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    Anuário das Testemunhas de Jeová de 2008
    • “O SEU JEOVÁ NÃO VAI TIRAR VOCÊ DAQUI”

      Pyotr Krivokulski disse o seguinte ao se lembrar do verão de 1945: “Depois de os irmãos serem julgados, foram enviados a vários campos de trabalhos forçados. Muitos prisioneiros demonstraram interesse pela verdade no campo em que eu estava. Um deles, um clérigo, compreendeu rapidamente que aquilo que ele tinha ouvido era a verdade, e tomou sua posição a favor de Jeová.

      “Apesar disso, as condições ali eram difíceis. Certa vez, fui preso numa cela tão pequena que mal cabia alguém em pé. Era chamada de casa dos insetos, pois era infestada de percevejos — eram tantos, que provavelmente podiam sugar todo o sangue de um ser humano. Parado em frente à cela, o capataz me disse: ‘O seu Jeová não vai tirar você daqui.’ Minha ração diária consistia em 300 gramas de pão e uma xícara de água. A cela não era ventilada. Por isso, eu me apoiava na pequena porta e tomava fôlego por uma fresta muito estreita. Eu sentia os percevejos sugarem meu sangue. Durante os dez dias que passei na casa dos insetos, pedi repetidas vezes que Jeová me desse forças para perseverar. (Jer. 15:15) Quando abriram as portas, eu desmaiei, e ao acordar, já estava em outra cela.

      “Depois disso, o tribunal do campo de trabalhos forçados me sentenciou a dez anos na prisão de segurança máxima num campo penal, acusado de ‘promover agitação e de fazer propaganda contra o governo soviético’. Era impossível enviar ou receber correspondências nesse campo. Os prisioneiros ali em geral eram aqueles condenados por crimes violentos, como assassinato. Disseram que se eu não renunciasse à minha fé, aquelas pessoas fariam comigo qualquer coisa que se lhes pedissem. Eu pesava apenas 36 quilos e mal conseguia andar. Mas, mesmo naquele lugar, consegui encontrar pessoas sinceras cujo coração estava disposto para com a verdade.

      “Certa vez, um homem idoso se aproximou de mim enquanto eu orava deitado sob arbustos. Ele perguntou: ‘O que você fez para vir parar neste inferno?’ Depois de ouvir que eu era Testemunha de Jeová, ele sentou, me abraçou e me deu um beijo. Então ele disse: ‘Filho, já faz tanto tempo que quero aprender a respeito da Bíblia! Você me ensinaria?’ Fiquei muito feliz. Eu tinha costurado uns pedaços velhos dos Evangelhos em minha roupa esfarrapada e os mostrei imediatamente. Os olhos dele encheram de lágrimas. Conversamos por muito tempo naquela noite. Ele disse que trabalhava no refeitório do campo e que ia providenciar comida para mim. Assim, nos tornamos amigos. Ele progrediu em sentido espiritual e eu adquiri forças. Eu tinha certeza de que Jeová tinha providenciado aquilo. Poucos meses depois, ele foi libertado e eu fui enviado a outro campo na província de Gorki.

      “Lá as condições eram muito melhores. Mas, acima de tudo, eu estava feliz por dirigir estudos bíblicos para quatro prisioneiros. Em 1952, os capatazes do campo nos encontraram com publicações. Durante o interrogatório realizado antes do julgamento, fui trancado dentro de uma caixa hermeticamente fechada. Quando eu começava a ficar sufocado, eles abriam a caixa para que eu pudesse tomar fôlego, e depois fechavam de novo. Eles queriam que eu renunciasse à minha fé. Fomos todos condenados. Na leitura das sentenças, nenhum dos meus estudantes ficou desesperado. Fiquei muito feliz por causa disso. Os quatro foram sentenciados a 25 anos nos campos e eu recebi uma sentença mais dura, que depois foi mudada para 25 anos num campo de segurança máxima e 10 anos de exílio. Depois de sairmos da sala, paramos para agradecer a Jeová o Seu apoio. Os guardas ficaram pasmados e se perguntavam por que estávamos felizes. Fomos separados e enviados a campos diferentes. Fui enviado a um campo de segurança máxima em Vorkuta.”

      SALVOS POR MANTER A NEUTRALIDADE CRISTÃ

      A vida nos campos de trabalhos forçados era cruel. Muitos prisioneiros que não eram Testemunhas de Jeová cometeram suicídio. Ivan Krylov se lembra: “Depois que fui libertado do campo de segurança máxima, visitei várias minas de carvão onde nossos irmãos realizavam trabalhos forçados. Contatei esses irmãos, e qualquer um que tivesse conseguido copiar à mão algumas de nossas revistas passava as cópias para outros. As Testemunhas de Jeová pregavam em todos os campos, e muitas pessoas demonstraram interesse. Depois de serem libertados, alguns desses interessados foram batizados no rio Vorkuta.

      “Sempre nos deparávamos com testes de nossa fé em Jeová e no seu Reino. Certa vez, em 1948, alguns prisioneiros de um campo em Vorkuta organizaram uma rebelião. Os rebeldes disseram aos outros prisioneiros que a rebelião teria melhores resultados se todos se organizassem em grupos, como por nacionalidade ou religião. Naquela ocasião, havia 15 Testemunhas de Jeová no campo. Dissemos aos rebeldes que nós, Testemunhas de Jeová, éramos cristãos e que não podíamos nos envolver nisso. Explicamos que os primeiros cristãos não participaram nas rebeliões contra os romanos. É claro que isso pegou muitos de surpresa, mas permanecemos firmes.”

      A rebelião teve conseqüências trágicas. Soldados armados venceram a resistência e levaram os rebeldes para outro alojamento. Encharcaram o lugar de gasolina e atearam fogo. Praticamente todos ali morreram. Os soldados nada fizeram contra os irmãos.

      “Em dezembro de 1948, conheci num campo oito irmãos que tinham sido sentenciados a 25 anos de prisão”, continua Ivan. “O frio daquele inverno foi intenso e o trabalho nas minas era pesado. Mesmo assim, a confiança e a forte esperança nos olhos daqueles irmãos eram inconfundíveis. A atitude positiva deles fortalecia até os prisioneiros que não eram Testemunhas de Jeová.”

      DEPORTADOS PARA A SIBÉRIA

      Apesar da dura oposição, as Testemunhas de Jeová continuaram a pregar zelosamente as boas novas do Reino de Jeová. Isso irritou o governo central em Moscou. Irritou em especial a KGB. Um memorando de 19 de fevereiro de 1951, da KGB para Stalin, dizia: “A fim de suprimir qualquer atividade anti-soviética dos ilegais jeovistas, o MGB [Ministério da Segurança Nacional, mais tarde KGB] da URSS acredita que é necessário deportar os jeovistas que forem identificados, bem como suas famílias, para as províncias de Irkutsk e de Tomsk.” A KGB sabia quem era Testemunha de Jeová e solicitou a Stalin permissão para exilar na Sibéria 8.576 pessoas de seis repúblicas da União Soviética. A permissão foi concedida.

      Magdalina Beloshitskaya se lembra: “Às duas da manhã no domingo, 8 de abril de 1951, fomos acordados com uma forte pancada na porta. Minha mãe levantou rápido e correu até a porta. Diante de nós estava um policial. ‘Vocês serão deportados para a Sibéria por acreditarem em Deus’, disse ele formalmente. ‘Têm duas horas para fazer as malas. Podem levar qualquer coisa que estiver no quarto. Mas grãos, farinha e cereais não são permitidos. Móveis, objetos de madeira e máquinas de costura também não podem ser levados. Não levem nada do que há no quintal. Peguem suas roupas, roupas de cama, sacolas e saiam.’

      “Antes disso acontecer, tínhamos lido nas publicações que havia muito trabalho a ser feito no leste do país. Compreendemos que era hora de realizar esse trabalho.

      “Não lamentamos nem choramos. O policial ficou surpreso e disse: ‘Vocês não derramaram nem uma única lágrima.’ Dissemos a ele que esperávamos por isso desde 1948. Pedimos permissão para levar pelo menos uma galinha viva para a viagem, mas ele negou. Os policiais dividiram entre si os animais que criávamos. Distribuíram as galinhas bem na nossa frente — um deles ficou com cinco, outro com seis e ainda outro com três ou quatro. Quando restavam apenas duas galinhas no galinheiro, o policial ordenou que elas fossem mortas e entregues a nós.

      “Minha filha de 8 meses estava deitada num berço de madeira. Perguntamos se podíamos levar o berço, mas o policial ordenou que ele fosse desmontado e nos entregou apenas a parte que acomodava o bebê.

      “Nossos vizinhos logo ficaram sabendo que estávamos sendo deportados. Um deles pegou um pequeno saco com torradas e lançou dentro da carroça em que estávamos. O soldado que nos escoltava viu isso e jogou o saco para fora. Éramos seis pessoas — eu, minha mãe, meus dois irmãos, meu marido e nossa filha de 8 meses. Fora do povoado, ficaram nos apressando para entrarmos num carro e fomos levados ao centro regional, onde nossos documentos foram preenchidos. Depois, fomos de caminhão até a estação de trem.

      “Era um belo domingo ensolarado. A estação estava cheia — havia pessoas sendo exiladas e pessoas que vinham apenas para ver o que estava acontecendo. Nosso caminhão parou bem ao lado de um vagão onde nossos irmãos já estavam. Quando o trem ficou cheio, os soldados conferiram pelos sobrenomes se todos estavam ali. Havia 52 pessoas em nosso vagão. Antes de o trem partir, os que estavam do lado de fora nos observando começaram a chorar e até mesmo a soluçar. Ficamos impressionados com aquilo, visto que nem conhecíamos algumas daquelas pessoas. Mas elas sabiam que nós éramos Testemunhas de Jeová e que estávamos sendo deportados para a Sibéria. A locomotiva a vapor deu um forte apito. Nossos irmãos começaram a cantar uma música em ucraniano: ‘Que o amor de Cristo esteja com vocês. Dando glória a Jesus Cristo, nos encontraremos novamente em seu Reino.’ A maioria de nós tinha muita fé e confiança em que Jeová não nos abandonaria. Cantamos muitas estrofes. Foi tão emocionante que alguns dos soldados começaram a chorar. Então, o trem seguiu seu caminho.”

      “CONTRÁRIO AO ESPERADO”

      O Dr. Nicolai S. Gordienko, professor na Universidade Herzen, em São Petersburgo, descreveu em seu livro o que os perseguidores conseguiram realizar: “O resultado foi exatamente contrário ao esperado; eles queriam enfraquecer a organização das Testemunhas de Jeová na URSS, mas, na verdade, apenas a fortaleceram. Em lugares onde ninguém tinha ouvido falar a respeito de sua religião, as Testemunhas de Jeová ‘contaminaram’ os habitantes locais com sua fé e lealdade.”

      Muitas Testemunhas de Jeová logo se adaptaram à sua nova situação. Pequenas congregações foram formadas e territórios, designados. Nikolai Kalibaba diz: “Na Sibéria, houve época em que pregávamos de casa em casa ou, para ser mais exato, a cada duas ou três casas. Mas isso era arriscado. Como fazíamos isso? Depois da primeira visita, tentávamos revisitar a pessoa dentro de um mês. Começávamos a conversa perguntando: ‘Vocês estão vendendo galinhas, cabras ou vacas?’ Aos poucos, direcionávamos a conversa para o Reino. Depois de um tempo, a KGB ficou sabendo disso e logo publicou um artigo no jornal, alertando a população contra falar com as Testemunhas de Jeová. O artigo dizia que as Testemunhas de Jeová iam de casa em casa pedindo cabras, vacas e galinhas — mas o que realmente queríamos era ovelhas!”

      Gavriil Livi relata: “Os irmãos tentavam participar no ministério, apesar de serem vigiados de perto pela KGB. A atitude do povo soviético era tal que se eles suspeitassem que alguém estivesse tentando falar sobre religião, imediatamente chamavam a polícia. Apesar disso, continuamos a pregar mesmo sem nenhum resultado aparente no começo. Mas com o tempo a verdade passou a mudar a vida de algumas pessoas da região. Uma dessas pessoas era um russo que bebia muito. Depois de aprender a verdade, ele harmonizou sua vida com os princípios bíblicos e se tornou uma Testemunha de Jeová ativa. Mais tarde, um agente da KGB o chamou e disse: ‘Com quem você está perdendo seu tempo? Essas Testemunhas de Jeová são todas ucranianas.’

      “O irmão respondeu: ‘Quando eu era alcoólatra e ficava jogado na sarjeta, você nem se importava comigo. Agora que me tornei uma pessoa normal e um cidadão responsável, você não está satisfeito. Muitos ucranianos estão indo embora da Sibéria, mas deixando para trás siberianos que Deus tem ensinado a viver.’”

      Poucos anos depois, um funcionário do governo de Irkutsk escreveu para Moscou: “Vários trabalhadores locais disseram que todas essas [Testemunhas de Jeová] deveriam ser enviadas a algum lugar no norte para que perdessem todo o contato com a população e fossem reeducadas.” Nem a Sibéria nem Moscou sabiam o que fazer para silenciar as Testemunhas de Jeová.

      “NÓS TERÍAMOS MATADO A TODOS VOCÊS”

      No início de 1957, as autoridades organizaram uma nova campanha contra as Testemunhas de Jeová. Os irmãos eram seguidos e as casas vasculhadas. Viktor Gutshmidt se lembra: “Certa vez, quando cheguei em casa depois do ministério, tudo estava de cabeça para baixo. A KGB estava procurando publicações. Eles me prenderam e me interrogaram durante dois meses. Yulia, nossa filha mais nova, tinha 11 meses, e nossa filha mais velha, 2 anos.

      “Na investigação, o inspetor me perguntou: ‘Você não é alemão?’ Para muitos naquela época, a palavra ‘alemão’ era sinônimo de ‘fascista’. Os alemães eram odiados.

      “‘Não sou nacionalista’, disse eu, ‘mas se você estiver se referindo aos alemães que ficaram presos nos campos de concentração nazistas, nesse caso, tenho orgulho daqueles alemães! Eles eram chamados Bibelforscher, e agora são conhecidos como Testemunhas de Jeová. Eu me orgulho de que nenhuma Testemunha de Jeová tenha disparado uma bala de uma arma ou atirado uma bomba de um canhão. Desses alemães, eu me orgulho!’

      “O inspetor ficou em silêncio, e eu continuei: ‘Tenho certeza de que nem uma única Testemunha de Jeová participou em qualquer rebelião ou motim. Mesmo quando suas atividades estão proscritas, elas persistem em adorar a Deus. Ao mesmo tempo, reconhecem as autoridades e as obedecem desde que suas leis não violem as leis superiores de nosso Criador.’

      “Inesperadamente, o inspetor me interrompeu e disse: ‘Nunca estudamos um grupo tão de perto como estudamos as Testemunhas de Jeová e suas atividades. Se houvesse qualquer coisa contra vocês nos registros, mesmo que tivessem derramado só uma gota de sangue, nós teríamos matado a todos vocês.’

      “Daí, pensei: ‘Nossos irmãos servem a Jeová em todo o mundo com coragem, e o exemplo deles salvou nossa vida na União Soviética. Pode ser que o serviço que prestamos a Deus aqui de alguma forma ajude nossos irmãos em outros lugares.’ Pensar dessa maneira me deu mais forças para seguir de perto os caminhos de Jeová.”

      TESTEMUNHAS DE JEOVÁ EM MAIS DE 50 CAMPOS

      A posição neutra e o ministério zeloso das Testemunhas de Jeová na União Soviética continuaram a irritar o governo. (Mar. 13:10; João 17:16) Com freqüência, a posição de nossos irmãos resultava em longas e injustas sentenças de prisão.

      Em 199 congressos realizados em todo o mundo, de junho de 1956 a fevereiro de 1957, 462.936 pessoas adotaram uma resolução, da qual foram enviadas cópias ao Conselho de Ministros da União Soviética em Moscou. Entre outras coisas, a resolução dizia: “Há Testemunhas de Jeová presas em mais de 50 campos, desde a parte européia da Rússia até a Sibéria, e em direção ao norte até o oceano Ártico, até mesmo na ilha de Novaya Zemlya . . . Nos Estados Unidos e em outros países do Ocidente, as Testemunhas de Jeová são chamadas de comunistas. Em países comunistas, são chamadas de imperialistas . . . Governos comunistas acusam-nas de serem ‘espiãs imperialistas’ e sentenciam-nas a até 20 anos de prisão. Mas elas nunca se empenharam em qualquer atividade subversiva.” Infelizmente, a resolução não melhorou muito a situação das Testemunhas de Jeová na União Soviética.

      As famílias de Testemunhas de Jeová na Rússia tinham muita dificuldade para criar seus filhos. Vladimir Sosnin, de Moscou, que criou três filhos naquela época, diz: “Freqüentar uma escola soviética era obrigatório. Professores e outros alunos pressionavam nossos filhos a fazer parte de organizações de crianças que eram orientadas de acordo com a ideologia comunista. Queríamos que nossos filhos recebessem a educação necessária e os ajudávamos com os estudos. Não era fácil cultivar amor a Jeová no coração dos filhos. As escolas estavam cheias de idéias que promoviam o socialismo e o comunismo. Cabia aos pais ter paciência e perseverança fora do comum.”

      ACUSADOS DE ARRANCAR A ORELHA DA FILHA

      Semyon e Daria Kostylyev criaram três filhos na Sibéria. Semyon conta: “Naquela época, as Testemunhas de Jeová eram consideradas fanáticas. Em 1961, Alla, nossa segunda filha, entrou na primeira série. Certo dia, enquanto ela brincava com outras crianças, uma delas sem querer machucou a orelha de nossa filha. No dia seguinte, quando a professora perguntou o que tinha acontecido, Alla permaneceu em silêncio, pois não queria entregar sua colega. A professora sabia que éramos Testemunhas de Jeová e concluiu que batíamos em Alla a fim de forçá-la a viver segundo os princípios da Bíblia. A escola relatou o assunto à promotoria pública. A empresa em que eu trabalhava também ficou envolvida no caso. As investigações se estenderam por cerca de um ano, até que por fim recebi uma intimação para comparecer a uma audiência no tribunal em outubro de 1962.

      “Nas duas semanas que antecederam ao julgamento, o prédio do Palácio da Cultura expôs uma faixa com as palavras: ‘Julgamento da perigosa seita dos jeovistas está para começar’. Minha esposa e eu fomos acusados de criar nossos filhos de acordo com a Bíblia e de sermos cruéis. O tribunal nos acusou de forçar nossa filha a orar e de termos arrancado sua orelha com a extremidade de um balde. A única pessoa que poderia depor sobre isso era Alla, mas ela tinha sido levada para um orfanato em Kirensk, uns 700 quilômetros ao norte de Irkutsk, onde morávamos.

      “O local estava cheio de jovens ativistas. Quando o tribunal fez um recesso para tomar a decisão, a multidão começou a causar tumulto. Fomos insultados, e alguém queria que tirássemos nossas roupas ‘soviéticas’. Todos gritavam, dizendo que deveríamos ser mortos, e teve até um que queria que nos matassem ali mesmo. A multidão foi ficando cada vez mais enfurecida e mesmo assim os juízes não apareciam. Eles levaram uma hora para chegar à decisão. Quando a multidão avançou em nossa direção, uma irmã e seu marido descrente ficaram de pé entre nós e as pessoas, implorando que não nos machucassem. Na tentativa de explicar que todas as acusações contra nós eram falsas, eles literalmente nos arrancaram das mãos daquelas pessoas.

      “Por fim, os juízes apareceram com os assistentes do tribunal popular e leram nossa sentença: perda da guarda de nossos filhos. Fui mantido sob vigilância e enviado a um campo corretivo de trabalhos forçados por dois anos. Nossa filha mais velha também foi levada para um orfanato depois de lhe terem dito que seus pais eram membros de uma seita perigosa e uma péssima influência sobre sua criação.

      “Nosso filho ficou com Daria, visto que ele tinha apenas 3 anos. Depois de cumprir a sentença, voltei para casa. Como antes, só podíamos dar testemunho informal.”

      “FICAMOS ORGULHOSOS DE NOSSOS FILHOS”

      “Alla saiu do orfanato quando completou 13 anos e voltou a morar conosco. Ficamos muito felizes quando ela se dedicou a Jeová e foi batizada, em 1969. Nessa época, palestras sobre religião foram realizadas no Palácio da Cultura em nossa cidade. Decidimos ir até lá para ver o que tinham a dizer agora. Como sempre, o grupo a respeito de que mais se falava era as Testemunhas de Jeová. Um dos palestrantes pegou um número de A Sentinela e disse: ‘Esta é uma revista perigosa e prejudicial e está minando a união de nosso Estado.’ Daí, ele deu um exemplo: ‘Os membros dessa seita forçam seus filhos a ler tais revistas e a fazer orações. Numa família, uma garotinha não quis ler a revista e por isso o pai arrancou-lhe a orelha.’ Alla ficou surpresa, pois estava lá sentada, ouvindo a palestra com as duas orelhas intactas. Ela não disse nada, pois tinha medo de perder os pais mais uma vez.

      “Quando Boris, nosso filho, completou 13 anos, ele se dedicou a Jeová e foi batizado. Certa vez, ele estava dando testemunho na rua com outras Testemunhas de Jeová da mesma idade, apesar de nossas atividades naquela época ainda estarem sob proscrição. Eles não estavam com a Bíblia nem publicações bíblicas. De repente, um carro parou e levou todos os garotos para o quartel do exército. Depois de interrogá-los e revistá-los, os soldados não encontraram nada, a não ser alguns textos bíblicos anotados num papel. Os garotos puderam voltar para casa. Quando chegou em casa, Boris nos contou todo orgulhoso como ele e os outros garotos tinham sido perseguidos por causa do nome de Jeová. Ficamos orgulhosos de nossos filhos, visto que Jeová os apoiou durante provações. Depois disso, Daria e eu fomos intimados várias vezes pela KGB. Um policial nos disse: ‘Essas crianças deveriam ser enviadas a uma colônia penal para jovens. É uma pena que ainda não tenham 14 anos.’ Fomos multados pelas atividades de pregação de nosso filho.

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    • A BÍBLIA É CONSIDERADA ANTI-SOVIÉTICA

      Às vezes os irmãos eram levados a julgamento apenas por ter uma Bíblia. Nadezhda Vishnyak diz: “Meu marido e eu ainda não éramos Testemunhas de Jeová, mas a verdade havia tocado profundamente nosso coração. Certa vez, a polícia foi até onde eu trabalhava e me arrancou dali sem que eu tivesse tempo de tirar minhas roupas de trabalho. Pyotr, meu marido, também foi preso no trabalho. Antes disso acontecer, nossa casa foi revistada e a polícia encontrou uma Bíblia e o folheto Após o Armagedom — O Novo Mundo de Deus. Pyotr achava que eles não me prenderiam, visto que eu estava grávida de sete meses.

      “Fomos acusados de agir contra as autoridades soviéticas. Dissemos a eles que acreditávamos na Bíblia, uma autoridade muito superior ao poder soviético.

      “‘A Bíblia é a Palavra de Deus e é por isso que queremos viver de acordo com os princípios dela’, disse eu.

      “O julgamento aconteceu apenas duas semanas antes de eu dar à luz. Nos intervalos entre as audiências, o juiz permitiu que eu saísse para caminhar acompanhada de um soldado armado. Durante uma dessas caminhadas, o soldado me perguntou o que eu havia feito. Tive uma excelente oportunidade para dar testemunho.

      “O juiz declarou que a Bíblia e as publicações confiscadas em nossa casa eram ‘anti-soviéticas’. Fiquei feliz de que não foi só meu marido e eu que fomos acusados de ser anti-soviéticos, mas também nossas publicações e até mesmo a Bíblia! Perguntaram-nos onde conhecemos as Testemunhas de Jeová. Quando dissemos que foi no campo de trabalhos forçados em Vorkuta, o juiz gritou: ‘Vejam o que está acontecendo em nossos campos!’ Fomos condenados e sentenciados a dez anos em campos de trabalhos forçados.

      “Pyotr foi enviado a um campo na Mordóvia, Rússia central. Eu fui colocada na solitária. Dei à luz ao nosso filho em março de 1958. Naqueles momentos difíceis, Jeová foi meu melhor amigo e ajudador. Minha mãe cuidou de nosso filho. Fui levada para Kemerovo, Sibéria, onde fiquei num campo de trabalhos forçados.

      “Fui libertada depois de oito anos, antes de cumprir toda a sentença. Eu me lembro de que certa vez, no alojamento, a capataz disse bem alto que eu nunca tinha feito qualquer declaração ‘anti-soviética’ e que nossas publicações eram exclusivamente religiosas. Fui batizada em 1966 depois de conseguir a liberdade.”

      Bíblias e publicações bíblicas eram muito preciosas nos campos e nas prisões. Em 1958, os irmãos realizavam reuniões regularmente num campo na Mordóvia. Para que os capatazes do campo não os pegassem de surpresa, enquanto um grupo estudava a revista A Sentinela, vários irmãos ficavam vigiando a distâncias em que desse para um ouvir outro. Caso um capataz aparecesse, o irmão mais próximo dizia “chegando” para outro que estivesse de guarda. Este avisava o próximo de guarda e assim por diante, até que o grupo reunido ficasse sabendo. Cada um do grupo ia para o seu lado e a revista era escondida. Mas com freqüência os capatazes apareciam do nada.

      Certa vez, quando os irmãos foram pegos de surpresa pelos capatazes, Boris Kryltsov decidiu distraí-los e salvar a revista. Ele agarrou um livro e correu para fora do alojamento. Os capatazes perseguiram-no por um bom tempo, mas quando finalmente o pegaram, viram que o livro tratava de Lenin. Apesar de precisar ficar na solitária por sete dias, ele ficou feliz de a revista ter sido salva.

      SEMENTES DA VERDADE PLANTADAS EM MOSCOU

      As boas novas do Reino começaram a ser pregadas em Moscou por um pequeno grupo. Boris Kryltsov foi um dos primeiros a pregar com zelo na capital do país. Ele conta: “Eu trabalhava com construção. Um grupo de irmãos e eu procurávamos dar testemunho informal. Ao saber o que eu estava fazendo, a KGB vasculhou meu apartamento em abril de 1957 e encontrou publicações bíblicas. Depois disso, fui preso imediatamente. Durante o interrogatório, o inspetor me disse que as Testemunhas de Jeová eram as pessoas mais perigosas do país. Ele falou: ‘Se deixarmos você ir, muitos cidadãos soviéticos se juntarão a você. É por isso que o encaramos como uma grande ameaça ao Estado.’

      “‘A Bíblia nos ensina a ser cidadãos obedientes à lei’, disse eu. ‘Ela também diz que devemos buscar primeiro o Reino e a justiça de Deus. Os cristãos verdadeiros nunca tentaram tomar o poder em nenhum país.’

      “‘Onde você conseguiu as publicações que encontramos na busca?’, perguntou o inspetor.

      “‘O que há de errado com as publicações?’, perguntei. ‘Elas falam de profecias bíblicas, não de assuntos políticos.’

      “‘É verdade, mas são produzidas em outro país’, respondeu ele.

      “Fui parar numa prisão de segurança máxima na cidade de Vladimir. Apesar de terem me revistado, consegui entrar no campo com quatro números da revista A Sentinela copiados à mão num papel fino. Estava claro que Jeová tinha me ajudado. Na cela, recopiei os quatro números. Eu sabia que havia outras Testemunhas de Jeová ali que já por sete anos não recebiam alimento espiritual. Passei as revistas adiante por meio de uma irmã que era responsável por limpar as escadas.

      “Descobrimos que havia um informante se associando com os irmãos. Ele disse aos diretores da prisão que alguém estava passando publicações bíblicas para outros presos. Eles imediatamente começaram a revistar todo mundo e a pegar todas as publicações. Não demorou muito para chegarem a mim e encontrarem publicações no meu colchão. Fui colocado na solitária por 85 dias. Apesar disso, Jeová continuou a cuidar de nós como sempre fez.”

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