igreja Ortodoxa. Ele conta o que aconteceu: “Em fevereiro de 1943, meu caso, junto com o de 69 outros irmãos fiéis, seria julgado num tribunal militar em Chernovtsy. Antes do proferimento efetivo das decisões, as autoridades nos forçaram a presenciar a execução de seis criminosos. Portanto, tínhamos certeza de que nós seríamos os próximos da lista dos que receberiam a pena de morte.
“Consideramos o assunto entre nós e decidimos permanecer fortes na fé e fazer esforço de manter uma disposição alegre até o fim do julgamento. Com a ajuda de Jeová, tivemos êxito. Conforme já esperávamos, quando todos nós, 70 irmãos, recebemos a pena de morte, sentimos realmente que estávamos sofrendo pela causa da justiça. Nenhum de nós se sentiu desanimado, o que desapontou nossos inimigos. Daí, tivemos uma surpresa. Em vez de mandarem fuzilar-nos, as autoridades comutaram nossa condenação em 25 anos de trabalhos forçados no campo de Aiud, na Romênia. Mas mesmo essa sentença não foi plenamente cumprida, pois em apenas 18 meses, em agosto de 1944, o exército soviético invasor libertou o campo.”
Em 1942, os fascistas recrutaram cerca de 800 homens do povoado de Şirăuţi, na Moldávia, para servirem no exército do General Antonescu. Havia entre eles diversas Testemunhas de Jeová, incluindo Nicolae Anischevici. “No começo da ação legal”, disse Nicolae, “a polícia mandou que participássemos de uma cerimônia religiosa. Nós, Testemunhas, recusamo-nos a participar. Negamo-nos também a pegar em armas. Em resultado disso, a polícia acusou-nos de comunistas e nos prendeu. Antes de nos encarcerarem, porém, permitiram que explicássemos a todos os presentes a razão de nossa posição de neutralidade.
“No dia seguinte, fomos transferidos para Briceni, o centro judicial do distrito. Ali, fomos despidos e inteiramente revistados. Em seguida, um sacerdote de alto escalão militar nos interrogou. Ele era bondoso, mostrou-se compreensivo à nossa objeção de consciência e cuidou de que recebêssemos comida. Além disso, escreveu que nossa recusa de pegar em armas se devia à nossa crença em Jesus.
“Fomos levados de Briceni à delegacia de polícia em Lipcani. A polícia ali nos espancou cruelmente noite adentro. Depois, colocaram-nos numa cela com dois outros irmãos e, surpreendentemente, junto com uma mulher, que revelou ser espiã. Bateram em nós diariamente por muitos dias. Por fim, fui mandado a Chernovtsy para enfrentar uma corte marcial. Ali, foi-me concedido ter um advogado que se mostrou muito prestativo. Mesmo assim, minha saúde estava tão debilitada devido aos maus-tratos que as autoridades militares acharam que eu ia morrer. Por fim, decidiram mandar-me para casa sem me sentenciar.”
Corajosas irmãs que mantiveram a integridade
Houve também irmãs que se tornaram objeto de ódio dos fascistas. Uma delas foi Maria Gherman (não era parente de Vasile Gherman, mas era da mesma congregação). Detida em 1943, Maria foi levada à delegacia de polícia em Balasineşti. Ela relembra: “A polícia me prendeu porque me recusei a ir à Igreja Ortodoxa. Primeiro, fui transferida para Lipcani, na Moldávia, depois para Chernovtsy, na Ucrânia, onde fui sentenciada.
“O juiz me perguntou por que eu me recusava a ir à igreja. Eu lhe disse que só adoro a Jeová. Por esse ‘crime’, eu e mais 20 irmãs fomos condenadas a 20 anos de prisão. Algumas de nós ficamos amontoadas numa pequena cela com outras 30 detentas. Durante o dia, porém, fui mandada a casas de pessoas ricas para fazer serviço doméstico. Essas pessoas, tenho de admitir, me trataram melhor do que as autoridades carcerárias — pelo menos deram-me o suficiente para comer!
“Com o tempo, entramos em contato com irmãos que estavam em outra ala do complexo carcerário. Esse contato mostrou-se uma bênção, pois pudemos ajudar os irmãos a obter tanto alimento espiritual como material.”
Assim como muitas outras Testemunhas moldávias, os que mantiveram a integridade suportaram a ira dos fascistas e depois enfrentaram outro ataque à sua fé. Esse ataque foi da parte do poder regional seguinte, a Rússia comunista.
Uma política soviética: a deportação
Em 1944, perto do fim da guerra, quando a Alemanha estava perdendo, elementos dentro do governo romeno, chefiados pelo rei Michael, derrubaram o regime de Antonescu. A Romênia abandonou sua lealdade às Potências do Eixo para apoiar a Rússia. Naquele mesmo ano, o exército soviético, que avançava, reassumiu o controle sobre a região, fazendo novamente da Moldávia uma república da União Soviética.
No começo, os governantes comunistas da Moldávia deixavam as Testemunhas de Jeová em paz. Mas esse período de tranqüilidade foi curto. A neutralidade cristã, incluindo a recusa das Testemunhas de votar nas eleições partidárias locais, logo se tornou novamente uma questão controversial. O sistema soviético não tolerava a neutralidade política. De modo que, a partir de 1949, o governo planejou solucionar o problema deportando as Testemunhas de Jeová e outros elementos “indesejáveis”.
Um documento oficial explicava “a decisão do politburo da Comissão Central do Partido Comunista” a respeito dos que seriam deportados da República Socialista Soviética da Moldávia. Entre esses, estariam “ex-proprietários de terras, grandes comerciantes, cúmplices ativos dos invasores alemães, pessoas que cooperavam com as autoridades policiais alemãs e romenas, membros de partidos e organizações pró-fascistas, membros da Guarda Branca, membros das seitas ilegais, bem como as famílias que pertenciam às categorias especificadas”. Todos deviam ser mandados para a Sibéria “por tempo indeterminado”.
Uma segunda onda de deportações começou em 1951, mas dessa vez o alvo eram apenas as Testemunhas de Jeová. Foi o próprio Stalin que ordenou essa deportação, chamada de Operação Norte. Mais de 720 famílias de Testemunhas de Jeová — umas 2.600 pessoas — foram mandadas da Moldávia para Tomsk, a uma distância de 4.500 quilômetros, na Sibéria ocidental.
As ordens oficiais declaravam que se devia conceder às pessoas tempo suficiente para ajuntarem seus pertences pessoais antes de serem levadas aos trens que as aguardavam. Além disso, os vagões da ferrovia deviam ser “bem arrumados para o transporte de humanos”. A realidade foi bem diferente.
No meio da noite, soldados e autoridades governamentais, em número de até oito, chegavam à casa de uma família de Testemunhas de Jeová. Acordavam a família e lhe mostravam a ordem de deportação. Daí, davam apenas algumas horas para a família ajuntar os bens que pudesse antes de ser levada para os trens que estavam à espera.
Os vagões da ferrovia eram na realidade vagões fechados para transporte de carga. Em cada vagão eram amontoadas até 40 pessoas de todas as idades para a viagem de duas semanas. Não havia assentos nem isolamento térmico de espécie alguma. Num canto do vagão havia um buraco no chão, que servia como privada. Antes de deportarem os irmãos, as autoridades locais deviam registrar os bens de cada pessoa. Muitas vezes, porém, só alistavam coisas de pouco valor, os objetos de valor simplesmente “desapareciam”.
Apesar de todas essas injustiças e sofrimentos, os irmãos nunca perderam a alegria cristã. De fato, quando os trens que levavam as Testemunhas convergiam nas junções da ferrovia, ouviam-se cânticos do Reino que ressoavam de outros vagões de carga. Assim, os irmãos em cada trem sabiam que eles não eram os únicos, mas que centenas de outras Testemunhas estavam sendo deportadas junto com eles. Ver e ouvir o espírito alegre uns dos outros nessas circunstâncias provadoras animava o coração de todos e fortalecia sua decisão de permanecerem fiéis a Jeová, não importando o que acontecesse. — Tia. 1:2.
Uma fé digna de ser imitada
Entre os moldávios deportados para a Sibéria, estava Ivan Mikitkov. Ele foi detido pela primeira vez na Moldávia, em 1951, junto com outras Testemunhas de Jeová, e foi mandado a exílio para Tomsk. Ali o designaram para derrubar árvores na floresta de coníferas da Sibéria. Embora não estivesse restrito a um campo de trabalhos forçados, sua liberdade de ir e vir era limitada, e a polícia secreta o vigiava de perto. Contudo, ele e seus irmãos espirituais davam testemunho a outros em toda oportunidade.
Ivan conta: “Organizamo-nos em congregações nesse novo ambiente difícil. Começamos até a produzir nossas próprias publicações. Com o tempo, alguns a quem pregamos aceitaram a verdade e foram batizados. Mas, por fim, as autoridades notaram nossas atividades e sentenciaram alguns de nós a campos de trabalhos forçados.
“Eu e outras Testemunhas, a saber, Pavel Dandara, Mina Goraş e Vasile Şarban, fomos sentenciados a 12 anos de trabalhos forçados sob estrita vigilância. As autoridades esperavam que essas severas sentenças amedrontassem outros, com o fim de os silenciarem, mas isso não aconteceu. Para onde quer que nossos irmãos fossem mandados, continuavam a pregar. Em 1966, fui posto em liberdade depois de cumprir minha sentença até o fim. Voltei a Tomsk e permaneci ali por três anos.
“Em 1969, mudei-me para a bacia do Donets, onde conheci Maria, uma irmã fiel e zelosa com quem me casei. Em 1983, fui detido novamente. Dessa vez recebi sentença dupla: prisão por cinco anos e deportação por mais cinco anos. Compreensivelmente, achei essa sentença muito mais dura de suportar do que a anterior, porque significava separar-me de minha esposa e de meu filho, tendo eles também de suportar dificuldades. Felizmente, porém, não tive de cumprir todo o termo de prisão. Fui posto em liberdade em 1987, depois de Mikhail Gorbachev tornar-se secretário-geral do Partido Comunista Soviético. Foi-me permitido voltar para a Ucrânia e mais tarde para a Moldávia.
“Quando voltei a Bălţi, a segunda maior cidade da Moldávia, havia ali 370 publicadores e três congregações. Hoje há mais de 1.700 publicadores e 16 congregações!”
“Quer acabar morrendo como Vasile?”
Os administradores dos campos e os agentes da KGB (polícia secreta russa) inventaram alguns truques sádicos nos seus empenhos de enfraquecer a integridade dos irmãos. Constantin Ivanovici Şobe conta o que aconteceu com seu avô Constantin Şobe: “Em 1952, vovô estava cumprindo sua sentença num dos campos de trabalhos forçados no distrito de Chita, ao leste do lago Baikal, na Sibéria. As autoridades do campo ameaçaram fuzilá-lo, bem como a outras Testemunhas, se não renunciassem à sua fé.
“Visto que os irmãos se recusaram a transigir, as autoridades os reuniram fora do campo, perto da floresta. Já estava escurecendo quando levaram Vasile, o melhor amigo de vovô, a uma certa distância dentro da floresta, anunciando que iriam fuzilá-lo ali. Os irmãos esperaram aflitos. Logo, dois tiros de fuzil romperam o silêncio da noite.
“Os guardas voltaram e escoltaram a próxima Testemunha, meu avô, para dentro da floresta. Depois de caminharem uma curta distância, pararam numa clareira. Várias covas tinham sido abertas, e uma estava fechada. Apontando para essa cova, o comandante virou-se para meu avô e disse: ‘Quer acabar morrendo como Vasile ou quer voltar para a sua família como homem livre? Tem dois minutos para decidir.’ Vovô não precisava de dois minutos. Imediatamente ele replicou: ‘Faz muitos anos que eu conheço Vasile, que vocês fuzilaram. Espero agora juntar-me a ele na ressurreição no novo mundo. Eu tenho toda a certeza de que estarei com Vasile no novo mundo. E o senhor, estará lá?’
“Essa resposta não era o que o comandante esperava. Ele fez vovô e os outros marchar de volta para o campo. Na realidade, vovô não precisou esperar a ressurreição para ver Vasile. Tudo não passava de uma cruel encenação, com o fim de enfraquecer a resistência dos irmãos.”
Efeito contrário da propaganda comunista
Com o fim de criar ódio e suspeita contra as Testemunhas de Jeová, os comunistas produziram livros, brochuras e filmes que difamavam os servos de Deus. Uma brochura era intitulada Fundo Duplo — um termo que se referia ao compartimento secreto para publicações que os irmãos faziam no fundo de suas malas e sacolas. Nicolai Voloşanovschi relembra como o comandante do campo tentou usar essa brochura para humilhá-lo na presença de outros presos.
Nicolai relata: “O comandante do campo juntou todos os detentos numa das barracas. Daí, passou a citar passagens da brochura Fundo Duplo, incluindo trechos que continham declarações difamatórias a meu respeito. Quando ele terminou de falar, pedi permissão para fazer algumas perguntas. O comandante deve ter pensado que isso lhe daria oportunidade para zombar de mim, pois permitiu que eu fizesse perguntas.
“Dirigindo-me ao comandante, perguntei se ele se lembrava da primeira vez que me entrevistou quando me alistou para o campo de trabalhos forçados. Ele se lembrava da entrevista. Daí, perguntei se ele se lembrava das perguntas que me havia feito sobre meu país de origem, minha cidadania, etc., ao preencher meus documentos de alistamento. De novo ele respondeu que sim. Ele até disse para os presentes ali quais haviam sido minhas respostas. Pedi então que relatasse o que ele na realidade havia escrito nos formulários. Ele admitiu que o que ele escreveu não condizia com minhas respostas. Daí, eu me virei para a assistência e disse: ‘Estão vendo, é dessa mesma maneira que esta brochura foi escrita.’ Os detentos aplaudiram e o comandante retirou-se irado.”
A trama para dividir e conquistar
Nos anos 60, as frustradas autoridades soviéticas implementaram novos métodos no esforço de desunir as Testemunhas de Jeová. O livro The Sword and the Shield (A Espada e o Escudo), publicado em 1999, considera alguns dos registros, outrora secretos, da KGB contidos nos arquivos do governo. Declara: “Uma conferência, em março de 1959, de oficiais seniores da KGB que comandaram ‘uma luta contra os jeovistas [Testemunhas de Jeová]’, concluiu que a estratégia certa era ‘continuar com as medidas de repressão e as medidas para dividir’. Por meio de acusações falsas, a KGB decidiu desunir, desmoralizar e desonrar os sectários, bem como prender seus líderes mais influentes.”
As “medidas para dividir” incluíam uma campanha concentrada para semear desconfiança entre os irmãos em toda a União Soviética. Com esse objetivo, a KGB passou a espalhar boatos de má-fé, afirmando que diversos irmãos da dianteira haviam começado a cooperar com o serviço de segurança do Estado. A KGB disfarçou suas mentiras tão habilmente que muitas Testemunhas ficaram sem saber em quem podiam confiar.
Outra artimanha da KGB foi treinar agentes especiais para se fazerem passar por Testemunhas de Jeová “ativas” que tentariam assim conseguir obter posições de responsabilidade na organização. É claro que esses espiões manteriam a KGB bem informada. A KGB também abordou secretamente Testemunhas genuínas, tentando suborná-las com grandes somas de dinheiro em troca de sua cooperação.
Lamentavelmente, esses métodos escusos tiveram certa medida de êxito em desunir os irmãos, incluindo irmãos na Moldávia. Em resultado disso, criou-se uma atmosfera de desconfiança. Alguns irmãos abandonaram a organização e formaram um grupo dissidente que chegou a ser conhecido como a oposição.
Antes desses acontecimentos, os irmãos na União Soviética, ao mencionarem a organização de Jeová, o alimento espiritual que ela produzia e os irmãos em posições de responsabilidade que ela nomeava, referiam-se a tais como o canal. Mas agora havia confusão e incerteza sobre esse canal. Como os irmãos conseguiram sanar essa confusão? Surpreendentemente, fizeram isso com a ajuda do Estado Soviético. Sim, os próprios maquinadores ajudaram a solucionar os problemas que eles mesmos criaram. De que maneira?
Eles deixaram de levar em conta o espírito de Deus
No início da década de 60, as autoridades soviéticas colocaram muitos “líderes” das Testemunhas de Jeová de toda a União Soviética num só campo, a uns 150 quilômetros da cidade de Saransk, na república da Mordóvia, Rússia ocidental. Antes, grandes distâncias separavam os irmãos, o que impedia a comunicação e causava equívocos. Mas, agora, eles estavam todos juntos, tanto os que pertenciam à chamada oposição como os que não faziam parte dela. Por conseguinte, podiam falar face a face e distinguir a diferença entre a realidade e o que era inventado. Por que as autoridades colocaram todos esses irmãos juntos? Pelo que parece, acharam que os irmãos entrariam em conflito uns com os outros, causando assim mais divisão. Embora os planos deles fossem bem arquitetados, deixaram de levar em conta o espírito unificador de Jeová. — 1 Cor. 14:33.
Um dos irmãos encarcerados na Mordóvia era Gheorghe Gorobeţ. Ele relembra: “Não muito tempo depois de eu ter sido detido e lançado na prisão, um irmão que se associava com a oposição ficou preso conosco. Quando ele viu que os irmãos em posições de responsabilidade ainda estavam encarcerados, ficou surpreso, pois fora-lhe dito que todos nós estávamos em plena liberdade e que levávamos uma vida de luxo patrocinada pela KGB!”
O irmão Gorobeţ prossegue, dizendo: “No meu primeiro ano na prisão, mais de 700 pessoas foram encarceradas por motivos religiosos. A maior parte dessas eram Testemunhas de Jeová. Trabalhávamos todos juntos numa fábrica e tínhamos tempo para conversar com os que se haviam unido ao grupo dissidente. Em resultado disso, muitos assuntos foram esclarecidos nos anos de 1960 e 1961. Por fim, em 1962, a comissão do país, que cuidava da União Soviética, escreveu uma carta do próprio campo de trabalhos forçados. A carta foi mandada a todas as congregações dentro da União Soviética, e começou a neutralizar o dano causado pela campanha de mentiras feita pela KGB.”
Identificação do verdadeiro canal
O irmão Gorobeţ foi solto do campo de trabalhos forçados em junho de 1964 e voltou imediatamente à Moldávia. Ao chegar a Tabani, descobriu que muitas Testemunhas locais ainda estavam confusas a respeito de qual era o canal usado por Jeová para alimentar e orientar Seus servos. Diversos irmãos queriam ler somente a Bíblia.
Uma comissão de três irmãos espiritualmente maduros foi nomeada para ajudar a esclarecer os assuntos. Uma das primeiras coisas que fizeram foi visitar as congregações no norte da Moldávia, onde morava a maioria das Testemunhas de Jeová. A fidelidade contínua desses e de outros superintendentes cristãos, apesar de muita perseguição, convenceu a muitos de que Jeová ainda estava usando a mesma organização que lhes ensinara a verdade.
Em fins dos anos 60, tornou-se evidente à KGB que a obra de pregação continuava a progredir, apesar das perseguições e de outras táticas empregadas. Descrevendo a reação da KGB, o livro The Sword and the Shield declara: “O Centro [KGB] ficou perturbado com os relatos de que, mesmo nos campos de trabalhos forçados, ‘os líderes e as autoridades dos de Jeová não desistiram de suas crenças hostis, e mesmo nas condições existentes nos campos continuaram a efetuar a obra de Jeová’. Foi realizada, em novembro de 1967, em [Chisinau], uma conferência das autoridades da KGB que elaboravam planos contra as Testemunhas de Jeová, a fim de considerarem novas medidas ‘para impedir a obra hostil dos sectários’ e a sua ‘subversão ideológica’.”
Hostilizados por ex-irmãos
Infelizmente, alguns foram enganados por essas “novas medidas” e se tornaram joguetes nas mãos da KGB. Alguns haviam sucumbido à cobiça ou ao temor do homem; outros eram ex-irmãos que alimentavam ódio às Testemunhas. As autoridades começaram a usar essas pessoas no empenho de quebrar a integridade dos que haviam permanecido fiéis. Testemunhas que haviam sofrido em prisões e em campos de trabalhos forçados disseram que serem hostilizados por aqueles que antes eram irmãos, alguns dos quais agora apóstatas, foi uma das situações mais dolorosas que tiveram de enfrentar.
Muitos dos apóstatas tinham sido integrantes da acima mencionada oposição. No início, esse grupo incluía alguns que simplesmente estavam confusos com as informações falsas dadas pela KGB. Mas os que ainda estavam do lado da oposição em fins dos anos 60 incluíam diversos que demonstravam o espírito iníquo da classe do escravo mau. Desconsiderando o aviso de Jesus, começaram a ‘espancar os seus co-escravos’. — Mat. 24:48, 49.
Contudo, a trama de dividir e conquistar os servos de Deus fracassou, apesar de toda a contínua pressão por parte da KGB e de seus subordinados. Em princípios dos anos 60, quando irmãos fiéis começaram a trabalhar para reunificar a organização na Moldávia, a maioria dos irmãos no país estava do lado da oposição. Mas, em 1972, a grande maioria já havia voltado a trabalhar lealmente com a organização de Jeová.
Um perseguidor com disposição apreciativa
Os fiéis que permaneceram na Moldávia durante a era comunista realizaram a obra de pregação do melhor modo que puderam. Deram testemunho informal a familiares, amigos, colegas de escola e de trabalho. Mas usaram de cautela, pois muitas autoridades na Moldávia eram fanáticas na ideologia comunista. Entretanto, nem todos os comunistas desprezavam as Testemunhas de Jeová.
Simeon Voloşanovschi recorda: “A polícia vasculhou nossa casa e confiscou muitas publicações que o agente encarregado alistou. Mais tarde, ele voltou com sua lista e pediu-me que verificasse os itens. Ao verificar seu registro das publicações, notei uma omissão — faltava uma revista A Sentinela, sobre a família e como tornar mais feliz a vida familiar. Perguntei ao agente a respeito da revista. ‘Ah! levei-a para casa, e a lemos em família’, respondeu de modo embaraçoso. ‘E gostou do que leu?’, perguntei. ‘Sim! Nós gostamos muito!’, disse ele.”
Diminui a oposição e continua o aumento
Nos anos 70, as autoridades comunistas abandonaram sua política de prender e exilar os servos de Jeová. Contudo, houve prisões individuais de irmãos e condenações por terem dado testemunho ou assistido a reuniões cristãs. As sentenças, porém, eram menos severas.
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MoldáviaAnuário das Testemunhas de Jeová de 2004
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[Quadro nas páginas 83-85]
Exemplos notáveis de neutralidade cristã
George Vacarciuc: O irmão Vacarciuc foi criado como Testemunha de Jeová. Em dezembro de 1942, os fascistas o convocaram para o serviço militar. Ele se recusou a pegar em armas e durante 16 dias ficou trancado numa cela totalmente escura com bem pouca alimentação. De novo as autoridades o convocaram, prometendo suspender a sentença — que ainda não tinha sido lida para ele — se fizesse o que lhe fora ordenado. Mais uma vez ele se recusou a fazer isso.
Por isso, George foi sentenciado a 25 anos de prisão. Mas seu termo de prisão foi interrompido com a chegada das forças soviéticas em 25 de setembro de 1944. Menos de dois meses mais tarde, porém, os soviéticos tentaram recrutá-lo. Por não violar sua consciência treinada pela Bíblia, ele foi sentenciado a dez anos de trabalhos forçados em vários campos. Por um ano a família não soube de seu paradeiro. Depois de cumprir pena por cinco anos, o irmão Vacarciuc foi posto em liberdade, em 5 de dezembro de 1949. Ele voltou para sua casa em Corjeuţi e permaneceu fiel até sua morte em 12 de março de 1980.
Parfin Goreacioc: O irmão Goreacioc, nascido em 1900, conheceu a verdade da Bíblia no povoado de Hlina nos anos de 1925 a 1927. Junto com seus irmãos, Nicolae e Ion, ele aprendeu a verdade com Damian e Alexandru Roşu, os primeiros Estudantes da Bíblia no povoado.
Em 1933, Parfin, junto com outras Testemunhas, foi detido e levado para a cidade de Khotin, onde foi interrogado e depois multado por pregar. Em 1939, sob a instigação do sacerdote do povoado, Parfin foi levado à delegacia de polícia no povoado vizinho de Ghilavăţ. Ali a polícia o amarrou de bruços sobre um estrado de cama e o golpeou repetidamente na planta dos pés.
Quando os fascistas assumiram o poder, Parfin foi novamente detido e lançado na prisão. Naquele mesmo ano, porém, os soviéticos o puseram em liberdade, mas depois o prenderam por se recusar a prestar serviço militar. Deixaram-no na prisão em Chisinau por diversos meses e depois o soltaram.
Em 1947, novamente os soviéticos prenderam Parfin, sentenciando-o dessa vez a oito anos de exílio por pregar o Reino de Deus. Em 1951, seus filhos foram deportados para a Sibéria. Mas não se juntaram ao pai. Na verdade, nunca mais o viram. Parfin adoeceu gravemente no exílio e morreu em 1953, fiel até o fim.
Vasile Pădureţ: O irmão Pădureţ, nascido em 1920 em Corjeuţi, aprendeu a verdade em 1941 durante a era fascista. Por isso, ele também sofreu nas mãos tanto dos fascistas como dos soviéticos. A estes últimos, corajosamente disse: “Eu não atirei em bolcheviques e não vou matar fascistas.”
Por objeção de consciência, com base na Bíblia, Vasile foi sentenciado a dez anos num campo soviético de trabalhos forçados. Entretanto, a sentença foi diminuída para cinco anos, e ele voltou para casa em 5 de agosto de 1949. Já havia começado a Operação Norte quando ele foi detido pela terceira vez. Assim, em 1.º de abril de 1951, Vasile e a família embarcaram num vagão fechado de carga, com destino à Sibéria. Depois de passarem cerca de cinco anos ali, foi-lhes permitido voltar para Corjeuţi, na Moldávia. Vasile morreu fiel a Jeová em 6 de julho de 2002 enquanto estava sendo preparado este relatório.
[Quadro/Foto nas páginas 89, 90]
“Por nada neste mundo trocaria minha vida de serviço ao meu Criador”
Ion Sava Ursoi
Ano de nascimento: 1920
Ano de batismo: 1943
Resumo biográfico: Serviu como superintendente de circuito durante a era comunista.
Nasci em Caracuşeni, na Moldávia, e aprendi a verdade antes de estourar a Segunda Guerra Mundial. Minha esposa faleceu em 1942. No enterro dela, uma turba me expulsou do cemitério. Por quê? Porque eu tinha mudado de religião. Mais tarde naquele ano, o governo fascista tentou alistar-me no serviço militar. Por desejar permanecer politicamente neutro, recusei-me a servir no exército. Fui condenado à pena de morte, mas essa condenação mais tarde foi substituída por 25 anos de prisão. Fui transferido de campo em campo. Quando eu estava encarcerado em Craiova, na Romênia, com a chegada do exército soviético, fomos postos em liberdade.
Mal havia sentido o gosto da liberdade quando os comunistas me lançaram de novo na prisão. Mandaram-me para Kalinin, na Rússia. Dois anos mais tarde, em 1946, permitiram que eu fosse para casa, para o meu povoado, onde ajudei a reorganizar a obra de pregação. Depois, em 1951, os soviéticos me prenderam novamente. Dessa vez, deportaram-me, junto com outras Testemunhas, para a Sibéria. Foi só em 1969 que voltei para casa.
Refletindo em minha vida, lembro-me de muitas situações em que Jeová me deu força para manter a integridade. Por nada neste mundo trocaria minha vida de serviço ao meu Criador. Agora luto com as limitações da idade avançada e da saúde debilitada. Mas a esperança segura da vida no novo mundo, quando meu corpo voltará ao vigor da juventude, fortalece minha determinação de ‘não desistir de fazer aquilo que é excelente’. — Gál. 6:9.
[Quadro/Foto nas páginas 100-102]
Tenho muito sobre o que cantar
Alexandra Cordon
Ano de nascimento: 1929
Ano de batismo: 1957
Resumo biográfico: Sofreu sob o regime soviético e serve atualmente como publicadora de congregação.
Eu gostava muito de cantar. Isso me ajudou a encontrar a verdade e, mais tarde, a permanecer espiritualmente forte quando minha fé foi testada. Minha história começa em princípios dos anos 40 quando eu era adolescente e entrei em contato com um grupo de jovens em Corjeuţi que gostavam de entoar cânticos do Reino e conversar sobre a Bíblia em seu tempo de folga. As verdades espirituais que aprendi durante aquelas conversas e por meio dos cânticos causaram uma profunda impressão em mim.
Logo me tornei publicadora das boas novas. Isso resultou em eu ser detida em 1953, junto com dez outras Testemunhas de Jeová. Enquanto aguardava o julgamento, fiquei encarcerada numa prisão em Chisinau. Mantive-me espiritualmente forte entoando cânticos do Reino, o que deixava um dos guardas irado. “Você está na prisão”, disse ele. “Aqui não é lugar para cantar!”
Eu respondi: “Tenho cantado durante toda a minha vida. Por que deveria parar agora? Vocês podem fechar-me aqui, mas não podem fechar minha boca. Meu coração está livre, e amo a Jeová. Portanto, tenho muito sobre o que cantar.”
Fui condenada a 25 anos de trabalhos forçados num campo em Inta, perto do círculo polar ártico. Durante os curtos meses de verão, eu e as outras Testemunhas ali trabalhávamos nos bosques por perto. De novo, os cânticos do Reino, muitos dos quais sabíamos de cor, ajudaram-nos a permanecer fortes em sentido espiritual e a nos sentir livres no íntimo. Além disso, os guardas ali, diferentemente daquele em Chisinau, nos incentivavam a cantar.
Permaneci três anos, três meses e três dias no campo em Inta. Daí, graças a uma anistia, fui posta em liberdade. Visto que ainda não tinha permissão de voltar para casa, na Moldávia, fui para Tomsk, na Rússia. Ali, reuni-me a meu marido, que também havia passado algum tempo na prisão. Fazia quatro anos que estávamos longe um do outro.
Por estar presa, eu ainda não tinha simbolizado minha dedicação a Jeová pelo batismo em água. De modo que perguntei aos irmãos em Tomsk se eu podia ser batizada. Visto que diversos outros também desejavam ser batizados, os irmãos programaram prontamente um serviço de batismo. Entretanto, por causa da proscrição, decidiram realizá-lo à noite, num lago na floresta próxima.
Na hora marcada, partimos das imediações de Tomsk e caminhamos floresta adentro em pares, para não suscitar suspeita. Cada par tinha de seguir o outro par na sua frente até todos chegarem em segurança junto ao lago. Pelo menos, esse era o plano. Infelizmente, as duas irmãs idosas que foram na frente de mim e de minha companheira acabaram desviando-se da trilha. Nós as seguimos, e os que estavam atrás de nós nos seguiram fielmente. Em pouco tempo, cerca de dez de nós tínhamos perdido o rumo no meio da escuridão, estávamos encharcados devido à vegetação rasteira molhada e tremíamos de frio. Sabia-se que ursos e lobos rondavam por aquela região, de modo que a idéia de que poderiam aparecer dominava nossos pensamentos. Estávamos tão tensos que qualquer barulho estranho nos assustava.
Compreendendo a importância de não entrar em pânico ou perder o ânimo, sugeri que ficássemos calmamente parados e assobiássemos a melodia de um cântico do Reino, na esperança de que os outros nos ouvissem. Oramos também com fervor. Imagine a nossa alegria quando ouvimos em resposta a mesma melodia vindo em nossa direção no meio da escuridão! Nossos irmãos nos tinham ouvido! Rapidamente, acenderam uma lanterna para que pudéssemos encontrar o caminho até onde eles estavam. Pouco depois, fomos imersos na água gelada, mas quase não sentimos o frio de tão felizes que estávamos.
Tenho agora 74 anos e estou de volta a Corjeuţi, onde conheci a verdade. Apesar de minha idade avançada, ainda tenho muito sobre o que cantar, especialmente em louvor ao nosso Pai celestial.
[Quadro/Fotos nas páginas 104-106]
Procurei seguir o exemplo de meus pais
Vasile Ursu
Ano de nascimento: 1927
Ano de batismo: 1941
Resumo biográfico: Serviu como servo de congregação e trabalhou às ocultas na produção de publicações.
Meus pais, Simeon e Maria Ursu, foram batizados em 1929. Eu era o mais velho dos cinco filhos. Durante a era fascista, papai e mamãe foram presos e condenados a 25 anos de trabalhos forçados por causa de sua neutralidade. Irmãos e irmãs espirituais da congregação do povoado vizinho de Corjeuţi cuidaram de nós, ainda crianças, e do sítio de nossa família. Portanto, sempre tínhamos alimento suficiente. Nossa idosa avó, que não era da verdade, também ajudou a cuidar de nós. Eu tinha na época 14 anos.
Graças ao bom exemplo de meus pais, procurei com muita diligência cuidar de meus irmãos em sentido espiritual. Com isso em mente, eu os fazia levantar-se cedo todos os dias para considerarmos juntos um trecho de nossas publicações baseadas na Bíblia. Nem sempre estavam dispostos a se levantar, mas não tinham escolha. Eu sabia a importância dos bons hábitos de estudo. Em resultado disso, quando nossos pais foram postos em liberdade antes do tempo previsto e voltaram para casa em 1944, ficaram muito alegres de ver como estávamos espiritualmente sadios. Que reencontro feliz! Nossa felicidade, porém, durou pouco.
No ano seguinte, os soviéticos prenderam papai e o lançaram numa prisão em Norilsk, na Sibéria, acima do círculo polar ártico. Três anos mais tarde, casei-me com Emilia, uma irmã animada e de mentalidade espiritual. A bem dizer, tínhamos crescido juntos, de modo que eu a conhecia bem. Mas, apenas um ano depois de nosso casamento, fui detido junto com minha mãe. Fomos mandados para Chisinau, onde nos condenaram a 25 anos de trabalhos forçados. Emilia cuidou de modo amoroso de meus irmãos, que agora haviam perdido os pais e o irmão mais velho.
Por fim, fui mandado para as minas de carvão em Vorkuta, um infame campo de trabalhos forçados ao norte do círculo polar ártico. Dois anos mais tarde, em 1951, Emilia e meus três irmãos e minha irmã foram mandados para o exílio em Tomsk, na Sibéria ocidental. Em 1955, Emília solicitou que fosse transferida para Vorkuta, a fim de estar comigo. Ali ela deu à luz a primeira de nossos três filhos, uma menina chamada Tamara.
Em setembro de 1957, com a declaração de uma anistia, fomos postos em liberdade. Um mês depois, porém, fui detido novamente. Dessa vez, fui condenado a sete anos de trabalhos forçados num campo em Mordvinia, perto de Saransk, na Rússia. Muitos outros irmãos foram também encarcerados ali, e mais outros haviam de chegar. Quando nossas respectivas esposas vinham visitar-nos, conseguiam introduzir clandestinamente um suprimento regular de publicações que apreciávamos muito. Em dezembro de 1957, Emilia mudou-se para Kurgan, na Sibéria ocidental, para cuidar de nossa filha Tamara, que morava com os pais de Emilia. Em resultado disso, eu e Emilia ficamos separados por sete anos. Mas esse era o único meio de impedir que Tamara fosse enviada para uma instituição dirigida pelo Estado.
Em 1964, fui posto em liberdade, mas não me foi permitido voltar para casa, na Moldávia. Embora ainda não tivesse permissão oficial de me mudar de um lugar para outro, pude juntar-me a minha esposa e a minha filha em Kurgan, onde servi como dirigente de estudo de livro na congregação. Em 1969, mudamo-nos para Krasnodar, no Cáucaso. Depois de servir oito anos ali, mudamo-nos para Chirchik, no Usbequistão. Ali trabalhei na gráfica às ocultas. Por fim, em 1984, foi-nos permitido voltar para a Moldávia. Fixamos residência em Tighina, uma cidade de 160.000 habitantes, com apenas 18 publicadores. Com o passar dos anos, esse pequeno grupo cresceu, tornando-se nove congregações compostas de quase 1.000 publicadores e pioneiros.
Será que lamento os muitos anos que passei nos campos de trabalhos forçados e em prisões por amor ao nosso Senhor? Não, de forma alguma! Para mim, as questões estavam claras, mesmo quando eu era recém-batizado aos 14 anos de idade: ou ama-se a Deus ou ama-se o mundo! Uma vez que decidi servir a Jeová, nunca pensei em transigir. — Tia. 4:4.
[Fotos]
À esquerda: Vasile Ursu
À extrema esquerda: Vasile com a esposa, Emilia, e a filha, Tamara
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