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Determinados a cumprir nosso ministérioA Sentinela — 2007 | 1.° de junho
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Em junho de 1955, nós nos casamos. Compramos um ônibus com a intenção de convertê-lo numa casa sobre rodas. Nosso alvo era usá-lo como ponto de apoio para pregar em regiões distantes da Austrália. No ano seguinte, foi feito um convite para que Testemunhas de Jeová se mudassem para a Nova Guiné, a parte nordeste de uma grande ilha ao norte da Austrália.a A mensagem do Reino ainda não tinha sido pregada nessa parte do mundo. Imediatamente nos colocamos à disposição.
Nessa época, a única maneira de entrar na Nova Guiné era por meio de um contrato de trabalho, de modo que John começou a procurar um emprego. Ele logo foi contratado por uma serraria na Nova Bretanha, uma ilha bem menor que faz parte da Nova Guiné. Algumas semanas depois, partimos para nossa nova designação, chegando a Rabaul, Nova Bretanha, em julho de 1956. Esperamos ali seis dias por um barco que nos levasse a Waterfall Bay.
Nosso trabalho de pregação em Waterfall Bay
Depois de navegarmos vários dias em águas turbulentas, chegamos a Waterfall Bay, uma enorme enseada que fica cerca de 240 quilômetros ao sul de Rabaul. Ali se localizava uma enorme serraria numa clareira na floresta. Naquela noite, quando todos os trabalhadores estavam sentados ao redor da mesa do jantar, o gerente disse: “A propósito, seu John e dona Lena, é costume desta firma que todos os empregados digam qual é a sua religião.”
Tínhamos quase certeza de que não existia tal costume, mas, visto que nos recusamos a fumar, eles pelo jeito ficaram desconfiados. De qualquer forma, John respondeu: “Somos Testemunhas de Jeová.” Seguiu-se um silêncio constrangedor. Os homens eram veteranos da Segunda Guerra Mundial e tinham preconceito contra as Testemunhas de Jeová por causa de sua posição neutra durante a guerra. A partir de então, esses homens procuravam toda oportunidade para dificultar as coisas para nós.
Primeiro, o gerente recusou-se a nos dar uma geladeira e um fogão, embora tivéssemos direito a essas coisas. Nossos suprimentos perecíveis se estragaram, e fomos obrigados a cozinhar num fogão quebrado que achamos na floresta. A seguir, os moradores locais foram proibidos de nos vender produtos frescos, de modo que sobrevivemos com verduras e legumes que conseguíamos encontrar. Fomos também tachados de espiões e vigiados de perto para ver se estávamos ensinando a Bíblia a alguém. Daí, contraí malária.
Apesar disso, estávamos determinados a cumprir nosso ministério. Por isso, pedimos a dois jovens nativos, que trabalhavam na serraria e falavam inglês, que nos ensinassem pidgin-melanésio, a língua nacional. Em troca, nós lhes ensinamos a Bíblia. Nos fins de semana, fazíamos “passeios” a lugares diversos. Pelo caminho, dávamos discretamente testemunho a todos os aldeões que conseguíamos encontrar; nossos estudantes da Bíblia serviam de intérpretes. Cruzávamos rios com fortes correntezas e com enormes crocodilos que tomavam sol junto às margens. Com exceção de uma vez que escapamos por um triz, raramente tivemos problemas com esses terríveis predadores.
Preparamos material didático
À medida que nosso ministério se expandia, decidimos datilografar mensagens simples da Bíblia para distribuir aos interessados. Nossos estudantes da Bíblia na serraria nos ajudaram a traduzir as primeiras mensagens. Passamos muitas noites datilografando centenas de panfletos e os distribuímos aos aldeões e aos tripulantes de barcos que estavam de passagem.
Em 1957, John Cutforth, um ministro viajante experiente, fez-nos uma visita encorajadora.b Ele sugeriu que o uso de gravuras podia ser um meio eficaz de ensinar verdades bíblicas a pessoas que não sabiam ler. Ele e meu marido criaram uma série de desenhos simples para explicar ensinos básicos da Bíblia. Mais tarde, passamos horas a fio copiando esses sermões em forma de gravura em cadernos escolares. Cada estudante da Bíblia recebia um caderno, que usava para pregar a outros. Com o tempo, esse método de ensino foi usado em todo o país.
Depois de dois anos e meio em Waterfall Bay, nosso contrato de trabalho terminou e recebemos permissão para permanecer no país. Então aceitamos o convite para ser pioneiros especiais.
De volta a Rabaul
Navegando rumo ao norte até Rabaul, nosso barco pernoitou numa fazenda de cacau e de coco para extração de copra, em Wide Bay. Os donos, um casal idoso que queria se aposentar e voltar para a Austrália, ofereceram a John um emprego para cuidar da fazenda. A oferta era muito tentadora, mas, quando conversamos sobre o assunto naquela noite, concordamos que não tínhamos ido à Nova Guiné para buscar riquezas materiais. Estávamos determinados a cumprir nosso ministério como pioneiros. Assim, no dia seguinte, informamos o casal sobre nossa decisão e voltamos ao barco.
Depois de chegarmos a Rabaul, nos juntamos a um pequeno grupo de Testemunhas de Jeová de outros países que haviam se mudado para a região. As pessoas da localidade mostraram bastante interesse na mensagem do Reino, e iniciamos muitos estudos bíblicos. Nesse meio tempo, realizamos reuniões cristãs num salão alugado, e a assistência chegou a 150 pessoas. Muitas dessas aceitaram a verdade e ajudaram a espalhar as boas novas do Reino de Deus a outras partes do país. — Mateus 24:14.
Visitamos também Vunabal, um povoado a cerca de 50 quilômetros de Rabaul, onde um grupo de pessoas mostrou vivo interesse na verdade bíblica. Elas logo atraíram a atenção de um católico influente da localidade. Com um grupo de comparsas da igreja, ele interrompeu nosso estudo bíblico semanal e nos expulsou do povoado. Quando soubemos que haveria mais problemas na semana seguinte, pedimos à polícia que nos escoltasse.
Naquele dia, católicos zombadores formaram filas quilométricas em cada lado da estrada. Muitos estavam prontos para nos apedrejar. Nesse meio tempo, um sacerdote tinha reunido centenas de aldeões no povoado. A polícia nos garantiu que tínhamos o direito de realizar nossa reunião, de modo que abriu caminho entre a multidão. No entanto, logo que começamos a reunião, o sacerdote incitou a multidão contra nós. A polícia não conseguiu contê-la; por isso, o chefe de polícia nos incentivou a ir embora e nos conduziu rapidamente até o nosso carro.
A multidão aglomerou-se ao nosso redor, insultando, cuspindo e sacudindo os punhos, enquanto o sacerdote ficou parado com os braços cruzados, sorrindo. Depois de escaparmos, o chefe de polícia admitiu que foi a pior situação que já havia visto. Embora a maioria das pessoas em Vunabal tenha ficado intimidada pela violência da multidão, um estudante da Bíblia corajosamente tomou posição a favor da verdade do Reino. Desde então, centenas de outras pessoas em toda a Nova Bretanha fizeram o mesmo.
Início da pregação na Nova Guiné
Em novembro de 1960, fomos transferidos para Madang, uma cidade grande na costa norte da Nova Guiné, a ilha principal. Ali choveram ofertas de emprego. Uma empresa insistiu para que eu gerenciasse sua loja de roupas. Outra queria que eu fizesse alterações em roupas. Algumas mulheres imigrantes até ofereceram ajuda para que eu abrisse minha própria confecção. Mantendo em mente nossos objetivos, recusamos educadamente essas e outras ofertas. — 2 Timóteo 2:4.
O território em Madang era fértil e logo se formou ali uma próspera congregação. Íamos a pé e de motocicleta para povoados distantes em viagens de pregação que duravam vários dias. Dormíamos em cabanas abandonadas que encontrávamos pelo caminho, sobre camadas de capim cortado do mato. Comida enlatada, biscoitos e um mosquiteiro completavam nossas simples provisões.
Numa dessas viagens, visitamos um grupo de pessoas interessadas em Talidig, um povoado que fica cerca de 50 quilômetros ao norte de Madang. Com o progresso espiritual do grupo, o diretor da escola local as proibiu de estudar a Bíblia em propriedades públicas. Mais tarde, ele incitou a polícia a destruir suas casas e a expulsá-las para o mato. O chefe de um povoado vizinho, porém, permitiu que o grupo morasse em suas terras. Com o tempo, esse bondoso chefe aceitou a verdade da Bíblia, e um moderno Salão do Reino foi construído na região.
Tradução e serviço de viajante
Apenas dois anos depois de nossa chegada à Nova Bretanha em 1956, fomos convidados a traduzir várias publicações para o pidgin-melanésio. Esse trabalho continuou ao longo dos anos. Então, em 1970, fomos convidados para servir como tradutores por tempo integral na sede em Port Moresby, capital de Papua-Nova Guiné. Ali também dávamos aulas de idiomas.
Em 1975, voltamos à Nova Bretanha para servir como ministros viajantes. Nos 13 anos seguintes, voamos, remamos, dirigimos e caminhamos por quase todas as partes do país. Durante essas viagens, passamos por várias situações em que escapamos por um triz, incluindo o incidente descrito no começo deste artigo. Naquela ocasião, ao nos aproximarmos da pista de pouso de Kandrian, na Nova Bretanha, o piloto desmaiou por causa de uma forte gastrite. Com o avião no piloto automático, circulamos sobre a floresta sem saber o que fazer, enquanto John tentava desesperadamente fazer o piloto recobrar os sentidos. Finalmente, ele voltou a si e conseguiu enxergar o suficiente para fazer um pouso difícil. Depois, desmaiou de novo.
Outra porta de atividade se abre
Em 1988, fomos designados novamente para Port Moresby a fim de cuidar da crescente necessidade de tradução na sede. Cerca de 50 de nós vivíamos e trabalhávamos como uma família ali, onde também treinávamos novos tradutores. Todos nós morávamos em pequenos apartamentos de um só cômodo. Eu e John decidimos deixar a porta de nosso apartamento entreaberta para incentivar os membros da família e os visitantes a dar uma passadinha e nos conhecer. Assim, ficamos bem achegados à família e pudemos dar muito amor e apoio uns aos outros.
Daí, em 1993, John morreu de ataque cardíaco. Senti como se uma parte de mim tivesse morrido também. Fomos casados por 38 anos e passamos todo esse tempo juntos no ministério. Ainda assim, eu estava determinada a continuar, com a força de Jeová. (2 Coríntios 4:7) A porta do meu apartamento permaneceu aberta, e os jovens continuaram a me visitar. Esse bom companheirismo me ajudou a manter um ponto de vista positivo.
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Determinados a cumprir nosso ministérioA Sentinela — 2007 | 1.° de junho
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Biografia
Determinados a cumprir nosso ministério
NARRADA POR LENA DAVISON
“Estou perdendo a visão. Não consigo enxergar!”, disse o piloto com voz indistinta. Instantes depois, suas mãos escorregaram dos controles do pequeno avião em que estávamos e ele desfaleceu no assento, inconsciente. Meu marido, que não tinha nenhuma experiência de vôo, tentou desesperadamente fazê-lo recobrar os sentidos. Mas, antes de contar como escapamos por um triz, deixe-me explicar o que nos levou a estar naquele avião sobrevoando Papua-Nova Guiné, uma das partes mais remotas da Terra.
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