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    Anuário das Testemunhas de Jeová de 2008
    • ‘É PRECISO DAR-LHES ESCLARECIMENTOS’

      Durante os anos da guerra, e depois dela, o governo soviético continuou a se opor de forma violenta às atividades das Testemunhas de Jeová. Em março de 1947, os irmãos na Polônia relataram que uma destacada autoridade de uma das regiões ocidentais da União Soviética havia declarado que, até o fim daquela primavera, nem uma única Testemunha de Jeová seria encontrada ali. A carta desses irmãos dizia: “Enquanto estávamos escrevendo esta carta, recebemos a notícia de que cem irmãos foram presos num só dia.” Outra carta falava a respeito dos irmãos nos campos de trabalhos forçados: “É maravilhoso o modo como eles têm mantido a integridade a Jeová. Muitos já perderam a vida e os irmãos aguardam a libertação da parte de Jeová, assim como fizeram os irmãos nos campos de concentração.”

      Alguns irmãos também foram presos por pregar e por se recusar a votar. Irmãos de responsabilidade escreveram em 1947: “Temos a impressão de que as altas autoridades russas sabem pouco a respeito do que está acontecendo com os nossos irmãos; na verdade, elas não têm interesse em matá-los. É preciso dar explicações e esclarecimentos [às autoridades].”

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    Anuário das Testemunhas de Jeová de 2008
    • “O SEU JEOVÁ NÃO VAI TIRAR VOCÊ DAQUI”

      Pyotr Krivokulski disse o seguinte ao se lembrar do verão de 1945: “Depois de os irmãos serem julgados, foram enviados a vários campos de trabalhos forçados. Muitos prisioneiros demonstraram interesse pela verdade no campo em que eu estava. Um deles, um clérigo, compreendeu rapidamente que aquilo que ele tinha ouvido era a verdade, e tomou sua posição a favor de Jeová.

      “Apesar disso, as condições ali eram difíceis. Certa vez, fui preso numa cela tão pequena que mal cabia alguém em pé. Era chamada de casa dos insetos, pois era infestada de percevejos — eram tantos, que provavelmente podiam sugar todo o sangue de um ser humano. Parado em frente à cela, o capataz me disse: ‘O seu Jeová não vai tirar você daqui.’ Minha ração diária consistia em 300 gramas de pão e uma xícara de água. A cela não era ventilada. Por isso, eu me apoiava na pequena porta e tomava fôlego por uma fresta muito estreita. Eu sentia os percevejos sugarem meu sangue. Durante os dez dias que passei na casa dos insetos, pedi repetidas vezes que Jeová me desse forças para perseverar. (Jer. 15:15) Quando abriram as portas, eu desmaiei, e ao acordar, já estava em outra cela.

      “Depois disso, o tribunal do campo de trabalhos forçados me sentenciou a dez anos na prisão de segurança máxima num campo penal, acusado de ‘promover agitação e de fazer propaganda contra o governo soviético’. Era impossível enviar ou receber correspondências nesse campo. Os prisioneiros ali em geral eram aqueles condenados por crimes violentos, como assassinato. Disseram que se eu não renunciasse à minha fé, aquelas pessoas fariam comigo qualquer coisa que se lhes pedissem. Eu pesava apenas 36 quilos e mal conseguia andar. Mas, mesmo naquele lugar, consegui encontrar pessoas sinceras cujo coração estava disposto para com a verdade.

      “Certa vez, um homem idoso se aproximou de mim enquanto eu orava deitado sob arbustos. Ele perguntou: ‘O que você fez para vir parar neste inferno?’ Depois de ouvir que eu era Testemunha de Jeová, ele sentou, me abraçou e me deu um beijo. Então ele disse: ‘Filho, já faz tanto tempo que quero aprender a respeito da Bíblia! Você me ensinaria?’ Fiquei muito feliz. Eu tinha costurado uns pedaços velhos dos Evangelhos em minha roupa esfarrapada e os mostrei imediatamente. Os olhos dele encheram de lágrimas. Conversamos por muito tempo naquela noite. Ele disse que trabalhava no refeitório do campo e que ia providenciar comida para mim. Assim, nos tornamos amigos. Ele progrediu em sentido espiritual e eu adquiri forças. Eu tinha certeza de que Jeová tinha providenciado aquilo. Poucos meses depois, ele foi libertado e eu fui enviado a outro campo na província de Gorki.

      “Lá as condições eram muito melhores. Mas, acima de tudo, eu estava feliz por dirigir estudos bíblicos para quatro prisioneiros. Em 1952, os capatazes do campo nos encontraram com publicações. Durante o interrogatório realizado antes do julgamento, fui trancado dentro de uma caixa hermeticamente fechada. Quando eu começava a ficar sufocado, eles abriam a caixa para que eu pudesse tomar fôlego, e depois fechavam de novo. Eles queriam que eu renunciasse à minha fé. Fomos todos condenados. Na leitura das sentenças, nenhum dos meus estudantes ficou desesperado. Fiquei muito feliz por causa disso. Os quatro foram sentenciados a 25 anos nos campos e eu recebi uma sentença mais dura, que depois foi mudada para 25 anos num campo de segurança máxima e 10 anos de exílio. Depois de sairmos da sala, paramos para agradecer a Jeová o Seu apoio. Os guardas ficaram pasmados e se perguntavam por que estávamos felizes. Fomos separados e enviados a campos diferentes. Fui enviado a um campo de segurança máxima em Vorkuta.”

      SALVOS POR MANTER A NEUTRALIDADE CRISTÃ

      A vida nos campos de trabalhos forçados era cruel. Muitos prisioneiros que não eram Testemunhas de Jeová cometeram suicídio. Ivan Krylov se lembra: “Depois que fui libertado do campo de segurança máxima, visitei várias minas de carvão onde nossos irmãos realizavam trabalhos forçados. Contatei esses irmãos, e qualquer um que tivesse conseguido copiar à mão algumas de nossas revistas passava as cópias para outros. As Testemunhas de Jeová pregavam em todos os campos, e muitas pessoas demonstraram interesse. Depois de serem libertados, alguns desses interessados foram batizados no rio Vorkuta.

      “Sempre nos deparávamos com testes de nossa fé em Jeová e no seu Reino. Certa vez, em 1948, alguns prisioneiros de um campo em Vorkuta organizaram uma rebelião. Os rebeldes disseram aos outros prisioneiros que a rebelião teria melhores resultados se todos se organizassem em grupos, como por nacionalidade ou religião. Naquela ocasião, havia 15 Testemunhas de Jeová no campo. Dissemos aos rebeldes que nós, Testemunhas de Jeová, éramos cristãos e que não podíamos nos envolver nisso. Explicamos que os primeiros cristãos não participaram nas rebeliões contra os romanos. É claro que isso pegou muitos de surpresa, mas permanecemos firmes.”

      A rebelião teve conseqüências trágicas. Soldados armados venceram a resistência e levaram os rebeldes para outro alojamento. Encharcaram o lugar de gasolina e atearam fogo. Praticamente todos ali morreram. Os soldados nada fizeram contra os irmãos.

      “Em dezembro de 1948, conheci num campo oito irmãos que tinham sido sentenciados a 25 anos de prisão”, continua Ivan. “O frio daquele inverno foi intenso e o trabalho nas minas era pesado. Mesmo assim, a confiança e a forte esperança nos olhos daqueles irmãos eram inconfundíveis. A atitude positiva deles fortalecia até os prisioneiros que não eram Testemunhas de Jeová.”

      DEPORTADOS PARA A SIBÉRIA

      Apesar da dura oposição, as Testemunhas de Jeová continuaram a pregar zelosamente as boas novas do Reino de Jeová. Isso irritou o governo central em Moscou. Irritou em especial a KGB. Um memorando de 19 de fevereiro de 1951, da KGB para Stalin, dizia: “A fim de suprimir qualquer atividade anti-soviética dos ilegais jeovistas, o MGB [Ministério da Segurança Nacional, mais tarde KGB] da URSS acredita que é necessário deportar os jeovistas que forem identificados, bem como suas famílias, para as províncias de Irkutsk e de Tomsk.” A KGB sabia quem era Testemunha de Jeová e solicitou a Stalin permissão para exilar na Sibéria 8.576 pessoas de seis repúblicas da União Soviética. A permissão foi concedida.

      Magdalina Beloshitskaya se lembra: “Às duas da manhã no domingo, 8 de abril de 1951, fomos acordados com uma forte pancada na porta. Minha mãe levantou rápido e correu até a porta. Diante de nós estava um policial. ‘Vocês serão deportados para a Sibéria por acreditarem em Deus’, disse ele formalmente. ‘Têm duas horas para fazer as malas. Podem levar qualquer coisa que estiver no quarto. Mas grãos, farinha e cereais não são permitidos. Móveis, objetos de madeira e máquinas de costura também não podem ser levados. Não levem nada do que há no quintal. Peguem suas roupas, roupas de cama, sacolas e saiam.’

      “Antes disso acontecer, tínhamos lido nas publicações que havia muito trabalho a ser feito no leste do país. Compreendemos que era hora de realizar esse trabalho.

      “Não lamentamos nem choramos. O policial ficou surpreso e disse: ‘Vocês não derramaram nem uma única lágrima.’ Dissemos a ele que esperávamos por isso desde 1948. Pedimos permissão para levar pelo menos uma galinha viva para a viagem, mas ele negou. Os policiais dividiram entre si os animais que criávamos. Distribuíram as galinhas bem na nossa frente — um deles ficou com cinco, outro com seis e ainda outro com três ou quatro. Quando restavam apenas duas galinhas no galinheiro, o policial ordenou que elas fossem mortas e entregues a nós.

      “Minha filha de 8 meses estava deitada num berço de madeira. Perguntamos se podíamos levar o berço, mas o policial ordenou que ele fosse desmontado e nos entregou apenas a parte que acomodava o bebê.

      “Nossos vizinhos logo ficaram sabendo que estávamos sendo deportados. Um deles pegou um pequeno saco com torradas e lançou dentro da carroça em que estávamos. O soldado que nos escoltava viu isso e jogou o saco para fora. Éramos seis pessoas — eu, minha mãe, meus dois irmãos, meu marido e nossa filha de 8 meses. Fora do povoado, ficaram nos apressando para entrarmos num carro e fomos levados ao centro regional, onde nossos documentos foram preenchidos. Depois, fomos de caminhão até a estação de trem.

      “Era um belo domingo ensolarado. A estação estava cheia — havia pessoas sendo exiladas e pessoas que vinham apenas para ver o que estava acontecendo. Nosso caminhão parou bem ao lado de um vagão onde nossos irmãos já estavam. Quando o trem ficou cheio, os soldados conferiram pelos sobrenomes se todos estavam ali. Havia 52 pessoas em nosso vagão. Antes de o trem partir, os que estavam do lado de fora nos observando começaram a chorar e até mesmo a soluçar. Ficamos impressionados com aquilo, visto que nem conhecíamos algumas daquelas pessoas. Mas elas sabiam que nós éramos Testemunhas de Jeová e que estávamos sendo deportados para a Sibéria. A locomotiva a vapor deu um forte apito. Nossos irmãos começaram a cantar uma música em ucraniano: ‘Que o amor de Cristo esteja com vocês. Dando glória a Jesus Cristo, nos encontraremos novamente em seu Reino.’ A maioria de nós tinha muita fé e confiança em que Jeová não nos abandonaria. Cantamos muitas estrofes. Foi tão emocionante que alguns dos soldados começaram a chorar. Então, o trem seguiu seu caminho.”

      “CONTRÁRIO AO ESPERADO”

      O Dr. Nicolai S. Gordienko, professor na Universidade Herzen, em São Petersburgo, descreveu em seu livro o que os perseguidores conseguiram realizar: “O resultado foi exatamente contrário ao esperado; eles queriam enfraquecer a organização das Testemunhas de Jeová na URSS, mas, na verdade, apenas a fortaleceram. Em lugares onde ninguém tinha ouvido falar a respeito de sua religião, as Testemunhas de Jeová ‘contaminaram’ os habitantes locais com sua fé e lealdade.”

      Muitas Testemunhas de Jeová logo se adaptaram à sua nova situação. Pequenas congregações foram formadas e territórios, designados. Nikolai Kalibaba diz: “Na Sibéria, houve época em que pregávamos de casa em casa ou, para ser mais exato, a cada duas ou três casas. Mas isso era arriscado. Como fazíamos isso? Depois da primeira visita, tentávamos revisitar a pessoa dentro de um mês. Começávamos a conversa perguntando: ‘Vocês estão vendendo galinhas, cabras ou vacas?’ Aos poucos, direcionávamos a conversa para o Reino. Depois de um tempo, a KGB ficou sabendo disso e logo publicou um artigo no jornal, alertando a população contra falar com as Testemunhas de Jeová. O artigo dizia que as Testemunhas de Jeová iam de casa em casa pedindo cabras, vacas e galinhas — mas o que realmente queríamos era ovelhas!”

      Gavriil Livi relata: “Os irmãos tentavam participar no ministério, apesar de serem vigiados de perto pela KGB. A atitude do povo soviético era tal que se eles suspeitassem que alguém estivesse tentando falar sobre religião, imediatamente chamavam a polícia. Apesar disso, continuamos a pregar mesmo sem nenhum resultado aparente no começo. Mas com o tempo a verdade passou a mudar a vida de algumas pessoas da região. Uma dessas pessoas era um russo que bebia muito. Depois de aprender a verdade, ele harmonizou sua vida com os princípios bíblicos e se tornou uma Testemunha de Jeová ativa. Mais tarde, um agente da KGB o chamou e disse: ‘Com quem você está perdendo seu tempo? Essas Testemunhas de Jeová são todas ucranianas.’

      “O irmão respondeu: ‘Quando eu era alcoólatra e ficava jogado na sarjeta, você nem se importava comigo. Agora que me tornei uma pessoa normal e um cidadão responsável, você não está satisfeito. Muitos ucranianos estão indo embora da Sibéria, mas deixando para trás siberianos que Deus tem ensinado a viver.’”

      Poucos anos depois, um funcionário do governo de Irkutsk escreveu para Moscou: “Vários trabalhadores locais disseram que todas essas [Testemunhas de Jeová] deveriam ser enviadas a algum lugar no norte para que perdessem todo o contato com a população e fossem reeducadas.” Nem a Sibéria nem Moscou sabiam o que fazer para silenciar as Testemunhas de Jeová.

      “NÓS TERÍAMOS MATADO A TODOS VOCÊS”

      No início de 1957, as autoridades organizaram uma nova campanha contra as Testemunhas de Jeová. Os irmãos eram seguidos e as casas vasculhadas. Viktor Gutshmidt se lembra: “Certa vez, quando cheguei em casa depois do ministério, tudo estava de cabeça para baixo. A KGB estava procurando publicações. Eles me prenderam e me interrogaram durante dois meses. Yulia, nossa filha mais nova, tinha 11 meses, e nossa filha mais velha, 2 anos.

      “Na investigação, o inspetor me perguntou: ‘Você não é alemão?’ Para muitos naquela época, a palavra ‘alemão’ era sinônimo de ‘fascista’. Os alemães eram odiados.

      “‘Não sou nacionalista’, disse eu, ‘mas se você estiver se referindo aos alemães que ficaram presos nos campos de concentração nazistas, nesse caso, tenho orgulho daqueles alemães! Eles eram chamados Bibelforscher, e agora são conhecidos como Testemunhas de Jeová. Eu me orgulho de que nenhuma Testemunha de Jeová tenha disparado uma bala de uma arma ou atirado uma bomba de um canhão. Desses alemães, eu me orgulho!’

      “O inspetor ficou em silêncio, e eu continuei: ‘Tenho certeza de que nem uma única Testemunha de Jeová participou em qualquer rebelião ou motim. Mesmo quando suas atividades estão proscritas, elas persistem em adorar a Deus. Ao mesmo tempo, reconhecem as autoridades e as obedecem desde que suas leis não violem as leis superiores de nosso Criador.’

      “Inesperadamente, o inspetor me interrompeu e disse: ‘Nunca estudamos um grupo tão de perto como estudamos as Testemunhas de Jeová e suas atividades. Se houvesse qualquer coisa contra vocês nos registros, mesmo que tivessem derramado só uma gota de sangue, nós teríamos matado a todos vocês.’

      “Daí, pensei: ‘Nossos irmãos servem a Jeová em todo o mundo com coragem, e o exemplo deles salvou nossa vida na União Soviética. Pode ser que o serviço que prestamos a Deus aqui de alguma forma ajude nossos irmãos em outros lugares.’ Pensar dessa maneira me deu mais forças para seguir de perto os caminhos de Jeová.”

      TESTEMUNHAS DE JEOVÁ EM MAIS DE 50 CAMPOS

      A posição neutra e o ministério zeloso das Testemunhas de Jeová na União Soviética continuaram a irritar o governo. (Mar. 13:10; João 17:16) Com freqüência, a posição de nossos irmãos resultava em longas e injustas sentenças de prisão.

      Em 199 congressos realizados em todo o mundo, de junho de 1956 a fevereiro de 1957, 462.936 pessoas adotaram uma resolução, da qual foram enviadas cópias ao Conselho de Ministros da União Soviética em Moscou. Entre outras coisas, a resolução dizia: “Há Testemunhas de Jeová presas em mais de 50 campos, desde a parte européia da Rússia até a Sibéria, e em direção ao norte até o oceano Ártico, até mesmo na ilha de Novaya Zemlya . . . Nos Estados Unidos e em outros países do Ocidente, as Testemunhas de Jeová são chamadas de comunistas. Em países comunistas, são chamadas de imperialistas . . . Governos comunistas acusam-nas de serem ‘espiãs imperialistas’ e sentenciam-nas a até 20 anos de prisão. Mas elas nunca se empenharam em qualquer atividade subversiva.” Infelizmente, a resolução não melhorou muito a situação das Testemunhas de Jeová na União Soviética.

      As famílias de Testemunhas de Jeová na Rússia tinham muita dificuldade para criar seus filhos. Vladimir Sosnin, de Moscou, que criou três filhos naquela época, diz: “Freqüentar uma escola soviética era obrigatório. Professores e outros alunos pressionavam nossos filhos a fazer parte de organizações de crianças que eram orientadas de acordo com a ideologia comunista. Queríamos que nossos filhos recebessem a educação necessária e os ajudávamos com os estudos. Não era fácil cultivar amor a Jeová no coração dos filhos. As escolas estavam cheias de idéias que promoviam o socialismo e o comunismo. Cabia aos pais ter paciência e perseverança fora do comum.”

      ACUSADOS DE ARRANCAR A ORELHA DA FILHA

      Semyon e Daria Kostylyev criaram três filhos na Sibéria. Semyon conta: “Naquela época, as Testemunhas de Jeová eram consideradas fanáticas. Em 1961, Alla, nossa segunda filha, entrou na primeira série. Certo dia, enquanto ela brincava com outras crianças, uma delas sem querer machucou a orelha de nossa filha. No dia seguinte, quando a professora perguntou o que tinha acontecido, Alla permaneceu em silêncio, pois não queria entregar sua colega. A professora sabia que éramos Testemunhas de Jeová e concluiu que batíamos em Alla a fim de forçá-la a viver segundo os princípios da Bíblia. A escola relatou o assunto à promotoria pública. A empresa em que eu trabalhava também ficou envolvida no caso. As investigações se estenderam por cerca de um ano, até que por fim recebi uma intimação para comparecer a uma audiência no tribunal em outubro de 1962.

      “Nas duas semanas que antecederam ao julgamento, o prédio do Palácio da Cultura expôs uma faixa com as palavras: ‘Julgamento da perigosa seita dos jeovistas está para começar’. Minha esposa e eu fomos acusados de criar nossos filhos de acordo com a Bíblia e de sermos cruéis. O tribunal nos acusou de forçar nossa filha a orar e de termos arrancado sua orelha com a extremidade de um balde. A única pessoa que poderia depor sobre isso era Alla, mas ela tinha sido levada para um orfanato em Kirensk, uns 700 quilômetros ao norte de Irkutsk, onde morávamos.

      “O local estava cheio de jovens ativistas. Quando o tribunal fez um recesso para tomar a decisão, a multidão começou a causar tumulto. Fomos insultados, e alguém queria que tirássemos nossas roupas ‘soviéticas’. Todos gritavam, dizendo que deveríamos ser mortos, e teve até um que queria que nos matassem ali mesmo. A multidão foi ficando cada vez mais enfurecida e mesmo assim os juízes não apareciam. Eles levaram uma hora para chegar à decisão. Quando a multidão avançou em nossa direção, uma irmã e seu marido descrente ficaram de pé entre nós e as pessoas, implorando que não nos machucassem. Na tentativa de explicar que todas as acusações contra nós eram falsas, eles literalmente nos arrancaram das mãos daquelas pessoas.

      “Por fim, os juízes apareceram com os assistentes do tribunal popular e leram nossa sentença: perda da guarda de nossos filhos. Fui mantido sob vigilância e enviado a um campo corretivo de trabalhos forçados por dois anos. Nossa filha mais velha também foi levada para um orfanato depois de lhe terem dito que seus pais eram membros de uma seita perigosa e uma péssima influência sobre sua criação.

      “Nosso filho ficou com Daria, visto que ele tinha apenas 3 anos. Depois de cumprir a sentença, voltei para casa. Como antes, só podíamos dar testemunho informal.”

      “FICAMOS ORGULHOSOS DE NOSSOS FILHOS”

      “Alla saiu do orfanato quando completou 13 anos e voltou a morar conosco. Ficamos muito felizes quando ela se dedicou a Jeová e foi batizada, em 1969. Nessa época, palestras sobre religião foram realizadas no Palácio da Cultura em nossa cidade. Decidimos ir até lá para ver o que tinham a dizer agora. Como sempre, o grupo a respeito de que mais se falava era as Testemunhas de Jeová. Um dos palestrantes pegou um número de A Sentinela e disse: ‘Esta é uma revista perigosa e prejudicial e está minando a união de nosso Estado.’ Daí, ele deu um exemplo: ‘Os membros dessa seita forçam seus filhos a ler tais revistas e a fazer orações. Numa família, uma garotinha não quis ler a revista e por isso o pai arrancou-lhe a orelha.’ Alla ficou surpresa, pois estava lá sentada, ouvindo a palestra com as duas orelhas intactas. Ela não disse nada, pois tinha medo de perder os pais mais uma vez.

      “Quando Boris, nosso filho, completou 13 anos, ele se dedicou a Jeová e foi batizado. Certa vez, ele estava dando testemunho na rua com outras Testemunhas de Jeová da mesma idade, apesar de nossas atividades naquela época ainda estarem sob proscrição. Eles não estavam com a Bíblia nem publicações bíblicas. De repente, um carro parou e levou todos os garotos para o quartel do exército. Depois de interrogá-los e revistá-los, os soldados não encontraram nada, a não ser alguns textos bíblicos anotados num papel. Os garotos puderam voltar para casa. Quando chegou em casa, Boris nos contou todo orgulhoso como ele e os outros garotos tinham sido perseguidos por causa do nome de Jeová. Ficamos orgulhosos de nossos filhos, visto que Jeová os apoiou durante provações. Depois disso, Daria e eu fomos intimados várias vezes pela KGB. Um policial nos disse: ‘Essas crianças deveriam ser enviadas a uma colônia penal para jovens. É uma pena que ainda não tenham 14 anos.’ Fomos multados pelas atividades de pregação de nosso filho.

  • Rússia
    Anuário das Testemunhas de Jeová de 2008
    • [Quadro nas páginas 92, 93]

      Uma batalha pelo coração e pela mente

      O governo soviético não procurou exterminar as Testemunhas de Jeová. Seu objetivo era convertê-las à ideologia soviética por meio de persuasão e força. Para isso, o governo usou a KGB — organização de segurança interna e de inteligência do governo. Seguem alguns dos métodos que a KGB utilizava:

      Buscas: Eram feitas nos lares das Testemunhas de Jeová, até mesmo à noite. Constantes buscas levaram algumas famílias a mudar de residência.

      Vigilância: Incluía escutas telefônicas, interceptação de correspondência e instalação de aparelhos de escuta na casa dos irmãos.

      Multas e interrupção de reuniões: Em todo o país, as autoridades rastreavam os locais onde as reuniões eram realizadas e multavam todos na assistência. Com freqüência, a multa correspondia à metade de um salário médio mensal, ou mais.

      Suborno e chantagem: Em troca de cooperação, a KGB prometia carros e apartamentos no centro de Moscou a algumas Testemunhas de Jeová. Em muitos casos, ameaçavam-se os irmãos dizendo que seriam sentenciados a muitos anos em campos de trabalhos forçados caso se recusassem a cooperar.

      Propaganda enganosa: Filmes, jornais e programas de televisão retratavam as Testemunhas de Jeová como um perigo para a sociedade. Realizavam-se palestras em prisões e em campos de trabalhos forçados para denunciar os irmãos por supostamente usarem a Bíblia como pretexto para campanhas políticas. Isso resultou em discriminação: professores davam notas baixas aos alunos Testemunhas de Jeová e empregadores negavam aos nossos irmãos benefícios trabalhistas e férias aos quais tinham direito.

      Infiltração: Agentes da KGB, fingindo ter interesse na mensagem do Reino, estudavam a Bíblia e eram batizados. Alguns chegaram a ocupar cargos de responsabilidade na organização. Seu objetivo era parar a obra de pregação por criar desconfiança e divisões entre as Testemunhas de Jeová.

      Exílio: Testemunhas de Jeová eram enviadas a regiões remotas do país. Nesses lugares, tinham de conseguir o sustento com muita dificuldade, fazendo trabalho braçal pesado 12 horas por dia. No inverno, tinham de lidar com o frio intenso e no verão, com mosquitos e moscões.

      Confisco e separação: Propriedades, casas e outros bens eram confiscados. Às vezes, filhos eram separados de seus pais Testemunhas de Jeová.

      Ridicularização e espancamento: Muitas Testemunhas de Jeová, incluindo mulheres, eram insultadas e ridicularizadas. Alguns irmãos e irmãs foram espancados com extrema crueldade.

      Prisões: Tinham por objetivo forçar as Testemunhas de Jeová a renunciar à sua fé ou separá-las de seus irmãos.

      Campos de trabalhos forçados: As Testemunhas de Jeová ficavam à beira da completa exaustão física nesses campos. Com freqüência, os irmãos tinham de remover do solo tocos de enormes árvores. Também trabalhavam em minas de carvão e construíam estradas e ferrovias. Separados de suas famílias, os trabalhadores desses campos moravam em alojamentos.

  • Rússia
    Anuário das Testemunhas de Jeová de 2008
    • Em 1942, o exército alemão avançou e as forças soviéticas se retiraram da região em que eu morava. Era uma época de anarquia. Nacionalistas ucranianos insistiram para que eu me juntasse a eles e lutasse contra os alemães e os soviéticos. Ao me recusar a fazer isso, eles me espancaram até eu perder os sentidos e depois me jogaram na rua. Naquela mesma noite, fui levado para um lugar de execução em massa. Ali, eles me perguntaram novamente se eu serviria ao povo ucraniano. Respondi com voz alta e firme: “Servirei apenas a Jeová Deus!” Então, fui sentenciado à morte. Quando um dos soldados ordenou que atirassem em mim, outro agarrou a arma e gritou: “Não atire! Ele ainda pode ser útil.” Enfurecido, um homem começou a me bater e prometeu que dentro de uma semana ele mesmo atiraria em mim. Poucos dias depois, ele foi morto.

      Em março de 1944, o exército soviético retornou à nossa região e os soldados levaram embora todos os homens, inclusive eu. Dessa vez, era o exército soviético que precisava de combatentes. Quando reuniram todos os homens, encontrei Kornei, o irmão que tinha dado testemunho a mim. Havia outras 70 Testemunhas de Jeová ali e todos nós conseguimos ficar separados dos outros homens e nos encorajamos mutuamente. Um soldado se aproximou e perguntou por que não estávamos juntos dos outros. Kornei explicou que éramos cristãos e que não podíamos pegar em armas. Os soldados levaram-no imediatamente dali e nos disseram que atirariam nele. Nunca mais o vimos. Eles começaram a nos fazer ameaças, dizendo que atirariam em nós assim como fizeram com Kornei. Perguntaram a cada um de nós se nos juntaríamos ao exército. Quando recusei, três soldados e um oficial me levaram para a floresta. O comandante leu a sentença do tribunal militar: “Condenado à execução por pelotão de fuzilamento por se recusar a vestir um uniforme e a pegar em armas.” Orei fervorosamente a Jeová e então comecei a me perguntar se ele me aceitaria como seu servo, visto que eu ainda não tinha sido batizado. De repente, escutei: “Atirem no inimigo!” Mas os soldados atiraram para o ar. O oficial começou a me bater. Fui sentenciado a dez anos de prisão e acabei num campo de trabalhos forçados na província de Gorki, região central da Rússia.

      Fui solto em 1956 e mais tarde me casei com Regina, uma fiel Testemunha de Jeová. Tínhamos seis meses de casados quando fui repentinamente preso e sentenciado a dez anos de prisão.

      Quando finalmente fui libertado, uma autoridade me disse: “Não há lugar para você na União Soviética.” Ele estava errado. Como é bom saber que a Terra pertence a Jeová e que cabe a ele decidir quem viverá para sempre sobre ela! — Sal. 37:18.

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