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A realidade do estuproDespertai! — 1993 | 8 de março
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A realidade do estupro
NO TEMPO que você levar para ler até o fim desta página, uma mulher será estuprada nos Estados Unidos. Está sozinha e é aterrorizada por um ato de violência e degradação cometido por alguém que ela provavelmente conhece. Talvez seja espancada. Talvez resista. Sem dúvida teme pela própria vida.
O estupro é o crime violento que mais aumenta nos Estados Unidos, que já têm um dos mais elevados índices de estupro do mundo. Segundo registros da Polícia, ocorrem 16 tentativas de estupro e 10 mulheres são estupradas por hora. Acrescente-se a isso que a quantidade de estupros não denunciados talvez seja dez vezes maior!
Os Estados Unidos não são os únicos a apresentar essas terríveis estatísticas. Na França, o número de vítimas que denunciaram o estupro aumentou 62 por cento entre 1985 e 1990. Em 1990, as denúncias de agressões sexuais no Canadá dobraram para 27.000 em apenas seis anos. A Alemanha registrou uma agressão sexual contra mulheres a cada sete minutos.
O estupro também atinge homens inocentes.a Os homens “sofrem por viverem numa sociedade em que metade da população tem motivos para se sentir ressentida, suspeitosa e temerosa”, disse a psicóloga Elizabeth Powell. Eles também podem ser vítimas por terem de viver temendo pela esposa, mãe, irmãs, filhas e amigas, ou têm de lidar com sentimentos de culpa e dor quando uma pessoa amada se torna vítima de estupro.
Por que o aumento?
O estupro floresce em sociedades que toleram a violência e o constrangimento psicológico exercido sobre as mulheres em assuntos sexuais. Em vários países, homens e mulheres são bombardeados desde a infância com mensagens destrutivas e informações errôneas sobre sexo, através da mídia, da família e dos amigos. Aprendem os conceitos perniciosos de que sexo e violência estão relacionados e de que as mulheres existem para dar satisfação sexual aos homens, não importa quais sejam os desejos delas.
Note o ponto de vista de Jay, arquivista, 23 anos: “A sociedade diz que temos de fazer bastante sexo com muitas mulheres diferentes para ser homem de verdade. Bem, e se o sujeito não vai nessa? Então que tipo de homem é?” Por causa dessa pressão, se a mulher o enraivou ou frustrou, ele talvez a estupre.
Essas atitudes violentas e agressivas para com as mulheres são comuns em culturas propensas ao estupro, acredita a pesquisadora Linda Ledray. “Em grande parte, o estuprador apenas interpreta o roteiro mais amplo que a sociedade determina”, disse ela. O cinema e a televisão contribuem para esse roteiro destrutivo determinado pela sociedade. O estupro é tema comum na pornografia, mas a pornografia não é a única culpada. Há estudos que mostram que filmes violentos sem teor sexual resultam em atitudes mais agressivas para com as mulheres do que filmes de sexo explícito, mas sem violência. A televisão também está envolvida quando “apresenta sexo do mais constrangedor que existe”, disse Powell. A mensagem da mídia? “Quando estiver com raiva, machuque alguém.”
Essa mensagem é transferida para os relacionamentos cotidianos, com resultados trágicos. Num mundo cada vez mais permissivo, os homens muitas vezes acham que as mulheres lhes devem sexo, em especial se gastam dinheiro com elas ou se elas a princípio parecem receptivas a suas investidas.
“No que diz respeito a relações sexuais, um ‘não’ muitas vezes não significa nada quando vem duma mulher”, disse Robin Warshaw, jornalista. E não raro o resultado é o estupro.
“O segundo estupro”
Kathi tinha 15 anos ao ser estuprada por três membros do time de hóquei do colégio. Quando a família levou o caso à Justiça, ela foi repudiada e importunada por amigos, vizinhos e estranhos. “Rapazes são assim mesmo”, diziam à família. No colégio, Kathi era chamada de palavrões, e colocavam ameaças no seu armário do vestiário. Os estupradores foram punidos com suspensão condicional da pena e prestação de serviços à comunidade e ainda viraram heróis atléticos do colégio. Kathi foi punida com meses de importunações. Ela terminou se matando.
O caso de Kathi é um exemplo trágico de que as vítimas de estupro muitas vezes são agredidas primeiro fisicamente pelo estuprador e depois emocionalmente pelos outros. Muitas mulheres descobrem que atitudes e conceitos errôneos sobre o estupro resultam em a vítima levar a culpa pelo crime. Amigos, familiares, policiais, médicos, juízes, jurados — aqueles que deviam ajudar a vítima — talvez tenham esses conceitos errôneos e a magoem quase com a mesma intensidade que o estuprador. A questão de culpar a vítima é tão grave que alguns a chamam de “segundo estupro”.
Mitos sobre o estupro criam um falso senso de segurança. Em outras palavras, se é possível achar alguma falha no comportamento da vítima — suas roupas eram justas, ela saía sozinha à noite, ou ela queria mesmo ter relações sexuais — você ou seus parentes estarão seguros se evitarem essa conduta; portanto, você nunca será estuprada. O outro lado da questão, isto é, que o estupro é um ato insensato de violência que pode ocorrer com qualquer mulher, não importa como esteja vestida, é aterrador demais para aceitar.
Certa mulher, estuprada por alguém que ela considerava “ótimo, respeitável”, diz: “A pior coisa possível a fazer é acreditar que isso não vai acontecer com você.”
Mitos e realidades do estupro
A seguir alguns dos conceitos errôneos que existem já por muito tempo sobre o estupro, que servem para pôr a culpa na vítima e perpetuar as atitudes que incentivam os criminosos:
Mito: O estupro acontece só quando a mulher é atacada por um estranho.
Fato: A maioria das mulheres que são estupradas são atacadas por alguém que conhecem e em quem confiavam. Certo estudo constatou que 84 por cento das vítimas conheciam os agressores e que 57 por cento dos estupros aconteceram em encontros. Uma em cada 7 mulheres casadas é estuprada pelo próprio marido.b Os estupros são violentos e emocionalmente traumáticos, seja o agressor um estranho, o marido ou alguém com quem se tem um encontro.
Mito: Só é estupro se a mulher mostrar evidência de resistência, como equimoses.
Fato: Quer tenham resistido fisicamente, quer não, poucas mulheres mostram evidência visível, como equimoses ou cortes.
Mito: A vítima de estupro leva parte da culpa a menos que resista ativamente.
Fato: O estupro, por definição, ocorre quando se usa força ou ameaça de força para realizar a penetração sexual, de qualquer tipo que seja, contra a vontade da pessoa. É o uso de força pelo agressor contra uma vítima relutante que o torna um estuprador. Assim, a vítima de estupro não é culpada de fornicação. Como uma vítima de incesto, talvez seja obrigada a sujeitar-se a um ato que não deseja por causa do poder que outra pessoa detém sobre ela. Quando uma mulher é forçada a submeter-se a um estuprador por estar aterrorizada ou desorientada, isso não significa que ela consente o ato. O consentimento se baseia em escolha sem ameaça e é ativo, não passivo.
Mito: O estupro é passional.
Fato: O estupro é um ato de violência. Os homens estupram, não unicamente por sexo, mas para sentir que têm poder sobre outra pessoa.c
Mito: A mulher pode provocar ou seduzir o homem a ponto de ele não poder controlar seu impulso sexual.
Fato: Os homens que estupram não têm impulso sexual mais forte do que outros homens. Ao contrário, um terço dos estupradores não conseguiu consumar o ato sexual. Na maioria dos casos, os estupros são atos planejados, não impulsos espontâneos. Tanto o estuprador estranho como o conhecido geralmente premedita apanhar a vítima — o estranho ficando à espreita até que ela esteja sozinha, o conhecido arranjando uma situação em que ela fique isolada.
Mito: As mulheres inventam o estupro para vingar-se de um homem ou porque se sentem culpadas por terem tido relação sexual.
Fato: Denúncias falsas de estupro ocorrem na mesma taxa de qualquer outro crime violento: 2 por cento. Por outro lado, os pesquisadores concordam que pouquíssimos casos de estupro são denunciados.
Mito: A mulher pode “pedir” para ser estuprada usando roupas provocantes, tomando bebidas alcoólicas, deixando que o homem pague as contas ou indo à casa dele.
Fato: O fato de a mulher usar de mau critério, ser ingênua ou ignorante não significa que ela merece ser estuprada. A responsabilidade pelo estupro cabe toda aos estupradores.
[Nota(s) de rodapé]
a Cerca de 1 em cada 10 vítimas de estupro é do sexo masculino.
b O estupro conjugal ocorre quando o marido usa de força contra a esposa, obrigando-a a ter relações sexuais. Alguns maridos talvez achem que a “autoridade” que o apóstolo Paulo diz que o homem tem sobre o corpo da esposa é absoluta. No entanto, Paulo também disse que “os maridos devem estar amando as suas esposas como aos seus próprios corpos”. O apóstolo Pedro diz que o marido deve atribuir à esposa “honra como a um vaso mais fraco, o feminino”. Isso exclui violência ou sexo forçado. — 1 Coríntios 7:3-5; Efésios 5:25, 28, 29; 1 Pedro 3:7; Colossenses 3:5, 6; 1 Tessalonicenses 4:3-7.
c “O crime não visa o ato do ‘sexo’, mas o ato sexual é um meio usado pelo agressor para cometer um crime violento.” — Wanda Keyes-Robinson, chefe de divisão, Unidade de Violência Sexual, Baltimore, Maryland, EUA.
[Destaque na página 3]
Nos Estados Unidos, 1 em cada 4 mulheres pode ser vítima de estupro ou de tentativa de estupro.
[Destaque na página 4]
O estupro floresce em sociedades que toleram a violência e o constrangimento psicológico exercido sobre as mulheres em assuntos sexuais.
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Como evitar o estuproDespertai! — 1993 | 8 de março
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Como evitar o estupro
Eric era alto, bonito e duma família abastada. Lori tinha 19 anos e fora convidada para um programa na companhia de Eric, do companheiro de quarto dele e de outra moça. Lori chegou para o churrasco na casa de Eric, mas, sem que soubesse, o outro casal decidira não vir. Logo os outros convidados começaram a ir embora.
“Comecei a pensar: ‘Algo está errado, está acontecendo alguma coisa’, mas não liguei para isso”, disse ela.
Sozinho com Lori, Eric a estuprou. Lori nunca denunciou o estupro à Polícia, e mais tarde mudou-se para um lugar a 240 quilômetros dali para evitar rever o Eric. Um ano depois, ainda tinha medo de marcar encontros.
O ESTUPRO é uma crescente ameaça, e a melhor defesa da mulher é estar alerta e preparada. Não é possível prever toda situação que pode levar ao estupro, mas saber como os estupradores pensam e planejam seu ataque pode ajudá-la a reconhecer sinais de alerta.a Um antigo provérbio diz: “O esperto vê o perigo e se esconde; o ingênuo avança e se sai mal.” — Provérbios 27:12, Bíblia Pastoral.
A melhor maneira de evitar uma situação que possa levar ao estupro é evitar estupradores. Você deve estar ciente do padrão de comportamento do homem — mesmo daquele a quem conheça bem — que talvez o identifique como estuprador em potencial. (Veja o quadro na página 7.) Alguns homens usam o estilo de roupa da mulher ou sua disposição de estar sozinha com ele como desculpa para estuprá-la. Embora não caiba à mulher a culpa se o homem tem esses conceitos distorcidos, convém que ela reconheça essas atitudes.
Não se permita ficar a sós com um homem que você não conhece bem. (Mesmo na companhia de um homem a quem conhece bem, use de bom critério.) O estuprador estranho pode ir a sua casa fingindo-se de consertador. Verifique suas credenciais. O estuprador conhecido muitas vezes consegue ficar a sós com a vítima inventando que tem de fazer certas coisas que requerem que passe na casa dele ou mentindo que há um grupo de pessoas em certo local onde ele a encontrará. Não caia nessa.
Para evitar problemas em encontros, marque os encontros em grupos ou com acompanhante. Conheça bem o companheiro e estabeleça limites firmes quanto ao grau de intimidade física que permitirá, se é que permitirá. Cuidado com bebidas alcoólicas! Não dá para estar alerta ao perigo com as faculdades mentais entorpecidas. (Compare com Provérbios 23:29-35.) Confie em seus instintos. Se não se sente à vontade com alguém, não lhe dê o benefício da dúvida. Vá embora.
Especialmente os pais de adolescentes precisam conversar com as filhas sobre prevenção de estupro, sendo específicos a respeito de situações perigosas, porque a maioria dos estupradores e das vítimas de estupro são jovens.
Aja rápido
Não é possível prever todas as situações que podem levar ao estupro. Sem querer, você talvez fique a sós com um estranho que é mais forte do que você e queira forçá-la a ter relações sexuais. Que fazer?
Aja rápido, e lembre-se do seu objetivo: escapar. O estuprador muitas vezes testa a vítima antes de decidir atacar, de modo que é importante frustrar seus planos assim que seja possível, antes que ele ganhe suficiente confiança para agir. Especialistas em estupro sugerem duas linhas de ação: resistência passiva ou resistência ativa. Você pode tentar primeiro a resistência passiva e, se falhar, mudar para a resistência ativa.
A resistência passiva pode incluir qualquer coisa, desde ganhar tempo conversando com o estuprador até fingir que tem uma doença sexualmente transmissível, ou ainda vomitar no agressor. (Compare com 1 Samuel 21:12, 13.) “As táticas são limitadas apenas pela imaginação da pessoa”, escreveu Gerard Whittemore em seu livro Segurança Para Mulheres — Manual de Sobrevivência Urbana (em inglês).
As táticas passivas — que incluem tudo, menos agredir fisicamente o estuprador — requerem raciocínio claro e devem ser elaboradas para distrair ou acalmar o agressor. Se sua resistência deixa o agressor mais irado e violento, tente outra coisa. No entanto, não permita que ele a force a ir para um lugar mais isolado enquanto você estiver pensando. E lembre-se de uma das formas mais eficazes de resistência passiva — gritar. — Compare com Deuteronômio 22:23-27.
Outra opção é reagir com rejeição e convicção. Diga ao agressor em termos bem claros que não se sujeitará aos seus desejos. Diante duma tentativa de estupro em encontro, você pode recorrer à tática de choque, que é dizer o que o ataque na verdade é. Gritar: “Isto é um estupro! Vou chamar a Polícia!” talvez faça com que o estuprador em potencial pense duas vezes antes de prosseguir.
Lute
Se a conversa não resolver, não tenha medo de partir para a resistência ativa. Isso não significa que é mais provável que saia ferida ou morta, como tampouco a sujeição garante a sua segurança. Portanto, a maioria dos especialistas em estupro recomenda lutar.
Lutar pode ser difícil para as mulheres, porque são condicionadas a vida inteira a ser polidas, passivas e submissas mesmo quando ameaçadas pela força física. Portanto, você precisa decidir de antemão que resistirá, para que não perca tempo precioso hesitando durante o ataque.
Precisa sentir-se ultrajada por alguém ameaçá-la ou pressioná-la. Precisa dar-se conta de que o ataque é premeditado e de que o estuprador espera que se sujeite. Fique com raiva, não com medo. “Seu medo é a mais poderosa arma do agressor”, disse a pesquisadora Linda Ledray. Não se preocupe em estar exagerando as coisas ou em parecer tola. “É melhor ser rude do que ser estuprada”, disse certa pesquisadora. As mulheres que souberam resistir a estupradores em geral o fizeram ativamente e tentaram mais de uma tática, inclusive morder, chutar e gritar.
Caso não consiga defender-se do estupro, concentre-se em ser capaz de identificar o agressor depois. Se for possível, arranhá-lo ou rasgar-lhe a roupa a deixará com sangue e tecido como evidências. Mas, a essa altura, você talvez simplesmente não mais consiga lutar. Nesse caso, “não se censure achando que ‘deixou’ que ele a estuprasse”, disse Robin Warshaw no livro Nunca Chamei Aquilo de Estupro (em inglês). “Você não precisa sofrer ferimentos ou morte para ‘provar’ que foi estuprada.”
[Nota(s) de rodapé]
a Nenhuma situação é igual a outra, e nenhum conselho de prevenção é infalível. Até mesmo especialistas em estupro discordam com respeito a quanta resistência e que tipo de resistência a vítima deve oferecer durante um ataque.
[Quadro na página 7]
Perfil do estuprador em potencial
◻Abusa emocionalmente de você, insultando-a, ignorando suas opiniões, ou ficando irado ou aborrecido quando você dá uma sugestão.
◻Tenta controlar certos aspectos de sua vida, como sua maneira de vestir e seus amigos. Quer tomar todas as decisões num encontro, como onde comer e a que filme assistir.
◻Fica enciumado sem motivo.
◻Menospreza as mulheres de modo geral.
◻Fica bêbedo ou “embalado” e procura influenciá-la a fazer o mesmo.
◻Pressiona-a para ficar a sós com ele ou a ter relações sexuais.
◻Não lhe permite dividir as contas num encontro e fica irado se você se oferece a pagar.
◻É fisicamente violento mesmo de maneira sutil, como agarrando-a ou empurrando-a.
◻Intimida-a, sentando-se juntinho demais, bloqueando sua passagem, tocando-a depois de você já lhe ter dito para não fazer isso, ou conversando como se a conhecesse melhor do que realmente conhece.
◻Não consegue lidar com a frustração sem ficar com raiva.
◻Não a encara de igual para igual.
◻Gosta de armas e de ser cruel com animais, crianças ou pessoas a quem consegue intimidar.
Extraído de Nunca Chamei Aquilo de Estupro, de Robin Warshaw.
[Foto na página 7]
As mulheres que souberam resistir a estupradores em geral o fizeram ativamente e tentaram mais de uma tática.
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Como recuperar-se do estuproDespertai! — 1993 | 8 de março
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Como recuperar-se do estupro
Há trinta e três anos, Maria foi estuprada sob a ameaça de uma faca. Hoje, ela sente palpitações e suas mãos suam ao tentar descrever o que aconteceu. “É a coisa mais degradante que a mulher pode sofrer”, diz, quase chorando. “É repulsivo e horrível.”
O ESTUPRO pode ser um dos acontecimentos emocionais mais devastadores na vida da pessoa, e os efeitos podem durar a vida toda. Em certo estudo, quase um terço das vítimas de estupro entrevistadas havia pensado em suicidar-se, e a vasta maioria disse que a experiência as mudara permanentemente.
Os efeitos podem ser especialmente traumatizantes se a mulher conhecia o agressor. É menos provável que a vítima de estupro por um conhecido receba apoio dos outros, porque ou ela não conta a ninguém o que aconteceu ou conta e ninguém acredita que foi estupro. Visto que foi magoada por alguém a quem conhecia, é também mais provável que se culpe e duvide de sua habilidade de fazer juízo sobre os outros.
Aceite ajuda
A reação inicial de muitas vítimas de estupro é o choque e a negação. Certa mulher foi estuprada pouco antes dum importante exame na universidade. Ela tirou o estupro da mente até depois da prova. Outra vítima de estupro disse: “Eu não me podia permitir lembrar nada do que aconteceu, porque meu conhecido de confiança transformou-se num agressor bem diante dos meus olhos. Eu não sabia que era possível ser estuprada por um conhecido. Pode parecer bobagem, mas aprender isso me deixou totalmente sem esperança. Sentia-me tão só!”
Algumas mulheres continuam negando o que aconteceu sem contar a ninguém sobre o estupro. Reprimem a agressão por anos, o que retarda o processo de cura e causa outros problemas emocionais que a vítima talvez não perceba que se devem ao estupro.
Geralmente a recuperação só tem início quando se conversa com alguém. Uma amiga de confiança pode ajudá-la a ver que o que aconteceu na verdade foi um estupro e que não foi culpa sua. Um antigo provérbio diz: “O verdadeiro companheiro está amando todo o tempo e é um irmão nascido para quando há aflição.” (Provérbios 17:17) Além disso, pastores espirituais podem mostrar-se “como abrigo contra o vento e como esconderijo contra o temporal”. (Isaías 32:2; 1 Tessalonicenses 5:14) Algumas mulheres talvez precisem procurar um centro de apoio a vítimas de estupro ou um conselheiro profissional a fim de obter ajuda para pôr os sentimentos em ordem.
As vítimas muitas vezes têm medo de falar sobre o estupro por causa de sentimentos de culpa, sobretudo se ficaram sexualmente estimuladas durante a agressão. Talvez se sintam aviltadas e inúteis e se culpem pelo estupro — embora ninguém, a não ser o estuprador, mereça a culpa.
“Ter uma boa amiga para conversar fez a diferença”, disse Maria, que confidenciou a outra cristã. “Eu podia conversar com ela sem me achar suja nem sentir um estigma por ter sido estuprada.”
Dê-lhe apoio
Por outro lado, seria impróprio e desamoroso os amigos da vítima fazerem conjecturas sobre o que aconteceu ou resolverem decidir se ela “foi realmente estuprada”. Nunca sugira que ela gostou ou foi imoral. A coisa mais importante que a pessoa amiga pode fazer quando se lhe pede ajuda é acreditar nela. Reanime-a. Escute quando ela quiser falar, mas não a pressione a contar detalhes.
Se o estupro é recente, os amigos podem ajudar a vítima a obter assistência médica e oferecer-lhe um lugar seguro para ficar. Incentive-a a denunciar o estupro, mas deixe que ela tome as decisões. Ela acabou de sair duma situação em que foi despojada de todo controle. Permita-lhe reconquistar parte desse controle deixando-a escolher o que fazer a seguir.
Os familiares das vítimas devem resistir ao impulso de reagir emocionalmente à situação. Talvez queiram lançar em alguém a culpa pelo estupro ou vingar-se do estuprador, atitudes que não ajudam a vítima. (Romanos 12:19) É fútil culpar pelo ocorrido qualquer pessoa que não o estuprador, e procurar vingança é perigoso. Isso fará com que a vítima se preocupe com a segurança dos familiares em vez de concentrar-se na sua recuperação.
Os familiares também devem estar a par de que muitas vítimas passam a encarar as relações sexuais de modo diferente depois do estupro. Em sua mente, o sexo tornou-se uma arma, de modo que talvez encontrem dificuldade em ter relações sexuais por algum tempo, mesmo com a pessoa que amam e em quem confiam. Por isso, o marido não deve insistir que a esposa retome a atividade sexual antes de estar disposta. (1 Pedro 3:7) Os familiares podem ajudar edificando a auto-estima da jovem e mostrando-lhe que ainda é amada e respeitada apesar do que lhe aconteceu. Será preciso dar contínuo apoio à medida que a vítima passa pelo que às vezes são passos demorados rumo à recuperação emocional.
Como enfrentar o medo e a depressão
As mulheres que foram estupradas dizem que sua reação mais esmagadora é o medo. A maioria das vítimas não acreditava que sobreviveria ao ataque. Elas depois talvez fiquem com medo de outro estupro ou até de ver o estuprador por acaso.
O medo sentido durante o estupro pode ser despertado por sons, odores e lugares similares. Se a mulher foi estuprada num beco, pode ser que tenha medo de entrar em becos. Se foi em casa, talvez nunca mais se sinta segura ali e seja obrigada a mudar-se. Até sentir o cheiro duma colônia similar à que o estuprador usava pode trazer recordações desagradáveis.
Embora poucos estupros resultem em gravidez, muitas vítimas ficam aterrorizadas diante dessa possibilidade. Muitas também se preocupam, com razão, de terem contraído uma doença sexualmente transmissível. Cerca da metade tem sentimentos de depressão, desesperança e inutilidade, que podem durar de várias semanas a vários meses. É possível também que enfrentem ansiedade, fobias e ataques de pânico.
Embora as mulheres talvez não tenham condições de impedir o estupro, com o tempo podem controlar os pensamentos, sentimentos e reações à agressão. Podem aprender a substituir pensamentos negativos por conceitos positivos sobre si mesmas.
“Em vez de dizer a si mesma que é fraca, inútil ou indefesa, aprenda a dizer a si mesma que se está saindo muito bem e que já progrediu muito desde a perturbação sentida imediatamente após a agressão”, disse Linda Ledray em Como Recuperar-se do Estupro (em inglês). “Todo dia que se sentir menos dominada por pensamentos e sentimentos negativos, diga a si mesma: ‘Estou aprendendo a recuperar o controle.’”
Pode-se também lidar com o medo aprendendo-se a identificar exatamente o que o causa. Quando a vítima identifica o fator desencadeante, pode perguntar-se: até que ponto esse medo é realista? Por exemplo, ao ver alguém parecido com o estuprador, ela pode lembrar a si mesma de que ele não é o estuprador e não a prejudicará.
Outro método recomendado para lidar com o medo é a dessensibilização sistemática. A mulher elabora uma lista de atividades ou situações de que tem medo, classificando-as da menos assustadora para a mais assustadora. Imagina-se então na situação menos estressante até que não mais pareça assustadora. Segue a lista até que fique à vontade ao pensar em todas as situações.
Com a ajuda duma amiga, ela pode então passar para a realização dessas atividades na vida real, como sair de casa à noite ou ficar sozinha. Com o tempo pode controlar o medo para que não mais afete a rotina diária. No entanto, o medo de algumas atividades — como andar num beco escuro à noite — é normal, e não há por que procurar superar o desconforto nessas situações.
Como redirecionar a ira
As vítimas de estupro também têm sentimentos de ira, que a princípio talvez sejam dirigidos contra todos os homens, mas que, com o passar do tempo, geralmente se focalizam no estuprador. Pessoas iradas muitas vezes expressam sua ira indiscriminadamente. Outras reagem reprimindo os sentimentos. No entanto, a ira pode ser canalizada de modo construtivo, e a maneira de lidar com ela pode ajudar na recuperação. As Escrituras dizem: “Ficai furiosos [irados], mas não pequeis.” — Efésios 4:26.
Primeiro, as vítimas não precisam ter medo de expressar ira. Podem falar sobre isso com alguém. Envolver-se no processo jurídico ou manter um registro pode ser uma válvula de escape. Elas podem ainda extravasar a ira em atividades físicas, como tênis, voleibol, caminhadas, corrida, andar de bicicleta ou nadar, que têm o benefício extra de ajudar a combater a depressão.
Você pode recuperar o controle de sua vida.
O que acabará com o estupro?
Acabar com o estupro é mais do que uma questão de as mulheres se esconderem de estupradores ou rechaçá-los. “Os homens é que estupram e os homens é que têm coletivamente o poder de acabar com o estupro”, disse o escritor Timothy Beneke em seu livro Homens e Estupro (em inglês).
O estupro só acabará quando os homens pararem de tratar as mulheres como meros objetos e aprenderem que relacionamentos bem-sucedidos não dependem de dominação violenta. Em nível individual, os homens maduros podem manifestar-se e influenciar outros homens. Tanto homens quanto mulheres podem negar-se a aprovar piadas sexistas, a assistir a filmes que apresentam agressões sexuais ou a apoiar anunciantes que exploram o sexo para vender produtos. A Bíblia aconselha: “A fornicação e a impureza de toda sorte, ou a ganância, não sejam nem mesmo mencionadas entre vós, assim como é próprio dum povo santo; nem conduta vergonhosa, nem conversa tola, nem piadas obscenas, coisas que não são decentes, mas, antes, ações de graças.” — Efésios 5:3, 4.
Os pais podem ensinar o respeito pelas mulheres dando o exemplo. Podem ensinar os filhos a encarar as mulheres como Jeová as encara. Ele não é parcial. (Atos 10:34) Podem ensinar-lhes a ser amigos de mulheres e a ficar à vontade com elas, como Jesus. Podem ensinar-lhes que a relação sexual é um ato de amor reservado para marido e esposa. Podem mostrar claramente que a violência não será tolerada, nem a dominação sobre os outros valorizada. (Salmo 11:5) Podem incentivar os filhos de ambos os sexos a falar abertamente com eles sobre assuntos sexuais e a resistir a pressões sexuais.
Problema que em breve acabará
No entanto, o estupro não acabará sem mudanças revolucionárias na sociedade mundial. “O estupro não é um problema apenas individual, é também um problema familiar, um problema social, um problema nacional”, disse a pesquisadora Linda Ledray.
A Bíblia promete uma sociedade mundial livre da violência, em que homem não mais ‘dominará homem para seu prejuízo’. (Eclesiastes 8:9; Isaías 60:18) Logo virá o tempo em que Jeová Deus não tolerará nenhum abuso de poder, nem mesmo o estupro. — Salmo 37:9, 20.
Na sociedade do novo mundo, todas as pessoas serão educadas para ser pacíficas e amarão umas às outras sem consideração de sexo, raça ou nacionalidade. (Isaías 54:13) E naquela época os mansos viverão sem medo dos amigos ou dos estranhos e “se deleitarão na abundância de paz”. — Salmo 37:11.
[Quadro/Foto na página 9]
Se for estuprada
◻ Procure assistência médica.
◻ Se desejar, solicite que uma conselheira de vítimas de estupro, se disponível, a acompanhe durante os procedimentos médicos e jurídicos.
◻ Chame a Polícia assim que tiver condições. Os conselheiros recomendam que se faça a denúncia, para sua segurança e para a segurança de outras mulheres. Denunciar não é o mesmo que processar, mas, se resolver abrir processo depois, seu caso perderá força por causa da demora em denunciar.
◻ Preserve as evidências. Não tome banho, não troque de roupa, não lave nem penteie os cabelos, nem destrua impressões digitais ou pegadas.
◻ Profissionais de saúde coletarão evidências e farão exames para a detecção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez. Se eles oferecerem drogas de prevenção de gravidez, também conhecidas como pílulas do dia seguinte, as cristãs devem saber que essas drogas podem causar o aborto do óvulo fecundado.
◻ Faça o que for preciso para sentir-se segura — troque fechaduras, vá dormir na casa de uma amiga, obstrua a porta — quer isso pareça um exagero quer não.
◻ Acima de tudo, procure consolo nas Escrituras, orando a Jeová, até mesmo invocando seu nome em voz alta, durante e depois da agressão. Confie nos anciãos e em outros associados achegados na congregação para ter apoio. Assista às reuniões se possível e procure o companheirismo de outros cristãos no ministério de campo.
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