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  • O ataque soviético contra a religião
    Despertai! — 2001 | 22 de abril
    • O ataque soviético contra a religião

      A RÚSSIA era a maior e mais destacada das quatro repúblicas originais que compunham a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), quando esta foi formada em 1922. Com o tempo a URSS se expandiu a ponto de incluir 15 repúblicas e quase um sexto da superfície do globo. Mas em 1991, a União Soviética se desfez subitamente.a É interessante que esse foi o primeiro Estado a tentar erradicar da mente do povo a crença em Deus.

      Vladimir Lenin, primeiro líder da União Soviética, era seguidor de Karl Marx, que descrevia o cristianismo como instrumento de opressão. Marx chamava a religião de “o ópio do povo” e Lenin declarou mais tarde: “Qualquer conceito religioso, qualquer conceito sobre qualquer deus, . . . é indizivelmente desprezível.”

      Após a morte do patriarca ortodoxo russo Tikhon, em 1925, a Igreja não recebeu permissão para eleger outro patriarca. Depois disso, houve um ataque contra a religião que resultou em muitas igrejas serem destruídas ou passarem a ser usadas para fins seculares. Sacerdotes foram condenados a campos de trabalhos forçados, onde muitos morreram. “Sob o governo de Joseph Stalin no fim dos anos 20 e durante os anos 30”, explica a Encyclopædia Britannica, “a Igreja sofreu uma perseguição sangrenta que custou a vida de milhares de vítimas. Em 1939, somente três ou quatro bispos ortodoxos e 100 igrejas tinham permissão oficial para funcionar”.

      Praticamente da noite para o dia, porém, ocorreu uma mudança notável.

      A Segunda Guerra Mundial e a religião

      Em 1939, a Alemanha nazista, então aliada da União Soviética, invadiu a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. No espaço de um ano, a União Soviética anexou as últimas 4 das suas 15 repúblicas: a Letônia, a Lituânia, a Estônia e a Moldávia. Em junho de 1941, porém, a Alemanha lançou um forte ataque contra a União Soviética, o que pegou Stalin totalmente de surpresa. No fim daquele ano, as tropas alemãs já haviam chegado às vizinhanças de Moscou e a queda da União Soviética parecia iminente.

      Desesperado, Stalin procurou mobilizar a nação para o que os russos chamaram de a Grande Guerra Patriótica. Stalin se deu conta de que precisaria fazer concessões à Igreja a fim de conseguir o apoio do povo para o esforço de guerra, visto que milhões de pessoas ainda eram religiosas. Qual foi o resultado da notável reviravolta da política de Stalin em relação à religião?

      Com a cooperação da Igreja, o povo russo foi mobilizado para o esforço de guerra e, em 1945, os soviéticos conseguiram uma vitória espetacular contra os alemães. Depois que o ataque soviético contra a religião foi suspenso, o número de igrejas ortodoxas aumentou para 25.000 e o número de sacerdotes chegou a 33.000.

      Novo ataque

      Na realidade, porém, o objetivo dos líderes soviéticos (erradicar da mente do povo o conceito de Deus) não havia sido abandonado. The Encyclopædia Britannica explica: “O primeiro-ministro Nikita Khrushchev iniciou, no período de 1959-64, uma nova ação anti-religião, reduzindo o número de igrejas em funcionamento para menos de 10.000. O Patriarca Pimen foi eleito em 1971 depois da morte de Aléxis e, embora a Igreja ainda tivesse a lealdade de milhões, seu futuro permanecia incerto.”b

      Mais adiante, veremos como a Igreja Ortodoxa Russa conseguiu sobreviver ao novo ataque soviético. Mas qual era a situação de outras religiões na União Soviética? Entre elas, qual se tornou o alvo principal do ataque e por quê? O próximo artigo tratará disso.

      [Nota(s) de rodapé]

      a Os seguintes são os 15 países independentes que anteriormente eram repúblicas soviéticas: Armênia, Azerbaijão, Belarus, Casaquistão, Estônia, Geórgia, Letônia, Lituânia, Moldávia, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão, Turcomenistão, Ucrânia e Usbequistão.

      b Os nomes de Aléxis I, patriarca ortodoxo russo de 1945 a 1970, e Aléxis II, patriarca de 1990 até hoje, às vezes também são grafados Alexis, Alexei e Aleixo.

      [Foto na página 3]

      Lenin disse que ‘qualquer conceito sobre Deus é indizivelmente desprezível’

      [Crédito]

      Musée d’Histoire Contemporaine—BDIC

  • Um dos alvos do ataque soviético
    Despertai! — 2001 | 22 de abril
    • Um dos alvos do ataque soviético

      A FIM de ganhar a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética fez concessões à Igreja Ortodoxa Russa, mas mesmo assim manteve as atividades dela sob estrito controle. Como diz The Sword and the Shield (A Espada e o Escudo), um livro escrito em 1999 sobre a história da KGB (o Comitê de Segurança do Estado, da URSS), “a KGB estava muito mais preocupada com as atividades ‘subversivas’ dos grupos cristãos sobre os quais ela não tinha controle direto”. Que grupos religiosos eram esses?

      O maior era a Igreja Católica Grega da Ucrânia, hoje conhecida como Igreja Católica Ucraniana, com cerca de 4.000.000 de fiéis. Segundo The Sword and the Shield, “com exceção de dois, todos os seus dez bispos e muitos milhares de sacerdotes e fiéis morreram por sua fé, nos gulags [campos de trabalho] siberianos”. Outro alvo da KGB eram as Igrejas protestantes não-registradas, que também não estavam sob o controle direto do Estado. No fim da década de 50, a KGB calculava que esses grupos protestantes tivessem um total conjunto de uns 100.000 membros.

      A KGB considerava as Testemunhas de Jeová um grupo protestante e calculava que, em 1968, elas tivessem uns 20.000 membros na União Soviética. Até o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, havia poucas Testemunhas de Jeová no país, de modo que haviam passado quase despercebidas. Mas a situação mudou completamente quando milhares de Testemunhas passaram de repente a morar na União Soviética. Como isso ocorreu?

      Começa um aumento espetacular

      No livro Religion in the Soviet Union (Religião na União Soviética), publicado em 1961, Walter Kolarz mencionou dois fatores que contribuíram para esse aumento espetacular. O primeiro, segundo ele, é que nos “territórios anexados pela União Soviética entre 1939-40” — Letônia, Lituânia, Estônia e Moldávia — “havia grupos . . . muito ativos, de Testemunhas de Jeová”. Além disso, territórios das regiões orientais da Polônia e da Tchecoslováquia, onde moravam mais de mil Testemunhas, também foram anexados pela União Soviética, tornando-se parte da Ucrânia. De modo que todas essas Testemunhas de Jeová foram, por assim dizer, transplantadas para a União Soviética da noite para o dia.

      “Por incrível que pareça”, como escreveu Kolarz, o aumento aconteceu ainda devido aos “campos de concentração alemães”. Os nazistas prenderam milhares de Testemunhas de Jeová por sua recusa de apoiar Hitler e seu agressivo esforço de guerra. Kolarz explicou que os prisioneiros russos nesses campos “admiravam a coragem e a persistência das ‘Testemunhas’ e, provavelmente por esse motivo, tinham achado atraente a sua teologia”. Em resultado disso, muitos jovens russos, quando soltos desses campos, voltaram para a União Soviética com uma nova fé em Jeová Deus e em seus maravilhosos propósitos para a Terra. — Salmo 37:29; Revelação (Apocalipse) 21:3, 4.

      Devido a esses fatores, logo havia milhares de Testemunhas de Jeová na União Soviética. No início de 1946, havia pelo menos 1.600 e no fim da década, bem mais de 8.000. A KGB ficou apavorada ao ver esse aumento, porque, como já mencionado, ela estava especialmente preocupada com “as atividades . . . dos grupos cristãos sobre os quais ela não tinha controle direto”.

      Inicia-se o ataque

      Apesar de haver relativamente poucas Testemunhas de Jeová na União Soviética, sua zelosa atividade de pregação logo sofreu ataques das autoridades. Na Estônia, o ataque começou em agosto de 1948, quando cinco homens que tomavam a dianteira na obra foram presos. “Logo ficou evidente que a KGB queria prender todo o mundo”, disse Lembit Toom, uma Testemunha estoniana. O mesmo ocorria em todos os lugares onde havia Testemunhas de Jeová na União Soviética.

      As autoridades soviéticas afirmavam que as Testemunhas eram os piores criminosos e um grande perigo para o Estado soviético ateu. Assim, por toda a parte elas eram perseguidas e presas. O livro The Sword and the Shield diz: “A obsessão dos principais chefes da KGB com os jeovistas era, talvez, o exemplo supremo de sua falta de qualquer senso de perspectiva ao lidar até com as mais insignificantes formas de dissidência.”

      Essa obsessão ficou mais do que evidente em um ataque bem planejado contra as Testemunhas de Jeová em abril de 1951. Apenas dois anos atrás, em 1999, o professor Sergei Ivanenko, respeitado erudito russo, escreveu no seu livro The People Who Are Never Without Their Bibles (O Povo que Não Anda sem a Bíblia) que, no início de abril de 1951, “mais de 5.000 famílias de Testemunhas de Jeová da Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldávia e das repúblicas bálticas foram enviadas a ‘assentamentos permanentes’ na Sibéria, no Extremo Oriente e no Casaquistão”.

      Vale a pena lembrar

      Dá para imaginar o esforço envolvido naquele ataque: reunir em um dia milhares de famílias de Testemunhas de Jeová em uma área tão grande? Imagine coordenar centenas, senão milhares, de agentes — primeiro para identificar as Testemunhas e depois para, aproveitando a escuridão, executar ataques-surpresa simultâneos aos seus lares. Depois disso, houve também o trabalho de colocar essas pessoas em carroças e outros veículos, levá-las a estações ferroviárias e transferi-las para vagões de carga.

      Pense também no sofrimento das vítimas. Consegue imaginar-se nesta situação: ser obrigado a viajar milhares de quilômetros — durante três semanas ou mais — em vagões de carga superlotados, em condições insalubres, tendo apenas um balde para usar como vaso sanitário? E tente imaginar ser largado na inóspita Sibéria, sabendo que para sobreviver você teria de trabalhar duro naquele ambiente hostil.

      Este mês faz 50 anos que as Testemunhas de Jeová foram enviadas para o exílio, em abril de 1951. Para contar a história de sua fidelidade apesar de décadas de perseguição, os depoimentos de sobreviventes foram gravados em vídeo. Estes revelam que, como aconteceu no caso dos cristãos do primeiro século, as tentativas de impedir as pessoas de adorar a Deus estão fadadas ao fracasso.

      O resultado do exílio

      As autoridades soviéticas logo se deram conta de que impedir as Testemunhas de Jeová de adorar a Deus seria muito mais difícil do que haviam imaginado. Apesar dos protestos de seus captores, as Testemunhas cantavam louvores a Jeová enquanto eram levadas ao exílio e penduravam nos vagões letreiros que diziam: “Testemunhas de Jeová a bordo”. Uma Testemunha explicou: “Nas estações de trem no caminho, encontramos outros trens que levavam exilados e vimos letreiros nos vagões.” Que grande incentivo!

      Assim, em vez de ficar desanimados, os exilados demonstravam o mesmo espírito dos apóstolos de Jesus. A Bíblia diz que, depois de serem chibateados e de receberem a ordem de parar de pregar, eles “continuavam sem cessar a ensinar e a declarar as boas novas a respeito do Cristo”. (Atos 5:40-42) De fato, como Kolarz disse sobre o exílio, “este não foi o fim das ‘Testemunhas’ na Rússia, mas apenas o começo dum novo capítulo em suas atividades de proselitismo. Até mesmo procuravam difundir a sua fé quando paravam nas estações, a caminho do exílio”.

      Depois de chegar ao destino e desembarcar, as Testemunhas de Jeová granjeavam uma boa reputação, porque eram pessoas trabalhadoras e obedientes. Mas ao mesmo tempo, imitando os apóstolos de Cristo, elas como que diziam aos opressores: ‘Não podemos parar de falar sobre nosso Deus.’ (Atos 4:20) Muitos escutaram o ensino das Testemunhas e se juntaram a elas no serviço a Deus.

      Como Kolarz explicou, a conseqüência foi que, “ao deportá-las, o Governo soviético não podia ter feito nada melhor para a disseminação de sua fé. De seu isolamento em lugarejos onde antes viviam [nas repúblicas soviéticas ocidentais], as ‘Testemunhas’ foram introduzidas num mundo mais amplo, mesmo que esse fosse apenas o terrível mundo dos campos de concentração e dos campos de trabalhos forçados e escravo”.

      Esforços para deter o crescimento

      Com o tempo, as autoridades soviéticas experimentaram métodos diversos para tentar parar as Testemunhas de Jeová. Visto que a perseguição cruel não produziu os resultados desejados, iniciou-se um programa bem arquitetado de propaganda enganosa. Tentou-se de tudo: livros, filmes e programas de rádio, bem como agentes treinados pela KGB infiltrados nas congregações.

      A ampla deturpação dos fatos fez com que muitas pessoas tivessem medo das Testemunhas de Jeová e desconfiassem delas, como mostra um artigo publicado na edição canadense, de agosto de 1982, do Reader’s Digest. Foi escrito por Vladimir Bukovski, um russo que recebeu permissão para imigrar para a Inglaterra em 1976. Ele escreveu: “Certa noite em Londres, vi uma placa num prédio que dizia: TESTEMUNHAS DE JEOVÁ . . . Não consegui ler mais, fiquei pasmo, quase que em pânico.”

      Vladimir explicou por que ficou desnecessariamente assustado: “Esses são os cultistas que as autoridades do meu país usam como bicho-papão para assustar as crianças . . . Na URSS, você encontra ‘Testemunhas’ em carne e osso apenas em prisões e campos de concentração. E ali estava eu em frente a um prédio, a uma placa. Poderia alguém realmente entrar e tomar chá com elas?”, perguntou ele. Enfatizando o porquê do medo, Vladimir concluiu: “As ‘Testemunhas’ são perseguidas em nosso país com a mesma fúria com que a Máfia é perseguida em seu país e o mistério que as cerca é o mesmo.”

      Mas apesar da perseguição cruel e da propaganda mentirosa, as Testemunhas de Jeová perseveraram e aumentaram em número. Livros soviéticos como As Verdades sobre as Testemunhas de Jeová, impresso em russo em 1978, com tiragem de 100.000 exemplares, mencionavam a necessidade de aumentar a propaganda anti-Testemunhas. O autor, V. V. Konik, descreveu como as Testemunhas prosseguiam com a pregação diante de grandes restrições e recomendou: “Os pesquisadores soviéticos de assuntos religiosos devem aprender métodos mais eficazes para abafar os ensinos das Testemunhas de Jeová.”

      Por que foram alvo de ataque?

      Em resumo, as Testemunhas de Jeová foram o principal alvo do ataque soviético porque imitaram os primeiros seguidores de Jesus. No primeiro século, os apóstolos receberam a ordem de ‘não ensinar à base do nome de Jesus’. Seus perseguidores mais tarde reclamaram: “Eis que enchestes Jerusalém com o vosso ensino.” Os apóstolos não negaram que estivessem pregando apesar de ordens em contrário, mas responderam respeitosamente: “Temos de obedecer a Deus como governante antes que aos homens.” — Atos 5:27-29.

      As Testemunhas de Jeová hoje também levam a sério a ordem de Jesus de que seus seguidores deveriam ‘pregar ao povo e dar um testemunho cabal’. (Atos 10:42) No seu livro The Kremlin’s Human Dilemma (O Dilema Humano do Kremlin), Maurice Hindus explicou que foi o “zelo irreprimível [das Testemunhas] pela evangelização” que as tornou “especialmente onerosas para Moscou e as [pôs] em contínuo choque com a polícia soviética”. Ele acrescentou: “Não se consegue impedi-las. Suprimidas em um lugar, reaparecem em outro.”

      “Pelo que eu sei”, escreveu o historiador russo Sergei Ivanenko, “a organização das Testemunhas de Jeová foi a única organização religiosa na URSS que aumentou em número apesar da proscrição e da perseguição”. É claro que outras religiões continuaram a atuar, incluindo a mais destacada delas, a Igreja Ortodoxa Russa. Achará interessante saber como foi que tanto a Igreja como as Testemunhas de Jeová conseguiram sobreviver ao ataque soviético.

      [Quadro na página 6]

      A “mais duramente perseguida”

      A Concise Encyclopaedia of Russia (Enciclopédia Concisa da Rússia), de 1964, disse que as Testemunhas de Jeová eram “extremamente ativas no proselitismo” e que foram “a comunidade religiosa mais duramente perseguida na União Soviética”.

      [Quadro/Foto na página 7]

      UM DOS MILHARES: Fyodor Kalin descreve o exílio de sua família

      Nossa família morava no povoado de Vilshanitsa, no oeste da Ucrânia. Na manhã de 8 de abril de 1951, enquanto ainda estava escuro, vieram policiais com cães e nos acordaram, dizendo que, por decreto do governo de Moscou, íamos ser enviados para a Sibéria. Mas se assinássemos um documento dizendo que não éramos mais Testemunhas de Jeová, poderíamos ficar. Nossa família de sete pessoas, incluindo meus pais e irmãos, estava decidida a não renunciar à fé. Eu tinha 19 anos na época.

      Um policial disse: “Levem feijão, milho, farinha, picles, repolho . . . senão, como vão alimentar as crianças?” Também nos deixaram matar algumas galinhas e porcos para levarmos como alimento. Trouxeram duas carroças puxadas por cavalos e tudo foi colocado nelas e levado à cidade de Hriplin. Ali, uns 40 ou 50 de nós foram enfiados num vagão de carga e a porta foi fechada.

      No vagão, havia um fogão, um pouco de carvão, lenha e algumas tábuas para dormirmos, mas que não eram suficientes para todos. Cozinhávamos no fogão, usando as panelas que havíamos levado. Não havia vaso sanitário. Usávamos um balde. Mais tarde, fizemos um buraco redondo no chão, encaixamos o balde nele e penduramos alguns cobertores para proporcionar um pouco de privacidade.

      Permanecemos apinhados naquele vagão durante nossa lenta viagem de milhares de quilômetros até o destino ignorado. De início, ficamos um pouco abatidos. Mas começamos a cantar cânticos do Reino — com tanto vigor, que depois quase não conseguíamos falar — e assim nos sentimos melhor. O comandante abria a porta e nos mandava parar, mas não parávamos até termos terminado. Nas paradas em estações pelo caminho, muitos ficavam sabendo que as Testemunhas de Jeová estavam indo para o exílio. Finalmente, depois de 17 ou 18 dias naquele vagão, desembarcamos na Sibéria, perto do lago Baikal.

      [Foto]

      Eu estou de pé, na fileira de trás, à direita

      [Quadro/Foto na página 8]

      ARMAGEDOM: Um instrumento da propaganda soviética

      Os líderes soviéticos produziram um filme chamado Armagedom no esforço de desacreditar as Testemunhas de Jeová. O enredo tratava da fictícia história de amor entre um soldado do exército soviético e uma moça que é levada a se juntar às Testemunhas. No fim do filme, a irmãzinha da moça morria num acidente causado por um superintendente das Testemunhas de Jeová, que era retratado como um instrumento do serviço de espionagem dos Estados Unidos.

      Comentando o filme, que mexeu com as emoções das platéias, o jornal ucraniano The Red Flag, de 14 de maio de 1963, disse: “Essa forma de propaganda ateísta é eficaz, convincente e pode ser usada em outros povoados do país onde filmes similares são apresentados.”

      [Foto na página 6]

      Milhares foram levados para a Sibéria em vagões de carga

  • Como a religião sobreviveu
    Despertai! — 2001 | 22 de abril
    • Como a religião sobreviveu

      QUANDO a Alemanha nazista invadiu a Rússia em junho de 1941, as autoridades soviéticas tinham praticamente eliminado a Igreja Ortodoxa Russa. Mas depois da invasão nazista, elas começaram a mudar de atitude em relação à religião. Por quê?

      Richard Overy, professor de História moderna na King’s College, em Londres, explicou a razão no livro Russia’s War—Blood Upon the Snow (A Guerra na Rússia: Sangue na Neve): “Precisamente no dia da invasão alemã, o metropolita Sergei [Sérgio], líder da Igreja, apelou aos fiéis para que fizessem de tudo a fim de conseguir a vitória. Nos dois anos seguintes, ele publicou nada menos que 23 epístolas convocando o rebanho para lutar pelo Estado ateu em que viviam.” Assim, continua Overy, ‘Stalin permitiu que a religião florescesse de novo’.

      Em 1943, Stalin finalmente concordou em dar reconhecimento à Igreja Ortodoxa, designando Sérgio como novo patriarca. “A reação das autoridades da Igreja foi levantar fundos dos fiéis para financiar um destacamento blindado soviético”, disse Overy. “Sacerdotes e bispos exortaram suas congregações a cumprir a fé: a de Deus e a de Stalin.”

      Descrevendo esse período da História russa, o erudito religioso Sergei Ivanenko escreveu: ‘A publicação oficial da Igreja Ortodoxa Russa, A Revista do Patriarcado de Moscou, elogiou Stalin como o maior líder e instrutor de todos os tempos e de todas as nações, enviado por Deus para salvar a nação dos opressores, dos proprietários de terras e dos capitalistas. Convocou os fiéis a derramar até a última gota de seu sangue para defender a URSS contra os inimigos e a dar tudo de si para edificar o comunismo.’

      “Muito valiosos para a KGB”

      Mesmo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a Igreja Ortodoxa continuou sendo útil para os comunistas. O livro The Soviet Union: The Fifty Years (A União Soviética: Os Cinqüenta Anos), editado por Harrison Salisbury, revela como isso se deu: “Com o fim da guerra, os líderes eclesiásticos concordaram com as exigências da política exterior de Stalin no que diz respeito à Guerra Fria.”

      O livro The Sword and the Shield descreve como os líderes da Igreja serviram aos interesses soviéticos. Explica que o Patriarca Aléxis I, que sucedeu a Sérgio como patriarca em 1945, “se juntou ao Conselho pela Paz Mundial, uma organização soviética de fachada, fundada em 1949”. O livro menciona também que ele e o metropolita Nikolai eram “muito valiosos para a KGB como agentes que ajudavam o Estado a exercer influência”.

      É notável que, em 1955, o Patriarca Aléxis I tenha declarado: “A Igreja Ortodoxa Russa apóia a política estrangeira totalmente pacífica do nosso governo, não porque, segundo dizem, a Igreja não tenha liberdade, mas porque a política soviética é justa e está de acordo com os ideais cristãos que a Igreja prega.”

      Segundo o número de 22 de janeiro de 2000 do jornal The Guardian, de Londres, o sacerdote ortodoxo dissidente Georgi Edelshtein teria dito: “Todos os bispos eram escolhidos a dedo para que cooperassem com o governo soviético. Todos eram agentes da KGB. É bem sabido que o Patriarca Aléxis foi recrutado pela KGB, com o codinome de Drozdov. Hoje, eles preservam a política que tinham 20 ou 30 anos atrás.”

      Serva do Estado soviético

      A revista Life, de 14 de setembro de 1959, descreveu o relacionamento entre a Igreja Ortodoxa e as autoridades soviéticas: “Stalin fez certas concessões à religião e a Igreja o tratava como um czar. A colaboração da ortodoxia é assegurada por um ministério governamental especial e os comunistas usam a Igreja desde então como braço do Estado soviético.”

      Matthew Spinka, autoridade em assuntos da Igreja russa, confirmou a existência de um vínculo achegado entre Igreja e Estado no seu livro The Church in Soviet Russia (A Igreja na Rússia Soviética), de 1956. “O atual Patriarca Alexei”, escreveu ele, “deliberadamente fez de sua Igreja um instrumento do governo”. De fato, a Igreja Ortodoxa sobreviveu por se tornar, por assim dizer, serva do Estado. ‘Mas será que isso é tão condenável?’, você talvez se pergunte. Bem, vejamos como Deus e Cristo encaram o assunto.

      Jesus Cristo disse a respeito de seus verdadeiros discípulos: “Não fazeis parte do mundo, mas eu vos escolhi do mundo.” E é bem pertinente que a Palavra de Deus pergunte: “Adúlteras, não sabeis que a amizade com o mundo é inimizade com Deus?” (João 15:19; Tiago 4:4) Assim, do ponto de vista bíblico, a Igreja se tornou prostituta religiosa com quem “os reis da terra cometeram fornicação”. Ela mostrou que faz parte do que a Bíblia chama de “Babilônia, a Grande, a mãe das meretrizes e das coisas repugnantes da terra”. — Revelação (Apocalipse) 17:1-6.

      Como as Testemunhas de Jeová sobreviveram

      Em contraste, Jesus Cristo revelou como seus verdadeiros seguidores seriam conhecidos, dizendo: “Por meio disso saberão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor entre vós.” (João 13:35) Esse amor foi um dos fatores-chave que ajudou as Testemunhas de Jeová a sobreviver na ex-União Soviética, conforme indicado na citação que se segue, tirada de The Sword and the Shield: “Os jeovistas dão todo tipo de assistência a seus correligionários que estão nos campos [de trabalhos forçados] ou no exílio dentro do país, fornecendo dinheiro, alimento e roupas.”

      O “alimento” fornecido para os que estavam presos nos campos incluía o alimento espiritual: Bíblias e publicações bíblicas. A Bíblia contém ‘pronunciações de Deus’ que são necessárias, conforme Jesus disse, para sustentar a vida espiritual. (Mateus 4:4) As publicações eram introduzidas secretamente nos campos, apesar dos grandes riscos para os envolvidos, pois qualquer pessoa que fosse descoberta fazendo isso estava sujeita a severas punições.

      Helene Celmina, da Letônia, ficou presa no campo de prisioneiros de Potma, na Rússia, de 1962 a 1966. Ela escreveu o livro Women in Soviet Prisons (Mulheres nas Prisões Soviéticas), no qual explicou: “Muitas Testemunhas de Jeová foram condenadas a dez anos de trabalhos forçados simplesmente por possuírem alguns exemplares da revista A Sentinela em seus apartamentos. Visto que as pessoas podiam ser presas por possuírem tais escritos, é compreensível a ansiedade e a irritação da administração, devido à presença dessas publicações no campo.”

      Sem dúvida, arriscar a própria liberdade e segurança para fornecer ajuda espiritual era uma evidência de amor cristão. Mas embora esse tenha sido um fator-chave para a sobrevivência das Testemunhas de Jeová, havia outro, ainda mais importante. “Ninguém conseguia entender”, escreveu Helene Celmina, “como as publicações proscritas penetravam nessa terra de arame farpado e de limitado contato humano”. Parecia impossível, já que todos os que entravam na prisão eram cuidadosamente revistados. “Era como se anjos sobrevoassem à noite e as deixassem cair”, escreveu a autora.

      De fato, Deus prometeu não abandonar nem desamparar seu povo. Assim, as Testemunhas na ex-União Soviética concordam, sem hesitação, com o que disse o salmista bíblico: “Eis que Deus é meu ajudador.” (Salmo 54:4; Josué 1:5) Sem dúvida, Sua ajuda foi importante para a sobrevivência das Testemunhas de Jeová naquele país.

      A situação mudou

      Em 27 de março de 1991, as Testemunhas de Jeová se tornaram uma organização reconhecida legalmente na União Soviética quando se assinou um documento legal que incluía a seguinte declaração: “O objetivo da Organização Religiosa é efetuar a obra religiosa de divulgar o nome de Jeová Deus e suas amorosas provisões para a humanidade mediante Seu Reino celestial por meio de Jesus Cristo.”

      Entre os modos alistados no documento para a realização dessa obra religiosa estão pregação pública, visitas aos lares das pessoas, ensino das verdades bíblicas aos dispostos a ouvir, estudos bíblicos gratuitos com a ajuda de publicações para o estudo da Bíblia e distribuição de Bíblias.

      Desde que aquele documento foi assinado, há mais de 10 anos, a União Soviética se desfez e a situação da religião mudou bastante nas 15 ex-repúblicas soviéticas. Qual será o futuro da religião ali, bem como no resto do mundo?

      [Quadro na página 11]

      A Igreja colaborou com os líderes soviéticos

      No seu livro Russia Is No Riddle (A Rússia Não É Nenhum Enigma), de 1945, Edmund Stevens escreveu: “A Igreja tomou muito cuidado para não morder a mão que agora a alimentava. Compreendeu plenamente que, em troca dos favores concedidos, o Estado esperava da Igreja o seu firme apoio ao regime e que agisse dentro de certos limites.”

      Stevens continuou explicando: “A tradição de séculos, como religião oficial do Estado, estava profundamente arraigada na Igreja Ortodoxa e, por isso, ela se ajustou com muita naturalidade ao seu novo papel de íntima colaboração com o governo soviético.”

      O Instituto Keston pesquisou exaustivamente a colaboração entre Aléxis II, atual patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, e os líderes soviéticos no passado. Seu relatório concluiu: “A colaboração de Aléxis não tem nada de excepcional. Quase todos os líderes principais das religiões reconhecidas oficialmente (incluindo a católica, a batista, a adventista, a muçulmana e a budista) eram agentes recrutados pela KGB. De fato, o relatório anual que descreve o recrutamento de Aléxis também trata de vários outros agentes, incluindo alguns da Igreja Luterana da Estônia.”

      [Quadro/Foto na página 12]

      Falavam aos presos nos campos

      Viktors Kalnins, um jornalista letão, passou a maior parte da sua sentença de 10 anos de prisão (1962-72) no complexo de campos mordoviano, cerca de 400 quilômetros a sudeste de Moscou. Numa entrevista concedida a um redator de Despertai! em março de 1979, perguntou-se a Kalnins: “As Testemunhas de Jeová presas sabem o que está acontecendo aqui nos Estados Unidos ou em outros países no que se refere à sua organização?”

      “Sabem”, respondeu Kalnins, “e sabem disso por meio das publicações que recebem. . . . Elas até me mostraram suas revistas. Nunca descobri onde as publicações eram escondidas. O lugar mudava freqüentemente. Mas todos sabiam que havia publicações no campo. . . . Os guardas e as Testemunhas de Jeová eram como Tom e Jerry, uns tentando esconder as publicações e os outros tentando encontrá-las.”

      Quando se perguntou: “As Testemunhas de Jeová procuraram falar com o senhor sobre suas crenças?”, Kalnins respondeu: “Claro! Todo o mundo as conhecia. Sabemos tudo sobre o Armagedom . . . Elas viviam falando sobre o fim da doença.”

      [Foto]

      As Testemunhas nos campos mordovianos partilhavam corajosamente as verdades da Bíblia

      [Foto nas páginas 8, 9]

      O casal Vovchuk foi deportado para Irkutsk, na Sibéria, em 1951 e são cristãos fiéis até hoje

      [Foto na página 10]

      Devido ao apoio da Igreja durante a Segunda Guerra Mundial, Stalin permitiu que a religião prosperasse temporariamente

      [Crédito]

      Foto do U.S. Army

      [Foto na página 10]

      O Patriarca Aléxis I (1945-70) disse: ‘A política soviética está de acordo com os ideais cristãos que a Igreja prega’

      [Crédito]

      Central State Archive regarding the film/photo/phono documents of Saint-Petersburg

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