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Dilema religioso no Brasil colonialDespertai! — 2002 | 8 de setembro
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Dilema religioso no Brasil colonial
DO REDATOR DE DESPERTAI! NO BRASIL
EM 30 de novembro de 1996, representantes da Conferência Mundial sobre Missão e Evangelização, organizada pelo Conselho Mundial de Igrejas, reuniram-se num antigo cais do porto em Salvador, Brasil. O local era significativo. Em séculos passados, nesse mesmo porto, milhões de africanos foram vendidos como escravos. “Neste mar foram derramadas as suas lágrimas”, observou um clérigo, referindo-se à fatídica jornada dos cativos. Naquele dia especial de recordação, expressou-se remorso pelo que um palestrante classificou de escandalosa participação do cristianismo na escravidão. Que envolvimento teve a religião no comércio de escravos no Brasil colonial?
“Salvar almas perdidas”
Em 1441 — uns 60 anos antes da descoberta oficial do Brasil — o navegador português Antão Gonçalves capturou e levou para Portugal o primeiro contingente de membros de tribos africanas. Poucos na sociedade medieval questionavam a moralidade de escravizar prisioneiros de guerra, em especial aqueles que a Igreja classificava de “infiéis”. Nas duas décadas seguintes, porém, o lucrativo comércio de escravos em tempos de paz passou a exigir uma justificativa. Havia quem afirmasse que escravizar africanos seria “salvar almas perdidas”, pois se estaria resgatando esses alienígenas de sua vida pagã.
A bula Romanus Pontifex, assinada pelo Papa Nicolau V em 8 de janeiro de 1455, formalizou o apoio ao já próspero comércio de escravos. Assim, a Igreja não era nenhum obstáculo à escravidão. Ao contrário, alguns de seus clérigos eram “adeptos irredutíveis” da escravidão, observa o historiador brasileiro João Dornas Filho. Assim, estava pronto o cenário para a expansão da escravidão para o Brasil, quando os colonizadores portugueses se estabeleceram ali.
“Restava o recurso”
Em 1549, os recém-chegados missionários jesuítas constataram com indignação que a maior parte da mão-de-obra no Brasil era de escravos indígenas capturados de maneira ilegal. Donos de terras simplesmente os haviam recolhido à força para trabalhar nas suas fazendas e plantações de cana-de-açúcar. “A maior parte dos homens tem a consciência pesada por causa dos escravos que possui”, escreveu o superior jesuíta Manuel da Nóbrega, em 1550. Ainda assim, os donos de terras mantinham o trabalho escravo, mesmo correndo o risco de não receberem a absolvição por parte da Igreja.
Logo, porém, os jesuítas no Brasil se depararam com um dilema. A falta de dinheiro dificultava a realização de suas obras de caridade. Uma solução era cultivar terras cedidas pelo governo e usar os lucros da produção para custear as atividades religiosas. Mas quem trabalharia nessas fazendas? “Restava o recurso”, diz o historiador português Jorge Couto, “ao trabalho de escravos negros, solução que levantava escrúpulos de natureza moral, mas que o Provincial do Brasil decidiu ultrapassar”.
Os jesuítas uniram suas vozes a um crescente grupo de proprietários de terras que queriam ter escravos africanos. Os escravos indígenas pareciam não se adaptar ao intenso trabalho nas fazendas, e muitas vezes se rebelavam ou simplesmente fugiam para a floresta.a Os africanos, por sua vez, já haviam sido testados nas plantações de cana-de-açúcar nas ilhas do Atlântico colonizadas por Portugal. Eles “nunca fugiam nem tinham para onde”, afirmou um escritor da época.
Assim, com a bênção clerical, a importação de escravos africanos crescia num ritmo constante. O Brasil passou a depender muito do tráfico de escravos no Atlântico. Em 1768 a fazenda Santa Cruz, de propriedade dos jesuítas, tinha 1.205 escravos. Os beneditinos e os carmelitas também adquiriram propriedades e muitos escravos. “Os mosteiros encheram-se de escravos!”, exclamou o abolicionista brasileiro Joaquim Nabuco, do século 19.
Visto que a atividade agrícola era competitiva, os donos de escravos em propriedades da Igreja não raro impunham um regime de trabalho brutal. Segundo o professor de história Stuart Schwartz, até mesmo muitos dos clérigos que protestavam contra o abuso de escravos tinham “uma opinião nada favorável sobre os africanos, achando que a disciplina, o castigo e o trabalho eram a única maneira de sobrepujar-lhes a superstição, a indolência e os maus modos”.
“Teologia da escravidão”
Na sua tentativa de conciliar os valores cristãos com um sistema sustentado pela implacável exploração, o clero criou um suporte moral para a escravidão — que um teólogo chamou de teologia da escravidão. Visto que os porões apinhados e contaminados por doenças nos navios negreiros ceifavam a vida de larga proporção de sua carga humana, a Igreja insistia em batizar os africanos antes de estes partirem para o Novo Mundo.b Naturalmente, os conversos raras vezes recebiam instrução religiosa antes do batismo. — Veja o quadro “Cristãos instantâneos?”.
Seja como for, longas jornadas de trabalho e uma expectativa de vida drasticamente reduzida, davam aos escravos pouca oportunidade de praticar a sua nova fé. No entanto, a doutrina da Igreja a respeito da “separação do corpo e da alma” minimizava esse problema. ‘Os africanos se definham na brutal escravidão, é verdade, mas as suas almas estão livres’, ponderavam os clérigos. ‘De modo que os escravos deviam aceitar a sua humilhação com alegria, como parte do plano divino para prepará-los para a glória celestial.’
No ínterim, a Igreja lembrava aos donos de escravos seu dever moral de permitir que seus servidores freqüentassem a igreja, que comemorassem as festividades religiosas e que se casassem. Os clérigos criticavam os maus-tratos, mas também não deixavam de acentuar os perigos de ser indulgente demais. “Haja açoites, haja correntes e grilhões, tudo a seu tempo e com regra e moderação devida; e vereis como em breve tempo fica domada a rebeldia dos servos”, aconselhou um padre jesuíta.
Poucos pensavam na possibilidade de usar métodos menos sofridos para converter africanos. Ao contrário, defensores declarados da escravidão, como o bispo brasileiro Azeredo Coutinho, passavam a impressão de que os mercadores de escravos prestavam um favor aos africanos! Na sua veemente defesa da escravidão, publicada em 1796, Coutinho perguntou: “É melhor e mais conforme ao cristianismo deixá-los antes morrer no paganismo e na idolatria do que na nossa santa religião?” Numa linha de raciocínio similar, o destacado missionário jesuíta António Vieira exortou os africanos: “Deveis dar infinitas graças a Deus por . . . vos ter trazido a esta [terra], onde instruídos na fé vivais como cristãos e vos salveis.”
O preço da escravidão
Por endossar a escravidão, a Igreja esperava “salvar almas perdidas”. Por ironia, isso apenas lançou sementes de divisão, pois os africanos dificilmente abandonavam suas práticas e crenças religiosas. Assim, hoje em dia, um expressivo número de brasileiros pratica o sincretismo — a fusão do catolicismo com as religiões tribais africanas.
Ao passo que, para alguns, a acomodação da Igreja aos imperativos econômicos do Brasil parecia ser naquela época uma boa política, a longo prazo revelou-se desastrosa. As mortes e o sofrimento resultantes dessa postura levantam perguntas sobre a ética da Igreja, perguntas que não encontram uma resposta satisfatória. Para certo historiador, sancionar a escravidão era adotar a atitude daqueles denunciados pelo profeta Isaías, porque eles diziam: ‘O bom é mau e o mau é bom.’ — Isaías 5:20.
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Dilema religioso no Brasil colonialDespertai! — 2002 | 8 de setembro
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[Quadro/Fotos na página 13]
Por Deus ou por lucro?
Fernão de Oliveira, erudito português do século 16, afirmou que a ganância — não o zelo evangelizador — motivava os traficantes de escravos. Navios da Europa traziam bens manufaturados que eram cambiados por cativos em portos africanos. Dali os cativos eram levados para as Américas e trocados por açúcar, que seguia então para ser vendido na Europa. Essa rota triangular de comércio gerava enormes lucros, tanto para os mercadores como para a Coroa Portuguesa. Até o clero ganhava, pois os padres cobravam uma taxa pelo batismo de cada africano, antes do embarque deles para as Américas.
[Quadro na página 14]
Cristãos Instantâneos?
“No início do século 17, era comum batizar os escravos na África antes de partirem”, escreve o historiador Hugh Thomas em seu livro The Slave Trade (O Comércio de Escravos). “Via de regra, os escravos não recebiam nenhuma instrução antes dessa cerimônia, e muitos, talvez a maioria, nem sabiam que existia tal coisa como Deus cristão. Assim, a cristianização era perfunctória.”
Normalmente, diz o professor Thomas, os cativos eram levados a uma igreja, onde um catequista — em geral ele mesmo um escravo — falava aos escravos na sua língua nativa a respeito da conversão deles. “Em seguida, um sacerdote passava entre o grupo desnorteado”, acrescenta Thomas, “dando a cada um deles um nome cristão, previamente escrito num papel. Ele também polvilhava sal na língua dos escravos, e depois borrifava água benta. Por fim, dizia algo assim, por meio de um intérprete: ‘Considerai-vos agora filhos de Cristo. Ireis para território português, onde aprendereis os preceitos da Fé. Esquecei-vos de vosso lugar de origem. Não comais cachorros, nem ratos, nem cavalos. Conformai-vos com o que tendes’”.
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